domingo, 8 de setembro de 2013

A cobrança

A retomada da escrita se dá pelos caminhos tortuosos da vivência. Da dor. Do sofrimento diário da folha em branco. Porém, de pouco a pouco, vamos os dois, os três – todos nós – sobrevivendo e buscando secar as lágrimas. Retirar dos lábios o gosto de soro, o rosto queimado e vermelho por tanto chorar.
Como uma enxurrada, levando tudo: as casas, as árvores, os balanços e os escorregos – tudo. Assim surge a escrita. Ao som de uma canção, de um suspiro, do vento.
Não nos resta muito tempo. Viver é preciso, pois o fim já sabemos. Todos nós já sabemos. Então o que fica é a vida que levamos, os laçamos que fizemos ou rompemos. O peso das bagagens. Aquelas empoeiradas sobre o guarda-roupa. Aquelas extraviadas no caminho.
Mas, a gente guarda um sorriso. Nem que seja um sorriso de adeus.

E a escrita é retomada e preenche o dia, a noite, o dia e a noite. Alicerça as lembranças, recupera o futuro. Ela, a escrita. Que te toma de assalto os sentimentos, que te ajuda a abafar os sentimentos. Esmagar o ódio, o rancor, o ócio, a dor. Ela. Escrita. Em letra de forma. Redonda. Redonda como criança rechonchuda. Dura, leve. Leva e traz o bafo quente das manhãs de sol. Sim, ela retorna. Sempre vem cobrar o devido. A ausência, o grito. Ela te cobra. Pois para a escrita não deve haver esquecidos. Somente omitidos.

terça-feira, 19 de março de 2013

A canção do ontem

Se me perguntam como vou, eu sempre respondo que vou bem. Afinal, é sempre bom ir a algum lugar. Dia desses, lavando a louça me dei conta de necessitar de uma boa solidão e bom solitário, para ser feliz, necessita estar ao lado de quem entende isso. Tenho sorte, muita sorte. Nos meus rompantes de humor ou no sorriso amarelado, estou sempre fugindo do que abomino: a tristeza.
Não vejo muita opção a não ser conversar comigo mesmo no meu apartamento, pois, tem dias, que até o céu azul me atormenta.
Por isso, se me perguntam como vou, eu sempre respondo que vou bem e a pé, para demorar um pouco mais.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Paixão e futebol

Dos meus pais herdei um senso crítico sobre trabalho que carrego todos os dias comigo, quando converso com um aluno, quando entro em sala de aula, quando inicio uma pesquisa . Dos dois, dos dois mesmo, herdei também uma paixão controlável pelo Fluminense. Não brigo, não xingo ninguém, mas sofro, sofro profundamente. Essa coisa de sofrer herdei do meu pai. O mesmo jeito de torcer e bater no braço do sofá da sala, de sentar-se na beira e colocar as mãos na cabeça! Minha mãe é mais contida, pergunta quanto está o jogo, e de vez em quando solta um “ih...”.
Ontem, dia 20 de abril de 2011, eu estava na minha sala, meu pai, com certeza na sua. Separados por, aproximadamente, 1.800 km, estávamos unidos pela paixão por um escudo, por uma camisa, por um clube. E que jogo pude ver ontem pela TV! E como sofri.
Argentinos Juniors e Fluminense foi uma dessas partidas épicas que deveriam ser registradas no imaginário do coletivo dos adoradores do futebol – sem preconceitos. Como foi é célebre virada, que me orgulho de ter assistido na mesma sala em que meu pai viu ontem o jogo histórico do nosso time, do Vasco sobre o Palmeiras em 2000.
A Antropologia, a Sociologia, a História, a Psicologia... todas tentam explicar essa paixão ardente que nos faz prometer, jurar a deuses desconhecidos se a vitória nos for dada! Que nunca fez isso?
Curioso como me fez falta estar com meu pai, alguém que me acompanhou nas derrotas e vitórias tricolores. Como a fatídica disputa de pênaltis na semifinal contra o Boavista esse ano – último jogo que assisti no Rio antes de voltar das férias e estávamos lá, os dois, sentados com suas camisas, belas camisas tricolores! Voltamos derrotados, mas vitoriosos na relação pai e filho! Minha mãe, como sempre, riu e soltou seu “Ih...”.
Uma coisa curiosa, apesar de um agnóstico teísta convicto, é uma possível analogia entre o Fluminense e um sentimento de sofrimento, culpa até, herança de um cristianismo católico de penitência, de sofrer até o último momento para conseguir a redenção! Nessa semana santa, acho que a vitória tricolor e a classificação (cuja chance era de 8% apenas) foi mais que um milagre, foi, sinceramente, o sobrenatural de Almeida!
Definitivamente, o futebol, assim como a vida é, realmente, uma caixinha de surpresas