ventríloquo
[Do lat. tard. ventriloquu.]
Adjetivo.
Substantivo masculino.
1.Diz-se de, ou aquele que sabe falar sem abrir a boca e mudando de tal modo a voz que esta parece sair de outra fonte que não ele.
E assim são os textos. Ao menos os que escrevo.
Eles têm várias vozes. Minhas várias vozes. Em tempo. Tempos nublados ou com sóis. Não há muito o que dizer sobre mim. O resto está aí. Várias vozes sem mover meus lábios. O ventríloquo.
Há
tempos ele escreveu um poema, desses despretensiosos de quem acha que é poeta e
no fundo é mesmo, porque todo mundo é poeta, treinador de time de futebol e conhecedor
de doença. Na mesa de um bar, dos poucos bares em que eu ainda o via, nem
bebendo, nem falando, só, ele só lá no canto com a mesma cara pro nada, ele me
viu. Ele viu que eu o via. E o vi sorri de canto de boca um sorriso que há
tempos eu também não o via dar.
Não
era de declamar poemas, acho que no fundo era timidez ou não gostava mesmo. Só
uma vez que me lembro dele se expondo, declamando no Castelinho do Flamengo num
sarau, acho que num sábado primaveril, bonito até, mas pelo bem da verdade do
que digo aqui, nem poema era, estava mais para versos em prosa ou uma prosa poética,
sei lá. Mas nesse dia eu vi com esses olhos já meio embaçados pela idade.
Nesse
dia do bar, do sorriso que andava já há muito tempo escasso, ele declamou, mas
veio em minha direção, eu também estava só, mas não por necessidade como ele,
eu estava pela ocasião. Cumprimentou-me com o jeito de sempre – o que não
mudava – um sorriso largo, cheio de dentes, uns dentes brancos, meio pra frente.
Era um sorriso que você dava sua mão direita em defender que ali estava um
homem feliz. A famosa frase do poeta Maiakóvski – “Dizem, que em algum lugar,
parece que no Brasil, existe um homem feliz” – seria a mais pura verdade, eu
diria com firmeza que o russo o viu antes de partir dessa para o não sei o que!
Mas
era só o sorriso. Uma dessas máscaras que a gente mal decifra, como aqueles
quadros que de longe dão um entender e de perto são borrões. Acho que ele era
isso, ou pelo menos o seu sorriso, sorrindo, fosse de longe ou de perto,
formava uma paisagem ampla de um lago, de crianças felizes, de esperança, mas quando
se olhava com atenção, com calma, tempo – tudo que não havia a ninguém – seria
possível perceber que aquele sorriso era uma grande mancha de vários pigmentos
entre angústia, dor interna, confusão, silêncio.
Mas
veio até mim. Na mão esquerda uma folha de papel de caderno de escola, um poema
manuscrito com esferográfica azul. Amenidades e eu curioso para ler ou ouvir o
poema – ele percebeu.
Ofereci
um trago da cerveja, ameacei pedir um copo, disse que não, era coisa rápida, era
madrugada e já estava na sua hora, disse com voz rouca, decidida, porém, sem
raiva ou coisa do tipo. Uma voz meio sensação de bala de tamarindo. Você me
entende? Alguma vez chupou bala de tamarindo? Saberia a sensação da metáfora.
Parecia que as palavras estavam contadas, como
o tempo da gente é contado em segundos, minutos, horas, dias, semanas e anos. Explicou
que era um poema antigo, de 2010, escrito numa madrugada, que andou mexendo nas
caixas velhas, na papelada amarelada e que encontrou. Revirou o computador,
procurou pastas, em contas de e-mail e não encontrou digitado no editor de
texto, queria um favor.
Não
entendi direito naquele momento. Mas, aceitei digitar o poema e disse sorrindo
depois de sorver o gole da cerveja sobre a mesa que naquele mesmo dia, mais
tarde, depois do almoço, eu o entregaria de volta o manuscrito. Não disse nada além
de obrigado, apertou firme minha mão, numa firmeza tão contundente que meus
dedos molhados pelo suor do copo quase se transformaram na sua. Levantou-se,
olhou para trás e deu o mesmo sorriso aberto. Pensei: tudo vai bem, ele está
estável nessa montanha russa em que o mundo vive já faz uns anos.
Não
entendi direito naquele momento, não me culpo. Ninguém pode prever.
Só
encontraram seu corpo, putrefato – coisa triste – uma semana depois de se
encher de tudo que é porcaria até não acordar mais. Fico pensando se já não
fazia tempos que ele não caminhava entre nós. Mas se não entendi antes, não
será agora que entenderei. Segue o poema, exatamente como no manuscrito
entregue naquele ano de 2022, um poema de doze anos atrás:
Quanto
tempo faz eu não sei. Falar sozinho – para todo mundo é coisa de louco. Mas
quanto tempo faz, eu não sei.
Sei
pouco do que vem antes.
Filho
de uma branca com um negro. Seu pai certamente foi filho de ex-escravos, tenho quase
certeza, hei de pesquisar.
Altamiro
Gonçalves nasceu na região de Vassouras, meu avô Timimo. Meu vovô Tamiro.
Não sei bem quando migraram à Nova Iguaçu, também não me importa muito. Só sei que
ontem sonhei com o velho Timimo, sapateiro que em sua pequena oficina no fundo
de uma casa de vila, na Estrada da Água Branca, em Realengo, eu crescia nos
recessos escolares para o carnaval carioca vendo-o produzir com as mãos, botas,
sapatos dos mais diversos para passistas que desfilariam pela Mocidade
Independente de Padre Miguel. No decorrer do ano, sobretudo, julho, “descia” de
trem com meus pais para visitá-lo e passar bons finais de semana tendo sua mão na
minha, correndo feiras de passarinho aos domingos e sendo apresentado como seu
neto nos mais diversos botequins da região, mas principalmente no Vila, onde
comi pela primeira vez ovo rosa e bebi malzibier. Ainda hoje, se sorvo um copo
de malzibier, sinto meu avô, sinto o cheiro da cola de sapateiro, o vejo envergado
com seus cabelos lisos e negros, seus óculos com uma corda preta, seu martelinho
e tachinhas batendo em formas de sapatos. Pés de madeira que eu olhava com um
olhar curioso. Mas nunca cheguei muito perto da oficina: “o menino tem a saúde
frágil, o cheiro de cola faz mal”. Como se o cheiro de cola não impregnasse
toda a casa numa mistura do cheiro de feijão preto bem feito de minha avó.
Vi
meu avô com curiós, conversando com outros donos de curiós nas feiras. Vi meu
avô jogando sinuca, magro, ossudo, olhar sofrido, mas com um riso que ontem me
visitou em sonho. Um riso meia boca de quem até quer ser feliz quando via que
tinha feito uma jogada bonita na mesa, mas que sabia que a vida lhe foi sofrida
e continuava a ser.
Contava
histórias. Visitava bastante a casa da minha mãe e do meu pai no morro da Chalet.
Morro, dos muitos lugares onde viveu, em que ele mesmo morou com minha mãe,
tias, tios, minha avó, muito tempo antes da minha memória. Quando mamãe
conheceu papai. Muito antes de todos vocês e de mim.
Visitava
muito. Sentava-se no sofá, tinha o hábito de colocar uma das mãos na testa como
um pensador em sofrimento, cruzar as pernas num requinte das antigas. Quando
morreu, minha mãe o via em mim, no cruzar de pernas ao almoçar no braço do sofá
da sala – nunca gostei de comer em mesa: Ou era sentado no chão com um lençol
forrado ou no braço do sofá.
Quando
minha avó morreu, morreu por dentro meu avô. Minha mãe enfermeira acompanhou as
mortes e de outros parentes. Minha mãe entende de morte e sabe sofrer as
mortes. Sabe sentir o morrer. À minha mãe eu depositei sem pesar ou remorso o
desejo que se eu me for antes – pois alguém sempre vai – que não haja enterro,
que meu corpo seja cremado. Igual a ela, meu fim é organizado, passo por passo,
documento por documento, seguros por seguros, conta por conta a pagar aos meus
credores. Mas que me cremem a pele, os cabelos, os ossos. Quero ser pó o mais
rápido, sem vermes me comendo. Sem velório desgastando o tempo. À minha mãe
confiei, pois meu pai é medroso e não gosta do assunto. Não que eu e mamãe
gostemos, mas sabemos e vivemos. Por isso nos desentendemos nos entendimentos
mais do que eu e meu pai. O amor entre uma mãe e um filho não é igual a de um
pai e um filho. Minha mãe sabe do diário com a foto do Aldir Blanc e o João Bosco
nos anos 70, em sépia, na capa, o diário que não é diário, que escrevo a mão e onde
ele estará quando da hora da minha partida. E nele há o que se fazer. O que
quero e desquero. E minha mãe respeitará e se ela se for antes, deixará claro
que o que eu quero, deve ser respeitado, pois minha mãe entende de morte.
Mas
quanto tempo faz eu não sei. Sei que quando minha avó morreu, meu avô morreu
junto por dentro. O câncer que já existia e vivia dentro dele quis sua parte.
As histórias continuavam debaixo de um pé de mangueira no quintal agradável da
minha tia Síndia e meu tio Expedito, irmã de minha mãe e irmão de meu pai. Eu e
o Gustavo nos sentávamos para ouvir: seus roubos de pães no período em que
serviu o Exército, seu medo de armas, suas histórias com a sinuca. Meu tio
comprou uma mesa para seu tempo passar mais tranquilo. A morte vinha. Meu tio é
como meu pai, teme a morte mesmo sabendo que ela é uma cobrança que não se adia,
não se parcela.
Eu
e meu primo Gustavo não sabíamos bem, mas o vovô Tamiro, o vô Timimo estava
cada vez mais magro, não tinha muita vontade de falar dos passarinhos, ensinar
sobre as tacadas na sinuca que meu tio comprou para ele. O câncer ia lhe
tomando mais, tirando o que achava por direito tomar. Pois o câncer é assim,
ele é seu, mas no fundo você é dele. Vencer o que é seu é complicado. Quando se
vence passamos a não ter medo de não ter medo. Ou o pior: passamos a ter medo
de não ter medo de nada. Quanto tempo faz, eu não sei. Um dia converso sobre
isso, mesmo que falando sozinho.
Meu
avô está deitado, o visito no leito do antigo Hospital Iguaçu. O prédio ainda
existe, fechado. Um prédio histórico. Ao menos um braço e uma perna engessei
ali na adolescência de traquinagem. Um dia eu converso sobre isso, mesmo que
falando sozinho. Já não fala, meu vô. Nem conta histórias de tempos passados.
Meu
avô, eu sinto, e hoje sei, sabia e tinha medo da morte, não o medo de não ter
medo, como eu tenho, como eu sinto.
Naquele
dia do leito, do Hospital Iguaçu, de entrar e sair do fusca que meu pai tinha, eu não
sabia, mas foi a última vez que o vi. Ele se despediu com os olhos. Faz tempo.
Não fui ao enterro. Fiquei na casa da minha tia e do meu tio com o meu primo. Eu
tomando conta dele, ele tomando conta de mim. Não havia muitos amigos. Como
hoje também não há. Somos os dois o que somos. Distantes e reflexivos. Ontem
sonhei com o velho Timimo. Queria que ele tivesse me visto formado em História.
Ele gostava de história e de ler. E tinha muita história por trás dos aros dos
seus óculos e muita coisa por baixo das mãos marcadas com cola de sapateiro. Ele
me levou ao SASE de Realengo para engessar meu braço esquerdo quebrado,
traquinagem boba de menino que brincava só e inventava amigos. Levou-me pela
mão, fomos andando da casa de vila até o SASE, ele contando histórias, eu
sentindo uma puta dor. Mas ele sorria um sorriso de canto de boa, um sorriso
que queria ser feliz, mas sabia que a vida era sofrida.
Hoje
beberei um copo de malzibier e brindarei sozinho ao velho Timimo, meu vovô
Tamiro, quem sabe até sorrio de canto de boca. Pois eu sei, a vida. A vida...
Talvez,
não sei, seja algo como resgatar um tempo de infância. Aquele tempo, você sabe,
todos sabem, que escapa por entre os dedos como areia seca de praia.
Numa
canção chamada “No Compasso da Mãe Natureza ou O amor, A pureza e a Verdade”,
da banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado, os versos seguintes ilustram um
pouco essa conversa: Na velhice a infância é verdade/ E o compasso é da mãe
natureza.
E
o tempo acaba por ser tudo e muito. O tempo da infância um dia deu uma noção de
eternidade e no futuro observa-se que ele passava mais acelerado do que o hoje
que já chama de volta o amanhã.
Essa
noção de tempo de infância, não sei, pois falo por mim, se concretiza muito nas
brincadeiras, nos apelidos que vão se metamorfoseando, nas histórias que viram
lendas e vão sendo aumentadas de mentiras descabidas e se firmam como verdades
irrefutáveis. Nos apelidos e nas mentiras verdadeiras (ou aumentadas) para
provocar o riso, desconcertar fazendo rir quem for o fruto do acontecimento
aumentado em mentira – e todos nós temos e passamos por esse momento – está o
tempo da infância.
Ouso
ser ingrato, quem sabe, nem amigos somos, o que é bem infantil. É como aquele
colega inseparável do colégio que o tempo da vida levou para outro lugar, rumo,
país, futuro ou morte. Digo isso pois cada um no seu credo, religião ou
ausência dela, problemas, trabalhos, família e amigos, deposita naquele
momento, naquelas travessuras de desce morro, sobe morro, xinga um, xinga
outro, o esquecimento do que está ficando lá atrás por algumas horas. É um
esquecimento sadio. Nesse momento somos amigos de infância, inseparáveis, que
passam por cima da discordância política, de educação, de fé. Não interpretem
errado, não que ninguém se fale depois que a imersão em nós mesmos se acaba. Ou
que em nenhum momento, mulheres, filhos, o cronograma da semana que já chama o
relógio, seja tudo apagado, um por um, uma por uma das nossas mentes. Acho que
apenas adormecem.
Mesmo
que em alguns momentos a angústia da semana que passou ou a ansiedade da semana
que virá venham à tona, a coisa passa rápido. Divide-se o que se quer dividir, se
desabafa os dramas pessoais que se quer. Pois sendo crianças há uma inocência na
traquinagem, uma ginga de rabo de arraia. O peido fedido. A risada. Se a Bolsa
de Valores subir, que importa? Se a conta de luz veio alta, quem se importa?
Naquele momento nada importa, pois voltará a importar quando tudo se encerrar.
O morro ir ficando para trás na descida ou o suor escorrendo da testa
testemunhando que tudo passa numa subida de ladeira alta. Se a Bolsa de Valores
subir, importará na segunda para um ou outro. Se o Presidente da República
falar mais alguma merda e alguém não achar que é uma merda o que ele defecou em
palavras pela boca, importará na segunda... Mas no momento que se vive o
tempo da infância, entre a noite de preparação do capacete, da bicicleta, da
sapatilha, o café da manhã na madrugada e sair sem fazer barulhos... nesse
momento de vivênciasomos a infância e
seu tempo. Somos o cotidiano quebrado de adultos que um dia pensaram que o
tempo demorava a passar quando criança para se tornarem adultos sonhando em
resgatar por algumas horas o tempo da infância.
Talvez,
nem sejamos amigos. Pouco nos identifiquemos uns com os outros quando tiramos o
capacete, os óculos, as luvas ou guardemos as bicicletas nos suportes dos
carros. Talvez, nem nos reconheçamos se nos esbarramos na fila do pão, no caixa
eletrônico. Porém, no fundo, no fundo, no tempo da infância, nunca houve amigos
mais fiéis. E quem olha de longe pensa: “nunca houve amigos mais fiéis do que
aquelas crianças com barbas brancas e princípios de calvície”. É a vida que a
gente não vê é o “compasso da mãe natureza”.
É
evidente que não devemos falar aquilo que pensamos no instante que pensamos,
deve haver um filtro – provavelmente a Ciência já deva ter estudado isso no
nosso cérebro – que segure a junção das palavras até que forme uma oração.
Nota
mental: fluxo de consciência
é em Literatura, no fazer literário, resumindo didaticamente, o pensamento de
um personagem sendo descrito pelo narrador enquanto o pensamento ocorre, algo
assim. A escritora Virgínia Wolf tem muito isso em seus livros (ao menos é a
que li). Em nossa língua, posso dizer de carteirinha que o grande alagoano Graciliano
Ramos e o mineiro Guimarães Rosa, faziam como ninguém Fim da Nota mental
Voltando
ao que eu chamei de “fluxo de pensamento” – que é quase a mesma coisa que o tal
do fluxo mental. É preciso tomar cuidado com essa merda, se não você
acaba se tornando um presidente de uma república federativa, cuja Democracia
ainda é jovem demais e você se enrolará nos seus fluxos e refluxos, demorará a
responder e-mails, enfim, vai fazer merda. Por isso mesmo, se você me ouvir
bem, você aí que acha que está lendo, mas na verdade me ouve com sua própria
voz, me escute bem: há um lapso entre o que eu penso e o que eu falo. Um lapso
grande. Por isso contarei um causo. Gosto de causos em prosas.
O
Teixeirinha é um grande amigo meu, um dos melhores, dou meu braço esquerdo pelo
Teixeirinha e sou canhoto. Ele gosta de correr, acho que resolve lá seus
problemas correndo. Eu acho um saco correr. Mas entendo. Eu por sua vez,
pedalo. Hoje, segunda-feira, o dia mais temível da semana – sempre odiei
segunda-feira e curiosamente nasci numa – após os afazeres do trabalho fui
pedalar no rolo fixo com minha querida Prozac (uma Caloi Comfort 500, ano 2013,
modificada em suas peças de fábrica, original, só o quadro, os freios e as
rodas). Enquanto me preparava para começar meu exercício do dia, me veio à
mente o Teixeirinha e certa vez que ele esteve aqui em casa, fumamos muito
charuto e bebemos muita cachaça e ficamos analisando bateristas. Revimos uma
três vezes, talvez cinco, um vídeo de análise com partitura das levas de John Bonham, baterista do Led Zeppelin.
Teixeirinha,
assim como eu, teve aulas de música quando garoto e sabe lá seus solfejos.
Estudou clarinete. Mas diz que queria muito, muito aprender bateria. Curioso
que o primeiro contato que todos nós temos com a música, acho que todos, sem
sombra de dúvida, é com o batuque de alguma coisa, nem que seja com a testa no
chão. Eu por exemplo, história mais que verdadeira e foi o que levou minha mãe
a me matricular em aulas de música, é que quando vi o show do Nirvana, em 1993
pela TV e os caras quebrando tudo, pensei: “Putz, isso é rock!”. A coisa ficou
estranha em casa. A caixa estourou quando em 1996 comprei com minha mesada o Cd
“Roots” do Sepultura e comecei a juntar panelas e tampas, colheres de pau e
montei uma “bateria” e “ensaiava” quando chegava do colégio, lá por voltas das 13:00.
Minha mãe estava sempre dormindo, pois seus plantões nos Hospitais eram noturnos.
Não irei longe. Nunca fui baterista. Fui estudar violão e instrumentos mais “melódicos”
na mentalidade da minha mãe.
Se
você cresceu entre os anos 80 e 90 com certeza ouviu Phil Collins. Na sua
biografia “Ainda estou vivo: uma autobiografia”, Rio de Janeiro, Editora
BestSeller, tradução de Phellipe Marcel, 2018 [original: “Not Dead Yet”, de
2016), por sinal, baita livro, o músico no prefácio escreve duas coisas que me
marcaram muito e repito em voz alta o que li: “[...] como trabalhei! Se você
consegue se lembrar dos anos 1970, certamente não esteve em tantas turnês do
Genesis quanto eu, Tony Banks, Peter Gabriel, Steve Hackett e Mike Rutherford.
E se você se lembra dos anos 1980, peço desculpas por mim e pelo Live Aid.”
Algumas
linhas se seguem e ele finaliza o prefácio e já dá a dica que os compassos dos capítulos
que compõem o livro serão frenéticos, leio em voz alta, mais uma vez: “Fui
tocado pela morte quando meu pai faleceu, justamente no momento em que a
decisão de seu filho hippie de trocar uma vida segura por uma vida na música
começou a render frutos. Também fui atacado quando, no curto período de dois
anos, Keith Moon e John Bonham morreram, ambos aos 32 anos. Eu os venerava.
Lembro de ter pensado, na época: “Esses caras deveriam durar para sempre. São
indestrutíveis. São Bateristas.” Meu nome é Phil Collins, sou baterista e sei
que não sou indestrutível. Esta é a minha história.”.
Enquanto
eu pedalava, uma hora cravada, ouvia o primeiro disco solo do baterista que
virou cantor e que tem como pérola a frase: “I’m not singer who plays a bit of drums.
I’m a drummer that sings a bit.”
O
disco terminou. Como eu usava streaming, joguei para o EP da banda em que seu
filho Nic Collins é baterista e um grande baterista!
O
coração é ritmo. Pedalar é ritmo. Correr é ritmo. Caminhar é ritmo. Viver é
ritmo.
(Ordem N.º 2 ao Exército das Artes, Vládimir Maiakóvski, tradução de Haroldo de Campos.
Em: Maiakóvski: Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 93)
Chega um momento na nossa existência que as coisas vão indo
tão mal, coisas simples indo tão mal, que a gente acaba se vendo obrigado a
usar aquela expressão que resume o "estar na merda", "as coisas
estão muito ruins", "Não dá mais...", etc. A tal máxima é: "Brasil pós-2016".
(Nota aos estrangeiros: este termo possui um
interessante histórico etimológico e é mais ou menos como a palavra
"Saudade", não tem tradução para outros idiomas além do português brasileiro).
Um exemplo didático: você pede uma moela ensopada num boteco para
papear um pouco com a patroa sobre a vida, a moela chega fria. Você não diz mais: "que
merda"... Você expressa seu descontentamento com: "Brasil pós-2016!". Não satisfeito,
pede uma porção de pão de alho. Chega uns nacos de pão com manteiga no forno e
um potinho de maionese industrial com aroma artificial "alho". Você
xinga? Chama o garçom prum papo? Não! Você diz: "Brasil pós-2016!".
Liga a TV, mais um pacote de cortes... Suspira fundo:
"Brasil pós-2016".
Mais uma chacina: "Brasil pós-2016".
Caí no cheque especial de 350% de juros ao ano: "Brasil
pós-2016".
Os índios não existem mais, foram abolidos pelo agronegócio:
"Brasil pós-2016".
Fecharam uma universidade pública, duas, três: "Brasil
pós-2016."
Servidores estaduais e municipais e federais caminhando para
a miséria: "Brasil pós-2016"... Evangélicos estão no poder, empresários são eleitos prefeitos: "Brasil pós-2016". Mães matam filhos por serem homossexuais, pais chacinam a família por machismo: "Brasil pós-2016".
E assim a gente foi mudando nosso linguajar de pouco a
pouco.
É uma coisa meio Etimologias, do Isidoro de
Sevilha...
Entendam cagalhões: Daqui uns séculos "escafandristas virão
explorar sua casa", na verdade, seus status no Facebook, e verão que a
expressão "Brasil pós-2016" surgiu logo após um surto epidêmico, não
de Febre Amarela, de certo modo sim, mas uma febre de camisetas amarelas e de
um pato amarelo gigante pelas ruas de São Paulo, gritos nas capitais estaduais, selfies com Policiais Militares. Os escafandristas investigadores descobrirão que a disseminação linguística se deu através do som do Plim Plim, via aparelhos de
Televisão e grupos de tiozões no Whatsapp com camisetas com a foto de um homem que apoia Brilhante Ustra e ofendeu uma Presidenta da República que foi torturada durante a Ditadura Civil Militar no Brasil. Para ficar só nisso.
O DNA da máxima "Brasil pós-2016" estava, dirão os escafandristas
arqueólogos das palavras, em um tal de "Fora Dilma e leve o PT
junto". A mesma senhora que quando jovem teve ratazanas inseridas em sua vagina como método de tortura.
Curiosamente, assim como renascentistas, humanistas e iluministas
falando da Idade Média no seu presente passado em tempos remotos, os contemporâneos do
"Brasil pós-2016" não se lembrarão das pessoas tiradas da miséria
durante os 13 anos petistas, esquecerão, como num surto, a expansão do ensino
público, os avanços sociais de igualdade e justiça para os mais necessitados. A
classe média brasileira, aquela infectada pelo vírus da Febre Amarela Política,
e mesmo os recém-chegados ao status graças aos tais avanços do passado
presente, esses seres contra-História, silenciar-se-ão ignorando suas
participações nas marchas pela família, ignorarão os ministros nomeados com
ficha suja, emudecerão diante das delações com nomes do governo interino, e
depois fixado através de negociatas de privatização e prevaricação, nomes
explícitos em listas de propinas. Tudo graças ao mecanismo técnico-biológico do
Plim Plim.
Na explicação do dossiê, os escafandristas dirão: As células se
ativavam às notas musicais estridentes e então as vozes bradavam: "Bandido bom, é bandido morto!",
"Comunistinha de merda", "Esquerda caviar"... "A culpa
não é minha, eu votei no Aécio!", "Vocês também votaram no Vice...", "Transformaram a bandeira do Brasil num símbolo comunista (mas era a bandeira do Japão)", etc. e tal.
Finalmente, esses escafandristas, ao tentarem, mais uma vez, alertar os contra-História, serão silenciados
por algum pacote de cortes nas Ciências ou vão ser terminantemente afastados de
seus cargos públicos-concursados através de um processo temeroso de redução salarial, lhes cortarão o oxigênio.
No geral, perceberemos que, primeiramente, a estratégia funcionará a partir da diminuição do acesso à
internet fixando um limite de dados. Em seguida cortarão o acesso igualitário à universidade pública e gratuita, reduzindo o Ensino Superior ao monopólio de Empresas Educacionais privadas que lidam com a educação através do mesmo modelo de alimentação fast food. Depois, depois a gente não sabe, pois
estamos no futuro do passado e fica difícil localizar a narrativa em algum
tempo verbal. Não sei se estou aqui ou acolá. À propósito, a voz que você ouve nesse momento tem esse som por ser eu também um escafandrista.
Pobre Maiakóvski, não há nenhuma pessoa feliz no Brasil
pós-2016.
Eu sei que o momento é cuidadoso.
Pautas mais importantes preenchem nossa mente e seus parágrafos
microscopicamente são analisados pelos nossos olhos. Porém, me permito um
momento de distração nessa noite chuvosa em Aracaju e que está me remetendo à
minha velha Mesquita...
Às favas! Na verdade, comentar
política se tornou uma variável muito difícil de traçar. E como minha garganta
está coçando faz uns dias, querendo imitar alguma voz, emitir algum som, decidi
mudar um pouco o tom e cantar uma melodia que conheço bem.
Atualmente, um dos muitos – e descontroláveis
– problemas, presentes no cotidiano das grandes às pequenas capitais mundiais,
diz respeito à mobilidade urbana. O número de carros, por exemplo, numa pequena
capital como Aracaju, praticamente triplicou nos últimos anos. No nosso caso, isso
deve ser somado a um transporte público deficitário, sucateado, ruas totalmente incapazes
de receber todo o fluxo de motos, ônibus e carros e, claro, uma triste cultura
capitalista de bens: Ter um carro bacana,
do ano, expressa seu sucesso. O trânsito por aqui, não devia, mas é um caos
desordenado entre a falta de educação, típica dos motoristas brasileiros, e
ausência de espaço para todos.
Para não ficarmos correndo o risco
de nos prender ao local e eu correr um sério risco de ser taxado como
preconceituoso, tomem nota: mesmo uma cidade da região metropolitana do Rio de
Janeiro, como Mesquita, na Baixada Fluminense, serviria como exemplo categórico
do que estou tentando afinar com essa voz um tanto rouca. Ter um carro ou moto
por lá expõe a linha tênue entre “necessidade” e “status”. Têm-se sucesso se
não precisa pegar um trem, ônibus ou andar de bicicleta!
De fato, a questão é que no Brasil
há um grande atraso que, se observado frente aos seus vizinhos mais próximos e
grande parte do continente Americano e Europeu, podemos dizer, é até um
retrocesso na possibilidade de avanço – vide todas as manifestações contrárias
ao movimento de ciclovias, ciclofaixas e ciclorotas na cidade de São Paulo.
Ok, a esse último exemplo devemos
juntar a ojeriza pela sigla partidária do atual prefeito da capital paulista
que motiva, inclusive, agressões das mais esdrúxulas contra os ciclistas. De
todo modo, vale um exercício lógico, sem vestir vermelho ou amarelo: No Brasil,
tentou-se resolver o problema da primeira crise econômica, ou a possibilidade
de sua chegada ao continente tupiniquim, através do consumo frente produção. Os
carros, com seus ridículos IPI’s reduzidos – não quero entrar aqui numa complexa
análise do quanto somos lesados pelas multimilionárias fabricantes de
automóveis no nosso país e o quanto de impostos pagamos por um carro “popular” –
foram o principal bem de consumo adquirido no projeto petista daquele período.
A diferença frente os governos anteriores é que a renda, de fato, passou a ser
melhor distribuída, principalmente, entre aqueles que estavam à margem mas que,
claro, não puderam e ainda não podem comprar um carro.
Um exemplo confiável, que essa
relação consumo produção, no nível de automóveis, se limita, sobretudo, à
classe média: nos últimos anos, com exceção de dois ou três vizinhos (e eu), todo
o meu condomínio trocou de carro. Levando em consideração que são duas torres,
com doze andares e cada um deles com quatro apartamentos, tendo algumas
famílias mais de um carro e moto, faça suas contas.
A coisa toda, já sabemos,
desandou. Hoje, o número de endividados na classe média, seja a mais nova ou a
tradicional, é exorbitante. Tanto que numa primeira leva de crise (política)
foi ela quem ocupou majoritariamente as ruas e gritou, ignorando sua
manipulação via TV e Jornais, Igrejas Neopentecostais e os mesmos partidos de
direita de sempre: Fora Dilma! Fora PT! O
golpe foi escancarado, as panelas se silenciaram, as camisas da Seleção
Canarinho voltaram para as gavetas com naftalina e hoje as dívidas se mantêm.
Mais uma vez, a história, que não deveria se repetir, segundo Marx, se repete: a
classe média tradicional, e a reboque a nova, entrou pelo cano. O que isso está
relacionado com mobilidade urbana e, claro, minha relação pessoal com a bicicleta?
Mas louco é quem me diz que não é
feliz
Confesso que do meu escritório
posso ver um fio de paisagem que sei que guarda o mar lá no fundo. O bom é que
o constante céu azul da minha cidade me ilude que entre nuvens e carcarás, o
que eu vejo na verdade é o imenso mar.
Ao mesmo tempo, posso ver também a
chuva que vem fina da orla, se misturando às nuvens, acinzentando o azul...
Quando criança em Mesquita, eu
fazia tudo de bicicleta: escola, padaria, ir para o campo de futebol, igreja,
aula de música, casa dos amigos... Não havia uma rua, ladeira ou encruzilhada
em que eu e minha Monark não tivéssemos ido. Dos 11 aos 18 anos era assim que
eu me locomovia. Não havia na cidade ciclofaixa, ciclovia, nada disso. Era meio
fio e pulando calçada quando dava. Uma vez fui atropelado indo para a escola,
numa rua pacata, atrás do antigo Hospital São José. Fui socorrido pelo próprio
médico que me atropelou, não sofri um arranhão.
Vim morar em Aracaju por motivos
de concurso público, em 2009, e a primeira coisa que me disseram foi: compre um carro, o transporte público aqui é muito ruim. Realmente, era uma loucura
terminar as aulas às 22:30 e pegar o ônibus no campus sei lá que horas.
De qualquer maneira, foram as
ciclovias – não, eu não comprei um carro, mas ganhei um do meu pai – que mais
me chamaram atenção. Vindo da Baixada Fluminense, aquilo era quase um
sentimento de me ver criança em Paquetá nas férias de fim de ano. E Aracaju tem
isso, tem esse misto de cidade pequena com o caos urbano. Mas, é recheada de
ciclovias e ser ciclista aqui, andar de bicicleta aqui – tirando os dias de
chuva – não é um exotismo e há até reconhecimento nisso.
Quando vi a chuva de hoje e meus
afazeres completos, desci com a bicicleta sem pensar duas vezes. No térreo, só
pude ouvir um cochichar de alguém quando saí do condomínio: lá vai o louco da bicicleta. Sorri.
Enquanto o vento e a chuva
banhavam meu corpo, minhas pernas se molhavam nas poças e os pneus deslizavam
no asfalto, a sensação que eu tinha ao ver as pessoas se escondendo nas
marquises, nos pontos de ônibus, era de olhares que diziam: lá vai o louco da bicicleta.
Depois me dei conta que não era
preconceito ou reprovação, mas uma reação ao meu sorriso bobo, apesar do corpo
encharcado e imundo de lama. Sorri novamente.
O fato é que a cidade parou, não
por mim. Mas graças a chuva, as ruas alagaram, carros pararam, se chocaram nas
esquinas. Ao meu lado nas ciclovias, trabalhadores voltando da lida com suas
capas, certamente, mais sérios do que eu, mais responsáveis que eu, mas não
menos compenetrados em seus pensamentos do que eu.
A música soava nos meus fones –
talvez, eu nem precisaria dela –, cada piscada era um flash.
Eu disse certa vez e não volto
atrás, que ao andar de bicicleta me surge uma crônica por cada cruzamento e
sinal fechado, cada cheiro que eu sinto. Para as prostitutas nas esquinas que deságuam
a orla, para os travestis da Ivo do Prado, para os maconheiros da pracinha,
para as crianças nos brinquedos, para o pessoal do cooper e da caminhada, para
mim.
Ao mesmo tempo em que tudo me era
alegria e molecagem, pensei muito na mobilidade urbana e no quanto o Brasil
perde nas suas idas e vindas consumistas. Não se trata de ser “bicho grilo” ou “novo
hippie”. Como eu disse, tenho um carro, uso o carro e entendo bem a necessidade
de todos os que veem no veículo conforto e comodidade. Mas é fato consumado que
a bicicleta é mais barata e faz muito melhor a saúde que o frenesi do trânsito
cotidiano.
O que eu quero dizer, é que não
havendo extrema necessidade, deixo o carro de lado, aliás, me coço aguardando
essa oportunidade.
Não me lembro quando, mas uma vez
assisti uma entrevista de um músico paulistano chamado Curumin. Nela, ele
falava sobre uma composição sua intitulada Magrela
Fever. Eu já tinha o cd (Japa Pop
Show) e, evidentemente, gostava imensamente da música em questão. Porém,
quando ele explicou os motivos da canção, confesso que ela se sacramentou como
uma oração diária que antecede cada vez que monto na minha bicicleta e saio
pelas ruas da cidade, seja para passear, me distrair ou ir para o trabalho. Se
você me permite, transcrevo a fala:
Magrela Fever é uma música que eu fiz. É que eu gosto muito de andar de
bicicleta, gostava muito de andar de bicicleta na cidade. Assim... Em São
Paulo... Num certo ponto, a gente começa a procurar alternativas para escapar
da loucura das ruas, né?, do trânsito e tal. E foi uma alternativa que eu achei
e que além de me fazer bem, assim, de andar, de poder andar de bicicleta, eu
fugia desse trânsito maluco. Então eu estava tão feliz por conta disso, de ter
descoberto isso daí, que eu podia fazer percursos longos, ir pra casa, pro
trabalho, voltar, ir pro estúdio de bicicleta, que daí eu fiz essa música aqui.
Curumin, em cada verso, cada
frase, conseguiu expressar o sentimento tão profundo que é o de se sentir,
simplesmente: livre ao pedalar. Pode parecer loucura, mas não é.
E ainda hoje, para muita gente
desatualizada, a liberdade é uma loucura... Não para mim e, pelo visto, nem
para ele.
Estou no mesmo quarto onde tantas outras vezes estive –
aliás, temo dizer que daqui é que um dia tudo partiu em vozes, gestos
transmutados em palavras.
Cada um se depara com suas memórias de maneira ímpar,
praticamente, única. Seja um velho perfume que remeterá à infância, seja um som
de um pássaro qualquer. A questão é o que tiramos, cada um de nós, de tais lembranças.
Sejam elas nostálgicas ou não.
Na verdade, a bem da verdade, devo dizer que não sei bem
definir o que há em mim de nostalgia, saudade, memória ou lembrança. Já quando
percorríamos na quinta-feira à noite as ruas da velha cidade da minha meninice,
as cadeiras na rua, as crianças desnudas e descalças nas calçadas com narizes
escorrendo ou mesmo os chinelos demarcando o gol a gol interrompido pela passagem
do carro... já nisso eu me perdia na ausência de definição. E digo mais, mesmo
as luzes, as muitas luzes que eu via quando do avião se aproximando no Galeão,
as luzes rompendo a escuridão do céu, mesmo isso, eu não saberia definir o que
significou para mim.
O certo é que isso tudo já estava preparado desde a partida,
o que me resta é entender qual das minhas muitas partidas me refiro.
E veja bem: não é um diário. Mas, espero que você possa me
ouvir, até mesmo o cheiro forte da minha respiração ou o som rouco da minha
voz, a força que faço para tossir. É necessário que me ouça bem devagar, com
bastante atenção. Coisa que eu nunca solicitei. Mas, hoje eu te peço.
Neste mesmo quarto, que pouco mudou, a não ser minha
ausência física, escrevi artigos, uma dissertação, varei madrugadas a finco com
crônicas, poesias, historietas bobas que nem sei mais por onde andam. Aqui
neste quarto quase cultivei o afã de achar que a palavra me libertaria um dia.
Daqui me aventurei pela primeira vez à opinar sobre algo e que foi publicado no
extinto Tramela da gravadora Trama.
Daqui conheci o mundo de uma maneira um tanto singular,
mesmo que o futebol aos domingos, a conversa no portão e as caminhadas no
quintal com meu pai ainda fossem mais interessantes.
Mas se trata de memória e a memória pode ser um osso mal
restaurado. Uma fratura que ainda persiste em doer em tempos nebulosos e de
frio.
É disso que se trata e, talvez, será sempre sobre isso que
cada voz sacramentada a não ser escutada no mundo, mesmo um mundo pequeno, seja
conduzida mal e porcamente por um ventríloquo.
No calor profundo e seco da cidade, enquanto com passos
curtos eu descia o morro de tantas e tantas outras descidas, já quase na
avenida principal, vi uma pichação que marcou profundamente toda a minha recém
estadia quase findada: P/Escovinha14 anos de saudades.
Almocei no centro da jovem cidade, passei no boteco
tradicional e voltei com mesmos passos lentos e curtos e pensativos ainda na pichação do muro: P/ Escovinha14 anos de saudades.
As árvores foram cortadas, o calor aumentou, mas a sujeira e
o asfalto eram os mesmos. O local em que ele foi assassinado, uma vila de casas, foi, há
muito, derrubada para transformar-se no estacionamento de uma igreja evangélica pentecostal, em cuja escola administrada por ela, inclusive, lecionei um breve
período.
Se me perguntarem quem foi o Escovinha, tenho algumas
lembranças e histórias engraçadas e que me remetem a um profundo apego ao
passado no morro e de como a minha própria vida era um emaranhado exótico de
vivências. Nunca soube (ou soubemos todos) o seu nome. Nem sua idade,
profissão, filiação. Era o Escovinha. Magro, franzino e alto. Cabelos muito
crespos e sempre raspados a máquina, arcada dentária desregular... puro osso e
falava fanho.
Sabia meu nome graças a uma escola particular que eu
frequentei para crianças no bairro da Coréia, em Mesquita, e nunca esqueceu. O
uniforme azul quadriculado carregava Bruno
no peito, pintado com tinta para tecidos. Sempre que mamãe subia comigo o
morro, Escovinha sorria e dizia: Coé
Bruno! Minha mãe retrucava: Fala
Bruninho: e aí?
Os anos se passaram, eu cresci, Escovinha mais que eu.
Ele morava onde a urbanização e o saneamento haviam chegado, no pé do morro,
não era asfalto, eram aqueles antigos paralelepípedos que quase não vemos mais.
Recordo dele vir jogar bola no campinho com os adultos um
pouco mais velhos do que ele. Das histórias que ouvíamos das suas atuações nos
bailes funks do Mesquita ou do Tênis Clube. O quanto ele batia, mesmo sendo
franzino e com cara de lerdo. Escovinha era o falso otário. Tinha unhas grandes
que lanhavam a cara dos “inimigos”.
Certa vez, numa noite quente de sábado, provavelmente era
sábado, pois papai me deixou ficar um pouco mais na rua, ouvíamos Antena 1, a
Light FM do Rio, num micro system que eu ganhei de presente e que funcionava com
pilhas. As pilhas comprávamos no rateio, cada um conseguia sua parte como podia
– uns vendiam lata, outros pediam para seus pais, outros roubavam. Um aposto
necessário: Este rádio, que não tenho mais, levou uma pedrada, não sei o
motivo, do Joel Cachaça que, acredito eu, mirava num dos moleques que estava
ouvindo comigo. O Joel era um cara bacana, um bom pedreiro que, inclusive,
quando saí muitos anos depois do meu período de Marinha, trabalhei como
ajudante numa obra de fábrica próximo a Rio Sampa (uma antiga casa de shows
na Via Dutra). As aventuras do Joel Cachaça me renderiam ótimas prosas por aqui
também. Mas, a memória é seleção. Voltemos ao Escovinha.
Na noite a que me referia, Escovinha chegou cabisbaixo e se
sentou na roda de meninos na parte gramada daquilo que chamávamos campinho. O
som tocava baixo e ele em silêncio. Dita hora, alguém soltou: Qual é, Escovinha, o que manda?
O Escova havia arrumado uma namorada num baile de favela e
na sexta-feira anterior havia ido pela primeira vez ao motel com ela. Até aí, a
molecada, incluindo eu, ficou ouriçada em ouvir uma aventura sexual que muitos
de nós só teríamos muitos anos depois. Enfeita para cá, enfeita para lá...
Escovinha decreta: Não rolou. Quando tiramos a roupa. Não rolou. Não ia
rolar mesmo! Um amigo mais velho questionou: Por que?
Era macho! A mina era
macho!
Cada menino da rua questionou frente ao seu próprio
conhecimento da anatomia feminina e masculina mais rasteira possível: Não dava pra sentir enquanto vocês se
beijavam, pô? Não, ela amarrou pra trás! Bom, comia assim mesmo, rapá! E
foi quando o brilhantismo, com o perdão da redundância, abrilhantou aquela
noite que ficou na minha memória: Comer,
comer até dava e até pensei. Mas, ela tinha o pau maior do que o meu e isso eu
não admito! Jamais!
Sentado na sala com meus pais, tantos anos depois, relatando
o que eu havia lido no muro no pé do morro e atiçando a curiosidade dos dois – Quando descermos para jantar me mostra que
eu quero ver – passamos os três a enumerar cada menino da rua que conviveu
comigo e os motivos que os levaram a mortes violentas, fosse pelas mãos da
polícia, dos justiceiros, que originariam no futuro as milícias, ou o tráfico.
Tanto eu quanto meu pai chegamos a conclusão que no caso do
velho Escovinha, ninguém sabia ao certo o motivo. Se por drogas, má companhia,
rixa de baile, não havia isso nos autos da memória, não há ao certo o que o
levou a tomar cada tiro naquela tarde do passado, dentro daquela casa na antiga
vila hoje demolida. Certamente como cada um dos meninos que listamos, a
banalidade da vida. Foram muitos tiros. Caixão fechado.
Não sei também ao certo, tampouco meus pais, se os quatorze
anos grafados com jetcolor no muro ao lado do terreiro que um dia foi a
delegacia de polícia de Mesquita e que eu ouvia o velho Bostinha bradar bêbado
na Barraca do Jorginho, em meus tempos de jogador de búlica com pés descalços,
que ele havia sido preso por xingar o delegado, são de fato quatorze anos ou
muito mais. O tempo nos engana tanto quanto a memória.
A questão é que cada busca que fiz no passado da minha vida,
vejo um corpo ensanguentado no chão que poderia ser ou não de um amigo. Mas que
no fundo, no fundo, me levou junto, sabe lá deus para onde.
Em tempo: A pichação foi feita em 2013. Na verdade, já se vão 17 anos.