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segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Entendi o que é um ABC

 


Não sei bem se você me ouve. Mas acho que mais doloroso é ouvir no silêncio a própria voz e essa ressoa há tempos. De fato, faz muito tempo que essa conversa está guardada na caixa do peito. Não sei se pelo próprio tempo, o desalinho, desânimo, o tal do silêncio me fez ficar mudo e só. Você está aí? Você ainda está aí?

São muitas dores, eu sei. E eu ouço o som da minha voz ou mesmo o silêncio se quebrando com a caneca de pedra sabão mineiro se enchendo com a água do filtro de barro para que eu tome minha medicação. Mas não importo para ninguém. É o que o cérebro vai pregando como peça de pastor levando suas ovelhas ao matadouro e todo mundo um dia vai para o matadouro. Não é?

Continuo. Ouça mais um pouquinho, fugi do assunto, mas foi coisa rápida.

Hoje é dia 03 de janeiro de 2022, uma segunda-feira. Hoje, na verdade, num sábado de 1898, nascia em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Luís Carlos Prestes. A citação ao 03 de janeiro de hoje e ao de 1898 diz muito sobre essa jornada de ler cronologicamente – como temos conversado – a obra de Jorge Amado. Já uns dias iniciei O Cavaleiro da Esperança: vida de Luís Carlos Prestes, mas não parei para te contar as impressões, os sentimentos que tive ao ler o livro que o antecede na obra do baiano de Itabuna: ABC de Castro Alves.

Publicado originalmente em 1941 e retomado na série Coleção Jorge Amado da Companhia das Letras, com posfácio de Domício Proença Filho, li a edição de 2010 da editora.

Do escrito de Proença Filho entendi enfim o que é um abc, apesar de eu não ser tão ignorante, mas mesmo lendo sempre o posfácio como deve ser lido – no final – o ritmo da escrita de Jorge Amado era da mais pura louvação ao poeta baiano, seu conterrâneo. A voz dos escravos. A explicação, a exposição, de Domício Proença Filho ajudou e evidenciou mais o sentimento que me batia entre angústia e admiração.

 O que Jorge Amado, na sua cadência, na conversa com a sua negra, a sua amiga – companheira – nas areias, contando a grandeza, os feitos do poeta, humanizando Castro Alves, nos leva a tal ponto da gente se dar conta – sabe? – e se lembrar que é sempre bom perguntar-se: O que é uma biografia de verdade?

Amado usa notas de fim – adianto que no livro sobre Luís Carlos Prestes o mesmo acontece – dá opiniões. Ele consegue romancear uma vida, mas não são todas as vidas – a minha e a tua – grandes romances escritos ao acaso pela pena de algo maior?

Sinto angústia. Pelo menos sinto. E sentir alguma coisa já é algo, afinal, como num trecho do ABC: “Já que que a vida esmagava assim tantos homens e tantos sentimentos, já que ela era tão feia e tão errada, então ela não a queria, não se misturaria com ela, fugiria. A morte é também, amiga, bela como a mais bela das mulheres quando se tem medo da vida, de encará-la face a face, quando se pensa que o destino do homem é a desgraça. Para os que assim pensam, as estrelas do céu são um chamado, a lua é um convite, a morte é a suprema amante, só ela pode dar aos homens os bens que a vida não possui. E eles caminhas para a morte de passo firme e decidido porque vão para uma festa, não têm nada que os prenda à vida, estão desligados dos demais homens” (p. 47).

Jorge Amado canta em cada letra do alfabeto os feitos do poeta, insere um cotidiano em que a verdade mais pura é a dor que o passado não pode esquecer: a ausência da Liberdade.

E ele lembra bem, encerro assim, com uma voz que não é minha, mas que é do grande que segue amado: “Nessas noites oleosas da Bahia, quando do céu desce um infinito mistério, quando do mar chegam as canções mais doces de Iemanjá, quando da terra vem um cheiro poderoso de flores várias, nessas noites, amiga, vêm do mais escondido da cidade, de trás dos morros, do mais profundo da noite, ninguém sabe mesmo de onde, esses sons que do cais nós ouvimos de coração saltando no peito. São os baticuns das macumbas, são os candomblés batendo em honra dos santos que tu amas. De Oxóssi, meu santo, de Omolu, o deus que tanto temes, de Xangô e de Ogum. São atabaques deixando que a música role sobre a cidade e a evolva e a transporte para uma atmosfera de sonho. Nós sabemos, amiga, que lá, onde tantas vezes estivemos, naqueles escondidos lugares onde nossos irmãos negros festejam seus pobres deuses, negras dançam vestidas com os mais lindos vestidos de mundo. Sabemos também que a qualquer momento a caravana policial pode invadir o terreiro da macumba e levar os sacerdotes, os assistentes e os santos. Sabemos que é sempre uma aventura um baticum de candomblé. Que dos negros nem os deuses são livres para dançar na Terra. Mas que nem por isso deixa de, sobre as ladeiras da Bahia, ressoar a trágica voz dos atabaques, que nem por isso deixam de ser cantadas as canções de Iemanjá, nossa mãe, dona do mar e do nosso destino (...). Antes, negra, era ainda pior. No tempo do poeta Castro Alves, no tempo da sua infância e também depois, os negros eram escravos comprados em leilões, mercadoria que se vendia, trocava e explorava. E em troca de tudo que eles deram ao branco, sua força, seu suor, suas mulheres e filhas, a maciez da sua fala que adoçou a nossa fala, sua liberdade, o branco lhe quis dar apenas, além do chicote, os deuses que possuía. Mas deuses os negros traziam da África, os deuses da floresta e do deserto. E continuaram fiéis aos seus deuses por mais que rezassem aos deuses dos seus donos. E cavaram no subsolo das cidades templos que o homem branco não podia atingir” (p. 62-63).

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

“Porque a revolução é uma pátria e uma família” – Em Capitães de Areia (1937)

 


“A temática das crianças que vivem nas
ruas continua bastante atual. Para escrever
Capitães da Areia, Jorge Amado foi dormir no
trapiche com os meninos. Isso ajuda a explicar
a riqueza de detalhes, o olhar de dentro e a
empatia que estão presentes na história.”
Zélia Gattai Amado


Eis que estou aqui. Pois fugir de si mesmo quando nos olhamos no espelho é impossível. Mas eu sentia que faltava alguma coisa e mesmo que eu já não veja sentido, ao menos que eu me esforce para dar sentido ao que comecei. Já conversei com você há tempos sobre Capitães da Areia, publicado originalmente por Jorge Amado em 1937, livro que sucede Mar Morto e antecede ABC de Castro Alves. O que eu te disse, continua valendo, porém, veja bem, se me prontifiquei a dar sentido à coisa toda, devo dar sentido. Faltava algo. E em meio aos turbilhões da minha mente, como vastos cachos de uma cabeleira esparsa ou mar de viração: encontrei.

Já estava lá há semanas. Um quê qualquer de presságio não me deixou fazer o que eu queria. E eu gosto de liberdade. Faltava a foto da capa do livro na edição de 2008, com posfácio de Milton Hatoum, com capa azul céu (ou mar) sobre fotografia intitulada Jogo de Capoeira, de Marcel Gautherot. Tirada em Salvador, c. 1940-5, é uma obra de arte. Mas faltava a minha própria foto do livro como um todo. Encontrei.

Dedicado, entre outras pessoas, à Anísio Teixeira, Capitães da Areia é um dos romances mais conhecidos de Jorge Amado, seu sexto para ser mais exato. O ano de 37 do século XX marca, também, a perseguição de Getúlio Vargas aos comunistas e os livros de Amado sendo censurados e queimados em praça pública na sua adorada “cidade da Bahia”, Salvador. Entre as cinzas se formando no ardor da fogueira estavam as páginas do recém-publicado Capitães da Areia.

Li quando menino a história de Pedro Bala e seu grupo tão variado. Não tão menino. Li adolescente. Alguns anos após a chacina da Candelária, que ocorreu aos pés da famosa igreja carioca, na noite do dia 23 de julho do ano de 1993. Coincidentemente, no acervo da Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, há uma carta do autor emitida do México para Anísio Teixeira, em 26 de julho de 1937, informando ao intelectual, entre outras coisas, que para o fim do mês seguinte seria lançado seu último romance e que ele seria dedicado à Teixeira “em sinal de admiração, amizade e gratidão” (ver carta no anexo final da edição de 2008 da Coleção Jorge Amado – Editora Companhia das Letras). Datas próximas, anos distantes. Mas adocica um pouco nossa prosa, mesmo que com ar de tristeza, você não acha? Eu até acho que prendo sua atenção com isso. Vivo achando coisas. Por exemplo, ele informa ao Anísio Teixeira na tal carta de 1937, que começou a escrever o livro em Sergipe e o finalizou na viagem ao México. As cartas são coisas interessantes, você concorda? Ninguém escreve mais carta para lugar nenhum, a não ser os bancos e suas cobranças disso e daquilo outro. Deixa estar.

Li quando adolescente Capitães da Areia, já disse. Li com uns treze anos de idade, acho. Acho, pois não sou de marcar as datas e anos de minhas leituras, o que me atentam à memória são as leituras e o que permeava o ar naqueles tempos e aqueles assassinatos ficaram na minha cabeça aos dez anos recém completados em 1993.

A chacina da Candelária mexeu com muita gente e, tenho certeza, sabe?, que por isso a professora de Literatura colocou esse livro denso na lista anual de sugestões de leitura para a antiga Oitava Série Ginasial. Não era obrigatória a leitura, não fazia parte do currículo dos quatro livros que deveríamos ler naquele ano. Mas ela sugeria, deixava lá uma listinha. Peguei na biblioteca comunitária da minha cidade – havia uma biblioteca comunitária – e li. Um tio meu, se me recordo bem, tinha um exemplar também e eu o já havia visto pela estante e sei que ele leu, ele lia muito e de tudo. Quem gostava de leitura já havia lido Capitães da Areia, que eu chamava com o de no lugar do da. Demorei muitas vidas para entender o motivo do da Areia, acho que no presságio de ver a areia e o mar e fotografar o livro na solidão do areal aprendi que melhor e mais correto era mesmo Capitães da Areia e não “Capitães de Areia”. Percebi isso enquanto focalizava a câmera para a minha fotografia.

Entendi melhor também as imagens, a poesia nua e a denúncia clara de que a literatura para ser bela não precisa mascarar a verdade. Ela precisa ultrapassar gênero, raça, cor, credo e ela ainda precisa ser assim, mas acho que está se perdendo pelo medo, pelos medos, pela confusão de medos e de lados. A literatura precisa doer, trazer dor tanto quanto alento. Pois a vida é no fundo essa luta constante pelo pão e sobrevivência e se há algum humor aqui ou ali nesse livro, se há as gargalhadas dos capitães da areia... Isso tudo é para nos lembrar justamente que a vida é luta. Luta que se ganha, mas que no fim, não adianta, se perde.

Claro que há passagens amareladas pelo tempo. Fervoroso comunista nos seus romances iniciais, filho rebelde de um coronel do cacau, Jorge Amado tinha suas utopias, mas, ora, e quem não as tem? Mas só um calhorda para não enxergar a beleza que é doutrinada por essa literatura da ação. E isso traz tanta coisa interessante na escrita desse escritor baiano.

O suicídio, que tenho observado de perto, traça uma linha como uma constante via nesses romances iniciais de sua carreira, nem que seja mascarado num mergulho eterno em busca de Iemanjá, tanto quanto sua denúncia sobre as mazelas da vida e a esperança no socialismo como solução maior que o mergulho profundo nas águas de Iemanjá. Não posso dizer que o primeiro aspecto perdurará nas demais obras – nossa conversa ainda será longa e a maré, tanto quanto a areia da praia nunca estão no mesmo lugar, nunca ficam da mesma maneira como as deixamos no dia anterior. As mazelas, sim, continuam como denúncia, com um humor mais constante, mais vivo, numa invenção de inversão da Bahia que, cada vez mais será Salvador de maneira mais clara ao mundo, chegando até a confundir esse mundo que é a Bahia com sua capital que é Salvador. O socialismo também, pois não é preciso se manter filiado ao antigo e verdadeiro partidão para manter em si a ideologia, mesmo que não mais a utópica como nos cânones. Explicando isso são melhores analistas que eu os livros deixados por Eric Hobsbawm, Perry Anderson, Terry Eagleton, Carlos Astarita, Jacob Gorender, Ciro Flamarion Cardoso, Emília Viotti da Costa, Anita Leocádia Prestes, entre tantas reflexões, tantas e tantas mais que já nem sei quais são quais e o que li. Não entrarei em pormenores nessa conversa, preciso beber alguma coisa. Mas os remédios não permitem, a preocupação não permite e minha fraqueza diante da vida, vendo a força diante da morte de uma Dora preparada para o derradeiro final com seus amigos olhando perdidos dentro de si... tudo isso não me permite descanso para a mente, só me espero como cinza um dia espalhado, o vento levando, pois a nenhum lugar pertenço mais e menos me sinto pertencente que não seja a solidão. 



Dos meninos dos trapiches lá do areal, de um Pedro Bala, um Professor, João Grande, o Sem-Pernas, Gato, o Volta Seca ou Pirulito... Estou longe o mais profundo em tudo desses personagens que com certeza ainda zanzam por aí. Estou longe em tudo: história, vida, sofrimento, sobretudo, da força que cada um carrega. Pois, eu estou dizendo: não se engane você, existem por aí muitos deles resistindo e dando gargalhadas. Dos meninos capitães do romance de Jorge Amado, eu sou areia, não sirvo nem para construção de um trapiche. 



segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O velho Timimo

Quanto tempo faz eu não sei. Falar sozinho – para todo mundo é coisa de louco. Mas quanto tempo faz, eu não sei.

Sei pouco do que vem antes.

Filho de uma branca com um negro. Seu pai certamente foi filho de ex-escravos, tenho quase certeza, hei de pesquisar.

Altamiro Gonçalves nasceu na região de Vassouras, meu avô Timimo. Meu vovô Tamiro.

Não sei bem quando migraram à Nova Iguaçu, também não me importa muito. Só sei que ontem sonhei com o velho Timimo, sapateiro que em sua pequena oficina no fundo de uma casa de vila, na Estrada da Água Branca, em Realengo, eu crescia nos recessos escolares para o carnaval carioca vendo-o produzir com as mãos, botas, sapatos dos mais diversos para passistas que desfilariam pela Mocidade Independente de Padre Miguel. No decorrer do ano, sobretudo, julho, “descia” de trem com meus pais para visitá-lo e passar bons finais de semana tendo sua mão na minha, correndo feiras de passarinho aos domingos e sendo apresentado como seu neto nos mais diversos botequins da região, mas principalmente no Vila, onde comi pela primeira vez ovo rosa e bebi malzibier. Ainda hoje, se sorvo um copo de malzibier, sinto meu avô, sinto o cheiro da cola de sapateiro, o vejo envergado com seus cabelos lisos e negros, seus óculos com uma corda preta, seu martelinho e tachinhas batendo em formas de sapatos. Pés de madeira que eu olhava com um olhar curioso. Mas nunca cheguei muito perto da oficina: “o menino tem a saúde frágil, o cheiro de cola faz mal”. Como se o cheiro de cola não impregnasse toda a casa numa mistura do cheiro de feijão preto bem feito de minha avó.

Vi meu avô com curiós, conversando com outros donos de curiós nas feiras. Vi meu avô jogando sinuca, magro, ossudo, olhar sofrido, mas com um riso que ontem me visitou em sonho. Um riso meia boca de quem até quer ser feliz quando via que tinha feito uma jogada bonita na mesa, mas que sabia que a vida lhe foi sofrida e continuava a ser.

Contava histórias. Visitava bastante a casa da minha mãe e do meu pai no morro da Chalet. Morro, dos muitos lugares onde viveu, em que ele mesmo morou com minha mãe, tias, tios, minha avó, muito tempo antes da minha memória. Quando mamãe conheceu papai. Muito antes de todos vocês e de mim.

Visitava muito. Sentava-se no sofá, tinha o hábito de colocar uma das mãos na testa como um pensador em sofrimento, cruzar as pernas num requinte das antigas. Quando morreu, minha mãe o via em mim, no cruzar de pernas ao almoçar no braço do sofá da sala – nunca gostei de comer em mesa: Ou era sentado no chão com um lençol forrado ou no braço do sofá.

Quando minha avó morreu, morreu por dentro meu avô. Minha mãe enfermeira acompanhou as mortes e de outros parentes. Minha mãe entende de morte e sabe sofrer as mortes. Sabe sentir o morrer. À minha mãe eu depositei sem pesar ou remorso o desejo que se eu me for antes – pois alguém sempre vai – que não haja enterro, que meu corpo seja cremado. Igual a ela, meu fim é organizado, passo por passo, documento por documento, seguros por seguros, conta por conta a pagar aos meus credores. Mas que me cremem a pele, os cabelos, os ossos. Quero ser pó o mais rápido, sem vermes me comendo. Sem velório desgastando o tempo. À minha mãe confiei, pois meu pai é medroso e não gosta do assunto. Não que eu e mamãe gostemos, mas sabemos e vivemos. Por isso nos desentendemos nos entendimentos mais do que eu e meu pai. O amor entre uma mãe e um filho não é igual a de um pai e um filho. Minha mãe sabe do diário com a foto do Aldir Blanc e o João Bosco nos anos 70, em sépia, na capa, o diário que não é diário, que escrevo a mão e onde ele estará quando da hora da minha partida. E nele há o que se fazer. O que quero e desquero. E minha mãe respeitará e se ela se for antes, deixará claro que o que eu quero, deve ser respeitado, pois minha mãe entende de morte.

Mas quanto tempo faz eu não sei. Sei que quando minha avó morreu, meu avô morreu junto por dentro. O câncer que já existia e vivia dentro dele quis sua parte. As histórias continuavam debaixo de um pé de mangueira no quintal agradável da minha tia Síndia e meu tio Expedito, irmã de minha mãe e irmão de meu pai. Eu e o Gustavo nos sentávamos para ouvir: seus roubos de pães no período em que serviu o Exército, seu medo de armas, suas histórias com a sinuca. Meu tio comprou uma mesa para seu tempo passar mais tranquilo. A morte vinha. Meu tio é como meu pai, teme a morte mesmo sabendo que ela é uma cobrança que não se adia, não se parcela.

Eu e meu primo Gustavo não sabíamos bem, mas o vovô Tamiro, o vô Timimo estava cada vez mais magro, não tinha muita vontade de falar dos passarinhos, ensinar sobre as tacadas na sinuca que meu tio comprou para ele. O câncer ia lhe tomando mais, tirando o que achava por direito tomar. Pois o câncer é assim, ele é seu, mas no fundo você é dele. Vencer o que é seu é complicado. Quando se vence passamos a não ter medo de não ter medo. Ou o pior: passamos a ter medo de não ter medo de nada. Quanto tempo faz, eu não sei. Um dia converso sobre isso, mesmo que falando sozinho.

Meu avô está deitado, o visito no leito do antigo Hospital Iguaçu. O prédio ainda existe, fechado. Um prédio histórico. Ao menos um braço e uma perna engessei ali na adolescência de traquinagem. Um dia eu converso sobre isso, mesmo que falando sozinho. Já não fala, meu vô. Nem conta histórias de tempos passados.

Meu avô, eu sinto, e hoje sei, sabia e tinha medo da morte, não o medo de não ter medo, como eu tenho, como eu sinto.

Naquele dia do leito, do Hospital Iguaçu, de entrar e sair do fusca que meu pai tinha, eu não sabia, mas foi a última vez que o vi. Ele se despediu com os olhos. Faz tempo. Não fui ao enterro. Fiquei na casa da minha tia e do meu tio com o meu primo. Eu tomando conta dele, ele tomando conta de mim. Não havia muitos amigos. Como hoje também não há. Somos os dois o que somos. Distantes e reflexivos. Ontem sonhei com o velho Timimo. Queria que ele tivesse me visto formado em História. Ele gostava de história e de ler. E tinha muita história por trás dos aros dos seus óculos e muita coisa por baixo das mãos marcadas com cola de sapateiro. Ele me levou ao SASE de Realengo para engessar meu braço esquerdo quebrado, traquinagem boba de menino que brincava só e inventava amigos. Levou-me pela mão, fomos andando da casa de vila até o SASE, ele contando histórias, eu sentindo uma puta dor. Mas ele sorria um sorriso de canto de boa, um sorriso que queria ser feliz, mas sabia que a vida era sofrida.

Hoje beberei um copo de malzibier e brindarei sozinho ao velho Timimo, meu vovô Tamiro, quem sabe até sorrio de canto de boca. Pois eu sei, a vida. A vida...

domingo, 29 de agosto de 2021

A vida que a gente não vê




Talvez, não sei, seja algo como resgatar um tempo de infância. Aquele tempo, você sabe, todos sabem, que escapa por entre os dedos como areia seca de praia.

Numa canção chamada “No Compasso da Mãe Natureza ou O amor, A pureza e a Verdade”, da banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado, os versos seguintes ilustram um pouco essa conversa: Na velhice a infância é verdade/ E o compasso é da mãe natureza.




E o tempo acaba por ser tudo e muito. O tempo da infância um dia deu uma noção de eternidade e no futuro observa-se que ele passava mais acelerado do que o hoje que já chama de volta o amanhã.

Essa noção de tempo de infância, não sei, pois falo por mim, se concretiza muito nas brincadeiras, nos apelidos que vão se metamorfoseando, nas histórias que viram lendas e vão sendo aumentadas de mentiras descabidas e se firmam como verdades irrefutáveis. Nos apelidos e nas mentiras verdadeiras (ou aumentadas) para provocar o riso, desconcertar fazendo rir quem for o fruto do acontecimento aumentado em mentira – e todos nós temos e passamos por esse momento – está o tempo da infância.

Ouso ser ingrato, quem sabe, nem amigos somos, o que é bem infantil. É como aquele colega inseparável do colégio que o tempo da vida levou para outro lugar, rumo, país, futuro ou morte. Digo isso pois cada um no seu credo, religião ou ausência dela, problemas, trabalhos, família e amigos, deposita naquele momento, naquelas travessuras de desce morro, sobe morro, xinga um, xinga outro, o esquecimento do que está ficando lá atrás por algumas horas. É um esquecimento sadio. Nesse momento somos amigos de infância, inseparáveis, que passam por cima da discordância política, de educação, de fé. Não interpretem errado, não que ninguém se fale depois que a imersão em nós mesmos se acaba. Ou que em nenhum momento, mulheres, filhos, o cronograma da semana que já chama o relógio, seja tudo apagado, um por um, uma por uma das nossas mentes. Acho que apenas adormecem.

Mesmo que em alguns momentos a angústia da semana que passou ou a ansiedade da semana que virá venham à tona, a coisa passa rápido. Divide-se o que se quer dividir, se desabafa os dramas pessoais que se quer. Pois sendo crianças há uma inocência na traquinagem, uma ginga de rabo de arraia. O peido fedido. A risada. Se a Bolsa de Valores subir, que importa? Se a conta de luz veio alta, quem se importa? Naquele momento nada importa, pois voltará a importar quando tudo se encerrar. O morro ir ficando para trás na descida ou o suor escorrendo da testa testemunhando que tudo passa numa subida de ladeira alta. Se a Bolsa de Valores subir, importará na segunda para um ou outro. Se o Presidente da República falar mais alguma merda e alguém não achar que é uma merda o que ele defecou em palavras pela boca, importará na segunda... Mas no momento que se vive o tempo da infância, entre a noite de preparação do capacete, da bicicleta, da sapatilha, o café da manhã na madrugada e sair sem fazer barulhos... nesse momento de vivência  somos a infância e seu tempo. Somos o cotidiano quebrado de adultos que um dia pensaram que o tempo demorava a passar quando criança para se tornarem adultos sonhando em resgatar por algumas horas o tempo da infância.

Talvez, nem sejamos amigos. Pouco nos identifiquemos uns com os outros quando tiramos o capacete, os óculos, as luvas ou guardemos as bicicletas nos suportes dos carros. Talvez, nem nos reconheçamos se nos esbarramos na fila do pão, no caixa eletrônico. Porém, no fundo, no fundo, no tempo da infância, nunca houve amigos mais fiéis. E quem olha de longe pensa: “nunca houve amigos mais fiéis do que aquelas crianças com barbas brancas e princípios de calvície”. É a vida que a gente não vê é o “compasso da mãe natureza”.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O suor que escorria e escorre pelas ladeiras do Brasil

 




Talvez dizer que lá vem o Brasil descendo a ladeira não seja mais um axioma – por sinal, palavra bonita: axioma.

O Brasil já desceu há alguns anos ladeiras e ladeiras e não com alegria como quis Os Novos Baianos na conhecida canção. Politicamente, faz tempo, somos um país pobre de consciência social e o modelo dominantes (minoria) exercendo poder sobre os dominados (maioria) se manteve e mantém.

Assim como meu gato Gregório, um bom vira-latas adotado, descansa sob meus pés, mas de quando em quando observa pela janela, as/os personagens do velho casarão na ladeira do Pelourinho, número 68, parecem em alguns momentos estanques frente a realidade mórbida: só parecem.

As mulheres, homens, crianças vão se movimentando como a própria paisagem, mesmo que tal movimento me cause angústias tremendas: O mormaço doía como socos de mãos ossudas. Invadia o sótão e as pessoas.

Mesmo os animais não escapam: O gato ficava espiando junto da porta. Se o mormaço estava muito forte, descia as escadas sem se importar com os ratos que fugiam. Deitava-se então na relva do quintal perto das lavadeiras. Rolava na grama, brincava com bolas de papel e levava pontapés das mulheres de quem sujava a roupa estendida no quaradouro. Quando o sol vinha descendo e as luzes apareciam, voltava para o sótão, entrava no quarto pelo buraco da porta e esperava, atento aos passos.

Publicado originalmente em 1934, Suor, é o terceiro livro de Jorge Amado. Na coleção que leva seu nome, publicada pela Editora Companhia das Letras tem posfácio assinado por Luiz Gustavo Freitas Rossi. Por sinal, belíssimo escrito do antropólogo que em seu currículo possui o pertinente livro As cores da revolução: a literatura de Jorge Amado nos anos 30, publicado pela editora Annablume com apoio da Fapesp, em 2009 (esgotado na editora). Contudo, como é resultado de sua dissertação de mestrado, à quem interessar suas reflexões, segue o link do trabalho no repositório da Universidade Estadual de Campinas: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/282026.

Não sei exatamente que voz ouço, mas o impacto de Suor em mim bateu forte. Firme. Que pesem as críticas que o futuro faria ao menino grapiúna – críticas sempre existirão. Mas digo em alto e bom som, com voz rouca, querendo ser operário, nem que seja das palavras escritas, mal escritas, que vale a leitura, mas entristece o peito a leitura.

Entristece, pois como conversamos, a lógica – ilógica – permanece. Dominantes e dominados, o suor escorrendo pelo corpo, a crise sanitária, a falta de oportunidades, as mazelas: o Brasil. Que pese quem tente exaltar as belezas – axioma – naturais do nosso país, a ausência de catástrofes naturais, guerras (não há guerras em nosso solo?), contudo, a realidade é mais dura. Há catástrofes todos os dias, provocadas pelos conglomerados, pela vitória constante de uma minoria que mantém em cabrestos a maioria, numa ignorância panem et circenses. E a guerra?

A guerra é cotidiana, pela vida, pelo trabalho, dignidade, a guerra é para muitos, a vitória, infelizmente, para poucos.

Não sei se há rancor na minha voz, se é perceptível o rancor, diria quase ódio ao passado que como um mormaço se mantém firme, estático no presente. Há. Sim, há rancor, ódio. Não por alguém, algo. A não ser que se entenda o passado como alguma coisa sólida, o que não é: o passado é passado. O que odeio é que ele permanece imodificável no presente.

O suor pode emanar por diversos motivos dos nossos corpos: o sexo, o medo, o trabalho, a morte e a vida. O suor nos salga a pele e quando não, pode até nos deixar em carne viva, morta como carne seca a ser comida com feijão.

O suor, o cheiro predominante de suor, mijo, merda, feridas, tudo está presente no Suor escrito por um Jorge Amado que naquele momento ia cada vez mais se estabelecendo numa luta inglória.

A capa, a bela capa, num projeto sobre uma foto de Pierre Verger do Pelourinho, Salvador, Bahia, parece reafirmar o que lhes digo: o passado parece ter estancado como o mormaço que produz o pior tipo de suor, aquele que – parece – impregnara para sempre nossos corpos passados e futuros.

Saravá, Jorge Amado, obá de Xangô, filho e ogã de Oxóssi!


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Continuando na seara de Jorge Amado

 


Há menos de um mês conversamos – nós e mais não sei quem – sobre o livro Navegação de Cabotagem, cuja publicação original foi em 1992. Desde que li este livro algo me tocou profundamente. Evidente que a obra literária (e de vida) do escritor baiano, eterno menino grapiúna, habita no nosso imaginário, sejamos de onde formos.

Desde então quis caminhar, melhor, trilhar na minha maturidade ou quase maturidade – neste momento, não faz sequer um mês dos meus trinta e oito anos completos em julho passado – a obra completa de Jorge Amado por ordem cronológica. Não é um objetivo tácito, algo coach: não consegui, sou um derrotado, não me organizei. Com o perdão da erudição mesquitense, Baixada Fluminense, andanças pela Chatuba: foda-se! Se eu conseguir até o final do ano fechar a leitura da obra inteira, bom, se eu não conseguir, bom também. Livros são feitos para serem lidos. Sigamos, sou um moleque de apostos. Sinto muito.

Finalizei os dois primeiros romances, O país do carnaval, de 1931 e Cacau, publicado em 1933. Não espere muito de mim, não quero ser erudito – ao menos que seja a erudição mesquitense – tampouco conversar de maneira profunda sobre o conteúdo dos romances. Quem quiser que leia e torço para que haja condições para tal. Permaneço, sem que seja propaganda, defendendo as edições publicadas na ColeçãoJorge Amado, da editora Companhia das Letras – e que são as que estou adquirindo de pouquinho em pouquinho. Os posfácios presentes em cada livro são de envergonhar qualquer fala minha, pois são fantásticos, o de Cacau, por exemplo, escrito por José de Souza Martins é uma aula que eu gostaria de ter condições de ministrar como professor de História que sou de formação e ganha pão numa Universidade Pública Federal no lindo e forte Nordeste do Brasil (não o digo Universidade Pública Federal por pompa, mas por orgulho e defesa do Ensino Público e gratuito para todas e todos).

Docente titular aposentado de Sociologia na USP, José de Souza Martins, hoje com seus oitenta e dois anos vividos, sabe do que fala em seu texto sobre o romance Cacau. Oxalá, meu camarada Carlos de Oliveira Malaquias, professor de História Econômica no mesmo departamento que o meu na Universidade Federal de Sergipe e que neste segundo semestre de 2021 eu terei a honra de dividir disciplina na Pós-Graduação em História, concorde em encaixarmos esse romance no debate com as pós-graduandas e pós-graduandos em formação.

Com meu camarada Malaquias, mineiro de Curvelo, teço sempre ótimas prosas, no passado regadas a cerveja e tragos de cachaça, sobre a característica ainda tão rural do nosso país. Outro mineiro que se chegou na minha vida, este de Ponte Nova, terra do grande violonista e compositor João Bosco, parceiro maior do meu mestre Aldir Blanc, o Guilherme Queiroz de Souza, professor de História Medieval na Universidade Federal da Paraíba, também tem ouvido muito meus “causos” sobre a empreitada de ler toda obra do grapiúna. Parece que fiz uma trinca de mineiros na minha vida. Um triangulo mineiro – péssimo trocadilho –, mas me parece isso. Primeiro, meu velho irmão de trincheira, conversas pelo Brasil afora, de copo em riste e às vezes os dois taciturnos de cabeça baixa: Leandro Duarte Rust, professor de História Medieval na Universidade de Brasília, nascido em Teixeiras, menino do sopé que olhava o mundo e seu o tempo no horizonte. A ele se somam os dois acima. E a vida segue.

Acho que era para falar sobre O país do Carnaval (cujo posfácio é de José Castello) e sobre Cacau, os dois romances. Não o fiz. Apenas deixo no ar, como crônica que não é para ser lida. Mas os livros e seus posfácios, estes sim, devem ser degustados como boa pinga, boa conversa e abraço amigo e apertado. Aquele aconchego do forno à lenha no frio e o café preto sendo passado ali, assim, ao vivo. Nós vivos.

Sigamos. Inicio Suor, originalmente de 1934.

Até.


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Fluxo de pensamento e bits

É evidente que não devemos falar aquilo que pensamos no instante que pensamos, deve haver um filtro – provavelmente a Ciência já deva ter estudado isso no nosso cérebro – que segure a junção das palavras até que forme uma oração.

Nota mental: fluxo de consciência é em Literatura, no fazer literário, resumindo didaticamente, o pensamento de um personagem sendo descrito pelo narrador enquanto o pensamento ocorre, algo assim. A escritora Virgínia Wolf tem muito isso em seus livros (ao menos é a que li). Em nossa língua, posso dizer de carteirinha que o grande alagoano Graciliano Ramos e o mineiro Guimarães Rosa, faziam como ninguém Fim da Nota mental

Voltando ao que eu chamei de “fluxo de pensamento” – que é quase a mesma coisa que o tal do fluxo mental. É preciso tomar cuidado com essa merda, se não você acaba se tornando um presidente de uma república federativa, cuja Democracia ainda é jovem demais e você se enrolará nos seus fluxos e refluxos, demorará a responder e-mails, enfim, vai fazer merda. Por isso mesmo, se você me ouvir bem, você aí que acha que está lendo, mas na verdade me ouve com sua própria voz, me escute bem: há um lapso entre o que eu penso e o que eu falo. Um lapso grande. Por isso contarei um causo. Gosto de causos em prosas.

O Teixeirinha é um grande amigo meu, um dos melhores, dou meu braço esquerdo pelo Teixeirinha e sou canhoto. Ele gosta de correr, acho que resolve lá seus problemas correndo. Eu acho um saco correr. Mas entendo. Eu por sua vez, pedalo. Hoje, segunda-feira, o dia mais temível da semana – sempre odiei segunda-feira e curiosamente nasci numa – após os afazeres do trabalho fui pedalar no rolo fixo com minha querida Prozac (uma Caloi Comfort 500, ano 2013, modificada em suas peças de fábrica, original, só o quadro, os freios e as rodas). Enquanto me preparava para começar meu exercício do dia, me veio à mente o Teixeirinha e certa vez que ele esteve aqui em casa, fumamos muito charuto e bebemos muita cachaça e ficamos analisando bateristas. Revimos uma três vezes, talvez cinco, um vídeo de análise com partitura das levas de John Bonham, baterista do Led Zeppelin.

Teixeirinha, assim como eu, teve aulas de música quando garoto e sabe lá seus solfejos. Estudou clarinete. Mas diz que queria muito, muito aprender bateria. Curioso que o primeiro contato que todos nós temos com a música, acho que todos, sem sombra de dúvida, é com o batuque de alguma coisa, nem que seja com a testa no chão. Eu por exemplo, história mais que verdadeira e foi o que levou minha mãe a me matricular em aulas de música, é que quando vi o show do Nirvana, em 1993 pela TV e os caras quebrando tudo, pensei: “Putz, isso é rock!”. A coisa ficou estranha em casa. A caixa estourou quando em 1996 comprei com minha mesada o Cd “Roots” do Sepultura e comecei a juntar panelas e tampas, colheres de pau e montei uma “bateria” e “ensaiava” quando chegava do colégio, lá por voltas das 13:00. Minha mãe estava sempre dormindo, pois seus plantões nos Hospitais eram noturnos. Não irei longe. Nunca fui baterista. Fui estudar violão e instrumentos mais “melódicos” na mentalidade da minha mãe.




Se você cresceu entre os anos 80 e 90 com certeza ouviu Phil Collins. Na sua biografia “Ainda estou vivo: uma autobiografia”, Rio de Janeiro, Editora BestSeller, tradução de Phellipe Marcel, 2018 [original: “Not Dead Yet”, de 2016), por sinal, baita livro, o músico no prefácio escreve duas coisas que me marcaram muito e repito em voz alta o que li: “[...] como trabalhei! Se você consegue se lembrar dos anos 1970, certamente não esteve em tantas turnês do Genesis quanto eu, Tony Banks, Peter Gabriel, Steve Hackett e Mike Rutherford. E se você se lembra dos anos 1980, peço desculpas por mim e pelo Live Aid.”


Algumas linhas se seguem e ele finaliza o prefácio e já dá a dica que os compassos dos capítulos que compõem o livro serão frenéticos, leio em voz alta, mais uma vez: “Fui tocado pela morte quando meu pai faleceu, justamente no momento em que a decisão de seu filho hippie de trocar uma vida segura por uma vida na música começou a render frutos. Também fui atacado quando, no curto período de dois anos, Keith Moon e John Bonham morreram, ambos aos 32 anos. Eu os venerava. Lembro de ter pensado, na época: “Esses caras deveriam durar para sempre. São indestrutíveis. São Bateristas.” Meu nome é Phil Collins, sou baterista e sei que não sou indestrutível. Esta é a minha história.”.
Enquanto eu pedalava, uma hora cravada, ouvia o primeiro disco solo do baterista que virou cantor e que tem como pérola a frase: “I’m not singer who plays a bit of drums. I’m a drummer that sings a bit.”


O disco terminou. Como eu usava streaming, joguei para o EP da banda em que seu filho Nic Collins é baterista e um grande baterista!

O coração é ritmo. Pedalar é ritmo. Correr é ritmo. Caminhar é ritmo. Viver é ritmo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Pobre Maiakóvski (Brasil pós-2016)




Perdidos em disputas monótonas,
buscamos o sentido secreto,
quando um clamor sacode os objetos:
"Dai-nos novas formas!"
(Ordem N.º 2 ao Exército das Artes, Vládimir Maiakóvski, tradução de Haroldo de Campos. 
Em: Maiakóvski: Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 93)


Chega um momento na nossa existência que as coisas vão indo tão mal, coisas simples indo tão mal, que a gente acaba se vendo obrigado a usar aquela expressão que resume o "estar na merda", "as coisas estão muito ruins", "Não dá mais...", etc. A tal máxima é: "Brasil pós-2016".

(Nota aos estrangeiros: este termo possui um interessante histórico etimológico e é mais ou menos como a palavra "Saudade", não tem tradução para outros idiomas além do português brasileiro).

Um exemplo didático: você pede uma moela ensopada num boteco para papear um pouco com a patroa sobre a vida, a moela chega fria. Você não diz mais: "que merda"... Você expressa seu descontentamento com: "Brasil pós-2016!". Não satisfeito, pede uma porção de pão de alho. Chega uns nacos de pão com manteiga no forno e um potinho de maionese industrial com aroma artificial "alho". Você xinga? Chama o garçom prum papo? Não! Você diz: "Brasil pós-2016!".

Liga a TV, mais um pacote de cortes... Suspira fundo: "Brasil pós-2016".

Mais uma chacina: "Brasil pós-2016".

Caí no cheque especial de 350% de juros ao ano: "Brasil pós-2016".

Os índios não existem mais, foram abolidos pelo agronegócio: "Brasil pós-2016".

Fecharam uma universidade pública, duas, três: "Brasil pós-2016."

Servidores estaduais e municipais e federais caminhando para a miséria: "Brasil pós-2016"...

Evangélicos estão no poder, empresários são eleitos prefeitos: "Brasil pós-2016".

Mães matam filhos por serem homossexuais, pais chacinam a família por machismo: "Brasil pós-2016".

E assim a gente foi mudando nosso linguajar de pouco a pouco.

É uma coisa meio Etimologias, do Isidoro de Sevilha... 

Entendam cagalhões: Daqui uns séculos "escafandristas virão explorar sua casa", na verdade, seus status no Facebook, e verão que a expressão "Brasil pós-2016" surgiu logo após um surto epidêmico, não de Febre Amarela, de certo modo sim, mas uma febre de camisetas amarelas e de um pato amarelo gigante pelas ruas de São Paulo, gritos nas capitais estaduais, selfies com Policiais Militares. Os escafandristas investigadores descobrirão que a disseminação linguística se deu através do som do Plim Plim, via aparelhos de Televisão e grupos de tiozões no Whatsapp com camisetas com a foto de um homem que apoia Brilhante Ustra e ofendeu uma Presidenta da República que foi torturada durante a Ditadura Civil Militar no Brasil. Para ficar só nisso.


O DNA da máxima "Brasil pós-2016" estava, dirão os escafandristas arqueólogos das palavras, em um tal de "Fora Dilma e leve o PT junto". A mesma senhora que quando jovem teve ratazanas inseridas em sua vagina como método de tortura.



Curiosamente, assim como renascentistas, humanistas e iluministas falando da Idade Média no seu presente passado em tempos remotos, os contemporâneos do "Brasil pós-2016" não se lembrarão das pessoas tiradas da miséria durante os 13 anos petistas, esquecerão, como num surto, a expansão do ensino público, os avanços sociais de igualdade e justiça para os mais necessitados.

A classe média brasileira, aquela infectada pelo vírus da Febre Amarela Política, e mesmo os recém-chegados ao status graças aos tais avanços do passado presente, esses seres contra-História, silenciar-se-ão ignorando suas participações nas marchas pela família, ignorarão os ministros nomeados com ficha suja, emudecerão diante das delações com nomes do governo interino, e depois fixado através de negociatas de privatização e prevaricação, nomes explícitos em listas de propinas. Tudo graças ao mecanismo técnico-biológico do Plim Plim. 

Na explicação do dossiê, os escafandristas dirão: As células se ativavam às notas musicais estridentes e então as vozes bradavam: "Bandido bom, é bandido morto!", "Comunistinha de merda", "Esquerda caviar"... "A culpa não é minha, eu votei no Aécio!", "Vocês também votaram no Vice...", "Transformaram a bandeira do Brasil num símbolo comunista (mas era a bandeira do Japão)", etc. e tal.

Finalmente, esses escafandristas, ao tentarem, mais uma vez, alertar os contra-História, serão silenciados por algum pacote de cortes nas Ciências ou vão ser terminantemente afastados de seus cargos públicos-concursados através de um processo temeroso de redução salarial, lhes cortarão o oxigênio.

No geral, perceberemos que, primeiramente, a estratégia funcionará a partir da diminuição do acesso à internet fixando um limite de dados. Em seguida cortarão o acesso igualitário à universidade pública e gratuita, reduzindo o Ensino Superior ao monopólio de Empresas Educacionais privadas que lidam com a educação através do mesmo modelo de alimentação fast food. Depois, depois a gente não sabe, pois estamos no futuro do passado e fica difícil localizar a narrativa em algum tempo verbal. Não sei se estou aqui ou acolá. À propósito, a voz que você ouve nesse momento tem esse som por ser eu também um escafandrista.



Pobre Maiakóvski, não há nenhuma pessoa feliz no Brasil pós-2016.

sábado, 13 de agosto de 2016

A razão da loucura

Mercado Governador Albano Franco - Aracaju-SE

Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe mais o mangue
(Aracaju - Tomás Improta - Vinícius Cantuária - Caetano Veloso - 1979)

Tenho por costume me levantar um pouco mais tarde nos finais de semana, algo entre às 7:30 e 8:30, por aí. Pego o carro e religiosamente vou aos Mercados Centrais de Aracaju. Não sei, mas o vozerio, a agitação, o vento que vem do rio, o céu azul... tudo isso, e alguma coisa a mais, me faz ter uma sensação boa de vida.

Acredito piamente que nós brasileiros nascemos com uma desigualdade nas pernas muito grande e que se reflete de forma muito evidente no trânsito: um pé muito pesado para o acelerador e o outro muito lento para o freio.
É meio provinciano ou local isso, um exemplo muito específico, eu sei, porém, todos sabem que para sair andando do estacionamento próximo ao Terminal Mercado (o dos ônibus) e atravessar a estreita rua que dá para o espaço de pescados ou o das carnes do Mercado Governador Albano Franco é necessário um balé acrobático. Um equilíbrio extremo, quase passos certeiros de valsa para nos desviarmos dos carros e motos que parecem ter um prazer extremo em ver os pedestres suados sob sol quente de Sergipe, afoitos na tentativa de chegar até o  primeiro Mercado.
Não sou um bom bailarino. Dois pra lá, dois prá cá.
E hoje, não diferente dos outros finais de semana, quase fui pego por um Siena fire prata, quatro portas, placa de Aracaju e tendo um senhor um pouco calvo, cabelos brancos e camiseta como condutor. Acho que ele estava com uma sede tremenda, um ódio tamanho para acertar as contas com alguém – ou ele é assim mesmo – pois quando tentei atravessar à frente do seu objeto de poder, aquilo que o torna um individuo diferente dos caminhantes, ele acelerou mais e quase me pegou. Curiosamente, fui salvo pela fidalguia de um motociclista que parou o trânsito da “segunda faixa” – não sei bem se existem faixas ali.
Em meio ao caos cotidiano, ainda pude ouvir um “filho da puta!” em brados retumbantes do motorista! Pensei comigo, poxa nem um “filho do cabrunco... foi filho da puta mesmo!”. Vida que segue e a minha seguiu.
Fiz o que sempre faço, passei na mesma banca, com o mesmo moço e pedi uma água de coco, trocamos uma ideia e ele fez a mesma piada dos outros tantos finais de semana: “Já se protegendo pra cerveja da tarde!”. Eu sempre sorrio e balanço a cabeça.
Fui no mesmo vendedor de queijo coalho dos sete anos em que vivo em Sergipe. Conversamos sobre a mesma coisa dos últimos cinco e depois enfrentei as calçadas justas e abarrotadas para comprar um filtro d’água. Na volta, de fato, tomei uma cerveja e comi um caldo de mocotó no segundo Mercado, enquanto os chorões afinavam os instrumentos. Fiquei pouco ali.
No vendedor ervas, bati um papo e comprei um capim santo pro bichano e, de costume, atravessei o que eu chamo de Paço, onde fazem os tradicionais forrós de junho. Tudo muito cansativo para que você me ouça, eu sei. Mas a alguns metros de entrar no primeiro Mercado, o das frutas, o dos pescados... aquele em que tempos atrás quase virei parte de asfalto. Ouço uma voz firme, grosseira, me questionando de forma intimidadora: “Você é maluco é?”.
Nesse momento minha educação tipicamente da Baixada Fluminense surgiu como um sentido de Aranha prevendo o perigo. Continuei em passos normais. “VOCÊ É MALUCO, PORRA? ESTOU FALANDO COM VOCÊ!”. A coisa ficou séria.
Parei. Tiro nas costas se não matar aleija.
Olhei firme, porém tranquilo. “VOCÊ É MALUCO, QUER MORRER?”. Ah, a didática do trânsito. A didática do motorista cheio de razão que não leu a cartilha do DETRAN.
Frações de segundo serão transpostas em palavras para você, afinal, a mente humana funciona de maneira muito curiosa e um segundo realmente pode parecer uma eternidade quando tentamos relembrar e concretizar a memória em palavras. Então me dê sua mão e vamos juntos para dentro da minha cabeça naquele instante que agora se eterniza entre nós dois:
Se eu responder que não sou maluco darei razão a ele para converter a violência verbal em violência física, violência evidente para mim, mas evidentemente natural e correta para ele. Eu continuava olhando, se houvesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa. Se eu continuar calado, no máximo ficarei ouvindo mais alguns impropérios desse idoso, mau motorista, mau cidadão, arrogante e que deve ter uma vida fodida, tratar mal seus filhos, mulher. Posso mandá-lo tomar no olho do cu, se danar. Mas isso lhe dará razão para partir para cima de mim. Bater em velho é uma puta sacanagem. Porém também posso apanhar. Puta sacanagem. Ele pode estar armado, pode me matar e ele já quase me matou. Eu continuava olhando para ele, se eu tivesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa, isso só alguns loucos passivos têm. Preciso ser racional. Ficarei parado olhando para ele, sem rir, sem me mexer, a não ser que ele avance. Posso me desviar. Pensei também, confesso, se ele partisse para cima de mim: Posso dar na cabeça dele com a parte de terra da muda de capim santo, o filtro não serve. Não! Vou destruir a muda, destruir o filtro. Fiquei parado, olhando para ele.
“VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA NÃO É? ÔXE! É MALUCO MESMO ESSA PRAGA. NÃO DEVIA TÁ SOLTO POR AÍ NÃO, PODIA TÁ AGRADINDO ALGUÉM. AÍ ATRAVESSA ASSIM DESEMBESTADO. E ESSAS MARCA AÍ NO BRAÇO? É COLEIRA? É MACUMBA?”. Eu parado, olhando. Nós dois, talvez, os únicos no mundo. O tempo parado. Entre o centro e a periferia do Paço. Ele, sei lá de onde. Eu de um morro da Baixada Fluminense. Me equilibrando entre o bem e o mal. Meu silêncio, minha segurança. A voz dos meus pais dizendo na infância que quem anda com porco farelo come. Você tem que estudar. Estudar te fará uma pessoa melhor. Minha mãe na última semana aconselhando: você anda irritadiço. Precisa ser mais calmo. Pode surtar a qualquer momento. Eu chorando ao telefone. Minha mãe me aconselhando. E eu parado ouvindo aquele senhor bradando com dedo em riste que eu era maluco. Louco de pedra. Irracional. Eu. Ele. Nós. Eu pensando isso tudo. Um minuto, talvez. Esse foi o tempo. Talvez. A voz dele amansou. Me chamou de filho. Perguntou onde estavam meus pais. Afinal, eu era um louco, um maluco. Aconselhou que eu não devia ficar perambulando pelo Centro de Aracaju. Aconselhou o caralho, me deu foi bronca. “O Centro é perigoso” ele disse. “Vai, vai. Vai tomar seu ônibus. Vai pra casa!”. Não esbocei palavras durante aquele um minuto, um minuto e meio, realmente não sei medir o tempo. Continuei caminhando, o cheiro bom do capim santo. O vozerio novamente, as mesmas piadas, os abanos de cabeça. O moço dos ovos capoeira. A tia das lambretas. Os cheiros. Sorri. Não olhei para trás. Sorri. Estou ficando mais calmo. Menos irritado como minha mãe aconselhou. Não vou surtar, precisar de remédios, falar com profissionais. Eu terei sempre os Mercados Centrais.


quarta-feira, 4 de maio de 2016

As trincheiras discursivas, os bunkers de monopensamento e o motocontínuo das batalhas campais




São tantas lutas atualmente que não há como nenhuma pessoa se calar diante do cotidiano brasileiro e mesmo mundial. A Internet se tornou um campo discursivo de batalhas diárias ou mesmo uma pedra de mármore fria e gigante dentro de um necrotério, com corpos enfileirados a espera de identificação. Poderia afirmar que ela é também uma grande enfermaria com índios doentes renegados ao esquecimento ou de soldados feridos que lutaram uma guerra de variadas ideologias ou, finalmente, a Rede é uma grande prisão com detentos tuberculosos, tossindo uns nos outros e contaminando mesmo aqueles que ali foram encarcerados por roubar um naco de pão.
Não importa muito a linha metafórica que seguir, é certo que a Internet nos trouxe de maneira acelerada o contato direto com as muitas campanhas militantes que hoje, para apenas tentarmos organizar um pouco as tropas enfileiradas, diríamos que se dividem em três grandes grupos – porém diversos, muito diversos, em suas composições internas.
Você esperou que eu os definisse. Por um momento me forcei a um silêncio reflexivo na tentativa de elencá-los. Não tive capacidade inventiva de nomear cada um deles. Por isso, chamaremos de A, B e C. Na verdade, defini-los já não me importa muito. A bem da verdade, a Internet nos retirou da inocência do Éden e nos possibilitou o dom de conhecermos o bem e o mal. Dito isto, dado o tom da minha voz, posso prosseguir com ou sem você aqui para me ouvir.
Tenho recebido críticas, há tempos, de ser antirreligioso, arduamente contrário aos evangélicos em suas multifacetadas correntes doutrinárias e avesso ao moralismo hipócrita do catolicismo (aquele que mais salta aos olhos). Talvez, essa imagem tenha sido construída por eu nunca ter negado minhas reticências e temores, por exemplo, ao crescimento das igrejas neopentecostais e o silêncio da maioria dos intelectuais ao ignorarem o discurso de seus líderes e um evidente projeto de poder teocrático. Não preciso me justificar. Mas cabem parênteses e eles sempre são necessários: A sociologia e mesmo um jornalismo mais atento (clique aqui) volta e meia buscam tentar compreender e, consequentemente, explicar este fenômeno que agora tomou mais projeção graças aos discursos – católicos e evangélicos, principalmente – por ocasião da votação da abertura de processo de impeachment no Congresso Nacional, no dia 17 de abril. Mais um adendo: Salta-nos sempre aos olhos os discursos fundamentalistas e de forma rasteira e preguiçosa, colocamos num mesmo balaio todo o grupo de católicos e evangélicos, estes últimos realmente mais difíceis de definir em blocos, como se a fala daqueles deputados e deputadas exprimisse fielmente o pensamento de cada uma das muitas igrejas.
O que não pode ser ignorado, que mesmo para os crentes (católicos e evangélicos) que eu coloco numa lista ímpar de construção de opiniões plausíveis e racionalmente vinculadas ao evangelho e avessos a fundamentalismos e moralismos profundos... Mesmo para essas (poucas) amizades e contatos que tenho, é difícil, muito difícil lidar com questões como legalização do aborto, reconhecimento de famílias fundamentadas em homoafetividade, legalização da maconha, ensino das culturas afro-brasileiras nas escolas, educação de gênero, etc. Sempre haverá a sombra de um deus, cuja retórica do amor se baseia, não nos esqueçamos, em aceitá-lo como único salvador e a tal salvação é condicionada às normativas comportamentais que definem um “bom” cristão.
Encerro a longa digressão e se você ainda estiver me ouvindo... Retomo o pensamento.
Naquele fatídico domingo em que vermelhos e amarelos se opuseram nas ruas das principais capitais da República, estrategicamente localizados em pontos que simbolizam o que posso chamar de bunkers de monopensamento, o grosso dos deputados federais iniciou ou encerrou seu voto, incluindo o declaradamente evangélico presidente da Câmara, evocando o tripé deus (cristão), família (tradicional) e fim da corrupção (de quem?). Houve, é claro, aquele que bradou por Ustra e cito aqui para registro. Nos grupos bicolores é possível identificar claramente cristãos, o que reafirma a diversidade que expus acima.
O processo ainda corre, os impactos são tamanhos, as análises infinitas. Por todos os lados, a artilharia é pesada. A questão é que, a meu ver, e acredito que meus olhos são um tanto caleidoscópios, ali nas casamatas (bunkers, para ficar mais elegante) de monopensamento, foram, uma a uma, abertas as trincheiras discursivas, sacramentadas, ordenadas, nas quais cada um de nós, queira quer não, nos alocaríamos, alguns solitários, com nossas baionetas com pontas esferográficas ou de grafite prontas para o chamado. Eu sei. Certa utopia esta minha. Estamos tão perdidos quanto uma matilha sem referências de onde buscar a caça. Atualmente, os secundaristas demonstram mais organização e coesão política que os doutores.
O último grande impacto sentido nas trincheiras e que como demonstrarei, mais uma vez, é fruto de uma longa e histórica omissão dos tenentes e capitãs diplomados após defesas de tese, é o indicativo do Vice-presidente Michel Temer para convocação de um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus para o Ministério da Ciência e Tecnologia – Temer já apronta seu ministério diante da iminente queda, da qual ele contribuiu intimamente, da Presidenta Dilma Rousseff. Essa vinculação política com lideranças religiosas não é nova e exclusividade de Temer.
Ora, Marcos Pereira, advogado, ex-presidente da Record, presidente nacional do PRB e bispo – licenciado – da IURD já aceitou prontamente a função. Está em sua casamata apenas aguardando.
Ouvem-se os primeiros tiros das baionetas, os soldados saem das trincheiras e avançam, mesmo que lentamente, pelo campo de batalha. Estamos todos fadados a uma estanha derrota.
Marc Leopold Benjamim Bloch, medievalista francês que foi morto pelo Regime de Vichy na Segunda Guerra Mundial, escreveu um pertinente livro chamado L’étrange défaite, cujo subtítulo é tão emblemático quanto: Témoignage écrite en 1940. Publicado por esforços ímpares, em 1946, só teve um grande impacto na França em 1990. Paciência, eles também tem suas mazelas. O fato é que das muitas passagens emblemáticas do pequeno grande livro, há uma que eu gostaria de compartilhar com você, felizmente, não por erudição, mas, necessidade, em francês:
Le courage personnel est, chez qui choisit la carière des armes, la plus obligatoire de toutes les vertus professionnelles: si indispensable, en vérité, à la bonne conscience du groupe, qu’il y est de règle de la tenir por allant de soi. Je suis, certain que la grande majorité des officiers de l’active a été fidèle à cette brave tradition. S’il y eut, çà et là, des exceptions – j’en ai connu une ou deux durant la dernière guerre; j’ai cru en retrouver quelques-unes durant celle-ci – elles n’atteignent en rien l’honneur de la collectivité. Elles prouvent simplement que l’habit ne réussit pas toujours à faire le moine, et aussi qu’il est partout des êtres assez dépourvus d’imagination pour adopter un métier sans se représenter à quoi il engage: celui de soldat, par example, sans réaliser qu’um jour, peut-être, la vie de garnison devra ceder le pas à la guerre. Ces faibles sont, au fond, avant tout, de pauvres gens qui se sont trompés. Rest qu’il est, dans le mépris du danger, bien des nuances et des degrés. Mais comment en parler un peu longuement, sans blesser, dans nos mémoires, de secretes pudeurs?
Mas como falar mais longamente do assunto sem ferir pudores secretos em nossas memórias? A omissão jaz justamente nisso. E Bloch apenas é utilizado aqui por mim para ilustrar que o problema conjuntural que enfrentamos é um motocontínuo no campo de batalhas onde abrimos as trincheiras para ou observarmos o combate discursivo ou partirmos delas com baionetas em riste para enfrentar o visível invisível: o modus operandi da governança brasileira. Vale lembrar o caso Daciolo no PSOL.
Há anos atrás, alguns criticaram (movimentos LGBT, principalmente), porém muitos buscaram explicar numa “necessidade de governança e negociação política” para amenizar o fato, a eleição majoritária do Pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados Federais. O problema se dividia em dois parâmetros: O primeiro, lógico, era o Feliciano, que já havia dado demonstrações públicas de sua linha de combate às lutas por direitos travadas pelos e pelas homossexuais, sobretudo. Em segundo, talvez, o mais complexo, por ser ele um pastor de linha neopentecostal. Neste item, não há de se ignorar todo o trabalho de base realizado, historicamente, por católicos e evangélicos em regiões distantes, levando, a seus modos, saúde e educação. Sim, ainda existem padres e pastores comprometidos efetivamente com movimentos de base e causas sociais muito próximas às nossas. De qualquer maneira, entra aqui um aspecto que ignoramos no constante relativismo acadêmico-crítico: esperar de evangélicos e católicos, seja  de qualquer linha, fundamentalista ou não, que aceitem de maneira plena bandeiras como igualdade de gênero, legalização do aborto e da maconha, etc., é no mínimo solicitar que ignorem suas próprias bandeiras doutrinárias e que os mantém no mínimo de coesão.
Claro, conhecemos alguns. Eu conheço. Mesmo assim, são reticentes, se não, silenciosos. Conhecem muito bem a doutrina e sabem que no fundo, no fundo, incorrem em julgo desigual ao defender a legalização da maconha, por exemplo. As palavras matrimônio ou casamento, quando nos referimos às uniões homoafetivas são escutadas por estes em silêncio e certamente, em suas mentes, versículos do Gêneses passam por sua visão. Faça o teste e afirme: ontem fui ao casamento de duas amigas minhas.
De todo modo, nas trincheiras é possível observar: nos alocamos ora na covardia, ora no combate cego e suicida. Ouço conversas sobre risco que a Ciência e a Tecnologia no Brasil passam a correr sendo entregues nas mãos de um, cito, “criacionista” declarado. Como ficarão pesquisas voltadas para o estudo das células tronco, o ativismo dos teóricos de gênero, etc., etc.? Pensar que tal indicação (e aceite) não influenciará na CAPES, no CNPq e em diversos órgãos de fomentos à pesquisa, já tão sucateados, é apenas observar fumando nas trincheiras por nós mesmo abertas.
Ao mesmo tempo, fechar os olhos ao fato que o problema que se coloca aqui é apenas a ponta de mais um iceberg da nossa política é redigir, sem a mesma eloquência e firmeza que demonstrou Marc Bloch, o depoimento adiantado de um vencido. Sem ignorar nesta minha afirmação que o velho francês lutou até o fim na Resistência, vindo a ser assassinado após prisão. Quantos de nós teremos tal disposição combativa?
O que Michel Temer e seu PMDB conduzem desde o domingo, 17 de abril, apenas para ficarmos com uma data fixa, à parte do fato de não ter sido sequer concluído o processo de afastamento, não foge ao histórico de acordos que marcaram a derrota do governo Dilma Rousseff e o seu PT. O jogo de negociatas de Temer não é diferente de anos e anos de um perigoso vício político que resumo abaixo.
Por apoio, vende-se a alma ao diabo e ignora-se que, assim como deus, ele cobra seus favores.
Que me permita o cansaço dos seus olhos-ouvidos, com mais uma longa citação de um livro. Não posso fugir aos medievalistas que indiretamente me influenciaram em suas reflexões. Área que não renegarei jamais. Minha formação específica junto ao diploma História. Reduto de onde teço com minha baioneta minhas críticas, mas que nunca afirmarei ser mais importante que outro a minha volta. E em tempos em que o tacanho acadêmico, como aves de rapina sobrevoam nossas cabeças e apenas assinalam o ego soturno da autoglorificação, é necessário seu esforço na leitura-escuta:
“Ele existe, o Deus das batalhas. As intenções e a vontade dos homens são presididas pela vontade de Deus, que outorga as vitórias e desencadeia as derrotas. Deus não tem o costume de abandonar as causas justas, nem aqueles que de boa-fé o servem. Se, nesse espírito teológico, tentarmos observar as vitórias militares que constituem o estrecho da história do mundo, encontraremos facilmente o sinal dos desígnos da vontade divina. Há muito pouco espaço entre a vitória e a derrota, as circunstâncias do acaso são por demais mutáveis, a batalha mais promissora pode ser perdida pelo feito de ações insuperáveis: ninguém pode estar certo de que a vontade de Deus se inclina para o seu lado”. Foi o que escreveu um general: Francisco Franco. Em 1964. E no dia 25 de julho de 1971, dia da festa de Santiago de Compostela, patrono da Espanha, rodeado de membros de seu gabinete e de duas dezenas de bispos, ajoelhado diante da estátua do santo, ele volta a falar. Para dizer o que? “Durante nossa cruzada de libertação, constatamos que as vitórias mais decisivas foram alcançadas em dias correspondentes às grandes festas da Espanha. Foi o caso da batalha de Brunete, em que, depois de vários dias de combates infrutíferos, a vitória nos coube no dia da festa de nosso santo patrono. Não pode ser diferente quando se combate pela fé, pela Espanha e pela justiça. A guerra se faz mais facilmente quando se tem Deus como aliado.”
Deus. O dos holocaustos e dos desfiles militares o deus da ordem restabelecida. Esse grande cavaleiro lívido que pairava sobre o campo dos mortos, certa noite, em Brunete, pairava em outros tempos sobre Bouvines. Ele paira também sobre Guernica, sobre Auschwitz, sobre Hiroshima, sobre Hanói e sobre todos os hospitais depois de todos os conflitos. Esse deus, tampouco, parece que não morrerá tão cedo. Ele sempre reconhece os seus.
Assim escreveu Georges Duby, no término de seu O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214, lançado em 1973. Acredito que não preciso ressaltar quem foi Francisco Franco, mas é sempre bom lembrar... foi um ditador espanhol extremante sanguinário.
Não se esqueça: deus e o diabo sempre reconhecem os seus e na política brasileira, que urge por uma consistente reforma que renove de uma vez por todas o parlamento, essas duas figuras andam lado a lado há tempos.



*Para não dizer que citei errado:
BLOCH, Marc. L’étrange défaite (Témoignage écrite en 1940). Paris: Gallimard, 1990. p. 135. Original de 1946.
DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214. Tradução de Maria Cristina Frias. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. p. 244. Original de 1973.