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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A solidão ou o que é amizade?

Faz tempo ou mesmo eu não vejo o tempo passar. Você vê? Não sei. O gato dorme aos meus pés e saí antes para fazer a barba, me relaxa fazer a barba. É um bom barbeiro, de lâmina e toalha quente no meu rosto. Calmamente depois de amaciar minha pele, a mesma toalha, já mais fria, cobre meus olhos e sinto a lâmina passar pelo pescoço. Faz tempo.

Era para estar por aqui conversando com você sobre Capitães da Areia, que já li novamente faz tempo. É, faz tempo. Mas não tenho tido forças e nem sei direito o que me move. Se eu pudesse nem me mover me movia. Ia vendo a barba e os cabelos crescerem com o tempo passando e quem sabe a morte chegando tranquila como o gato aos meus pés. Porém, o tempo passa lento, o gato perturba tanto quanto os mosquitos que chegam sem convite quando cai a noite.

Já li uns três livros alguma coisa de quê depois do Capitães da Areia e depois desses três comecei o ABC de Castro Alves, que sucede Capitães da Areia, sabe? Pois é. Faz tempo. Nem sei. Não me lembro bem, mas sei que decidi ler um a um, cada livro – e alguns ainda não tenho – de Jorge Amado na ordem cronológica dos lançamentos originais. Um a um. Mas nem isso me move. Nem a bicicleta me move. Fiz a barba pois estavam me incomodando os pelos do bigode entrando pela boca e, falo a verdade, me relaxa deitar na cadeira do barbeiro nessa cidade pequena que é grande que me faz lembrar da cidade onde eu nasci e ao mesmo tempo esquecer a cidade onde eu nasci... deitar na cadeira do barbeiro me relaxa, pois sentir a toalha quente sobre meu rosto, depois meus olhos vendados e a lâmina percorrendo meu pescoço, nem sei, mas me relaxa.

Não sei bem o que é amizade, acho que nunca soube. Sei que há por aí, espalhadas pelo mundo, tão perto, outros tão longe, umas amizades de contar no dedo. Mesmo assim não sei bem. Pois todo mundo tem problemas. Problemas com família, com dinheiro, consigo mesmo ou até comigo. Acho que às vezes sou um tipo de problema até mesmo para a minha mãe e o meu pai – que o que não vejo os guarde com saúde, pois nem sei, faz tempo e o tempo vai passando. Às vezes bate essa ideia torta que me balança: sou um problema para a minha mãe e para o meu pai. E pensando essa ideia, construindo, me bate forte uma ideia deles lá longe e eu aqui longe também e o tempo passando para todo mundo, já que o tempo passa mesmo. Mas é mais fácil lidar com o tempo passando, a saudade aumentando e a ideia torta crescendo feito barriga gestante, feito barba e cabelos ou crianças mal-educadas por parentes violentos e que se tornam crianças violentas. Ou um amor violento que considera fraqueza qualquer tipo de tristeza diante de qualquer tipo de tristeza, do que lidar com minha cara no espelho.

Faz tempo. Já nem sei. Não há grama mais verde no vizinho, não há nem grama. E não sei direito o que é amizade e por isso fico em silêncio com os pés quentes graças ao gato. Os pés quentes me dão a sensação de vivo, pois morto ou pessoa sem sorte tem pé frio. Não é? Nem sei.

Não pedalo mais. Não acho graça em sair. E se saio é coisa rápida ou mesmo forçado. Mas não pedalo e isso me dói. Dói tanto quanto ouvir de um amor violento que é frescura demais ficar triste pela tristeza. É a síndrome vazia na crença de que se você lida bem com os seus problemas todo mundo tem que lidar. Por isso mesmo me relaxa fazer a barba, a toalha quente sobre meu rosto como que me entorpecendo e de repente meus olhos vendados e a lâmina passando pelo meu pescoço aparando os fios meio brancos, meio ruivos para ficarem brancos da barba que cresce, pois os cabelos já estão grandes.

E todo mundo tem problema, eu sei. Até me satisfaz – não vou mentir – saber que tem gente por aí que lida bem com seus problemas. Mas me bate uma angústia danada e forte de saber que tem gente que só porque lida bem com seus problemas, se motivam num deus, numa santa, numa coisa que não sei o quê, na esperança de viver novamente com quem já se foi ou de ouvir quem já se foi... essa gente que se fia nisso, me angustia quando me falam é frescura, você é fraco. E me vem uma ideia torta – faz tempo, nem sei – de que sou mesmo fraco e, pior, sou um problema para a minha mãe e pai e para as amizades que – olhe lá – conto nos dedos. Eu que nem sei o que é direito amizade, acho que nunca soube e, talvez, nem essas amizades saibam o que é amizade: todo mundo tem problemas e por isso não dá tempo de pensar direito nisso, isso nem é problema, por que basta você ir sumindo e você percebe que ninguém vê ou na verdade você vai sumindo e estão esperando que você pergunte por que elas sumiram e todo mundo no fundo some porque todo mundo está esperando um telefonema, uma mensagem, uma carta de olá, como vai?, mas você, digo, eu, vou sumindo, pois veio essa ideia do amor violento: eu sou mesmo um estorvo, um problema e arranjo problema. E acho mesmo que o problema sou eu e se sou eu, não faz muita diferença ficar incomodando perguntando: olá, como vai?

Faz tempo. Nem sei. É aquela coisa meio chinfrim, você sabe? E vem quem é prolixo, vem quem é alto astral, vem que é do berço da sinceridade e quem quer te mudar o pensamento com frases de efeito: isso é frescura, ficar triste pela tristeza. Aí eu vou ficando em silêncio, vou ficando mudo e acho que mudo a gente vai diminuindo e sumindo. Mas é difícil ficar mudo, é um processo de treinamento e é doloroso.

Acho bonita aquela canção do Paulinho da Viola, Sinal Fechado, acho a letra bonita e é bonito como ele encaixa cada acorde naquela melodia angustiada. E vai sumindo.

Esses malditos mosquitos. Esses malditos remédios. Mas deve ser mais difícil para quem se mete a escrever poesia. Pois quem escreve poesia fica no dilema: dou para o mundo ler ou guardo para mim?

Eu, particularmente, não vejo sentido em poesia que não se dá ao mundo para leitura. Pois poesia quer palco tanto quanto quem pensa em dar cabo um dia dá cabo. Mas aí é ideia minha, ninguém precisa concordar, tanto quanto ninguém precisa chancelar poema como bonito ou feio. Poema é poema. E eu nem entendo direito de poesia, sei que há amores violentos como versos que se encaixam, como há também amizades que se perdem por a gente nem saber o que se tem.

Mas uma coisa é certa, todo mundo tem problema e o meu problema convém mais aos outros do que seus próprios problemas. Todo mundo tem uma solução para o meu problema, às vezes com uma carga tão violenta de certeza que chego a me envergonhar de ousar a falar do que eu julgo serem meus problemas – tem gente com problema pior que o teu! Fraqueza, frescura! – e por isso para quê ficar me expondo? Faz tempo e o vento vai mudando e o que é mesmo amizade? Talvez nem o gato esquentando os meus pés saiba dizer, se ele falasse.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O velho Timimo

Quanto tempo faz eu não sei. Falar sozinho – para todo mundo é coisa de louco. Mas quanto tempo faz, eu não sei.

Sei pouco do que vem antes.

Filho de uma branca com um negro. Seu pai certamente foi filho de ex-escravos, tenho quase certeza, hei de pesquisar.

Altamiro Gonçalves nasceu na região de Vassouras, meu avô Timimo. Meu vovô Tamiro.

Não sei bem quando migraram à Nova Iguaçu, também não me importa muito. Só sei que ontem sonhei com o velho Timimo, sapateiro que em sua pequena oficina no fundo de uma casa de vila, na Estrada da Água Branca, em Realengo, eu crescia nos recessos escolares para o carnaval carioca vendo-o produzir com as mãos, botas, sapatos dos mais diversos para passistas que desfilariam pela Mocidade Independente de Padre Miguel. No decorrer do ano, sobretudo, julho, “descia” de trem com meus pais para visitá-lo e passar bons finais de semana tendo sua mão na minha, correndo feiras de passarinho aos domingos e sendo apresentado como seu neto nos mais diversos botequins da região, mas principalmente no Vila, onde comi pela primeira vez ovo rosa e bebi malzibier. Ainda hoje, se sorvo um copo de malzibier, sinto meu avô, sinto o cheiro da cola de sapateiro, o vejo envergado com seus cabelos lisos e negros, seus óculos com uma corda preta, seu martelinho e tachinhas batendo em formas de sapatos. Pés de madeira que eu olhava com um olhar curioso. Mas nunca cheguei muito perto da oficina: “o menino tem a saúde frágil, o cheiro de cola faz mal”. Como se o cheiro de cola não impregnasse toda a casa numa mistura do cheiro de feijão preto bem feito de minha avó.

Vi meu avô com curiós, conversando com outros donos de curiós nas feiras. Vi meu avô jogando sinuca, magro, ossudo, olhar sofrido, mas com um riso que ontem me visitou em sonho. Um riso meia boca de quem até quer ser feliz quando via que tinha feito uma jogada bonita na mesa, mas que sabia que a vida lhe foi sofrida e continuava a ser.

Contava histórias. Visitava bastante a casa da minha mãe e do meu pai no morro da Chalet. Morro, dos muitos lugares onde viveu, em que ele mesmo morou com minha mãe, tias, tios, minha avó, muito tempo antes da minha memória. Quando mamãe conheceu papai. Muito antes de todos vocês e de mim.

Visitava muito. Sentava-se no sofá, tinha o hábito de colocar uma das mãos na testa como um pensador em sofrimento, cruzar as pernas num requinte das antigas. Quando morreu, minha mãe o via em mim, no cruzar de pernas ao almoçar no braço do sofá da sala – nunca gostei de comer em mesa: Ou era sentado no chão com um lençol forrado ou no braço do sofá.

Quando minha avó morreu, morreu por dentro meu avô. Minha mãe enfermeira acompanhou as mortes e de outros parentes. Minha mãe entende de morte e sabe sofrer as mortes. Sabe sentir o morrer. À minha mãe eu depositei sem pesar ou remorso o desejo que se eu me for antes – pois alguém sempre vai – que não haja enterro, que meu corpo seja cremado. Igual a ela, meu fim é organizado, passo por passo, documento por documento, seguros por seguros, conta por conta a pagar aos meus credores. Mas que me cremem a pele, os cabelos, os ossos. Quero ser pó o mais rápido, sem vermes me comendo. Sem velório desgastando o tempo. À minha mãe confiei, pois meu pai é medroso e não gosta do assunto. Não que eu e mamãe gostemos, mas sabemos e vivemos. Por isso nos desentendemos nos entendimentos mais do que eu e meu pai. O amor entre uma mãe e um filho não é igual a de um pai e um filho. Minha mãe sabe do diário com a foto do Aldir Blanc e o João Bosco nos anos 70, em sépia, na capa, o diário que não é diário, que escrevo a mão e onde ele estará quando da hora da minha partida. E nele há o que se fazer. O que quero e desquero. E minha mãe respeitará e se ela se for antes, deixará claro que o que eu quero, deve ser respeitado, pois minha mãe entende de morte.

Mas quanto tempo faz eu não sei. Sei que quando minha avó morreu, meu avô morreu junto por dentro. O câncer que já existia e vivia dentro dele quis sua parte. As histórias continuavam debaixo de um pé de mangueira no quintal agradável da minha tia Síndia e meu tio Expedito, irmã de minha mãe e irmão de meu pai. Eu e o Gustavo nos sentávamos para ouvir: seus roubos de pães no período em que serviu o Exército, seu medo de armas, suas histórias com a sinuca. Meu tio comprou uma mesa para seu tempo passar mais tranquilo. A morte vinha. Meu tio é como meu pai, teme a morte mesmo sabendo que ela é uma cobrança que não se adia, não se parcela.

Eu e meu primo Gustavo não sabíamos bem, mas o vovô Tamiro, o vô Timimo estava cada vez mais magro, não tinha muita vontade de falar dos passarinhos, ensinar sobre as tacadas na sinuca que meu tio comprou para ele. O câncer ia lhe tomando mais, tirando o que achava por direito tomar. Pois o câncer é assim, ele é seu, mas no fundo você é dele. Vencer o que é seu é complicado. Quando se vence passamos a não ter medo de não ter medo. Ou o pior: passamos a ter medo de não ter medo de nada. Quanto tempo faz, eu não sei. Um dia converso sobre isso, mesmo que falando sozinho.

Meu avô está deitado, o visito no leito do antigo Hospital Iguaçu. O prédio ainda existe, fechado. Um prédio histórico. Ao menos um braço e uma perna engessei ali na adolescência de traquinagem. Um dia eu converso sobre isso, mesmo que falando sozinho. Já não fala, meu vô. Nem conta histórias de tempos passados.

Meu avô, eu sinto, e hoje sei, sabia e tinha medo da morte, não o medo de não ter medo, como eu tenho, como eu sinto.

Naquele dia do leito, do Hospital Iguaçu, de entrar e sair do fusca que meu pai tinha, eu não sabia, mas foi a última vez que o vi. Ele se despediu com os olhos. Faz tempo. Não fui ao enterro. Fiquei na casa da minha tia e do meu tio com o meu primo. Eu tomando conta dele, ele tomando conta de mim. Não havia muitos amigos. Como hoje também não há. Somos os dois o que somos. Distantes e reflexivos. Ontem sonhei com o velho Timimo. Queria que ele tivesse me visto formado em História. Ele gostava de história e de ler. E tinha muita história por trás dos aros dos seus óculos e muita coisa por baixo das mãos marcadas com cola de sapateiro. Ele me levou ao SASE de Realengo para engessar meu braço esquerdo quebrado, traquinagem boba de menino que brincava só e inventava amigos. Levou-me pela mão, fomos andando da casa de vila até o SASE, ele contando histórias, eu sentindo uma puta dor. Mas ele sorria um sorriso de canto de boa, um sorriso que queria ser feliz, mas sabia que a vida era sofrida.

Hoje beberei um copo de malzibier e brindarei sozinho ao velho Timimo, meu vovô Tamiro, quem sabe até sorrio de canto de boca. Pois eu sei, a vida. A vida...

quinta-feira, 27 de maio de 2021

12 anos de Universidade Federal de Sergipe

Universidade Federal de Sergipe - Campus São Cristóvão




Dia 27 de maio de 2009, uma quarta-feira. Eu e mais umas duas pessoas aprovadas em concurso público de provas e títulos, assinávamos o Termo de Posse como Servidores Públicos Federais, novos docentes. Eu havia chegado no domingo, dia 24 de maio, meus pais me levaram ao Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Meu pai me abraçou e apertou minhas mãos olhando com seus olhos verdes, querendo chorar, nos meus castanhos escuros já chorando. Minha mãe me abraçou e chorou, disse algo quase sussurrando no meu ouvido, que nunca me esqueci e mantenho firme, gostem ou não de mim. Ela disse assim: “Nunca esqueça de onde você partiu, não esqueça tudo o que você lutou para chegar aonde chegou, mas principalmente, de onde você é, quem você é, onde é sua casa, onde você nasceu.”
Nasci no dia 18 de julho de 1983, às 06:20 – em ponto – de uma tarde chuvosa e fria, em Mesquita, Primeiro Distrito do Munício de Nova Iguaçu. Parto normal e rápido. Meu pai trabalhava no comércio, em Madureira, numa rede chamada Papelaria América, entrou como auxiliar de serviços gerais e aos poucos chegou a Gerente de uma das filiais, passou por várias, Rua Uruguaiana, no Centro do Rio de Janeiro, Rua da Alfândega, Cascadura, Nilópolis... Minha mãe foi auxiliar de cozinha, trabalhou com faxina em casas de gente rica, oriunda ainda naquela época da aristocracia iguaçuana e que nos anos 90 migrou para a Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes... Morávamos num sítio enorme, as terras eram baratas em Mesquita nos finais dos anos 70 e início dos anos 80, a casa era “bem ajeitadinha”, segundo conta minha mãe. Era uma casa de estuque, o que chamamos aqui em Sergipe de “casa de taipa”. Não havia luz elétrica, uma pequena televisão de imagem preta e branca conectada numa bateria de carro não me chamava atenção. Eu gostava de ficar no chão da casa brincando com bonecos, trecos de todo o tipo, ou correr entre as plantações de cana, café, pés de jaca, manga espada e carlotinha. Havia muitos abacateiros também, além de araçá e goiaba (branca e vermelha), isso quem conta é meu pai. Essas minhas incursões me renderam quase morrer afogado numa fonte que havia ao lado de nossa casa, o que me salvou foi o instinto rápido de minha mãe e as várias vitórias-régias e um velho que não lembro o nome – depois ligo para o Rio de Janeiro para perguntar – que tinha um sítio vizinho ao nosso e capinava seu terreno no outro lado da cerca de arame. Eu tinha problemas de saúde: não peguei peito, logo não mamava leite materno, não comia direito e o ambiente era muito frio no inverno e no verão mesmo que o sol não fosse algo diretamente chocante, as muitas árvores e a mata atlântica oriunda da Serra do Mendanha que é todo um maciço que circunda a geografia entre Baixada Fluminense e Zona Oeste etc. tornava a necessidade de respirar complexa para mim. Na verdade, a geografia do Estado do Rio de Janeiro é fantástica, a própria capital tem um quê de charme medonho: uma cidade espremida entre as montanhas, morros e o mar. Com quase dois anos de idade completos, meus pais e tios (irmão do meu pai casado com a irmã da minha mãe) que também moravam no grande sítio, aonde também residiam minha avó paterna e seus dois filhos: um tio mais novo e uma tia doidona mais velha que até hoje não fala com o restante da família, compraram uma casa – mais abaixo da montanha. Mudaríamos então para o Morro da Chalet, n. 300, hoje no bairro Santa Terezinha, no agora munícipio de Mesquita. 12 anos. E ainda tenho sotaque. 12 anos e ainda sinto o cheiro das árvores no quintal da minha infância. 12 anos e não vejo muito sentido em tudo que fiz para chegar aonde cheguei, mesmo chegando. 12 anos e aprendi que assim como a força do amor da minha mãe e do meu pai, proporcionalmente, eu não sabia, quando via minha – já formada – enfermeira, trabalhando para o SUS, se doando, ganhando pouco, com o branco do uniforme com gotas de sangue que não eram seu – que o ódio, inveja, rancor, contra Servidores Públicos iria me fazer o mesmo mal que fez à ela, levando-a ao poço da depressão, aos remédios, psicólogos, psiquiatras. Sigo o mesmo caminho, mas ao menos ainda há a Prozac. Quando converso com minha mãe e questiono se não há um excesso de drama, sua firmeza e sutileza de quem nasceu em Marechal Hermes, subúrbio do Rio de Janeiro, viveu a infância em Cabuçu e Mesquita, ela me aconselha: 
se disserem que você está fazendo drama ou é fraco: Manda se foder”.
 

sábado, 13 de agosto de 2016

A razão da loucura

Mercado Governador Albano Franco - Aracaju-SE

Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe mais o mangue
(Aracaju - Tomás Improta - Vinícius Cantuária - Caetano Veloso - 1979)

Tenho por costume me levantar um pouco mais tarde nos finais de semana, algo entre às 7:30 e 8:30, por aí. Pego o carro e religiosamente vou aos Mercados Centrais de Aracaju. Não sei, mas o vozerio, a agitação, o vento que vem do rio, o céu azul... tudo isso, e alguma coisa a mais, me faz ter uma sensação boa de vida.

Acredito piamente que nós brasileiros nascemos com uma desigualdade nas pernas muito grande e que se reflete de forma muito evidente no trânsito: um pé muito pesado para o acelerador e o outro muito lento para o freio.
É meio provinciano ou local isso, um exemplo muito específico, eu sei, porém, todos sabem que para sair andando do estacionamento próximo ao Terminal Mercado (o dos ônibus) e atravessar a estreita rua que dá para o espaço de pescados ou o das carnes do Mercado Governador Albano Franco é necessário um balé acrobático. Um equilíbrio extremo, quase passos certeiros de valsa para nos desviarmos dos carros e motos que parecem ter um prazer extremo em ver os pedestres suados sob sol quente de Sergipe, afoitos na tentativa de chegar até o  primeiro Mercado.
Não sou um bom bailarino. Dois pra lá, dois prá cá.
E hoje, não diferente dos outros finais de semana, quase fui pego por um Siena fire prata, quatro portas, placa de Aracaju e tendo um senhor um pouco calvo, cabelos brancos e camiseta como condutor. Acho que ele estava com uma sede tremenda, um ódio tamanho para acertar as contas com alguém – ou ele é assim mesmo – pois quando tentei atravessar à frente do seu objeto de poder, aquilo que o torna um individuo diferente dos caminhantes, ele acelerou mais e quase me pegou. Curiosamente, fui salvo pela fidalguia de um motociclista que parou o trânsito da “segunda faixa” – não sei bem se existem faixas ali.
Em meio ao caos cotidiano, ainda pude ouvir um “filho da puta!” em brados retumbantes do motorista! Pensei comigo, poxa nem um “filho do cabrunco... foi filho da puta mesmo!”. Vida que segue e a minha seguiu.
Fiz o que sempre faço, passei na mesma banca, com o mesmo moço e pedi uma água de coco, trocamos uma ideia e ele fez a mesma piada dos outros tantos finais de semana: “Já se protegendo pra cerveja da tarde!”. Eu sempre sorrio e balanço a cabeça.
Fui no mesmo vendedor de queijo coalho dos sete anos em que vivo em Sergipe. Conversamos sobre a mesma coisa dos últimos cinco e depois enfrentei as calçadas justas e abarrotadas para comprar um filtro d’água. Na volta, de fato, tomei uma cerveja e comi um caldo de mocotó no segundo Mercado, enquanto os chorões afinavam os instrumentos. Fiquei pouco ali.
No vendedor ervas, bati um papo e comprei um capim santo pro bichano e, de costume, atravessei o que eu chamo de Paço, onde fazem os tradicionais forrós de junho. Tudo muito cansativo para que você me ouça, eu sei. Mas a alguns metros de entrar no primeiro Mercado, o das frutas, o dos pescados... aquele em que tempos atrás quase virei parte de asfalto. Ouço uma voz firme, grosseira, me questionando de forma intimidadora: “Você é maluco é?”.
Nesse momento minha educação tipicamente da Baixada Fluminense surgiu como um sentido de Aranha prevendo o perigo. Continuei em passos normais. “VOCÊ É MALUCO, PORRA? ESTOU FALANDO COM VOCÊ!”. A coisa ficou séria.
Parei. Tiro nas costas se não matar aleija.
Olhei firme, porém tranquilo. “VOCÊ É MALUCO, QUER MORRER?”. Ah, a didática do trânsito. A didática do motorista cheio de razão que não leu a cartilha do DETRAN.
Frações de segundo serão transpostas em palavras para você, afinal, a mente humana funciona de maneira muito curiosa e um segundo realmente pode parecer uma eternidade quando tentamos relembrar e concretizar a memória em palavras. Então me dê sua mão e vamos juntos para dentro da minha cabeça naquele instante que agora se eterniza entre nós dois:
Se eu responder que não sou maluco darei razão a ele para converter a violência verbal em violência física, violência evidente para mim, mas evidentemente natural e correta para ele. Eu continuava olhando, se houvesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa. Se eu continuar calado, no máximo ficarei ouvindo mais alguns impropérios desse idoso, mau motorista, mau cidadão, arrogante e que deve ter uma vida fodida, tratar mal seus filhos, mulher. Posso mandá-lo tomar no olho do cu, se danar. Mas isso lhe dará razão para partir para cima de mim. Bater em velho é uma puta sacanagem. Porém também posso apanhar. Puta sacanagem. Ele pode estar armado, pode me matar e ele já quase me matou. Eu continuava olhando para ele, se eu tivesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa, isso só alguns loucos passivos têm. Preciso ser racional. Ficarei parado olhando para ele, sem rir, sem me mexer, a não ser que ele avance. Posso me desviar. Pensei também, confesso, se ele partisse para cima de mim: Posso dar na cabeça dele com a parte de terra da muda de capim santo, o filtro não serve. Não! Vou destruir a muda, destruir o filtro. Fiquei parado, olhando para ele.
“VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA NÃO É? ÔXE! É MALUCO MESMO ESSA PRAGA. NÃO DEVIA TÁ SOLTO POR AÍ NÃO, PODIA TÁ AGRADINDO ALGUÉM. AÍ ATRAVESSA ASSIM DESEMBESTADO. E ESSAS MARCA AÍ NO BRAÇO? É COLEIRA? É MACUMBA?”. Eu parado, olhando. Nós dois, talvez, os únicos no mundo. O tempo parado. Entre o centro e a periferia do Paço. Ele, sei lá de onde. Eu de um morro da Baixada Fluminense. Me equilibrando entre o bem e o mal. Meu silêncio, minha segurança. A voz dos meus pais dizendo na infância que quem anda com porco farelo come. Você tem que estudar. Estudar te fará uma pessoa melhor. Minha mãe na última semana aconselhando: você anda irritadiço. Precisa ser mais calmo. Pode surtar a qualquer momento. Eu chorando ao telefone. Minha mãe me aconselhando. E eu parado ouvindo aquele senhor bradando com dedo em riste que eu era maluco. Louco de pedra. Irracional. Eu. Ele. Nós. Eu pensando isso tudo. Um minuto, talvez. Esse foi o tempo. Talvez. A voz dele amansou. Me chamou de filho. Perguntou onde estavam meus pais. Afinal, eu era um louco, um maluco. Aconselhou que eu não devia ficar perambulando pelo Centro de Aracaju. Aconselhou o caralho, me deu foi bronca. “O Centro é perigoso” ele disse. “Vai, vai. Vai tomar seu ônibus. Vai pra casa!”. Não esbocei palavras durante aquele um minuto, um minuto e meio, realmente não sei medir o tempo. Continuei caminhando, o cheiro bom do capim santo. O vozerio novamente, as mesmas piadas, os abanos de cabeça. O moço dos ovos capoeira. A tia das lambretas. Os cheiros. Sorri. Não olhei para trás. Sorri. Estou ficando mais calmo. Menos irritado como minha mãe aconselhou. Não vou surtar, precisar de remédios, falar com profissionais. Eu terei sempre os Mercados Centrais.


quinta-feira, 12 de maio de 2016

A vida que segue...



Dedico aos meus pais, Alvaro e Cristina.
Para Henrique de Souza Filho, o Henfil.
Para eles, meus respeitos.

Não é a frase que dói, mas a constatação de que a vida de fato segue. Correremos muitos, como críticos de fim de churrasco, para buscarmos a explicação para a vida que segue... e não encontraremos. Apenas cacos de vidros quebrados pelo chão.
Hoje, quinta-feira, manhã seguinte à votação no Senado Federal: Eu liguei para pedir ajuda ao meu pai, respondi algumas mensagens, folheei um livro e pouco li das notícias. Tem sido esse o meu dia.
Fui ao centro e as ruas permaneciam cheias, os carros iam e viam. Não almocei. Entreguei o lixo e o mesmo sorriso do funcionário do condomínio: Boa tarde, Bruno. Ele vai e volta de bicicleta. Casa – Trabalho. Trabalho – Casa. Foi assim hoje pela manhã. Será assim amanhã. Será assim no final do mês.
Logo mais, me sentarei na minha sala – as repartições ainda funcionam – ouvirei as argumentações de uma orientanda de monografia que quer concluir seu curso, assumir algum cargo público de seleção que não há e não haverá por um bom tempo, na esperança de iniciar sua vida, talvez, ignorando que ela começou desde o seu nascimento.
A vida que segue e, certamente, sem a gente saber exatamente os motivos.
Fadados ao desânimo, as contas continuarão sendo emitidas, os direitos pouco a pouco sendo reprimidos diretamente àquela geração, a que faço parte, que jamais sentiu na pele tal situação e me refiro aqui comparando àqueles que viveram durante os anos de repressão da Ditadura de 1964 e que estariam numa mesma posição que a minha agora.
A questão a se colocar, sensível, eu sei, é que se um levantamento sincero for feito com alguém que tenha hoje sessenta e poucos anos e que viveu num subúrbio qualquer do Brasil e que não era vinculada a nenhum tipo de movimento político, sem acesso a educação, pouco recordará daqueles 31 anos de silêncio e torturas. Talvez, justamente pelo silêncio e manipulação midiática. Talvez, pelo excesso de trabalho, pela família a sustentar, pela falta de saneamento básico, pela vida que lhes era imposta.
Ora, hoje o quadro permanece o mesmo: a mídia manipula, o silêncio sacramenta-se e as bocas e barrigas vazias pedem pão. Mães e pais continuam suas jornadas duplas em busca do sustento. A vida melhorou nos últimos 12, 13 anos, e a maioria dessas mulheres e homens associam ao Partido dos Trabalhadores, vide o considerável número de votos nas últimas eleições. Mas, afinal, é via Rede Globo que eles veem o futebol, as novelas, as notícias. Cotidianamente lhes é imposta uma sinuca de bico, pois é essa mesma emissora que manipula de maneira tacanha as informações negativadas sobre o PT.
Eu diria até que para o meu pai e outros trabalhadores que conheço, a vida de maneira automática se amenizará a partir de uma breve possível calmaria... Fico feliz por isso. Sempre vi meus pais batalhando por meu sustento, abrindo mão da própria felicidade. Prefiro que eles sejam felizes. Fizeram escolhas naquele tempo: Trabalho – Casa/ Casa – Trabalho. Mesmo quando tudo melhorou e melhorou, não posso ignorar que a luta diária permanecia a mesma.
Neste momento, seria fácil apontar culpados frente a alienação que testemunhamos: Igreja, Corrupção, Falta de Consciência da importância do Voto Democrático, Mídia etc. Mas, se há falta de mobilização popular, se ela existe como falta, é pelo marasmo que respiramos todos nós. Pois, o povo foi às ruas, aliás, o povo nunca saiu das ruas, das ruas tiram seu sustento, o povo conhece melhor do que ninguém os becos, as saídas das crises, como lidar com a polícia e o ladrão. Lembro-me bem do meu pai chegando cansado, muitas vezes caminhava quilômetros e quilômetros para visitar seus clientes nos subúrbios com a sua pasta marrom e amostras de plastic, não almoçava, vivia uma vida dura para me dar estudo formal, quando a educação estava ali, todo dia em que eu presenciava ele e minha mãe regressando do trabalho.
O fracasso histórico no Brasil está nos pseudointelectuais como eu e meus colegas. Não está em gente como os meus pais. Está naqueles que frequentam butecos populares, quando existiam, com olhar analista-antropológico e se acham vanguardistas conhecedores do popular, pois se mijam após o porre de cerveja ou fumam um cigarro de maconha misturado com bosta de vaca ou compram uma ampola de cocaína do negrinho da esquina misturada com pó de mármore. São risíveis em seus carros importados, parcelados em 60 vezes e em seus apartamentos com decoração artesanal. Pagos com Visa Platinum. Sim, estou puto comigo mesmo. Mas, vale muito uma autocrítica.
Hoje, o futuro pertence aos secundaristas, os que na maioria ainda nem votam, meninos e meninas que têm construído uma consciência política a qual não tive acesso com aulas de Educação Moral e Cívica nos melhores colégios que o suor que os plantões noturnos de minha mãe em hospitais já sucateados naquela época puderam me dar. Essa garotada vem de lugares fodidos, são filhos de um verdadeiro proletariado que trabalha, na sua maioria, em fábricas e lojas de departamento e temem pelo dia a dia dos rebentos enfrentando o braço armado do Estado. É certo que sempre existirão meninas e meninos de famílias abastadas que fogem a regra brasileira de ignorarem a faxineira, o garçom... A luta deles, seu apoio nas ruas aos alunos de escolas estaduais é mais que bem vindo tanto quanto necessário. O problema não está, no fundo, no fundo, em quem é mais rico ou mais pobre, mas na maneira em como os que mais tem encaram os que lutam pelo pouco não lhes chega. Não há luta menor se ela é pela igualdade social.
De qualquer maneira, minha geração foi fadada à titulação, mestres e doutores, e uma substancial parcela não oriunda das esferas oligárquicas. Evoé!
Esse aspecto, brado em bom som, foi obra majoritária do Partido dos Trabalhadores e nele me incluo com um orgulho que não me envergonha.
Mas, apesar das dificuldades enfrentadas para chegar até aqui, nós nos afastamos da prática. Da rua. Da origem. Mesmo as jornadas de junho de 2013, capitaneadas por nós intelectuais-gestores, tem sua origem em movimentos periféricos. Movimentos de gente cansada de sofrer, de ir e vir em ônibus lotados, de serem oprimidas sem o teto para o descanso. Gente que cresceu sendo revistada brutalmente pela Polícia Militar de seu Estado. Mas, eis que os títulos de nobreza, agora um pouco melhor distribuídos entre os pobres, desconfiguraram tudo, ou nós tiramos o seu sentido. Viramos intelectuais de gabinete e quando não, analistas de buteco e de samba de roda.
No fundo, tenho é vergonha de mim. Em muitos sentidos tenho uma ardente vergonha que me remete ao silêncio tácito e que quebro nesse vômito amargo de bílis. E me vem à memória para aumentar meu descontentamento pessoal, uma certa madrugada de desespero, em que assustado com a insônia me dei conta que meu maior medo é que jamais serei um ser humano como foram meus pais. Jamais terei a força deles de me manter de pé com meus próprios pés. Mas, no dia seguinte, com olhos vermelhos de tanto chorar em silêncio na janela que dá para a avenida, pensei: é coisa de momento, tristeza passageira. Usei toda a racionalidade conquistada nos anos de universidade para ignorar o definitivo: a verdade nua e crua que jamais serei como eles e isso me dói. Tenho o rompante de abandonar tudo. Jogar-me no mundo, sumir, parar de escrever. Tornar-me um ermitão num buraco de tanta vergonha. Mas este sou eu.
Na verdade, tudo o que vimos e veremos é muito reflexo do dia a dia, da vida que segue. Do momento. Das pessoas que não tomam a frente no fazer, no arado intelectual. Trabalhadores intelectuais frágeis, em sua maioria, que se escondem nas obrigações de gestão. Como eu. Como você que me lê. É mais fácil o comodismo das conversas de corredores, no cafezinho do sindicato. É mais fácil criticar pelas costas, em surdina ou usar alunos para a velha política egocêntrica de problema psicológico de autorreconhecimento que, talvez, um livro de autoajuda corrigiria.
Tudo é, de fato, reflexo da vida que segue. Do medo de dizer não. Da vontade de dizer sim que não se concretiza. Do medo de discordar de quem está à sua frente. O problema está em nós: está em nos distanciarmos do “cidadão comum” ignorando que somos como ele e testemunhamos, apenas por outro prisma, tudo se acabar na quarta-feira. Nós, de ressaca e com fantasias vermelhas de folião cansado, ele varrendo o chão de nossas serpentinas e de vômito de derrotados. Quem sabe, se pegássemos na vassoura ao seu lado, a coisa não seria como o é.

Mas, a vida que segue...

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Alguém lembrou do Escovinha (ou ossatura da memória)



Estou no mesmo quarto onde tantas outras vezes estive – aliás, temo dizer que daqui é que um dia tudo partiu em vozes, gestos transmutados em palavras.

Cada um se depara com suas memórias de maneira ímpar, praticamente, única. Seja um velho perfume que remeterá à infância, seja um som de um pássaro qualquer. A questão é o que tiramos, cada um de nós, de tais lembranças. Sejam elas nostálgicas ou não.
Na verdade, a bem da verdade, devo dizer que não sei bem definir o que há em mim de nostalgia, saudade, memória ou lembrança. Já quando percorríamos na quinta-feira à noite as ruas da velha cidade da minha meninice, as cadeiras na rua, as crianças desnudas e descalças nas calçadas com narizes escorrendo ou mesmo os chinelos demarcando o gol a gol interrompido pela passagem do carro... já nisso eu me perdia na ausência de definição. E digo mais, mesmo as luzes, as muitas luzes que eu via quando do avião se aproximando no Galeão, as luzes rompendo a escuridão do céu, mesmo isso, eu não saberia definir o que significou para mim.

O certo é que isso tudo já estava preparado desde a partida, o que me resta é entender qual das minhas muitas partidas me refiro.
E veja bem: não é um diário. Mas, espero que você possa me ouvir, até mesmo o cheiro forte da minha respiração ou o som rouco da minha voz, a força que faço para tossir. É necessário que me ouça bem devagar, com bastante atenção. Coisa que eu nunca solicitei. Mas, hoje eu te peço.
Neste mesmo quarto, que pouco mudou, a não ser minha ausência física, escrevi artigos, uma dissertação, varei madrugadas a finco com crônicas, poesias, historietas bobas que nem sei mais por onde andam. Aqui neste quarto quase cultivei o afã de achar que a palavra me libertaria um dia. Daqui me aventurei pela primeira vez à opinar sobre algo e que foi publicado no extinto Tramela da gravadora Trama. 

Daqui conheci o mundo de uma maneira um tanto singular, mesmo que o futebol aos domingos, a conversa no portão e as caminhadas no quintal com meu pai ainda fossem mais interessantes.

Mas se trata de memória e a memória pode ser um osso mal restaurado. Uma fratura que ainda persiste em doer em tempos nebulosos e de frio.

É disso que se trata e, talvez, será sempre sobre isso que cada voz sacramentada a não ser escutada no mundo, mesmo um mundo pequeno, seja conduzida mal e porcamente por um ventríloquo.

No calor profundo e seco da cidade, enquanto com passos curtos eu descia o morro de tantas e tantas outras descidas, já quase na avenida principal, vi uma pichação que marcou profundamente toda a minha recém estadia quase findada: P/ Escovinha 14 anos de saudades.

Almocei no centro da jovem cidade, passei no boteco tradicional e voltei com mesmos passos lentos e curtos e pensativos ainda na pichação do muro: P/ Escovinha 14 anos de saudades.



As árvores foram cortadas, o calor aumentou, mas a sujeira e o asfalto eram os mesmos. O local em que ele foi assassinado, uma vila de casas, foi, há muito, derrubada para transformar-se no estacionamento de uma igreja evangélica pentecostal, em cuja escola administrada por ela, inclusive, lecionei um breve período.

Se me perguntarem quem foi o Escovinha, tenho algumas lembranças e histórias engraçadas e que me remetem a um profundo apego ao passado no morro e de como a minha própria vida era um emaranhado exótico de vivências. Nunca soube (ou soubemos todos) o seu nome. Nem sua idade, profissão, filiação. Era o Escovinha. Magro, franzino e alto. Cabelos muito crespos e sempre raspados a máquina, arcada dentária desregular... puro osso e falava fanho.

Sabia meu nome graças a uma escola particular que eu frequentei para crianças no bairro da Coréia, em Mesquita, e nunca esqueceu. O uniforme azul quadriculado carregava Bruno no peito, pintado com tinta para tecidos. Sempre que mamãe subia comigo o morro, Escovinha sorria e dizia: Coé Bruno! Minha mãe retrucava: Fala Bruninho: e aí?

Os anos se passaram, eu cresci, Escovinha mais que eu. Ele morava onde a urbanização e o saneamento haviam chegado, no pé do morro, não era asfalto, eram aqueles antigos paralelepípedos que quase não vemos mais.

Recordo dele vir jogar bola no campinho com os adultos um pouco mais velhos do que ele. Das histórias que ouvíamos das suas atuações nos bailes funks do Mesquita ou do Tênis Clube. O quanto ele batia, mesmo sendo franzino e com cara de lerdo. Escovinha era o falso otário. Tinha unhas grandes que lanhavam a cara dos “inimigos”.

Certa vez, numa noite quente de sábado, provavelmente era sábado, pois papai me deixou ficar um pouco mais na rua, ouvíamos Antena 1, a Light FM do Rio, num micro system que eu ganhei de presente e que funcionava com pilhas. As pilhas comprávamos no rateio, cada um conseguia sua parte como podia – uns vendiam lata, outros pediam para seus pais, outros roubavam. Um aposto necessário: Este rádio, que não tenho mais, levou uma pedrada, não sei o motivo, do Joel Cachaça que, acredito eu, mirava num dos moleques que estava ouvindo comigo. O Joel era um cara bacana, um bom pedreiro que, inclusive, quando saí muitos anos depois do meu período de Marinha, trabalhei como ajudante numa obra de fábrica próximo a Rio Sampa (uma antiga casa de shows na Via Dutra). As aventuras do Joel Cachaça me renderiam ótimas prosas por aqui também. Mas, a memória é seleção. Voltemos ao Escovinha.

Na noite a que me referia, Escovinha chegou cabisbaixo e se sentou na roda de meninos na parte gramada daquilo que chamávamos campinho. O som tocava baixo e ele em silêncio. Dita hora, alguém soltou: Qual é, Escovinha, o que manda?

O Escova havia arrumado uma namorada num baile de favela e na sexta-feira anterior havia ido pela primeira vez ao motel com ela. Até aí, a molecada, incluindo eu, ficou ouriçada em ouvir uma aventura sexual que muitos de nós só teríamos muitos anos depois. Enfeita para cá, enfeita para lá... Escovinha decreta: Não rolou. Quando tiramos a roupa. Não rolou. Não ia rolar mesmo! Um amigo mais velho questionou: Por que?

Era macho! A mina era macho!
Cada menino da rua questionou frente ao seu próprio conhecimento da anatomia feminina e masculina mais rasteira possível: Não dava pra sentir enquanto vocês se beijavam, pô? Não, ela amarrou pra trás! Bom, comia assim mesmo, rapá! E foi quando o brilhantismo, com o perdão da redundância, abrilhantou aquela noite que ficou na minha memória: Comer, comer até dava e até pensei. Mas, ela tinha o pau maior do que o meu e isso eu não admito! Jamais!

Sentado na sala com meus pais, tantos anos depois, relatando o que eu havia lido no muro no pé do morro e atiçando a curiosidade dos dois – Quando descermos para jantar me mostra que eu quero ver – passamos os três a enumerar cada menino da rua que conviveu comigo e os motivos que os levaram a mortes violentas, fosse pelas mãos da polícia, dos justiceiros, que originariam no futuro as milícias, ou o tráfico.

Tanto eu quanto meu pai chegamos a conclusão que no caso do velho Escovinha, ninguém sabia ao certo o motivo. Se por drogas, má companhia, rixa de baile, não havia isso nos autos da memória, não há ao certo o que o levou a tomar cada tiro naquela tarde do passado, dentro daquela casa na antiga vila hoje demolida. Certamente como cada um dos meninos que listamos, a banalidade da vida. Foram muitos tiros. Caixão fechado.

Não sei também ao certo, tampouco meus pais, se os quatorze anos grafados com jetcolor no muro ao lado do terreiro que um dia foi a delegacia de polícia de Mesquita e que eu ouvia o velho Bostinha bradar bêbado na Barraca do Jorginho, em meus tempos de jogador de búlica com pés descalços, que ele havia sido preso por xingar o delegado, são de fato quatorze anos ou muito mais. O tempo nos engana tanto quanto a memória.
A questão é que cada busca que fiz no passado da minha vida, vejo um corpo ensanguentado no chão que poderia ser ou não de um amigo. Mas que no fundo, no fundo, me levou junto, sabe lá deus para onde.

Em tempo: A pichação foi feita em 2013. Na verdade, já se vão 17 anos. 


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Quatro meses longe de casa...

Hoje, dia 24 de setembro de 2009, completa quatro meses que saí do Rio de Janeiro com nove caixas grandes de livros, duas malas, uma mochila e lágrimas nos olhos. Faz quatro meses que vi pela última vez as praias, as ruas e avenidas, o trem, o metrô e Mesquita.
Deixei no Rio de Janeiro, minha família, uma noiva linda, amigos e raízes. Deixei para trás a correria carioca, o morro, o samba, o choro, os botecos e um pouco de poesia. Lá ficaram também problemas de dinheiro, aperto financeiro, sonhos sempre adiados e mais livros. Ficou no Rio de Janeiro um poço de saudade que derrama aqui todos os dias e me lava a alma quando sinto o vento nos cabelos pretos, pretinhos, como diria minha Ana.
Deixei meu pai e minha mãe orgulhosos, mas sem um pedaço de si. Meu quarto não é mais meu e minha casa não é mais minha: é a casa dos meus pais que, agora, quatro meses depois, é lugar de visita para mim. E que logo, logo, chegarei com sorriso aberto. Um mês, dois meses, mais ou menos para eu aparecer por lá.
No Rio de Janeiro, deixei, nessa mesma casa, fotografias que há quatro meses rememoravam apenas meu rosto quando menino, agora, para meus pais e, também, para mim, quando ali pisar, rememorará o tempo em que eu vivia ali e corria de pés descalços pela terra macia e fresca do quintal. Um tempo em que me sentava debaixo das mangueiras, abacateiros, jaqueiras, pensando, sonhando com o futuro: o futuro agora me relembra o passado.
As mesmas ruas em que eu caminhava naturalmente com os cachos ao vento, um sol quente corando o rosto, seja indo ao açougue do “Manéu” comprar contra-filé, seja para ir dar aula ou mesmo um pulo na casa do Elber para estudar música, conversar sobre música e vida, ficaram há quatro meses no Rio de Janeiro.
Há um mês não choro. Há um mês, aos poucos, fui me acostumando com a rotina que me cerca agora: reuniões departamentais, comissões de eventos científicos, viagens para congressos, orientações, aulas, mais reuniões, política acadêmica, vaidade alheia, squash, conversas noturnas com amigos, garrafas de vinho e tulipas de chope. O vazio vai se acomodando no peito, de pouquinho em pouquinho, e vou entendendo, assim, que ficarei por aqui por muito tempo e, enquanto isso, aguardando Ana. Há, ainda, muitos espaços vazios para se acomodarem no peito e na alma, disso eu sei.
Choro agora enquanto ouço Candeia cantado por Teresa Cristina. Talvez, não esteja chorando nem por tristeza, nem por saudade, apenas por quase não chorar mais. Curiosidades do tempo. Choro, talvez, por racionalizar a saudade que me acua dentro do apartamento entre livros, discos e a flauta que, ultimamente, tem soprado apenas canções que falam do meu Rio de Janeiro.
Coisas da vida. Ontem, ao término de uma aula minha, uma aluna veio me perguntar como é sair de casa para tão longe (ela está pensando em fazer concurso para outro estado). Fui enfático: é ruim. Você chorará todos os dias. Haverá sempre um aperto no peito, um nó na garganta quando falar da tua terra, dos teus pais, da sua origem. Mas você se acostuma.
O conselho que a dei, foi o mesmo que ouvi, certa vez, do Kiko, no período em morei com ele aqui em Aracaju. Lembro-me bem da conversa e ainda hoje, já quatro meses depois, ainda marejo os olhos como marejei naquele dia em sua cozinha.
E continuo entre livros e discos. Leitura e música são coisas que não me largam nem na lua. Hoje, quatro meses depois de sair do Rio de Janeiro, cinco dias depois de ter ouvido sua voz, meu pai me ligou para matar saudades. Não comentei que tenho dormido mal, que tive febre no domingo – resfriado mal cuidado, talvez, ou mesmo a própria saudade – me perguntou o que eu estava fazendo: estudando um pouco. “A coisa continua, né, filhão? As leituras não param!” disse ele rindo.
Ontem, foi aniversário da minha mãe. Liguei para ela e desejei saúde. Dei beijos e saudades. Um minuto e pouco de conversa – não havia muito que dizer, realmente. As palavras já não tem bastado muito.
E tem sido assim com todos que me ligam do Rio de Janeiro. Não há muito que conversar. Se eu prolongar um papo por mais de dois minutos, a garganta se fecha, me falta o ar e as palavras se transformam em lágrimas. Até com meus pais, meu primo, minha Ana, até com eles as conversas tendem a serem curtas agora. Os olhos doem, uma pressão horrível vai trazendo de forma dolorida as lágrimas salgadas como água do mar.
Me refugio por aqui, atrás das muitas vozes que crio n’O Ventríloquo. Me acalmo com os comentários dos amigos, dos desconhecidos, de quem passa por aqui e deixa uma voz que seja, um sonzinho que seja, algo que emita um palpitar, uma conversa. Desde o início, há quatro meses, quando se concretizou o primeiro dos sonhos profissionais: ser professor universitário federal, seguir com os estudos, agora como docente, em História Medieval, desde o início, eu sabia que não seria fácil: mas quem disse que tem que ser?

sexta-feira, 27 de março de 2009

Pessoa = Pessoas

Há algumas semanas, duas, não mais que três, fui com uma mochila e uma mala de livros, literalmente, para o estado de Sergipe. Fui prestar um concurso, o famoso “concurso de provas e títulos” no qual, acertadamente, todo aspirante a professor universitário federal ou estadual deve ou deveria se submeter. Me submeti. A história tem suas belezas, daria livro ou filme. Não quero livro ou filme. Também não quero falar sobre o sucesso obtido por minha aprovação em primeiro lugar como professor assistente da cadeira de História Antiga e Medieval na Universidade Federal de Sergipe. A questão aqui não é a felicidade, a preocupação, a angústia, a estabilidade alcançada. Não!
Para lá, em tese, fui sozinho. Ou, o famoso “eu e Deus” e, acreditem, “eu e Deus” tem aqui e tinha lá um peso enorme para minha tranqüilidade. Tranqüilidade, aliás, foi o último conselho dado por um amigo, horas antes da minha “primeira partida”. Em tese, eu disse. Apenas em tese.
Querendo ou não, um peso pairava sobre mim: sucesso? Fracasso? – Afinal, o que é sucesso ou fracasso? Percebi, e já havia sentido isso, que não estava sozinho. Levei para lá, companheira, os pais, os amigos. Levei palavras fortes, abraços, conselhos, sorrisos e lágrimas.
Quando pisei na pista, e pisei mesmo, do aeroporto de Aracaju, já não me sentia só. Caminhava conversando com meu pai, ouvia minha mãe, sentia o cheiro dos cabelos da amada. Sorria com os amigos em cada gole de suco de cajá.
Lá conheci aquele que certamente será minha família em Aracaju enquanto e após Ana lá se estabelecer comigo. O nome já me era familiar e o apelido de um tio. Pronto: a paz.
A aprovação é apenas uma conseqüência de uma soma de muitas pessoas. Eram muitas mãos escrevendo comigo naquele auditório com ar-refrigerado que destoava com o forte calor de São Cristóvão, antiga capital de Sergipe. Dois dias depois, sentia a presença deles novamente, me olhando, enquanto eu lecionava sobre “A Crise no Medievo Europeu”.
Eu via seus sorrisos. Via o choro da minha mãe, o orgulho do meu pai, as palmas dos amigos. O abraço do meu primo. O beijo da amada. Eram apenas três pessoas a me observar – isso o que eles pensavam. Para mim, o auditório estava cheio, olhares atentos e confiantes, sorrisos matreiros.
Eu sorria comigo mesmo. Como se dali eu nunca mais saísse – dali nunca mais sairei.
Não sei o que o grande Gonzaga Jr. sentia quando escreveu Caminhos do Coração (Pessoa = Pessoas). De sua história, sei das músicas e de uma ótima biografia que li e sobre ela aqui falei tempos atrás (http://oventriloquo.blogspot.com/2008/09/eu-apenas-queria-que-voc-soubesse.html). A questão é que o que lá encontrei, o que vivi e viverei é exatamente, pura e simplesmente, o que exala a letra da canção.
Só me resta agradecer a Deus, aos pais, a amada, ao primo, aos amigos todos, pois...

Há muito tempo que saí de casa
Há muito tempo que caí na estrada
Há muito tempo que eu estou na vida
Foi assim que eu quis
E assim eu sou feliz
Principalmente por poder voltar
A todos os lugares onde já cheguei
Pois lá deixei um prato de comida
Um abraço amigo
E um canto pra dormir e sonhar
E aprendi que se depende sempre
De tanta muita diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas
E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente
Onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho
Por mais que a gente pense estar
É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão
Nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate
Bem mais forte o coração
O coração
Ah! O coração!

(Do Lp Caminhos do Coração – (P) 1982 – EMI Music. Caminhos do Coração (Pessoa = Pessoas) letra e música de Gonzaga Jr. Ed. Moleque.)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Há dignidade no morrer?

Hoje acordei com duas notícias. Não vieram, necessariamente, ao mesmo tempo. A primeira me pegou sonolento, tanto que voltei aos embalos do sono. O segundo acordar se deu com o toque do celular e a notícia de que eu havia sido considerado apto no exame de língua estrangeira e que minha entrevista para o doutorado ocorrerá amanhã. Fixemo-nos na primeira notícia.
No episódio piloto da série televisiva americana House M.D. há um diálogo entre o médico ranzinza e uma paciente, no qual, após ele ouvir da moribunda que a mesma queria morrer “com dignidade”, House afirma que não há dignidade na morte (...).
A primeira notícia da manhã, dada por minha mãe, era de que sua avó paterna (conseqüentemente, minha bisavó) de noventa e poucos anos havia falecido. Como falei anteriormente, não por insensibilidade, voltei a dormir e, confesso, até esqueci a notícia, confesso, também, que, nesse exato momento, enquanto solto essa voz por aqui, meus pais se preparam para ir ao sepultamento. Não, não vou. Um dia conversaremos sobre meu problema com cemitérios e velórios, na verdade, mais com velórios que com cemitérios. Ao som do ótimo Cd Surpreendente Graça, do cantor e compositor Jorge Camargo, continuemos nosso papo.
Quando me levantei definitivamente, lá por volta das onze da manhã, fui ao quarto da minha mãe contar a notícia da aprovação no exame de proficiência. Só então me lembrei da morte da bisa. Matriarca da família Gonçalves.
Pelo que me recorde, minha bisavó já enterrou dois filhos (incluindo o grande e fantástico Altamiro Gonçalves, meu avô, o cara que me levava para tomar Malzibier), um neto e acho que já tinha até trisnetos. Era Batista convicta. Uma peça rara. Mulher forte de cabelos brancos e longos. Gostava de contar histórias e eu de ouvi-las. Até os treze, quatorze anos, ainda ia muito à sua casa. Uma das minhas melhores receitas de molho, aprendi vendo-a fazer.
Mas, enfim, há dignidade no morrer? Conversando sobre isso com minha mãe, cujo nome na certidão de nascimento é uma singela homenagem à sua avó Isabel, que carinhosamente era chamada de “Vovó Belinha”. Sim. No seu caso houve.
Minha tia a acompanhou em seu leito de morte. Leito rápido que nem sequer chegou a esquentar muito. Morreu conversando. Aos poucos e, ao que parece, sem dor.
Segundo minha mãe, através da narrativa de sua irmã, Vó Belinha conversou, aos poucos disse que estava se sentindo sonolenta, conseqüentemente, sua pressão foi baixando, o sono chegando... o sono eterno.
Não. Há muito não vou a Igreja. Sim. Ainda me sinto Batista, aquele “batistão”, bem tradicional. Porém, não me sinto intolerante, talvez, sarcástico, mas nisso sou com tudo da vida, inclusive na morte. Segundo um grande amigo meu que perdeu seu pai recentemente, os dois umbandistas, morrer dormindo significa que a vida da pessoa foi boa, que a pessoa foi um ser bom, pois, no sono que se converte em morte, ao que parece, para essa religião e, ainda, segundo ele, no Espiritismo, afirma esse postulado e muitos dizem, acho que todos, que não há muita dor (ou quase nenhuma) na morte do sono. Não tenho certeza nesse último caso. Não sei se ao dormitarmos e, conseqüentemente, morrermos, não sentiremos um fio sequer de dor.
Por fim, minha mãe, que já viu muita gente “boa” e “ruim” morrer, discordou (e muita gente o faz, claro) do famoso personagem de Hugh Laurie, existem mortes bonitas e dignas.
No mais, eu realmente até poderia ir ao velório e acompanhar o enterro, pois, acredito, que será uma cerimônia bonita e pelo contexto da morte, pelo tempo que ela viveu, é até um alento o fenômeno incontestável que é o ato de morrer. Não creio que pessoas agarrarão o caixão, pedirão para ela se levantar, em suma, não acho que ocorram manifestações desesperadoras dos que ficaram nesse mundo louco e corrido, cujo tempo não nos dá a mínima dignidade...


Ps. Sim. A foto postada é minha e se chama Isolada, faz parte de um conjunto de fotografias que intitulei de Experimento com luzes.