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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Pobre Maiakóvski (Brasil pós-2016)




Perdidos em disputas monótonas,
buscamos o sentido secreto,
quando um clamor sacode os objetos:
"Dai-nos novas formas!"
(Ordem N.º 2 ao Exército das Artes, Vládimir Maiakóvski, tradução de Haroldo de Campos. 
Em: Maiakóvski: Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 93)


Chega um momento na nossa existência que as coisas vão indo tão mal, coisas simples indo tão mal, que a gente acaba se vendo obrigado a usar aquela expressão que resume o "estar na merda", "as coisas estão muito ruins", "Não dá mais...", etc. A tal máxima é: "Brasil pós-2016".

(Nota aos estrangeiros: este termo possui um interessante histórico etimológico e é mais ou menos como a palavra "Saudade", não tem tradução para outros idiomas além do português brasileiro).

Um exemplo didático: você pede uma moela ensopada num boteco para papear um pouco com a patroa sobre a vida, a moela chega fria. Você não diz mais: "que merda"... Você expressa seu descontentamento com: "Brasil pós-2016!". Não satisfeito, pede uma porção de pão de alho. Chega uns nacos de pão com manteiga no forno e um potinho de maionese industrial com aroma artificial "alho". Você xinga? Chama o garçom prum papo? Não! Você diz: "Brasil pós-2016!".

Liga a TV, mais um pacote de cortes... Suspira fundo: "Brasil pós-2016".

Mais uma chacina: "Brasil pós-2016".

Caí no cheque especial de 350% de juros ao ano: "Brasil pós-2016".

Os índios não existem mais, foram abolidos pelo agronegócio: "Brasil pós-2016".

Fecharam uma universidade pública, duas, três: "Brasil pós-2016."

Servidores estaduais e municipais e federais caminhando para a miséria: "Brasil pós-2016"...

Evangélicos estão no poder, empresários são eleitos prefeitos: "Brasil pós-2016".

Mães matam filhos por serem homossexuais, pais chacinam a família por machismo: "Brasil pós-2016".

E assim a gente foi mudando nosso linguajar de pouco a pouco.

É uma coisa meio Etimologias, do Isidoro de Sevilha... 

Entendam cagalhões: Daqui uns séculos "escafandristas virão explorar sua casa", na verdade, seus status no Facebook, e verão que a expressão "Brasil pós-2016" surgiu logo após um surto epidêmico, não de Febre Amarela, de certo modo sim, mas uma febre de camisetas amarelas e de um pato amarelo gigante pelas ruas de São Paulo, gritos nas capitais estaduais, selfies com Policiais Militares. Os escafandristas investigadores descobrirão que a disseminação linguística se deu através do som do Plim Plim, via aparelhos de Televisão e grupos de tiozões no Whatsapp com camisetas com a foto de um homem que apoia Brilhante Ustra e ofendeu uma Presidenta da República que foi torturada durante a Ditadura Civil Militar no Brasil. Para ficar só nisso.


O DNA da máxima "Brasil pós-2016" estava, dirão os escafandristas arqueólogos das palavras, em um tal de "Fora Dilma e leve o PT junto". A mesma senhora que quando jovem teve ratazanas inseridas em sua vagina como método de tortura.



Curiosamente, assim como renascentistas, humanistas e iluministas falando da Idade Média no seu presente passado em tempos remotos, os contemporâneos do "Brasil pós-2016" não se lembrarão das pessoas tiradas da miséria durante os 13 anos petistas, esquecerão, como num surto, a expansão do ensino público, os avanços sociais de igualdade e justiça para os mais necessitados.

A classe média brasileira, aquela infectada pelo vírus da Febre Amarela Política, e mesmo os recém-chegados ao status graças aos tais avanços do passado presente, esses seres contra-História, silenciar-se-ão ignorando suas participações nas marchas pela família, ignorarão os ministros nomeados com ficha suja, emudecerão diante das delações com nomes do governo interino, e depois fixado através de negociatas de privatização e prevaricação, nomes explícitos em listas de propinas. Tudo graças ao mecanismo técnico-biológico do Plim Plim. 

Na explicação do dossiê, os escafandristas dirão: As células se ativavam às notas musicais estridentes e então as vozes bradavam: "Bandido bom, é bandido morto!", "Comunistinha de merda", "Esquerda caviar"... "A culpa não é minha, eu votei no Aécio!", "Vocês também votaram no Vice...", "Transformaram a bandeira do Brasil num símbolo comunista (mas era a bandeira do Japão)", etc. e tal.

Finalmente, esses escafandristas, ao tentarem, mais uma vez, alertar os contra-História, serão silenciados por algum pacote de cortes nas Ciências ou vão ser terminantemente afastados de seus cargos públicos-concursados através de um processo temeroso de redução salarial, lhes cortarão o oxigênio.

No geral, perceberemos que, primeiramente, a estratégia funcionará a partir da diminuição do acesso à internet fixando um limite de dados. Em seguida cortarão o acesso igualitário à universidade pública e gratuita, reduzindo o Ensino Superior ao monopólio de Empresas Educacionais privadas que lidam com a educação através do mesmo modelo de alimentação fast food. Depois, depois a gente não sabe, pois estamos no futuro do passado e fica difícil localizar a narrativa em algum tempo verbal. Não sei se estou aqui ou acolá. À propósito, a voz que você ouve nesse momento tem esse som por ser eu também um escafandrista.



Pobre Maiakóvski, não há nenhuma pessoa feliz no Brasil pós-2016.

sábado, 25 de junho de 2016

A loteria na Babilônia ou ensaio sobre um lugar comum

Rafael Braga


Como todos os homens da Babilônia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio, os cárceres. Olhem: falta o indicador de minha mão direita. Olhem: por este rasgão da capa se vê em minha barriga uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth.
(Jorge Luis Borges, a loteria na babilônia. Ficções (1944), p. 53)


Dentre as mentiras da vida
Duas nos revelam mais:
- É um prazer conhecê-lo
- Era muito bom rapaz
(Aldir Blanc e João Bosco, Nada a desculpar, 1973)


A formação malandro cocô
Se na França, onde os políticos tanto da esquerda quanto da direita, cometem erros primários, e a maioria dos que ocupam altos cargos, inclusive o atual presidente, estudaram na Sciences Po, imaginem no Brasil, em que carreira política se faz, geralmente, por ser ex-jogador de futebol, ex-policial torturador ou não, líder religioso neopentecostal, contraventor, ex-celebridade?
É claro, esse é um exemplo tosco, simplista como o são as frases desconexas de um mau ventríloquo aprendendo a arte. Não precisa jogar a cerveja na minha cara, virar a mesa e me dar nas costas com a cadeira de ferro. Calma, cagalhão e cagalhona! Analogias são perigosas nos últimos tempos, tanto quanto a ironia, eu sei.
O que quero dizer é que a política no Brasil nunca foi algo tão sério, a ponto de ser historicamente institucionalizado como estudo. Aliás, Ciência Política é um campo que tem um pouco mais de 50 anos, ou seja, extremamente jovem. Isso me leva a ousar dizer que, por não ter sido e não ser algo devidamente sério no país que mereça atenção, a política sempre foi feita na base do exibicionismo, do “tipo ideal” midiático – quando ela passou a ter importância fulcral –, quando não, na base da oligarquia hereditária. Esta última, o modo mais corriqueiro de se fazer e manter a política, enquanto poder, nas mãos dos mesmos senhores e senhoras de terras e de gente no Brasil.
No país da onça de cativeiro assassinada – são duas mortes em questão, vale frisar –, se aprende os meandros da Política no ciclo vicioso da histórica maneira de se fazer política no jeitinho.
É como a vida numa cela de presídio, numa Polinter da vida ou num morro qualquer: se você está ali, chegou ali, por roubar um frango, um bombom numa loja de grande porte, mofará e perderá toda a melanina da pele, será esquecido pelo Sistema e quando, enfim, deixar de ser uma ficha numa pilha gigantesca, quando for lembrado, se for, sairá de lá assaltante de banco.
Ou se está ali por um baseado queimado, ou dois, até três, que seja. Por plantar em casa para consumo próprio. Enfim, por ser usuário. Foda-se: saíra de lá traficante e revoltado.
Mas é claro, o menino do morro, não planta e, pasmem, pouco fuma. Ele vende e ele é preto e negro é preso. Presídio, Polinter e Morro: tudo uma coisa só.
Assim é a política brasileira, assim é a prática universitária, é o futebol na rua, o namoro no portão ou a arte na galeria: Jogue o jogo para sobreviver.

A práxis do erro: Jogue o jogo
Jogue o jogo. Frase típica nos salões de sinuca, principalmente, entre os malandros cariocas da Lapa e os paulistas da Boca do Lixo. Jogue o jogo: Joga vida roubada/ Joga vinte e um.../ Sinuca, bilhar,/ Joga pra espetar/ Pra matar/ Pra defesa... (Jogador, de João Bosco e Aldir Blanc. Do disco Tiro de Misericórdia, 1977).
O mais temeroso, e essa é a pedra que quero acertar nas vidraças insensíveis do Shopping Center Building com meu estilingue, é tanto a esquerda, o centro, a direita e os lugar-comum, não se darem conta disso.
A esquerda, a que mais me interessa no momento, por exemplo, se apegou ao discurso de “só caçam o PT” e caem no sumidouro narrativo de ignorar que a evidente corrupção petista é idêntica ao jogo jogado pelo PSDB há anos e ao muro de poder que é o PMDB, para citar aqui apenas os peixes grandes. Por outro lado, a direita, cada vez mais burra e dominada por cagalhões, tem conseguido, aos trancos e barrancos golpistas, manipular a massa como o sempre fez e manter o projeto evidente de só evidenciar os males e falcatruas do Partido dos Trabalhadores e jogar para o tapete que quem aparelhou o sistema foram eles mesmos e, de fato inegável, não o PT.
Daí, a esquerda e a militância petista – há uma grande diferença entre os dois ideologicamente na atualidade e já alguns anos, por sinal – batem de frente dizendo “não!”, contudo, num tipo de combate ainda mais tacanho e ingênuo do que mobilizar massas camponesas no sertão que padecem sem água e pão.
Vejam bem: Primeiramente, o interino ainda está inteiro. O salvador da pátria, a estrela branca e imaculada no centro do vermelho sangue, já assinala para as eleições municipais a mesma vinculação de alianças que lhe custaram mais que um dedo no torno.
Quem vemos no horizonte de esperança? Ciro presidente?  Lomba da massa, lomba da massa que não me deixa sair de casa!


Veja mal: Em nenhum momento do debate, se é que existe algum debate atualmente, a não ser agressões mútuas e infantis, pudemos observar algum tipo de avaliação, um mea culpa sequer, dos erros políticos do governo derrubado. Não, não estou falando da militância. Do eleitorado, de você e de mim. Falo das lideranças. Claro, ingenuidade a minha, afinal, reconhecer os erros, é sair do jogo sacramentado da nossa política, seria abandonar as trincheiras já cheias de ratos e larvas de moscas varejeiras nas nossas feridas putrefatas e com vivo pus. Apodreçamos, mas apodreçamos com honra, mesmo que ela, na verdade, seja pura arrogância hagiográfica construída na Lapa, na Cinelândia ou na Avenida Paulista sobre um carro de som e rouquidão e evidente cansaço.
Vejo o contrário. Observa-se uma militância de esquerda reinventando, tão ingenuamente quanto você ouvir minha voz solicitando autoavaliação das roucas lideranças, pautas de luta contra o governo golpista, ignorando, por exemplo, que os índios já eram mortos sob a bandeira vermelha do PT, tanto quanto são assassinados nesse momento e no governo anterior e no anterior e no anterior e no anterior.
Mariana e Ouro Preto padecem na lama podre e contaminada dessa Política feita, não pelo preparo político, mas pelas mãos do jeitinho brasileiro. Se quer o que se quer: manter a práxis.
Ora, tínhamos a rainha do agronegócio à frente da pasta... da agricultura! E agora assumiu o imperador. Oito e oitenta.

O macho adulto branco sempre no comando e A fila de soldados, quase todos pretos dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos: Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Rafael Braga continua preso e ele, a meu ver, é o maior símbolo dos buracos de avestruzes que somos cada um de nós em nossas “lutas inglórias” de 2013 a 2016, em nossa militância ingênua de joguetes. Cafés com leite, isso é o que nós somos na Política.
Café com leite. Termo, segundo o cronista paulistano João Antônio, que se referia aos garotos que frequentavam os salões de sinuca não ser permitido beber álcool e os mais velhos lhes darem café com leite. Ver a antologia Malagueta, Perus e Bacanaço e o conto homônimo (João Antônio. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 42-181).
Ignoramos os atos assinados durante a última gestão desgovernada pelos desgovernos de favores e alianças: Lei antiterrorismo contra nós terroristas. 
Ignoramos até o mais sensível: os únicos que pagaram pela ingenuidade, foram uma mulher branca, que lutou bravamente contra a Ditadura Civil e Militar, sendo presa e torturada e que foi eleita pelo povo esperançoso e um negro catador de latinhas, lavador de carro nas ruas, representando bem o que é a massa e que somos nós massa esclarecida: cafés com leite.
Os dois são similares. Os dois são epígrafes para a sociedade e para o subtítulo chupado do falo de Caetano. De duas canções de Caetano: Haiti, de 1993 (com uma pequena participação de Gilberto Gil) e O estrangeiro, de 1989.
Dilma Rousseff foi o joguete que marca o machismo político e a dominação masculina nas mãos do mais do mesmo. O moto contínuo. Ela é o exemplo da honestidade que foi derrubada pelos acordos entre leões disfarçados de cordeiro. E está pagando esse preço. Quem era Dilma, se não um interregno do projeto de poder de Lula e o liberalismo disfarçado do PT? Quem é Dilma se não aquela que não compactuou com a práxis do Jogue o Jogo? Não enxerga quem não quer ver. E por ser mulher, por si só, teve e tem de enfrentar o antro sujo de homens sórdidos.
Rafael Braga é o negro, pobre e marginalizado. É, nas poéticas palavras de Francisco Bosco, o malabarista do sinal vermelho. Ele é a evidência de Como quem vê por um vidro/ O que escapa da mão/ Uns exilados de um lado/ Da realidade/ Outros reféns sem resgate/ Da própria tensão (Malabaristas do Sinal Vermelho, de João Bosco e Francisco Bosco. Do disco homônimo de 2003).
Por isso mesmo: Vamos comer Caetano/ Vamos devorá-lo/ Degluti-lo, mastigá-lo/ Vamos lamber a língua (Vamos comer Caetano, de Adriana Calcanhotto. Do disco Maritimo, 1998). Ele é o profeta. O ateu que viu milagres que sabe que, às vezes, é solitário viver.

O tiro de misericórdia ou o réquiem dos enganados
Do canto dos escravos, no passado e no presente, ecoa para um ponto do peito uma canção:
Ê ei
Óia puru céu
Óia puru céu
Puru terra
Diabo te enganou Muriquim
Puru terra
Diabo te enganou João Inácio
Óia pro céu 
Puru terra

(O Canto dos Escravos – Canto IV. Gravadora Eldorado, 1982)

Assim, a vida segue e morre mais um garoto de dez anos como ladrão:


quinta-feira, 12 de maio de 2016

A vida que segue...



Dedico aos meus pais, Alvaro e Cristina.
Para Henrique de Souza Filho, o Henfil.
Para eles, meus respeitos.

Não é a frase que dói, mas a constatação de que a vida de fato segue. Correremos muitos, como críticos de fim de churrasco, para buscarmos a explicação para a vida que segue... e não encontraremos. Apenas cacos de vidros quebrados pelo chão.
Hoje, quinta-feira, manhã seguinte à votação no Senado Federal: Eu liguei para pedir ajuda ao meu pai, respondi algumas mensagens, folheei um livro e pouco li das notícias. Tem sido esse o meu dia.
Fui ao centro e as ruas permaneciam cheias, os carros iam e viam. Não almocei. Entreguei o lixo e o mesmo sorriso do funcionário do condomínio: Boa tarde, Bruno. Ele vai e volta de bicicleta. Casa – Trabalho. Trabalho – Casa. Foi assim hoje pela manhã. Será assim amanhã. Será assim no final do mês.
Logo mais, me sentarei na minha sala – as repartições ainda funcionam – ouvirei as argumentações de uma orientanda de monografia que quer concluir seu curso, assumir algum cargo público de seleção que não há e não haverá por um bom tempo, na esperança de iniciar sua vida, talvez, ignorando que ela começou desde o seu nascimento.
A vida que segue e, certamente, sem a gente saber exatamente os motivos.
Fadados ao desânimo, as contas continuarão sendo emitidas, os direitos pouco a pouco sendo reprimidos diretamente àquela geração, a que faço parte, que jamais sentiu na pele tal situação e me refiro aqui comparando àqueles que viveram durante os anos de repressão da Ditadura de 1964 e que estariam numa mesma posição que a minha agora.
A questão a se colocar, sensível, eu sei, é que se um levantamento sincero for feito com alguém que tenha hoje sessenta e poucos anos e que viveu num subúrbio qualquer do Brasil e que não era vinculada a nenhum tipo de movimento político, sem acesso a educação, pouco recordará daqueles 31 anos de silêncio e torturas. Talvez, justamente pelo silêncio e manipulação midiática. Talvez, pelo excesso de trabalho, pela família a sustentar, pela falta de saneamento básico, pela vida que lhes era imposta.
Ora, hoje o quadro permanece o mesmo: a mídia manipula, o silêncio sacramenta-se e as bocas e barrigas vazias pedem pão. Mães e pais continuam suas jornadas duplas em busca do sustento. A vida melhorou nos últimos 12, 13 anos, e a maioria dessas mulheres e homens associam ao Partido dos Trabalhadores, vide o considerável número de votos nas últimas eleições. Mas, afinal, é via Rede Globo que eles veem o futebol, as novelas, as notícias. Cotidianamente lhes é imposta uma sinuca de bico, pois é essa mesma emissora que manipula de maneira tacanha as informações negativadas sobre o PT.
Eu diria até que para o meu pai e outros trabalhadores que conheço, a vida de maneira automática se amenizará a partir de uma breve possível calmaria... Fico feliz por isso. Sempre vi meus pais batalhando por meu sustento, abrindo mão da própria felicidade. Prefiro que eles sejam felizes. Fizeram escolhas naquele tempo: Trabalho – Casa/ Casa – Trabalho. Mesmo quando tudo melhorou e melhorou, não posso ignorar que a luta diária permanecia a mesma.
Neste momento, seria fácil apontar culpados frente a alienação que testemunhamos: Igreja, Corrupção, Falta de Consciência da importância do Voto Democrático, Mídia etc. Mas, se há falta de mobilização popular, se ela existe como falta, é pelo marasmo que respiramos todos nós. Pois, o povo foi às ruas, aliás, o povo nunca saiu das ruas, das ruas tiram seu sustento, o povo conhece melhor do que ninguém os becos, as saídas das crises, como lidar com a polícia e o ladrão. Lembro-me bem do meu pai chegando cansado, muitas vezes caminhava quilômetros e quilômetros para visitar seus clientes nos subúrbios com a sua pasta marrom e amostras de plastic, não almoçava, vivia uma vida dura para me dar estudo formal, quando a educação estava ali, todo dia em que eu presenciava ele e minha mãe regressando do trabalho.
O fracasso histórico no Brasil está nos pseudointelectuais como eu e meus colegas. Não está em gente como os meus pais. Está naqueles que frequentam butecos populares, quando existiam, com olhar analista-antropológico e se acham vanguardistas conhecedores do popular, pois se mijam após o porre de cerveja ou fumam um cigarro de maconha misturado com bosta de vaca ou compram uma ampola de cocaína do negrinho da esquina misturada com pó de mármore. São risíveis em seus carros importados, parcelados em 60 vezes e em seus apartamentos com decoração artesanal. Pagos com Visa Platinum. Sim, estou puto comigo mesmo. Mas, vale muito uma autocrítica.
Hoje, o futuro pertence aos secundaristas, os que na maioria ainda nem votam, meninos e meninas que têm construído uma consciência política a qual não tive acesso com aulas de Educação Moral e Cívica nos melhores colégios que o suor que os plantões noturnos de minha mãe em hospitais já sucateados naquela época puderam me dar. Essa garotada vem de lugares fodidos, são filhos de um verdadeiro proletariado que trabalha, na sua maioria, em fábricas e lojas de departamento e temem pelo dia a dia dos rebentos enfrentando o braço armado do Estado. É certo que sempre existirão meninas e meninos de famílias abastadas que fogem a regra brasileira de ignorarem a faxineira, o garçom... A luta deles, seu apoio nas ruas aos alunos de escolas estaduais é mais que bem vindo tanto quanto necessário. O problema não está, no fundo, no fundo, em quem é mais rico ou mais pobre, mas na maneira em como os que mais tem encaram os que lutam pelo pouco não lhes chega. Não há luta menor se ela é pela igualdade social.
De qualquer maneira, minha geração foi fadada à titulação, mestres e doutores, e uma substancial parcela não oriunda das esferas oligárquicas. Evoé!
Esse aspecto, brado em bom som, foi obra majoritária do Partido dos Trabalhadores e nele me incluo com um orgulho que não me envergonha.
Mas, apesar das dificuldades enfrentadas para chegar até aqui, nós nos afastamos da prática. Da rua. Da origem. Mesmo as jornadas de junho de 2013, capitaneadas por nós intelectuais-gestores, tem sua origem em movimentos periféricos. Movimentos de gente cansada de sofrer, de ir e vir em ônibus lotados, de serem oprimidas sem o teto para o descanso. Gente que cresceu sendo revistada brutalmente pela Polícia Militar de seu Estado. Mas, eis que os títulos de nobreza, agora um pouco melhor distribuídos entre os pobres, desconfiguraram tudo, ou nós tiramos o seu sentido. Viramos intelectuais de gabinete e quando não, analistas de buteco e de samba de roda.
No fundo, tenho é vergonha de mim. Em muitos sentidos tenho uma ardente vergonha que me remete ao silêncio tácito e que quebro nesse vômito amargo de bílis. E me vem à memória para aumentar meu descontentamento pessoal, uma certa madrugada de desespero, em que assustado com a insônia me dei conta que meu maior medo é que jamais serei um ser humano como foram meus pais. Jamais terei a força deles de me manter de pé com meus próprios pés. Mas, no dia seguinte, com olhos vermelhos de tanto chorar em silêncio na janela que dá para a avenida, pensei: é coisa de momento, tristeza passageira. Usei toda a racionalidade conquistada nos anos de universidade para ignorar o definitivo: a verdade nua e crua que jamais serei como eles e isso me dói. Tenho o rompante de abandonar tudo. Jogar-me no mundo, sumir, parar de escrever. Tornar-me um ermitão num buraco de tanta vergonha. Mas este sou eu.
Na verdade, tudo o que vimos e veremos é muito reflexo do dia a dia, da vida que segue. Do momento. Das pessoas que não tomam a frente no fazer, no arado intelectual. Trabalhadores intelectuais frágeis, em sua maioria, que se escondem nas obrigações de gestão. Como eu. Como você que me lê. É mais fácil o comodismo das conversas de corredores, no cafezinho do sindicato. É mais fácil criticar pelas costas, em surdina ou usar alunos para a velha política egocêntrica de problema psicológico de autorreconhecimento que, talvez, um livro de autoajuda corrigiria.
Tudo é, de fato, reflexo da vida que segue. Do medo de dizer não. Da vontade de dizer sim que não se concretiza. Do medo de discordar de quem está à sua frente. O problema está em nós: está em nos distanciarmos do “cidadão comum” ignorando que somos como ele e testemunhamos, apenas por outro prisma, tudo se acabar na quarta-feira. Nós, de ressaca e com fantasias vermelhas de folião cansado, ele varrendo o chão de nossas serpentinas e de vômito de derrotados. Quem sabe, se pegássemos na vassoura ao seu lado, a coisa não seria como o é.

Mas, a vida que segue...

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A consciência construída e uma afirmação necessária

O mestre Angenor de Oliveira, Cartola

Os óculos escuros de Cartola
(Letra: Marcelo Yuka/ Música: Max de Castro)

Uma lente negra protege os olhos
Dando chance a outros pontos de vista
Poesia mantida

Poesia cantada

Poesia pichada

Como consequência de vida

Pra que a raiva não nos forme

Com o mesmo peso e medida

O povo pobre faz da arte história

Como os óculos escuros de cartola

Os óculos escuros de Cartola

Eu ouço o eco dessa hora
Sensibilidade a toda prova
Foi-se o corpo
Foi-se o cansaço
Só não foi embora a necessidade
De ser leve apesar
De tanto peso nas costas
Como cerveja gelada depois da obra
Verdades sem moda
Como os óculos escuros de Cartola
Os óculos escuros de Cartola.

Recentemente, numa dessas manhãs cujo peso do tempo, se você permitir, te deixa inerte no chão, eu debatia com meus colegas alunos o velho processo de transição entre o Românico e o Gótico. Uma sala vazia de poucos bons e atentos participantes, janelas amplas que me permitiam ver a luz do sol clareando a grama verde e as idas e vindas de jovens pelo passeio da universidade. Acho que nunca disse isso, mas algumas salas de aula são torturantes quando nos permitem observar que há um vasto mundo de idas e vindas lá fora e ao mesmo tempo instigantes por vermos o movimento da vida correndo.
Naquela ocasião, em especial, eu necessitava arduamente me manter em constante andamento em meu pensamento – não pelo assunto da aula – mas pelo meu estado de cansaço físico e mental de uma longa semana de um mês que parece estar tendo longas semanas de moto-contínuo. Enquanto os sete graduandos acompanhavam minha fala, alguns anotando, outros formulando seus comentários, perguntas ou mesmo pensando na vida... lembrei com certa nostalgia algumas igrejas medievais que pude visitar. Automaticamente, comentei da paz que, apesar dos pesares, eu sentia ao entrar naqueles espaços. Um dos meus alunos pediu a palavra e iniciou um profícuo debate de co-relação, dizendo que havia achado interessante minha fala, pois se recordava que ao visitar uma igreja em Recife ou Olinda (não me lembro agora) com uma amiga negra, o comentário que ela fez foi totalmente inverso ao meu: Ela havia sentido um grande pesar, uma angústia enorme por aquela construção, em especial, ter sido levantada graças ao suor e sofrimento de seus antepassados africanos. Mais do que paz, ela sentiu dor. Por um momento me silenciei, não por vergonha do meu raciocínio ou coisa do tipo, mas processando, primeiro, a sagacidade do comentário do rapaz e, em segundo, a maravilhosa possibilidade que tínhamos naquele momento para discutir História e sua função.
Quando menino, disse eu para turma, passava minhas férias em Paquetá, uma ilha que se localiza, aproximadamente, uns 15 quilômetros do Rio de Janeiro. Lá, passava a infância solto, andando de bicicleta, pescando cocoroca, lendo na biblioteca pública. No Mirante, brincava passando por seus túneis cravados na dura rocha que compunha aquela fortificação de antiga defesa. Naqueles anos nostálgicos da minha infância e pré-adolescência, confessei, nunca no ir e vir correndo, pulando preservativos e merda humana deixadas dentro dos túneis na parte de baixo do Morro do Vigário, ter parado para pensar no que os veios no teto e nas paredes significavam.
Foto de Yuri (Cirulo) - 21 de Fevereiro de 2011

Muito tempo depois, continuei o relato, já adulto, professor de História, visitei com alunos da graduação que passavam o carnaval daquele ano comigo a mesma, porém diferente, ilha e seu mirante. Ao entrar nos túneis um silêncio mórbido em cada um de nós se instaurou e mesmo o belo pôr do sol que beijava a Baía de Guanabara não foi o suficiente para que todos, ao seu próprio modo, sentissem com o tato e com o coração, uma consciência construída de que aquela passagem havia sido perfurada na pedra certamente por escravos africanos arrancados de sua terra por mãos brancas.


Foto de Aquino Neto - 21 de fevereiro de 2011

Não posso falar do sentimento dos meus amigos, mas me recordo ainda agora como as pontas dos meus dedos percorriam a parede e o significado que aquele gesto teve.
Hoje, dia 20 de novembro, comemora-se o Dia da Consciência Negra. Curioso, mas quando eu ainda morava no Rio e subia e descia minha rua, tomava o trem para a Central e convivia constantemente com a visão esdrúxula e doentia do racismo diário que os negros sofrem, nada mais teve tanto impacto quanto o passar os dedos naquelas paredes. Ana dizia hoje pela manhã que, como negra, impressão idêntica a minha no túnel do Mirante de Paquetá, teve ela ao visitar o Cemitério dos Pretos Novos, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro (para conhecer sobre, clique aqui). Ela tem suas razões. Eu tenho as minhas.
As vozes se misturam e me embaraço. Volto à quinta-feira dessa semana: Olho meu aluno e percebo que transmitimos o mesmo pensamento e temos o mesmo questionamento. Talvez, eu, por menos coragem, transformo em palavras naqueles minutos a pergunta que permearia nos momentos finais da nossa aula, certamente, a construção das nossas reflexões: Eu, ele, sua amiga, e hoje pela manhã, Ana, teríamos o mesmo sentimento de perda, dor, revolta, ou até de reflexão do mal que foi a escravidão negra e as feridas ainda abertas que se mantém e tão amargamente tentam ser apagadas pelo discurso tacanho, sem o estudo da História?
A consciência construída torna-se, a meu ver, uma das afirmações mais necessárias no cotidiano e o mecanismo fundamental para anular o discurso, já absorvido até por alguns negros, de que o caminho é esquecer o debate sobre o racismo, mesmo eu já cometi esse erro, é colocar panos quentes na realidade que nos cerca. Não somos todos iguais. Jamais saberei na pele o que é ser preterido por cor em um país tão multicultural quanto o Brasil. Jamais saberei o que é ser parado na rua e revistado antes do branco que caminha ao lado. Jamais saberei muitas coisas sobre o que é ser negro no meu país. Hoje, mais do que nunca, de minha parte ou da do meu aluno, percebo que não se trata de um sentimento de empatia com a História dos Afrobrasileiros e seus antepassados, mas uma profunda necessidade de luta constante pela afirmação de identidade e da dívida que deve ser paga pelos males que este passado escravocrata tão recente legou ao presente e que permanece se reconfigurando constantemente com o olhar reprovativo quando sua companheira negra sobe para o próprio apartamento no elevador social e é veladamente vista como um empregado que deveria subir pelo de serviço...
Aliás: Quem inventou essa praga de que elevador de serviço é para os prestadores de serviço em condomínios...? Elevador de serviço é para descer com entulho, lixo, seu cachorro para passear!



Ps. Se quiser ouvir um som bom, a voz poética, clica aí embaixo nos Óculos escuros de Cartola:



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Oxigênio interdisciplinar, poluição acadêmica e as Luzes escuras de um quase Neon



A Internet me ensinou a fazer piña colada. Consequentemente, os resultados foram imediatos: derrubei quase uma garrafa inteira de rum, leite de coco, abacaxis e pitadas de leite condensado para dentro do meu corpo de trinta e dois anos de idade. O drinque puertoriqueño, além de uma enorme azia, me deixou na rede balançando e divagando devagar durante todo o feriadão.
O impacto na disciplina História, de uma revista lançada pelos intentos de Marc Bloch e Lucien Febvre, em 1929, cujo teor político-acadêmico foi bem assinalado pelo francês François Dosse, no final dos anos 80, não pode deixar jamais de ser pensado, é claro. Mas, valei-me deus, praticamente quase 90 anos depois, o ar de “novidade” que muitos dinossauros, melhor, tiranossauros-rex, tentam dar no país dos tupiniquins a ela, fora o exagero ingênuo, tornou-se chato e jocoso.
Hoje, tanto tempo depois, entre o livro de capa amarela do Dosse (1987) e o de capa verde do Burke (1990), ainda prefiro o primeiro (por ser mais crítico). Ainda guardo com cuidado a cópia que fiz do exemplar que o Clodoaldo carregava para baixo e para cima, com muita estima, naqueles anos agradáveis e sonhadores da graduação. Seu irmão era formado em História na mesma faculdade. Assim como eu, Clodoaldo – que mais parecia um fisiculturista – puxava disciplinas aqui e acolá para tentar se formar. Por onde andará Clodoaldo? Da última vez que nos encontramos, ele estava bem, lecionando em diversos colégios conceituados da Baixada Fluminense. Fez nome. Gente fina pra caralho!
Toda a proposta da revista não deixou jamais de ser interessante. Porém, sejamos francos e visigodos, proposta de fundo político e corporativo na academia. Afinal, à História deveria caber o postulado de “carro-chefe” (por que não carro-forte?) das Ciências Sociais, naquele momento, extremamente inventivas e com propostas realmente inovadoras. Pimba! Puta sacada do jovem Bloch e do, um pouco mais, maduro em idade, Febvre. O primeiro, já sabemos, medievalista, lutou na Primeira Guerra Mundial, no futuro tornar-se-á membro da Resistência Francesa, árduo defensor de um interessante ativismo político contra os totalitarismos e acaba morto, fuzilado pelo regime nazista de Vichy. O segundo, poderíamos chamar de “verdadeiro político nas trincheiras acadêmicas”. Colherá os frutos em vida, diferentemente do franco-judeu Marc Bloch. A universidade precisa, certamente, dos dois tipos: Eles não deixam de ter suas qualidades para a máquina do tempo burocrático.
Século XXI. Nunca antes o oxigênio respirado teve em sua composição na Tabela Periódica elementos tão próximos às Luzes multicolores de uma lógica de pensamento de meados do século XVIII. Curiosamente, não sei, o teorema das interdisciplinaridades proposto (absorvido) pelos Annales (a tal revista francesa) para o campo da História, transformou-nos em jovens especialistas esmigalhados, fatiados produtores de análises de uma História em Migalhas, tomando de empréstimo o termo de Dosse.
As mesas de bares e as conversas longínquas com meus amigos, seja num copo suado pelo choque entre a cerveja gelada com o mormaço, que mesmo com todos os alertas climáticos, ignoramos, seja nas viagens balangandãs pelos brasis que teimamos em ignorar com tapinhas nas costas e elogios ao Salami Science, me alertaram para o seguinte veredicto: O oxigênio interdisciplinar está, há muito, perdendo para a poluição acadêmica! Na verdade, num fordismo de artigos e livros compiladores de artigos, o homo producentis ignora o principal: o conhecimento e sua interlocução com a sociedade e os benefícios que isso poderá trazer à todos nós.
Se voltar sua memória chumbada pros percalços de idos de XVII, XVIII ou mesmo do XIX (aí a coisa até começa a descambar), a educação, ontem e hoje, privilégio de poucos, queira quer não, ajudava a formar o individuo para as realidades táteis que lhe eram impostas. A desigualdade, evidentemente, já estava lá. Aliás, a desigualdade, segundo Agostinho de Hipona, será encontrada até na Cidade de Deus. De fato, nisto ele foi profeta, pois o mundo que atualmente é a Cidade de Deus, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, demonstra bem o que o teólogo de Hipona teorizou. Enfim, tome o seu galardão, segura na mão de deus e vá!
É muito preocupante, em todos os sentidos, um jovem ter que se submeter, como me submeti, à norma de modus vivendi que é fatiar, especializar, projetar cada vez mais suas reflexões para apenas uma área de conhecimento. Lógico, concordo com o velho Aldir Blanc – mestre maior: Quem sabe de tudo, não sabe de nada. Entretanto, o gás neon que escurece a vista, nos afasta da Luz, polui por demais o oxigênio que paira no ar e que não há como ser ignorado.
Prega-se nos exames de seleção para ingresso na Universidade, o uso combinado dos mais variados discursos – tecnológicos, de humanidades, etc. – e após essa etapa, mal cumprida por sinal, nos cerram no hermético calabouço da grade curricular com obrigatórias e optativas (que são obrigatórias disfarçadas) disponíveis ao vento, sabe-se lá quando.
Falta-nos tudo.
A interdisciplinaridade, e essa fala não vem de um bêbado, vem de um especialista dentro de uma especialidade exótica no país, é como um unicórnio ou um pote de ouro no final do arco-íris.
Os concursos públicos se tornam cada vez mais escassos e, quando não, corporativistas. Quando se vê um currículo vitae variado, encara-se mal o profissional em que foi investido tempo e auto-tempo para que, ele mesmo, chegasse naquele momento de prova(ção) – nada mais ingênuo e teatral que um concurso de Provas e Títulos. Se bolsista, impostos foram ali, muito restritamente e quase como doação, investidos. Se não bolsista, dinheiro de trabalho, de sapos engolidos, para uma boa preparação em línguas, pós-graduações e afins. Não se percebe o quanto temos poluído nosso espaço de trabalho e convívio nas Universidades. Locus por si só, de uma áurea pesada e de dar náuseas. Olha-se com desdém quem pretende em algum momento ir um pouco mais além do que os meandros das páginas escritas para si mesmo de uma dissertação ou tese.
É claro que as especialidades, o stricto sensu, é um caminho historicamente reconhecido (e necessário). Não brado aqui que no especialista se deposite toda a culpa intelectual do mundo. Jamais! Seria cuspir num prato que eu mesmo preparo e degusto diariamente. A questão é outra. Ela se fundamenta no simples fato de percebermos que a interconexão, a interlocução deve ser cada vez mais temáticas nos Colóquios, Simpósios, Seminários. Há matemáticos, médicos, físicos que tem muito a dizer para filósofos, medievalistas, brasilianistas, colonialistas, etc. e sempre o vice-versa.
A técnica, inerente a cada campo de saber, se conquista pela prática. Jamais serei um bom médico. Mas, posso ser um bom historiador da medicina (inclusive da Medicina Medieval). Jamais serei um bom Arquiteto, mas posso ser um bom historiador da arquitetura colonial. E a roda segue. E segue e segue e segue.
Enunciados como poder, estado, violência, política, cultura, identidade, etc., iriam se tornar mais abrangentes, suscetíveis de análises teóricas e críticas práticas, o que providenciaria ao cotidiano social uma coisa muito simples dentro do postulado das complexidades: respirarmos o ar das interdisciplinaridades.
Seria interessante preenchermos de uma vez por todas o fosso, amenizarmos a lacuna, construirmos uma ponte para ultrapassar o abismo que jaz entre a graduação e a prática cotidiana dos bacharéis e licenciados que são formados ano a ano. Quem sabe para os concursos a saída não deveria ser temática? A cadeira de área X pretenderá um docente-pesquisador que pesquisou sobre X e suas variáveis aproximativas. As grades, com direito às barras de ferro e tudo, ainda estarão lá, intocáveis por enquanto, mas, como sempre, a prerrogativa da escolha se manteria em nossas lisas e delicadas mãos sem calos.
Nossas feridas são outras. E foi na sua fina casca que eu quis mexer. Se é que ensaiei uma coceira na garganta aqui ou acolá. Quem saberá?



Para sair do meu provincianismo discursivo, os livros a que fiz referência tratam-se de:
*DOSSE, François. A história em migalhas: dos “Annales” à “Nova História”. São Paulo/ Campinas, SP: Ensaio/ EdUnicamp, 1994. [Original francês de 1987]
*BURKE, Peter. A Escola do Annales (1929-1989): A revolução francesa da historiografia. São Paulo: Editora UNESP, 1997. [Original inglês de 1990]

domingo, 7 de dezembro de 2014

Camila ou o primeiro passo da memória

A memória sempre me dói. Memória e dor, no meu caso, mesmo que seja em terceira pessoa, sempre doerá. Enfim, acho o passado uma merda.
Não sei por que me lembrei de Camila. Mas, antes de Camila, houve a Sabrina e após elas duas, Tereza e depois de tantas outras: vocês.
Chego a ouvir o barulho da água correndo e se chocando nas pedras do Rio Dona Eugênia, hoje uma vala negra que sangra assoreada cortando os bairros da Coreia e do Centro, talvez, se eu não estiver errado, corte ainda o Cosmorama até, quem sabe, ser mais um fio escuro, sujo e lodoso a desaguar na Guanabara... Chego a ouvir o barulho das músicas que cantávamos.
Era uma escola de bairro, numa casa grande e com salas com poucas divisórias, uniformes quadriculados e com nossos nomes. Ali passávamos nossas manhãs e os lanches que trazíamos eram divididos entre todos da classe numa mesa retangular de madeira. Eu corria e me sentava na frente de Sabrina, um dourado na pele morena dos nossos cinco anos, cabelos negros e longos, pesados e com leves cachos nas pontas. Seu nariz perfeito e lábios levemente carnudos. Sabrina um dia pálida e sem o brilho de sempre vomitou por toda mesa restos de macarronada e salsicha, bem na minha frente. Dancei quadrilha com ela naquele ano e nunca mais nos vimos.
Mas foi Camila, tão morena quanto, tão cabelos negros quanto, que me atiçou ao amor. Duas bolas profundamente negras entre o nariz fino que me olhavam com desdém, eu magricelas e desengonçado, Segunda Série Primária, meias brancas, calça tergal vinho e recusado pela Dona Leonor por ser lerdo demais para estudar ali na tradicional escola mesquitense de famílias que, por sorte, seriam comerciantes em algum bairro daquele Primeiro Distrito de Nova Iguaçu. Bons tempos de sinceridade.
Foi Camila que com seus cabelos pouco acima dos ombros, moradora da Chatuba e que ia de ônibus para a escola, que me atiçou ao amor e aos lábios femininos e aos olhos femininos mais do que às bundas e às coxas. Os lábios me beijariam – coisa que Camila nunca o fez – e os olhos me veriam... ou não.
Um dia apanhei na escola, um dia comum de escola. Camila teve dó dos meus lábios sangrando, meu olhar de peixe morto e o silêncio das palavras. Pobre de mim, fechei meus olhinhos miúdos e nem beijo, nem carícia. Apenas me levantou do chão. Morar na Chatuba no fim dos anos 80 requeria força e conduta, braveza frente ao mundo cão. Coisa da qual meus pais me protegiam constantemente entre os muros do grande quintal da casa verde de pés de cajá, jaca, abacate, abil, pitomba e mangas coração de boi. O morro me era uma incógnita esclarecida apenas nos dias de domingo, quando pelas mãos meu pai me levava à feira, aos campos de futebol do Parque Central, de Jacutinga e na Chatuba. A miséria humana e a tristeza infantil – na minha opinião, a mais dura tristeza que possa existir: a de uma criança – eu conheci num hospital infantil que minha mãe dava plantão, onde atendia crianças de um orfanato localizado na Praça Santos Dumont, em Nova Iguaçu. Crianças queimadas por óleo quente, com olhar fundo e que sorriam quando minha mãe entrava. Meus cabelos penteados para o lado, a pele viva e corada contrastando com a dureza da realidade. Como animais ferozes, em finais de semana, aqueles meninos e meninas eram liberados para zanzarem pela Praça que ficava – não vejo maldade maior no mundo – ao lado de um Parque de Diversões, acredito que o mais antigo da região. Não houve, ainda hoje, coisa mais impactante para mim, como ser humano, do que meu contato com aqueles órfãos. Hoje percebo o quanto aquilo moldou meu caráter e o sentimento de humanismo que meus pais tinham ao me instruírem brincar com aquelas crianças me deu um desapego curioso às coisas materiais. Sou filho único. Tive vários irmãos e irmãs.
Camila me ignorou até a Quarta Série Primária – as mulheres me ignorariam até o curso universitário. Quando num dia de ousadia – eis o passado – roubei do álbum de família uma foto minha feita por fotógrafo profissional, fotógrafa, na verdade, contratada pela minha mãe, no qual, burguês de família em ascensão, eu posava com uma das mãos no queixo e exibia um sorriso branco e cabelos negros finos e ondulados. Olhos de um profundo cor de terra esboçando a alegria de uma criança que não previa os males da recessão e de um governo Collor que pausaria a economia da casa.
Entreguei a foto meio trêmulo, com umas letras redondas, simplesmente: “Para Camila, Bruno Alvaro”. Havia uma imponência, eu sei, em ter um nome de sobrenome. E se não havia grandiosidade nisso, pelo menos, era diferente dos Silva, Maia, Cardoso, Matias, etc., tão comuns na nossa sala de aula.
Ela sorriu com a sagacidade de quem anos depois frequentaria os bailes funk do Mesquita e do Tênis Clube, protegendo-se do que ainda hoje protegem-se as mulheres: nós homens.
Olhou a foto com atenção e disse de forma pausada e com um profundo afeto: “Quando eu tiver um filho quero que se pareça com você...”. Fiquei puto. Evidentemente, fiquei puto. Mas, hoje, agora, falo alto, com orgulho, que elogio maior não receberia até deixar de ser ignorado pelo sexo feminino, na universidade. Quanto a deixar de ser ignorado na universidade há suas controvérsias.
Camila me voltou à mente e aos olhos quando meu pai num empreendedorismo dos anos 2000 abriu uma minúscula loja de tintas na Chatuba e eu, às 8:00 da manhã, seguia para ajudá-lo no mesmo e velho Nova Iguaçu X Fábrica de Pólvora da São Francisco que Camila pegava para ir estudar no início dos anos 90. Dormi e passei do ponto – isso aconteceria mais vezes na minha vida, passar do ponto – e desci numa curva medonha, já no trecho final da rua. Ironia da memória, mais uma vez, ela, a memória, me doeria e eu encontraria Camila, cabelos ainda negros, mas com algumas mexas blondeadas, três furos nas orelhas, meio magra, meio cheia, olhos fundos, não sei, mas ainda profundamente escuros, Camila ainda era linda para mim em todo o exotismo da simetria entre seus lábios e os seus olhos. Me percebendo meio perdido e fodido na Chatuba com um saco de pão e um pedaço de queijo minas frescal, ela sorriu e apenas disse: “Ainda tenho a sua foto...”. Fiquei puto, de novo. Mas hoje, falo alto, com orgulho, foi um baita elogio.
Ficção ou realidade? Não sei, sempre me dói a memória e o passado, seja o meu ou o dos outros. Talvez, por isso mesmo, minha memória sempre falhe. Vamos à Tereza.


sexta-feira, 27 de março de 2009

Pessoa = Pessoas

Há algumas semanas, duas, não mais que três, fui com uma mochila e uma mala de livros, literalmente, para o estado de Sergipe. Fui prestar um concurso, o famoso “concurso de provas e títulos” no qual, acertadamente, todo aspirante a professor universitário federal ou estadual deve ou deveria se submeter. Me submeti. A história tem suas belezas, daria livro ou filme. Não quero livro ou filme. Também não quero falar sobre o sucesso obtido por minha aprovação em primeiro lugar como professor assistente da cadeira de História Antiga e Medieval na Universidade Federal de Sergipe. A questão aqui não é a felicidade, a preocupação, a angústia, a estabilidade alcançada. Não!
Para lá, em tese, fui sozinho. Ou, o famoso “eu e Deus” e, acreditem, “eu e Deus” tem aqui e tinha lá um peso enorme para minha tranqüilidade. Tranqüilidade, aliás, foi o último conselho dado por um amigo, horas antes da minha “primeira partida”. Em tese, eu disse. Apenas em tese.
Querendo ou não, um peso pairava sobre mim: sucesso? Fracasso? – Afinal, o que é sucesso ou fracasso? Percebi, e já havia sentido isso, que não estava sozinho. Levei para lá, companheira, os pais, os amigos. Levei palavras fortes, abraços, conselhos, sorrisos e lágrimas.
Quando pisei na pista, e pisei mesmo, do aeroporto de Aracaju, já não me sentia só. Caminhava conversando com meu pai, ouvia minha mãe, sentia o cheiro dos cabelos da amada. Sorria com os amigos em cada gole de suco de cajá.
Lá conheci aquele que certamente será minha família em Aracaju enquanto e após Ana lá se estabelecer comigo. O nome já me era familiar e o apelido de um tio. Pronto: a paz.
A aprovação é apenas uma conseqüência de uma soma de muitas pessoas. Eram muitas mãos escrevendo comigo naquele auditório com ar-refrigerado que destoava com o forte calor de São Cristóvão, antiga capital de Sergipe. Dois dias depois, sentia a presença deles novamente, me olhando, enquanto eu lecionava sobre “A Crise no Medievo Europeu”.
Eu via seus sorrisos. Via o choro da minha mãe, o orgulho do meu pai, as palmas dos amigos. O abraço do meu primo. O beijo da amada. Eram apenas três pessoas a me observar – isso o que eles pensavam. Para mim, o auditório estava cheio, olhares atentos e confiantes, sorrisos matreiros.
Eu sorria comigo mesmo. Como se dali eu nunca mais saísse – dali nunca mais sairei.
Não sei o que o grande Gonzaga Jr. sentia quando escreveu Caminhos do Coração (Pessoa = Pessoas). De sua história, sei das músicas e de uma ótima biografia que li e sobre ela aqui falei tempos atrás (http://oventriloquo.blogspot.com/2008/09/eu-apenas-queria-que-voc-soubesse.html). A questão é que o que lá encontrei, o que vivi e viverei é exatamente, pura e simplesmente, o que exala a letra da canção.
Só me resta agradecer a Deus, aos pais, a amada, ao primo, aos amigos todos, pois...

Há muito tempo que saí de casa
Há muito tempo que caí na estrada
Há muito tempo que eu estou na vida
Foi assim que eu quis
E assim eu sou feliz
Principalmente por poder voltar
A todos os lugares onde já cheguei
Pois lá deixei um prato de comida
Um abraço amigo
E um canto pra dormir e sonhar
E aprendi que se depende sempre
De tanta muita diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas
E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente
Onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho
Por mais que a gente pense estar
É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão
Nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate
Bem mais forte o coração
O coração
Ah! O coração!

(Do Lp Caminhos do Coração – (P) 1982 – EMI Music. Caminhos do Coração (Pessoa = Pessoas) letra e música de Gonzaga Jr. Ed. Moleque.)

domingo, 25 de janeiro de 2009

1968


A sensação que tive, ao ver seus olhos vermelhos, ao me ver espelhado no vermelho dos seus olhos brilhantes, foi a de que não adiantaria nada tentar lhe explicar. Por isso, sem mais alarde juntei cada uma das poucas coisas que eu tinha naquele velho sobrado que alugamos e saí sem ao menos me despedir. Ela realmente não entenderia. Seria mais seguro para mim.
Minha barba por fazer, não pela pressa ou por não querer falar muito com ela, já incomodava, mas seria mais seguro para mim. Olhei para os dois lados da rua por um minuto mais prolongado que de costume e do outro lado um fusca azul me esperava. Coincidência ou não ao longe pude ouvir que tocava Joan Baez e um sentimento de tristeza tomou meu coração. Não bem sei se por ouvir a voz soprano de Baez ou por saber que foi comprando um disco seu que nos conhecemos.
Em silêncio tomamos a Presidente Vargas e em silêncio continuamos ao ver carros de guerra nas ruas do Centro, por todo o Centro. Um segundo de obscuridade naquele instante me levaria ao mais fundo do tempo, descobriria, enfim, que a resposta não está no vento e não tardaria para que se confirmasse o veredicto final: nada seria seguro dali adiante para mim e nem para nós.
Me lembrei do que significava nosso sobrado, o que se fazia no nosso sobrado em noites de fumaça e Marx, onde todos choramos abraçados, meses antes, a morte do comandante – ¡Hasta siempre comandante! ¡Hasta siempre y jámas! – onde sorrimos, nos revoltamos, planejamos futuros agora distantes. Precisava voltar. Não era mais seguro para ninguém.
O fusca parou. Avisaram-me que era caminho sem volta. Apenas ouvi o motor roncando e distanciando-se. Tomei um ônibus de volta para a região do Passeio e naquele sobrado escondido, ofegante encontrei o vazio eterno.
O pouco que restou já não era muito, pois tudo estava revirado, não havia gavetas para minha revolta, pratos para que eu quebrasse, os livros estavam rasgados e nos lençóis o cheiro de medo – ela estava dormindo. Tentei me convencer de que as manchas na fronha não eram de lágrimas ainda jovens pela minha rápida fuga sem ela que me perguntava desenfreadamente:
– What have you got to lose? What have you got to lose?
Mas isso era apenas mais uma das músicas que nos alegravam as tardes. Imagino que quando virei as costas ela até pôs alguma coisa para tocar para embalar seu choro doce. Ou não. Ela não chorou, se manteve firme e quando ouviu os barulhos que vinham da porta esforçou-se para não abrir. Manteve-se firme e me mandou ir embora de vez e para sempre. Porém não era eu. Caio em mim e dou a chorar, pois agora o que é que me resta? Fugir mais uma vez?
A clandestinidade jaz no meu coração.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Barack Hussein Obama II

Acho que não há muito que dizer... Está lançada a sorte, os dados foram lançados... Segue o discurso, bonito, confesso. E que dizem, foi redigido por um jovem de 27 anos e, depois, aprovado por Obama, não entendo os esquemas de discursos políticos, enfim, segue traduzido por André Fontenelle (Revista Época) e Luiz Roberto Mendes Gonçalves (UOL).
“Meus concidadãos:
Aqui me encontro hoje, humilde diante da tarefa à nossa frente, agradecido pela confiança depositada por vocês, atento aos sacrifícios feitos por nossos ancestrais. Agradeço ao presidente Bush pelos seus serviços a esta nação, assim como pela generosidade e pela cooperação mostradas durante esta transição.
Quarenta e quatro americanos, até hoje, prestaram o juramento presidencial. Suas palavras foram ditas durante a maré ascendente da prosperidade e nas águas calmas da paz. Mas frequentemente o juramento é prestado em meio a nuvens crescentes e tempestades ruidosas. Nestes momentos a América foi em frente não apenas graças ao talento e à visão daqueles no poder, mas porque nós, o povo, permanecemos fiéis aos ideais de nossos antecessores e aos nossos documentos fundadores. Foi assim e deve ser assim com esta geração de americanos.
É bem sabido que estamos no meio de uma crise. Nossa nação está em guerra contra uma rede de violência e ódio de longo alcance. Nossa nação está bastante enfraquecida, uma consequência da ganância e da irresponsabilidade de alguns, mas também da nossa incapacidade coletiva de tomar decisões difíceis e preparar a nação para uma nova era. Lares foram perdidos; empregos foram cortados; empresas destruídas. Nossa saúde é cara demais; nossas escolas deixam muitos para trás; e cada dia traz novas evidências de que a forma como usamos a energia fortalece nossos adversários e ameaça nosso planeta.
Estes são os indicadores de uma crise, tema de dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profundo, é o solapamento da confiança por todo o nosso país. Um medo persistente de que o declínio da América seja inevitável, e que a próxima geração deva ter objetivos menores. Hoje eu lhes digo que os desafios diante de nós são reais. São sérios e são muitos. Eles não serão superados facilmente ou num curto período de tempo. Mas saiba disso, América: eles serão superados.
Neste dia nós nos unimos porque escolhemos a esperança e não o medo, a unidade de objetivo, e não o conflito e a discórdia. Neste dia viemos proclamar o fim de nossos choramingos e falsas promessas, as recriminações e os dogmas desgastados, que por tempo demais estrangularam nossa política.
Ainda somos uma nação jovem, mas, nas palavras das Escrituras, chegou a hora de acabar com as coisas de menino. Chegou a hora de reafirmar nosso espírito resistente; de optar pela nossa melhor história; de levar adiante esse dom precioso, essa nobre ideia, passada de geração em geração: a promessa divina de que todos são livres, todos são iguais e todos merecem a chance de lutar por sua medida justa de felicidade.
Ao reafirmar a grandeza de nossa nação, compreendemos que ela não é um presente. Deve ser conquistada. Nossa jornada nunca foi aquela de atalhos ou de quem se contenta com pouco. Nunca foi o caminho dos fracos de coração – daqueles que preferem o ócio ao trabalho, ou buscam apenas os prazeres da fortuna e da fama. Foi, isto sim, o dos que correm risco, dos que fazem, dos que executam coisas – alguns célebres, mas mais comumente homens e mulheres obscuros em seu trabalho, que nos levaram pelo longo e áspero caminho da prosperidade e da liberdade.
Por nós eles empacotaram suas pequenas posses mundanas e viajaram pelos oceanos em busca de uma nova vida. Por nós eles trabalharam em condições ruins e se estabeleceram no oeste; suportaram o estalar do chicote e araram a terra dura. Por nós eles lutaram e morreram em lugares como Concord e Gettysburg; na Normandia e em Khe Sahn. Mais de uma vez esses homens e mulheres lutaram, se sacrificaram e trabalharam até que suas mãos estivessem em carne viva para que nós vivêssemos uma vida melhor. Eles viram uma América maior que a soma de nossas ambições individuais; maior que todas as diferenças de nascença ou riqueza ou partido. Esta é a jornada que continuamos hoje. Ainda somos a nação mais próspera e mais poderosa na face da Terra.
Nossos trabalhadores não são menos produtivos que no início desta crise. Nossas mentes não são menos inventivas, nossos bens e serviços não são menos necessários que na semana passada, no mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade permanece intacta. O tempo de deixar as coisas como estão, ou de proteger pequenos interesses e adiar decisões desagradáveis, esse tempo certamente passou.
A partir de hoje, temos que nos levantar, sacudir a poeira e começar de novo o trabalho de refazer a América. Para onde quer que olhemos, há trabalho a fazer. O estado da economia exige ação, ousada e rápida, e nós vamos agir – não apenas para criar novos empregos, mas para estabelecer novas fundações para o crescimento. Construiremos as estradas e pontes, as linhas elétricas e digitais que alimentam nosso comércio e nos unem. Recolocaremos a ciência em seu devido lugar, e usaremos as maravilhas da tecnologia para elevar a qualidade de nosso atendimento de saúde e reduzir seu custo. Usaremos o sol, os ventos e o solo para abastecer nossos carros e fazer funcionar nossas fábricas. E transformaremos nossas escolas e universidades para atender as exigências de uma nova era. Podemos fazer tudo isso. E faremos tudo isso.
Ora, alguns questionam a escala de nossas ambições. Sugerem que nosso sistema não pode tolerar planos demais. Suas memórias são curtas. Pois esquecem o que este país já fez; o que homens e mulheres livres podem obter quando a imaginação se une a um objetivo comum, e a necessidade à coragem.
O que os cínicos não conseguem entender é que o chão moveu-se sob seus pés. Que as disputas políticas vazias que nos consumiram por tanto tempo não servem mais. A questão que se deve perguntar hoje não é se o governo é grande demais ou pequeno demais, mas se funciona – se ajuda as famílias a encontrar empregos com salários decentes, assistência que possam pagar, aposentadorias dignas. Onde a resposta for sim, nossa intenção é seguir em frente. Onde a resposta for não, os programas serão cortados. E aqueles que administram o dinheiro do povo terão que assumir suas responsabilidades: gastar com sabedoria, mudar os maus hábitos, fazer negócios à luz do dia. Porque só assim poderemos restaurar a confiança que é vital entre um povo e seu governo.
Tampouco enfrentamos a questão de se o mercado é uma força do bem ou do mal. Seu poder de gerar riqueza e expandir a liberdade é inigualável, mas esta crise nos lembrou de que sem um olhar vigilante o mercado pode sair do controle - e que uma nação não pode prosperar por muito tempo quando favorece apenas os prósperos.
O sucesso de nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho de nosso Produto Interno Bruto, mas do alcance de nossa prosperidade; de nossa capacidade de estender oportunidades a todos os corações dispostos - não por caridade, mas porque é o caminho mais certeiro para o nosso bem comum.
Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos como falsa a opção entre nossa segurança e nossos ideais. Nossos pais fundadores, diante de perigos que mal podemos imaginar, redigiram uma carta para garantir o regime da lei e os direitos do homem, uma carta expandida pelo sangue de gerações. Aqueles ideais ainda iluminam o mundo, e não vamos abandoná-los em nome da conveniência. E assim, para todos os outros povos e governos que nos observam hoje, das maiores capitais à pequena aldeia onde meu pai nasceu: saibam que a América é amiga de toda nação e de todo homem, mulher e criança que busque um futuro de paz e dignidade, e que estamos prontos para liderar novamente.
Lembrem que as gerações passadas enfrentaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com sólidas alianças e convicções duradouras. Elas compreenderam que somente nossa força não é capaz de nos proteger, nem nos dá o direito de fazer o que quisermos. Pelo contrário, elas sabiam que nosso poder aumenta através de seu uso prudente; nossa segurança emana da justeza de nossa causa, da força de nosso exemplo, das qualidades moderadoras da humildade e da contenção.Somos os mantenedores desse legado. Conduzidos por esses princípios mais uma vez, podemos enfrentar essas novas ameaças que exigem um esforço ainda maior - maior cooperação e compreensão entre as nações.
Vamos começar de maneira responsável a deixar o Iraque para sua população, e forjar uma paz duramente conquistada no Afeganistão. Com antigos amigos e ex-inimigos, trabalharemos incansavelmente para reduzir a ameaça nuclear e reverter o espectro do aquecimento do planeta. Não pediremos desculpas por nosso modo de vida, nem vacilaremos em sua defesa, e aos que buscam impor seus objetivos provocando o terror e assassinando inocentes dizemos hoje que nosso espírito está mais forte e não pode ser dobrado; vocês não podem nos superar, e nós os derrotaremos. Pois sabemos que nossa herança de colcha de retalhos é uma força, e não uma fraqueza.
Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus - e de descrentes. Somos formados por todas as línguas e culturas, saídos de todos os cantos desta Terra; e como provamos o sabor amargo da guerra civil e da segregação, e emergimos daquele capítulo escuro mais fortes e mais unidos, só podemos acreditar que os antigos ódios um dia passarão; que as linhas divisórias logo se dissolverão; que, conforme o mundo se tornar menor, nossa humanidade comum se revelará; e que a América deve exercer seu papel trazendo uma nova era de paz.
Ao mundo muçulmano, buscamos um novo caminho à frente, baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo. Para os líderes de todo o mundo que buscam semear conflito, ou culpam o Ocidente pelos males de sua sociedade - saibam que seu povo os julgará pelo que vocês podem construir, e não pelo que vocês destroem.
Para os que se agarram ao poder através da corrupção e da fraude e do silenciamento dos dissidentes, saibam que vocês estão no lado errado da história; mas que lhes estenderemos a mão se quiserem abrir seu punho cerrado. Aos povos das nações pobres, prometemos trabalhar ao seu lado para fazer suas fazendas florescer e deixar fluir águas limpas; alimentar corpos famintos e nutrir mentes famintas.
E para as nações como a nossa, que gozam de relativa abundância, dizemos que não podemos mais suportar a indiferença pelos que sofrem fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem pensar nas consequências. Pois o mundo mudou, e devemos mudar com ele. Ao considerar o caminho que se desdobra a nossa frente, lembramos com humilde gratidão daqueles bravos americanos que, nesta mesma hora, patrulham desertos longínquos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos dizer hoje, assim como os heróis caídos que repousam em Arlington sussurram através dos tempos. Nós os honramos não só porque são os guardiões de nossa liberdade, mas porque eles personificam o espírito de servir; a disposição para encontrar significado em algo maior que eles mesmos.
No entanto, neste momento - um momento que definirá uma geração - é exatamente esse espírito que deve habitar em todos nós, pois por mais que o governo possa fazer e deva fazer, afinal é com a fé e a determinação do povo americano que a nação conta. É a bondade de hospedar um estranho quando os diques se rompem, o altruísmo de trabalhadores que preferem reduzir seus horários a ver um amigo perder o emprego, que nos fazem atravessar as horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro para subir uma escada cheia de fumaça, mas também a disposição de um pai a alimentar seu filho, o que finalmente decide nosso destino.
Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com que os enfrentamos podem ser novos. Mas os valores de que depende nosso sucesso - trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo - essas são coisas antigas. São coisas verdadeiras. Elas têm sido a força silenciosa do progresso durante toda a nossa história.
O que é exigido de nós hoje é uma nova era de responsabilidade - um reconhecimento, por parte de todos os americanos, de que temos deveres para nós mesmos, nossa nação e o mundo, deveres que não aceitamos resmungando, mas sim agarramos alegremente, firmes no conhecimento de que não há nada tão satisfatório para o espírito, tão definidor de nosso caráter, do que dar tudo o que podemos em uma tarefa difícil.
Esse é o preço e a promessa da cidadania. Essa é a fonte de nossa confiança - o conhecimento de que Deus nos chama para moldar um destino incerto. Esse é o significado de nossa liberdade e nosso credo - a razão por que homens e mulheres e crianças de todas as raças e todas as fés podem se unir em comemoração neste magnífico espaço, e porque um homem cujo pai, menos de 60 anos atrás, talvez não fosse atendido em um restaurante local hoje pode se colocar diante de vocês para fazer o juramento mais sagrado.
Por isso vamos marcar este dia com lembranças, de quem somos e do longo caminho que percorremos. No ano do nascimento da América, no mês mais frio, um pequeno bando de patriotas se amontoava junto a débeis fogueiras nas margens de um rio gelado. A capital fora abandonada. O inimigo avançava. A neve estava manchada de sangue. No momento em que o resultado de nossa revolução era mais duvidoso, o pai de nossa nação ordenou que estas palavras fossem lidas para o povo:
“Que seja dito ao mundo futuro ... que na profundidade do inverno, quando nada exceto esperança e virtude poderiam sobreviver ... que a cidade e o país, alarmados diante de um perigo comum, avançaram para enfrentá-lo”.
América: diante de nossos perigos comuns, neste inverno de nossa dificuldade, vamos nos lembrar dessas palavras atemporais. Com esperança e virtude, vamos enfrentar mais uma vez as correntes geladas, e suportar o que vier. Que seja dito pelos filhos de nossos filhos que quando fomos testados nos recusamos a deixar esta jornada terminar, não viramos as costas nem vacilamos; e com os olhos fixos no horizonte e com a graça de Deus sobre nós, levamos adiante o grande dom da liberdade e o entregamos em segurança às futuras gerações.
Muito obrigado. Deus os abençoe. E Deus abençoe os Estados Unidos da América.”


Tradução:
André Fontenelle (Revista Época)
Luiz Roberto Mendes Gonçalves (UOL).