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domingo, 25 de outubro de 2015

O fim da falsa culpa: um ensaio pela liberdade

Foto que tirei, em 19 de outubro de 2015, de intervenção feita numa parede na subida da escadaria da Igreja do Santíssimo Sacramento da Rua do Passo, Centro Histórico de Salvador - Bahia. Seus 55 degraus serviram de cenário para o famoso filme "O pagador de promessas", de 1962, baseado em peça de Dias Gomes.


Queria dizer, e já dizendo, que a cada dia que passa, mais me surpreendo com a complexidade dos valores moralistas que se constroem constantemente à minha volta e que, volta e meia, me atingem diretamente o fígado, que é a alma. Por isso, me posiciono: Sou a favor da legalização do aborto e da maconha.
Consequentemente, o modelo tradicional/ocidental de “religião” me assombra. Grito aqui, sem medo de cuspir em algum prato ou ter meu teto de vidro despedaçado: sempre me assombrou.
O mais curioso é que nunca tive uma educação familiar que me obrigasse a professar uma fé, um posicionamento político ou coisa do tipo. O discurso até os meus dez anos era muito simples: havia valores educacionais e de trabalho igualitário na minha casa que, por sorte, construíram diariamente meu caráter, e todo e qualquer tipo de posicionamento que eu tomasse era e é respeitado pelos meus pais. Assim, pude frequentar uma vez uma missa, ir a terreiro de candomblé, ubanda, igreja evangélica, pentecostal, comer doce de São Cosme e Damião, tomar sopa dia de sábado em Centro Espírita e até mesmo visitar orfanato com professores da escola em que estudei entregando donativos para crianças como eu.
Um dia a coisa mudou e não sei por que cargas d’água houve um enfraquecimento em mim no quesito “ética laica”. E isso, de quebra, levou meus pobres pais-liberais para o mesmo abismo da culpabilidade, principalmente mamãe que sempre foi de uma clareza fantástica de ideias, amiga do mais variado tipo de pessoas, consideradas pelo moralismo fundamentalista cristão, que a cada dia cresce mais no país, como “desviadas”.
Participar de um corpo religioso sempre me foi uma dúvida pelas muitas dores que, mesmo inserido e absorvido no corpo religioso, eu sentia, fosse após um dia de festa no terreiro da Dona Iraci ou numa reunião no Salão do Reino dos Testemunhas de Jeová. O discurso não atendia profundamente minha necessidade de viver e conviver com o externo: meus amigos de pais divorciados, o amigo de escola cuja família era ele, filho único, sua mãe biológica e sua companheira (um casal maravilhoso e lésbico que me tratava com um carinho enorme), etc, etc. Mas nenhuma instituição religiosa me causou mais dor e sofrimento do que a igreja em que fui batizado e frequentei constantemente na minha pré e adolescência.
A instituição religiosa e cristã e protestante (que paradoxo este último termo) reproduzia e se fundamentava nos mesmos moralismos excludentes que eu via na escola, na rua e nas esquinas por onde eu passava no meu dia a dia. Aquelas pessoas, que convivi até então nos meus dez anos de idade, tornaram-se “desviadas”, “criaturas de deus”. Passaram a necessitar da “salvação em Cristo”, eram “do mundo”. Eram “diferentes de mim”. Essa foi a primeira grande dor que senti: eu deveria orar por aqueles “perdidos” que “viviam fora do núcleo verdadeiro da felicidade e do correto”, logo, “estavam fadados à perdição”, precisavam da “conversão” para “tornarem-se verdadeiros filhos de deus e não mais criaturas”.
Clamava-se pelo caminho da “santidade” entre tropeços sôfregos, justificativas fundamentadas na esperança, crença no invisível-visível, na vida eterna em Cristo Jesus, nosso senhor. No fundo, o controle social interno da corporação de candidatos a homens e mulheres de bem a caminho da perfeição-salvação se dava por meio da construção do simplório sentimento de “culpa”. Isso mesmo: culpa. Não se engane, a roda gira graças à culpa. Depois (um depois de passado, antes de mim), surgiu o fantástico discurso neo-pentecostal da prosperidade-riqueza, quase um deus vult do capitalismo. A fórmula medieval de “doe e você receberá em dobro” se adequou perfeitamente às pessoas de baixa renda e que depositam e depositaram toda sua fé no milagre divino-financeiro. A roda do capitalismo nesses moldes, nem Weber esperaria com tanta perfeição. Pois é, entre 1904 e 1905, quando do lançamento de seu famoso livro, não havia vocês sabem quem para ele analisar! Voltemos à culpabilidade. E que volte algum Max Weber para colocar de maneira mais erudita que a minha, o dedo nas chagas da cruz!
Era culpa porque “o filho de deus”, “o próprio deus” morreu num madeiro por um pecado que você nem tinha cometido, mas ele sabia que você um dia ia ter o azar de professar, afinal ele sabe de tudo antes mesmo de você saber que vai fazer. Era culpa pelo cine prive que só mostrava bunda e peitinho nas madrugadas da TV Bandeirantes e a punheta da noite anterior à “escola bíblica dominical”. Era a culpa pela vontade de comer a menina do banco da frente que tinha culpa porque queria ela também comer você. Era até a culpa de saber que você não comia ninguém, mas havia uns tantos cantores de coral que fodiam e você não! Enfim, não vamos culpar ninguém, já há culpa demais. Afinal, o importante era pedir perdão e essa lógica alguns pegavam rapidamente: então, piroca na vida e depois você pede perdão!
Em dado momento, uma importante guinada, ao menos para mim, aconteceu: Cada vez mais, tudo à minha volta fazia menos sentido: os tapinhas nas costas por uma bela poesia cristã, um “abençoado” por uma letra de música ou uma peça adolescente de teatro. Um “aleluia” por uma reflexão retórica à um trecho bíblico, etc., etc. Fui acometido no melhor da vida de uma depressão que diziam ser de fundo espiritual, “a chama da fé já não estava ardendo”, eles diziam. No fundo, o que eu via era a culpa depositada onde não há culpa. Logo, todas as minhas namoradinhas eram “jugo desigual”. Graças a deus!
Os remédios surgiram e que não deixam de ser drogas. Precisava deles para dormir, acordar, sorrir, andar de bicicleta, jogar bola, estudar. Uma vida tosca. Onde eu estava errando? Eu nem olhava e olho com maus olhos as pessoas que evidentemente estavam contentes, felizes na fé. Eu só passei a perceber, simplesmente, que aquilo não servia para mim o tanto que servia para cada uma delas. Aquele “corpo religioso” não conseguiria comportar a minha alma e meus anseios como cidadão, ser humano, pessoa, individuo. Eu queria ter amigos, amigas. Ter perto de mim gays, lésbicas, maconheiros ateus, agnósticos tucanos, petistas do candomblé... católicos viados, putas evangélicas, enfim, eu queria era ser livre de culpa religiosa. Veja, deve ser bom e deve mesmo ser bom para um monte de gente: mas não é para mim. A lógica é racional e bem simples.
Conversei com meus pais naquele período sombrio e a ideia foi maravilhosamente aceita por eles, sempre tivemos amigos que frequentavam a nossa casa e trabalhos e que se enquadravam em algum momento nessa sintética e livre definição acima.
Passei a pensar que era bem mais leve e alegre conduzir minha vida novamente a partir de uma ética que procurasse acima de tudo não ferir a minha individualidade e a alheia. Não era uma filosofia de vida ou coisa do tipo, era a única saída que eu tinha para viver. As drogas receitadas diminuíram.
Aos poucos, a atitude também foi tomada pelos meus pais, a família se uniu ainda mais, as conversas, que sempre foram abertas, sobre sexo, drogas ilegais, álcool, rock and roll, ficaram ainda mais abertas. Até hoje não matei ninguém, estuprei, roubei, furtei ou qualquer outro tipo de atividade que fira os preceitos de direito universal, incluindo, a liberdade religiosa que cada individuo, por lei, tem. Apenas não tenho mais uma religião e não me insiro na institucionalidade de nenhuma delas, mesmo entendendo que, para elas, a necessidade de se institucionalizar é latente. Eis o problema para eles e para mim.
Recordo com certa náusea, confesso, de que quando entreguei formalmente minha solicitação de “exclusão do rol de membros da Igreja” – formal isso, não? Quanta institucionalidade para a fé! – o pastor, um senhor agradável que ainda guardo com um enorme respeito e carinho, soltou a máxima: “As muitas letras te deixaram louco”. Citação paulina, ele era muito bom nessas coisas. Eu estava cursando graduação em História.
Acho que anos depois, seu filho, que também tornou-se um ministro e não deixava de ser um bom amigo, numa conversa informal quando eu disse que havia terminado um relacionamento (que era jugo desigual, até então) de uns quatro anos, para ficar com uma paixão que me surgiu de repente, disse: “Mas, ora, sem igreja, religião... quais serão seus fundamentos morais e éticos para conduzir sua família, sua vida?”. Curiosamente o discurso do desigual sumiu na nova realidade.
Acredito que essa voz-desabafo de hoje e cada luta diária que travo pela laicidade no Estado e no Ensino, uma laicidade que permita o conhecimento pleno de toda e qualquer manifestação de religiosidades, explica bem quais os fundamentos morais e éticos que eu, brasileiro, servidor público federal, filho, companheiro e amante e, acima de tudo, livre e sem culpa, sigo na condução da minha família não tradicional. Uma família que se propõe de forma veemente a não se enquadrar nas normas institucionalizadas por um governo que tem se vendido cada vez mais à Bancada da Bíblia no Congresso Nacional.
Sou a favor do direito da mulher abortar e ser amparada pela lei em sua vontade individual de praticar a interrupção de uma gestação dentro dos prazos regidos pela Medicina e conforme dados da Organização Mundial da Saúde. Sou a favor do uso livre da pílula do dia seguinte em conformidade com o direito individual da mulher de ter o controle de seu corpo, enquanto individua e cidadã, principalmente, se for ela vítima de violência sexual e não só. Sou a favor da legalização da maconha, sua produção de qualidade, venda em locais específicos e o uso individual e coletivo de forma recreativa como fazemos com o álcool e o tabaco. Sou a favor do matrimônio de casais de mesmo sexo e dos os direitos legais que disso decorram. Sou a favor da adoção legal por casais de mesmo sexo. Sou a favor da liberdade religiosa e de toda e qualquer manifestação cultural de religiosidades. Sou a favor do individuo inserido na coletividade do que deveríamos chamar de nação brasileira. Sou até mesmo a favor da presença de religiosos no Congresso, desde que eles não firam a nossa individualidade.
Axé, amém e viva o azul.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A aspereza da vida

O silêncio ainda rodeia a casa, os cachorros caminham, se deitam, caminham. Não há muito que fazer. Não posso me atrasar, nunca tive o hábito de tomar café, curioso, posso sentir a colher de sopa entrando e se chocando com meus dentes com um Nescal morno e um leite com nata, enquanto sentado na mureta da varanda minha mãe me obrigava a me alimentar antes de ir para a escola. Não sei o que gostava menos.
Não posso me atrasar. O 005 Mesquita X Praça Mauá passa religiosamente no mesmo horário. São os mesmos rostos, do trocador, do motorista, da moça da poltrona alta. Todos com olhares cansados, vidas cansadas. Não entendo bem as coisas, mas meu pai disse que seria interessante para mim, apesar da universidade, apesar do terceiro período, ele tinha razão, difícil ele não ter razão. Apesar de eu já não ir às aulas regularmente.
Hoje o terminal é um museu, não sei que fim deu o bar bem em frente ao ponto do Caxias X Praça Mauá. Dali escoava de quando em quando, também, até uns ônibus para Itaipuaçu e cercanias. Não me recordo a empresa. Era engraçado como as roupas se modificavam, os empregos também, pouco, mas, também. O pessoal do Evanil que fazia Nova Iguaçu X Praça Mauá era meio esnobe, penso eu.
Eu cheirava a querosene, minhas mãos estavam sempre sujas de tinta branca, maldita tinta branca, ou zarcão. Não, eu não tomava banho ao final do expediente, queria sair dali o mais rápido o possível. Digressões.
O que importa para você agora são as manhãs e a conversa com Tereza, não? Como descrevê-la sem sentir um cheiro demasiadamente doce que exalava de sua bolsa quando a abria para pegar um cigarro? Como te falar como ela era sem sentir na minha boca aquele gosto de pão francês com bife à milanesa que eu tomava no café da manhã naquele bar que agora me foge o nome da memória? Como? Não sei nem se posso impostar a voz e tentar imitar os emigrantes que trabalhavam ali ou os chineses que saíram do cais, dos enormes navios e passaram a noite inteira fodendo e bebendo.
Nunca perguntei sua idade, mas, assim como ela eu sempre tomava café no mesmo banco redondo de haste de ferro e assento de madeira envernizada. Nos primeiros dias, sequer nos olhávamos. Na verdade, eu a espiava de canto de olho quando acendia com uma delicadeza seu cigarro de filtro amarelo ou sei lá o que.
Eu procurava variar minha rotina, meu pai, figura forte em minha formação, sempre me aconselhou jamais fazer os mesmos caminhos, ter os mesmos hábitos: “Podem estar te vigiado”, ele dizia. Logo, dia sim, dia não, tomava café numa birosca diferente da Praça Mauá, as biroscas estão acabando, assim como a Praça Mauá. O único lugar mais atrativo e com comida decente era aquele boteco ao lado do puteiro que também não me lembro o nome. Puteiro muda muito de nome no centro do Rio. Não acabaram com o bar e nem com o puteiro.
Ali se servia um tal “Copacabana”, pão com ovo estrelado e queijo prato e, sim, o impecável pão com bife à milanesa. O lugar era decente, dentro do que você possa entender ou como queira entender por decente. Minha tese é que a comida tinha que ser boa e era boa pois servia as putas de uma longa jornada, os marujos do cais do porto, os milicos da Marinha, mendigos, continos e jovens atendentes de telemarkting.
Tereza e eu éramos parte da clientela padrão, logo, frequentadores assíduos. Num dia após um serviço de domingo para segunda de feriado, encontrei com ela sentada no cativo banco, o dia era vazio, o centro vazio. A Praça Mauá só tinha pombos e mendigos e uns poucos marujos saindo do Primeiro Distrito Naval.
Nunca perguntei sua idade, ela sabia a minha, sabia que eu era passageiro ali, que logo voltaria para a rotina da universidade e que o desvio de percurso era apenas para eu aprender que a vida era áspera como a barba de um alguém desconhecido em seu pescoço naquela noite anterior de tantas outras noites anteriores. Não havia tanta poesia assim em suas palavras. Aliás, não há poesia na miséria, tirando as fotos feitas pelo Salgado, não?
Foi a derradeira conversa. Ela me perguntou de forma tão doce quanto o cheiro que exalava da sua bolsa, o cheiro misturado com o frescor da menta que saia da sua boca com o cigarro: “Você é estranho, garoto. Nunca vi boyzinho assim não comer puta”. Não disse a ela, mas digo agora: tenho o maior respeito pelas prostitutas. É lugar comum dizer que é a profissão mais antiga do mundo. Maria Madalena, dizem, era prostituta antes de conhecer Jesus, mas, dizem também que, na verdade, continuava puta para sustentar o mesmo Jesus em suas andanças. Há lógica nisso. Houve um tempo no Brasil que vendia-se sangue, legalmente. Boyzinho é o marujo jovem, chamam assim na Marinha, que se saiba, não era minha condição social debatida naquele balcão, mas, meus status quo de marinheiro-recruta. Digressões e mais digressões. Entenda como quiser.
"Me falta curiosidade", respondi. Na verdade, me faltava disposição, dinheiro, tempo, sagacidade, coragem, dinheiro e, talvez, até tesão naquela fase da minha vida. Ela riu. Continuou com o “estranho”. “Estranho, muito estranho. Tu é viado?”. Era uma das frases mais colocadas quando, desde a escola de formação, grande parte dos garotos no auge dos seus dezoito anos pegavam os 200 reais que recebíamos e corriam para pegar o ônibus até a Vila Mimosa, e eu permanecia no alojamento lendo. Na verdade, me faltava disposição, coragem, sagacidade.
Eu ri e disse que não. Ela retrucou que tinha muito amigo desviado e que cortava pro outro lado, para eu não me envergonhar. Eu ri novamente. Sorvi um gole de suco de laranja azedo e perguntei de seguida: “Você mora onde?”. Ela se assustou e perguntou: “Você está apaixonado, é?”, “e se fosse?”. Ela riu sem graça. Não, eu não estava apaixonado, mas Tereza, Tereza era seu nome, eu já te disse, não?, me chamava atenção por ser ser humano como eu, ter uma vida e uma história. E a vida é áspera para alguns.
“Moro no Catumbi num apartamento alugado com mais uma amiga, puta também, bom que você saiba”, “por que é bom que eu saiba?”. “Não sei, se quiser me visitar.”. Pobre Tereza, pobre de mim. Eu não sabia onde era, naquele tempo, o Catumbi. Ir pro centro do Rio já era uma vitória de 29 quilômetros que eu estava festejando há meses sentado feito gente grande naquele balcão revestido com uma chapa de alumínio gasto.
“Você faz muitas perguntas. Pergunto eu agora”, “certo”. “De onde você é?”. “Moro em Mesquita, curso faculdade de História, acho que não tenho muitos planos e estou na Marinha de passagem, me alistei e calhou de eu servir”. “Que merda, hein?”, “nem tanto”. “Quando você vai visitar o inferninho como os teus amigos?”, “acho que nunca, não gosto da música, de lugar escuro, do cheiro de cigarro e bebo pouco”. “Você é uma graça, dá até pra me apaixonar e não te cobrar nada”. Eu lembrei do Belford, um negro forte que serviu comigo e me chamava de irmão branco, além de filho da puta. Eu não entendia essa lógica dele, me chamar de irmão e complementar: filho da puta! Morava na Vila Vintém e quando mataram o Celsinho da Vintém, chorava pelo alojamento de um lado para o outro: “ele me deu meu barraco, ele me deu meu barraco!”. Acho que era mentira, coisa de momento, pra fazer frente a cada um de nós, cada um vindo de um lugar, uns de favelas, comunidades, Baixada, Zona Sul, interior, cada um com sua história e sua estratégia para manter pulso firme frente ao desconhecido. Reencontrei o Belford uma vez na Praça do Canhão, em Realengo. Eu estava namorando e ouvi alguém gritando “filho da puta”. Era o Alexander Belford com seus dentes brancos e sua pele brilhante de ébano. Nunca mais o vi. Digressões. Belford comeu uma puta na Vila Mimosa e só queria foder com ela, somente ela, me contava que a menina estava apaixonada por ele e ele por ela. Nunca mais a viu depois que concluiu a escola de formação. Falamos rápido sobre isso no nosso encontro de sortilégio na Praça do Canhão. Digressões.
Pobre de mim, e Tereza me lendo com seus dentes certos e seu cheiro doce. “Quer um chiclete, boyzinho? Você não fica puto d’eu te chamar assim? Muitos dos que trepam comigo ficam”, “Não.”. “Não, pro chiclete ou pro boyzinho”. Tereza era inteligente, possuía a sagacidade das ruas, da cama rotativa com homens desconhecidos, uns porcos, grossos, violentos e sujos, outros tímidos e broxas, boyzinhos. Tereza, nunca perguntei sua idade. Digressões naquela manhã de segunda, feriado.
“Posso pagar sua conta?”, “Não, quem paga as minhas contas sou eu, por isso me deito com quem eu quero, entendeu?.” e riu, ajeitou a bolsa e repetiu: “Eu até poderia me apaixonar por você...”.

Nunca mais vi Tereza e agora prostrado na frente do bar da minha memória, me pergunto em voz alta que fim há para a aspereza da vida?

domingo, 7 de dezembro de 2014

Camila ou o primeiro passo da memória

A memória sempre me dói. Memória e dor, no meu caso, mesmo que seja em terceira pessoa, sempre doerá. Enfim, acho o passado uma merda.
Não sei por que me lembrei de Camila. Mas, antes de Camila, houve a Sabrina e após elas duas, Tereza e depois de tantas outras: vocês.
Chego a ouvir o barulho da água correndo e se chocando nas pedras do Rio Dona Eugênia, hoje uma vala negra que sangra assoreada cortando os bairros da Coreia e do Centro, talvez, se eu não estiver errado, corte ainda o Cosmorama até, quem sabe, ser mais um fio escuro, sujo e lodoso a desaguar na Guanabara... Chego a ouvir o barulho das músicas que cantávamos.
Era uma escola de bairro, numa casa grande e com salas com poucas divisórias, uniformes quadriculados e com nossos nomes. Ali passávamos nossas manhãs e os lanches que trazíamos eram divididos entre todos da classe numa mesa retangular de madeira. Eu corria e me sentava na frente de Sabrina, um dourado na pele morena dos nossos cinco anos, cabelos negros e longos, pesados e com leves cachos nas pontas. Seu nariz perfeito e lábios levemente carnudos. Sabrina um dia pálida e sem o brilho de sempre vomitou por toda mesa restos de macarronada e salsicha, bem na minha frente. Dancei quadrilha com ela naquele ano e nunca mais nos vimos.
Mas foi Camila, tão morena quanto, tão cabelos negros quanto, que me atiçou ao amor. Duas bolas profundamente negras entre o nariz fino que me olhavam com desdém, eu magricelas e desengonçado, Segunda Série Primária, meias brancas, calça tergal vinho e recusado pela Dona Leonor por ser lerdo demais para estudar ali na tradicional escola mesquitense de famílias que, por sorte, seriam comerciantes em algum bairro daquele Primeiro Distrito de Nova Iguaçu. Bons tempos de sinceridade.
Foi Camila que com seus cabelos pouco acima dos ombros, moradora da Chatuba e que ia de ônibus para a escola, que me atiçou ao amor e aos lábios femininos e aos olhos femininos mais do que às bundas e às coxas. Os lábios me beijariam – coisa que Camila nunca o fez – e os olhos me veriam... ou não.
Um dia apanhei na escola, um dia comum de escola. Camila teve dó dos meus lábios sangrando, meu olhar de peixe morto e o silêncio das palavras. Pobre de mim, fechei meus olhinhos miúdos e nem beijo, nem carícia. Apenas me levantou do chão. Morar na Chatuba no fim dos anos 80 requeria força e conduta, braveza frente ao mundo cão. Coisa da qual meus pais me protegiam constantemente entre os muros do grande quintal da casa verde de pés de cajá, jaca, abacate, abil, pitomba e mangas coração de boi. O morro me era uma incógnita esclarecida apenas nos dias de domingo, quando pelas mãos meu pai me levava à feira, aos campos de futebol do Parque Central, de Jacutinga e na Chatuba. A miséria humana e a tristeza infantil – na minha opinião, a mais dura tristeza que possa existir: a de uma criança – eu conheci num hospital infantil que minha mãe dava plantão, onde atendia crianças de um orfanato localizado na Praça Santos Dumont, em Nova Iguaçu. Crianças queimadas por óleo quente, com olhar fundo e que sorriam quando minha mãe entrava. Meus cabelos penteados para o lado, a pele viva e corada contrastando com a dureza da realidade. Como animais ferozes, em finais de semana, aqueles meninos e meninas eram liberados para zanzarem pela Praça que ficava – não vejo maldade maior no mundo – ao lado de um Parque de Diversões, acredito que o mais antigo da região. Não houve, ainda hoje, coisa mais impactante para mim, como ser humano, do que meu contato com aqueles órfãos. Hoje percebo o quanto aquilo moldou meu caráter e o sentimento de humanismo que meus pais tinham ao me instruírem brincar com aquelas crianças me deu um desapego curioso às coisas materiais. Sou filho único. Tive vários irmãos e irmãs.
Camila me ignorou até a Quarta Série Primária – as mulheres me ignorariam até o curso universitário. Quando num dia de ousadia – eis o passado – roubei do álbum de família uma foto minha feita por fotógrafo profissional, fotógrafa, na verdade, contratada pela minha mãe, no qual, burguês de família em ascensão, eu posava com uma das mãos no queixo e exibia um sorriso branco e cabelos negros finos e ondulados. Olhos de um profundo cor de terra esboçando a alegria de uma criança que não previa os males da recessão e de um governo Collor que pausaria a economia da casa.
Entreguei a foto meio trêmulo, com umas letras redondas, simplesmente: “Para Camila, Bruno Alvaro”. Havia uma imponência, eu sei, em ter um nome de sobrenome. E se não havia grandiosidade nisso, pelo menos, era diferente dos Silva, Maia, Cardoso, Matias, etc., tão comuns na nossa sala de aula.
Ela sorriu com a sagacidade de quem anos depois frequentaria os bailes funk do Mesquita e do Tênis Clube, protegendo-se do que ainda hoje protegem-se as mulheres: nós homens.
Olhou a foto com atenção e disse de forma pausada e com um profundo afeto: “Quando eu tiver um filho quero que se pareça com você...”. Fiquei puto. Evidentemente, fiquei puto. Mas, hoje, agora, falo alto, com orgulho, que elogio maior não receberia até deixar de ser ignorado pelo sexo feminino, na universidade. Quanto a deixar de ser ignorado na universidade há suas controvérsias.
Camila me voltou à mente e aos olhos quando meu pai num empreendedorismo dos anos 2000 abriu uma minúscula loja de tintas na Chatuba e eu, às 8:00 da manhã, seguia para ajudá-lo no mesmo e velho Nova Iguaçu X Fábrica de Pólvora da São Francisco que Camila pegava para ir estudar no início dos anos 90. Dormi e passei do ponto – isso aconteceria mais vezes na minha vida, passar do ponto – e desci numa curva medonha, já no trecho final da rua. Ironia da memória, mais uma vez, ela, a memória, me doeria e eu encontraria Camila, cabelos ainda negros, mas com algumas mexas blondeadas, três furos nas orelhas, meio magra, meio cheia, olhos fundos, não sei, mas ainda profundamente escuros, Camila ainda era linda para mim em todo o exotismo da simetria entre seus lábios e os seus olhos. Me percebendo meio perdido e fodido na Chatuba com um saco de pão e um pedaço de queijo minas frescal, ela sorriu e apenas disse: “Ainda tenho a sua foto...”. Fiquei puto, de novo. Mas hoje, falo alto, com orgulho, foi um baita elogio.
Ficção ou realidade? Não sei, sempre me dói a memória e o passado, seja o meu ou o dos outros. Talvez, por isso mesmo, minha memória sempre falhe. Vamos à Tereza.