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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Alguém lembrou do Escovinha (ou ossatura da memória)



Estou no mesmo quarto onde tantas outras vezes estive – aliás, temo dizer que daqui é que um dia tudo partiu em vozes, gestos transmutados em palavras.

Cada um se depara com suas memórias de maneira ímpar, praticamente, única. Seja um velho perfume que remeterá à infância, seja um som de um pássaro qualquer. A questão é o que tiramos, cada um de nós, de tais lembranças. Sejam elas nostálgicas ou não.
Na verdade, a bem da verdade, devo dizer que não sei bem definir o que há em mim de nostalgia, saudade, memória ou lembrança. Já quando percorríamos na quinta-feira à noite as ruas da velha cidade da minha meninice, as cadeiras na rua, as crianças desnudas e descalças nas calçadas com narizes escorrendo ou mesmo os chinelos demarcando o gol a gol interrompido pela passagem do carro... já nisso eu me perdia na ausência de definição. E digo mais, mesmo as luzes, as muitas luzes que eu via quando do avião se aproximando no Galeão, as luzes rompendo a escuridão do céu, mesmo isso, eu não saberia definir o que significou para mim.

O certo é que isso tudo já estava preparado desde a partida, o que me resta é entender qual das minhas muitas partidas me refiro.
E veja bem: não é um diário. Mas, espero que você possa me ouvir, até mesmo o cheiro forte da minha respiração ou o som rouco da minha voz, a força que faço para tossir. É necessário que me ouça bem devagar, com bastante atenção. Coisa que eu nunca solicitei. Mas, hoje eu te peço.
Neste mesmo quarto, que pouco mudou, a não ser minha ausência física, escrevi artigos, uma dissertação, varei madrugadas a finco com crônicas, poesias, historietas bobas que nem sei mais por onde andam. Aqui neste quarto quase cultivei o afã de achar que a palavra me libertaria um dia. Daqui me aventurei pela primeira vez à opinar sobre algo e que foi publicado no extinto Tramela da gravadora Trama. 

Daqui conheci o mundo de uma maneira um tanto singular, mesmo que o futebol aos domingos, a conversa no portão e as caminhadas no quintal com meu pai ainda fossem mais interessantes.

Mas se trata de memória e a memória pode ser um osso mal restaurado. Uma fratura que ainda persiste em doer em tempos nebulosos e de frio.

É disso que se trata e, talvez, será sempre sobre isso que cada voz sacramentada a não ser escutada no mundo, mesmo um mundo pequeno, seja conduzida mal e porcamente por um ventríloquo.

No calor profundo e seco da cidade, enquanto com passos curtos eu descia o morro de tantas e tantas outras descidas, já quase na avenida principal, vi uma pichação que marcou profundamente toda a minha recém estadia quase findada: P/ Escovinha 14 anos de saudades.

Almocei no centro da jovem cidade, passei no boteco tradicional e voltei com mesmos passos lentos e curtos e pensativos ainda na pichação do muro: P/ Escovinha 14 anos de saudades.



As árvores foram cortadas, o calor aumentou, mas a sujeira e o asfalto eram os mesmos. O local em que ele foi assassinado, uma vila de casas, foi, há muito, derrubada para transformar-se no estacionamento de uma igreja evangélica pentecostal, em cuja escola administrada por ela, inclusive, lecionei um breve período.

Se me perguntarem quem foi o Escovinha, tenho algumas lembranças e histórias engraçadas e que me remetem a um profundo apego ao passado no morro e de como a minha própria vida era um emaranhado exótico de vivências. Nunca soube (ou soubemos todos) o seu nome. Nem sua idade, profissão, filiação. Era o Escovinha. Magro, franzino e alto. Cabelos muito crespos e sempre raspados a máquina, arcada dentária desregular... puro osso e falava fanho.

Sabia meu nome graças a uma escola particular que eu frequentei para crianças no bairro da Coréia, em Mesquita, e nunca esqueceu. O uniforme azul quadriculado carregava Bruno no peito, pintado com tinta para tecidos. Sempre que mamãe subia comigo o morro, Escovinha sorria e dizia: Coé Bruno! Minha mãe retrucava: Fala Bruninho: e aí?

Os anos se passaram, eu cresci, Escovinha mais que eu. Ele morava onde a urbanização e o saneamento haviam chegado, no pé do morro, não era asfalto, eram aqueles antigos paralelepípedos que quase não vemos mais.

Recordo dele vir jogar bola no campinho com os adultos um pouco mais velhos do que ele. Das histórias que ouvíamos das suas atuações nos bailes funks do Mesquita ou do Tênis Clube. O quanto ele batia, mesmo sendo franzino e com cara de lerdo. Escovinha era o falso otário. Tinha unhas grandes que lanhavam a cara dos “inimigos”.

Certa vez, numa noite quente de sábado, provavelmente era sábado, pois papai me deixou ficar um pouco mais na rua, ouvíamos Antena 1, a Light FM do Rio, num micro system que eu ganhei de presente e que funcionava com pilhas. As pilhas comprávamos no rateio, cada um conseguia sua parte como podia – uns vendiam lata, outros pediam para seus pais, outros roubavam. Um aposto necessário: Este rádio, que não tenho mais, levou uma pedrada, não sei o motivo, do Joel Cachaça que, acredito eu, mirava num dos moleques que estava ouvindo comigo. O Joel era um cara bacana, um bom pedreiro que, inclusive, quando saí muitos anos depois do meu período de Marinha, trabalhei como ajudante numa obra de fábrica próximo a Rio Sampa (uma antiga casa de shows na Via Dutra). As aventuras do Joel Cachaça me renderiam ótimas prosas por aqui também. Mas, a memória é seleção. Voltemos ao Escovinha.

Na noite a que me referia, Escovinha chegou cabisbaixo e se sentou na roda de meninos na parte gramada daquilo que chamávamos campinho. O som tocava baixo e ele em silêncio. Dita hora, alguém soltou: Qual é, Escovinha, o que manda?

O Escova havia arrumado uma namorada num baile de favela e na sexta-feira anterior havia ido pela primeira vez ao motel com ela. Até aí, a molecada, incluindo eu, ficou ouriçada em ouvir uma aventura sexual que muitos de nós só teríamos muitos anos depois. Enfeita para cá, enfeita para lá... Escovinha decreta: Não rolou. Quando tiramos a roupa. Não rolou. Não ia rolar mesmo! Um amigo mais velho questionou: Por que?

Era macho! A mina era macho!
Cada menino da rua questionou frente ao seu próprio conhecimento da anatomia feminina e masculina mais rasteira possível: Não dava pra sentir enquanto vocês se beijavam, pô? Não, ela amarrou pra trás! Bom, comia assim mesmo, rapá! E foi quando o brilhantismo, com o perdão da redundância, abrilhantou aquela noite que ficou na minha memória: Comer, comer até dava e até pensei. Mas, ela tinha o pau maior do que o meu e isso eu não admito! Jamais!

Sentado na sala com meus pais, tantos anos depois, relatando o que eu havia lido no muro no pé do morro e atiçando a curiosidade dos dois – Quando descermos para jantar me mostra que eu quero ver – passamos os três a enumerar cada menino da rua que conviveu comigo e os motivos que os levaram a mortes violentas, fosse pelas mãos da polícia, dos justiceiros, que originariam no futuro as milícias, ou o tráfico.

Tanto eu quanto meu pai chegamos a conclusão que no caso do velho Escovinha, ninguém sabia ao certo o motivo. Se por drogas, má companhia, rixa de baile, não havia isso nos autos da memória, não há ao certo o que o levou a tomar cada tiro naquela tarde do passado, dentro daquela casa na antiga vila hoje demolida. Certamente como cada um dos meninos que listamos, a banalidade da vida. Foram muitos tiros. Caixão fechado.

Não sei também ao certo, tampouco meus pais, se os quatorze anos grafados com jetcolor no muro ao lado do terreiro que um dia foi a delegacia de polícia de Mesquita e que eu ouvia o velho Bostinha bradar bêbado na Barraca do Jorginho, em meus tempos de jogador de búlica com pés descalços, que ele havia sido preso por xingar o delegado, são de fato quatorze anos ou muito mais. O tempo nos engana tanto quanto a memória.
A questão é que cada busca que fiz no passado da minha vida, vejo um corpo ensanguentado no chão que poderia ser ou não de um amigo. Mas que no fundo, no fundo, me levou junto, sabe lá deus para onde.

Em tempo: A pichação foi feita em 2013. Na verdade, já se vão 17 anos. 


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O medo é o Orixá falar...

Aquarela de Carybé, encontrada originalmente no livro Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, lançado em 1981

Demorei algum tempo para esboçar cada frase que deposito aqui pelos meus lábios. Talvez pelo receio de ser mal interpretado entre o que se faz palavra junto ao pensamento e se concretiza em som. Considero que sou um meio termo entre o esboço e o concreto, aquilo que ficará cravado no fundo do ouvido.
Demorei um tempo para me reconhecer nesse intervalo, nessa lacuna, e claro que isso tem seu preço: enjôo, mal estar, febre, dores de cabeça horríveis. Muito provavelmente porque a estética é a ressaca que surge no dia seguinte após a vigília na construção de um texto-conversa.
Há uns bons meses assisti uma entrevista do produtor, músico e compositor Alexandre Kamal Kassin que mexeu profundamente comigo. Até compartilhei a impressão em algumas rodas de conversa. Mas a coisa nunca se manifestou concreta para produzir alguma voz específica que valesse todo o esforço de me expor com alguma apresentação nova sem mover ao vivo, como de costume, um músculo sequer da fase.
Em determinado momento do vídeo, Kassin comenta que um dia viajando pela Bahia com um amigo francês, foram procurar uma mãe de santo para que jogasse os búzios para que o europeu descobrisse qual era o seu “ôrixa”. “Querer saber meu ôrixa”, dizia ele.
Quando chegaram ao local, segundo Kassin, a mãe de santo o olhou e disse firmemente: “eu jogarei os búzios para o seu amigo, porém, antes tenho duas coisas importantes para te dizer, uma é mais importante que a outra, mas as duas serão fundamentais na sua vida.” A primeira coisa foi: “Ligue para sua mãe e a tranquilize, seu tio teve um problema grave de saúde, mas já está bem. Fale com ela o mais rápido o possível, se não ela pode partir e não voltar mais” e a segunda coisa, continuou o músico, “largue o que você está fazendo. Você não é feliz e realizado. Você acha que é. Mas não é. Sua vida será melhor se você fizer o que quer fazer de verdade.”.
Basicamente isso. Ele então ligou imediatamente para o Rio de Janeiro. Seu tio havia sofrido um infarto, mas já se recuperava. Sua mãe estava nos Estados Unidos e assim que a telefonou, ela se tranquilizou e sua pressão arterial baixou. Na época, Kassin era produtor musical de alguns ou um, não me lembro, programas da Rede Globo de Televisão. Financeiramente estava realizado. Porém, de fato, ele pausa sorrindo, não era plenamente feliz fazendo o que fazia.
A história segue. Kassin pediu demissão, abriu um estúdio e passou a se dedicar integralmente à profissão de produtor de discos de jovens artistas brasileiros como ele e alguns grandes nomes da MPB. No mini programa-documentário, o carioca finaliza sua fala dizendo que não tinha maior prazer que virar a noite num estúdio e mesmo assim acordar cedo na manhã seguinte. Hoje não ganha tão bem quanto ganhava na TV. Mas é feliz.
O longo parêntese de minha fala tem razão de ser, sofri um pouco sobre como te deixar a par disso. Mas, não havia outro meio de você ouvir. A tal ressaca estética do pós-escrito. Dois fatos são singulares para mim e explicam o porquê de uma história que não é minha estar na introdução da nossa conversa. Volto ao passado, para depois te levar novamente ao mesmo ponto de partida.
Quando eu tinha entre seis e sete anos de idade tinha pesadelos terríveis. Na verdade, não sei quando se iniciaram, se de fato aos seis, mas, é o que consigo lembrar e a memória serve ao esquecimento. Certamente, a Psicologia explica. Mas, fiquemos com o senso comum daquele momento: Para os meus pais e os mais velhos da família, eu estava em fase de crescimento e era absolutamente normal aquele tipo de coisa. Porém, os sonhos medonhos se tornaram doentios, eu tinha insônia, minha mãe acordava com meus gritos. A vida de fato se tornou um inferno para uma criança que era cercada de amor por todos os lados. E não existe inferno mais profundo que uma criança infeliz.
Curioso, mas se penso em duas pessoas cuja religião nunca foi um fator determinante para educação e formação ética, elas são os meus pais. Cada um tem uma característica muito particular: papai nunca conversou, que eu me lembre, sobre deus ou qualquer coisa do tipo. Nem “papai do céu” saía da sua boca. Nunca vi meu pai fazendo sinal de cruz, rezando ou qualquer coisa do tipo na minha infância. O máximo que me recordo era um cordão de ouro com uma imagem de São Jorge. Mas isso sempre foi moda no subúrbio e não sei se havia algum sentido de religiosidade nisso. Contudo, sempre foi um homem sensível ao filho. Meu pai é muito frouxo para assunto de morte. Hoje, adulto, tenho certeza que meu pai se caga de medo de morrer. Digo isso rindo, pois de fato, ele morre de medo da morte. Não fala no assunto, jamais. Não sei nesse ponto o que se passa em sua cabeça. Conversamos sobre tudo. Menos sobre morte. Da morte, meu pai quer distância.
Minha mãe é o inverso. Não sei se desde cedo ou se por profissão, ela ficou um tanto fria com o fenômeno inevitável para cada um de nós. Mamãe passou isso para mim. Curioso que temos similitudes peculiares. Diferentemente de meu pai, sempre vi minha mãe na busca por certo tipo de resposta que, de fato, a gente nunca vai ter. Até certo ponto, tentamos os dois. Nos debatemos na tentativa de buscar em algo que queríamos palpável, não a solução talvez, mas a resposta para o que nos acontecia. Posso dizer por ela que desistimos quase juntos.
De todo modo, me lembro na infância dos plantões que ela dava no Hospital Iguaçu, um prédio sombrio e úmido que me deva medo. Ali, meu avó ficou internado, não recordo se veio a falecer. Mas, me lembro de visitar alguns parentes que, um a um, foram dando seu último suspiro na terra.
Nesse hospital minha mãe uma vez me mostrou “a pedra”. A pedra era – e é – uma mesa de concreto de cumprimento de um ser humano padrão. Ali se colocam os corpos sem vida, os preparam para o velório, lhes dão banho. Vi a pedra vazia, claro. Os corpos saiam por onde mamãe deixava o plantão. Um portão preto ao fundo do hospital e que dava de frente para uma carceragem da Polinter de Nova Iguaçu. Às 19:00 horas em ponto meu pai estava lá com seu fusca amarelo e eu conversando com ele aguardando minha mãe.
Hoje, com a distância que o tempo me traz, vejo que via minha saindo a cada dia mais morta do que os corpos sem ar que eram transportados pelos carros funerários.
A tal não-religião da família não foi impedimento para que meu pai aceitasse o conselho de uma amiga de trabalho, que frequentava o terreiro de Candomblé em frente a nossa casa, para que me levasse para curar meu mal noturno. Não sei se houve relutância.
A questão é que minha lembrança me leva ao fundo da casa do Seu Clair e da Dona Iraci, me vejo entrando dentro do pequeno espaço com ela de branco, imponente, fumando. Ouço atabaques e vejo gente conhecida e que nunca mais revi. Cânticos são entoados. Acho que sou a única criança. Ela bafora algo em meu rosto, não tenho medo. Minhas mãos estão nas mãos de minha mãe. A mãe de santo sorri para mim. Diz que nhôzinho ficará bem, diz que vou voltar a sonhar coisas boas e me dá de beber numa cuia de coco um líquido doce e forte. Tem gosto de ervas e hoje sei que tem gosto de álcool. Nhôzinho bebe. Bebe que fica bom. Eu bebo e peço mais. Ela ou a entidade que a possuía sorri uma gargalhada que eu já havia ouvido e tinha medo às noites mal dormidas, mas que ouviria nos anos seguintes voltando da universidade, da rua, de onde você quiser imaginar e que não temeria mais desde então. Nhôzinho gosta. Nhôzinho bebe.
Nunca mais. Eu repito: nunca mais tive um pesadelo sequer na minha vida e mesmo nos momentos tortuosos e mais tristes, há uma lógica racional que não me permite acreditar que me afundarei num pesadelo enquanto durmo, mesmo se não durmo bem. Mas é como se algo suspirasse palavras no meu ouvido dizendo: não é real.
Finco meus pés no Pelourinho, suo o calor da tarde. Não há linho de fina qualidade que suporte. À nossa frente a arte de Carybé. Imponentes figuras talhadas em madeiras: são os orixás. Não sei quantas vezes em minhas idas e vindas à Bahia que paro para contemplar toda aquela grandiosidade.

Museu Afro-Brasileiro

Ela sorri. Pois ela busca algo mais do que eu. Ela olha tão atentamente. Mas, eu sei. Um dia, ela diz, terei coragem de procurar uma mãe de santo para me orientar. Eu sorrio por dentro e uma voz que eu já conheço da lembrança me sussurra palavras que alertam minha reticência: O medo é o Orixá falar.


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Se não há vagas: não há mérito

Eu queria uma foto de um negativo. Mas não tenho negativos. Só uma velha máquina da infância.

Essa conversa é em homenagem ao Ivan "Zecão"
e tantos outros garotos que a bala e o sangue no chão 
fizeram eternizarem-se na minha memória. Mas,
principalmente, me fazendo menos ilha.

Eu queria dizer, já cometendo o pecado de deixar entornar um pouco o chope da tulipa, que eu queria, eu queria era mesmo contar aqui nessa conversa como eu me sentia uma ilha quando criança. Uma criança ilha cercada por todos os lados de uma proteção familiar amorosa, paciente, espirituosa e formadora de um caráter moral e educacional que mesmo hoje – com o canudo que guardava o diploma guardado em algum buraco da estante do escritório – me surpreende. Eu não sei, na verdade, se sentia isso – a coisa da ilha – quando criança ou se isso foi se construindo em mim depois de velho ou nessa vontade estranha que tenho de ficar bradando pelos cotovelos nos mais dissonantes tons que a gente pode encontrar. A questão é que eu queria conversar meio pra lá meio pra cá sobre essa coisa de eu ser uma ilha, pois à volta da minha vida-ilha, do coral de amor que eu enumerei que protegia praticamente intacta minha vida-ilha, o que se via era pobreza, violência e falta de oportunidade, mas falar sobre isso é meio piegas demais e pessoal demais, e a parada, camarada, é imitar a voz dos outros, pois os outros é que são elas e suas vozes é que falam de verdade!
Recordo bem, você tinha que ver, era uma construção de vivência muito curiosa e nem acho que singular: Conheço muitos outros casos de ilhas-vida como a minha. Ainda esse ano, nos festejos de virada perguntarei para papai e para mamãe de onde tiraram o conceito definidor de educação que me norteou e norteia ainda hoje (e não sei muito bem como agradecê-los por isso). Mesmo sendo eu uma ilha, meus pais não me fecharam o horizonte para o que estava lá, além do coral, está certo que não invadiam – ou quase não invadiam – minhas areias limpas e com tatuís, a fome, a violência, as drogas pesadas, a falta de oportunidade, etc., etc. Mas, meus pais nunca fecharam meus olhos para essa realidade, me tornando uma ilha intocável de amor, tampouco construíram em seus discursos educadores um contraponto, muito perigoso por sinal e quase escatológico, de colocar em mim a angústia de “você é mais que obrigado a ter sucesso, pois tem tudo na vida(ilha)”. Acho que era mais universalizante: “Use o que você tem para ajudar os outros, principalmente fazendo na vida o que você gosta de verdade de fazer”. Gostei de fazer muitas coisas, ah, como eu fiz muitas coisas até encontrar verdadeiramente o que gostar verdadeiramente e me sustentar com aquilo! Só não sei bem se ajudei os outros como meus pais queriam que eu ajudasse.
Mas essa porra aqui não é divã. E duas coisas na vida são batata: Se o chope começa a entornar na mão do caboclo e demorar a ser virado a ponto de esquentar é porque o nível de alegria aumentou, para mal ou para bem. Aí, ou a conversa fica chata ou alguém dança na mesa.
A questão é que um certo ardor, e o ardor queima e quebra o santo de barro, tanto quanto um andor apressado o derruba, de que deve-se ter mais aqueles que trabalham mais, aqueles que estudaram mais, aqueles que são mais e tem mais e querem mais e precisam de mais, pois merecem mais e é sempre mais, mais, mais. Mas é o seguinte: Não há vagas.
Não vejo muito mérito se não há chance de demonstrar o mérito, se não há chance de se construir o mérito de maneira igualitária. O resto, o resto a vida mede, mesmo ela não medindo certo, mas algum ponto de corte sempre deve existir. É evidente que sempre haverá a discussão entre biscoito e bolacha. E o menino branco da ilha-vida de amor ser(se tornar) um crápula e o menino negro da ilha-vida de dor ser(se tornar) o mais novo Prêmio Nobel. Biscoito ou bolacha? E pode ser o inverso também. Porém, as estatísticas estão aí para demonstrar que há mais meninos negros sujeitos à dor do que meninos brancos, a não ser que sejam quase negros.
Confesso e me angustia a questão-confissão: Que mérito tenho eu diante do menino negro que morava há quinhentos metros da minha casa e que tinha que trabalhar catando lata e ferro-velho para ajudar os pais enquanto eu tinha aulas de espanhol num curso há dez ou sete quilômetros da nossa rua, indo de carro? E mesmo assim, não aprendi porra nenhuma porque eu era preguiçoso para rever os exercícios, tendo que voltar a estudar anos depois, pois me dei conta, na Espanha, que apenas enrolava no idioma? (O rapaz negro foi morto pela polícia anos depois e nunca viajou além dos morros da Zona Norte para trazer maconha para ser vendida na nossa rua).
Mas a questão pode ser de bêbado tentando imitar com voz de jornalista sensacionalista alguma manchete. Há de se tomar cuidado com esse tipo de reflexão. Pode soar falsa, piegas ou uma busca de auto-afirmação muito típica dos construtores de mérito ou dos escribas da autoflagelação. Não sejamos nenhum dos dois. Biscoito ou bolacha? A vida mede, é claro. Mas, se a vida por si só já comete injustiças na sua métrica, quiçá, cada um de nós! O que mais há são inocentes úteis.
Escuta, escuta, me ouça para o que interessa: se não há vagas, não há mérito! Entenda: não há mérito se não há para todos (e veja que digo todos: bolachas e biscoitos) saúde, escola, vagas em empregos dignos, com salários decentes, moradias decentes. Onde haverá mérito sem esse mínimo? E se na etimologia latina “mérito” é ganho, lucro, proveito e, por fim, o mais atualmente usado sentido de “merecimento”, como conquistar isso tudo sem vagas? Sem oportunidade? Sem espaço? Sem ser podado continuamente por sua cor, seu status social, sua região de nascimento?
É impressionantemente triste como em terras (de) tupiniquins (extintos) tudo é na base do mutatis mutantis. No fundo, o discurso da meritocracia funciona na prática como sua antonímia, o rapaz negro que morreu por vender erva enquanto eu não revia o pospretérito do verbo olvidar na minha infância, mas que se criou lado a lado comigo, além de estatística, é um tosco exemplo de demérito frente ao mérito na boca de quem me usa para defender o mais para quem já tem mais, pois fez mais e merece mais porque o mais é mais sempre para aquele que é mais em tudo e venceu porque quis mais e foi buscar mais e mais e agora tem mais tirando mais de alguém mais. Mas... Nemo iudex sine lege, meus amigos. Não confundam a construção, se não há vagas igualitárias: não há como demonstrar o mérito e permitir que a natureza cometa seus erros de métrica! Eu não sou fruto de uma meritocracia individualista, alguém me protegeu dela!
Amém!

domingo, 25 de janeiro de 2015

L’art de conjuguer. Dictionnaire des huit mille verbes usuels. Je suis Yuri? Tu es Yuri? Il est Yuri? Je serais Yuri? J’aurais été Yuri? Que j’eusse été Yuri!

Gravura que o Yuri desenhou
sentado na cama de meus pais em Mesquita após um dia de carnaval
no Rio de Janeiro no qual vimos como que uma entidade cantando
- Moacyr Luz - num bloco de frente para o Teatro Rival. A letra referência
se chama Só dói quando rio de Aldir Blanc sobre melodia de Luz. Quadro jaz imponente
ainda hoje na parede de meu apartamento em Aracaju.




Melhor parar enquanto é tempo. Tapar os ouvidos, fechar os olhos, enfim, tomar alguma atitude para não prosseguir. Pois o que aqui exponho é profundamente pessoal. Não que o antes e o que virá não serão. Tudo o é. Contudo, se você não tiver hoje muita paciência para divagações, pieguices e utopias românticas. Melhor parar enquanto é tempo. Procurar outra mesa. Tomar outro trago...
Mas, frente aos últimos acontecimentos, o mundo (re)aprendendo a conjugar o verbo Être – se bem colocado ou não, outra história, mas que me fez, nostálgico relembrar meu le nouveau Bescherelle, fez – ou o brasileiro que sofreu a pena capital na Indonésia por tráfico de drogas e tudo o que isso tem suscitado em debates sobre Civilização versus Barbárie, Ocidente versus Oriente, conservadores e liberais, modernos e pós-modernos saindo das tocas e tudo o mais que outros, mais bem preparados que eu, estão e estarão comentando neste exato momento me fez pensar em duas pessoas: Caetano e Yuri.
Ouvi alguém dizer, não sei se em sonho ou mesa de bar, que todos deveríamos ser um pouco mais Caetano. Apesar do mesmo ter dito em música que “Chico Buarque de Hollanda nos resgate”. Djavan afirmou que o que vale é “Caetanear o que há de bom”. Adriana Calcanhotto convocou-nos “vamos comer Caetano, vamos devorá-lo”.
O bom do Caetano é que o Caetano é o Caetano e sabe que é o Caetano. Me parece, inclusive, que já sabia há muito tempo. O que me leva, então, a afirmar de forma categórica que, sim, nos falta ser um pouco Caetano Veloso no sentido de sermos nós mesmos e não termos medo de sermos nós.
Ser a si mesmo é complicado, mas mais complexo, e sofrível. Conhecer-se a si mesmo é um processo lento e abandonado diariamente por cada um de nós. Aliás, um tanto triste, acredito até que há pessoas que morrem sem no fundo terem se conhecido a si mesmo, no sentido mais profundo do que essa frase possa tentar expressar.
Há, entretanto, nisso tudo, nessa longa introdução, por si só uma falha que não ignoro: Eu não conheço o Caetano como o Caetano se autoconhece ou mesmo dá a entender que tal fato tão bonito aconteça e como aconteça. Eu jamais conhecerei o Caetano Veloso. Logo, ser um pouco mais Caetano, ao menos para mim, é tão complexo quanto o processo contínuo de tentar todos os dias me conhecer mais do que ao outro. Pois, na minha cabeça, me conhecer de forma profunda me permite conhecer a fundo os outros a ponto de compreender seus medos, complexos, bondades e maldades, vaidades e orgulhos. Talvez, então, eu até conheça o Caetano.
Por isso mesmo, eu digo aqui de alto e bom som que, apesar de não conhecer, quase conhecendo, eu não queria ser como o Caetano ou mesmo o Caetano. Mas, digo aqui em alto e bom som. De alto e bom som que eu queria ser o Yuri, mesmo, com o mesmo pressuposto não conhecendo o Yuri como talvez o Yuri se dê a conhecer. E confesso, tenho sonhos em que sou o Yuri. E antes que você se perca: Yuri é o que há. Não! Yuri é um artista da fome. Do mundo. Das marés. Do afoxé. Do Axé. O Yuri poderia ser até uma nova religião: Os adoradores da lona. Os devotos de São Palhaço. O Yuri é um tipo Melamed. Não que o Michel seja melhor que o Yuri. Nada aqui é ponderável. As coisas são líquidas e alguém poderia me ajudar me dizendo que tipo de líquido na Química não congela. Pois o Yuri não congela.
Então, como eu estava dizendo, o Yuri é um tipo meu de Melamed, pois faz teatro, fotografia, vídeo, performances, música, poesia, pixe e grafite e pintura e um monte de coisa mais que não saberia escrever, pois meu inglês parou quando eu tinha treze anos e de lá para cá me viro com o que dá. O Yuri que me perdoe e você aí também. Mas, deixa eu contar em duas versões, em dois ou três atos, porque eu queria ser o Yuri. Mesmo sem saber quem o Yuri é. Mas, como caminho todo dia com o simples – mas complexo – objetivo de me conhecer, talvez, quem sabe, eu venha um dia conhecer o Yuri como, quiçá, o ele mesmo possa saber quem é e onde está.

Ato 1: O sonhando ser o Yuri com o Yuri

Suado na cama, com o sono me doendo a alma mais que o corpo, vendo meu próprio corpo deitado lá embaixo, eu no alto, como que possuído por mim. Sonho este recorrente e que deve ser uma das memórias mais passadas de sonhos meus, sonhos, não pesadelos. Pesadelos deixei de ter quando minha mãe aconselhada por uma amiga de trabalho do meu pai, me levou ao Terreiro de frente de casa e a mãe de santo baforou uma fumaça de charuto amarga e me deu de beber Garrafada. Nunca mais tive pesadelos. Isto é sonho. E mesmo que eu me ajoelhasse sobre mim e rezasse por mim para mim, eu continuaria fora do meu corpo e nessa jornada, tentando conduzir meu próprio destino de imagens – eu sobre mim mesmo na cama – vi o Yuri como uma entidade passando numa praia com ondas numa bicicleta ornamentada de invisível. O sonho parou.

Ato 2: Retalhando o Yuri

Quando virou-me as costas dei-lhe uma porrada na nuca. Arrastei seu corpo até uma praia deserta de nome deserto, tentei por todos os buracos possíveis entrar em seu corpo magro, mesmo assim, meio capenga e cansado – por ter arrastado seu corpo mole pela areia – não consegui ser o Yuri, no máximo fiquei sujo das fezes, sangue e músculos do Yuri. Acordei. Vi meu gato olhando-me com olhos grandes na madrugada, parecia saber o que eu havia pensado no sonho. Me achou patético. Os gatos nos acham gatos grandes patéticos.
No meio de um bloco quente, na Sacadura Cabral, falei-lhe ao ouvido, algo muito baixo e ele: ôxe, massa! Assim, empreendi uma jornada um tanto louca, porém violenta, de com um pequeno bisturi, que eu carregava no bolso enrolado em silver tape  e roubado de minha mãe, realizar um corte preciso atrás de sua orelha e esgueirar-me apertado por sua cabeça, mas lá só encontrei miolos e sangue... Ainda assim eu não era o Yuri.
Não satisfeito, num outro mundo, não sei, coisa assim, arranquei toda a pele do Yuri e vesti-me de Yuri e Yuri não fui. Sou no máximo um malfadado gordinho com uma pele de Yuri apertada sobre meu corpo. Acordei e comentei comigo no espelho que deveria procurar um compêndio de Medicina. Acordei e fui trabalhar.

Ato 3: L’art de conjuguer. Dictionnaire des huit mille verbes usuels. Je suis Yuri? Tu es Yuri? Il est Yuri? Je serais Yuri? J’aurais été Yuri? Que j’eusse été Yuri!

Não é inveja branca, preta, amarela, tampouco, azul, em querer ser o Yuri. Mas, é uma contestação, melhor um com texto ação (contextuação) ser um pouco Yuri.
Pois quando acordo puto, eu sei que o Yuri fica puto também quando acorda de um sono mal dormido, como eu e você ficamos putos com o que nos deixa puto. E não pense você que o Yuri é bobo, pois não é. O Yuri não fica quieto diante da maldade humana. O Yuri também não presta como toda maldade humana. Mas, um pouco mais de Yuri em mim amenizaria minha preocupação em querer ser o Yuri.
Eu fico pensando nos mares que eu não nadei e será que o Yuri nadaria? E as mulheres que eu amei, o Yuri amaria?
Hoje acordei um pouco melhor e escrevi para o Yuri. Pois eu queria até ter a coragem do Yuri para mostrar minha bunda cabeluda por aí, no meio das árvores com a cabeça raspada. Queria ter a coragem do Yuri de mostrar meu pau murcho-balangandã de um lado para o outro como penduricário. Cuspir gosma verde em um vídeo de música punk-tupiniquim. Mas não! Eu não tenho coragem e talvez essa ausência de coragem nem me permita falar em alto e bom som: Que bom se todos nós fôssemos um pouco Yuri e consequentemente um pouco putos e putas, travecos das esquinas da Rua da Frente. Loucos varridos dos escurinhos da beira de algum cais sem mar. Que rodássemos pelas praças, alegrássemos as criancinhas e os loucos que são mais sãos do que nós pobres maltrapilhos.
Eu queria ser o Yuri, pois sendo o Yuri até minhas roupas seriam mais legais. Eu não gastaria metros e metros e metros de notas de dinheiro para me vestir com panos e o Yuri se veste em panos que são tão mais legais. Eu nem queria me casar de véu e grinalda, nem aliança usaria, pois seria meu coração o pacto da amor com uma rosa.
Eu queria ser o Yuri para trabalhar mais com o que gosto e sair desenhando sereias, corações, colorindo muros, dessuavizando esperanças, colocando mais erres no amor e porque não também na dor. Eu queria ser o Yuri para ser uma síntese de Caetano, de Melamed, de Bispo do Rosário, de Gentileza, de Mário Jorge. De chorar vendo “Três irmãos de sangue” e achar o Moreno lindo. Eu queria ser o Yuri para ser o irmão do Aquino. Para ser o filho dos seus pais também ainda sendo o filho dos meus também.
Eu queria, sendo ele, dar mais valor ao que não há valor para nada e o nada é invisível para o mundo e esse invisível que é o mais importante. Eu queria ser o Yuri para me envolver com os Mistérios e me sentir contemplado com meu rosto pintado e me vestir com paetês. Eu poderia até jogar capoeira e ser para sempre um menino travesso . Mas até meus braços quebraram por ser eu um menino travesso e cada dia sou mais corcunda e sem elasticidade. Eu queria ser o Yuri para ter em mim apenas a responsabilidade de ser, simplesmente, feliz mesmo quando eu estou meio triste com tanta sujeira. Eu queria ameaçar fugir com um circo. Gostar mais de palo santo e não precisar de drogas para ficar doidão.
Mas, eu me conheço e tudo passou. Pois no fundo, eu queria ser o Yuri só por querer ser. Pois querendo ser continuo no meu processo de envelhecer e caminhar na busca por todos os dias me conhecer e, quem sabe assim, um dia não querer ser ninguém além de mim.
E eu não serei o Yuri mais. Mas do Yuri tenho um quadro que foi feito para mim por ele o quadro. E tenho uma gravura que ele fez e imprimiu de um gato. Pois, será, talvez, não sei, a arte é o pedaço do artista.
Mas você pode yuriar também: Paranois3. Por que não?

Axé.


domingo, 7 de dezembro de 2014

Camila ou o primeiro passo da memória

A memória sempre me dói. Memória e dor, no meu caso, mesmo que seja em terceira pessoa, sempre doerá. Enfim, acho o passado uma merda.
Não sei por que me lembrei de Camila. Mas, antes de Camila, houve a Sabrina e após elas duas, Tereza e depois de tantas outras: vocês.
Chego a ouvir o barulho da água correndo e se chocando nas pedras do Rio Dona Eugênia, hoje uma vala negra que sangra assoreada cortando os bairros da Coreia e do Centro, talvez, se eu não estiver errado, corte ainda o Cosmorama até, quem sabe, ser mais um fio escuro, sujo e lodoso a desaguar na Guanabara... Chego a ouvir o barulho das músicas que cantávamos.
Era uma escola de bairro, numa casa grande e com salas com poucas divisórias, uniformes quadriculados e com nossos nomes. Ali passávamos nossas manhãs e os lanches que trazíamos eram divididos entre todos da classe numa mesa retangular de madeira. Eu corria e me sentava na frente de Sabrina, um dourado na pele morena dos nossos cinco anos, cabelos negros e longos, pesados e com leves cachos nas pontas. Seu nariz perfeito e lábios levemente carnudos. Sabrina um dia pálida e sem o brilho de sempre vomitou por toda mesa restos de macarronada e salsicha, bem na minha frente. Dancei quadrilha com ela naquele ano e nunca mais nos vimos.
Mas foi Camila, tão morena quanto, tão cabelos negros quanto, que me atiçou ao amor. Duas bolas profundamente negras entre o nariz fino que me olhavam com desdém, eu magricelas e desengonçado, Segunda Série Primária, meias brancas, calça tergal vinho e recusado pela Dona Leonor por ser lerdo demais para estudar ali na tradicional escola mesquitense de famílias que, por sorte, seriam comerciantes em algum bairro daquele Primeiro Distrito de Nova Iguaçu. Bons tempos de sinceridade.
Foi Camila que com seus cabelos pouco acima dos ombros, moradora da Chatuba e que ia de ônibus para a escola, que me atiçou ao amor e aos lábios femininos e aos olhos femininos mais do que às bundas e às coxas. Os lábios me beijariam – coisa que Camila nunca o fez – e os olhos me veriam... ou não.
Um dia apanhei na escola, um dia comum de escola. Camila teve dó dos meus lábios sangrando, meu olhar de peixe morto e o silêncio das palavras. Pobre de mim, fechei meus olhinhos miúdos e nem beijo, nem carícia. Apenas me levantou do chão. Morar na Chatuba no fim dos anos 80 requeria força e conduta, braveza frente ao mundo cão. Coisa da qual meus pais me protegiam constantemente entre os muros do grande quintal da casa verde de pés de cajá, jaca, abacate, abil, pitomba e mangas coração de boi. O morro me era uma incógnita esclarecida apenas nos dias de domingo, quando pelas mãos meu pai me levava à feira, aos campos de futebol do Parque Central, de Jacutinga e na Chatuba. A miséria humana e a tristeza infantil – na minha opinião, a mais dura tristeza que possa existir: a de uma criança – eu conheci num hospital infantil que minha mãe dava plantão, onde atendia crianças de um orfanato localizado na Praça Santos Dumont, em Nova Iguaçu. Crianças queimadas por óleo quente, com olhar fundo e que sorriam quando minha mãe entrava. Meus cabelos penteados para o lado, a pele viva e corada contrastando com a dureza da realidade. Como animais ferozes, em finais de semana, aqueles meninos e meninas eram liberados para zanzarem pela Praça que ficava – não vejo maldade maior no mundo – ao lado de um Parque de Diversões, acredito que o mais antigo da região. Não houve, ainda hoje, coisa mais impactante para mim, como ser humano, do que meu contato com aqueles órfãos. Hoje percebo o quanto aquilo moldou meu caráter e o sentimento de humanismo que meus pais tinham ao me instruírem brincar com aquelas crianças me deu um desapego curioso às coisas materiais. Sou filho único. Tive vários irmãos e irmãs.
Camila me ignorou até a Quarta Série Primária – as mulheres me ignorariam até o curso universitário. Quando num dia de ousadia – eis o passado – roubei do álbum de família uma foto minha feita por fotógrafo profissional, fotógrafa, na verdade, contratada pela minha mãe, no qual, burguês de família em ascensão, eu posava com uma das mãos no queixo e exibia um sorriso branco e cabelos negros finos e ondulados. Olhos de um profundo cor de terra esboçando a alegria de uma criança que não previa os males da recessão e de um governo Collor que pausaria a economia da casa.
Entreguei a foto meio trêmulo, com umas letras redondas, simplesmente: “Para Camila, Bruno Alvaro”. Havia uma imponência, eu sei, em ter um nome de sobrenome. E se não havia grandiosidade nisso, pelo menos, era diferente dos Silva, Maia, Cardoso, Matias, etc., tão comuns na nossa sala de aula.
Ela sorriu com a sagacidade de quem anos depois frequentaria os bailes funk do Mesquita e do Tênis Clube, protegendo-se do que ainda hoje protegem-se as mulheres: nós homens.
Olhou a foto com atenção e disse de forma pausada e com um profundo afeto: “Quando eu tiver um filho quero que se pareça com você...”. Fiquei puto. Evidentemente, fiquei puto. Mas, hoje, agora, falo alto, com orgulho, que elogio maior não receberia até deixar de ser ignorado pelo sexo feminino, na universidade. Quanto a deixar de ser ignorado na universidade há suas controvérsias.
Camila me voltou à mente e aos olhos quando meu pai num empreendedorismo dos anos 2000 abriu uma minúscula loja de tintas na Chatuba e eu, às 8:00 da manhã, seguia para ajudá-lo no mesmo e velho Nova Iguaçu X Fábrica de Pólvora da São Francisco que Camila pegava para ir estudar no início dos anos 90. Dormi e passei do ponto – isso aconteceria mais vezes na minha vida, passar do ponto – e desci numa curva medonha, já no trecho final da rua. Ironia da memória, mais uma vez, ela, a memória, me doeria e eu encontraria Camila, cabelos ainda negros, mas com algumas mexas blondeadas, três furos nas orelhas, meio magra, meio cheia, olhos fundos, não sei, mas ainda profundamente escuros, Camila ainda era linda para mim em todo o exotismo da simetria entre seus lábios e os seus olhos. Me percebendo meio perdido e fodido na Chatuba com um saco de pão e um pedaço de queijo minas frescal, ela sorriu e apenas disse: “Ainda tenho a sua foto...”. Fiquei puto, de novo. Mas hoje, falo alto, com orgulho, foi um baita elogio.
Ficção ou realidade? Não sei, sempre me dói a memória e o passado, seja o meu ou o dos outros. Talvez, por isso mesmo, minha memória sempre falhe. Vamos à Tereza.


sábado, 5 de dezembro de 2009

Doce andarilho...

Estou no Rio de Janeiro, é sexta-feira, dia 27 de novembro. Está quente, muito quente, meus cabelos já estão pedindo corte e agora, mais que nunca, pedem urgentemente para serem podados. Gotículas penduram-se em suas pontas cacheadas – a preta sorri.
Piso no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Largo de São Francisco de Paula, sem número, um prédio histórico, imponente. Quando o avisto me pergunto quantos churrasquinhos de gato da Sônia comi ali me banhando de latão de cerveja com os amigos no final das aulas? Quantas canecas de vinho e bolinhos de bacalhau foram por nós degustados nos finais de laboratório? Incontáveis conversas: futuro, passado, presente? Passado. Volto o pensamento para o presente e vou direto encontrar minha orientadora, temos que conversar: planos de capítulo, vida em Aracaju, notícias sobre minha atuação na Universidade Federal de Sergipe, minha tese de doutorado. A tarde ainda estava quente. Eu havia chegado no dia anterior, ainda me adaptava ao calor carioca – ao meu calor carioca.
Apresento meu trabalho, recebo as críticas, comentários, ponto final. Mais um papo com a orientadora. Já não estou mais lá. Estou agora sentado no tradicional Amarelinho da Cinelândia, confesso que já foi melhor, mas deixo o caso para lá. É sexta-feira. No IFCS, encontramos com Kimon Speciale (ou ele que veio ao nosso encontro).

Kimon é um daqueles amigos que você não consegue recusar um convite para beber. A preta não bebe ou pelo menos não bebe muito como nós. Os dois porres, contados por mim, que ela tomou foram quando saímos para beber com ele – a primeira vez foi no Araponga, nosso escritório na época das aulas de mestrado, se me lembro bem, foi um engradado de cerveja e passos trocados até o ponto de ônibus (se beber, não dirija!). Dá-lhe chope, e como era bem tirado, meu Deus, como era bem tirado, disso não posso reclamar! Posso sentir a primeira golada, o corpo esfriando aos poucos... “Mais dois, desce três, quatro...”. Saldo final, 43, 48? 50 tulipas? Nem sei mais! O importante é que matei uma vontade enorme. Colocamos os três o papo em dia. Sua namorada não estava, se estivesse, dupliquemos um pouco esses números com certeza! Juliana bebe bem também, me lembro, uma vez em Porto Alegre, confesso, a menina me barra. Às minhas costas o Teatro Municipal. A tarde dando aos pouquinhos espaço à noite. E o chope descendo gelado.

Outra incursão, outro relembrar de caminhada pelo Centro do Rio, bem mais tardia que essa minha rápida visita de trabalho... Acho que não contei essa. Mas vale.
Há uma aconchegante livraria, na Rua do Ouvidor, chamada Folha Seca... Para mim, um dos melhores atendimentos da cidade junto com o pessoal da Arlequim. Mas, enfim, numa noite fresca, caminhávamos eu e a preta e comentei que gostava de Maiakóvski, foi quando entramos nela e fui presenteado com um exemplar de Poemas, traduzido pelos irmãos Campos e Boris Schnaiderman. Belo. Inesquecível!
Ontem, quinta-feira, dia 03 de dezembro, entrei novamente na Folha Seca, só. Presenciei um bate-papo entre dois cariocas, um comprador e o dono, creio que é o dono da livraria, gente boa, por sinal, bom de papo também, mesmo que não seja o dono, é gente boa, isso é fato consumado. Os dois discutiam sobre os Nogueira, o João e o Diogo. Peguei a conversa meio que quase no fim, pensei em entrar, até ensaiei. Desisti. Queria apenas ficar ouvindo nosso sotaque, como me é caro nosso sotaque carioca! Me lembro que a resolução foi: o filho não é melhor que o pai. “O negócio dele é futebol, joga muito bem o garoto...” disse o comprador e foi embora, encerrando a contenda sambista. Eu procurava um livro de partituras do Gonzaguinha, publicado pela Irmãos Vitale... Não encontrei, o dono me pareceu mais triste que eu. Mais uma vez, ensaiei um papo, mas lembrei que a preta me esperaria no Centro Cultural Banco do Brasil, logo ali perto. A chuva caiu fina e refrescante. O tempo mudava no Rio de Janeiro. Quando abri a porta da livraria para sair, me virei e perguntei: “esse é o filho ou o pai?”. Ele sorriu e respondeu: “O pai...”. Lá dentro ficou o homem e o cd do João Nogueira tocando.
Na porta do CCBB, vi uma cena linda... Longe, eu via o sol se pondo, lá no fim da Avenida Presidente Vargas, ou pelo menos, no que eu conseguia ver entre a Igreja da Candelária e os altos prédios, ao lado oposto, o mar e um arco-íris bonito. Fiquei triste por estar sem minha máquina fotográfica. Eu estava no Rio de Janeiro. Os carros passando. O vai e vem das pessoas. Os chiados. Fotografei com o olhar. Só eu sei.
Era dia de livraria. Fomos parar na Arlequim. Café, livros, música boa. Tomei um ótimo cálice de vinho do Porto. Encontrei o cd do Wilson das Neves que eu tanto procurava. Comprei.

Hoje, o tempo virou de vez. Quase perdi o avião. A Linha Vermelha, a Avenida Brasil, acho que todo e qualquer acesso ao Centro do Rio de Janeiro, ao subúrbio, ao bendito Galeão, estava congestionado, foi aquele dia que o Rio parou.
Ao longe a Igreja da Penha, linda, imponente. Só, lá no alto. Só, como eu agora aqui em meu escritório. No meu apartamento em Aracaju. Ao longe ficou o Rio de Janeiro. Uma semana que passou como um dia. É esquisito chegar à sua cidade a trabalho, correndo, tendo que resolver coisas importantes e não curtir realmente as ruas, as noites, os dias. Um suspirar que se foi rápido e novamente a rotina. Acho que a frase da belíssima Só Dói Quando Rio, de Moacyr Luz e Aldir Blanc, resume bem o que eu senti quando pisei no Galeão: “só fico a vontade na minha cidade...”.


Mas isso passa. São reticências de um “doce andarilho”, como diria minha querida amiga Tatiane Reis. Como disse, agora pouco, ao meu primo Gustavo Alvaro, sempre que volto do Rio de Janeiro e piso em Aracaju, preciso de uns dias para me dar conta que não estou mais ali. Ao poucos, vivo novamente o ritmo daqui, a vida daqui e me apaixono novamente. Pois o que vale no fim é apaixonar-se por onde se mora. Mas amar, só amo um lugar. Agora vazio como um copo de chope na mesa de bar. Mas logo, logo, me encho de novo!





sábado, 21 de novembro de 2009

"E o inverno no Leblon é quase glacial..."

O título é um verso de um poema de Antonio Cícero que foi musicado por Adriana Calcanhotto e gravado com o título Inverno, no cd A Fábrica do Poema de 1994 (ou 1995? Não lembro bem). Engraçado, foi o primeiro cd que comprei com meu próprio dinheiro, digo, com meu dinheiro, de algum trabalho que fiz, não lembro qual. O comprei em 1997, eu estava no 2º Grau, sim, ainda fiz o famoso 2º Grau...
Mas, enfim, é o seguinte, fico impressionado com uma coisa engraçada aqui em Aracaju, dá um vento e as pessoas se encasacam todas! Um vento sequer e: Casaco! Dia desses, numa reunião de departamento, reparei na secretária e ela estava toda encolhida, ao término fui perguntar se ela estava resfriada ou coisa do tipo e ela: “não professor, estou com frio, o ar condicionado estava no máximo...” eu sorri, só podia sorrir mesmo.
Antes de vir para cá, me recordo que um amigo estava saindo da UCP e comentou se eu queria substituí-lo como professor de História Medieval por lá... “bom”, pensei eu, “claro!”... Acabou que não rolou e parei aqui – melhor para mim.
Sinto muita falta do glacial inverno do Rio de Janeiro. Bangu, putz, Bangu é oito ou oitenta. Muito frio. Muito calor. Mesquita, minha cidade natal, é um caso interessante. Lembro-me de acordar de manhã (coisa rara, eu sei – eu acordar cedo) e ver meu quintal todo enevoado. Chuva de granizo era uma coisa fantástica por lá. Que saudade do meu quarto úmido, frio... saudade!
Adorava o inverno no Rio de Janeiro, a coisa do mar revolto, o povo reclamando do frio. Andar de trem era o máximo. Caminhar pelas ruas do Centro era tudo. Beber vinho. Que saudade.
Fui assistir dias atrás a um show do grande violonista Toquinho (já falei sobre isso por aqui) no Parque das Sementeiras, aqui perto de casa, fiquei realmente impressionado com a quantidade de gente usando casaco, numa noite agradável, de vento fresco, achei legal mesmo. Num tempo mais passado, coisas de dois meses, algo assim, um professor do departamento que fez o doutorado no Rio de Janeiro, me parou no corredor e me perguntou se como estava minha adaptação em Sergipe. Eu disse que tudo bem, etc., o engraçado foi ele falar do calor, uma frase me chamou muita atenção: “bom, não são os 40 graus do Rio de Janeiro, mas é calor...”. Realmente... ele tinha razão. Vejamos, no futuro, o inverno, pois o verão, ah, no verão estou indo bem...


Ps. Uma vez caminhei, no inverno, no Leblon e, sim, é meio glacial. Mas, ainda considero, muito mais, como uma figura de linguagem que comparar, por exemplo, ao inverno do Grande Rio...
Ps. 2 A foto não é no Leblon, mas era inverno no Rio de Janeiro e nem sei o que eu estava fazendo na praia...