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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Pobre Maiakóvski (Brasil pós-2016)




Perdidos em disputas monótonas,
buscamos o sentido secreto,
quando um clamor sacode os objetos:
"Dai-nos novas formas!"
(Ordem N.º 2 ao Exército das Artes, Vládimir Maiakóvski, tradução de Haroldo de Campos. 
Em: Maiakóvski: Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 93)


Chega um momento na nossa existência que as coisas vão indo tão mal, coisas simples indo tão mal, que a gente acaba se vendo obrigado a usar aquela expressão que resume o "estar na merda", "as coisas estão muito ruins", "Não dá mais...", etc. A tal máxima é: "Brasil pós-2016".

(Nota aos estrangeiros: este termo possui um interessante histórico etimológico e é mais ou menos como a palavra "Saudade", não tem tradução para outros idiomas além do português brasileiro).

Um exemplo didático: você pede uma moela ensopada num boteco para papear um pouco com a patroa sobre a vida, a moela chega fria. Você não diz mais: "que merda"... Você expressa seu descontentamento com: "Brasil pós-2016!". Não satisfeito, pede uma porção de pão de alho. Chega uns nacos de pão com manteiga no forno e um potinho de maionese industrial com aroma artificial "alho". Você xinga? Chama o garçom prum papo? Não! Você diz: "Brasil pós-2016!".

Liga a TV, mais um pacote de cortes... Suspira fundo: "Brasil pós-2016".

Mais uma chacina: "Brasil pós-2016".

Caí no cheque especial de 350% de juros ao ano: "Brasil pós-2016".

Os índios não existem mais, foram abolidos pelo agronegócio: "Brasil pós-2016".

Fecharam uma universidade pública, duas, três: "Brasil pós-2016."

Servidores estaduais e municipais e federais caminhando para a miséria: "Brasil pós-2016"...

Evangélicos estão no poder, empresários são eleitos prefeitos: "Brasil pós-2016".

Mães matam filhos por serem homossexuais, pais chacinam a família por machismo: "Brasil pós-2016".

E assim a gente foi mudando nosso linguajar de pouco a pouco.

É uma coisa meio Etimologias, do Isidoro de Sevilha... 

Entendam cagalhões: Daqui uns séculos "escafandristas virão explorar sua casa", na verdade, seus status no Facebook, e verão que a expressão "Brasil pós-2016" surgiu logo após um surto epidêmico, não de Febre Amarela, de certo modo sim, mas uma febre de camisetas amarelas e de um pato amarelo gigante pelas ruas de São Paulo, gritos nas capitais estaduais, selfies com Policiais Militares. Os escafandristas investigadores descobrirão que a disseminação linguística se deu através do som do Plim Plim, via aparelhos de Televisão e grupos de tiozões no Whatsapp com camisetas com a foto de um homem que apoia Brilhante Ustra e ofendeu uma Presidenta da República que foi torturada durante a Ditadura Civil Militar no Brasil. Para ficar só nisso.


O DNA da máxima "Brasil pós-2016" estava, dirão os escafandristas arqueólogos das palavras, em um tal de "Fora Dilma e leve o PT junto". A mesma senhora que quando jovem teve ratazanas inseridas em sua vagina como método de tortura.



Curiosamente, assim como renascentistas, humanistas e iluministas falando da Idade Média no seu presente passado em tempos remotos, os contemporâneos do "Brasil pós-2016" não se lembrarão das pessoas tiradas da miséria durante os 13 anos petistas, esquecerão, como num surto, a expansão do ensino público, os avanços sociais de igualdade e justiça para os mais necessitados.

A classe média brasileira, aquela infectada pelo vírus da Febre Amarela Política, e mesmo os recém-chegados ao status graças aos tais avanços do passado presente, esses seres contra-História, silenciar-se-ão ignorando suas participações nas marchas pela família, ignorarão os ministros nomeados com ficha suja, emudecerão diante das delações com nomes do governo interino, e depois fixado através de negociatas de privatização e prevaricação, nomes explícitos em listas de propinas. Tudo graças ao mecanismo técnico-biológico do Plim Plim. 

Na explicação do dossiê, os escafandristas dirão: As células se ativavam às notas musicais estridentes e então as vozes bradavam: "Bandido bom, é bandido morto!", "Comunistinha de merda", "Esquerda caviar"... "A culpa não é minha, eu votei no Aécio!", "Vocês também votaram no Vice...", "Transformaram a bandeira do Brasil num símbolo comunista (mas era a bandeira do Japão)", etc. e tal.

Finalmente, esses escafandristas, ao tentarem, mais uma vez, alertar os contra-História, serão silenciados por algum pacote de cortes nas Ciências ou vão ser terminantemente afastados de seus cargos públicos-concursados através de um processo temeroso de redução salarial, lhes cortarão o oxigênio.

No geral, perceberemos que, primeiramente, a estratégia funcionará a partir da diminuição do acesso à internet fixando um limite de dados. Em seguida cortarão o acesso igualitário à universidade pública e gratuita, reduzindo o Ensino Superior ao monopólio de Empresas Educacionais privadas que lidam com a educação através do mesmo modelo de alimentação fast food. Depois, depois a gente não sabe, pois estamos no futuro do passado e fica difícil localizar a narrativa em algum tempo verbal. Não sei se estou aqui ou acolá. À propósito, a voz que você ouve nesse momento tem esse som por ser eu também um escafandrista.



Pobre Maiakóvski, não há nenhuma pessoa feliz no Brasil pós-2016.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

As cagadas do PT ou o ontem depois de hoje

Imagem publicada originalmente na conta de Twitter do jornalista Bruno Torturra

Três máximas que não devem ser ignoradas: 1) Eu fui um dos tolos que disse ruim com o PT, pior sem ele. Está comprovado, isso é uma besteira de ontem; 2) O PT ajudou, no dia 13 de julho de 2016, na concretização do golpe institucional. Está comprovado que hoje o PT é longínquo do que se sonhou um dia longe de ontem. Uma submáxima: o PT é indefensável e, finalmente, 3) Sinto angústia por uma mulher como a Dilma Rousseff, cuja valorosa história revolucionária a torna um exemplo para todos nós, continuar filiada a uma sigla como o PT. Partido que contribuiu imensamente para que, agora, ela fosse definitivamente afastada. A sigla PT não significa mais Partido dos Trabalhadores, mas Poder Totalizante e, para isso, é necessário vender a alma a deus e ao diabo.
Hoje, nessa madrugada tenebrosa, um dia depois da morte de um trabalhador rodoviário em Aracaju por mais um motivo torpe – assalto –, o silêncio nas ruas, graças a paralisação do sindicato, representa os muitos e doloridos silêncios em que se afunda o Brasil. As panelas golpistas se calaram após a abertura do processo de impeachment e no 13 de julho fatídico,uma esquerda pasma, anestesiada e iludida foi golpeada pelo partido golpeado que elegeu um partido golpista para presidir a Câmara dos Deputados Federais.
O cobrador de ônibus assassinado hoje e tantos outros trabalhadores que morrerão daqui a pouco e que continuarão a morrer na roda da fortuna são mais importantes que meu tempo gasto e o sono perdido às portas de dia que passarei inteiro entre papeis e burocracia universitária pensando em como o PT se tornou o que é e em como ainda ouvirei e leirei pessoas, ditas esclarecidas se curvando ou na esperança de explicações retóricas para a atitude política dessa sigla morta. Isso tudo dito aqui, numa única frase, num único fôlego.
Dói pensar que, querendo ou não, a política também é e se faz por laços de afetividade e se, de fato, assim o é, o PT está tão vivo nas mesas de negociação, tão vivo, mas, tão vivo que fede. Pois o único banho que tem tomado é com o sangue de índios, negros, homossexuais, toda uma minoria solapada e violentada diariamente pelo poder dominante que esse mesmo tão vivo PT alimenta. Na verdade, o poder não corrompe, ele vicia o usuário a se lambuzar na corrupção.
Não há muito mais que dizer. Ainda penso na família que enterrará um pai hoje, um filho, um irmão. O silêncio é o símbolo do fim. Como lutar contra o golpe se o golpe é chancelado intencionalmente pelo golpeado? Talvez seja a hora de ignorar o som do silêncio e nos atentarmos mais na busca pela claridade. A frase feita para as redes sociais e para o dia a dia se modifica: primeiramente fora quem?


Nesses tempos tenebrosos: Continuo lutando contra o golpe que devasta a democracia e a partir de agora, também luto contra o PT.

sábado, 2 de julho de 2016

Seu Gouveia, o cidadão de bem

63 anos. Aposentado aos 50. Bem disposto, joga todo sábado o futebol master no campo do Boró, dois tempos de quinze. Bebe sua cerveja em copo americano e em cadeira de ferro. Já deu uns tapas na mulher. 25 anos casado com a Doralice, aliança 24K gravada no interior pelo ourives: Fui o único. Certa vez, arrancou-lhe dois dentes, pois ela reclamou do batom na camisa e do cheiro de colônia feminina depois das suas andanças após o futebol.
Domingo, sentando no banco, rezou pra São Jorge, o Guerreiro, que desse forças para continuar com a mesma mulher. Ela à noite, no culto evangélico, ajoelhada orando para que Cristo Jesus acerte os caminhos do marido. Divórcio é coisa moderna desses avançados. O que Deus uniu o homem jamais pode separar. Nisso os dois são felizes. Apesar do próprio padre reticente e do pastor revoltado com a situação. Mas a oferta e o dízimo estão em dia. Dá-lhe oração e vigília. Queima-se vela e Ave Maria.
Jailson Salomão Costa Gouveia. Irmão mais novo de seis. Cidadão de bem. Burocrata. Demorava uma hora no cafezinho. Três para o almoço. Entrava nove e saía às dezesseis. Sonha com a volta dos militares. Naquele tempo não havia esse desbunde! Sempre achou grevista vagabundo. Porém, funcionário público, colheu delas os seus benefícios. Dos de São Bernardo do Campo, sempre teve pavor. Não gosta de nordestino, de preto, nem de candomblé. Mas todo dia 23 de abril não sabe se é cavalo ou se relembra que já foi coroinha.
Insulta Nicinho, o cabeleireiro, de “viado” e “dá cu”, mas, entre cascudos e maços de cigarro sem filtro, pede pra molecada comprar, junto ao jornal, fotonovela de travestis. Bandido bom, é bandido morto. Mulher de minissaia está pedindo pra se estuprada e filha sua, se casar, será de branco e cabaço. Seu Gouveia, cidadão de bem.
Machista. Sua mulher ainda coloca sua comida. Não sabe fritar um ovo. Mas, nas festas da família, em meio à birita, queima a carne do churrasco entre piadas sexistas. Lésbica é falta de piroca. Gay foi falta de porrada. Seu Gouveia, cidadão de bem. Aborto é pra mulher da vida. Apesar da rua inteira saber da Lindaura e da gravidez interrompida. O silêncio feminino na mesa de jantar. Lavam-se as louças. Ouve-se um arroto. A TV está ligada e um forte ronco na poltrona. Seu Gouveia, cidadão de bem, encerra mais um domingo comum.

sábado, 25 de junho de 2016

A loteria na Babilônia ou ensaio sobre um lugar comum

Rafael Braga


Como todos os homens da Babilônia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio, os cárceres. Olhem: falta o indicador de minha mão direita. Olhem: por este rasgão da capa se vê em minha barriga uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth.
(Jorge Luis Borges, a loteria na babilônia. Ficções (1944), p. 53)


Dentre as mentiras da vida
Duas nos revelam mais:
- É um prazer conhecê-lo
- Era muito bom rapaz
(Aldir Blanc e João Bosco, Nada a desculpar, 1973)


A formação malandro cocô
Se na França, onde os políticos tanto da esquerda quanto da direita, cometem erros primários, e a maioria dos que ocupam altos cargos, inclusive o atual presidente, estudaram na Sciences Po, imaginem no Brasil, em que carreira política se faz, geralmente, por ser ex-jogador de futebol, ex-policial torturador ou não, líder religioso neopentecostal, contraventor, ex-celebridade?
É claro, esse é um exemplo tosco, simplista como o são as frases desconexas de um mau ventríloquo aprendendo a arte. Não precisa jogar a cerveja na minha cara, virar a mesa e me dar nas costas com a cadeira de ferro. Calma, cagalhão e cagalhona! Analogias são perigosas nos últimos tempos, tanto quanto a ironia, eu sei.
O que quero dizer é que a política no Brasil nunca foi algo tão sério, a ponto de ser historicamente institucionalizado como estudo. Aliás, Ciência Política é um campo que tem um pouco mais de 50 anos, ou seja, extremamente jovem. Isso me leva a ousar dizer que, por não ter sido e não ser algo devidamente sério no país que mereça atenção, a política sempre foi feita na base do exibicionismo, do “tipo ideal” midiático – quando ela passou a ter importância fulcral –, quando não, na base da oligarquia hereditária. Esta última, o modo mais corriqueiro de se fazer e manter a política, enquanto poder, nas mãos dos mesmos senhores e senhoras de terras e de gente no Brasil.
No país da onça de cativeiro assassinada – são duas mortes em questão, vale frisar –, se aprende os meandros da Política no ciclo vicioso da histórica maneira de se fazer política no jeitinho.
É como a vida numa cela de presídio, numa Polinter da vida ou num morro qualquer: se você está ali, chegou ali, por roubar um frango, um bombom numa loja de grande porte, mofará e perderá toda a melanina da pele, será esquecido pelo Sistema e quando, enfim, deixar de ser uma ficha numa pilha gigantesca, quando for lembrado, se for, sairá de lá assaltante de banco.
Ou se está ali por um baseado queimado, ou dois, até três, que seja. Por plantar em casa para consumo próprio. Enfim, por ser usuário. Foda-se: saíra de lá traficante e revoltado.
Mas é claro, o menino do morro, não planta e, pasmem, pouco fuma. Ele vende e ele é preto e negro é preso. Presídio, Polinter e Morro: tudo uma coisa só.
Assim é a política brasileira, assim é a prática universitária, é o futebol na rua, o namoro no portão ou a arte na galeria: Jogue o jogo para sobreviver.

A práxis do erro: Jogue o jogo
Jogue o jogo. Frase típica nos salões de sinuca, principalmente, entre os malandros cariocas da Lapa e os paulistas da Boca do Lixo. Jogue o jogo: Joga vida roubada/ Joga vinte e um.../ Sinuca, bilhar,/ Joga pra espetar/ Pra matar/ Pra defesa... (Jogador, de João Bosco e Aldir Blanc. Do disco Tiro de Misericórdia, 1977).
O mais temeroso, e essa é a pedra que quero acertar nas vidraças insensíveis do Shopping Center Building com meu estilingue, é tanto a esquerda, o centro, a direita e os lugar-comum, não se darem conta disso.
A esquerda, a que mais me interessa no momento, por exemplo, se apegou ao discurso de “só caçam o PT” e caem no sumidouro narrativo de ignorar que a evidente corrupção petista é idêntica ao jogo jogado pelo PSDB há anos e ao muro de poder que é o PMDB, para citar aqui apenas os peixes grandes. Por outro lado, a direita, cada vez mais burra e dominada por cagalhões, tem conseguido, aos trancos e barrancos golpistas, manipular a massa como o sempre fez e manter o projeto evidente de só evidenciar os males e falcatruas do Partido dos Trabalhadores e jogar para o tapete que quem aparelhou o sistema foram eles mesmos e, de fato inegável, não o PT.
Daí, a esquerda e a militância petista – há uma grande diferença entre os dois ideologicamente na atualidade e já alguns anos, por sinal – batem de frente dizendo “não!”, contudo, num tipo de combate ainda mais tacanho e ingênuo do que mobilizar massas camponesas no sertão que padecem sem água e pão.
Vejam bem: Primeiramente, o interino ainda está inteiro. O salvador da pátria, a estrela branca e imaculada no centro do vermelho sangue, já assinala para as eleições municipais a mesma vinculação de alianças que lhe custaram mais que um dedo no torno.
Quem vemos no horizonte de esperança? Ciro presidente?  Lomba da massa, lomba da massa que não me deixa sair de casa!


Veja mal: Em nenhum momento do debate, se é que existe algum debate atualmente, a não ser agressões mútuas e infantis, pudemos observar algum tipo de avaliação, um mea culpa sequer, dos erros políticos do governo derrubado. Não, não estou falando da militância. Do eleitorado, de você e de mim. Falo das lideranças. Claro, ingenuidade a minha, afinal, reconhecer os erros, é sair do jogo sacramentado da nossa política, seria abandonar as trincheiras já cheias de ratos e larvas de moscas varejeiras nas nossas feridas putrefatas e com vivo pus. Apodreçamos, mas apodreçamos com honra, mesmo que ela, na verdade, seja pura arrogância hagiográfica construída na Lapa, na Cinelândia ou na Avenida Paulista sobre um carro de som e rouquidão e evidente cansaço.
Vejo o contrário. Observa-se uma militância de esquerda reinventando, tão ingenuamente quanto você ouvir minha voz solicitando autoavaliação das roucas lideranças, pautas de luta contra o governo golpista, ignorando, por exemplo, que os índios já eram mortos sob a bandeira vermelha do PT, tanto quanto são assassinados nesse momento e no governo anterior e no anterior e no anterior e no anterior.
Mariana e Ouro Preto padecem na lama podre e contaminada dessa Política feita, não pelo preparo político, mas pelas mãos do jeitinho brasileiro. Se quer o que se quer: manter a práxis.
Ora, tínhamos a rainha do agronegócio à frente da pasta... da agricultura! E agora assumiu o imperador. Oito e oitenta.

O macho adulto branco sempre no comando e A fila de soldados, quase todos pretos dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos: Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Rafael Braga continua preso e ele, a meu ver, é o maior símbolo dos buracos de avestruzes que somos cada um de nós em nossas “lutas inglórias” de 2013 a 2016, em nossa militância ingênua de joguetes. Cafés com leite, isso é o que nós somos na Política.
Café com leite. Termo, segundo o cronista paulistano João Antônio, que se referia aos garotos que frequentavam os salões de sinuca não ser permitido beber álcool e os mais velhos lhes darem café com leite. Ver a antologia Malagueta, Perus e Bacanaço e o conto homônimo (João Antônio. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 42-181).
Ignoramos os atos assinados durante a última gestão desgovernada pelos desgovernos de favores e alianças: Lei antiterrorismo contra nós terroristas. 
Ignoramos até o mais sensível: os únicos que pagaram pela ingenuidade, foram uma mulher branca, que lutou bravamente contra a Ditadura Civil e Militar, sendo presa e torturada e que foi eleita pelo povo esperançoso e um negro catador de latinhas, lavador de carro nas ruas, representando bem o que é a massa e que somos nós massa esclarecida: cafés com leite.
Os dois são similares. Os dois são epígrafes para a sociedade e para o subtítulo chupado do falo de Caetano. De duas canções de Caetano: Haiti, de 1993 (com uma pequena participação de Gilberto Gil) e O estrangeiro, de 1989.
Dilma Rousseff foi o joguete que marca o machismo político e a dominação masculina nas mãos do mais do mesmo. O moto contínuo. Ela é o exemplo da honestidade que foi derrubada pelos acordos entre leões disfarçados de cordeiro. E está pagando esse preço. Quem era Dilma, se não um interregno do projeto de poder de Lula e o liberalismo disfarçado do PT? Quem é Dilma se não aquela que não compactuou com a práxis do Jogue o Jogo? Não enxerga quem não quer ver. E por ser mulher, por si só, teve e tem de enfrentar o antro sujo de homens sórdidos.
Rafael Braga é o negro, pobre e marginalizado. É, nas poéticas palavras de Francisco Bosco, o malabarista do sinal vermelho. Ele é a evidência de Como quem vê por um vidro/ O que escapa da mão/ Uns exilados de um lado/ Da realidade/ Outros reféns sem resgate/ Da própria tensão (Malabaristas do Sinal Vermelho, de João Bosco e Francisco Bosco. Do disco homônimo de 2003).
Por isso mesmo: Vamos comer Caetano/ Vamos devorá-lo/ Degluti-lo, mastigá-lo/ Vamos lamber a língua (Vamos comer Caetano, de Adriana Calcanhotto. Do disco Maritimo, 1998). Ele é o profeta. O ateu que viu milagres que sabe que, às vezes, é solitário viver.

O tiro de misericórdia ou o réquiem dos enganados
Do canto dos escravos, no passado e no presente, ecoa para um ponto do peito uma canção:
Ê ei
Óia puru céu
Óia puru céu
Puru terra
Diabo te enganou Muriquim
Puru terra
Diabo te enganou João Inácio
Óia pro céu 
Puru terra

(O Canto dos Escravos – Canto IV. Gravadora Eldorado, 1982)

Assim, a vida segue e morre mais um garoto de dez anos como ladrão:


sábado, 28 de maio de 2016

A Marca de Caim da República



  • Sem introdução: uma pedrada

Em caso de dúvida, basta realizar uma pesquisa séria sobre a condução do Congresso Nacional nos últimos anos, em termos de atraso nas medidas progressistas, e logo se perceberá que, além das muitas falhas no exercício público da política no Brasil, a chamada Bancada Evangélica foi um dos maus ignorados por nós, que pretendemos uma modificação radical no jogo hediondo que marca as negociações partidárias há séculos.
Não sinto nenhum apego ao exagero ou medo de ser taxado assim, ao afirmar que, ao lado da Bancada da Bala (ex-policiais civis e militares e alguns ex-oficiais das Forças Armadas) e a dos Bois (composta pela aristocracia do agronegócio) os senhores da indústria da fé têm feito um mal tão grande à sociedade que aqueles que fingem não perceber beiram o cinismo hipócrita.
A religião e a religiosidade são um direito evidentemente garantido na Constituição. Mas, principalmente, o primeiro aspecto não deveria – jamais – influenciar no cotidiano da laicidade da República. Um republicanismo aos frangalhos, eu sei, mas, ainda assim, é uma República e, claro, Democrática, até mesmo quando golpista!
O testemunho diário do que fazem os “pastores” eleitos, queira quer não, democraticamente como deputados federais e estaduais e senadores, é um crime que vai além do político, vai além de ferir as estruturas da instituição pública: são crimes contra a humanidade. Cabe frisar que já o faziam em seu espaço de culto, em púlpitos manchados pela mácula do suor do trabalho alheio. Suor não só dos crentes fiéis, mas meu e seu, uma vez que as Igrejas evangélicas não são taxadas com impostos e poucas delas possuem um controle sério de quem pode assumir tal função ou não.
Eu poderia listar aqui o linguajar infame, as referências racistas e homofóbicas, seus projetos de lei que ferem o direito feminino de conduzir os ditames de seus corpos. Poderia gritar aqui o mal maior de projetos que tentam barrar avanços como a pílula do dia seguinte e o direito ao aborto em caso de estupro, o ensino de igualdade de gêneros nas escolas... O ensino sobre as culturas e diversidades religiosas.
Houve um momento em que eu até tentei separar o joio do trigo, buscar uma racionalidade que me ajudasse a compreender os motivos dessa bancada ser e agir assim. Mas, como já dito, esses “pastores” foram eleitos democraticamente. E é justamente isso que não pode nos emudecer na lógica que está profundamente latente aos nossos olhos: Suas ovelhas-eleitores são justamente isso: ovelhas. A urna é um claro matadouro.
Então, o joio e o trigo são uma coisa só num mesmo saco eleitoral de ofertas e dízimos entregues de maneira sincera nas mãos desses lobos. E não devem ser separados. Se não há crítica, há conivência. E a convivência com “bons evangélicos”, com “bons cristãos” apenas tem me provado que lhes falta algo simples: crítica racional. Sua fé sincera se sobrepõe a realidade que nos cerca atualmente. Se sobrepõe às migalhas a que se transformou o sério propósito social. E explicarei, pormenores, essa minha intencional generalização.
Certa vez, após assistir um vídeo de um desses estelionatários pela Internet fui repreendido por um colega de universidade – protestante, se não me engano, Presbiteriano – com a seguinte frase: Ele é assim exagerado, mas é ungido, conhece a bíblia como ninguém. Aquilo me deixou extremamente assustado.
Aquele rapaz possuía uma formação acadêmica próxima da minha, me era e é muito querido, mas, mesmo assim, mesmo com tudo ali escancarado à sua frente, preferiu ser mais um evangélico, protestante, cristão conivente com as atrocidades que são ditas dominicalmente e diariamente na TV por esses salafrários.
Dos  muitos evangélicos que conheço, que ao menos nesse sentido crítico contra o uso da fé como mercadoria são inimigos ferozes das, segundo o termo dito dia desses por um deles, Indústrias Neopentecostais, consigo contar nos dedos de uma mão, os que agem como verdadeiros combatentes contra esse quadro acima pintado: três. Mesmo assim, essas e esses amigos são ainda reticentes para assuntos como igualdade de gênero, liberação do aborto, avanço nas leis contra homofobia, etc. Julgo desigual.

  • Outra pedrada sem preâmbulo e vou mais longe

Deus não abençoa ninguém. Não abençoa sua família. Não abençoa esse país.
Por quê? Simples: deus existe para quem quer que ele exista. Isso é um fato latente. Guarde seu deus para você e viva seu deus ao extremo.
Todorov apresenta uma questão que considero fundamental sobre o que eu afirmei, com dureza, acima. O filósofo e historiador radicado na França, se refere ao projeto das Luzes, ou Iluminismo. Segundo ele: (...) o que se rejeita é a submissão da sociedade ou do indivíduo a preceitos cuja única legitimidade advém daquilo que uma tradição atribui aos deuses ou aos ancestrais; não é mais a autoridade do passado que deve orientar a vida dos homens, mas seu projeto para o futuro. Ainda assim, nada se diz da própria experiência religiosa, nem da ideia de transcendência, nem de tal doutrina moral sustentado por uma religião em particular; a crítica visa à estrutura da sociedade, não ao conteúdo das crenças. A religião sai do Estado sem, no entanto, abandonar o indivíduo (TODOROV, Tzvetan. O espírito das Luzes. São Paulo: Barcarolla, 2008. p. 15 e 16).
Não entrarei na complexa esparrela dos problemas que o Iluminismo trouxe e que, ainda hoje, é ignorado pelo grosso dos doutores. Mas, para os mais antenados, basta pensar no Imperialismo do século XIX e todo o processo – bem cristão, por sinal – de civilidade e igualdade defendida, mas que ignorou outras formas de organização social diferentes da européia naqueles cem anos anteriores de gestação do "projeto das Luzes". Observem que o impacto, no XIX, estava afastado temporalmente da gênese inicial do que combateram os filósofos iluministas, por, simplesmente, um século!!!!
Dito isto, aliás, citado isto, só posso exclamar que a Bancada Evangélica é a Marca de Caim da República e só chegou até esse ponto, sem volta, não ignorem esse fato, pela conivência e estupidez das ovelhas-eleitoras e da má política diária dos governos, tanto de Direita quanto de Esquerda. É uma serpente cujo ovo, todo nós, todos, sem exceção, permitimos ser chocado.
Ora, quando uma criança sai de um culto de Candomblé ou Umbanda e é apedrejada por gente de terno e com bíblia em uma das mãos, é apenas uma prova cabal de que a serpente já nasceu há tempos.
Quando se ignora que as religiões de matrizes africanas são tão importantes quanto o cristianismo destruidor e escravizador que trouxe negras e negros, reis em suas terras, senhores e senhoras de terras, é uma evidência incontestável de que a laicidade não deu certo neste continente brasilis abaixo da Linha do Equador. Ignorar que em uma organização cristã-colonial como foi a que aqui testemunhou-se, na qual cristãos utilizavam trechos dos Salmos para justificar a escravidão negra, uma vez que David escravizava etíopes e, no mínimo, ignorar a História. Finalmente, esquecer que os primeiros habitantes do solo a que chamamos Brasil, os índios e índias, foram privados de sua cultura religiosa e de organização graças ao discurso de salvação da Igreja Cristã é o cúmulo da exemplificação da relação constante entre dominantes e dominados. 
Isso explica porque num país em que se ignora as culturas, é mais do que claro que será impossível perceber o cristianismo como mais um entre tantos outros aspectos culturais até enriquecedores ao ser brasileiro, apesar de seus histórico assassino e destruidor. Entretanto, me pergunto, quem de nós não tem defeitos, mas pode em dado momento corrigi-los?  O cristianismo se manteve no Brasil intacto desde que chegou, sem nenhuma correção: patriarcal, religião de uma minoria dominante imposta aos dominados, destrutiva... Foi assim com o predominante catolicismo que, de pouco a pouco, tornou-se apenas nominal, restando poucos que professam seriamente, e agora o é com a religião evangélica.
Por isso mesmo se hierarquizam erroneamente as culturas nesses grupos religiosos evangélicos. O samba é batuque, as afroreligiões, macumba, etc. Na verdade, por esses e outros aspectos, que o cristianismo se considera além da cultura, ele é o ditame do que é certo e errado. Do moral e do imoral. Mas o que ignoramos é algo tão mais simples: o cristianismo em nosso país e a Marca de Caim.

  • A pedrada final: Volto à ilusão da Direita má e a Esquerda boa/ Da Esquerda má e a Direita boa

Não nos iludamos, associar tacanhamente os neopentecostalismos somente aos movimentos neoliberais ou à extrema Direita (aos moldes tupiniquins) é jogar a sujeita para debaixo do tapete. Motocontínuo, manter o discurso de que os evangélicos nas Câmaras – estadual e federal – e no Senado são heterogêneos demais para que possamos identificar exatamente os inimigos, ora, também é, se não, conivência, algo muito pior: covardia.
O discurso é homogêneo. Se há homogeneidade, isso vai além do ser evangélico, é claro, porém, isso está no entrave silencioso, mas ensurdecedor, das pautas progressivas pelos pastores que ainda se mantém firmes em seus púlpitos sem usar a fé como negócio, mas que em suas latrinas cometem o pecado da soberba por um segundo ou dois, batendo palmas feito macacos aprisionados no zoológico para mais  e mais homossexuais ofendidos e agredidos, para meninas estupradas e sem atendimento adequado, sem o direito de abortarem um feto oriundo da violência machista diária que o cristianismo ensina ao pregar que as mulheres devem ser submissas aos maridos, logo, ao homens. Palmas que reafirmam simplesmente: Se fosse crente, se fosse normal, não seria ofendido ou se estivesse na escola, na igreja, com roupa decente, não teria sido estuprada. O que é ser normal? Desejar dentro de um padrão socialmente construído e imposto? O que é decente?
É tempo, mais que urgente, de se rever os conceitos por todos os lados na busca pela laicidade, não aquela formatadora e que emudeça as formas de religiosidade, mas a que percebe os meandros culturais e de diversidade entre os brasileiros e que justifica plenamente o vídeo abaixo.



  • Post scriptum

O projeto de destruição do país é bem coeso e a sua fórmula , politicamente falando, extremamente racional e mesmo se tratando de forças que podem ser consideradas incompatíveis, o projeto de destruição, via tomada de poder por essas bancadas políticas, pode ser, deste modo, esquematizado:
Bancada Evangélica: Atua no psicológico minando a possibilidade de debate, uma vez que o uso de uma entidade invisível como o deus cristão impossibilita a ação da racionalidade crítica. Como desconstruir o que não se vê? Ao mesmo tempo, os membros dessa bancada firmam suas pautas antiprogressistas na covardia de usarem tacanhamente o direito, garantido, de expressar a fé como liberdade de expressão. Contudo, ignorando que esse direito é de todos, inclusive, dos que não tem fé ou religião.
Bancada da Bala: Uma vez minado o psicológico, atua no estado físico, no direito de ir e vir. Em breve corremos o risco, novamente, da institucionalização – ainda atuante, mas ainda não como lei – do direito à tortura, censura, etc. O modus operandi dessa bancada é ignorar totalmente o humano. Ela age na lacuna aberta pelo Estado ainda que em conluio com esse mesmo Estado que caminha para a teocracia. Possui estratagemas perfeitos que nem Agostinho de Hipona suspeitaria ao elaborar o seu conceito de guerra justa para o Império Romano cristianizado. Por isso mesmo, é difícil esperar algum tipo de embate moral entre as Bancadas Evangélica e da Bala. O passado prova que em algum momento o cristianismo precisa de um braço competente para derramar o sangue dos infiéis.
Bancada dos Bois: O agronegócio funciona historicamente vinculado com o discurso cristão (nosso passado de invasão das terras indígenas e sua catequização é um presente constante) e a ação armada (nosso passado de tomada das terras indígenas através de seu massacre é um presente constante). Ela une perfeitamente as duas ideologias acima listadas. Diria eu, em analogia, que a Bancada do Boi funciona como a concretização da cristianização, logo, alienação do eleitorado “de bem” e da “justiça” violenta e aprovada pelos cegos cristianizados pela indústria da fé. Só que o mais curioso é que essa bancada política, antes a longo prazo, hoje de forma bem imediata, está carregando o país para o fundo do posso e contribuindo profundamente para uma evidente crise ambiental que nos alastra.
Pensem bem, se o Brasil está como está, ainda tendo bem ou mal reservas naturais, que dirá quando suas nascentes secarem e todos os índios forem mortos?

Enquanto isso, continuemos ignorando a Marca de Caim.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

As trincheiras discursivas, os bunkers de monopensamento e o motocontínuo das batalhas campais




São tantas lutas atualmente que não há como nenhuma pessoa se calar diante do cotidiano brasileiro e mesmo mundial. A Internet se tornou um campo discursivo de batalhas diárias ou mesmo uma pedra de mármore fria e gigante dentro de um necrotério, com corpos enfileirados a espera de identificação. Poderia afirmar que ela é também uma grande enfermaria com índios doentes renegados ao esquecimento ou de soldados feridos que lutaram uma guerra de variadas ideologias ou, finalmente, a Rede é uma grande prisão com detentos tuberculosos, tossindo uns nos outros e contaminando mesmo aqueles que ali foram encarcerados por roubar um naco de pão.
Não importa muito a linha metafórica que seguir, é certo que a Internet nos trouxe de maneira acelerada o contato direto com as muitas campanhas militantes que hoje, para apenas tentarmos organizar um pouco as tropas enfileiradas, diríamos que se dividem em três grandes grupos – porém diversos, muito diversos, em suas composições internas.
Você esperou que eu os definisse. Por um momento me forcei a um silêncio reflexivo na tentativa de elencá-los. Não tive capacidade inventiva de nomear cada um deles. Por isso, chamaremos de A, B e C. Na verdade, defini-los já não me importa muito. A bem da verdade, a Internet nos retirou da inocência do Éden e nos possibilitou o dom de conhecermos o bem e o mal. Dito isto, dado o tom da minha voz, posso prosseguir com ou sem você aqui para me ouvir.
Tenho recebido críticas, há tempos, de ser antirreligioso, arduamente contrário aos evangélicos em suas multifacetadas correntes doutrinárias e avesso ao moralismo hipócrita do catolicismo (aquele que mais salta aos olhos). Talvez, essa imagem tenha sido construída por eu nunca ter negado minhas reticências e temores, por exemplo, ao crescimento das igrejas neopentecostais e o silêncio da maioria dos intelectuais ao ignorarem o discurso de seus líderes e um evidente projeto de poder teocrático. Não preciso me justificar. Mas cabem parênteses e eles sempre são necessários: A sociologia e mesmo um jornalismo mais atento (clique aqui) volta e meia buscam tentar compreender e, consequentemente, explicar este fenômeno que agora tomou mais projeção graças aos discursos – católicos e evangélicos, principalmente – por ocasião da votação da abertura de processo de impeachment no Congresso Nacional, no dia 17 de abril. Mais um adendo: Salta-nos sempre aos olhos os discursos fundamentalistas e de forma rasteira e preguiçosa, colocamos num mesmo balaio todo o grupo de católicos e evangélicos, estes últimos realmente mais difíceis de definir em blocos, como se a fala daqueles deputados e deputadas exprimisse fielmente o pensamento de cada uma das muitas igrejas.
O que não pode ser ignorado, que mesmo para os crentes (católicos e evangélicos) que eu coloco numa lista ímpar de construção de opiniões plausíveis e racionalmente vinculadas ao evangelho e avessos a fundamentalismos e moralismos profundos... Mesmo para essas (poucas) amizades e contatos que tenho, é difícil, muito difícil lidar com questões como legalização do aborto, reconhecimento de famílias fundamentadas em homoafetividade, legalização da maconha, ensino das culturas afro-brasileiras nas escolas, educação de gênero, etc. Sempre haverá a sombra de um deus, cuja retórica do amor se baseia, não nos esqueçamos, em aceitá-lo como único salvador e a tal salvação é condicionada às normativas comportamentais que definem um “bom” cristão.
Encerro a longa digressão e se você ainda estiver me ouvindo... Retomo o pensamento.
Naquele fatídico domingo em que vermelhos e amarelos se opuseram nas ruas das principais capitais da República, estrategicamente localizados em pontos que simbolizam o que posso chamar de bunkers de monopensamento, o grosso dos deputados federais iniciou ou encerrou seu voto, incluindo o declaradamente evangélico presidente da Câmara, evocando o tripé deus (cristão), família (tradicional) e fim da corrupção (de quem?). Houve, é claro, aquele que bradou por Ustra e cito aqui para registro. Nos grupos bicolores é possível identificar claramente cristãos, o que reafirma a diversidade que expus acima.
O processo ainda corre, os impactos são tamanhos, as análises infinitas. Por todos os lados, a artilharia é pesada. A questão é que, a meu ver, e acredito que meus olhos são um tanto caleidoscópios, ali nas casamatas (bunkers, para ficar mais elegante) de monopensamento, foram, uma a uma, abertas as trincheiras discursivas, sacramentadas, ordenadas, nas quais cada um de nós, queira quer não, nos alocaríamos, alguns solitários, com nossas baionetas com pontas esferográficas ou de grafite prontas para o chamado. Eu sei. Certa utopia esta minha. Estamos tão perdidos quanto uma matilha sem referências de onde buscar a caça. Atualmente, os secundaristas demonstram mais organização e coesão política que os doutores.
O último grande impacto sentido nas trincheiras e que como demonstrarei, mais uma vez, é fruto de uma longa e histórica omissão dos tenentes e capitãs diplomados após defesas de tese, é o indicativo do Vice-presidente Michel Temer para convocação de um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus para o Ministério da Ciência e Tecnologia – Temer já apronta seu ministério diante da iminente queda, da qual ele contribuiu intimamente, da Presidenta Dilma Rousseff. Essa vinculação política com lideranças religiosas não é nova e exclusividade de Temer.
Ora, Marcos Pereira, advogado, ex-presidente da Record, presidente nacional do PRB e bispo – licenciado – da IURD já aceitou prontamente a função. Está em sua casamata apenas aguardando.
Ouvem-se os primeiros tiros das baionetas, os soldados saem das trincheiras e avançam, mesmo que lentamente, pelo campo de batalha. Estamos todos fadados a uma estanha derrota.
Marc Leopold Benjamim Bloch, medievalista francês que foi morto pelo Regime de Vichy na Segunda Guerra Mundial, escreveu um pertinente livro chamado L’étrange défaite, cujo subtítulo é tão emblemático quanto: Témoignage écrite en 1940. Publicado por esforços ímpares, em 1946, só teve um grande impacto na França em 1990. Paciência, eles também tem suas mazelas. O fato é que das muitas passagens emblemáticas do pequeno grande livro, há uma que eu gostaria de compartilhar com você, felizmente, não por erudição, mas, necessidade, em francês:
Le courage personnel est, chez qui choisit la carière des armes, la plus obligatoire de toutes les vertus professionnelles: si indispensable, en vérité, à la bonne conscience du groupe, qu’il y est de règle de la tenir por allant de soi. Je suis, certain que la grande majorité des officiers de l’active a été fidèle à cette brave tradition. S’il y eut, çà et là, des exceptions – j’en ai connu une ou deux durant la dernière guerre; j’ai cru en retrouver quelques-unes durant celle-ci – elles n’atteignent en rien l’honneur de la collectivité. Elles prouvent simplement que l’habit ne réussit pas toujours à faire le moine, et aussi qu’il est partout des êtres assez dépourvus d’imagination pour adopter un métier sans se représenter à quoi il engage: celui de soldat, par example, sans réaliser qu’um jour, peut-être, la vie de garnison devra ceder le pas à la guerre. Ces faibles sont, au fond, avant tout, de pauvres gens qui se sont trompés. Rest qu’il est, dans le mépris du danger, bien des nuances et des degrés. Mais comment en parler un peu longuement, sans blesser, dans nos mémoires, de secretes pudeurs?
Mas como falar mais longamente do assunto sem ferir pudores secretos em nossas memórias? A omissão jaz justamente nisso. E Bloch apenas é utilizado aqui por mim para ilustrar que o problema conjuntural que enfrentamos é um motocontínuo no campo de batalhas onde abrimos as trincheiras para ou observarmos o combate discursivo ou partirmos delas com baionetas em riste para enfrentar o visível invisível: o modus operandi da governança brasileira. Vale lembrar o caso Daciolo no PSOL.
Há anos atrás, alguns criticaram (movimentos LGBT, principalmente), porém muitos buscaram explicar numa “necessidade de governança e negociação política” para amenizar o fato, a eleição majoritária do Pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados Federais. O problema se dividia em dois parâmetros: O primeiro, lógico, era o Feliciano, que já havia dado demonstrações públicas de sua linha de combate às lutas por direitos travadas pelos e pelas homossexuais, sobretudo. Em segundo, talvez, o mais complexo, por ser ele um pastor de linha neopentecostal. Neste item, não há de se ignorar todo o trabalho de base realizado, historicamente, por católicos e evangélicos em regiões distantes, levando, a seus modos, saúde e educação. Sim, ainda existem padres e pastores comprometidos efetivamente com movimentos de base e causas sociais muito próximas às nossas. De qualquer maneira, entra aqui um aspecto que ignoramos no constante relativismo acadêmico-crítico: esperar de evangélicos e católicos, seja  de qualquer linha, fundamentalista ou não, que aceitem de maneira plena bandeiras como igualdade de gênero, legalização do aborto e da maconha, etc., é no mínimo solicitar que ignorem suas próprias bandeiras doutrinárias e que os mantém no mínimo de coesão.
Claro, conhecemos alguns. Eu conheço. Mesmo assim, são reticentes, se não, silenciosos. Conhecem muito bem a doutrina e sabem que no fundo, no fundo, incorrem em julgo desigual ao defender a legalização da maconha, por exemplo. As palavras matrimônio ou casamento, quando nos referimos às uniões homoafetivas são escutadas por estes em silêncio e certamente, em suas mentes, versículos do Gêneses passam por sua visão. Faça o teste e afirme: ontem fui ao casamento de duas amigas minhas.
De todo modo, nas trincheiras é possível observar: nos alocamos ora na covardia, ora no combate cego e suicida. Ouço conversas sobre risco que a Ciência e a Tecnologia no Brasil passam a correr sendo entregues nas mãos de um, cito, “criacionista” declarado. Como ficarão pesquisas voltadas para o estudo das células tronco, o ativismo dos teóricos de gênero, etc., etc.? Pensar que tal indicação (e aceite) não influenciará na CAPES, no CNPq e em diversos órgãos de fomentos à pesquisa, já tão sucateados, é apenas observar fumando nas trincheiras por nós mesmo abertas.
Ao mesmo tempo, fechar os olhos ao fato que o problema que se coloca aqui é apenas a ponta de mais um iceberg da nossa política é redigir, sem a mesma eloquência e firmeza que demonstrou Marc Bloch, o depoimento adiantado de um vencido. Sem ignorar nesta minha afirmação que o velho francês lutou até o fim na Resistência, vindo a ser assassinado após prisão. Quantos de nós teremos tal disposição combativa?
O que Michel Temer e seu PMDB conduzem desde o domingo, 17 de abril, apenas para ficarmos com uma data fixa, à parte do fato de não ter sido sequer concluído o processo de afastamento, não foge ao histórico de acordos que marcaram a derrota do governo Dilma Rousseff e o seu PT. O jogo de negociatas de Temer não é diferente de anos e anos de um perigoso vício político que resumo abaixo.
Por apoio, vende-se a alma ao diabo e ignora-se que, assim como deus, ele cobra seus favores.
Que me permita o cansaço dos seus olhos-ouvidos, com mais uma longa citação de um livro. Não posso fugir aos medievalistas que indiretamente me influenciaram em suas reflexões. Área que não renegarei jamais. Minha formação específica junto ao diploma História. Reduto de onde teço com minha baioneta minhas críticas, mas que nunca afirmarei ser mais importante que outro a minha volta. E em tempos em que o tacanho acadêmico, como aves de rapina sobrevoam nossas cabeças e apenas assinalam o ego soturno da autoglorificação, é necessário seu esforço na leitura-escuta:
“Ele existe, o Deus das batalhas. As intenções e a vontade dos homens são presididas pela vontade de Deus, que outorga as vitórias e desencadeia as derrotas. Deus não tem o costume de abandonar as causas justas, nem aqueles que de boa-fé o servem. Se, nesse espírito teológico, tentarmos observar as vitórias militares que constituem o estrecho da história do mundo, encontraremos facilmente o sinal dos desígnos da vontade divina. Há muito pouco espaço entre a vitória e a derrota, as circunstâncias do acaso são por demais mutáveis, a batalha mais promissora pode ser perdida pelo feito de ações insuperáveis: ninguém pode estar certo de que a vontade de Deus se inclina para o seu lado”. Foi o que escreveu um general: Francisco Franco. Em 1964. E no dia 25 de julho de 1971, dia da festa de Santiago de Compostela, patrono da Espanha, rodeado de membros de seu gabinete e de duas dezenas de bispos, ajoelhado diante da estátua do santo, ele volta a falar. Para dizer o que? “Durante nossa cruzada de libertação, constatamos que as vitórias mais decisivas foram alcançadas em dias correspondentes às grandes festas da Espanha. Foi o caso da batalha de Brunete, em que, depois de vários dias de combates infrutíferos, a vitória nos coube no dia da festa de nosso santo patrono. Não pode ser diferente quando se combate pela fé, pela Espanha e pela justiça. A guerra se faz mais facilmente quando se tem Deus como aliado.”
Deus. O dos holocaustos e dos desfiles militares o deus da ordem restabelecida. Esse grande cavaleiro lívido que pairava sobre o campo dos mortos, certa noite, em Brunete, pairava em outros tempos sobre Bouvines. Ele paira também sobre Guernica, sobre Auschwitz, sobre Hiroshima, sobre Hanói e sobre todos os hospitais depois de todos os conflitos. Esse deus, tampouco, parece que não morrerá tão cedo. Ele sempre reconhece os seus.
Assim escreveu Georges Duby, no término de seu O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214, lançado em 1973. Acredito que não preciso ressaltar quem foi Francisco Franco, mas é sempre bom lembrar... foi um ditador espanhol extremante sanguinário.
Não se esqueça: deus e o diabo sempre reconhecem os seus e na política brasileira, que urge por uma consistente reforma que renove de uma vez por todas o parlamento, essas duas figuras andam lado a lado há tempos.



*Para não dizer que citei errado:
BLOCH, Marc. L’étrange défaite (Témoignage écrite en 1940). Paris: Gallimard, 1990. p. 135. Original de 1946.
DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214. Tradução de Maria Cristina Frias. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. p. 244. Original de 1973.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Para não dizer que não falei das cores

Avenida Brasil - Rio de Janeiro - 21 de fevereiro de 2010

Para o Vianinha, com meu respeito.


Primeiramente, nos questiono: Cadê o Amarildo?
A pergunta é emblemática, claro. Simbólica, mais que tudo. Desde o início nós sabíamos o fim da história.
Os eventos dos últimos dias (se não horas) demonstram e reafirmam a memória seletiva e a voz de ventríloquo que nos guia – todos. Sem bons e nem maus. Concordem se quiserem concordar: todos nós estamos num balaio de gatos. Pobres gatos.
Tomarei como exemplo de impulso criativo de reflexão sonora, alguns compartilhamentos de publicações de Twitter no Facebook em diversas timelines dos meus principais amigos e mesmo ótimas atualizações de status de mural. Tomemos como conceito de amigos a restrição que faço em receber somente dessas poucas pessoas as atualizações que eu considero como fundamentais para que eu forme algum tipo de pauta harmoniosa no pentagrama do dia a dia que é ter que tentar transcrever minha própria voz. E, acreditem, sou um Narciso invertido: em tudo que é espelho me vejo defeito. Por isso, prefiro que a prosódia testemunhada nesse longo período seja assim: sem pausas! Eis a estética do vamos então ou vomitão!
Uma das mais “estarrecedoras” informações que tenho colhido tem sido sobre o problema, principalmente, no Rio de Janeiro e São Paulo, relacionado com cores de roupa que estão sendo escorraçadas dos inúmeros protestos ou do simples caminhar na Avenida Paulista. Acredito que o problema esteja acontecendo também na capital do país.
Ao que tudo indica, se o individuo usar vermelho (ou branco), será associado ao PT, se sair de azul ou amarelo, PSDB. O PMDB surge como o PMDB, seria piada se não verdadeiro, mas suas cores são: Vermelho, Preto, Verde e Amarelo. Paremos por aqui. Porém há um belo livro de Michel Pastoureau que vale a leitura: Couleurs, images, symboles. Études d'histoire et d'anthropologie, de 1989.
Toda e qualquer manifestação pública partidária – de um lado ou de outro – está sendo já punida com o massacre idêntico ao da grande (mas cheia de pequenez) mídia com sua parcialidade ofensiva e manipuladora ao processo de investigação que vem se arrastando faz alguns meses. Parênteses: Camisa da seleção virou um souvenir que me remete – somente por livros, é claro – ao clássico dilema das esquerdas em torcer ou não para a Seleção Canarinho de 1970.
Tudo é verdade. Tudo é confuso. Tudo é mentira. Tudo é tão claro. Assim estamos caminhando em tropeços e bradamos ou bradam – já não sei quem grita o que – por todos os lados: Golpe! Golpe!
Vivemos em tempos de absurdos e eles não são imediatos. Já se arrastam desde 2013, cada ponto, sem coesão, foi de pouco a pouco se transformando no inicio de uma linha que se traçou criando um grande emaranhando de linhas.

O golpe fatal das cores e das palavras. As palavras e as cores: Estado policial, Resgate da ditadura, Golpe ou a volta dos que não foram

Antes das cores de camisas, vejamos o Estado policial. A Polícia Militar, resquício vivo e pulsante das elites, de 1964, de torturas e mortes, tem as mãos constantemente manchadas de vermelho. Vermelho sangue. O sangue da tropa, dos policiais que não voltarão mais. Vermelho sangue de projéteis que encontram civis ou traficantes. E traficantes disparam contra policiais e civis. Tudo é sangue. E quando derramado no chão, fertiliza a onda de violência que já não distingue certo ou errado.
O julgamento é mais que instantâneo. Os lambe-lambes das praças não acompanharam o desenvolvimento. Em cada piscar de olhos, em cada flash é um projétil saindo traçante de algum fuzil.
A dupla lei: da farda na rua ou dos shorts no morro.
Antes das cores de camisas, vejamos o resgate da ditadura. O ir e vir proibido por facções que dominam não mais como um poder paralelo, mas um estado por direito de domínio e coerção. Ou em casos específicos, num equilíbrio sociológico que nem ao mesmo Weber pensaria em explicar. O misto de, pelo menos, duas dos três tipos de dominações puras (vide a história de Nem da Rocinha). A ditadura do Estado democrático que não aceita documentos, mas enxerga a cor da pele e o locus de moradia. Que te julga imediatamente por ser negro no asfalto.  Ou o tráfico te pune por ser policial no morro. Os dois tribunais: o da clareira do morro, onde impera a lei do silêncio e o cheiro de pneu com corpos carbonizados e o de rua, este último retratado nos versos do poeta Marcelo Yuka e imortalizado no disco Lado A Lado B (2000), da banda carioca O Rappa, cujos assassinatos são amparados pela sociedade composta por gente de bem.
E antes das cores das camisas, vejamos o duro golpe diário. A condução precária e lotada do coletivo, do trem e do metrô, o trabalho subalterno nos sinais... A mesma e velha opressão financeira que vem do asfalto e da TV alienante que rompe antes dos tiros o silêncio da noite nas ladeiras de mudos tamborins e que me remetem aos trechos de Marquinhos Cabeção e O criolo revoltado com uma arma, ambas composições de MV Bill, rapper da Cidade de Deus, presentes em seu belo disco Traficando Informação (2000).



De fato, se tivéssemos ouvido com a atenção intelectual devida, no início dos anos 2000, os dois trabalhos artísticos acima, a maioria dos jovens de hoje, com seus 30 ou 35 anos seriam um pouco diferentes. Uma atenção que vai além do rótulo massante de pop - afinal, Chico Buarque surgiu pop, Gil e Caetano buscaram uma estética própria ao pop. Ao contrário do que se pensa, nunca estivemos órfãos de arautos e cronistas musicais. 

Mas, vamos às cores de camisa.
A periferia já conhece há tempos os modelos de apartheid menos conhecidos pela maioria do grupo formador de opinião e que para mal ou para bem conduzem intelectualmente nossa sociedade brasileira com inteligentes colocações em colunas de jornal ou atualizações de status de Facebook.
Gostaria de falar um pouco mais profundamente sobre todo o modus operandi e ritualístico que deve ser usado para subir um morro dominado por uma facção do tráfico de drogas ou por alguma milícia no estado do Rio de Janeiro, porém, me limitarei muito defeituosamente às cores e marcas permitidas/ proibidas nas ruas de paralelepípedo ou concreto e vielas de barro dos morros e bairros de periferias do subúrbio carioca.
Toda e qualquer criança sabe que se seu morro é dominado pelo Terceiro Comando Puro, a cor vermelha – referência a outra facção: Comando Vermelho – é proibida e punida com a morte, salvo exceção à camisa do Flamengo. Por outro lado, o verde é intimamente vinculado a facção Amigo dos Amigos que divide com o extinto Terceiro Comando e com o reinante Terceiro Comando Puro a escolha pela cor. Finalmente, o azul é vinculado à tradicional farda da Polícia Militar do Rio de Janeiro e o Preto ao Batalhão de Operações Especiais.
Lembro-me de evitar determinadas marcas como TCK ou Cyclone, marcas também vinculadas às facções. De qualquer maneira, ainda vou um pouco mais no fundo da memória: três marcas de tênis ditavam nem tanto nosso poder aquisitivo, mas uma certa vinculação artificial com algum grupo criminoso: Nike, Mizuno e Reebock. Muito recentemente comprei meu primeiro Mizuno e me dei conta dos motivos escondidos dentro de mim, a terapia de bar explica. Eu e meus amigos de escola, muitos da Chatuba (curiosamente tive poucas amizades da Coréia, natural rival dos chatubences nos bailes funk mesquitenses), usávamos Tryon ou Le Cheval... se fosse o Break Light o chão das festinhas tremia. Estas eram marcas neutras e de playboys e mauricinhos que estudavam nos colégios privados da região.
Não. Não, amigos. A ditadura não está retornando, visto que ela nunca sumiu das vielas. O estado policial não é novo e o golpe só está sendo sentido em esferas diferentes das que as mãos calejadas e os corpos suados já sentem e conhecem há anos. Há muitos anos. O absurdo só tomou uma proporção diferente, atingiu gente diferente. Ou como esquecer das palavras de ordem nos cartazes de junho de 2013: Você acordou agora. A periferia nunca dormiu?


Não ignoro o Moro, pois não esqueço do morro! 
Nem meu Le Cheval Break Light brilhando nas festas de rua ou meu Tryon preto e marrom da 6ª série permitiram me alienar... Eu não esquecerei jamais.