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sábado, 25 de junho de 2016

A loteria na Babilônia ou ensaio sobre um lugar comum

Rafael Braga


Como todos os homens da Babilônia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio, os cárceres. Olhem: falta o indicador de minha mão direita. Olhem: por este rasgão da capa se vê em minha barriga uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth.
(Jorge Luis Borges, a loteria na babilônia. Ficções (1944), p. 53)


Dentre as mentiras da vida
Duas nos revelam mais:
- É um prazer conhecê-lo
- Era muito bom rapaz
(Aldir Blanc e João Bosco, Nada a desculpar, 1973)


A formação malandro cocô
Se na França, onde os políticos tanto da esquerda quanto da direita, cometem erros primários, e a maioria dos que ocupam altos cargos, inclusive o atual presidente, estudaram na Sciences Po, imaginem no Brasil, em que carreira política se faz, geralmente, por ser ex-jogador de futebol, ex-policial torturador ou não, líder religioso neopentecostal, contraventor, ex-celebridade?
É claro, esse é um exemplo tosco, simplista como o são as frases desconexas de um mau ventríloquo aprendendo a arte. Não precisa jogar a cerveja na minha cara, virar a mesa e me dar nas costas com a cadeira de ferro. Calma, cagalhão e cagalhona! Analogias são perigosas nos últimos tempos, tanto quanto a ironia, eu sei.
O que quero dizer é que a política no Brasil nunca foi algo tão sério, a ponto de ser historicamente institucionalizado como estudo. Aliás, Ciência Política é um campo que tem um pouco mais de 50 anos, ou seja, extremamente jovem. Isso me leva a ousar dizer que, por não ter sido e não ser algo devidamente sério no país que mereça atenção, a política sempre foi feita na base do exibicionismo, do “tipo ideal” midiático – quando ela passou a ter importância fulcral –, quando não, na base da oligarquia hereditária. Esta última, o modo mais corriqueiro de se fazer e manter a política, enquanto poder, nas mãos dos mesmos senhores e senhoras de terras e de gente no Brasil.
No país da onça de cativeiro assassinada – são duas mortes em questão, vale frisar –, se aprende os meandros da Política no ciclo vicioso da histórica maneira de se fazer política no jeitinho.
É como a vida numa cela de presídio, numa Polinter da vida ou num morro qualquer: se você está ali, chegou ali, por roubar um frango, um bombom numa loja de grande porte, mofará e perderá toda a melanina da pele, será esquecido pelo Sistema e quando, enfim, deixar de ser uma ficha numa pilha gigantesca, quando for lembrado, se for, sairá de lá assaltante de banco.
Ou se está ali por um baseado queimado, ou dois, até três, que seja. Por plantar em casa para consumo próprio. Enfim, por ser usuário. Foda-se: saíra de lá traficante e revoltado.
Mas é claro, o menino do morro, não planta e, pasmem, pouco fuma. Ele vende e ele é preto e negro é preso. Presídio, Polinter e Morro: tudo uma coisa só.
Assim é a política brasileira, assim é a prática universitária, é o futebol na rua, o namoro no portão ou a arte na galeria: Jogue o jogo para sobreviver.

A práxis do erro: Jogue o jogo
Jogue o jogo. Frase típica nos salões de sinuca, principalmente, entre os malandros cariocas da Lapa e os paulistas da Boca do Lixo. Jogue o jogo: Joga vida roubada/ Joga vinte e um.../ Sinuca, bilhar,/ Joga pra espetar/ Pra matar/ Pra defesa... (Jogador, de João Bosco e Aldir Blanc. Do disco Tiro de Misericórdia, 1977).
O mais temeroso, e essa é a pedra que quero acertar nas vidraças insensíveis do Shopping Center Building com meu estilingue, é tanto a esquerda, o centro, a direita e os lugar-comum, não se darem conta disso.
A esquerda, a que mais me interessa no momento, por exemplo, se apegou ao discurso de “só caçam o PT” e caem no sumidouro narrativo de ignorar que a evidente corrupção petista é idêntica ao jogo jogado pelo PSDB há anos e ao muro de poder que é o PMDB, para citar aqui apenas os peixes grandes. Por outro lado, a direita, cada vez mais burra e dominada por cagalhões, tem conseguido, aos trancos e barrancos golpistas, manipular a massa como o sempre fez e manter o projeto evidente de só evidenciar os males e falcatruas do Partido dos Trabalhadores e jogar para o tapete que quem aparelhou o sistema foram eles mesmos e, de fato inegável, não o PT.
Daí, a esquerda e a militância petista – há uma grande diferença entre os dois ideologicamente na atualidade e já alguns anos, por sinal – batem de frente dizendo “não!”, contudo, num tipo de combate ainda mais tacanho e ingênuo do que mobilizar massas camponesas no sertão que padecem sem água e pão.
Vejam bem: Primeiramente, o interino ainda está inteiro. O salvador da pátria, a estrela branca e imaculada no centro do vermelho sangue, já assinala para as eleições municipais a mesma vinculação de alianças que lhe custaram mais que um dedo no torno.
Quem vemos no horizonte de esperança? Ciro presidente?  Lomba da massa, lomba da massa que não me deixa sair de casa!


Veja mal: Em nenhum momento do debate, se é que existe algum debate atualmente, a não ser agressões mútuas e infantis, pudemos observar algum tipo de avaliação, um mea culpa sequer, dos erros políticos do governo derrubado. Não, não estou falando da militância. Do eleitorado, de você e de mim. Falo das lideranças. Claro, ingenuidade a minha, afinal, reconhecer os erros, é sair do jogo sacramentado da nossa política, seria abandonar as trincheiras já cheias de ratos e larvas de moscas varejeiras nas nossas feridas putrefatas e com vivo pus. Apodreçamos, mas apodreçamos com honra, mesmo que ela, na verdade, seja pura arrogância hagiográfica construída na Lapa, na Cinelândia ou na Avenida Paulista sobre um carro de som e rouquidão e evidente cansaço.
Vejo o contrário. Observa-se uma militância de esquerda reinventando, tão ingenuamente quanto você ouvir minha voz solicitando autoavaliação das roucas lideranças, pautas de luta contra o governo golpista, ignorando, por exemplo, que os índios já eram mortos sob a bandeira vermelha do PT, tanto quanto são assassinados nesse momento e no governo anterior e no anterior e no anterior e no anterior.
Mariana e Ouro Preto padecem na lama podre e contaminada dessa Política feita, não pelo preparo político, mas pelas mãos do jeitinho brasileiro. Se quer o que se quer: manter a práxis.
Ora, tínhamos a rainha do agronegócio à frente da pasta... da agricultura! E agora assumiu o imperador. Oito e oitenta.

O macho adulto branco sempre no comando e A fila de soldados, quase todos pretos dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos: Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Rafael Braga continua preso e ele, a meu ver, é o maior símbolo dos buracos de avestruzes que somos cada um de nós em nossas “lutas inglórias” de 2013 a 2016, em nossa militância ingênua de joguetes. Cafés com leite, isso é o que nós somos na Política.
Café com leite. Termo, segundo o cronista paulistano João Antônio, que se referia aos garotos que frequentavam os salões de sinuca não ser permitido beber álcool e os mais velhos lhes darem café com leite. Ver a antologia Malagueta, Perus e Bacanaço e o conto homônimo (João Antônio. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 42-181).
Ignoramos os atos assinados durante a última gestão desgovernada pelos desgovernos de favores e alianças: Lei antiterrorismo contra nós terroristas. 
Ignoramos até o mais sensível: os únicos que pagaram pela ingenuidade, foram uma mulher branca, que lutou bravamente contra a Ditadura Civil e Militar, sendo presa e torturada e que foi eleita pelo povo esperançoso e um negro catador de latinhas, lavador de carro nas ruas, representando bem o que é a massa e que somos nós massa esclarecida: cafés com leite.
Os dois são similares. Os dois são epígrafes para a sociedade e para o subtítulo chupado do falo de Caetano. De duas canções de Caetano: Haiti, de 1993 (com uma pequena participação de Gilberto Gil) e O estrangeiro, de 1989.
Dilma Rousseff foi o joguete que marca o machismo político e a dominação masculina nas mãos do mais do mesmo. O moto contínuo. Ela é o exemplo da honestidade que foi derrubada pelos acordos entre leões disfarçados de cordeiro. E está pagando esse preço. Quem era Dilma, se não um interregno do projeto de poder de Lula e o liberalismo disfarçado do PT? Quem é Dilma se não aquela que não compactuou com a práxis do Jogue o Jogo? Não enxerga quem não quer ver. E por ser mulher, por si só, teve e tem de enfrentar o antro sujo de homens sórdidos.
Rafael Braga é o negro, pobre e marginalizado. É, nas poéticas palavras de Francisco Bosco, o malabarista do sinal vermelho. Ele é a evidência de Como quem vê por um vidro/ O que escapa da mão/ Uns exilados de um lado/ Da realidade/ Outros reféns sem resgate/ Da própria tensão (Malabaristas do Sinal Vermelho, de João Bosco e Francisco Bosco. Do disco homônimo de 2003).
Por isso mesmo: Vamos comer Caetano/ Vamos devorá-lo/ Degluti-lo, mastigá-lo/ Vamos lamber a língua (Vamos comer Caetano, de Adriana Calcanhotto. Do disco Maritimo, 1998). Ele é o profeta. O ateu que viu milagres que sabe que, às vezes, é solitário viver.

O tiro de misericórdia ou o réquiem dos enganados
Do canto dos escravos, no passado e no presente, ecoa para um ponto do peito uma canção:
Ê ei
Óia puru céu
Óia puru céu
Puru terra
Diabo te enganou Muriquim
Puru terra
Diabo te enganou João Inácio
Óia pro céu 
Puru terra

(O Canto dos Escravos – Canto IV. Gravadora Eldorado, 1982)

Assim, a vida segue e morre mais um garoto de dez anos como ladrão:


sábado, 28 de maio de 2016

A Marca de Caim da República



  • Sem introdução: uma pedrada

Em caso de dúvida, basta realizar uma pesquisa séria sobre a condução do Congresso Nacional nos últimos anos, em termos de atraso nas medidas progressistas, e logo se perceberá que, além das muitas falhas no exercício público da política no Brasil, a chamada Bancada Evangélica foi um dos maus ignorados por nós, que pretendemos uma modificação radical no jogo hediondo que marca as negociações partidárias há séculos.
Não sinto nenhum apego ao exagero ou medo de ser taxado assim, ao afirmar que, ao lado da Bancada da Bala (ex-policiais civis e militares e alguns ex-oficiais das Forças Armadas) e a dos Bois (composta pela aristocracia do agronegócio) os senhores da indústria da fé têm feito um mal tão grande à sociedade que aqueles que fingem não perceber beiram o cinismo hipócrita.
A religião e a religiosidade são um direito evidentemente garantido na Constituição. Mas, principalmente, o primeiro aspecto não deveria – jamais – influenciar no cotidiano da laicidade da República. Um republicanismo aos frangalhos, eu sei, mas, ainda assim, é uma República e, claro, Democrática, até mesmo quando golpista!
O testemunho diário do que fazem os “pastores” eleitos, queira quer não, democraticamente como deputados federais e estaduais e senadores, é um crime que vai além do político, vai além de ferir as estruturas da instituição pública: são crimes contra a humanidade. Cabe frisar que já o faziam em seu espaço de culto, em púlpitos manchados pela mácula do suor do trabalho alheio. Suor não só dos crentes fiéis, mas meu e seu, uma vez que as Igrejas evangélicas não são taxadas com impostos e poucas delas possuem um controle sério de quem pode assumir tal função ou não.
Eu poderia listar aqui o linguajar infame, as referências racistas e homofóbicas, seus projetos de lei que ferem o direito feminino de conduzir os ditames de seus corpos. Poderia gritar aqui o mal maior de projetos que tentam barrar avanços como a pílula do dia seguinte e o direito ao aborto em caso de estupro, o ensino de igualdade de gêneros nas escolas... O ensino sobre as culturas e diversidades religiosas.
Houve um momento em que eu até tentei separar o joio do trigo, buscar uma racionalidade que me ajudasse a compreender os motivos dessa bancada ser e agir assim. Mas, como já dito, esses “pastores” foram eleitos democraticamente. E é justamente isso que não pode nos emudecer na lógica que está profundamente latente aos nossos olhos: Suas ovelhas-eleitores são justamente isso: ovelhas. A urna é um claro matadouro.
Então, o joio e o trigo são uma coisa só num mesmo saco eleitoral de ofertas e dízimos entregues de maneira sincera nas mãos desses lobos. E não devem ser separados. Se não há crítica, há conivência. E a convivência com “bons evangélicos”, com “bons cristãos” apenas tem me provado que lhes falta algo simples: crítica racional. Sua fé sincera se sobrepõe a realidade que nos cerca atualmente. Se sobrepõe às migalhas a que se transformou o sério propósito social. E explicarei, pormenores, essa minha intencional generalização.
Certa vez, após assistir um vídeo de um desses estelionatários pela Internet fui repreendido por um colega de universidade – protestante, se não me engano, Presbiteriano – com a seguinte frase: Ele é assim exagerado, mas é ungido, conhece a bíblia como ninguém. Aquilo me deixou extremamente assustado.
Aquele rapaz possuía uma formação acadêmica próxima da minha, me era e é muito querido, mas, mesmo assim, mesmo com tudo ali escancarado à sua frente, preferiu ser mais um evangélico, protestante, cristão conivente com as atrocidades que são ditas dominicalmente e diariamente na TV por esses salafrários.
Dos  muitos evangélicos que conheço, que ao menos nesse sentido crítico contra o uso da fé como mercadoria são inimigos ferozes das, segundo o termo dito dia desses por um deles, Indústrias Neopentecostais, consigo contar nos dedos de uma mão, os que agem como verdadeiros combatentes contra esse quadro acima pintado: três. Mesmo assim, essas e esses amigos são ainda reticentes para assuntos como igualdade de gênero, liberação do aborto, avanço nas leis contra homofobia, etc. Julgo desigual.

  • Outra pedrada sem preâmbulo e vou mais longe

Deus não abençoa ninguém. Não abençoa sua família. Não abençoa esse país.
Por quê? Simples: deus existe para quem quer que ele exista. Isso é um fato latente. Guarde seu deus para você e viva seu deus ao extremo.
Todorov apresenta uma questão que considero fundamental sobre o que eu afirmei, com dureza, acima. O filósofo e historiador radicado na França, se refere ao projeto das Luzes, ou Iluminismo. Segundo ele: (...) o que se rejeita é a submissão da sociedade ou do indivíduo a preceitos cuja única legitimidade advém daquilo que uma tradição atribui aos deuses ou aos ancestrais; não é mais a autoridade do passado que deve orientar a vida dos homens, mas seu projeto para o futuro. Ainda assim, nada se diz da própria experiência religiosa, nem da ideia de transcendência, nem de tal doutrina moral sustentado por uma religião em particular; a crítica visa à estrutura da sociedade, não ao conteúdo das crenças. A religião sai do Estado sem, no entanto, abandonar o indivíduo (TODOROV, Tzvetan. O espírito das Luzes. São Paulo: Barcarolla, 2008. p. 15 e 16).
Não entrarei na complexa esparrela dos problemas que o Iluminismo trouxe e que, ainda hoje, é ignorado pelo grosso dos doutores. Mas, para os mais antenados, basta pensar no Imperialismo do século XIX e todo o processo – bem cristão, por sinal – de civilidade e igualdade defendida, mas que ignorou outras formas de organização social diferentes da européia naqueles cem anos anteriores de gestação do "projeto das Luzes". Observem que o impacto, no XIX, estava afastado temporalmente da gênese inicial do que combateram os filósofos iluministas, por, simplesmente, um século!!!!
Dito isto, aliás, citado isto, só posso exclamar que a Bancada Evangélica é a Marca de Caim da República e só chegou até esse ponto, sem volta, não ignorem esse fato, pela conivência e estupidez das ovelhas-eleitoras e da má política diária dos governos, tanto de Direita quanto de Esquerda. É uma serpente cujo ovo, todo nós, todos, sem exceção, permitimos ser chocado.
Ora, quando uma criança sai de um culto de Candomblé ou Umbanda e é apedrejada por gente de terno e com bíblia em uma das mãos, é apenas uma prova cabal de que a serpente já nasceu há tempos.
Quando se ignora que as religiões de matrizes africanas são tão importantes quanto o cristianismo destruidor e escravizador que trouxe negras e negros, reis em suas terras, senhores e senhoras de terras, é uma evidência incontestável de que a laicidade não deu certo neste continente brasilis abaixo da Linha do Equador. Ignorar que em uma organização cristã-colonial como foi a que aqui testemunhou-se, na qual cristãos utilizavam trechos dos Salmos para justificar a escravidão negra, uma vez que David escravizava etíopes e, no mínimo, ignorar a História. Finalmente, esquecer que os primeiros habitantes do solo a que chamamos Brasil, os índios e índias, foram privados de sua cultura religiosa e de organização graças ao discurso de salvação da Igreja Cristã é o cúmulo da exemplificação da relação constante entre dominantes e dominados. 
Isso explica porque num país em que se ignora as culturas, é mais do que claro que será impossível perceber o cristianismo como mais um entre tantos outros aspectos culturais até enriquecedores ao ser brasileiro, apesar de seus histórico assassino e destruidor. Entretanto, me pergunto, quem de nós não tem defeitos, mas pode em dado momento corrigi-los?  O cristianismo se manteve no Brasil intacto desde que chegou, sem nenhuma correção: patriarcal, religião de uma minoria dominante imposta aos dominados, destrutiva... Foi assim com o predominante catolicismo que, de pouco a pouco, tornou-se apenas nominal, restando poucos que professam seriamente, e agora o é com a religião evangélica.
Por isso mesmo se hierarquizam erroneamente as culturas nesses grupos religiosos evangélicos. O samba é batuque, as afroreligiões, macumba, etc. Na verdade, por esses e outros aspectos, que o cristianismo se considera além da cultura, ele é o ditame do que é certo e errado. Do moral e do imoral. Mas o que ignoramos é algo tão mais simples: o cristianismo em nosso país e a Marca de Caim.

  • A pedrada final: Volto à ilusão da Direita má e a Esquerda boa/ Da Esquerda má e a Direita boa

Não nos iludamos, associar tacanhamente os neopentecostalismos somente aos movimentos neoliberais ou à extrema Direita (aos moldes tupiniquins) é jogar a sujeita para debaixo do tapete. Motocontínuo, manter o discurso de que os evangélicos nas Câmaras – estadual e federal – e no Senado são heterogêneos demais para que possamos identificar exatamente os inimigos, ora, também é, se não, conivência, algo muito pior: covardia.
O discurso é homogêneo. Se há homogeneidade, isso vai além do ser evangélico, é claro, porém, isso está no entrave silencioso, mas ensurdecedor, das pautas progressivas pelos pastores que ainda se mantém firmes em seus púlpitos sem usar a fé como negócio, mas que em suas latrinas cometem o pecado da soberba por um segundo ou dois, batendo palmas feito macacos aprisionados no zoológico para mais  e mais homossexuais ofendidos e agredidos, para meninas estupradas e sem atendimento adequado, sem o direito de abortarem um feto oriundo da violência machista diária que o cristianismo ensina ao pregar que as mulheres devem ser submissas aos maridos, logo, ao homens. Palmas que reafirmam simplesmente: Se fosse crente, se fosse normal, não seria ofendido ou se estivesse na escola, na igreja, com roupa decente, não teria sido estuprada. O que é ser normal? Desejar dentro de um padrão socialmente construído e imposto? O que é decente?
É tempo, mais que urgente, de se rever os conceitos por todos os lados na busca pela laicidade, não aquela formatadora e que emudeça as formas de religiosidade, mas a que percebe os meandros culturais e de diversidade entre os brasileiros e que justifica plenamente o vídeo abaixo.



  • Post scriptum

O projeto de destruição do país é bem coeso e a sua fórmula , politicamente falando, extremamente racional e mesmo se tratando de forças que podem ser consideradas incompatíveis, o projeto de destruição, via tomada de poder por essas bancadas políticas, pode ser, deste modo, esquematizado:
Bancada Evangélica: Atua no psicológico minando a possibilidade de debate, uma vez que o uso de uma entidade invisível como o deus cristão impossibilita a ação da racionalidade crítica. Como desconstruir o que não se vê? Ao mesmo tempo, os membros dessa bancada firmam suas pautas antiprogressistas na covardia de usarem tacanhamente o direito, garantido, de expressar a fé como liberdade de expressão. Contudo, ignorando que esse direito é de todos, inclusive, dos que não tem fé ou religião.
Bancada da Bala: Uma vez minado o psicológico, atua no estado físico, no direito de ir e vir. Em breve corremos o risco, novamente, da institucionalização – ainda atuante, mas ainda não como lei – do direito à tortura, censura, etc. O modus operandi dessa bancada é ignorar totalmente o humano. Ela age na lacuna aberta pelo Estado ainda que em conluio com esse mesmo Estado que caminha para a teocracia. Possui estratagemas perfeitos que nem Agostinho de Hipona suspeitaria ao elaborar o seu conceito de guerra justa para o Império Romano cristianizado. Por isso mesmo, é difícil esperar algum tipo de embate moral entre as Bancadas Evangélica e da Bala. O passado prova que em algum momento o cristianismo precisa de um braço competente para derramar o sangue dos infiéis.
Bancada dos Bois: O agronegócio funciona historicamente vinculado com o discurso cristão (nosso passado de invasão das terras indígenas e sua catequização é um presente constante) e a ação armada (nosso passado de tomada das terras indígenas através de seu massacre é um presente constante). Ela une perfeitamente as duas ideologias acima listadas. Diria eu, em analogia, que a Bancada do Boi funciona como a concretização da cristianização, logo, alienação do eleitorado “de bem” e da “justiça” violenta e aprovada pelos cegos cristianizados pela indústria da fé. Só que o mais curioso é que essa bancada política, antes a longo prazo, hoje de forma bem imediata, está carregando o país para o fundo do posso e contribuindo profundamente para uma evidente crise ambiental que nos alastra.
Pensem bem, se o Brasil está como está, ainda tendo bem ou mal reservas naturais, que dirá quando suas nascentes secarem e todos os índios forem mortos?

Enquanto isso, continuemos ignorando a Marca de Caim.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Alguém lembrou do Escovinha (ou ossatura da memória)



Estou no mesmo quarto onde tantas outras vezes estive – aliás, temo dizer que daqui é que um dia tudo partiu em vozes, gestos transmutados em palavras.

Cada um se depara com suas memórias de maneira ímpar, praticamente, única. Seja um velho perfume que remeterá à infância, seja um som de um pássaro qualquer. A questão é o que tiramos, cada um de nós, de tais lembranças. Sejam elas nostálgicas ou não.
Na verdade, a bem da verdade, devo dizer que não sei bem definir o que há em mim de nostalgia, saudade, memória ou lembrança. Já quando percorríamos na quinta-feira à noite as ruas da velha cidade da minha meninice, as cadeiras na rua, as crianças desnudas e descalças nas calçadas com narizes escorrendo ou mesmo os chinelos demarcando o gol a gol interrompido pela passagem do carro... já nisso eu me perdia na ausência de definição. E digo mais, mesmo as luzes, as muitas luzes que eu via quando do avião se aproximando no Galeão, as luzes rompendo a escuridão do céu, mesmo isso, eu não saberia definir o que significou para mim.

O certo é que isso tudo já estava preparado desde a partida, o que me resta é entender qual das minhas muitas partidas me refiro.
E veja bem: não é um diário. Mas, espero que você possa me ouvir, até mesmo o cheiro forte da minha respiração ou o som rouco da minha voz, a força que faço para tossir. É necessário que me ouça bem devagar, com bastante atenção. Coisa que eu nunca solicitei. Mas, hoje eu te peço.
Neste mesmo quarto, que pouco mudou, a não ser minha ausência física, escrevi artigos, uma dissertação, varei madrugadas a finco com crônicas, poesias, historietas bobas que nem sei mais por onde andam. Aqui neste quarto quase cultivei o afã de achar que a palavra me libertaria um dia. Daqui me aventurei pela primeira vez à opinar sobre algo e que foi publicado no extinto Tramela da gravadora Trama. 

Daqui conheci o mundo de uma maneira um tanto singular, mesmo que o futebol aos domingos, a conversa no portão e as caminhadas no quintal com meu pai ainda fossem mais interessantes.

Mas se trata de memória e a memória pode ser um osso mal restaurado. Uma fratura que ainda persiste em doer em tempos nebulosos e de frio.

É disso que se trata e, talvez, será sempre sobre isso que cada voz sacramentada a não ser escutada no mundo, mesmo um mundo pequeno, seja conduzida mal e porcamente por um ventríloquo.

No calor profundo e seco da cidade, enquanto com passos curtos eu descia o morro de tantas e tantas outras descidas, já quase na avenida principal, vi uma pichação que marcou profundamente toda a minha recém estadia quase findada: P/ Escovinha 14 anos de saudades.

Almocei no centro da jovem cidade, passei no boteco tradicional e voltei com mesmos passos lentos e curtos e pensativos ainda na pichação do muro: P/ Escovinha 14 anos de saudades.



As árvores foram cortadas, o calor aumentou, mas a sujeira e o asfalto eram os mesmos. O local em que ele foi assassinado, uma vila de casas, foi, há muito, derrubada para transformar-se no estacionamento de uma igreja evangélica pentecostal, em cuja escola administrada por ela, inclusive, lecionei um breve período.

Se me perguntarem quem foi o Escovinha, tenho algumas lembranças e histórias engraçadas e que me remetem a um profundo apego ao passado no morro e de como a minha própria vida era um emaranhado exótico de vivências. Nunca soube (ou soubemos todos) o seu nome. Nem sua idade, profissão, filiação. Era o Escovinha. Magro, franzino e alto. Cabelos muito crespos e sempre raspados a máquina, arcada dentária desregular... puro osso e falava fanho.

Sabia meu nome graças a uma escola particular que eu frequentei para crianças no bairro da Coréia, em Mesquita, e nunca esqueceu. O uniforme azul quadriculado carregava Bruno no peito, pintado com tinta para tecidos. Sempre que mamãe subia comigo o morro, Escovinha sorria e dizia: Coé Bruno! Minha mãe retrucava: Fala Bruninho: e aí?

Os anos se passaram, eu cresci, Escovinha mais que eu. Ele morava onde a urbanização e o saneamento haviam chegado, no pé do morro, não era asfalto, eram aqueles antigos paralelepípedos que quase não vemos mais.

Recordo dele vir jogar bola no campinho com os adultos um pouco mais velhos do que ele. Das histórias que ouvíamos das suas atuações nos bailes funks do Mesquita ou do Tênis Clube. O quanto ele batia, mesmo sendo franzino e com cara de lerdo. Escovinha era o falso otário. Tinha unhas grandes que lanhavam a cara dos “inimigos”.

Certa vez, numa noite quente de sábado, provavelmente era sábado, pois papai me deixou ficar um pouco mais na rua, ouvíamos Antena 1, a Light FM do Rio, num micro system que eu ganhei de presente e que funcionava com pilhas. As pilhas comprávamos no rateio, cada um conseguia sua parte como podia – uns vendiam lata, outros pediam para seus pais, outros roubavam. Um aposto necessário: Este rádio, que não tenho mais, levou uma pedrada, não sei o motivo, do Joel Cachaça que, acredito eu, mirava num dos moleques que estava ouvindo comigo. O Joel era um cara bacana, um bom pedreiro que, inclusive, quando saí muitos anos depois do meu período de Marinha, trabalhei como ajudante numa obra de fábrica próximo a Rio Sampa (uma antiga casa de shows na Via Dutra). As aventuras do Joel Cachaça me renderiam ótimas prosas por aqui também. Mas, a memória é seleção. Voltemos ao Escovinha.

Na noite a que me referia, Escovinha chegou cabisbaixo e se sentou na roda de meninos na parte gramada daquilo que chamávamos campinho. O som tocava baixo e ele em silêncio. Dita hora, alguém soltou: Qual é, Escovinha, o que manda?

O Escova havia arrumado uma namorada num baile de favela e na sexta-feira anterior havia ido pela primeira vez ao motel com ela. Até aí, a molecada, incluindo eu, ficou ouriçada em ouvir uma aventura sexual que muitos de nós só teríamos muitos anos depois. Enfeita para cá, enfeita para lá... Escovinha decreta: Não rolou. Quando tiramos a roupa. Não rolou. Não ia rolar mesmo! Um amigo mais velho questionou: Por que?

Era macho! A mina era macho!
Cada menino da rua questionou frente ao seu próprio conhecimento da anatomia feminina e masculina mais rasteira possível: Não dava pra sentir enquanto vocês se beijavam, pô? Não, ela amarrou pra trás! Bom, comia assim mesmo, rapá! E foi quando o brilhantismo, com o perdão da redundância, abrilhantou aquela noite que ficou na minha memória: Comer, comer até dava e até pensei. Mas, ela tinha o pau maior do que o meu e isso eu não admito! Jamais!

Sentado na sala com meus pais, tantos anos depois, relatando o que eu havia lido no muro no pé do morro e atiçando a curiosidade dos dois – Quando descermos para jantar me mostra que eu quero ver – passamos os três a enumerar cada menino da rua que conviveu comigo e os motivos que os levaram a mortes violentas, fosse pelas mãos da polícia, dos justiceiros, que originariam no futuro as milícias, ou o tráfico.

Tanto eu quanto meu pai chegamos a conclusão que no caso do velho Escovinha, ninguém sabia ao certo o motivo. Se por drogas, má companhia, rixa de baile, não havia isso nos autos da memória, não há ao certo o que o levou a tomar cada tiro naquela tarde do passado, dentro daquela casa na antiga vila hoje demolida. Certamente como cada um dos meninos que listamos, a banalidade da vida. Foram muitos tiros. Caixão fechado.

Não sei também ao certo, tampouco meus pais, se os quatorze anos grafados com jetcolor no muro ao lado do terreiro que um dia foi a delegacia de polícia de Mesquita e que eu ouvia o velho Bostinha bradar bêbado na Barraca do Jorginho, em meus tempos de jogador de búlica com pés descalços, que ele havia sido preso por xingar o delegado, são de fato quatorze anos ou muito mais. O tempo nos engana tanto quanto a memória.
A questão é que cada busca que fiz no passado da minha vida, vejo um corpo ensanguentado no chão que poderia ser ou não de um amigo. Mas que no fundo, no fundo, me levou junto, sabe lá deus para onde.

Em tempo: A pichação foi feita em 2013. Na verdade, já se vão 17 anos. 


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Bandido bom é bandido morto...

Carceragem da Polinter de Nova Iguaçu - Fotografia retirada do blog Memórias do Cárcere, 29 de setembro de 2010


É no mínimo curiosa e temerária a frase bandido bom é bandido morto. Na verdade, numa análise mais profunda, bandido bom é aquele que foi recuperado, logo, pode deixar até mesmo de ser chamado de bandido.
Bandido significa, segundo o Houaiss, 1) individuo que pratica atividades criminosas; malfeitor; bandoleiro, salteador e, por extensão, 2 ) pessoa sem caráter, de maus sentimentos. É uma palavra que tem sua etimologia remontada ao século XIV. Mas, paremos por aqui. O sol já começa a se colocar matreiro no seu descanso e como é terça-feira, nem cabe um convite para um chope. O dólar hoje bateu a casa dos R$ 4,00, mas nada disso é efetivamente importante para nós dois, pois bandido bom é bandido morto.
A frase me assusta mais quando é entoada por pessoas que são perceptivelmente calmas, ditas de “boa família”, possuem empregos, vão e vem de ônibus, carros e até bicicletas. Assusta, pois ela representa um processo que não é de hoje e que está profundamente enraizado no cotidiano e que pode ser dividido em dois pontos fundamentais: A gradual perda de confiança (ou mesmo desconhecimento mais apurado) nas leis e o cansaço que consequentemente gera revolta. Esse misto duplo pode ser agrupado em outros subgrupos extensos e variados, mas que podem se resumir no sentimento um tanto geral de que tudo se resume a impunidade. Logo, a solução seria punir os impunes com as próprias mãos. Mas isso, veja bem, fará de você um criminoso, um malfeitor. Quando não, já por extensão: uma pessoa de maus sentimentos!
O primeiro ponto fundamental que comentei é de ordem, penso eu, educacional e de sentido formal: boas escolas. O acesso às leis, pelo incrível que pareça, não é tão complicado quanto possa parecer para o mais desavisado, desinformado. Mas, ao mesmo tempo, é claro que o que se vê, o que se lê, remete o individuo que as busca a uma certa desvalorização de seus significados, importâncias normativas (não gosto do anarquismo, penso serem as leis, quando bem feitas e cumpridas fundamentais para a organização em sociedade, aliás, elas foram/são criadas para isso, se bem criadas ou não, é uma outra prosa), reguladoras e em alguns momentos até opressivas. Nosso currículo educacional é fraco, seja nos segmentos básicos, seja na universidade. Além de engessados nesse último ambiente, ele é extremamente vinculado a tudo aquilo que, como uma grande bagagem, foi trazida pelos alunos: uma concepção de estudo voltada para o quantitativo e não para o qualitativo.  Me deparar, por exemplo, com um aluno de História que ignora a pertinência, quando não  a importância, de se estudar períodos como a Antiguidade (berço da dita democracia, salvo, claro, anacronismos) e a Idade Média (onde testemunha-se um Cristianismo que mais e mais se normatiza em concílios e cânones que ainda hoje embargam justos debates nas casas legislativas como o aborto ou mesmo as pesquisas com célula tronco) me deixa assustado. É lógico que, não paradoxalmente, a culpa nunca esteve nos ensinos básicos, afinal quem forma aqueles que estarão atuando nos Ensinos Fundamental e Médio?
O mesmo é passível de se afirmar a respeito do aprendizado dos nossos Direitos e Deveres. Pois é, acredito que nossos direitos estão intimamente vinculados aos deveres que possuímos. Afinal para tudo ou quase tudo há uma contrapartida. Ao que parece, a coisa toda foi engessada de tal maneira que Direitos e Deveres tornaram-se enunciados antagônicos e extremamente subjetivos, quando não individualistas. E constantemente quando se resolve enxergar as leis ou recorrer a elas procura-se sempre atentar apenas para um lado da moeda, a ponto de se ignorar que uma Justiça bem feita é aquela que não ignora as duas mãos da rua.
O segundo ponto, esse o que mais me chama atenção, pois possui uma camada de gordura difícil de analisar e chegar a algum lugar verdadeiramente, gera aquilo que vem sendo aplaudido já há anos por essas “boas famílias”: a justiça pelas próprias mãos. Uma vez que, para o grosso da sociedade – seja no passado ou na atualidade – a Justiça tornou-se um engodo. Como que num ritornello de semibreves numa mesma linha do pentagrama e sem fine, gera a frase que iniciou nossa conversa: Bandido bom é bandido morto.
Justiça seja feita, ponho minha cara a tapa, evidente que ouvirei em algum momento: Você nunca sofreu algum tipo de violência! ou Quero ver se fosse com um parente seu!. Justo. As duas frases são justas e melhor ouvir isso do que a máxima Está com pena, leva para casa!, essa a mais brutal e desconexa.
Milhares de pais, mães, filhos, perderam e perderão entes queridos de maneira brutal pelas mãos de algum algoz, seja aquele desviante (explicarei adiante o que entendo por desviante) com uma matrícula pública e com o aparato estatal por detrás do fardamento ou por aquele desviante sem uma matrícula pública e com o aparato estatal por detrás e na maioria das vezes de chinelo de dedo e sem camisa. Os dois desviantes são bandidos. Os dois necessitam de algum tipo de processo corretivo, simplesmente por serem desviantes.
O Brasil, dado importante este, tem uma das maiores populações carcerárias do mundo e um dos piores índices de correção de detentos. A Justiça é lenta e falha. Esses dados, soltos assim, podem ser manipulados da maneira que o bebum no botequim preferir, inclusive pelas “boas famílias” e pelo “cidadão de bem” que anda revoltado com o contexto. Ao mesmo tempo, segundo relatório da Anistia Internacional (Brasil) a quantidade de execuções extrajudiciais no Rio de Janeiro é assombrosa, basta conferir. Pelo visto, já temos “justiceiros” suficientes, não?
A polícia mata e mata mesmo e tem ferramentas jurídicas ou pelo menos elementos discursivos: auto de resistência, homicídio decorrente de intervenção militar...
Mas voltemos a boa e velha acusação de hipocrisia: É fácil falar sobre o que você não vive! ou É fácil colocar em prática esse discurso militante sem sentir na pele ter a vida de alguém amado ceifada.  A quantidade de exemplos de frases ultrapassariam minha capacidade de produzir sons. Eu poderia, inclusive, ser personalista, soar aqui violinos e contar minha história de vida, o que passei e deixei de passar, as escolhas que fiz, o que ganhei e perdi... Mas, já disse certa vez, um discurso só é bonito se ele convence.
Mas por se tratar de um Ventríloquo queria invocar outra voz.
Em 2004, eu estava caminhando pelo Centro do Rio de Janeiro – não, não fui assaltado – e fui abordado por um vendedor de Ocas”, uma revista publicada por uma ONG chamada Organização Civil de Ação Social, clique no nome que você saberá mais sobre. Naquele mês de julho, o número vinte e quatro da revista tinha o Chico Buarque na capa e uma interessante entrevista com o cantor e compositor, que me permito reproduzir uma pergunta, em especial:

Ocas” – De que maneira a situação de violência no Rio de Janeiro te afetou?
Chico – A mim, pessoalmente, muito pouco. Na semana passada, roubaram a bicicleta da minha filha, por exemplo, ali na Lagoa. Todas as minhas meninas já foram assaltadas mais de uma vez, mas eu nunca fui. Nunca andei de relógio, anel, corrente, até para evitar isso, para não ter muito o que levarem. Então, desses pequenos crimes ando mais ou menos a salvo. Mas isso não quer dizer nada. Essa confusão não me afeta fisicamente, mas de resto afeta tudo. É ruim estar nessa loucura. Não vivo com paranóias, não tenho essa preocupação. Já passei por climas parecidos, mas que eram mais fáceis de lidar. Por exemplo, no tempo da repressão, sendo realmente ameaçado de ser morto, sofrer acidentes, eu convivia com isso. Não era paranóia de repente chegar uma caixa na minha casa e eu ter que atirar longe para ver se explodia. Mas o que acontece hoje é que você vive com esse clima, e o que te ameaça não vem do inimigo. Esses caras que estão fazendo isso, eu provavelmente dou razão a eles. Se o cara quiser entrar aqui em casa e levar essa porra toda, me dar porrada, eu vou ficar muito puto, não vou gostar de apanhar, mas no fim das contas vou pensar que se eu estivesse no lugar dele faria a mesma coisa. Às vezes as pessoas jogam pedras do mirante aqui na minha piscina, e eu penso que, se eu estivesse lá em cima, também jogaria, entende? Estou lá, vendo isso tudo aqui embaixo, estou sem um puto, eu não vou virar evangélico, não vou ler a Bíblia, talvez tente trabalhar e não consiga nada e, aí ainda mais, eu vou querer aquela bicicleta daquela garota que está passeando na Lagoa (Ocas”, ano 2, n. 24, julho de 2004, p. 24).

Eu pensei em enfatizar mais alguns trechos do que outros, mas você deve ter ouvido eu firmar mais minha voz neles, se você tiver um ouvido bom, certamente conseguiu. A primeira questão que vale a pena, mas vale a pena mesmo, é a percepção de que o “outro” não é seu inimigo. Sim, podem me linchar. Mas é exatamente isso. O outro não é e nunca foi o meu inimigo. O processo de se colocar no lugar do outro é complexo e confuso. As motivações que constroem os desvios pelos caminhos são justificativas injustificáveis, mas que, sim, se olharmos atentos possuem um fundo, porém escondido abaixo de toda aquela gordura que já comentei (um exemplo, fantástico é a história do Sandro Dias).
Alguém já disse certa vez, na verdade, quem disse foi o Marcelo Yuka, que a fome é como um esperma por entre as pernas da violência, de fato, ele tinha razão. O processo de exclusão social no nosso país é como uma bola de lama e essa bola por onde passa vai arrastando tudo. Não muito curiosamente, e não fique pasmo com isso, ela não desce dos morros para o asfalto. Ela sobe do asfalto para o morro. É lógico que mesmo sem o mal da exclusão que aloca os menos favorecidos na margem da sociedade de consumo, a Justiça, as leis e todos nós sempre nos depararíamos com indivíduos desviantes, não no sentido de ignorar a individualidade de cada ser e considerar que fulano ou sicrano estão fora dos padrões aceitáveis. Ora, a lei é mutável e deve atender as necessidade – mínimas – de convivência pacífica entre a pluralidade de comportamentos possibilitando a mínima organização na convivência entre os povos. Me refiro ao um problema ético, grave, que quem sabe um dia tenho paciência para abordar. Porém, lembre-se sempre que um bandido é uma pessoa de maus sentimentos.
Finalmente, mas em Fade out, cabe um alerta. Um “justiceiro” nada mais é do que mais um desviante nessa rua longa que é a convivência humana. Nada mais é do que um agente travestido da própria violência que julga combater. E ele tem um olhar que mira um ponto sempre comum: o negro, pobre e favelado. O “justiceiro” não visa justiça, visa uma falsa redenção por meio da morte do outro que por si só – ele não percebe – é a sua própria morte, uma vez que é incapaz de se ver no outro. Eu quero que minha voz continue ecoando, eu quero que a minha revolta contra a violência e a injustiça também, mas jamais serei representado por esse tipo de gente, jamais endossarei o discurso da barbárie, tampouco, da anarquia. Como disse o grande Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, num show em Exu, Pernambuco, em 1989: É somente através do trabalho da comunidade que nós vamos conseguir realizar alguma coisa, somente o trabalho conjunto e o respeito ao trabalho que vai nos levar aquilo que nos queremos. Uma melhor qualidade de vida. E nos queremos o melhor. É ou não é?
Hoje o “moleque” Gonzaguinha completaria 70 anos de idade, eu queria ter conversado sobre isso, queria ter expressado a importância que suas músicas tiveram para a minha formação como ser humano, mas prefiro encerrar em Fade out...

terça-feira, 21 de abril de 2015

Chega de homenagens!

João Bosco e Aldir Blanc em idos dos anos 70 (Foto retirada de: http://oifm.oi.com.br/site/#!/noticia/musica/-comabocanomundo-bosco--aldir---tinhorao--tiros-de-misericordia)

Queria – e como eu queria – bradar aqui molhando a camisa de chope. Aquele gelado, com colarinho bem branco e espumoso. Bradar com punho firme, para o alto, e ao deixar o ouro líquido derramar, escorrer pelo meu braço esquerdo, o da força, o da escrita, o da datilografia e dos muitos lápis pretos Faber-Castell da infância, ser perdoado pelo melhor amigo no estilo “deixa disso”.
“Deixa dilson, Arnufo!”, ele diria em tom matreiro, já capenga, meio bêbado. Diria, eu sei que diria. Mas, só se existisse. Diria: “deixa dilso, para com nelso! Tudo há de melhorar!”. Mas, não!

No tempo real

Não visualizo os quatro rapazes, já mais velhos, de Liverpool na faixa, visualizo o horizonte profundo da foto. Eu era assim. Não sou mais. A verdade é que estamos diante da revolução da ignorância. Das ignorâncias. De todos os lados.

Por pura coincidência ou, talvez, com alguma explicação mais exata, ouço agora o belo disco Galos de Briga, de João Bosco. Lançado em 1976, posso afirmar que não foi por mero formalismo que na contracapa, belíssima, por sinal, a presença marcante do parceiro Aldir Blanc preenche aquela que foi, em minha opinião, uma das maiores parcerias entre poesia e música que já aconteceu no velho Brasil.

João Bosco e Aldir Blanc, em 1976, contracapa do Lp "Galos de Briga".

E também não é por mera coincidência ou demonstração de erudição que faço referência a esse poeta maior das nossas letras, Aldir Blanc que, com sua ironia de profeta das ruas, das esquinas, dos bares pé sujos, prostíbulos e extintas casas de sinuca, lançou, não seu melhor, mas o interessante e, para mim, atual Brasil Passado a Sujo: A trajetória de uma porrada de farsantes, em 1993. Tenho a primeira edição que, com um misto de orgulho e ego, comprei num sebo. E hoje, no tempo real, cito:

“Inflação, crise dos valores morais e espinha na bunda são coisas que fazem a gente refletir. Com o chazinho das crianças ameaçado (o leitinho acabou faz tempo), aceitei a proposta de um grupo de azerbaijanos dissidentes, radicados na Boca-do-Lixo, e cometi alguns roteiros para filmes pornográficos” (Roteiros, p. 29).

Eu ri. Tem gente que não rirá. Afinal, estamos diante de uma revolução das ignorâncias, já diria um amigo meu, por WhatsApp, já que deletei minha conta no Facebook. Mas, calma – ainda brado imaginativamente meu copo de chope no ar –, mais para frente, o velho Blanc, tranquiliza: “O roteiro seguinte visa uma faixa de público mais intelectualizada: Penetrações Estruturalistas” (Roteiros, p. 31).
Salve, Aldir. Chega de tantas homenagens! Eu quero é dedo na ferida. É nego – eu disse nego? Posso usar a expressão “nego”? – defendendo um não sei o quê de sei que lá, entende? São os olhos fechados para a impureza da água do volume morto. Da preguiça universitária, da Classe Média cada vez mais burra. De movimentos de minorias cada vez mais ignorantes ao discurso... É a revolução das ignorâncias. Tiradentes morreu de tédio.
Deusestásolto e essa é a merda! Mas... se prender deus é opressão!
Eu quero é botar o dedo nessa ferida aberta de veias já fechadas da América Latinas (“Nós canto-falamos como quem inveja negros/
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem” - Caetano Veloso). Eu estou é puto!

“Deixa dilson, vamos nelson!”.
 Uma profunda análise das letras de Galos de Briga extirparia Aldir Blanc do rol de poetas-profetas do Rio de Janeiro mais sujo, mas de todo subúrbio imundo e sem lei. Sujo e sem lei. Que juventude é essa? Burra! Dos dois lados: burra!
Imbecis!
E eu parado num eterno sinal amarelo! Atenção, atenção, o ataque vem dos moinhos de vento! Mas isso aqui está muito pop. Você não está em sintonia com as lutas dos negros e pobres e favelados.
Mas, antes de encerrar meu pileque imaginário. Minha revolta ordinária e sem escrúpulos de mimimi subversivo. Me permitam vocês duas histórias: uma minha e outra retirada, porém devidamente citada, do tal livro do mestre Aldir Blanc.
Quando em 2013, completei meus 30 anos, homem realizado, filho único e com sólida e monótona carreira em construção, ganhei de presente, lançado no mesmo ano, o livro de Luiz Fernando Vianna: Aldir Blanc – Resposta ao Tempo (Vida e Letras). Com sua capa vermelha e com um fundo de filme Kodak com fotos do Aldir, na contracapa vinha meu desabar, uma dedicatória com letras miúdas: “Com o abraço do Aldir Blanc”. Com as mãos trêmulas de alcoólatra em abstinência chorei na frente da atendente que me entregava a encomenda feita pela Internet. Chorei e ela teve a audácia da inocência ao perguntar: “Quem é esse tal de Aldir?”.
O segundo fragmento está no conto “Histórias da Zona Norte”, cito, pois citar é minha sina:
            “Acho o subúrbio mais criativo e interessante do que a Zona Sul. O sonho de status do sujeito que julga fazer um grande negócio, mudando de Vila Valqueire para a Duvivier implica num jogo de simulações e “finezas” sacais. Penso que a grossura suburbana é fundamental para que o Rio sobreviva com identidade própria, e não como periferia de Novióqui, como deliram os deslumbrados.
            Na minha infância, em Vila Isabel, éramos visitados por uma figura maravilhosa, o Ruço, mistura de faz-tudo e gozador. Ferrenho morador de Vila da Penha, subia no telhado para soltar pipa, agarrava no gol enquanto os meninos batiam séries intermináveis de pênaltis, contava histórias engraçadíssimas e tinha um hábito muito louvável e democrático: chamava todo mundo de Cagalhão.
            Uns vinte anos depois, eu estava fantasiado de médico, numa enfermaria psiquiátrica de quarenta leitos e oitenta pacientes seminus. Me sentia importante. Haviam colocado em minha precoce careca a auréola tipo “esse sujeito vai longe mesmo”. Eu trabalhava em ritmo de Chacrinha, estimulado pela retórica e pela ideologia do vai-para-o-trono-ou-não-vai.
            Bom, um belo dia, minha mãe me telefonou e disse:
            - O Ruço vai lá no hospital te procurar. Ele tem um amigo que acha o Simonsen o máximo.
            - Ué, mãe, e daí? Qual é o problema?
            Mamãe esclareceu:
            - Maluco, Aldir. Só pode ser pirado. Lelé da cuca.
            - Ahn!
            No dia seguinte, eu cintilava em meu jaleco rinso e cuspia bobagens sobre esquizofrenia com outros sábios, na sala dos médicos. Bateram na porta. Era o enfermeiro, avisando que um senhor queria falar comigo, parece que era parente meu. Fiquei emocionado. O Ruço! Vinte anos depois! Como será que ele, humilde morador da Penha, me veria no pedestal de esculápio? Tomado de uma condescendência criminosa, respondi com voz olímpica:
            - Deixa ele entrar, meu rapaz!
            Instantes depois, antecipando-se vinte anos a uma gíria atual, Ruço enfiou a cabeça risonho e franca dentro daquele santuário de intelectuais progressistas e diagnosticou na mosca:
            Oi, Cagalhões. A mala ta aí fora.” (p. 63 e 64).

Com a minha tulipa imaginária nas mãos, bradando – como eu queria! – me despeço: Adeus, Cagalhões! Adeus, para todos vocês! Pois chega de homenagens! Mas não posso resistir a essa bela fotografia do encarte do Lp Galos de Briga: