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terça-feira, 21 de abril de 2015

Chega de homenagens!

João Bosco e Aldir Blanc em idos dos anos 70 (Foto retirada de: http://oifm.oi.com.br/site/#!/noticia/musica/-comabocanomundo-bosco--aldir---tinhorao--tiros-de-misericordia)

Queria – e como eu queria – bradar aqui molhando a camisa de chope. Aquele gelado, com colarinho bem branco e espumoso. Bradar com punho firme, para o alto, e ao deixar o ouro líquido derramar, escorrer pelo meu braço esquerdo, o da força, o da escrita, o da datilografia e dos muitos lápis pretos Faber-Castell da infância, ser perdoado pelo melhor amigo no estilo “deixa disso”.
“Deixa dilson, Arnufo!”, ele diria em tom matreiro, já capenga, meio bêbado. Diria, eu sei que diria. Mas, só se existisse. Diria: “deixa dilso, para com nelso! Tudo há de melhorar!”. Mas, não!

No tempo real

Não visualizo os quatro rapazes, já mais velhos, de Liverpool na faixa, visualizo o horizonte profundo da foto. Eu era assim. Não sou mais. A verdade é que estamos diante da revolução da ignorância. Das ignorâncias. De todos os lados.

Por pura coincidência ou, talvez, com alguma explicação mais exata, ouço agora o belo disco Galos de Briga, de João Bosco. Lançado em 1976, posso afirmar que não foi por mero formalismo que na contracapa, belíssima, por sinal, a presença marcante do parceiro Aldir Blanc preenche aquela que foi, em minha opinião, uma das maiores parcerias entre poesia e música que já aconteceu no velho Brasil.

João Bosco e Aldir Blanc, em 1976, contracapa do Lp "Galos de Briga".

E também não é por mera coincidência ou demonstração de erudição que faço referência a esse poeta maior das nossas letras, Aldir Blanc que, com sua ironia de profeta das ruas, das esquinas, dos bares pé sujos, prostíbulos e extintas casas de sinuca, lançou, não seu melhor, mas o interessante e, para mim, atual Brasil Passado a Sujo: A trajetória de uma porrada de farsantes, em 1993. Tenho a primeira edição que, com um misto de orgulho e ego, comprei num sebo. E hoje, no tempo real, cito:

“Inflação, crise dos valores morais e espinha na bunda são coisas que fazem a gente refletir. Com o chazinho das crianças ameaçado (o leitinho acabou faz tempo), aceitei a proposta de um grupo de azerbaijanos dissidentes, radicados na Boca-do-Lixo, e cometi alguns roteiros para filmes pornográficos” (Roteiros, p. 29).

Eu ri. Tem gente que não rirá. Afinal, estamos diante de uma revolução das ignorâncias, já diria um amigo meu, por WhatsApp, já que deletei minha conta no Facebook. Mas, calma – ainda brado imaginativamente meu copo de chope no ar –, mais para frente, o velho Blanc, tranquiliza: “O roteiro seguinte visa uma faixa de público mais intelectualizada: Penetrações Estruturalistas” (Roteiros, p. 31).
Salve, Aldir. Chega de tantas homenagens! Eu quero é dedo na ferida. É nego – eu disse nego? Posso usar a expressão “nego”? – defendendo um não sei o quê de sei que lá, entende? São os olhos fechados para a impureza da água do volume morto. Da preguiça universitária, da Classe Média cada vez mais burra. De movimentos de minorias cada vez mais ignorantes ao discurso... É a revolução das ignorâncias. Tiradentes morreu de tédio.
Deusestásolto e essa é a merda! Mas... se prender deus é opressão!
Eu quero é botar o dedo nessa ferida aberta de veias já fechadas da América Latinas (“Nós canto-falamos como quem inveja negros/
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem” - Caetano Veloso). Eu estou é puto!

“Deixa dilson, vamos nelson!”.
 Uma profunda análise das letras de Galos de Briga extirparia Aldir Blanc do rol de poetas-profetas do Rio de Janeiro mais sujo, mas de todo subúrbio imundo e sem lei. Sujo e sem lei. Que juventude é essa? Burra! Dos dois lados: burra!
Imbecis!
E eu parado num eterno sinal amarelo! Atenção, atenção, o ataque vem dos moinhos de vento! Mas isso aqui está muito pop. Você não está em sintonia com as lutas dos negros e pobres e favelados.
Mas, antes de encerrar meu pileque imaginário. Minha revolta ordinária e sem escrúpulos de mimimi subversivo. Me permitam vocês duas histórias: uma minha e outra retirada, porém devidamente citada, do tal livro do mestre Aldir Blanc.
Quando em 2013, completei meus 30 anos, homem realizado, filho único e com sólida e monótona carreira em construção, ganhei de presente, lançado no mesmo ano, o livro de Luiz Fernando Vianna: Aldir Blanc – Resposta ao Tempo (Vida e Letras). Com sua capa vermelha e com um fundo de filme Kodak com fotos do Aldir, na contracapa vinha meu desabar, uma dedicatória com letras miúdas: “Com o abraço do Aldir Blanc”. Com as mãos trêmulas de alcoólatra em abstinência chorei na frente da atendente que me entregava a encomenda feita pela Internet. Chorei e ela teve a audácia da inocência ao perguntar: “Quem é esse tal de Aldir?”.
O segundo fragmento está no conto “Histórias da Zona Norte”, cito, pois citar é minha sina:
            “Acho o subúrbio mais criativo e interessante do que a Zona Sul. O sonho de status do sujeito que julga fazer um grande negócio, mudando de Vila Valqueire para a Duvivier implica num jogo de simulações e “finezas” sacais. Penso que a grossura suburbana é fundamental para que o Rio sobreviva com identidade própria, e não como periferia de Novióqui, como deliram os deslumbrados.
            Na minha infância, em Vila Isabel, éramos visitados por uma figura maravilhosa, o Ruço, mistura de faz-tudo e gozador. Ferrenho morador de Vila da Penha, subia no telhado para soltar pipa, agarrava no gol enquanto os meninos batiam séries intermináveis de pênaltis, contava histórias engraçadíssimas e tinha um hábito muito louvável e democrático: chamava todo mundo de Cagalhão.
            Uns vinte anos depois, eu estava fantasiado de médico, numa enfermaria psiquiátrica de quarenta leitos e oitenta pacientes seminus. Me sentia importante. Haviam colocado em minha precoce careca a auréola tipo “esse sujeito vai longe mesmo”. Eu trabalhava em ritmo de Chacrinha, estimulado pela retórica e pela ideologia do vai-para-o-trono-ou-não-vai.
            Bom, um belo dia, minha mãe me telefonou e disse:
            - O Ruço vai lá no hospital te procurar. Ele tem um amigo que acha o Simonsen o máximo.
            - Ué, mãe, e daí? Qual é o problema?
            Mamãe esclareceu:
            - Maluco, Aldir. Só pode ser pirado. Lelé da cuca.
            - Ahn!
            No dia seguinte, eu cintilava em meu jaleco rinso e cuspia bobagens sobre esquizofrenia com outros sábios, na sala dos médicos. Bateram na porta. Era o enfermeiro, avisando que um senhor queria falar comigo, parece que era parente meu. Fiquei emocionado. O Ruço! Vinte anos depois! Como será que ele, humilde morador da Penha, me veria no pedestal de esculápio? Tomado de uma condescendência criminosa, respondi com voz olímpica:
            - Deixa ele entrar, meu rapaz!
            Instantes depois, antecipando-se vinte anos a uma gíria atual, Ruço enfiou a cabeça risonho e franca dentro daquele santuário de intelectuais progressistas e diagnosticou na mosca:
            Oi, Cagalhões. A mala ta aí fora.” (p. 63 e 64).

Com a minha tulipa imaginária nas mãos, bradando – como eu queria! – me despeço: Adeus, Cagalhões! Adeus, para todos vocês! Pois chega de homenagens! Mas não posso resistir a essa bela fotografia do encarte do Lp Galos de Briga:


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A gente vai ficando velho... (Os sinais do tempo)



Os indícios da velhice são curiosos. Apesar dos 26 anos que me caem até bem, a vida sossegou para mim. Assim começo a prosa de hoje: reflexivo e engraçado até! Alerto que nosso bate papo vai ao som do belíssimo disco A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro de Moacyr Luz sendo acompanhado pelo maravilhoso sexteto de choro Água de Moringa – qualquer dia desse falo sobre o trabalho no blog Retropleco.
Bom, eu estava falando sobre os sinais da velhice, no meu caso, vindo mais cedo. Ontem – ontem já, não é? É madruga, então sim! – fui dar minha rotineira aula de História Medieval I na Universidade Federal de Sergipe, cheguei um pouco mais cedo, pois queria atualizar algumas coisas, me sentar um pouco na minha sala, relaxar no... silêncio?!?!
Na quarta-feira estavam montando um palco próximo ao prédio do Centro de Educação e Ciências Humanas, quando passei de tarde com um amigo, não demos muita bola, nem sabia o que era e nem quis saber. Descobri hoje! Uma festa universitária, até aí, nada demais para mim que fui freqüentador assíduo com meu amigo Thiago Porto, na época do IFCS-UFRJ, das festinhas promovidas pelo CAFIL e outras pela galera do PSTU. Bom, nordeste, forró. Rio é samba. Tanto um quanto outro, penso eu, combinam com sexta-feira a noite. Penso eu. Mas não é bem assim...
Enquanto ainda estava silêncio, relia eu Ano 1000, Ano 2000: na pista dos nossos medos do Georges Duby, quando, de repente, tudo treme! Sanfona pr’um lado, arroxa pr’o outro... Desci, faltavam ainda uns 30 minutos para minha aula, encontrei uns alunos e uns orientandos. Conversa vai, conversa vem, percebi que eles estavam mesmo com vontade de curtir um forró do que ouvir sobre História Medieval – natural isso. Acontecia comigo, só que por causa de rock ou mesmo samba. Liberei os que estavam a minha volta, fui para sala lecionar para os poucos que ficaram comigo e abonei as faltas até daqueles que nunca apareceram.
Mas não é por isso que me senti velho. Não é contraponto: energia deles, juventude deles (que é a minha também, já que alguns quase têm a minha idade) e cansaço meu. É uma coisa diferente. Uma coisa do sossego. Já não tenho mais o mesmo pique. Agora você até me questiona: mas você é tão jovem! Sim, concordo. Mas viver como vivi e o que vivi. Os abismos que me lancei. A entrada na universidade cedo demais. O mestrado. O doutorado. Encontrar Ana: sossego. Acho isso engraçado. Ensaio uma saída com o Kiko: desisto. Até porque ele também é assim! Vamos ni ritmo coca-cola de ser: quando abre a garrafa, muito gás, depois, vai ficando xoxo.
O primeiro sinal de que se está envelhecendo é quando sossegamos o coração. Quando ser quer o samba em casa. Quando se quer a flauta serena e não mais ponteando em saraus madrugueiros. Gustavo que o diga! Já viramos noites tocando violão e flauta e bebendo, bebendo e bebendo! Thiago Porto que o diga: quantas noites não vimos nascer no Abracabra? Na Lapa? Ana que o diga: quantas vezes não nos aventuramos sem lenço e sem documento pelas ruas do Rio de Janeiro? Quantos carnavais? Quantas vezes não dancei a valsa do trocar de pernas?

O samba agora está em casa. De vez em quando até uma cerveja com um ou outro antes de voltar para o mingalzinho de cremogema. Mas é de vez em quando. O samba está em casa.
Nessa mesma quarta-feira do palco sendo montado que anos atrás não me passaria despercebido, aconteceu outra coisa curiosa (o segundo sinal da velhice). Chegou para mim, LP raríssimo. De um lado, Tom Jobim tocando pela primeira vez em disco Águas de Março, inclusive, única gravação que ele só canta e não toca instrumento nenhum (já fica raro por isso, sem contar o andamento da canção, completamente diferente do comum). Do outro, um tal de João Bosco, com seus 24 anos, desconhecido ainda. Bom, se o João Bosco, ainda era desconhecido nesse disco, um mero, digamos, sonhador, é raro mesmo e antigo!
A bolachinha, chamada O tom de Antônio Carlos Jobim e o tal de João Bosco, faz parte de uma série intitulada Disco de Bolso, uma tentativa, que durou apenas mais um número (com Caetano Veloso de um lado e um estreante chamado Fagner de outro), da revista O Pasquim de impulsionar o lançamento de novos artistas. Foi vencido pela censura ditatorial dos anos 70 e pelo mercado fonográfico que já era massacrante naquela época.
Bom, a revista-disco raríssima é digna de todo meu orgulho. Eu tinha que mostrar para alguém que entendesse. Kiko, não tinha dado as caras no dia. Gustavo estava no Rio de Janeiro. Minha Ana, atarefada com coisas do nosso casamento, não ia ouvir direito e sacramentar minha velhice. Me restava o grande Augusto, gaúcho que chegou à UFS quase ao mesmo tempo que eu, umas semanas depois, para lecionar Teoria da História e que tem sido grande amigo aqui. Além de ser um augusto (sempre faço esse trocadilho com seu nome) conhecedor de vinhos e música boa. Nesse caso estou bem: somo ele e Kiko e tenho uma enciclopédia de boa música! Sem contar que de um lado meu amigo carioca assistiu show antológicos que eu não me canso de pedir que ele conte e reconte e, do outro, o gaúcho, tem no currículo da vida (esse é melhor que qualquer Lattes) nada mais nada menos do que dois shows ao vivo do grande Gonzaguinha! Continuando...
E ficamos os dois, ali, no carro, olhando o disco, a revista, os olhinhos brilhando, como se fosse a coisa mais fantástica das nossas vidas! Várias interjeições gaúchas e cariocas se misturando ao olhar atento para um Tom Jobim sentado recostado numa árvore, tocando flauta transversa, lendo uma partitura, estampada na parte de trás do biquíni de uma mulher vantajosa (a foto acima). Estamos ficando velhos.
Terceiro sinal: Eu vou casar. Prefiro a poesia em casa, com a cerveja gelada em casa, com a preta em casa. Vou casar. O sossego prova isso. A vontade e o cheiro do sossego. As cadeiras de praia no domingo. O pão quente de manhã. A saudade apertando. A lembrança de um tempo que vai ficando para trás... Lembrança que não é saudade, é apenas lembrança. E o sol só nasce na minha cama agora: deixo a vida solta para meus alunos, já tirei meu time de campo!
Aliás, querem coisa mais velha que ficar lembrando as coisas? Quer coisa mais velha que ser um ventríloquo, puxar conversas longas e escrever e-mails enormes? Pois então!
O quarto sinal, eu teria vários, mas esse é o último, vem inversamente. Porém, pode ser o quarto. Dia desses fui almoçar na casa de um aluno. Uma festa. Um dos dias mais alegres e familiares que tive em Sergipe. Aquela família grande, tipicamente nordestina, receptiva, carinhosa e brincalhona. Lembrou a minha e isso me fez ficar à vontade (como se fosse difícil). Pois bem, eis que falta gelo para a cerveja! Aventura! Pegamos o carro do pai do Aquino e fomos atrás desse elemento fundamental para qualquer cervejeiro (tirando a cerveja, é claro). Rapaz, eu não lembrava como era gostoso essa coisa de pegar um carro de pai emprestado e ir pelas ruas sem saber o rumo certo. O que me pareceu era que o carro era tão desconhecido para mim quanto o era para os demais ocupantes! Liga rádio. Não Liga rádio! Como se liga o rádio? E esse negócio do gás natural? Aventura! Na última voz d'O Ventríloquo, eu rememorei meu encontro com o Douglas Cezário e narrei a história do fusca do avô do Bruno Henrique (nosso guitarrista) e dos outros carros da nossa adolescência. Bom, é sinal de velhice! Sinal de velhice maior foi ter ficado super cansado após a busca pelo gelo. É, tempos outros, que venham outros para me substituir!