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terça-feira, 18 de maio de 2021

Salve o grande Jamelão (12 de maio de 1913 - 14 de junho de 2008)

Essa é curta, não lembro o ano, mas o Fernando Vanucci ainda era vivo e cobria o carnaval carioca pela Rede Globo de Televisão. Aliás, bons tempos, ele foi o âncora, a voz da TV na Sapucaí entre 1985 até 1999. Mas, vamos ao que interessa e, de certa maneira, fica a dica para quem pedala pelas zonas urbanas, na selva de concreto. Um jornalista, que não lembro o nome, estava na Marquês de Sapucaí, a Estação Primeira de Mangueira no aquecimento, ao grande intérprete, a entidade Jamelão, o repórter pergunta: "Jamelão, como é que tá preparado, 83 anos, tantos carnavais nas costas, para 'cantar o samba' - como você prefere - como é que está esse ano?". Responde o sambista: "Tá tudo certo. É a mesma coisa do ano passado. Não tem nada de novo aqui." O repórter querendo dar uma de esperto pra cima dele: "Tá tudo igual (...) mas o senhor preferiu não ficar lá embaixo, veio cá pra cima". O Jamelão sem se abater, finaliza: "Malandro é o gato que come peixe e num vai na praia". Por um frame é possível ver, o repórter se vira para a câmera e em graça diz: "É a sabedoria popular de Jamelão, cheio de expressão, que vai agora cantar o samba aqui na avenida. Voltamos com Fernando Vanucci".

Fica aí a história! E na versão Web/PC d'O Ventríloquo é possível ver o trecho do vídeo logo abaixo:



terça-feira, 21 de abril de 2015

Chega de homenagens!

João Bosco e Aldir Blanc em idos dos anos 70 (Foto retirada de: http://oifm.oi.com.br/site/#!/noticia/musica/-comabocanomundo-bosco--aldir---tinhorao--tiros-de-misericordia)

Queria – e como eu queria – bradar aqui molhando a camisa de chope. Aquele gelado, com colarinho bem branco e espumoso. Bradar com punho firme, para o alto, e ao deixar o ouro líquido derramar, escorrer pelo meu braço esquerdo, o da força, o da escrita, o da datilografia e dos muitos lápis pretos Faber-Castell da infância, ser perdoado pelo melhor amigo no estilo “deixa disso”.
“Deixa dilson, Arnufo!”, ele diria em tom matreiro, já capenga, meio bêbado. Diria, eu sei que diria. Mas, só se existisse. Diria: “deixa dilso, para com nelso! Tudo há de melhorar!”. Mas, não!

No tempo real

Não visualizo os quatro rapazes, já mais velhos, de Liverpool na faixa, visualizo o horizonte profundo da foto. Eu era assim. Não sou mais. A verdade é que estamos diante da revolução da ignorância. Das ignorâncias. De todos os lados.

Por pura coincidência ou, talvez, com alguma explicação mais exata, ouço agora o belo disco Galos de Briga, de João Bosco. Lançado em 1976, posso afirmar que não foi por mero formalismo que na contracapa, belíssima, por sinal, a presença marcante do parceiro Aldir Blanc preenche aquela que foi, em minha opinião, uma das maiores parcerias entre poesia e música que já aconteceu no velho Brasil.

João Bosco e Aldir Blanc, em 1976, contracapa do Lp "Galos de Briga".

E também não é por mera coincidência ou demonstração de erudição que faço referência a esse poeta maior das nossas letras, Aldir Blanc que, com sua ironia de profeta das ruas, das esquinas, dos bares pé sujos, prostíbulos e extintas casas de sinuca, lançou, não seu melhor, mas o interessante e, para mim, atual Brasil Passado a Sujo: A trajetória de uma porrada de farsantes, em 1993. Tenho a primeira edição que, com um misto de orgulho e ego, comprei num sebo. E hoje, no tempo real, cito:

“Inflação, crise dos valores morais e espinha na bunda são coisas que fazem a gente refletir. Com o chazinho das crianças ameaçado (o leitinho acabou faz tempo), aceitei a proposta de um grupo de azerbaijanos dissidentes, radicados na Boca-do-Lixo, e cometi alguns roteiros para filmes pornográficos” (Roteiros, p. 29).

Eu ri. Tem gente que não rirá. Afinal, estamos diante de uma revolução das ignorâncias, já diria um amigo meu, por WhatsApp, já que deletei minha conta no Facebook. Mas, calma – ainda brado imaginativamente meu copo de chope no ar –, mais para frente, o velho Blanc, tranquiliza: “O roteiro seguinte visa uma faixa de público mais intelectualizada: Penetrações Estruturalistas” (Roteiros, p. 31).
Salve, Aldir. Chega de tantas homenagens! Eu quero é dedo na ferida. É nego – eu disse nego? Posso usar a expressão “nego”? – defendendo um não sei o quê de sei que lá, entende? São os olhos fechados para a impureza da água do volume morto. Da preguiça universitária, da Classe Média cada vez mais burra. De movimentos de minorias cada vez mais ignorantes ao discurso... É a revolução das ignorâncias. Tiradentes morreu de tédio.
Deusestásolto e essa é a merda! Mas... se prender deus é opressão!
Eu quero é botar o dedo nessa ferida aberta de veias já fechadas da América Latinas (“Nós canto-falamos como quem inveja negros/
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem” - Caetano Veloso). Eu estou é puto!

“Deixa dilson, vamos nelson!”.
 Uma profunda análise das letras de Galos de Briga extirparia Aldir Blanc do rol de poetas-profetas do Rio de Janeiro mais sujo, mas de todo subúrbio imundo e sem lei. Sujo e sem lei. Que juventude é essa? Burra! Dos dois lados: burra!
Imbecis!
E eu parado num eterno sinal amarelo! Atenção, atenção, o ataque vem dos moinhos de vento! Mas isso aqui está muito pop. Você não está em sintonia com as lutas dos negros e pobres e favelados.
Mas, antes de encerrar meu pileque imaginário. Minha revolta ordinária e sem escrúpulos de mimimi subversivo. Me permitam vocês duas histórias: uma minha e outra retirada, porém devidamente citada, do tal livro do mestre Aldir Blanc.
Quando em 2013, completei meus 30 anos, homem realizado, filho único e com sólida e monótona carreira em construção, ganhei de presente, lançado no mesmo ano, o livro de Luiz Fernando Vianna: Aldir Blanc – Resposta ao Tempo (Vida e Letras). Com sua capa vermelha e com um fundo de filme Kodak com fotos do Aldir, na contracapa vinha meu desabar, uma dedicatória com letras miúdas: “Com o abraço do Aldir Blanc”. Com as mãos trêmulas de alcoólatra em abstinência chorei na frente da atendente que me entregava a encomenda feita pela Internet. Chorei e ela teve a audácia da inocência ao perguntar: “Quem é esse tal de Aldir?”.
O segundo fragmento está no conto “Histórias da Zona Norte”, cito, pois citar é minha sina:
            “Acho o subúrbio mais criativo e interessante do que a Zona Sul. O sonho de status do sujeito que julga fazer um grande negócio, mudando de Vila Valqueire para a Duvivier implica num jogo de simulações e “finezas” sacais. Penso que a grossura suburbana é fundamental para que o Rio sobreviva com identidade própria, e não como periferia de Novióqui, como deliram os deslumbrados.
            Na minha infância, em Vila Isabel, éramos visitados por uma figura maravilhosa, o Ruço, mistura de faz-tudo e gozador. Ferrenho morador de Vila da Penha, subia no telhado para soltar pipa, agarrava no gol enquanto os meninos batiam séries intermináveis de pênaltis, contava histórias engraçadíssimas e tinha um hábito muito louvável e democrático: chamava todo mundo de Cagalhão.
            Uns vinte anos depois, eu estava fantasiado de médico, numa enfermaria psiquiátrica de quarenta leitos e oitenta pacientes seminus. Me sentia importante. Haviam colocado em minha precoce careca a auréola tipo “esse sujeito vai longe mesmo”. Eu trabalhava em ritmo de Chacrinha, estimulado pela retórica e pela ideologia do vai-para-o-trono-ou-não-vai.
            Bom, um belo dia, minha mãe me telefonou e disse:
            - O Ruço vai lá no hospital te procurar. Ele tem um amigo que acha o Simonsen o máximo.
            - Ué, mãe, e daí? Qual é o problema?
            Mamãe esclareceu:
            - Maluco, Aldir. Só pode ser pirado. Lelé da cuca.
            - Ahn!
            No dia seguinte, eu cintilava em meu jaleco rinso e cuspia bobagens sobre esquizofrenia com outros sábios, na sala dos médicos. Bateram na porta. Era o enfermeiro, avisando que um senhor queria falar comigo, parece que era parente meu. Fiquei emocionado. O Ruço! Vinte anos depois! Como será que ele, humilde morador da Penha, me veria no pedestal de esculápio? Tomado de uma condescendência criminosa, respondi com voz olímpica:
            - Deixa ele entrar, meu rapaz!
            Instantes depois, antecipando-se vinte anos a uma gíria atual, Ruço enfiou a cabeça risonho e franca dentro daquele santuário de intelectuais progressistas e diagnosticou na mosca:
            Oi, Cagalhões. A mala ta aí fora.” (p. 63 e 64).

Com a minha tulipa imaginária nas mãos, bradando – como eu queria! – me despeço: Adeus, Cagalhões! Adeus, para todos vocês! Pois chega de homenagens! Mas não posso resistir a essa bela fotografia do encarte do Lp Galos de Briga:


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

E o samba? Vai bem, obrigado!

Na última semana é inevitável não concordar que minha voz andou um tanto grave, medonha até. Isso andou preocupando os mais próximos.
Volta e meia me recordo da primeira vez que vi uma partitura na minha vida, a complexidade não me afastou, na verdade, foi a beleza de cada sinal, a forma como tudo se organizava que me apaixonou. Contudo, não sou um amante das partituras, creio que são um instrumento necessário ao músico, assim como as cifras, mas não creio que sejam essenciais às canções ou à forma de lançá-las no tempo.
O que quero dizer são duas coisas: a vida, a minha, a sua, a de todos nós, assim como numa partitura tem seus momentos altos e graves. Essa semana, tive meus graves, pois agudo demais também atrapalha. E a outra coisa é: o samba se concretiza no mistério – pense nisso. Meio solto aqui? Você entenderá!
Nessas notas graves da semana, percebi mais uma vez como se isolar não ajuda em nada, volto assim a minha tese sobre sermos todos “gente” – um dia explico o conceito de “ser gente”. Pois, confesso que se não fosse por algumas pessoas, hoje eu ainda estaria cantando grave, em clave de fá. Voltemos a de sol!
Por exemplo, nessa mesma semana grave a melodia também tocou bela. Sentei num pé sujo com alunos e travei uma agradável conversa sobre História, sobre a vida, sobre sonhos. Alunos agradáveis, divertidos e, assim como eu, críticos.
Fui jantar na casa de um professor amigo de departamento e lá conheci gente boa, dei grandes risadas, até cozinhei... Surpreendentemente, não falamos de trabalho, problemas departamentais, apenas de coisas corriqueiras da vida: saudade, casamento, amor, música e poesia.
Ontem, um grande amigo esteve aqui em casa e, talvez, seja ele o maior amigo que eu tenha aqui em Sergipe, segundo Ana: "seu anjo da guarda".
Carioca como eu, professor da UFS como eu, sabe das mazelas de estar longe da terra natal – veja bem, “terra natal”, pois aqui já é o nosso lar. Doce lar, sem dúvidas.
Como bom carioca, não veio de mãos abanando, trouxe cerveja e sobremesa e eu fiquei encarregado do almoço. Tarde incrível, ouvimos Spyro Gyra, vimos programas de humor, demos boas gargalhadas...
Um resfriado me pegou, pegou forte... talvez, graças aos graves da semana. E eu poderia estar na merda agora, bom, não estou! Rapaz, não é que estou até me sentindo feliz!
Volto, sem ter ido ainda, ao samba, pois, repito, ele se concretiza no mistério... Estou sem violão aqui em Aracaju, mas não estou sem flauta, então... Meu caro Gustavo, a melodia chegará no fim de semana para você harmonizar, a letra do samba eu registro aqui:

“E o samba...”

Ando querendo que o mundo saiba do meu samba triste em mi menor
Descrevendo os passos de alguém que no fundo não sabe ser bem melhor
Com o bumbo batendo no ritmo descompassado do peito
Vou chorando, sorrindo, sentindo o efeito
De estar só
De estar só
Por isso, eu grito para alguém ouvir
Eu canto para não sentir
Um eu menor
Ai que dó.
O sol também sempre brilha aqui
E brilha como brilha lá
De bar em bar tem mar
Mas olha só,
Eu sinto que ando em marcha-ré
Com essa tristeza que não me larga o pé
Eu vou tentar mudar
Pro tom maior
Eu vou tentar mudar
Para melhor
E o samba...


Aracaju, 31 de agosto de 2009 – 11:47 AM
Copyright © by Bruno Alvaro (Editora Retropleco)


Ps. A voz de hoje vai em homenagem ao grande Kimon Speciale, aniversariante do dia e que beberá todas no Rio de Janeiro, ao Thiago Porto, meu irmão da Tijuca que aniversaria amanhã e a todos vocês que me fazem lembrar do mistério do samba e buscá-lo sempre em tom maior!