ventríloquo
[Do lat. tard. ventriloquu.]
Adjetivo.
Substantivo masculino.
1.Diz-se de, ou aquele que sabe falar sem abrir a boca e mudando de tal modo a voz que esta parece sair de outra fonte que não ele.
E assim são os textos. Ao menos os que escrevo.
Eles têm várias vozes. Minhas várias vozes. Em tempo. Tempos nublados ou com sóis. Não há muito o que dizer sobre mim. O resto está aí. Várias vozes sem mover meus lábios. O ventríloquo.
É
evidente que não devemos falar aquilo que pensamos no instante que pensamos,
deve haver um filtro – provavelmente a Ciência já deva ter estudado isso no
nosso cérebro – que segure a junção das palavras até que forme uma oração.
Nota
mental: fluxo de consciência
é em Literatura, no fazer literário, resumindo didaticamente, o pensamento de
um personagem sendo descrito pelo narrador enquanto o pensamento ocorre, algo
assim. A escritora Virgínia Wolf tem muito isso em seus livros (ao menos é a
que li). Em nossa língua, posso dizer de carteirinha que o grande alagoano Graciliano
Ramos e o mineiro Guimarães Rosa, faziam como ninguém Fim da Nota mental
Voltando
ao que eu chamei de “fluxo de pensamento” – que é quase a mesma coisa que o tal
do fluxo mental. É preciso tomar cuidado com essa merda, se não você
acaba se tornando um presidente de uma república federativa, cuja Democracia
ainda é jovem demais e você se enrolará nos seus fluxos e refluxos, demorará a
responder e-mails, enfim, vai fazer merda. Por isso mesmo, se você me ouvir
bem, você aí que acha que está lendo, mas na verdade me ouve com sua própria
voz, me escute bem: há um lapso entre o que eu penso e o que eu falo. Um lapso
grande. Por isso contarei um causo. Gosto de causos em prosas.
O
Teixeirinha é um grande amigo meu, um dos melhores, dou meu braço esquerdo pelo
Teixeirinha e sou canhoto. Ele gosta de correr, acho que resolve lá seus
problemas correndo. Eu acho um saco correr. Mas entendo. Eu por sua vez,
pedalo. Hoje, segunda-feira, o dia mais temível da semana – sempre odiei
segunda-feira e curiosamente nasci numa – após os afazeres do trabalho fui
pedalar no rolo fixo com minha querida Prozac (uma Caloi Comfort 500, ano 2013,
modificada em suas peças de fábrica, original, só o quadro, os freios e as
rodas). Enquanto me preparava para começar meu exercício do dia, me veio à
mente o Teixeirinha e certa vez que ele esteve aqui em casa, fumamos muito
charuto e bebemos muita cachaça e ficamos analisando bateristas. Revimos uma
três vezes, talvez cinco, um vídeo de análise com partitura das levas de John Bonham, baterista do Led Zeppelin.
Teixeirinha,
assim como eu, teve aulas de música quando garoto e sabe lá seus solfejos.
Estudou clarinete. Mas diz que queria muito, muito aprender bateria. Curioso
que o primeiro contato que todos nós temos com a música, acho que todos, sem
sombra de dúvida, é com o batuque de alguma coisa, nem que seja com a testa no
chão. Eu por exemplo, história mais que verdadeira e foi o que levou minha mãe
a me matricular em aulas de música, é que quando vi o show do Nirvana, em 1993
pela TV e os caras quebrando tudo, pensei: “Putz, isso é rock!”. A coisa ficou
estranha em casa. A caixa estourou quando em 1996 comprei com minha mesada o Cd
“Roots” do Sepultura e comecei a juntar panelas e tampas, colheres de pau e
montei uma “bateria” e “ensaiava” quando chegava do colégio, lá por voltas das 13:00.
Minha mãe estava sempre dormindo, pois seus plantões nos Hospitais eram noturnos.
Não irei longe. Nunca fui baterista. Fui estudar violão e instrumentos mais “melódicos”
na mentalidade da minha mãe.
Se
você cresceu entre os anos 80 e 90 com certeza ouviu Phil Collins. Na sua
biografia “Ainda estou vivo: uma autobiografia”, Rio de Janeiro, Editora
BestSeller, tradução de Phellipe Marcel, 2018 [original: “Not Dead Yet”, de
2016), por sinal, baita livro, o músico no prefácio escreve duas coisas que me
marcaram muito e repito em voz alta o que li: “[...] como trabalhei! Se você
consegue se lembrar dos anos 1970, certamente não esteve em tantas turnês do
Genesis quanto eu, Tony Banks, Peter Gabriel, Steve Hackett e Mike Rutherford.
E se você se lembra dos anos 1980, peço desculpas por mim e pelo Live Aid.”
Algumas
linhas se seguem e ele finaliza o prefácio e já dá a dica que os compassos dos capítulos
que compõem o livro serão frenéticos, leio em voz alta, mais uma vez: “Fui
tocado pela morte quando meu pai faleceu, justamente no momento em que a
decisão de seu filho hippie de trocar uma vida segura por uma vida na música
começou a render frutos. Também fui atacado quando, no curto período de dois
anos, Keith Moon e John Bonham morreram, ambos aos 32 anos. Eu os venerava.
Lembro de ter pensado, na época: “Esses caras deveriam durar para sempre. São
indestrutíveis. São Bateristas.” Meu nome é Phil Collins, sou baterista e sei
que não sou indestrutível. Esta é a minha história.”.
Enquanto
eu pedalava, uma hora cravada, ouvia o primeiro disco solo do baterista que
virou cantor e que tem como pérola a frase: “I’m not singer who plays a bit of drums.
I’m a drummer that sings a bit.”
O
disco terminou. Como eu usava streaming, joguei para o EP da banda em que seu
filho Nic Collins é baterista e um grande baterista!
O
coração é ritmo. Pedalar é ritmo. Correr é ritmo. Caminhar é ritmo. Viver é
ritmo.
Mesmo que pareça,
isso não é uma resenha. Minha voz soa um tanto rouca – talvez pelo excesso de
sorvete de menta com chocolate ou mesmo por, em meio a pandemia de COVID-19,
lecionando remotamente do pequeno apartamento alugado, esquecer de beber água
enquanto falo sobre História Medieval para docentes em formação. Ontem terminei
após três dias as 591 páginas da edição em língua portuguesa publicada neste
ano de 2021 pela Belas Letras, Editora de Caxias do Sul, RS, com tradução de
Fernando Scoczynski Filho. Intitulado “Kurt
Cobain- Diários”, a leitura é pesada, afinal, são escritos retirados de
diários. A organização é interessante, mesmo que, enquanto historiador de
formação, eu esteja habituado com isso: de um lado os manuscritos –
fotografados/escaneados/fotocopiados, como queiram – e do outro a tradução à
nossa língua (não tenho conhecimento da edição original cujo título é “Journals”,
certamente, seguiu essa linha). Não quero falar com você sobre conteúdo. Kurt
foi um artista, mas acima de tudo: uma pessoa. Basta uma busca pela Internet e você
poderá ter suas próprias conclusões sobre seu trabalho musical – se bom ou ruim
– e, se se achar no direito, tecer suas conclusões vazias sobre a personalidade
de um jovem de 27 anos que se suicidou com um tiro de espingarda no queixo na
estufa de plantas de sua casa, em 1994. Eu ainda tinha 13 anos de idade e o show
do Nirvana um pouco mais de um ano antes, no Hollywood Rock, no Rio de Janeiro,
transmitido ao vivo por uma grande rede de TV, ainda era um forte impacto na
minha cabeça. Não, não é um trocadilho com o impacto do projétil na cabeça do jovem
Kurt. Nunca busquei fotos macabras da cena do suicídio e demorei muito para ler
na íntegra sua carta final (que, FELIZMENTE, não está presente na
publicação “Diários”.O que não deixa de
ter lógica, afinal, trata-se de uma carta de suicídio – não publiquem cartas de
suicídio, a Sociedade de Psicologia agradece, abutres. Tais documentos só têm
validade se manuseados – no meu ponto de vista – historicamente,
sociologicamente, antropologicamente. Como me esquecer do que senti numa aula
de História da antiga 7ª Série ginasial a carta-suicídio de Getúlio Vargas, a
frase de efeito: “Saio da vida para entrar na história” me assombrou durante
meses. Que ironia). Por sinal, um
parêntese, disse que sou historiador de formação, sim, é verdade e me veio na
lembrança uma pichação que li a caminho da faculdade, não lembro o ano, deveria
ser nos primeiros períodos, pois ainda ia de ônibus (depois meu pai me liberou
o carro): “É melhor queimar de uma vez a se apagar aos poucos”. A frase que se
tornou lendária, pois foi citada na carta deixada por Cobain, na verdade, é um
trecho de uma canção de Neil Young, chamada “My My, Hey Hey (Out Of The Blue)”.
Quem pichou o muro, ali, na altura da Praça do Canhão, em Realengo, Zona Oeste
do Rio de Janeiro, onde está a Estação de Trem, o pequeno viaduto, um complexo
de quarteis do Exército, casas de subúrbio e por onde passava meu ônibus Nova
Iguaçu X Bangu, talvez não tivesse essa informação sobre ser uma citação. Eu
não sabia. Soube quando no mesmo dia entrei no laboratório de informática da
Universidade, acessei a Internet e “descobri”. Fim. Como eu disse
– acho que você ouviu bem –, terminei ontem o livro “Diários”. Escolho mal
minhas leituras quando não estou bem psicologicamente. Já disse isso outras
vezes, eu sei. Sou repetitivo. Acho que já conversamos sobre isso a respeito d’O
Processo de Kafka. Diários são
materiais importantes. Eu tenho um diário. Não, O Ventríloquo não é um diário.
Por mais que possa parecer que eu reparta com você minha vida, são vozes que
sei imitar, vozes que sei colocar para fora sem que você perceba meus lábios se
movendo. É assim desde 2007. Mas, eu tenho um diário. Escrevo a mão. A capa é
linda. Ele foi feito artesanalmente pela Aline Viana, acho que ela tem uma
conta no Instagram chamada Miçanga na Praia e vende esse material. A arte dele
[o meu diário] é uma fotografia em sépia do Aldir Blanc com o João Bosco
tomando cerveja num botequim no Rio de Janeiro e na contracapa os dois de pé, foto
em preto e branco, na porta, acho, do mesmo botequim. Elas são do período de
lançamento do Lp Galos de Briga (1976). Ontem escrevi
nesse diário. Apesar de ser um diário, não escrevo diariamente. Mas como havia
terminado de ler o livro – do Kurt Cobain? Livro? – fiquei pensando nas últimas
páginas escritas, sobre vício em heroína, sobre o que viria ser o último
trabalho de estúdio do Nirvana, o Lp “In Utero” (1993), o impacto na mídia, sua
ira etc. Antes de dormir, ouvi via streaming o material. “In Utero” de fato é
um bom trabalho artístico, mistura bem o que foi o primeiro Lp “Bleach” (1989) –
meu preferido – com o que alavancou a banda para o cenário mainstream, o
conhecido “Nevermind” (1991). Tenho a discografia completa em Cd e alguns Lps
da banda. Em Cd as versões são todas remasterizadas e Delux, comemorações de 20
anos de lançamentos. Dei as edições antigas para amigos. No fundo,
numa sexta-feira como essa, numa sexta-feira de final de maio, 28, nem sei por
que estou conversando, falando. Talvez eu esteja meio zonzo ainda. Não sei.
Continuo. Sigo. Recordei-me,
ou encaixou melhor, a biografia que li da banda tempos atrás, escrita por
Michael Azerrad, intitulada “A História do Nirvana – ‘Come As You Are’”, tradução
de Júlio de Mattos, Editora Madras, 2008 [original de novembro de 1993, nos
Estados Unidos] e, também, o excelente documentário “Cobain: Montage of Heck”
(2015). Os
antidepressivos foram fazendo efeito no meu corpo. Ainda com certo tempo de
tirar os fones dos ouvidos após a audição de “In Utero”, fiz o download na plataforma
de streaming do show “Live and Loud” gravado pelo Nirvana no dia 13 de dezembro
de 1993 e cujo DVD minha mãe me presenteou na última vez que visitei o Rio de
Janeiro, em 2019. Fiz meu exercício matinal no quarto onde tenho estudados nos
últimos meses obras de Bach no piano da Roland e ouvi offline “Live and Loud” e
só parei de pedalar quando a última canção “Endless, Nameless” terminou. Ps. Como
comprei o livro em pré-venda no site da Belas Letras, recebi algumas
memorabilias como o manuscrito em folha separada da letra da canção “Lithium”.
Música número um no meu setlist de fã do Nirvana e se o post scriptum pode
ser mais longo, a bicicleta mais cara – no sentido monetário do termo – que tenho,
dada de presente em outubro de 2019 pelos meus pais, foi batizada justamente
com o nome da canção. Lítio é uma medicação ambulatorial para transtornos
mentais, como bipolaridade, por exemplo. Infelizmente, em determinando momento
da vida, tanto eu quanto minha mãe tivemos que ser tratados, não ao mesmo
tempo, é claro, com essa medicação.
Chove. 06:00AM. Ponto. Estou quase terminando os diários do
compositor e cantor estadunidense Kurt Cobain. 06:00AM em ponto, tive insônia.
Para dormir ou tentar me acolher nos braços de Morfeu resolvo ouvir dois cds
que me foram muito importantes, os dois do percussionista, compositor e cantor
(e às vezes ator de cinema) pernambucano Otto: “Samba pra Burro” (1998) e “Certa
manhã acordei de sonhos intranquilos” (2009).
Em meio a madrugada chuvosa, o ar-condicionado sempre em 20
ºC, enviei uma mensagem de texto compartilhando a canção “Bob”, faixa 1 do cd
de 1998 para meu primo Gustavo Gonçalves Alvaro, no Rio de Janeiro.
Prontamente, o que é raro, ele respondeu: “Caralho, moleque, estava ouvindo
esse cd anteontem”. De fato, em meados da década de 2000, íamos muito, ele, eu
e mais gente e pelas madrugadas nos sentávamos no fim da tarde na praia de Copacabana.
Copacabana assim como a Avenida Paulista: nunca dorme. Nós também não
dormíamos.
Clipe da música "Bob"
As músicas terminaram, o sono não veio. Os remédios devidamente
tomados. Seria talvez alguma ansiedade? O impacto da letra manuscrita de Kurt
Cobain em inglês escaneada de um lado e suas impressões angustiantes sobre si e
o mundo postos em minha língua materna? Lembrei do cd de 2009 do Otto. Ainda de
fones de ouvido o coloquei para tocar, como o ouviria mais tarde ou agora
enquanto vocês me ouvem quando acabei de pedalar dentro de um quarto pequeno em
minha bicicleta com pneus slicks aros 26. Caminho – não de um lado para o outro,
não chego a tanto – inevitavelmente por corredores de minha própria mente e
busco lá no fundo, não que eu não soubesse, que não fosse conduzido como numa
hipnose, já que eu havia escutado recentemente, e ouço como fã de carteirinha,
o programa do Canal Brasil e também transformado em podcast “O Som do Vinil” com o ex-baterista do Titãs e pesquisador musical
Charles Gavin, sua conversa com o Otto sobre o cd de 2009 e o impacto que essa
obra artística teve (não vejo outra expressão)... Enfim, o próprio Otto deixa
claro, o título do disco faz referência ao livro “A metamorfose”, de Franz
Kafka (Link do Episódio no Spotify).
Gosto muito da edição que tenho traduzida pelo Modesto Carone, cuja
edição publicada pela Companhia das Letras data de 1997. Em sua 22ª reimpressão,
de 2009, já amarela na estante e tirei a poeira para deixar como posfácio ao
que vocês não ouvem as frases kafkianas iniciais do livro e a primeira vez que
se ouve a voz de Gregor Samsa na narrativa (p. 7):
“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos
intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
Estava deitado sobre suas costas uras como couraça e, ao levantar um pouco a
cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no
topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas
numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do
corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
– O que aconteceu comigo? – pensou.
Não era um sonho. Seu quarto, um autêntico quarto humano, só
que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem
conhecidas.” Obs. Mantive tranquilo grafado como publicado na edição que
tenho em mão, naquela altura o famoso acordo da língua portuguesa ainda não
havia sido assinado. Linguiça era lingüiça, tanto quanto tranqüilos se
mantinham os porcos que hoje continuam tranquilos.
Eu sei que o momento é cuidadoso.
Pautas mais importantes preenchem nossa mente e seus parágrafos
microscopicamente são analisados pelos nossos olhos. Porém, me permito um
momento de distração nessa noite chuvosa em Aracaju e que está me remetendo à
minha velha Mesquita...
Às favas! Na verdade, comentar
política se tornou uma variável muito difícil de traçar. E como minha garganta
está coçando faz uns dias, querendo imitar alguma voz, emitir algum som, decidi
mudar um pouco o tom e cantar uma melodia que conheço bem.
Atualmente, um dos muitos – e descontroláveis
– problemas, presentes no cotidiano das grandes às pequenas capitais mundiais,
diz respeito à mobilidade urbana. O número de carros, por exemplo, numa pequena
capital como Aracaju, praticamente triplicou nos últimos anos. No nosso caso, isso
deve ser somado a um transporte público deficitário, sucateado, ruas totalmente incapazes
de receber todo o fluxo de motos, ônibus e carros e, claro, uma triste cultura
capitalista de bens: Ter um carro bacana,
do ano, expressa seu sucesso. O trânsito por aqui, não devia, mas é um caos
desordenado entre a falta de educação, típica dos motoristas brasileiros, e
ausência de espaço para todos.
Para não ficarmos correndo o risco
de nos prender ao local e eu correr um sério risco de ser taxado como
preconceituoso, tomem nota: mesmo uma cidade da região metropolitana do Rio de
Janeiro, como Mesquita, na Baixada Fluminense, serviria como exemplo categórico
do que estou tentando afinar com essa voz um tanto rouca. Ter um carro ou moto
por lá expõe a linha tênue entre “necessidade” e “status”. Têm-se sucesso se
não precisa pegar um trem, ônibus ou andar de bicicleta!
De fato, a questão é que no Brasil
há um grande atraso que, se observado frente aos seus vizinhos mais próximos e
grande parte do continente Americano e Europeu, podemos dizer, é até um
retrocesso na possibilidade de avanço – vide todas as manifestações contrárias
ao movimento de ciclovias, ciclofaixas e ciclorotas na cidade de São Paulo.
Ok, a esse último exemplo devemos
juntar a ojeriza pela sigla partidária do atual prefeito da capital paulista
que motiva, inclusive, agressões das mais esdrúxulas contra os ciclistas. De
todo modo, vale um exercício lógico, sem vestir vermelho ou amarelo: No Brasil,
tentou-se resolver o problema da primeira crise econômica, ou a possibilidade
de sua chegada ao continente tupiniquim, através do consumo frente produção. Os
carros, com seus ridículos IPI’s reduzidos – não quero entrar aqui numa complexa
análise do quanto somos lesados pelas multimilionárias fabricantes de
automóveis no nosso país e o quanto de impostos pagamos por um carro “popular” –
foram o principal bem de consumo adquirido no projeto petista daquele período.
A diferença frente os governos anteriores é que a renda, de fato, passou a ser
melhor distribuída, principalmente, entre aqueles que estavam à margem mas que,
claro, não puderam e ainda não podem comprar um carro.
Um exemplo confiável, que essa
relação consumo produção, no nível de automóveis, se limita, sobretudo, à
classe média: nos últimos anos, com exceção de dois ou três vizinhos (e eu), todo
o meu condomínio trocou de carro. Levando em consideração que são duas torres,
com doze andares e cada um deles com quatro apartamentos, tendo algumas
famílias mais de um carro e moto, faça suas contas.
A coisa toda, já sabemos,
desandou. Hoje, o número de endividados na classe média, seja a mais nova ou a
tradicional, é exorbitante. Tanto que numa primeira leva de crise (política)
foi ela quem ocupou majoritariamente as ruas e gritou, ignorando sua
manipulação via TV e Jornais, Igrejas Neopentecostais e os mesmos partidos de
direita de sempre: Fora Dilma! Fora PT! O
golpe foi escancarado, as panelas se silenciaram, as camisas da Seleção
Canarinho voltaram para as gavetas com naftalina e hoje as dívidas se mantêm.
Mais uma vez, a história, que não deveria se repetir, segundo Marx, se repete: a
classe média tradicional, e a reboque a nova, entrou pelo cano. O que isso está
relacionado com mobilidade urbana e, claro, minha relação pessoal com a bicicleta?
Mas louco é quem me diz que não é
feliz
Confesso que do meu escritório
posso ver um fio de paisagem que sei que guarda o mar lá no fundo. O bom é que
o constante céu azul da minha cidade me ilude que entre nuvens e carcarás, o
que eu vejo na verdade é o imenso mar.
Ao mesmo tempo, posso ver também a
chuva que vem fina da orla, se misturando às nuvens, acinzentando o azul...
Quando criança em Mesquita, eu
fazia tudo de bicicleta: escola, padaria, ir para o campo de futebol, igreja,
aula de música, casa dos amigos... Não havia uma rua, ladeira ou encruzilhada
em que eu e minha Monark não tivéssemos ido. Dos 11 aos 18 anos era assim que
eu me locomovia. Não havia na cidade ciclofaixa, ciclovia, nada disso. Era meio
fio e pulando calçada quando dava. Uma vez fui atropelado indo para a escola,
numa rua pacata, atrás do antigo Hospital São José. Fui socorrido pelo próprio
médico que me atropelou, não sofri um arranhão.
Vim morar em Aracaju por motivos
de concurso público, em 2009, e a primeira coisa que me disseram foi: compre um carro, o transporte público aqui é muito ruim. Realmente, era uma loucura
terminar as aulas às 22:30 e pegar o ônibus no campus sei lá que horas.
De qualquer maneira, foram as
ciclovias – não, eu não comprei um carro, mas ganhei um do meu pai – que mais
me chamaram atenção. Vindo da Baixada Fluminense, aquilo era quase um
sentimento de me ver criança em Paquetá nas férias de fim de ano. E Aracaju tem
isso, tem esse misto de cidade pequena com o caos urbano. Mas, é recheada de
ciclovias e ser ciclista aqui, andar de bicicleta aqui – tirando os dias de
chuva – não é um exotismo e há até reconhecimento nisso.
Quando vi a chuva de hoje e meus
afazeres completos, desci com a bicicleta sem pensar duas vezes. No térreo, só
pude ouvir um cochichar de alguém quando saí do condomínio: lá vai o louco da bicicleta. Sorri.
Enquanto o vento e a chuva
banhavam meu corpo, minhas pernas se molhavam nas poças e os pneus deslizavam
no asfalto, a sensação que eu tinha ao ver as pessoas se escondendo nas
marquises, nos pontos de ônibus, era de olhares que diziam: lá vai o louco da bicicleta.
Depois me dei conta que não era
preconceito ou reprovação, mas uma reação ao meu sorriso bobo, apesar do corpo
encharcado e imundo de lama. Sorri novamente.
O fato é que a cidade parou, não
por mim. Mas graças a chuva, as ruas alagaram, carros pararam, se chocaram nas
esquinas. Ao meu lado nas ciclovias, trabalhadores voltando da lida com suas
capas, certamente, mais sérios do que eu, mais responsáveis que eu, mas não
menos compenetrados em seus pensamentos do que eu.
A música soava nos meus fones –
talvez, eu nem precisaria dela –, cada piscada era um flash.
Eu disse certa vez e não volto
atrás, que ao andar de bicicleta me surge uma crônica por cada cruzamento e
sinal fechado, cada cheiro que eu sinto. Para as prostitutas nas esquinas que deságuam
a orla, para os travestis da Ivo do Prado, para os maconheiros da pracinha,
para as crianças nos brinquedos, para o pessoal do cooper e da caminhada, para
mim.
Ao mesmo tempo em que tudo me era
alegria e molecagem, pensei muito na mobilidade urbana e no quanto o Brasil
perde nas suas idas e vindas consumistas. Não se trata de ser “bicho grilo” ou “novo
hippie”. Como eu disse, tenho um carro, uso o carro e entendo bem a necessidade
de todos os que veem no veículo conforto e comodidade. Mas é fato consumado que
a bicicleta é mais barata e faz muito melhor a saúde que o frenesi do trânsito
cotidiano.
O que eu quero dizer, é que não
havendo extrema necessidade, deixo o carro de lado, aliás, me coço aguardando
essa oportunidade.
Não me lembro quando, mas uma vez
assisti uma entrevista de um músico paulistano chamado Curumin. Nela, ele
falava sobre uma composição sua intitulada Magrela
Fever. Eu já tinha o cd (Japa Pop
Show) e, evidentemente, gostava imensamente da música em questão. Porém,
quando ele explicou os motivos da canção, confesso que ela se sacramentou como
uma oração diária que antecede cada vez que monto na minha bicicleta e saio
pelas ruas da cidade, seja para passear, me distrair ou ir para o trabalho. Se
você me permite, transcrevo a fala:
Magrela Fever é uma música que eu fiz. É que eu gosto muito de andar de
bicicleta, gostava muito de andar de bicicleta na cidade. Assim... Em São
Paulo... Num certo ponto, a gente começa a procurar alternativas para escapar
da loucura das ruas, né?, do trânsito e tal. E foi uma alternativa que eu achei
e que além de me fazer bem, assim, de andar, de poder andar de bicicleta, eu
fugia desse trânsito maluco. Então eu estava tão feliz por conta disso, de ter
descoberto isso daí, que eu podia fazer percursos longos, ir pra casa, pro
trabalho, voltar, ir pro estúdio de bicicleta, que daí eu fiz essa música aqui.
Curumin, em cada verso, cada
frase, conseguiu expressar o sentimento tão profundo que é o de se sentir,
simplesmente: livre ao pedalar. Pode parecer loucura, mas não é.
E ainda hoje, para muita gente
desatualizada, a liberdade é uma loucura... Não para mim e, pelo visto, nem
para ele.
As
praias são o espaço mais democrático que existe (no Rio de Janeiro).
Esta assertiva, em algum momento, esteve ou foi ouvida saindo da boca de algum
carioca. E nas últimas semanas, quase há um mês, certamente, esteve mais em
voga no estado do Rio de Janeiro. Aliás, se retirarmos o parêntesis da frase,
ela pode ter sido ouvida pronunciada por lábios de sotaques diversos em
qualquer cidade litorânea do espaçoso, porém espremido, Brasil. Divagarei sobre
o velho Estado da Guanabara, pois há muito a dizer, mas seja puxando o x e o s,
seja dando bastante tônica ao t e ao d, não importa muito: AS PRAIAS, AQUELA
FAIXA DE AREIA COM INFINITO MAR, NUNCA FORAM DEMOCRÁTICAS!
Antes do funk carioca ter sido
descoberto pela classe média dos prédios com porteiros, antes mesmo de ter sido
descoberto como manifestação legítima de cultura por sociólogos e antropólogos,
ele já denunciava o apartheid vivido pelos excluídos e marginalizados de morros
e subúrbios de subúrbios do Rio de Janeiro. Aproximadamente, em 1991, quando a
fusão do Miami Bass com tambores tipicamente afrobrasileiros tomava de assalto as
rádios numa interessante batalha sonora, um disco conduzido pelo Dj Malboro
continha uma inteligente, humorística em sua tragédia de típica crônica e
certeira música.
Me refiro ao Melô do Farofeiro, faixa dois do Lp Funk Brasil 3. Observe que naquele tempo
ainda se utilizava o termo “Melô”, de melodia, antes do tema que seria
desenvolvido na canção. Ao mesmo tempo havia o “rap” disso e daquilo outro. De
pouco a pouco a coisa mudou. Mas, prossigo.
Na letra, que reproduzo, é possível
ler:
Quando vou à praia eu madrugo na estação
Prá esperar o trem que anda sempre lotadão
Embarco na marra, a viagem é uma barra
Por isso na praia sempre faço a maior farra
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
No bairro que moro o calor é muito alto
Sempre tem alguém fritando ovo no asfalto
Falta água, não tem sombra o jeito é ir pro mar
Mas é só pisar na praia e alguém vem me zuar
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Quando tô na praia deito e rolo na areia
Não tô nem aí se me olham de cara feia
Levo rádio, levo bola, frango assado prá comer
Levo farofinha que mamãe sabe fazer
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Antes de ir embora eu dou sempre um rolé
Piso na toalha, jogo areia na mulher
Vou do Leme ao Pontal, prá ver fio dental
Depois pego o buzú e dou calote na Central
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Em finais de agosto deste ano de 2015, a
Polícia Militar do Rio de Janeiro apreendeu, com sua típica truculência, um
expressivo número de jovens e adolescentes (apenas um branco) que estavam num
ônibus a caminho das democráticas praias da Zona Sul carioca (ver matéria
vinculada ao Jornal Extra).
Ora, como a letra demonstra em seu
humor crítico a “eugenia social” ainda o é como o foi. Exagerado eu? Que
sejamos exagerados quando a crítica recaia sobre os excluídos, amigos! Porém,
evitarei ser personalista recordando meus tempos infantis saindo de Mesquita
(antigo Primeiro Distrito de Nova Iguaçu) com meus pais, com frango e farofa no
isopor. Isso fica para um momento mais alcoolizado de minha parte. Mas, não posso
deixar de relembrar também da boa mortadela com pedaços de pimenta e pão
francês que com a boca salgada de água do mar parecia ter um sabor único quando
eu me sentava em alguma sombra de árvore na Praia do Flamengo para comer ou da minha cara cheia de farelo de Biscoito Globo sujando o banco do ônibus que nos levava da praia até a Central do Brasil para pegar o trem. Deixemos o personalismo de lado nessa conversa.
Todo o exagero violento da PM
carioca foi prontamente denunciado pelas mídias, movimentos sociais, arautos da
liberdade em suas poltronas facebookianas, locus da contemporânea revolução.
Prontamente, houve um recuo quase imediato das “forças de segurança” e o TJ-RJ,
após ação da Defensoria Pública, proibiu futuras apreensões (Ver matéria
vinculada ao Brasil Post).
Fim do impasse? A liberdade, típica
da democracia, venceu? Eu estava errado, as praias são sim os únicos espaços
que ainda podemos bradar com peitos inflados como local da ação prática da
democracia, cujo direito de ir e vir se manifesta diariamente? Não.
Nada mudou. O antes ainda o é.
E veja bem, confrade, você aí que
ouve ou tenta ouvir as múltiplas vozes desse velho e ultrapassado Ventríloquo... Você aí, ouça bem:
as praias nunca foram e não são democráticas.
Esse discurso de democracia praiana, nada mais é do que
uma sutil artimanha que colocaram, sabe lá Yemọja quando, em bom Yoruba, colocaram na nossa cabeça. A
questão, Rainha do Mar, é que seus filhos Ogum e Oxóssi vão continuar tomando
porrada no quengo de PM, com recuo ou não das apreensões.
Mas, todo exagero de violência emanada pelo Estado leva
automaticamente ao recuo, como eu já disse, do próprio Estado e esse recuo obrigatório cria estratégias
para os dominantes manterem a boa e velha dominação, uma vez que o Estado, atualmente, funciona evidentemente para um pequeno grupo dominante.
Numa “jogada de mestre” a
Secretaria Municipal de Transporte do Rio de Janeiro extinguiu nada mais nada
menos do que 22 linhas de itinerários que ligavam, alguns deles diretamente, as
Zonas Norte e Oeste à Zona Sul, fora alguns tradicionais bairros suburbanos que
emanam de forma profunda a alma, a verdadeira, carioca que também foram subliminarmente podados de seu acesso direto ao mar: Ramos (esse com seu piscinão), Olaria, Maré,
Jacaré, etc. (Ver matéria vinculada ao Jornal O Dia).
A polêmica mais uma vez está posta. Se haverá recuo? Não sei. A questão é que há tempos o Rio de Janeiro, enquanto
Estado e Cidade, sempre foi geograficamente separado e excludente em todos os sentidos, ora por cercas, ora pela
constante desigualdade. Não se trata aqui de considerar a não democratização da
praia, à despeito do que afirmam muitos, como um grosso modo, de que todo carioca do Baixo Leblon àquele que se
senta à noite na COBAL do Humaitá para beber um chope gelado é empinado e
excludente em seu discurso para com uma maioria que vive nos subúrbios e na Baixada, conheço muitos que não o são. Os olhares atentos de
porteiros migrantes nordestinos e a educação que seus ouvidos pacientes contra
o preconceito da aristocracia falida que ainda se esforça para tomar café no
Copacabana Palace, possibilitou uma sólida educação formal para seus filhos, hoje
professores em diversos segmentos, inclusive, universitários, médicos,
advogados ou mesmo outros porteiros de olhos atentos e ainda ouvidos pacientes para
todo o preconceito de uma classe média fodida, mas que, se tudo der certo e há
de dar, terão seus filhos nas cadeiras ao lado dos filhos dessa classe média
fodida em boas escolas públicas. Ou seja, a coisa não deu muito certo para a minoria preconceituosa da Zona Sul e essa Zona Sul atual, à parte das já tradicionais favelas coladas, é mais mista e bela do que eles queriam!
O próprio caro e contraditório
conceito de subúrbio, talvez, não sei, poderia ser repensado. As casas da Rocinha com
belas vistas para o mar ou as de outras favelas localizadas na Zona Sul
sempre foram um “subúrbio” lá do alto, mesmo com toda a violência provocada pela demanda por cocaína produzida pelos bacanas do asfalto. Sobreúrbio, talvez.
E sempre foram as
mãos e braços firmes de gente que viaja de Japeri até o Leblon ou que desce as ladeiras dos morros que mantiveram a força motriz e pulsante da cultura que se produziu e se exportou advinda da Zona Sul: Alguém lavava aos copos sujos de uísque do Vinícius de Moraes, não? Cartola, esquecido, foi redescoberto lavando carros.
As praias estão aí, cheias de coliformes
e garrafas PET, talvez, esse o melhor exemplo de democracia entre pobres e
ricos nas areias das praias cariocas. Porém, estes últimos, financiadores dessa “eugenia social” jamais devem
se esquecer que assim como somos todos pó (de cocaína até a terra com vermes e ossos), também somos todos merda boiando no glorioso mar de Yemọja. Somos todos nossa firme merda no mar.
Capa completa do disco Nursery Crime, 1971 - Arte de Paul Whitehead inspirado na canção The Musical Box
Onde você estava ontem? Escrevendo um poema? Compondo uma canção de amor? Colocando uma música na novela para embalar o casal de protagonistas e figurar no coração de casaizinhos de mãos dadas vendo o pôr do sol no Arpoador? Há alguns anos, exatamente numa sexta-feira, num dia 11 de dezembro de 1998, eu não sei onde eu estava, eu não sei o que eu fazia. Acordei hoje com isso na cabeça: se eu pudesse voltar para que lugar do tempo eu iria? Hoje é dia 11 de dezembro e também é uma sexta-feira. Para que lugar do tempo eu iria? Que canção eu estaria ouvindo? Quero uma canção de amor que me faça acreditar que os casais se sentarão para ver o pôr do sol. O que eu fazia ontem? O que você fazia ontem? Eu vi o pôr do sol da janela do meu apartamento em Aracaju e qual foi minha canção de amor? O que faz uma canção de amor, meu jovem? Apenas uma canção de amor, dessas que a gente ouve e diz: “essa é a nossa música...”; “Acabou de tocar nossa canção...”; “Essa é a nossa canção para sempre...”. Quantas músicas vocês tem? Em que lugar no tempo estão as canções de amor? Melhor: o que caracteriza uma canção de amor? Isso é curioso. Agora pouco, estava ouvindo o disco Nursery Crime do Genesis... é de 1971, eu nem sonhava nascer. Porém, acho fantástico como as sete canções desse trabalho me chamam atenção. Me despertam os sentidos. Cada uma delas. As letras ou fragmentos delas soltos são utilizados por mim, quase no cotidiano como que para ver o pôr do sol no Arpoador. Ou mesmo caminhar na pista Claudio Coutinho, apelidada carinhosamente pelos cariocas de “Caminho dos Bem-te-vis”. Levantei cedo e coloquei o álbum para tocar. De cara The Musical Box abre o disco, inclusive, inspira a capa do álbum feita belissimamente pelo artista Paul Whitehead. Letra forte, pesada. Durante todos os dez minutos e vinte nove segundos o que ouve-se são riffs de guitarra certeiros. Uma bateria massacrante do Phil Collins faz mais que marcar o ritmo. A voz rouca do Peter Gabriel, sua interpretação de cada verso. Aquele inglês inglês, entende? Os teclados do Tony Banks, enfim, não tem como definir. Essa música se encerra com umas das estrofes mais surpreendentes da minha pobre audição anglo-saxão:
I've been waiting here for so long And all this time that passed me by. It doesn't seem to matter now. You stand there with your fixed expression Casting doubt on all I have to say. Why don't you touch me, touch me? Why don't you touch me, touch me? Touch me now, now, now, now, now...
Traduzindo, ficaria uma coisa mais ou menos: “Estive esperando aqui há tanto tempo/ E todo este tempo me passou/ Nem parece que importa mais agora/ Você em pé aí com esta expressão fixa/ Duvidando em tudo que tenho a dizer/ Porque você não me toca, me toca?/ Porque você não me toca, me toca?/ Me toque agora, agora, agora, agora, agora...”. Aí é que está. A força da estrofe, a forma como Steve Hackett toca o riff final. Peter Gabriel gritando: Touch me now, now, now, now... Me dá uma angústia maravilhosa. Me dá vontade de correr e ver o pôr do sol. Não vou contextualizar a letra, pois a parte que me cabe é essa que citei e quem faz as canções de amor somos nós. Ontem a recitei para mim mesmo, com voz rouca e pesada, quase como um mantra, palavra por palavra: “I've been waiting here for so long/ And all this time that passed me by./ It doesn't/ Seem to matter now./ You stand there with your fixed expression/ Casting doubt on all I have to say./ Why don't you touch me, touch me?/ Why don't you touch me, touch me?/ Touch me now, now, now, now, now...”. Hoje fiz isso de novo e após recitar a letra, fui caminhar no Parque da Sementeira ouvindo o mesmo Nursery Crime de ontem e de amanhã e de 1971. Nas frases finais de The Musical Box, confesso, gritei: “Why don't you touch me, touch me?/ Why don't you touch me, touch me?/ Touch me now, now, now, now, now...”. Acho que as pessoas riram, acho que outras não entenderam... Mas eu precisava, eu precisava. Eu precisava ver um pôr do sol já de manhã. Não há definição nessa vida para algumas coisas. A gente fala, fala. São apenas devaneios. Agora pouco, questionei um amigo, via MSN, quando chamado para ir a um show com ele na Rua da Cultura, na segunda-feira próxima: “O que faz a gente transformar um disco como Nursery Crime em trilha de amor? Será que estou triste? Será que estou tão deprimido que The Musical Box, falando sobre uma menina que mata um amiguinho, arrancando sua cabeça com um taco, pode se tornar uma canção de amor? E que amor é esse?”. Ele ria. De repente, analisei mais plenamente: “Rapaz, eu estou é muito feliz. Isso sim! Pois, fazer um disco como esse de trilha de amor, e o pior, entendendo as letras, tem consciência de que elas não falam de amor, e transpor isso para o meu amor... Eu estou é muito feliz. Aliás, somos nós que fazemos nossas trilhas de amor!”. Alguém aí tem uma canção de amor melhor que a minha?
Este texto é cuidadoso. Deveria ser alocado no Retropleco, porém, ele já foi nascendo num tom meio diminuto, acabou caindo aqui n’O Ventríloquo e aqui ele ficará! Sem contar que, coisas da vida, quando pensei em atualizar o Retropleco, o caríssimo Aquino Neto fez isso por mim e com um ótimo texto, aconselho a visita! Mas vamos em frente... Mais do que uma conversa que poderia ser regada por um bom vinho e com a vista do mar lá longe, minha voz de hoje tem um simples objetivo: falar sobre aquele tipo de música que toca fundo nossas almas. Que pode ser trilha sonora para uma boa noite ao lado do seu amor!
Este é o caso do trabalho da contra-baixista Esperanza Spalding, mais especificamente, seu segundo álbum, intitulado Esperanza, lançado em 2008. O disco já se abre para o mundo de maneira magnífica: Ponta de Areia (ótima composição de Milton Nascimento e Fernando Brant) voa na voz suave da instrumentista, compositora e cantora norte-americana. A menina, nascida em Portland, no Oregon, em 1984, tem aquele swing jazzístico impecável que, me perdoem a comparação, pois é ousada e, talvez, desmedida, lembra um pouco Diane Schuur, apesar desse daqui achar que ela vai mais longe (e essa comparação se dá apenas em algumas canções e dependendo do tom da música). Esperanza não é só uma ótima contra-baixista, ela tem boa voz e até que canta bem no nosso bom e velho português. O “menina” é porque é menina mesmo! Mas a trajetória, cá para nós, é de medalhão do jazz. Professora mais jovem da história na famosíssima Berklee College Of Music (só perde, se não me engano, para o prodígio da guitarra Pat Metheny. Que me perdoe o grande Pat, mas sou mais ela, que beldade!). Em 2008, Esperanza Spalding foi considerada pela revista Down Beat como a melhor contra-baixista acústica em ascensão! Não é mole não, meu irmão! Seu segundo trabalho, o primeiro data de 2006 e se chama Junjo, tem umas levadas impressionantes de baixo acústico (Body & Soul, cantada em espanhol, exemplifica bem o que estou dizendo), sem contar, que todo mundo sabe que baixo acústico quando não é bem tocado se torna chato e você pode ter certeza, isso não acontece em Esperanza. É swingado (ver, por exemplo, I Know You Know e If That’s True), com harmonias belíssimas (Fall In e a já citada Ponta de Areia, para mim, uma das melhores, vale uma garrafa de tinto de primeira). Mas se você quer aquele jazz mais jazz, aquela coisa, início de noite, vestido vermelho, roupa nova, sexta-feira, te sugiro pensar em sair com a esposa ou o esposo para jantar ouvindo antes She Got To You! Na volta para casa, aconselho a compra de uma garrafa de vinho tinto suave no caminho, abrir a porta para a amada (no caso das meninas, uma bela lingerie) e colocar para tocar Love In Time – a noite começará a aquecer e por que não uma dança na sala? Ô meu Deus do Céu! Bom, a noite vai indo e o sol querendo chegar, mas a gente adia o amanhecer! Já imaginaram as possibilidades, não? Bem, eu faria muita coisa e quanta coisa! O disco fecha como uma madrugada bem aproveitada: Samba em Prelúdio, ótima composição de Baden Powell e Vinícius de Moraes.
Mas se você é apenas um solitário, tudo bem, há espaço para seu estilo de vida por opção ou situação e, nesse caso, é uma sugestão bem tranquila: Aquela garrafa de vinho pode ser esvaziada na companhia da própria Esperanza Spalding e que companhia, hein?! Sente-se no sofá ou numa poltrona confortável, deguste seu vinho, acompanhe o encarte do Cd e aprecie o belo rosto dessa lindíssima negra! E todo mundo sabe que disso eu entendo! Está aí mais um charme da música de Esperanza Spalding: sua beleza em todos os sentidos. Claro que gente feia também faz música bela e o inverso também é verdadeiro. Mas valei-me Deus, a mulher é linda! E toca um contra-baixo que sei não, aquele swing ali deve se prolongar noite adentro depois do show!
Brincadeiras sérias à parte. Vale o investimento o trabalho dessa moça. Até tentei baixar algum video pelo Youtube para ilustrar seu talento musical, mas deu erro, seguem dois links que aconselho uma olhada atenta: Esse é uma montagem interessante com belíssimas fotos e ao fundo Ponta de Areia, na versão do Cd, tocando: http://www.youtube.com/watch?v=e9sN3ySkkz0&feature=fvw
Esse é uma apresentação ao vivo no Brasil, no Tim Festival, acompanhada pelo grande Chico Pinheiro, que tocou um tempo com Pedro Mariano, e que estudou na Berklee College Of Music, assim como Jair Oliveira e alguns outros artistas jovens como ele. Inclusive, não é de hoje que músicos brasileiros se graduam na Berklee, temos o caso do ótimo Victor Assis Brasil e o impecável baixista Zeca Assumpção: http://www.youtube.com/watch?v=nUcvLtTp9d0
Eu vou ficando por aqui, pois a madrugada já se foi para mim e é solitária como eu, por pouco tempo, é claro! Um brinde! E se possível, para você, com Esperanza, pois, morra de inveja: Eu já tenho a minha! E pode não tocar contra-baixo acústico, mas faz jorrar música e poesia da minha alma!
Não é para se preocupar camarada, mas, o papo de hoje não é no botequim, não há cervejas geladas na mesa, chope com o colarinho cremoso. A prosa não se desenrolará madrugada adentro, com garrafas e mais garrafas de vinho espanhol colorindo a conversa e as lembranças. Ao invés de samba no ouvido, é The Beatles que estou ouvindo, especificamente, Let It Be que, na minha humilde opinião, talvez, por ser um dos mais problemáticos, é um dos melhores, para mim: o melhor. Também não vou fazer propaganda de remédio genérico, a fotografia (tirada na minha cozinha agora pouco), apenas ilustra meu estado atual de saúde. Não, não é gripe suína, já fiz o exame, rios de dinheiro correram da minha conta. No fim das contas, o que faz falta mesmo é a comidinha da mamãe e seu cuidado, mas... Paciência! Os genéricos são porque, desde que começou essa onda, minha mãe – que é enfermeira – sempre preferiu comprar remédio pela fórmula que pela marca. Ainda não me derrubaram. Estamos na luta! Uma tosse maldita atrapalha meu sono, minha voz – que sempre foi rouca – está uma coisa meio Darth Vader. Minha cabeça dói e sei que não é chifre! Meu humor está abalando. Nem um vinhozinho sequer posso degustar. Domingo que vem viajo para o Maranhão, espero melhorar antes. Tudo isso, esses eventos que já duram uma semana, mais ou menos, apenas me fizeram pensar o seguinte: o corpo já não responde. “Ô papo de velho!”, me diria você, nem isso, respondo eu. A questão é: quanto mais maltratamos o corpo, mais frágil ele fica. Está certo que nunca fui um louco varrido, porém, noites em claro (várias e várias), livros e mais livros depois, sereno, poesia e música no exagero noturno deixam a gente assim. Que saudade da preta, com ela em casa eu ia sossegar mais e se não, ao menos, uma coisa é certa, teria alguém para cuidar de mim – cafuné, às vezes, é o melhor remédio! O bom é que ando dormindo cedo, ficando mais na rede da varanda aqui do apartamento, emagreci um pouquinho, dei ar ao meu fígado, e estou lendo um pouco mais do que de costume. Enquanto o fígado suspira aliviado, agora é o estômago que resmunga uma dorzinha aqui e outra acolá. Esse excesso de antibióticos, drogas e afins, está esmagando o coitado. E olha que há tempos ele não se manifestava. Não é, simplesmente, saudade do Rio de Janeiro, da família, nada disso, isso já acostumei, a questão é: Quando o corpo já não responde. Aí fica um pedido, parceiros: caso eu demore demais a atualizar o papo, dêem uma ligada aqui para casa, peçam ao porteiro para dar uma interfonada para mim, e se caso um cheiro estranho emanar por debaixo da porta do meu apê: fodeu, apodreci e vocês nem viram!? Sacanagens a parte, nada vai me derrubar agora, ops, tropecei. Bom, vamos à luta, pois, no fim das contas, a vida é the long and winding road.
Estava aqui pensando no que falar, quando, de repente, me deparo com meu grande amigo Douglas Cezário no MSN e dá-lhe perguntas: “Como vai o Rio de Janeiro?” “Está chovendo, está sol?”... Só para pontuar bem o contexto, conheci o Doug, lá pelos idos de não sei quando. Me lembro que eu estava num sítio, em Xerém-RJ, que pertencia a PIB de Presidente Juscelino (igreja que minha família fazia parte, na verdade, ainda faz) conversando com o Bruno Henrique Louroza, amigo de mesma congregação, ele me falou de um carinha da PIB de Mesquita que cantava pacas e tocava razoavelmente mal (ele vai ficar uma arara, mas... apesar de ter estudado vários instrumentos, Doug sempre foi enrolado com as notas e acordes)! Me disse que esse cara estudava Zootecnia no Colégio de Aplicação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e tava precisando de um baixista para tocar com ele num festival de alunos de lá. Balancei a cabeça e fui jogar bola. Na época, pasmem, eu cursava o último ano do 2º Grau em Administração de Empresas! Não me lembro bem porque eu estudava aquilo, mas já me preparava para o vestibular em Sociologia na UERJ. Semanas depois, me lembro de estar dormindo em casa quando bate no meu portão o Bruno Henrique com o fusca do avô dele (eu tinha 15 anos na época e ele 16), me dizendo para pegar um caderno pautado (caderno de partitura) e ir com ele até a PIB de Mesquita, mas tinha que ser rápido, pois, para o avô dele, Bruno estava lavando o carro na frente de casa! Ainda não entendi o motivo do caderno de partitura, já que ninguém lia merda nenhuma! Ainda meio zonzo, coloquei uma bermuda e entrei naquele carro marrom sem entender muita coisa, mas aventura é aventura quando se tem 15 anos e pegar o carro do avô emprestado, um fusca de único dono, o avô do Bruno, e que foi comprado zero quando ainda era carro de rico (no tempo da vovó virgem), era aventura das boas. Fomos nós para a PIB de Mesquita – ah, vale lembrar, meio tardiamente nessa altura da prosa que PIB é a abreviação de Primeira Igreja Batista. Ou seja, é a primeira igreja fundada no local. Assim, no município de Mesquita tínhamos várias PIB’s nos diversos bairros, eu e minha família e o Bruno Henrique (indo e vindo entre a PIB de Mesquita) pertencíamos a do bairro de Juscelino Kubistchek. Encontrei Douglas Cezário, jovem alto e magrelo, com sorriso grande e voz engraçada sentado esperando. Nos apresentamos: “Esse é o Bruno Alvaro” disse o B. Henrique. Influências para cá e para lá, similitudes. Me mostrou duas canções, lembro de uma ou pelo menos do refrão: “linda, rosa, flor...”. Eu ri. Mas gostei da voz dele. Puta voz aquela, uma coisa soul music que eu ainda não tinha ouvido de um garoto da nossa idade, apesar dele ser um pouco mais velho que nós, um, dois anos, talvez. Mas lembro que já tinha carteira de motorista e pegava o carro do pai de vez em quando para andarmos por Mesquita... anos depois ganhou de presente um Chevette hatch que era a alegria da galera! Mas voltando ao papo... Explicou o motivo do convite. Precisava de um baixista que tocasse com ele e nosso amigo em comum na UFRRJ no dia seguinte. Aceitei. Eu havia estudado violão com o professor de teclado dele, o Renato, havia um certo conhecimento do que a garotada das igrejas Batistas andavam fazendo, eu já tinha ouvido falar dele, talvez, já tivesse ouvido falar de mim. Fizemos o arranjo. Ensaiamos uma vez apenas. Dormi na casa do Bruno Henrique e o encontramos na manhã seguinte para pegar o famoso ônibus da empresa Ponte Coberta: Nilópolis X Seropédica. Viagem longa, muito longa! Era a primeira vez que eu ia na UFRRJ, anos mais tarde, já mestrando, participei de uma Anpuh regional lá, 2008, e me lembrei com carinho daquele dia de música estudantil. Ganhamos o 2º e 3º lugares. Muitos anos depois, eu contando para Ana, minha futura esposa, qual não foi a surpresa? Ela conhecia a história através de um amigo que havia estudado no Colégio de Aplicação com o Doug e estava lá no dia! Coisas da vida! O resto é história! Foram muitos sábados e domingos carregando amplificador, caixas, guitarras e pratos! Entrei para a universidade um ano depois, Sociologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, acabei desistindo após alguns meses e indo cursar História, foi a primeira decisão correta na minha vida, a primeira de muitas! Douglas entrou um pouco depois para Biologia, escolha natural. Gostava da área, era bom naquilo, havia feito um bom 2º Grau, numa boa escola... Como eu disse: o resto é história! Certo dia, eu estava passando um final de semana em Paquetá com Ana e resolvemos pegar a barca e atravessar a Baia de Guanabara para ver no extinto Palácio (cinema de rua maravilhoso no Rio de Janeiro que acabou sabe Deus por qual motivo), Batman – O Cavaleiro das Trevas. Quem eu não encontro lá, com uma nova namorada? Um papo rápido e ele diz que tem algo importante para contar... No fim da sessão, na pressa de pegar a barca para voltar à Paquetá, ele me puxa rapidinho pelo braço e diz: “Vou ser pai, meu caro... de gêmeos!”. Fiz uma cara de surpresa... Ele riu, aliás, nunca vi o Douglas puto com alguma coisa! Sempre sorrindo para tudo e para todos! Vê sempre o lado bom das pessoas e das coisas. Levando em consideração que os rebentos eram com uma antiga namorada e ele, como sempre, já estava com outra: à procura do amor, como ele mesmo sempre dizia! Dia desses, me vem ele dizendo que está namorando uma prima minha: “Cara, sou teu primo!”... E eu: “que merda, Doug!” como sempre ele deu aquele riso gostoso e aberto... “Pois é, meu caro, estou namorando a tua prima!”. Mais um tempo se passa e hoje de madrugada vem ele: “Minha irmã casa sexta-feira!” e eu: “E você casa quando com a minha prima?” imagino que ele tenha rido antes de escrever a resposta no MSN: “Bom, estou pensando em daqui a três anos...” pensei comigo na hora, como um estalo: “Acho que crescemos, ele já pensa em casamento...!”.
Abração Doug! Ging véi!
Ps. A voz de hoje, evidentemente, foi em homenagem a esse cara super gente boa, pai de gêmeos (que não, não são filhos da minha prima). Bom pai. Professor de Biologia do Estado do Rio de Janeiro. Grande conhecedor de Botânica, maravilhoso cantor e grande contador de causos! Claro, meu amigo!
Ps. 2 A foto é de 2007, eu tinha acabado de entrar no mestrado e ainda achava que daria para equilibrar pesquisa, vida de professor e música em grupo! O que, é bem observável: não aconteceu, né?
Na última semana é inevitável não concordar que minha voz andou um tanto grave, medonha até. Isso andou preocupando os mais próximos. Volta e meia me recordo da primeira vez que vi uma partitura na minha vida, a complexidade não me afastou, na verdade, foi a beleza de cada sinal, a forma como tudo se organizava que me apaixonou. Contudo, não sou um amante das partituras, creio que são um instrumento necessário ao músico, assim como as cifras, mas não creio que sejam essenciais às canções ou à forma de lançá-las no tempo. O que quero dizer são duas coisas: a vida, a minha, a sua, a de todos nós, assim como numa partitura tem seus momentos altos e graves. Essa semana, tive meus graves, pois agudo demais também atrapalha. E a outra coisa é: o samba se concretiza no mistério – pense nisso. Meio solto aqui? Você entenderá! Nessas notas graves da semana, percebi mais uma vez como se isolar não ajuda em nada, volto assim a minha tese sobre sermos todos “gente” – um dia explico o conceito de “ser gente”. Pois, confesso que se não fosse por algumas pessoas, hoje eu ainda estaria cantando grave, em clave de fá. Voltemos a de sol! Por exemplo, nessa mesma semana grave a melodia também tocou bela. Sentei num pé sujo com alunos e travei uma agradável conversa sobre História, sobre a vida, sobre sonhos. Alunos agradáveis, divertidos e, assim como eu, críticos. Fui jantar na casa de um professor amigo de departamento e lá conheci gente boa, dei grandes risadas, até cozinhei... Surpreendentemente, não falamos de trabalho, problemas departamentais, apenas de coisas corriqueiras da vida: saudade, casamento, amor, música e poesia. Ontem, um grande amigo esteve aqui em casa e, talvez, seja ele o maior amigo que eu tenha aqui em Sergipe, segundo Ana: "seu anjo da guarda".
Carioca como eu, professor da UFS como eu, sabe das mazelas de estar longe da terra natal – veja bem, “terra natal”, pois aqui já é o nosso lar. Doce lar, sem dúvidas.
Como bom carioca, não veio de mãos abanando, trouxe cerveja e sobremesa e eu fiquei encarregado do almoço. Tarde incrível, ouvimos Spyro Gyra, vimos programas de humor, demos boas gargalhadas... Um resfriado me pegou, pegou forte... talvez, graças aos graves da semana. E eu poderia estar na merda agora, bom, não estou! Rapaz, não é que estou até me sentindo feliz! Volto, sem ter ido ainda, ao samba, pois, repito, ele se concretiza no mistério... Estou sem violão aqui em Aracaju, mas não estou sem flauta, então... Meu caro Gustavo, a melodia chegará no fim de semana para você harmonizar, a letra do samba eu registro aqui:
“E o samba...”
Ando querendo que o mundo saiba do meu samba triste em mi menor Descrevendo os passos de alguém que no fundo não sabe ser bem melhor Com o bumbo batendo no ritmo descompassado do peito Vou chorando, sorrindo, sentindo o efeito De estar só De estar só Por isso, eu grito para alguém ouvir Eu canto para não sentir Um eu menor Ai que dó. O sol também sempre brilha aqui E brilha como brilha lá De bar em bar tem mar Mas olha só, Eu sinto que ando em marcha-ré Com essa tristeza que não me larga o pé Eu vou tentar mudar Pro tom maior Eu vou tentar mudar Para melhor E o samba...
Ps. A voz de hoje vai em homenagem ao grande Kimon Speciale, aniversariante do dia e que beberá todas no Rio de Janeiro, ao Thiago Porto, meu irmão da Tijuca que aniversaria amanhã e a todos vocês que me fazem lembrar do mistério do samba e buscá-lo sempre em tom maior!
Não. Ao contrário do que possam pensar os desavisados de plantão, não falarei sobre cinema ou afins. Tampouco, a presença da paráfrase do conturbado personagem Capitão Nascimento do, não menos conturbado, Tropa de Elite, é para que eu fale hoje sobre um fenômeno que a arte em todos os seus âmbitos produz: ídolos e, conseqüentemente, mitos. Pegarei carona na calda de cometa e mesmo um tanto atrasado falarei do finado da vez: Michael Jackson! Claro que eu poderia reservar um espaço para a belíssima Farrah Fawcett, uma das Panteras originais, que faleceu no mesmo dia 25 de junho de 2009 do King of Pop (não há dúvidas sobre o título), mas o aço brilha no escuro. A questão, entre tantas, que muitos tentam responder é: o que levou Jackson ao fim? O tempo, diria o velho. O dinheiro, diria um pastor. As drogas, o puritano... Eu digo que foi você! De certa forma, eu também. Apesar de nunca ter comprado um disco do artista e, muito menos, ter pertencido à geração que ele cativou com passos como o moonwalk. Sim, sim, joguei no Megadrive o jogo que era fruto do filme, etc. Mas sem hipocrisia não me considero influenciado pela atuação do homem que revolucionou muita coisa no meio do entretenimento. Foi você! E somos nós que financiamos essa merda! Calma, calma, não estou dizendo que a arte é uma merda! Opa, de maneira nenhuma! A arte é necessária, afinal, o que seriamos nós sem a arte? Sem uma forma de expressarmos de maneira material o que sentimos? Seja com palavras, sons, imagens, enfim, a arte é necessária! Mal é o que fazemos com aqueles que se arriscam a expressá-la. Mal foi o que fizemos com o Michael Jackson. Não, não foi ele quem se deteriorou, fomos nós que o deixamos a mingua. É engraçado conversar com uma pessoa que é fã de algo ou alguém. É engraçado mesmo. Pois a pessoa não consegue ver além de um palmo do seu nariz. Ele mudou a minha vida... ouvi isso um dia depois dele ter morrido. Retruquei: mudou no que? Te fez melhor?! Claro, claro, ele era um gênio... para finalizar, simplesmente, perguntei: Você tem algum disco dele? Comprou alguma coisa dele? A resposta vocês devem imaginar... Lógico, para tudo há justificativas. Mas a frase da conversa, se é que foi uma conversa foi, após um comentário meu de que não precisava dar tanta repercussão a morte dele, pelo menos equilibrar com outras notícias como: “Cresce o número de casos da nova gripe no Brasil” ou “Mais um escândalo no Senado...”: Ele era um artista, ele era diferente!. Meu Deus! É verdade, ele era diferente, eu sou diferente. Você aí do outro lado, você faz o que da vida? Você é gari? “Ah, você não é importante não...”. Você participou durante semanas do resgate de corpos e destroços do vôo da AirFrance? “Caiu algum avião?”. Pois é, é da natureza do ser humano colocar outros seres em pedestais, como que acima do bem e do mal, das leis da física. Isso é histórico. Filosófico. Metafísico e sei mais lá o que! Você nasce com um dom e pronto: fudeu! Mas tem a sorte também, né? O garoto joga um futebol ali na rua e pronto: fudeu! É sua dádiva e sua maldição. Uma coisa bem resumida no Homem-Aranha. Eu realmente, sinceramente, não acho que idolatrar outro ser humano como eu seja a saída para os problemas do mundo, ao contrário... Michael Jackson, o que aconteceu com Michael Jackson, é a triste conseqüência de uma realidade que cerca as pessoas que possuem um simples talento. Se você é médico, professor, gari, sim, você também está sujeito a isso, talvez, em proporções menos desastrosas, mas está! Uma vez falei por aqui sobre o Sr. Jackson (http://oventriloquo.blogspot.com/2008/10/o-que-um-padro-de-beleza.html) e só agora me dei conta que a calda de cometa que peguei hoje, eu já havia agarrado um tempo atrás! Nossa! Eu sou um gênio... Fala sério! Ao som, no inverno carioca, do ótimo disco Durante o Verão, do grupo A Barca do Sol, no último dia de minha rápida visita ao Rio de Janeiro... Não estou dizendo? É você, é você... é você quem financia...
A vida tem algumas incógnitas. A minha tem umas que não sei analisar e, conseqüentemente, não sei responder. Uma auto-análise rápida me permite afirmar que sou uma pessoa sensível em alguns pontos e fria em muitos outros: Não tenho medo da morte (da minha, nem dos outros); creio em Deus até o ponto em que isso não atinja um estancamento na minha vida; não acredito no ecumenismo em nenhum sentido; choro muito e por coisas variadas. Momentos de choro são complicados de se definir. A gente chora por muita coisa ou por quase nada. Mas minha voz de hoje tentará responder um x de questão ao qual nunca me questionei muito e por isso nunca tentei resolver. A música tem uma definição engraçada e que praticamente não varia em todos os tratados que vocês queiram pesquisar. Ela é por excelência “a arte dos sons”. E, ainda, segundo o livro por mim consultado: “É constituída de melodia, ritmo e harmonia”.[1] Em tese, eu até poderia afirmar que para haver música são necessários estes três elementos supracitados, porém, isso é contestável e eu realmente não sei a que pé estamos nessa discussão. Contudo, já ouvi e ouço de muitos músicos, quando escutam certo batuque eletrônico ou mesmo um repique solitário de tamborim (indo mais longe, o jovenzinho da favela cantarolando sou rap): “Isso não é música não...”. Discussões quase ontológicas à parte, vou parar com os devaneios aqui e fixar-me no que é por direito meu objetivo: Choro ouvindo Tom Jobim. Não sei se pela ausência do Tom Jobim, pois um rapaz de 25 anos não aproveitou em nada os momentos criativos e produtivos de um maestro que faleceu em 1994. Àquela época eu estava mais preocupado com outras coisas. Não sei se choro pela música em si. Pelos sons. Pela melodia, pelo ritmo, pela harmonia, sejam dele ou recriadas por ele. Definitivamente, o senhor Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, conseguiu como nenhum outro, talvez, o Villa-Lobos (que ninguém me bata aqui por preferir o primeiro citado ao primeiro que veio...), conseguiu reproduzir tão bem o que eu entendo como música, veja que digo música, no caso só me valendo da definição dada pelo livro do grande Almir Chediak. Já falei outras vezes, não sei se aqui ou lá no submundo de algum lugar, sobre o disco Stone Flower e é de longe o que mais me tira lágrimas dos olhos, do peito, da pele... A belíssima “Children’s Games”, que mais tarde viraria “Chovendo na Roseira”, me dá uma louca vontade de ter uma filha. O casamento está perto, os filhos é que vão longe de mim, por enquanto, apenas por enquanto... Ela me dá uma coisa de jardim, de primavera, de casa arejada e de dias felizes. “Stone Flower”, canção que dá nome ao disco, me remete ao nordeste, região de contrastes e múltiplas culturas que o tempo, que o estudo, que os planos me fizeram escolher como novo lar e olha que o que vos fala não é um historiador regionalista, mas um puro medievalista, desses que se arrepiam ao ler um documento em castelhano medieval, em galego medieval, essas coisas... Mas o nordeste tem uma coisa, a música do nordeste, a boa música do nordeste tem uma coisa. O pífano, a zabumba, a sanfona... A organização melódica, uma coisa meio moura! Olha só! Destrincharia aqui cada canção e os significados emotivos que elas me trazem no passado, presente e, talvez, até o futuro. Mas do futuro eu não... As especulações eu deixo para os economistas – esses maravilhosos malabaristas. Por fim, não posso deixar de falar da canção “Amparo” que nas hábeis mãos de Vinicius de Morais e Chico Buarque virou “Olha Maria”, no clássico disco do segundo “Construção”. O maestro me faz chorar, pois os sons que ele produziu não ficam nos meus ouvidos, eles extravasam minha alma e desse transbordar é que vêm as lágrimas.
[1] CHEDIAK, Almir. Harmonia e Improvisação: 70 músicas harmonizadas e analisadas (violão – guitarra – baixo – teclado). Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1986. p. 41.