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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Sobre o suicídio de Souza Paiol

Há tempos ele escreveu um poema, desses despretensiosos de quem acha que é poeta e no fundo é mesmo, porque todo mundo é poeta, treinador de time de futebol e conhecedor de doença. Na mesa de um bar, dos poucos bares em que eu ainda o via, nem bebendo, nem falando, só, ele só lá no canto com a mesma cara pro nada, ele me viu. Ele viu que eu o via. E o vi sorri de canto de boca um sorriso que há tempos eu também não o via dar.

Não era de declamar poemas, acho que no fundo era timidez ou não gostava mesmo. Só uma vez que me lembro dele se expondo, declamando no Castelinho do Flamengo num sarau, acho que num sábado primaveril, bonito até, mas pelo bem da verdade do que digo aqui, nem poema era, estava mais para versos em prosa ou uma prosa poética, sei lá. Mas nesse dia eu vi com esses olhos já meio embaçados pela idade.

Nesse dia do bar, do sorriso que andava já há muito tempo escasso, ele declamou, mas veio em minha direção, eu também estava só, mas não por necessidade como ele, eu estava pela ocasião. Cumprimentou-me com o jeito de sempre – o que não mudava – um sorriso largo, cheio de dentes, uns dentes brancos, meio pra frente. Era um sorriso que você dava sua mão direita em defender que ali estava um homem feliz. A famosa frase do poeta Maiakóvski – “Dizem, que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz” – seria a mais pura verdade, eu diria com firmeza que o russo o viu antes de partir dessa para o não sei o que!

Mas era só o sorriso. Uma dessas máscaras que a gente mal decifra, como aqueles quadros que de longe dão um entender e de perto são borrões. Acho que ele era isso, ou pelo menos o seu sorriso, sorrindo, fosse de longe ou de perto, formava uma paisagem ampla de um lago, de crianças felizes, de esperança, mas quando se olhava com atenção, com calma, tempo – tudo que não havia a ninguém – seria possível perceber que aquele sorriso era uma grande mancha de vários pigmentos entre angústia, dor interna, confusão, silêncio.

Mas veio até mim. Na mão esquerda uma folha de papel de caderno de escola, um poema manuscrito com esferográfica azul. Amenidades e eu curioso para ler ou ouvir o poema – ele percebeu.

Ofereci um trago da cerveja, ameacei pedir um copo, disse que não, era coisa rápida, era madrugada e já estava na sua hora, disse com voz rouca, decidida, porém, sem raiva ou coisa do tipo. Uma voz meio sensação de bala de tamarindo. Você me entende? Alguma vez chupou bala de tamarindo? Saberia a sensação da metáfora.

 Parecia que as palavras estavam contadas, como o tempo da gente é contado em segundos, minutos, horas, dias, semanas e anos. Explicou que era um poema antigo, de 2010, escrito numa madrugada, que andou mexendo nas caixas velhas, na papelada amarelada e que encontrou. Revirou o computador, procurou pastas, em contas de e-mail e não encontrou digitado no editor de texto, queria um favor.

Não entendi direito naquele momento. Mas, aceitei digitar o poema e disse sorrindo depois de sorver o gole da cerveja sobre a mesa que naquele mesmo dia, mais tarde, depois do almoço, eu o entregaria de volta o manuscrito. Não disse nada além de obrigado, apertou firme minha mão, numa firmeza tão contundente que meus dedos molhados pelo suor do copo quase se transformaram na sua. Levantou-se, olhou para trás e deu o mesmo sorriso aberto. Pensei: tudo vai bem, ele está estável nessa montanha russa em que o mundo vive já faz uns anos.

Não entendi direito naquele momento, não me culpo. Ninguém pode prever.

Só encontraram seu corpo, putrefato – coisa triste – uma semana depois de se encher de tudo que é porcaria até não acordar mais. Fico pensando se já não fazia tempos que ele não caminhava entre nós. Mas se não entendi antes, não será agora que entenderei. Segue o poema, exatamente como no manuscrito entregue naquele ano de 2022, um poema de doze anos atrás:


O suicídio de Souza Paiol
 
Já é madrugada, mais uma madrugada
Pego o isqueiro e acendo um cigarro inexistente
Enxergo a fumaça esbranquiçada
Penso no ontem
Pois do amanhã nada sei
Fortuna é um bem que não quero
Um pássaro emite seu som em algum lugar do escuro
Poucos carros passam na Avenida Adélia Franco
Penso em me perguntar quem foi ela um dia
Em algum lugar do mundo eu estou
Sozinho
Se olho para o lado
Vejo Alain Delon caído
Um morto na capa de um LP
Uma foto é uma representação quase precisa
Uma lata de Guaraná Jesus e um sorriso
I’ve got a feeling ecoa no meu ouvido bom
“Todo mundo teve um bom ano...”
É isso que diremos
É isso que esperamos
Mais uma canção dos Beatles
O sonho de mais uma canção
Aquela que não conhecemos
Pois se São Miguel tivesse mesmo matado o dragão
Se São Jorge pisasse na lua
Eu faria agora minha oração antes de dormir
Mais um avião desce no aeroporto Santa Maria
São Sebastião flechado me feche os olhos
Eu quero dormir
Já é madrugada, mais uma madrugada
Uma mesa sem porta retratos
Uma bela canção de amor
Já não passa um carro
O pássaro foi tragado pelo escuro
Todos os santos levaram o fluído do isqueiro
Souza Paiol se matou.
 
27 de fevereiro de 2010 – 01:28 AM

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Os diários publicados de Kurt Cobain (Editora Belas Letras, 2021)


 

Mesmo que pareça, isso não é uma resenha. Minha voz soa um tanto rouca – talvez pelo excesso de sorvete de menta com chocolate ou mesmo por, em meio a pandemia de COVID-19, lecionando remotamente do pequeno apartamento alugado, esquecer de beber água enquanto falo sobre História Medieval para docentes em formação. Ontem terminei após três dias as 591 páginas da edição em língua portuguesa publicada neste ano de 2021 pela Belas Letras, Editora de Caxias do Sul, RS, com tradução de Fernando Scoczynski Filho.
Intitulado “Kurt Cobain- Diários”, a leitura é pesada, afinal, são escritos retirados de diários. A organização é interessante, mesmo que, enquanto historiador de formação, eu esteja habituado com isso: de um lado os manuscritos – fotografados/escaneados/fotocopiados, como queiram – e do outro a tradução à nossa língua (não tenho conhecimento da edição original cujo título é “Journals”, certamente, seguiu essa linha). Não quero falar com você sobre conteúdo. Kurt foi um artista, mas acima de tudo: uma pessoa. Basta uma busca pela Internet e você poderá ter suas próprias conclusões sobre seu trabalho musical – se bom ou ruim – e, se se achar no direito, tecer suas conclusões vazias sobre a personalidade de um jovem de 27 anos que se suicidou com um tiro de espingarda no queixo na estufa de plantas de sua casa, em 1994. Eu ainda tinha 13 anos de idade e o show do Nirvana um pouco mais de um ano antes, no Hollywood Rock, no Rio de Janeiro, transmitido ao vivo por uma grande rede de TV, ainda era um forte impacto na minha cabeça. Não, não é um trocadilho com o impacto do projétil na cabeça do jovem Kurt. Nunca busquei fotos macabras da cena do suicídio e demorei muito para ler na íntegra sua carta final (que, FELIZMENTE, não está presente na publicação “Diários”.  O que não deixa de ter lógica, afinal, trata-se de uma carta de suicídio – não publiquem cartas de suicídio, a Sociedade de Psicologia agradece, abutres. Tais documentos só têm validade se manuseados – no meu ponto de vista – historicamente, sociologicamente, antropologicamente. Como me esquecer do que senti numa aula de História da antiga 7ª Série ginasial a carta-suicídio de Getúlio Vargas, a frase de efeito: “Saio da vida para entrar na história” me assombrou durante meses. Que ironia).
Por sinal, um parêntese, disse que sou historiador de formação, sim, é verdade e me veio na lembrança uma pichação que li a caminho da faculdade, não lembro o ano, deveria ser nos primeiros períodos, pois ainda ia de ônibus (depois meu pai me liberou o carro): “É melhor queimar de uma vez a se apagar aos poucos”. A frase que se tornou lendária, pois foi citada na carta deixada por Cobain, na verdade, é um trecho de uma canção de Neil Young, chamada “My My, Hey Hey (Out Of The Blue)”. Quem pichou o muro, ali, na altura da Praça do Canhão, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde está a Estação de Trem, o pequeno viaduto, um complexo de quarteis do Exército, casas de subúrbio e por onde passava meu ônibus Nova Iguaçu X Bangu, talvez não tivesse essa informação sobre ser uma citação. Eu não sabia. Soube quando no mesmo dia entrei no laboratório de informática da Universidade, acessei a Internet e “descobri”. Fim.
Como eu disse – acho que você ouviu bem –, terminei ontem o livro “Diários”. Escolho mal minhas leituras quando não estou bem psicologicamente. Já disse isso outras vezes, eu sei. Sou repetitivo. Acho que já conversamos sobre isso a respeito d’O Processo de Kafka.
Diários são materiais importantes. Eu tenho um diário. Não, O Ventríloquo não é um diário. Por mais que possa parecer que eu reparta com você minha vida, são vozes que sei imitar, vozes que sei colocar para fora sem que você perceba meus lábios se movendo. É assim desde 2007. Mas, eu tenho um diário. Escrevo a mão. A capa é linda. Ele foi feito artesanalmente pela Aline Viana, acho que ela tem uma conta no Instagram chamada Miçanga na Praia e vende esse material. A arte dele [o meu diário] é uma fotografia em sépia do Aldir Blanc com o João Bosco tomando cerveja num botequim no Rio de Janeiro e na contracapa os dois de pé, foto em preto e branco, na porta, acho, do mesmo botequim. Elas são do período de lançamento do Lp Galos de Briga (1976).
Ontem escrevi nesse diário. Apesar de ser um diário, não escrevo diariamente. Mas como havia terminado de ler o livro – do Kurt Cobain? Livro? – fiquei pensando nas últimas páginas escritas, sobre vício em heroína, sobre o que viria ser o último trabalho de estúdio do Nirvana, o Lp “In Utero” (1993), o impacto na mídia, sua ira etc. Antes de dormir, ouvi via streaming o material. “In Utero” de fato é um bom trabalho artístico, mistura bem o que foi o primeiro Lp “Bleach” (1989) – meu preferido – com o que alavancou a banda para o cenário mainstream, o conhecido “Nevermind” (1991). Tenho a discografia completa em Cd e alguns Lps da banda. Em Cd as versões são todas remasterizadas e Delux, comemorações de 20 anos de lançamentos. Dei as edições antigas para amigos.
No fundo, numa sexta-feira como essa, numa sexta-feira de final de maio, 28, nem sei por que estou conversando, falando. Talvez eu esteja meio zonzo ainda. Não sei. Continuo. Sigo.
Recordei-me, ou encaixou melhor, a biografia que li da banda tempos atrás, escrita por Michael Azerrad, intitulada “A História do Nirvana – ‘Come As You Are’”, tradução de Júlio de Mattos, Editora Madras, 2008 [original de novembro de 1993, nos Estados Unidos] e, também, o excelente documentário “Cobain: Montage of Heck” (2015).
Os antidepressivos foram fazendo efeito no meu corpo. Ainda com certo tempo de tirar os fones dos ouvidos após a audição de “In Utero”, fiz o download na plataforma de streaming do show “Live and Loud” gravado pelo Nirvana no dia 13 de dezembro de 1993 e cujo DVD minha mãe me presenteou na última vez que visitei o Rio de Janeiro, em 2019. Fiz meu exercício matinal no quarto onde tenho estudados nos últimos meses obras de Bach no piano da Roland e ouvi offline “Live and Loud” e só parei de pedalar quando a última canção “Endless, Nameless” terminou.
 
Ps. Como comprei o livro em pré-venda no site da Belas Letras, recebi algumas memorabilias como o manuscrito em folha separada da letra da canção “Lithium”. Música número um no meu setlist de fã do Nirvana e se o post scriptum pode ser mais longo, a bicicleta mais cara – no sentido monetário do termo – que tenho, dada de presente em outubro de 2019 pelos meus pais, foi batizada justamente com o nome da canção. Lítio é uma medicação ambulatorial para transtornos mentais, como bipolaridade, por exemplo. Infelizmente, em determinando momento da vida, tanto eu quanto minha mãe tivemos que ser tratados, não ao mesmo tempo, é claro, com essa medicação.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

12 anos de Universidade Federal de Sergipe

Universidade Federal de Sergipe - Campus São Cristóvão




Dia 27 de maio de 2009, uma quarta-feira. Eu e mais umas duas pessoas aprovadas em concurso público de provas e títulos, assinávamos o Termo de Posse como Servidores Públicos Federais, novos docentes. Eu havia chegado no domingo, dia 24 de maio, meus pais me levaram ao Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Meu pai me abraçou e apertou minhas mãos olhando com seus olhos verdes, querendo chorar, nos meus castanhos escuros já chorando. Minha mãe me abraçou e chorou, disse algo quase sussurrando no meu ouvido, que nunca me esqueci e mantenho firme, gostem ou não de mim. Ela disse assim: “Nunca esqueça de onde você partiu, não esqueça tudo o que você lutou para chegar aonde chegou, mas principalmente, de onde você é, quem você é, onde é sua casa, onde você nasceu.”
Nasci no dia 18 de julho de 1983, às 06:20 – em ponto – de uma tarde chuvosa e fria, em Mesquita, Primeiro Distrito do Munício de Nova Iguaçu. Parto normal e rápido. Meu pai trabalhava no comércio, em Madureira, numa rede chamada Papelaria América, entrou como auxiliar de serviços gerais e aos poucos chegou a Gerente de uma das filiais, passou por várias, Rua Uruguaiana, no Centro do Rio de Janeiro, Rua da Alfândega, Cascadura, Nilópolis... Minha mãe foi auxiliar de cozinha, trabalhou com faxina em casas de gente rica, oriunda ainda naquela época da aristocracia iguaçuana e que nos anos 90 migrou para a Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes... Morávamos num sítio enorme, as terras eram baratas em Mesquita nos finais dos anos 70 e início dos anos 80, a casa era “bem ajeitadinha”, segundo conta minha mãe. Era uma casa de estuque, o que chamamos aqui em Sergipe de “casa de taipa”. Não havia luz elétrica, uma pequena televisão de imagem preta e branca conectada numa bateria de carro não me chamava atenção. Eu gostava de ficar no chão da casa brincando com bonecos, trecos de todo o tipo, ou correr entre as plantações de cana, café, pés de jaca, manga espada e carlotinha. Havia muitos abacateiros também, além de araçá e goiaba (branca e vermelha), isso quem conta é meu pai. Essas minhas incursões me renderam quase morrer afogado numa fonte que havia ao lado de nossa casa, o que me salvou foi o instinto rápido de minha mãe e as várias vitórias-régias e um velho que não lembro o nome – depois ligo para o Rio de Janeiro para perguntar – que tinha um sítio vizinho ao nosso e capinava seu terreno no outro lado da cerca de arame. Eu tinha problemas de saúde: não peguei peito, logo não mamava leite materno, não comia direito e o ambiente era muito frio no inverno e no verão mesmo que o sol não fosse algo diretamente chocante, as muitas árvores e a mata atlântica oriunda da Serra do Mendanha que é todo um maciço que circunda a geografia entre Baixada Fluminense e Zona Oeste etc. tornava a necessidade de respirar complexa para mim. Na verdade, a geografia do Estado do Rio de Janeiro é fantástica, a própria capital tem um quê de charme medonho: uma cidade espremida entre as montanhas, morros e o mar. Com quase dois anos de idade completos, meus pais e tios (irmão do meu pai casado com a irmã da minha mãe) que também moravam no grande sítio, aonde também residiam minha avó paterna e seus dois filhos: um tio mais novo e uma tia doidona mais velha que até hoje não fala com o restante da família, compraram uma casa – mais abaixo da montanha. Mudaríamos então para o Morro da Chalet, n. 300, hoje no bairro Santa Terezinha, no agora munícipio de Mesquita. 12 anos. E ainda tenho sotaque. 12 anos e ainda sinto o cheiro das árvores no quintal da minha infância. 12 anos e não vejo muito sentido em tudo que fiz para chegar aonde cheguei, mesmo chegando. 12 anos e aprendi que assim como a força do amor da minha mãe e do meu pai, proporcionalmente, eu não sabia, quando via minha – já formada – enfermeira, trabalhando para o SUS, se doando, ganhando pouco, com o branco do uniforme com gotas de sangue que não eram seu – que o ódio, inveja, rancor, contra Servidores Públicos iria me fazer o mesmo mal que fez à ela, levando-a ao poço da depressão, aos remédios, psicólogos, psiquiatras. Sigo o mesmo caminho, mas ao menos ainda há a Prozac. Quando converso com minha mãe e questiono se não há um excesso de drama, sua firmeza e sutileza de quem nasceu em Marechal Hermes, subúrbio do Rio de Janeiro, viveu a infância em Cabuçu e Mesquita, ela me aconselha: 
se disserem que você está fazendo drama ou é fraco: Manda se foder”.
 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos


 
Chove. 06:00AM. Ponto. Estou quase terminando os diários do compositor e cantor estadunidense Kurt Cobain. 06:00AM em ponto, tive insônia. Para dormir ou tentar me acolher nos braços de Morfeu resolvo ouvir dois cds que me foram muito importantes, os dois do percussionista, compositor e cantor (e às vezes ator de cinema) pernambucano Otto: “Samba pra Burro” (1998) e “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” (2009).

Em meio a madrugada chuvosa, o ar-condicionado sempre em 20 ºC, enviei uma mensagem de texto compartilhando a canção “Bob”, faixa 1 do cd de 1998 para meu primo Gustavo Gonçalves Alvaro, no Rio de Janeiro. Prontamente, o que é raro, ele respondeu: “Caralho, moleque, estava ouvindo esse cd anteontem”. De fato, em meados da década de 2000, íamos muito, ele, eu e mais gente e pelas madrugadas nos sentávamos no fim da tarde na praia de Copacabana. Copacabana assim como a Avenida Paulista: nunca dorme. Nós também não dormíamos.


Clipe da música "Bob"


As músicas terminaram, o sono não veio. Os remédios devidamente tomados. Seria talvez alguma ansiedade? O impacto da letra manuscrita de Kurt Cobain em inglês escaneada de um lado e suas impressões angustiantes sobre si e o mundo postos em minha língua materna? Lembrei do cd de 2009 do Otto. Ainda de fones de ouvido o coloquei para tocar, como o ouviria mais tarde ou agora enquanto vocês me ouvem quando acabei de pedalar dentro de um quarto pequeno em minha bicicleta com pneus slicks aros 26. Caminho – não de um lado para o outro, não chego a tanto – inevitavelmente por corredores de minha própria mente e busco lá no fundo, não que eu não soubesse, que não fosse conduzido como numa hipnose, já que eu havia escutado recentemente, e ouço como fã de carteirinha, o programa do Canal Brasil e também transformado em podcast “O Som do Vinil” com o ex-baterista do Titãs e pesquisador musical Charles Gavin, sua conversa com o Otto sobre o cd de 2009 e o impacto que essa obra artística teve (não vejo outra expressão)... Enfim, o próprio Otto deixa claro, o título do disco faz referência ao livro “A metamorfose”, de Franz Kafka (Link do Episódio no Spotify).


Gosto muito da edição que tenho traduzida pelo Modesto Carone, cuja edição publicada pela Companhia das Letras data de 1997. Em sua 22ª reimpressão, de 2009, já amarela na estante e tirei a poeira para deixar como posfácio ao que vocês não ouvem as frases kafkianas iniciais do livro e a primeira vez que se ouve a voz de Gregor Samsa na narrativa (p. 7):

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas uras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.

– O que aconteceu comigo? – pensou.

Não era um sonho. Seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas.”
 
Obs. Mantive tranquilo grafado como publicado na edição que tenho em mão, naquela altura o famoso acordo da língua portuguesa ainda não havia sido assinado. Linguiça era lingüiça, tanto quanto tranqüilos se mantinham os porcos que hoje continuam tranquilos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A dicção da vida

O maior problema não é ser, é estar. Por isso, quando digo que sou, não estou dando sentido ao que não pode ser. Ao que não existe. Pois existir, por si só, já é palavra que não entendo. Assim, sumo. Pois sumir é mais que verbo transitivo direto. É esquecer em lugar que não se tem lembrança e é assim que eu quero que fique: no esquecimento. Pois, vovozinhas somem. Pardais voam. Encontram casa. E o saquinho de São Cosme e Damião fica lá na lembrança das ruas do subúrbio. Assim, o morro que desceu será esquecido. A rua que transbordou será deletada da sua lembrança. Cada lágrima. Cada grito. Essa é a dicção da vida. A cadência do bumbo do peito ou do repique do tamborim. O ronco malandro da cuíca se mistura ontem com o cheiro de terra molhada por chuva de verão. Aqui e lá. Lembrar é um esforço necessário. Mas que inexiste, já que some. Então são feitas estátuas. Homens de bronze. Escrevem-se certidões de nascimento, óbito, casamento, documentos que se perdem com a água que desce da colina. Feito e desfeito. Tudo some, eis que o verbo é transitório. A cada lágrima e em cada grito, o maior problema não é ser, é bestificado ficar.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um texto para ser lido: Sábado, madrugada. 27 de fevereiro de 2010. 03:34 AM

Você agora que está lendo este texto, saiba você que eu existo. Tenho minhas pretensões e sonhos. Alguns poucos amigos e muitos colegas. Admiro dois ou três artistas. Sempre fui fã do Michel Melamed. Quando criança queria ter um açougue. Acabei me tornando professor de História. Gosto de falar bobagens. E você que me lê agora, saiba que já é madrugada. Minha mulher dorme no quarto tranquila. O silêncio repousa em nosso apartamento alugado. Não sei quantos metros quadrados. Saiba você, que me lê agora, que este texto escrevi com as pontas dos dedos e mexendo meus lábios. Eu tenho nem sei quantos discos do Chico. Sou um jovem afetado pelo tempo. Prefiro Lp’s e vitrola à Cd’s e maquinarias que eu não entendo. Cultivo um sorriso sombrio, mas sempre que posso dou esmolas. Não falo mal dos outros, mas também não me contento em engolir o que sinto ou não sinto. Me relaciono bem com a família. Tenho saudade de um primo. Já não sei quem são meus amigos de outrora. Já fumei escondido. Já cabulei aula na escola. Já tentei suicídio. Já fui traído por duas namoradas, não sei se trair eu consigo. Sou vingativo, confesso – mas todos tem seu limite. Um dia mentiram para mim. Não sei se sou a favor da pena de morte, tampouco com o fim do trema. Procuro não entrar em contendas, mas se entro chego a perder quem se diz meu amigo. Estudei inglês na escola, não sei se dele preciso. Estudei francês e escrevi com ele poemas que agora já não estão mais comigo. Você agora que está lendo este texto, saiba você que eu existo. Aprendi espanhol num curso que tem como slogan “é assim que se fala”. Até hoje ninguém habla comigo. Sou brasileiro nato. Nascido. Saiba você que é madrugada. Minha mulher dorme um sono tranquilo. O silêncio repousa no meu escritório, ouço apenas pequenos ruídos: pássaros noturnos, o pingo do ar-condicionado do apartamento de cima, os carros na avenida em intervalos imprecisos. Sou brasileiro. Pago minhas contas em dia. Classe média. Tevê a cabo. Internet banda larga. Telefone com mil minutos de inter-urbano gratuito. Faço as compras do mês. Refaço no mês seguinte. Acordo sem um sorriso. Escova de dentes Oral-B a marca mais usada pelos dentistas. Bochecho Listerine. Cuspo só amanhã. Apesar de tudo não tenho sono. Tenho saudade daquelas manhãs. Tenho um pai. Tenho uma mãe. Eles tem um filho único. O silêncio repousa nos meus ouvidos. O MSN está aberto: o mundo é virtual em todos os sentidos. Quatro contatos on-line: Um ocupado e três ausentes. Não sei se há nisso um sentido. Acendo um incenso que ganhei de um amigo. Ouço portas se abrindo e fechando – são os vizinhos. Saiba você que está lendo este texto que o mundo não gira sozinho. Há uma força que agora me falha a memória: não sei explicar. Não lembro o nome da minha professora de Ciências da sétima série. Poderia listar nomes. Mas eu sei que você que está me lendo agora não tem motivos. Este texto sombrio ou... Márcia, Matemática. Rita, Português. Helayne, Geografia. Dona Elza, História. A professora de Inglês era novinha e gostosa, uma bunda durinha. Foi o ano que eu mais aprendi. Ela gostava de Guns N’ Roses e tinha paciência comigo. Fiquei traduzindo Patience todo um domingo. Não existia naquela época Vagalume ou Letras ponto mus. Um dia a encontrei no shopping: ela havia envelhecido. Eu também. Paola, Educação Física. Artes, Dona Neuza. Ficava sentada fumando. Temo em dizer que não era formada na disciplina, apesar de caro o colégio. Acho que tinha diploma de Matemática. Da sua matéria só lembro da brincadeira do compasso: “compasso de onde você veio...”. Gostava de criticar as meninas da minha sala que teimavam em encurtar as saias do uniforme. Sua filha engravidou num baile funk. Todos temos segredos. Fui eu quem colocou taxinha na cadeira do Sandro. Dei aula muitas anos depois para o seu irmão. Todos temos segredos. Me entristece lembrar que disse a alguém que não me lembro: eu não gosto de você. Ser sincero demais não é certo. Você que está lendo este texto. Saiba você: eu existo. Não sou mau. Eu era apenas um menino. Sou brasileiro. Casado em comunhão de bens que não tenho. Meu apartamento na Zona Sul é alugado. Não tenho filhos. Não estou drogado. Não sei se sou a favor da maconha ou do fim do Senado. Esse ano eu não voto: justificável. Não mudarei o meu título: ainda amo meu estado. Não sofri maus tratos quando pequeno. Nem tive infância sofrida. Também não fui mimado. Saiba você, que me lê agora, que este texto escrevi com as pontas dos dedos e mexendo meus lábios. O reli três vezes e pensei: é ou não publicável. Tenho uma carreira acadêmica. Título de mestrado. Daqui a poucos anos termino meu doutorado: o que me importa? Não junto dinheiro. Quem faz isso é minha mulher. Possuo currículo lattes. Matrícula Siape. Pagos os impostos e não devo ao Leão. Gosto de caminhadas longas. De sim ou de não. Não suporto mudanças. Tampouco talvez. Até hoje ninguém habla comigo. Je suis... não sei. Jesus, amém. Saiba você que leu este texto: eu existo. Não é pretexto. Você não chegou até esse ponto da linha. Não leu essa última frase na qual eu parei... pensei... pensei. E te agradeci.

Ps. Deixe seu comentário abaixo e feche a porta quando sair.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A força do não dito

Tudo de bom que não falo. Melhor o silêncio, pois guardo dentro de mim os chiados e a regras gramaticais das gírias sobre a mesa de bar. O não dito é o meu melhor, pois insuportável é a dor de dizer aquilo que há descontrole nas palavras – eu sou um descontrolado palavriante. Você ouviu? Você o viu? Você ou viu? Você: o viu!
Uma avalanche de letras, palavrinhas soltas, sílabas, vogais. Abafadas, abertas, sem sentido: a e i o u. O caderno de caligrafia que eu nunca soube usar. Letras redondas, dizia a tia Janaína e eu cansado de tentar.
Estou meio tonto. Carrego dentro de mim um violão. As cordas afinando-se automaticamente em cada acorde dissonante. A caixa, o peito. O braço, minhas mãos. Traste. Trastes.
Digam o que quiserem: o silêncio nem sempre é a solidão. E aquilo que não foi dito é porque não há de ser um não.
Ps. Ao som do disco Spectral Mornings de Steve Hackett.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quando uma cidade entra nos traços do seu verso...


Uma chuva fina molha a madrugada em Aracaju. Abro as janelas da sala vazia e deixo que o vento fresco venha carregado como suor. Meu rosto se banha com gotículas de lágrimas do céu. Deu no jornal da tarde que poderia chover na capital.
Em minhas mãos a taça trêmula de vinho e só o som da minha respiração. Alguns carros passam de algum lugar que nem sei – pois eu não sei de nada nem de lugar. A companheira da noite se esvaziou. Pois no tudo o tudo é vazio – meu vinho se foi. A garrafa no canto, mas uma rolha para colecionar, minha assinatura, data e mensagem: Eu estava só no meu lar. Ensaio pegar minha flauta, o prédio alto não permite, não é hora para sons, mesmo que soprados como conversa ao pé do ouvido (Espere por mim, morena/ Espere que eu chego já/ O amor por você morena/ Faz a saudade aumentar). E eu penso em você. Como eu penso em você. Penso como um gemido. Meu relógio parou, talvez, por não ter sentido. Ou ter sentido que não é possível acelerar mais as horas do que o tempo nos permite. Pois agora o tempo passa lento. Uma hora nos separa. Mil, mil, mil e não sei quantos mil’s estão entre mim e você. Juntinhos.
Não há som, só há silêncio. Um pequeno silêncio que me possibilita me ouvir gracejando minhas palavras, eu mesmo me dizendo o que te digo agora: tudo. Tudo é aliteração. Metáforas sobre um tempo bom. Metonímias para o sol. O aroma do chileno que escolhi calmamente no mercado, a taça que guarda um borrão. Taça única que guarda um borrão no meu coração. Me valeu cada palavra de centavos o vinho que me derrama depois no chão.
Já não volto mais, pois se em meu verso incorporei você, pequena cidade puritana, significa que já estou deixando de lado o tesão pela grande meretriz. A preta me pergunta por telefone se serei eu feliz.
Ó Copacabana iluminada, o vai e vem da Atlântica e as putinhas na calçada. Ó Lapa flamejante com samba e noite enluarada! Madureira e Cascadura: eis meu fim! Temam por mim. Não há como gritar Abracadabra! Nova Iguaçu só em música de Chico Buarque na calçada que eu canto indo comprar água. Bem distante como o Cristo e revoada. A Mesquita já não ora mais por mim.
Aos meus pés a Adélia Franco invadindo os meus versos, ao longe o viaduto mudando as cores a cada hora, azul, vermelho, outra cor incerta. Em plena sexta-feira o teatro não se ilumina. Ó Tobias, não é assim que é a vida. Grandes peças: a vida é um stand up comedy? Não há bares a serem fechados, os garçons não nos expulsam dos botecos mal amados. Quero me entornar pela rua. Não há samba quarta-feira, nem Centro Cultural lotado, mas entraste em minha vida devagar e com recalque: um certo caldo. Não tiraste minha roupa, mas embala em sono denso, te vejo dormir e acordar, pois teu ritmo é lento. Mas tua tranqüilidade me é agonia, mas me conquista com jeito de menina querendo um primeiro beijo no colégio. Um primeiro amor sério. Parece que me pede madrugada, meu riso alto na rua, meu x se enroscando com teu ti, fiquemos cada um na sua – questão de bom senso. Pois se saio a noite te assusto esvaziando todas as garrafas da lua.
Preta não há chope da Devassa, o da Brahma, quando tem, é mal tirado. Nos resta a caipirinha num bar bem afastado. Não aceita cartão de crédito, débito nem cheque da mesma praça, mas é na beira do mangue e serve Germana no ponto, dosada com açúcar e limão, do jeito que você gosta. Me pergunta se estou triste? Ou meio magoado? Não... Nada! Isso é poema e, talvez, foi o chileno que acabou e me deixou mal humorado!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Até onde vai o precipício

Certa vez, enviei pruns amigos três contos para serem analisados. Um deles chamou muita atenção entre todos os leitores. Contudo, não é ele que aqui publico hoje. Na verdade, a pequena historinha antes de publicar um conto que surgiu meses e meses depois das tais leituras é para falar do meu chapa André do Micelânea de Opiniões e Sentenças (http://o-andarilho-e-sua-sombra.blogspot.com/). Foi ele quem percebeu que aqueles três contos iniciais possuiam uma certa coesão temática, mesmo que de forma mórbida: o amor. Pensando na sua opinião e sentença, passei a observar o que até então passava despercebido e dei asas ao tema. Isso está quase gerando um livro (cujo título não revelarei). Meu primo e crítico-mor Gustavo Alvaro também já tinha analisado outra característica das narrativas: a poesia. Contos que na verdade deveriam ser chamados de "prosa poética". Como há muito não me preocupo com definições fechadas quanto ao que escrevo por "arte", ora aceito a definição, ora a recharço, não sem considerar que ela não tenha seu fundo de verdade. O conto (ou prosa poética) abaixo foi escrito em janeiro desse ano no apartamento da minha preta, quando nos preparávamos para sair sabe Deus pr'onde. Foi no rabisco mesmo, no papelzinho... É isso, espero que gostem e obrigado André, ainda te devo uma cerveja gelada (ou seria você o devedor?).
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Amei, amei até o fundo da alma. Além das cartas de amor, além dos poemas e das canções. Lá onde já não bastam mais os muitos “eu te amo”, lugar onde não se sustenta “eu preciso de você”.
O afago que iluminava nossa relação não transbordava o vazio que batia em meu peito, por isso amei, amei até o fundo da alma. Alma cansada, eu diria.
Um aceno não me bastava. Nem um sorriso. Tampouco abraços. Um dia consegui uma mexa de seus cabelos loiros, mas eu queria seus olhos castanhos, ou quase mel. Queria bebê-los todos. Os dois.
Mas se não me bastassem os cabelos, os olhos, eu queria a língua. Que ela falasse só para mim – não era assim. Por isso, roubei-lhe os dentes tão brancos que pareciam nuvens nos céus.
Ela fugia, tentava se esconder num esconde-esconde sem fim – ah, como era matreira aquela mulher!
Não conseguiu. Mas por que foge ela foge de mim? Já que não há ninguém no mundo que a ame tanto assim.
Ela corria, corria. Corria como uma garça branquinha ela corria. Não emitia sons e eu já nem me lembro o tom da sua voz. Só eu sei: não há no mundo ninguém que a ame tanto assim.
Eu queria todos os pedacinhos dela. Todos os pedacinhos seus. Arranquei-lhe cada dente, um por um. Os trinta e dois amontoei numa caixinha vermelha. Guardava-a na gaveta para ter comigo sempre o seu sorriso.
Num pote transparente, já sem mel, conservo seus olhos, já sem o mesmo brilho, mas, por Deus!, são os mesmos olhos. Numa fitinha rosa estão todos os fios de cabelo, não se perdeu um fio sequer. Como é bonita a combinação do tom loiro com o rosa.
Algumas coisas... enfim, não se pode ter tudo... Algumas outras coisas suas não pude guardar e, em parte, abandonei no precipício, o mesmo precipício onde mergulhei no escuro com minha alma. Mas no fundo da casa, no quintal bem cuidado, ao pé da macieira, deixei-a descansando –como era matreira aquela mulher –, pois só eu sei: não há no mundo ninguém que a ame tanto assim.

10 de janeiro de 2009
Bruno Alvaro

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Caminhos


Fico aqui pensando quando nós dois cruzaremos a mesma rua. Quando meu braço se esbarrará no teu? São mistérios irreveláveis que nossa imaginação não consegue nem sequer deduzir. Eu estou agora nesse lugar. Por onde andará você?
Termino meu café na esquina, pago com moedas. O jornal disse que vai chover – não tenho guarda-chuvas, porém, guardo em mim uma vontade enorme de te conhecer um dia. Eu espero tanto que seja breve esse dia.
Ainda ontem estive perto do que daqui alguns anos será o apartamento dos teus pais que eu irei visitar num domingo. Eu ainda caminho. Tomo meu ônibus e aprendo francês. Tenho um vazio que parece que ninguém pode preencher, pois se estou acompanhado me sinto sozinho.
Não sei quem é você ou o trajeto que faz da casa para o trabalho, do trabalho para faculdade, não sei se de carro ou a pé. Se estiver sozinha ou com alguém, já nem me importa, no tempo, em algum momento, nossos braços hão de se esbarrar.
Estou ainda na poesia concreta, faço imagens com meus versos. Cuspo poesia como quem vai ao banheiro. Sorrio fundo. Trago cigarros. Ando de trem. Tomo uísque com gelo. Coleciono porres em bares. Freqüento festas com novos amigos e me afasto de alguém. Ontem no rádio ouvi Zeca Baleiro, porém, confesso, prefiro Jair Oliveira. Quem vai saber que um dia os dois irão por nós se unir?
Podemos, talvez, nos encontrar, num corredor, esperando o elevador ou num show gratuito em algum lugar. Sinto que ocupamos os mesmos espaços, mas não sei quem é você. Não tenho uma imagem, um cheiro, tampouco um sorriso para que eu possa realmente saber. Confesso que não desafiarei meu corpo, minha alma por um vão prazer. Até comento com os amigos que estou esperando alguém como você.
Se me perguntarem agora, nessa esquina, no ponto de ônibus: quem é essa menina? Responderei, talvez, um pouco acanhado, simplesmente: é ela. Alguém que não sei quem é, mas hei de saber.
Migrei, então, para versos mais simples. Carregados de uma certa tristeza. Quando eu te conhecer já estarei, praticamente, sozinho e, por sorte, você saberá me compreender, terá paciência e até bom humor para não chorar a resistência que, quase, forçarei você a ter.
Viro a próxima rua, me sento quase em frente de onde está você, eu não sei, você não sabe. Esse será o momento que antecede ao suspiro e ao “para sempre”.
Não me importo com falsos clichês, continuo a fumar, mas percebo que posso morrer sem te conhecer. Até diminuo na bebida, esperando que meu fígado entenda certa abstinência por um amor, que tenho certeza, não será em vão.
Ontem me debrucei próximo aonde um dia vamos nos beijar, um certo ar de cansaço, confesso, havia no meu suspirar. Não ando apaixonado, talvez, porque eu espere você logo chegar. Observo uma exposição que daqui algumas semanas veremos juntos, esperando cruzar nossas mãos. Folheio livros na Arlequim com você longe de mim. Compro uma pipoca no Paço, a mesma que nossa fome um dia matará. Um bilhete de cinema, um filme que está para estrear... Tudo o que ainda não vejo ou vi me preparar para te esperar.
Caminhos que a gente não entende. Língua que a gente aprende e que um dia nem vai usar. Tristezas que a gente passa, só para sorrir quando se encontrar. Pois meu dia sempre acaba na conta última de imaginar quando meus lábios tocaram os teus meu mundo voltou a rodar. Pois o que é o passado o presente futuro? Se agora sabemos no que isso tudo foi dar?



Publicado também em: http://recantodasletras.uol.com.br/autores/brunoalvaro

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ninguém merece ser feliz ao acaso

Enquanto esperam apressadas para mergulharem no sumidouro profundo que são as quatro pistas da Presidente Vargas. Enquanto se acotovelam e não se olham, as pessoas que estão ao seu lado não sabem que você está ali. Você não existe e logo sumirá. São cheiros de fragrâncias misturadas ao suor dos corpos no fim do dia – mas ninguém sabe que você está ali.
Mal sabem que por trás desse olhar pacato, comum, jaz uma vontade imensa de gritar, parar o trânsito sem ser por sinal vermelho, congestionamento, assalto à mão armada ou atropelamento.
Mal sabem que você quer abrir os botões da camisa e pôr para fora a todos pulmões um grito de liberdade, um grito vazio de liberdade, como um mendigo que se hospeda nas marquises dos prédios da Presidente Vargas. Um grito. Apenas um grito. Elas mal sabem que é um grito que você quer dar ali parado, pacato.
Ninguém merece ser feliz ao acaso.

A cada pista que você atravessa, em cada pessoa que você se esbarra, é o esbaforido suspiro dos pés apertados pelos tênis que hoje você resolveu usar. Cada contato humano é tão sub-humano que a voz do teu grito não seria ouvida por ninguém, nem mesmo por você. Pois a sinfonia descadenciada que você ouve das buzinas, dos burburinhos das meninas e do comentário dos rapazes não quer dizer que hoje seja sexta-feira. Querem dizer que a vida segue. É triste, mas ela segue sem você.

E você, quando vê o boneco do último semáforo piscando, piscando, piscando, avisando intermitentemente que é hora de parar, você corre. Você corre e não pára mais.
Ninguém merece ser feliz ao acaso.
Pega a Primeiro de Março como um louco, ignora os obstáculos da calçada. Você quer ser vento muito mais do que visto e ouvido. Seu grito agora é seu corpo e seus pés calejados te dão a direção do nada que você quer alcançar. De repente você pára.
Esbaforido, coloca as mãos nas coxas, levemente ergue os olhos e vê tantos prédios, tão bonitos, tão cheios de gente, tão cheios de vida. E não se cansa de olhar. Roda de braços abertos no meio do Largo da Carioca, não quer ser mais vento, quer ser pássaro. Quer olhar de perto as janelas dos prédios. As janelas acesas dos prédios. Mas você ainda está no primeiro andar.
Desengonçado, como um louco varrido, sobe correndo o prédio mais alto que encontra, à sua cola um guarda gritando, os contínuos olhando assustados, o velho ascensorista com as mãos na cabeça, pessoas sem entenderem nada, executivos, madames, atendentes e boys – ninguém merece ser feliz ao acaso.
E você corre, já não é mais vento, quer ser pássaro e mais nada. Já não há mais grito, nem sede, nem poços d’água. No alto do prédio você apenas abre os braços, estufa os pulmões e resolve que nesse dia você é um pássaro que canta com notas agudas: Ninguém merece ser feliz ao acaso.