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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A solidão ou o que é amizade?

Faz tempo ou mesmo eu não vejo o tempo passar. Você vê? Não sei. O gato dorme aos meus pés e saí antes para fazer a barba, me relaxa fazer a barba. É um bom barbeiro, de lâmina e toalha quente no meu rosto. Calmamente depois de amaciar minha pele, a mesma toalha, já mais fria, cobre meus olhos e sinto a lâmina passar pelo pescoço. Faz tempo.

Era para estar por aqui conversando com você sobre Capitães da Areia, que já li novamente faz tempo. É, faz tempo. Mas não tenho tido forças e nem sei direito o que me move. Se eu pudesse nem me mover me movia. Ia vendo a barba e os cabelos crescerem com o tempo passando e quem sabe a morte chegando tranquila como o gato aos meus pés. Porém, o tempo passa lento, o gato perturba tanto quanto os mosquitos que chegam sem convite quando cai a noite.

Já li uns três livros alguma coisa de quê depois do Capitães da Areia e depois desses três comecei o ABC de Castro Alves, que sucede Capitães da Areia, sabe? Pois é. Faz tempo. Nem sei. Não me lembro bem, mas sei que decidi ler um a um, cada livro – e alguns ainda não tenho – de Jorge Amado na ordem cronológica dos lançamentos originais. Um a um. Mas nem isso me move. Nem a bicicleta me move. Fiz a barba pois estavam me incomodando os pelos do bigode entrando pela boca e, falo a verdade, me relaxa deitar na cadeira do barbeiro nessa cidade pequena que é grande que me faz lembrar da cidade onde eu nasci e ao mesmo tempo esquecer a cidade onde eu nasci... deitar na cadeira do barbeiro me relaxa, pois sentir a toalha quente sobre meu rosto, depois meus olhos vendados e a lâmina percorrendo meu pescoço, nem sei, mas me relaxa.

Não sei bem o que é amizade, acho que nunca soube. Sei que há por aí, espalhadas pelo mundo, tão perto, outros tão longe, umas amizades de contar no dedo. Mesmo assim não sei bem. Pois todo mundo tem problemas. Problemas com família, com dinheiro, consigo mesmo ou até comigo. Acho que às vezes sou um tipo de problema até mesmo para a minha mãe e o meu pai – que o que não vejo os guarde com saúde, pois nem sei, faz tempo e o tempo vai passando. Às vezes bate essa ideia torta que me balança: sou um problema para a minha mãe e para o meu pai. E pensando essa ideia, construindo, me bate forte uma ideia deles lá longe e eu aqui longe também e o tempo passando para todo mundo, já que o tempo passa mesmo. Mas é mais fácil lidar com o tempo passando, a saudade aumentando e a ideia torta crescendo feito barriga gestante, feito barba e cabelos ou crianças mal-educadas por parentes violentos e que se tornam crianças violentas. Ou um amor violento que considera fraqueza qualquer tipo de tristeza diante de qualquer tipo de tristeza, do que lidar com minha cara no espelho.

Faz tempo. Já nem sei. Não há grama mais verde no vizinho, não há nem grama. E não sei direito o que é amizade e por isso fico em silêncio com os pés quentes graças ao gato. Os pés quentes me dão a sensação de vivo, pois morto ou pessoa sem sorte tem pé frio. Não é? Nem sei.

Não pedalo mais. Não acho graça em sair. E se saio é coisa rápida ou mesmo forçado. Mas não pedalo e isso me dói. Dói tanto quanto ouvir de um amor violento que é frescura demais ficar triste pela tristeza. É a síndrome vazia na crença de que se você lida bem com os seus problemas todo mundo tem que lidar. Por isso mesmo me relaxa fazer a barba, a toalha quente sobre meu rosto como que me entorpecendo e de repente meus olhos vendados e a lâmina passando pelo meu pescoço aparando os fios meio brancos, meio ruivos para ficarem brancos da barba que cresce, pois os cabelos já estão grandes.

E todo mundo tem problema, eu sei. Até me satisfaz – não vou mentir – saber que tem gente por aí que lida bem com seus problemas. Mas me bate uma angústia danada e forte de saber que tem gente que só porque lida bem com seus problemas, se motivam num deus, numa santa, numa coisa que não sei o quê, na esperança de viver novamente com quem já se foi ou de ouvir quem já se foi... essa gente que se fia nisso, me angustia quando me falam é frescura, você é fraco. E me vem uma ideia torta – faz tempo, nem sei – de que sou mesmo fraco e, pior, sou um problema para a minha mãe e pai e para as amizades que – olhe lá – conto nos dedos. Eu que nem sei o que é direito amizade, acho que nunca soube e, talvez, nem essas amizades saibam o que é amizade: todo mundo tem problemas e por isso não dá tempo de pensar direito nisso, isso nem é problema, por que basta você ir sumindo e você percebe que ninguém vê ou na verdade você vai sumindo e estão esperando que você pergunte por que elas sumiram e todo mundo no fundo some porque todo mundo está esperando um telefonema, uma mensagem, uma carta de olá, como vai?, mas você, digo, eu, vou sumindo, pois veio essa ideia do amor violento: eu sou mesmo um estorvo, um problema e arranjo problema. E acho mesmo que o problema sou eu e se sou eu, não faz muita diferença ficar incomodando perguntando: olá, como vai?

Faz tempo. Nem sei. É aquela coisa meio chinfrim, você sabe? E vem quem é prolixo, vem quem é alto astral, vem que é do berço da sinceridade e quem quer te mudar o pensamento com frases de efeito: isso é frescura, ficar triste pela tristeza. Aí eu vou ficando em silêncio, vou ficando mudo e acho que mudo a gente vai diminuindo e sumindo. Mas é difícil ficar mudo, é um processo de treinamento e é doloroso.

Acho bonita aquela canção do Paulinho da Viola, Sinal Fechado, acho a letra bonita e é bonito como ele encaixa cada acorde naquela melodia angustiada. E vai sumindo.

Esses malditos mosquitos. Esses malditos remédios. Mas deve ser mais difícil para quem se mete a escrever poesia. Pois quem escreve poesia fica no dilema: dou para o mundo ler ou guardo para mim?

Eu, particularmente, não vejo sentido em poesia que não se dá ao mundo para leitura. Pois poesia quer palco tanto quanto quem pensa em dar cabo um dia dá cabo. Mas aí é ideia minha, ninguém precisa concordar, tanto quanto ninguém precisa chancelar poema como bonito ou feio. Poema é poema. E eu nem entendo direito de poesia, sei que há amores violentos como versos que se encaixam, como há também amizades que se perdem por a gente nem saber o que se tem.

Mas uma coisa é certa, todo mundo tem problema e o meu problema convém mais aos outros do que seus próprios problemas. Todo mundo tem uma solução para o meu problema, às vezes com uma carga tão violenta de certeza que chego a me envergonhar de ousar a falar do que eu julgo serem meus problemas – tem gente com problema pior que o teu! Fraqueza, frescura! – e por isso para quê ficar me expondo? Faz tempo e o vento vai mudando e o que é mesmo amizade? Talvez nem o gato esquentando os meus pés saiba dizer, se ele falasse.

sábado, 13 de agosto de 2016

A razão da loucura

Mercado Governador Albano Franco - Aracaju-SE

Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe mais o mangue
(Aracaju - Tomás Improta - Vinícius Cantuária - Caetano Veloso - 1979)

Tenho por costume me levantar um pouco mais tarde nos finais de semana, algo entre às 7:30 e 8:30, por aí. Pego o carro e religiosamente vou aos Mercados Centrais de Aracaju. Não sei, mas o vozerio, a agitação, o vento que vem do rio, o céu azul... tudo isso, e alguma coisa a mais, me faz ter uma sensação boa de vida.

Acredito piamente que nós brasileiros nascemos com uma desigualdade nas pernas muito grande e que se reflete de forma muito evidente no trânsito: um pé muito pesado para o acelerador e o outro muito lento para o freio.
É meio provinciano ou local isso, um exemplo muito específico, eu sei, porém, todos sabem que para sair andando do estacionamento próximo ao Terminal Mercado (o dos ônibus) e atravessar a estreita rua que dá para o espaço de pescados ou o das carnes do Mercado Governador Albano Franco é necessário um balé acrobático. Um equilíbrio extremo, quase passos certeiros de valsa para nos desviarmos dos carros e motos que parecem ter um prazer extremo em ver os pedestres suados sob sol quente de Sergipe, afoitos na tentativa de chegar até o  primeiro Mercado.
Não sou um bom bailarino. Dois pra lá, dois prá cá.
E hoje, não diferente dos outros finais de semana, quase fui pego por um Siena fire prata, quatro portas, placa de Aracaju e tendo um senhor um pouco calvo, cabelos brancos e camiseta como condutor. Acho que ele estava com uma sede tremenda, um ódio tamanho para acertar as contas com alguém – ou ele é assim mesmo – pois quando tentei atravessar à frente do seu objeto de poder, aquilo que o torna um individuo diferente dos caminhantes, ele acelerou mais e quase me pegou. Curiosamente, fui salvo pela fidalguia de um motociclista que parou o trânsito da “segunda faixa” – não sei bem se existem faixas ali.
Em meio ao caos cotidiano, ainda pude ouvir um “filho da puta!” em brados retumbantes do motorista! Pensei comigo, poxa nem um “filho do cabrunco... foi filho da puta mesmo!”. Vida que segue e a minha seguiu.
Fiz o que sempre faço, passei na mesma banca, com o mesmo moço e pedi uma água de coco, trocamos uma ideia e ele fez a mesma piada dos outros tantos finais de semana: “Já se protegendo pra cerveja da tarde!”. Eu sempre sorrio e balanço a cabeça.
Fui no mesmo vendedor de queijo coalho dos sete anos em que vivo em Sergipe. Conversamos sobre a mesma coisa dos últimos cinco e depois enfrentei as calçadas justas e abarrotadas para comprar um filtro d’água. Na volta, de fato, tomei uma cerveja e comi um caldo de mocotó no segundo Mercado, enquanto os chorões afinavam os instrumentos. Fiquei pouco ali.
No vendedor ervas, bati um papo e comprei um capim santo pro bichano e, de costume, atravessei o que eu chamo de Paço, onde fazem os tradicionais forrós de junho. Tudo muito cansativo para que você me ouça, eu sei. Mas a alguns metros de entrar no primeiro Mercado, o das frutas, o dos pescados... aquele em que tempos atrás quase virei parte de asfalto. Ouço uma voz firme, grosseira, me questionando de forma intimidadora: “Você é maluco é?”.
Nesse momento minha educação tipicamente da Baixada Fluminense surgiu como um sentido de Aranha prevendo o perigo. Continuei em passos normais. “VOCÊ É MALUCO, PORRA? ESTOU FALANDO COM VOCÊ!”. A coisa ficou séria.
Parei. Tiro nas costas se não matar aleija.
Olhei firme, porém tranquilo. “VOCÊ É MALUCO, QUER MORRER?”. Ah, a didática do trânsito. A didática do motorista cheio de razão que não leu a cartilha do DETRAN.
Frações de segundo serão transpostas em palavras para você, afinal, a mente humana funciona de maneira muito curiosa e um segundo realmente pode parecer uma eternidade quando tentamos relembrar e concretizar a memória em palavras. Então me dê sua mão e vamos juntos para dentro da minha cabeça naquele instante que agora se eterniza entre nós dois:
Se eu responder que não sou maluco darei razão a ele para converter a violência verbal em violência física, violência evidente para mim, mas evidentemente natural e correta para ele. Eu continuava olhando, se houvesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa. Se eu continuar calado, no máximo ficarei ouvindo mais alguns impropérios desse idoso, mau motorista, mau cidadão, arrogante e que deve ter uma vida fodida, tratar mal seus filhos, mulher. Posso mandá-lo tomar no olho do cu, se danar. Mas isso lhe dará razão para partir para cima de mim. Bater em velho é uma puta sacanagem. Porém também posso apanhar. Puta sacanagem. Ele pode estar armado, pode me matar e ele já quase me matou. Eu continuava olhando para ele, se eu tivesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa, isso só alguns loucos passivos têm. Preciso ser racional. Ficarei parado olhando para ele, sem rir, sem me mexer, a não ser que ele avance. Posso me desviar. Pensei também, confesso, se ele partisse para cima de mim: Posso dar na cabeça dele com a parte de terra da muda de capim santo, o filtro não serve. Não! Vou destruir a muda, destruir o filtro. Fiquei parado, olhando para ele.
“VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA NÃO É? ÔXE! É MALUCO MESMO ESSA PRAGA. NÃO DEVIA TÁ SOLTO POR AÍ NÃO, PODIA TÁ AGRADINDO ALGUÉM. AÍ ATRAVESSA ASSIM DESEMBESTADO. E ESSAS MARCA AÍ NO BRAÇO? É COLEIRA? É MACUMBA?”. Eu parado, olhando. Nós dois, talvez, os únicos no mundo. O tempo parado. Entre o centro e a periferia do Paço. Ele, sei lá de onde. Eu de um morro da Baixada Fluminense. Me equilibrando entre o bem e o mal. Meu silêncio, minha segurança. A voz dos meus pais dizendo na infância que quem anda com porco farelo come. Você tem que estudar. Estudar te fará uma pessoa melhor. Minha mãe na última semana aconselhando: você anda irritadiço. Precisa ser mais calmo. Pode surtar a qualquer momento. Eu chorando ao telefone. Minha mãe me aconselhando. E eu parado ouvindo aquele senhor bradando com dedo em riste que eu era maluco. Louco de pedra. Irracional. Eu. Ele. Nós. Eu pensando isso tudo. Um minuto, talvez. Esse foi o tempo. Talvez. A voz dele amansou. Me chamou de filho. Perguntou onde estavam meus pais. Afinal, eu era um louco, um maluco. Aconselhou que eu não devia ficar perambulando pelo Centro de Aracaju. Aconselhou o caralho, me deu foi bronca. “O Centro é perigoso” ele disse. “Vai, vai. Vai tomar seu ônibus. Vai pra casa!”. Não esbocei palavras durante aquele um minuto, um minuto e meio, realmente não sei medir o tempo. Continuei caminhando, o cheiro bom do capim santo. O vozerio novamente, as mesmas piadas, os abanos de cabeça. O moço dos ovos capoeira. A tia das lambretas. Os cheiros. Sorri. Não olhei para trás. Sorri. Estou ficando mais calmo. Menos irritado como minha mãe aconselhou. Não vou surtar, precisar de remédios, falar com profissionais. Eu terei sempre os Mercados Centrais.


sábado, 25 de junho de 2016

A loteria na Babilônia ou ensaio sobre um lugar comum

Rafael Braga


Como todos os homens da Babilônia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio, os cárceres. Olhem: falta o indicador de minha mão direita. Olhem: por este rasgão da capa se vê em minha barriga uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth.
(Jorge Luis Borges, a loteria na babilônia. Ficções (1944), p. 53)


Dentre as mentiras da vida
Duas nos revelam mais:
- É um prazer conhecê-lo
- Era muito bom rapaz
(Aldir Blanc e João Bosco, Nada a desculpar, 1973)


A formação malandro cocô
Se na França, onde os políticos tanto da esquerda quanto da direita, cometem erros primários, e a maioria dos que ocupam altos cargos, inclusive o atual presidente, estudaram na Sciences Po, imaginem no Brasil, em que carreira política se faz, geralmente, por ser ex-jogador de futebol, ex-policial torturador ou não, líder religioso neopentecostal, contraventor, ex-celebridade?
É claro, esse é um exemplo tosco, simplista como o são as frases desconexas de um mau ventríloquo aprendendo a arte. Não precisa jogar a cerveja na minha cara, virar a mesa e me dar nas costas com a cadeira de ferro. Calma, cagalhão e cagalhona! Analogias são perigosas nos últimos tempos, tanto quanto a ironia, eu sei.
O que quero dizer é que a política no Brasil nunca foi algo tão sério, a ponto de ser historicamente institucionalizado como estudo. Aliás, Ciência Política é um campo que tem um pouco mais de 50 anos, ou seja, extremamente jovem. Isso me leva a ousar dizer que, por não ter sido e não ser algo devidamente sério no país que mereça atenção, a política sempre foi feita na base do exibicionismo, do “tipo ideal” midiático – quando ela passou a ter importância fulcral –, quando não, na base da oligarquia hereditária. Esta última, o modo mais corriqueiro de se fazer e manter a política, enquanto poder, nas mãos dos mesmos senhores e senhoras de terras e de gente no Brasil.
No país da onça de cativeiro assassinada – são duas mortes em questão, vale frisar –, se aprende os meandros da Política no ciclo vicioso da histórica maneira de se fazer política no jeitinho.
É como a vida numa cela de presídio, numa Polinter da vida ou num morro qualquer: se você está ali, chegou ali, por roubar um frango, um bombom numa loja de grande porte, mofará e perderá toda a melanina da pele, será esquecido pelo Sistema e quando, enfim, deixar de ser uma ficha numa pilha gigantesca, quando for lembrado, se for, sairá de lá assaltante de banco.
Ou se está ali por um baseado queimado, ou dois, até três, que seja. Por plantar em casa para consumo próprio. Enfim, por ser usuário. Foda-se: saíra de lá traficante e revoltado.
Mas é claro, o menino do morro, não planta e, pasmem, pouco fuma. Ele vende e ele é preto e negro é preso. Presídio, Polinter e Morro: tudo uma coisa só.
Assim é a política brasileira, assim é a prática universitária, é o futebol na rua, o namoro no portão ou a arte na galeria: Jogue o jogo para sobreviver.

A práxis do erro: Jogue o jogo
Jogue o jogo. Frase típica nos salões de sinuca, principalmente, entre os malandros cariocas da Lapa e os paulistas da Boca do Lixo. Jogue o jogo: Joga vida roubada/ Joga vinte e um.../ Sinuca, bilhar,/ Joga pra espetar/ Pra matar/ Pra defesa... (Jogador, de João Bosco e Aldir Blanc. Do disco Tiro de Misericórdia, 1977).
O mais temeroso, e essa é a pedra que quero acertar nas vidraças insensíveis do Shopping Center Building com meu estilingue, é tanto a esquerda, o centro, a direita e os lugar-comum, não se darem conta disso.
A esquerda, a que mais me interessa no momento, por exemplo, se apegou ao discurso de “só caçam o PT” e caem no sumidouro narrativo de ignorar que a evidente corrupção petista é idêntica ao jogo jogado pelo PSDB há anos e ao muro de poder que é o PMDB, para citar aqui apenas os peixes grandes. Por outro lado, a direita, cada vez mais burra e dominada por cagalhões, tem conseguido, aos trancos e barrancos golpistas, manipular a massa como o sempre fez e manter o projeto evidente de só evidenciar os males e falcatruas do Partido dos Trabalhadores e jogar para o tapete que quem aparelhou o sistema foram eles mesmos e, de fato inegável, não o PT.
Daí, a esquerda e a militância petista – há uma grande diferença entre os dois ideologicamente na atualidade e já alguns anos, por sinal – batem de frente dizendo “não!”, contudo, num tipo de combate ainda mais tacanho e ingênuo do que mobilizar massas camponesas no sertão que padecem sem água e pão.
Vejam bem: Primeiramente, o interino ainda está inteiro. O salvador da pátria, a estrela branca e imaculada no centro do vermelho sangue, já assinala para as eleições municipais a mesma vinculação de alianças que lhe custaram mais que um dedo no torno.
Quem vemos no horizonte de esperança? Ciro presidente?  Lomba da massa, lomba da massa que não me deixa sair de casa!


Veja mal: Em nenhum momento do debate, se é que existe algum debate atualmente, a não ser agressões mútuas e infantis, pudemos observar algum tipo de avaliação, um mea culpa sequer, dos erros políticos do governo derrubado. Não, não estou falando da militância. Do eleitorado, de você e de mim. Falo das lideranças. Claro, ingenuidade a minha, afinal, reconhecer os erros, é sair do jogo sacramentado da nossa política, seria abandonar as trincheiras já cheias de ratos e larvas de moscas varejeiras nas nossas feridas putrefatas e com vivo pus. Apodreçamos, mas apodreçamos com honra, mesmo que ela, na verdade, seja pura arrogância hagiográfica construída na Lapa, na Cinelândia ou na Avenida Paulista sobre um carro de som e rouquidão e evidente cansaço.
Vejo o contrário. Observa-se uma militância de esquerda reinventando, tão ingenuamente quanto você ouvir minha voz solicitando autoavaliação das roucas lideranças, pautas de luta contra o governo golpista, ignorando, por exemplo, que os índios já eram mortos sob a bandeira vermelha do PT, tanto quanto são assassinados nesse momento e no governo anterior e no anterior e no anterior e no anterior.
Mariana e Ouro Preto padecem na lama podre e contaminada dessa Política feita, não pelo preparo político, mas pelas mãos do jeitinho brasileiro. Se quer o que se quer: manter a práxis.
Ora, tínhamos a rainha do agronegócio à frente da pasta... da agricultura! E agora assumiu o imperador. Oito e oitenta.

O macho adulto branco sempre no comando e A fila de soldados, quase todos pretos dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos: Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Rafael Braga continua preso e ele, a meu ver, é o maior símbolo dos buracos de avestruzes que somos cada um de nós em nossas “lutas inglórias” de 2013 a 2016, em nossa militância ingênua de joguetes. Cafés com leite, isso é o que nós somos na Política.
Café com leite. Termo, segundo o cronista paulistano João Antônio, que se referia aos garotos que frequentavam os salões de sinuca não ser permitido beber álcool e os mais velhos lhes darem café com leite. Ver a antologia Malagueta, Perus e Bacanaço e o conto homônimo (João Antônio. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 42-181).
Ignoramos os atos assinados durante a última gestão desgovernada pelos desgovernos de favores e alianças: Lei antiterrorismo contra nós terroristas. 
Ignoramos até o mais sensível: os únicos que pagaram pela ingenuidade, foram uma mulher branca, que lutou bravamente contra a Ditadura Civil e Militar, sendo presa e torturada e que foi eleita pelo povo esperançoso e um negro catador de latinhas, lavador de carro nas ruas, representando bem o que é a massa e que somos nós massa esclarecida: cafés com leite.
Os dois são similares. Os dois são epígrafes para a sociedade e para o subtítulo chupado do falo de Caetano. De duas canções de Caetano: Haiti, de 1993 (com uma pequena participação de Gilberto Gil) e O estrangeiro, de 1989.
Dilma Rousseff foi o joguete que marca o machismo político e a dominação masculina nas mãos do mais do mesmo. O moto contínuo. Ela é o exemplo da honestidade que foi derrubada pelos acordos entre leões disfarçados de cordeiro. E está pagando esse preço. Quem era Dilma, se não um interregno do projeto de poder de Lula e o liberalismo disfarçado do PT? Quem é Dilma se não aquela que não compactuou com a práxis do Jogue o Jogo? Não enxerga quem não quer ver. E por ser mulher, por si só, teve e tem de enfrentar o antro sujo de homens sórdidos.
Rafael Braga é o negro, pobre e marginalizado. É, nas poéticas palavras de Francisco Bosco, o malabarista do sinal vermelho. Ele é a evidência de Como quem vê por um vidro/ O que escapa da mão/ Uns exilados de um lado/ Da realidade/ Outros reféns sem resgate/ Da própria tensão (Malabaristas do Sinal Vermelho, de João Bosco e Francisco Bosco. Do disco homônimo de 2003).
Por isso mesmo: Vamos comer Caetano/ Vamos devorá-lo/ Degluti-lo, mastigá-lo/ Vamos lamber a língua (Vamos comer Caetano, de Adriana Calcanhotto. Do disco Maritimo, 1998). Ele é o profeta. O ateu que viu milagres que sabe que, às vezes, é solitário viver.

O tiro de misericórdia ou o réquiem dos enganados
Do canto dos escravos, no passado e no presente, ecoa para um ponto do peito uma canção:
Ê ei
Óia puru céu
Óia puru céu
Puru terra
Diabo te enganou Muriquim
Puru terra
Diabo te enganou João Inácio
Óia pro céu 
Puru terra

(O Canto dos Escravos – Canto IV. Gravadora Eldorado, 1982)

Assim, a vida segue e morre mais um garoto de dez anos como ladrão:


quarta-feira, 4 de maio de 2016

As trincheiras discursivas, os bunkers de monopensamento e o motocontínuo das batalhas campais




São tantas lutas atualmente que não há como nenhuma pessoa se calar diante do cotidiano brasileiro e mesmo mundial. A Internet se tornou um campo discursivo de batalhas diárias ou mesmo uma pedra de mármore fria e gigante dentro de um necrotério, com corpos enfileirados a espera de identificação. Poderia afirmar que ela é também uma grande enfermaria com índios doentes renegados ao esquecimento ou de soldados feridos que lutaram uma guerra de variadas ideologias ou, finalmente, a Rede é uma grande prisão com detentos tuberculosos, tossindo uns nos outros e contaminando mesmo aqueles que ali foram encarcerados por roubar um naco de pão.
Não importa muito a linha metafórica que seguir, é certo que a Internet nos trouxe de maneira acelerada o contato direto com as muitas campanhas militantes que hoje, para apenas tentarmos organizar um pouco as tropas enfileiradas, diríamos que se dividem em três grandes grupos – porém diversos, muito diversos, em suas composições internas.
Você esperou que eu os definisse. Por um momento me forcei a um silêncio reflexivo na tentativa de elencá-los. Não tive capacidade inventiva de nomear cada um deles. Por isso, chamaremos de A, B e C. Na verdade, defini-los já não me importa muito. A bem da verdade, a Internet nos retirou da inocência do Éden e nos possibilitou o dom de conhecermos o bem e o mal. Dito isto, dado o tom da minha voz, posso prosseguir com ou sem você aqui para me ouvir.
Tenho recebido críticas, há tempos, de ser antirreligioso, arduamente contrário aos evangélicos em suas multifacetadas correntes doutrinárias e avesso ao moralismo hipócrita do catolicismo (aquele que mais salta aos olhos). Talvez, essa imagem tenha sido construída por eu nunca ter negado minhas reticências e temores, por exemplo, ao crescimento das igrejas neopentecostais e o silêncio da maioria dos intelectuais ao ignorarem o discurso de seus líderes e um evidente projeto de poder teocrático. Não preciso me justificar. Mas cabem parênteses e eles sempre são necessários: A sociologia e mesmo um jornalismo mais atento (clique aqui) volta e meia buscam tentar compreender e, consequentemente, explicar este fenômeno que agora tomou mais projeção graças aos discursos – católicos e evangélicos, principalmente – por ocasião da votação da abertura de processo de impeachment no Congresso Nacional, no dia 17 de abril. Mais um adendo: Salta-nos sempre aos olhos os discursos fundamentalistas e de forma rasteira e preguiçosa, colocamos num mesmo balaio todo o grupo de católicos e evangélicos, estes últimos realmente mais difíceis de definir em blocos, como se a fala daqueles deputados e deputadas exprimisse fielmente o pensamento de cada uma das muitas igrejas.
O que não pode ser ignorado, que mesmo para os crentes (católicos e evangélicos) que eu coloco numa lista ímpar de construção de opiniões plausíveis e racionalmente vinculadas ao evangelho e avessos a fundamentalismos e moralismos profundos... Mesmo para essas (poucas) amizades e contatos que tenho, é difícil, muito difícil lidar com questões como legalização do aborto, reconhecimento de famílias fundamentadas em homoafetividade, legalização da maconha, ensino das culturas afro-brasileiras nas escolas, educação de gênero, etc. Sempre haverá a sombra de um deus, cuja retórica do amor se baseia, não nos esqueçamos, em aceitá-lo como único salvador e a tal salvação é condicionada às normativas comportamentais que definem um “bom” cristão.
Encerro a longa digressão e se você ainda estiver me ouvindo... Retomo o pensamento.
Naquele fatídico domingo em que vermelhos e amarelos se opuseram nas ruas das principais capitais da República, estrategicamente localizados em pontos que simbolizam o que posso chamar de bunkers de monopensamento, o grosso dos deputados federais iniciou ou encerrou seu voto, incluindo o declaradamente evangélico presidente da Câmara, evocando o tripé deus (cristão), família (tradicional) e fim da corrupção (de quem?). Houve, é claro, aquele que bradou por Ustra e cito aqui para registro. Nos grupos bicolores é possível identificar claramente cristãos, o que reafirma a diversidade que expus acima.
O processo ainda corre, os impactos são tamanhos, as análises infinitas. Por todos os lados, a artilharia é pesada. A questão é que, a meu ver, e acredito que meus olhos são um tanto caleidoscópios, ali nas casamatas (bunkers, para ficar mais elegante) de monopensamento, foram, uma a uma, abertas as trincheiras discursivas, sacramentadas, ordenadas, nas quais cada um de nós, queira quer não, nos alocaríamos, alguns solitários, com nossas baionetas com pontas esferográficas ou de grafite prontas para o chamado. Eu sei. Certa utopia esta minha. Estamos tão perdidos quanto uma matilha sem referências de onde buscar a caça. Atualmente, os secundaristas demonstram mais organização e coesão política que os doutores.
O último grande impacto sentido nas trincheiras e que como demonstrarei, mais uma vez, é fruto de uma longa e histórica omissão dos tenentes e capitãs diplomados após defesas de tese, é o indicativo do Vice-presidente Michel Temer para convocação de um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus para o Ministério da Ciência e Tecnologia – Temer já apronta seu ministério diante da iminente queda, da qual ele contribuiu intimamente, da Presidenta Dilma Rousseff. Essa vinculação política com lideranças religiosas não é nova e exclusividade de Temer.
Ora, Marcos Pereira, advogado, ex-presidente da Record, presidente nacional do PRB e bispo – licenciado – da IURD já aceitou prontamente a função. Está em sua casamata apenas aguardando.
Ouvem-se os primeiros tiros das baionetas, os soldados saem das trincheiras e avançam, mesmo que lentamente, pelo campo de batalha. Estamos todos fadados a uma estanha derrota.
Marc Leopold Benjamim Bloch, medievalista francês que foi morto pelo Regime de Vichy na Segunda Guerra Mundial, escreveu um pertinente livro chamado L’étrange défaite, cujo subtítulo é tão emblemático quanto: Témoignage écrite en 1940. Publicado por esforços ímpares, em 1946, só teve um grande impacto na França em 1990. Paciência, eles também tem suas mazelas. O fato é que das muitas passagens emblemáticas do pequeno grande livro, há uma que eu gostaria de compartilhar com você, felizmente, não por erudição, mas, necessidade, em francês:
Le courage personnel est, chez qui choisit la carière des armes, la plus obligatoire de toutes les vertus professionnelles: si indispensable, en vérité, à la bonne conscience du groupe, qu’il y est de règle de la tenir por allant de soi. Je suis, certain que la grande majorité des officiers de l’active a été fidèle à cette brave tradition. S’il y eut, çà et là, des exceptions – j’en ai connu une ou deux durant la dernière guerre; j’ai cru en retrouver quelques-unes durant celle-ci – elles n’atteignent en rien l’honneur de la collectivité. Elles prouvent simplement que l’habit ne réussit pas toujours à faire le moine, et aussi qu’il est partout des êtres assez dépourvus d’imagination pour adopter un métier sans se représenter à quoi il engage: celui de soldat, par example, sans réaliser qu’um jour, peut-être, la vie de garnison devra ceder le pas à la guerre. Ces faibles sont, au fond, avant tout, de pauvres gens qui se sont trompés. Rest qu’il est, dans le mépris du danger, bien des nuances et des degrés. Mais comment en parler un peu longuement, sans blesser, dans nos mémoires, de secretes pudeurs?
Mas como falar mais longamente do assunto sem ferir pudores secretos em nossas memórias? A omissão jaz justamente nisso. E Bloch apenas é utilizado aqui por mim para ilustrar que o problema conjuntural que enfrentamos é um motocontínuo no campo de batalhas onde abrimos as trincheiras para ou observarmos o combate discursivo ou partirmos delas com baionetas em riste para enfrentar o visível invisível: o modus operandi da governança brasileira. Vale lembrar o caso Daciolo no PSOL.
Há anos atrás, alguns criticaram (movimentos LGBT, principalmente), porém muitos buscaram explicar numa “necessidade de governança e negociação política” para amenizar o fato, a eleição majoritária do Pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados Federais. O problema se dividia em dois parâmetros: O primeiro, lógico, era o Feliciano, que já havia dado demonstrações públicas de sua linha de combate às lutas por direitos travadas pelos e pelas homossexuais, sobretudo. Em segundo, talvez, o mais complexo, por ser ele um pastor de linha neopentecostal. Neste item, não há de se ignorar todo o trabalho de base realizado, historicamente, por católicos e evangélicos em regiões distantes, levando, a seus modos, saúde e educação. Sim, ainda existem padres e pastores comprometidos efetivamente com movimentos de base e causas sociais muito próximas às nossas. De qualquer maneira, entra aqui um aspecto que ignoramos no constante relativismo acadêmico-crítico: esperar de evangélicos e católicos, seja  de qualquer linha, fundamentalista ou não, que aceitem de maneira plena bandeiras como igualdade de gênero, legalização do aborto e da maconha, etc., é no mínimo solicitar que ignorem suas próprias bandeiras doutrinárias e que os mantém no mínimo de coesão.
Claro, conhecemos alguns. Eu conheço. Mesmo assim, são reticentes, se não, silenciosos. Conhecem muito bem a doutrina e sabem que no fundo, no fundo, incorrem em julgo desigual ao defender a legalização da maconha, por exemplo. As palavras matrimônio ou casamento, quando nos referimos às uniões homoafetivas são escutadas por estes em silêncio e certamente, em suas mentes, versículos do Gêneses passam por sua visão. Faça o teste e afirme: ontem fui ao casamento de duas amigas minhas.
De todo modo, nas trincheiras é possível observar: nos alocamos ora na covardia, ora no combate cego e suicida. Ouço conversas sobre risco que a Ciência e a Tecnologia no Brasil passam a correr sendo entregues nas mãos de um, cito, “criacionista” declarado. Como ficarão pesquisas voltadas para o estudo das células tronco, o ativismo dos teóricos de gênero, etc., etc.? Pensar que tal indicação (e aceite) não influenciará na CAPES, no CNPq e em diversos órgãos de fomentos à pesquisa, já tão sucateados, é apenas observar fumando nas trincheiras por nós mesmo abertas.
Ao mesmo tempo, fechar os olhos ao fato que o problema que se coloca aqui é apenas a ponta de mais um iceberg da nossa política é redigir, sem a mesma eloquência e firmeza que demonstrou Marc Bloch, o depoimento adiantado de um vencido. Sem ignorar nesta minha afirmação que o velho francês lutou até o fim na Resistência, vindo a ser assassinado após prisão. Quantos de nós teremos tal disposição combativa?
O que Michel Temer e seu PMDB conduzem desde o domingo, 17 de abril, apenas para ficarmos com uma data fixa, à parte do fato de não ter sido sequer concluído o processo de afastamento, não foge ao histórico de acordos que marcaram a derrota do governo Dilma Rousseff e o seu PT. O jogo de negociatas de Temer não é diferente de anos e anos de um perigoso vício político que resumo abaixo.
Por apoio, vende-se a alma ao diabo e ignora-se que, assim como deus, ele cobra seus favores.
Que me permita o cansaço dos seus olhos-ouvidos, com mais uma longa citação de um livro. Não posso fugir aos medievalistas que indiretamente me influenciaram em suas reflexões. Área que não renegarei jamais. Minha formação específica junto ao diploma História. Reduto de onde teço com minha baioneta minhas críticas, mas que nunca afirmarei ser mais importante que outro a minha volta. E em tempos em que o tacanho acadêmico, como aves de rapina sobrevoam nossas cabeças e apenas assinalam o ego soturno da autoglorificação, é necessário seu esforço na leitura-escuta:
“Ele existe, o Deus das batalhas. As intenções e a vontade dos homens são presididas pela vontade de Deus, que outorga as vitórias e desencadeia as derrotas. Deus não tem o costume de abandonar as causas justas, nem aqueles que de boa-fé o servem. Se, nesse espírito teológico, tentarmos observar as vitórias militares que constituem o estrecho da história do mundo, encontraremos facilmente o sinal dos desígnos da vontade divina. Há muito pouco espaço entre a vitória e a derrota, as circunstâncias do acaso são por demais mutáveis, a batalha mais promissora pode ser perdida pelo feito de ações insuperáveis: ninguém pode estar certo de que a vontade de Deus se inclina para o seu lado”. Foi o que escreveu um general: Francisco Franco. Em 1964. E no dia 25 de julho de 1971, dia da festa de Santiago de Compostela, patrono da Espanha, rodeado de membros de seu gabinete e de duas dezenas de bispos, ajoelhado diante da estátua do santo, ele volta a falar. Para dizer o que? “Durante nossa cruzada de libertação, constatamos que as vitórias mais decisivas foram alcançadas em dias correspondentes às grandes festas da Espanha. Foi o caso da batalha de Brunete, em que, depois de vários dias de combates infrutíferos, a vitória nos coube no dia da festa de nosso santo patrono. Não pode ser diferente quando se combate pela fé, pela Espanha e pela justiça. A guerra se faz mais facilmente quando se tem Deus como aliado.”
Deus. O dos holocaustos e dos desfiles militares o deus da ordem restabelecida. Esse grande cavaleiro lívido que pairava sobre o campo dos mortos, certa noite, em Brunete, pairava em outros tempos sobre Bouvines. Ele paira também sobre Guernica, sobre Auschwitz, sobre Hiroshima, sobre Hanói e sobre todos os hospitais depois de todos os conflitos. Esse deus, tampouco, parece que não morrerá tão cedo. Ele sempre reconhece os seus.
Assim escreveu Georges Duby, no término de seu O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214, lançado em 1973. Acredito que não preciso ressaltar quem foi Francisco Franco, mas é sempre bom lembrar... foi um ditador espanhol extremante sanguinário.
Não se esqueça: deus e o diabo sempre reconhecem os seus e na política brasileira, que urge por uma consistente reforma que renove de uma vez por todas o parlamento, essas duas figuras andam lado a lado há tempos.



*Para não dizer que citei errado:
BLOCH, Marc. L’étrange défaite (Témoignage écrite en 1940). Paris: Gallimard, 1990. p. 135. Original de 1946.
DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214. Tradução de Maria Cristina Frias. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. p. 244. Original de 1973.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O medo é o Orixá falar...

Aquarela de Carybé, encontrada originalmente no livro Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, lançado em 1981

Demorei algum tempo para esboçar cada frase que deposito aqui pelos meus lábios. Talvez pelo receio de ser mal interpretado entre o que se faz palavra junto ao pensamento e se concretiza em som. Considero que sou um meio termo entre o esboço e o concreto, aquilo que ficará cravado no fundo do ouvido.
Demorei um tempo para me reconhecer nesse intervalo, nessa lacuna, e claro que isso tem seu preço: enjôo, mal estar, febre, dores de cabeça horríveis. Muito provavelmente porque a estética é a ressaca que surge no dia seguinte após a vigília na construção de um texto-conversa.
Há uns bons meses assisti uma entrevista do produtor, músico e compositor Alexandre Kamal Kassin que mexeu profundamente comigo. Até compartilhei a impressão em algumas rodas de conversa. Mas a coisa nunca se manifestou concreta para produzir alguma voz específica que valesse todo o esforço de me expor com alguma apresentação nova sem mover ao vivo, como de costume, um músculo sequer da fase.
Em determinado momento do vídeo, Kassin comenta que um dia viajando pela Bahia com um amigo francês, foram procurar uma mãe de santo para que jogasse os búzios para que o europeu descobrisse qual era o seu “ôrixa”. “Querer saber meu ôrixa”, dizia ele.
Quando chegaram ao local, segundo Kassin, a mãe de santo o olhou e disse firmemente: “eu jogarei os búzios para o seu amigo, porém, antes tenho duas coisas importantes para te dizer, uma é mais importante que a outra, mas as duas serão fundamentais na sua vida.” A primeira coisa foi: “Ligue para sua mãe e a tranquilize, seu tio teve um problema grave de saúde, mas já está bem. Fale com ela o mais rápido o possível, se não ela pode partir e não voltar mais” e a segunda coisa, continuou o músico, “largue o que você está fazendo. Você não é feliz e realizado. Você acha que é. Mas não é. Sua vida será melhor se você fizer o que quer fazer de verdade.”.
Basicamente isso. Ele então ligou imediatamente para o Rio de Janeiro. Seu tio havia sofrido um infarto, mas já se recuperava. Sua mãe estava nos Estados Unidos e assim que a telefonou, ela se tranquilizou e sua pressão arterial baixou. Na época, Kassin era produtor musical de alguns ou um, não me lembro, programas da Rede Globo de Televisão. Financeiramente estava realizado. Porém, de fato, ele pausa sorrindo, não era plenamente feliz fazendo o que fazia.
A história segue. Kassin pediu demissão, abriu um estúdio e passou a se dedicar integralmente à profissão de produtor de discos de jovens artistas brasileiros como ele e alguns grandes nomes da MPB. No mini programa-documentário, o carioca finaliza sua fala dizendo que não tinha maior prazer que virar a noite num estúdio e mesmo assim acordar cedo na manhã seguinte. Hoje não ganha tão bem quanto ganhava na TV. Mas é feliz.
O longo parêntese de minha fala tem razão de ser, sofri um pouco sobre como te deixar a par disso. Mas, não havia outro meio de você ouvir. A tal ressaca estética do pós-escrito. Dois fatos são singulares para mim e explicam o porquê de uma história que não é minha estar na introdução da nossa conversa. Volto ao passado, para depois te levar novamente ao mesmo ponto de partida.
Quando eu tinha entre seis e sete anos de idade tinha pesadelos terríveis. Na verdade, não sei quando se iniciaram, se de fato aos seis, mas, é o que consigo lembrar e a memória serve ao esquecimento. Certamente, a Psicologia explica. Mas, fiquemos com o senso comum daquele momento: Para os meus pais e os mais velhos da família, eu estava em fase de crescimento e era absolutamente normal aquele tipo de coisa. Porém, os sonhos medonhos se tornaram doentios, eu tinha insônia, minha mãe acordava com meus gritos. A vida de fato se tornou um inferno para uma criança que era cercada de amor por todos os lados. E não existe inferno mais profundo que uma criança infeliz.
Curioso, mas se penso em duas pessoas cuja religião nunca foi um fator determinante para educação e formação ética, elas são os meus pais. Cada um tem uma característica muito particular: papai nunca conversou, que eu me lembre, sobre deus ou qualquer coisa do tipo. Nem “papai do céu” saía da sua boca. Nunca vi meu pai fazendo sinal de cruz, rezando ou qualquer coisa do tipo na minha infância. O máximo que me recordo era um cordão de ouro com uma imagem de São Jorge. Mas isso sempre foi moda no subúrbio e não sei se havia algum sentido de religiosidade nisso. Contudo, sempre foi um homem sensível ao filho. Meu pai é muito frouxo para assunto de morte. Hoje, adulto, tenho certeza que meu pai se caga de medo de morrer. Digo isso rindo, pois de fato, ele morre de medo da morte. Não fala no assunto, jamais. Não sei nesse ponto o que se passa em sua cabeça. Conversamos sobre tudo. Menos sobre morte. Da morte, meu pai quer distância.
Minha mãe é o inverso. Não sei se desde cedo ou se por profissão, ela ficou um tanto fria com o fenômeno inevitável para cada um de nós. Mamãe passou isso para mim. Curioso que temos similitudes peculiares. Diferentemente de meu pai, sempre vi minha mãe na busca por certo tipo de resposta que, de fato, a gente nunca vai ter. Até certo ponto, tentamos os dois. Nos debatemos na tentativa de buscar em algo que queríamos palpável, não a solução talvez, mas a resposta para o que nos acontecia. Posso dizer por ela que desistimos quase juntos.
De todo modo, me lembro na infância dos plantões que ela dava no Hospital Iguaçu, um prédio sombrio e úmido que me deva medo. Ali, meu avó ficou internado, não recordo se veio a falecer. Mas, me lembro de visitar alguns parentes que, um a um, foram dando seu último suspiro na terra.
Nesse hospital minha mãe uma vez me mostrou “a pedra”. A pedra era – e é – uma mesa de concreto de cumprimento de um ser humano padrão. Ali se colocam os corpos sem vida, os preparam para o velório, lhes dão banho. Vi a pedra vazia, claro. Os corpos saiam por onde mamãe deixava o plantão. Um portão preto ao fundo do hospital e que dava de frente para uma carceragem da Polinter de Nova Iguaçu. Às 19:00 horas em ponto meu pai estava lá com seu fusca amarelo e eu conversando com ele aguardando minha mãe.
Hoje, com a distância que o tempo me traz, vejo que via minha saindo a cada dia mais morta do que os corpos sem ar que eram transportados pelos carros funerários.
A tal não-religião da família não foi impedimento para que meu pai aceitasse o conselho de uma amiga de trabalho, que frequentava o terreiro de Candomblé em frente a nossa casa, para que me levasse para curar meu mal noturno. Não sei se houve relutância.
A questão é que minha lembrança me leva ao fundo da casa do Seu Clair e da Dona Iraci, me vejo entrando dentro do pequeno espaço com ela de branco, imponente, fumando. Ouço atabaques e vejo gente conhecida e que nunca mais revi. Cânticos são entoados. Acho que sou a única criança. Ela bafora algo em meu rosto, não tenho medo. Minhas mãos estão nas mãos de minha mãe. A mãe de santo sorri para mim. Diz que nhôzinho ficará bem, diz que vou voltar a sonhar coisas boas e me dá de beber numa cuia de coco um líquido doce e forte. Tem gosto de ervas e hoje sei que tem gosto de álcool. Nhôzinho bebe. Bebe que fica bom. Eu bebo e peço mais. Ela ou a entidade que a possuía sorri uma gargalhada que eu já havia ouvido e tinha medo às noites mal dormidas, mas que ouviria nos anos seguintes voltando da universidade, da rua, de onde você quiser imaginar e que não temeria mais desde então. Nhôzinho gosta. Nhôzinho bebe.
Nunca mais. Eu repito: nunca mais tive um pesadelo sequer na minha vida e mesmo nos momentos tortuosos e mais tristes, há uma lógica racional que não me permite acreditar que me afundarei num pesadelo enquanto durmo, mesmo se não durmo bem. Mas é como se algo suspirasse palavras no meu ouvido dizendo: não é real.
Finco meus pés no Pelourinho, suo o calor da tarde. Não há linho de fina qualidade que suporte. À nossa frente a arte de Carybé. Imponentes figuras talhadas em madeiras: são os orixás. Não sei quantas vezes em minhas idas e vindas à Bahia que paro para contemplar toda aquela grandiosidade.

Museu Afro-Brasileiro

Ela sorri. Pois ela busca algo mais do que eu. Ela olha tão atentamente. Mas, eu sei. Um dia, ela diz, terei coragem de procurar uma mãe de santo para me orientar. Eu sorrio por dentro e uma voz que eu já conheço da lembrança me sussurra palavras que alertam minha reticência: O medo é o Orixá falar.


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A consciência construída e uma afirmação necessária

O mestre Angenor de Oliveira, Cartola

Os óculos escuros de Cartola
(Letra: Marcelo Yuka/ Música: Max de Castro)

Uma lente negra protege os olhos
Dando chance a outros pontos de vista
Poesia mantida

Poesia cantada

Poesia pichada

Como consequência de vida

Pra que a raiva não nos forme

Com o mesmo peso e medida

O povo pobre faz da arte história

Como os óculos escuros de cartola

Os óculos escuros de Cartola

Eu ouço o eco dessa hora
Sensibilidade a toda prova
Foi-se o corpo
Foi-se o cansaço
Só não foi embora a necessidade
De ser leve apesar
De tanto peso nas costas
Como cerveja gelada depois da obra
Verdades sem moda
Como os óculos escuros de Cartola
Os óculos escuros de Cartola.

Recentemente, numa dessas manhãs cujo peso do tempo, se você permitir, te deixa inerte no chão, eu debatia com meus colegas alunos o velho processo de transição entre o Românico e o Gótico. Uma sala vazia de poucos bons e atentos participantes, janelas amplas que me permitiam ver a luz do sol clareando a grama verde e as idas e vindas de jovens pelo passeio da universidade. Acho que nunca disse isso, mas algumas salas de aula são torturantes quando nos permitem observar que há um vasto mundo de idas e vindas lá fora e ao mesmo tempo instigantes por vermos o movimento da vida correndo.
Naquela ocasião, em especial, eu necessitava arduamente me manter em constante andamento em meu pensamento – não pelo assunto da aula – mas pelo meu estado de cansaço físico e mental de uma longa semana de um mês que parece estar tendo longas semanas de moto-contínuo. Enquanto os sete graduandos acompanhavam minha fala, alguns anotando, outros formulando seus comentários, perguntas ou mesmo pensando na vida... lembrei com certa nostalgia algumas igrejas medievais que pude visitar. Automaticamente, comentei da paz que, apesar dos pesares, eu sentia ao entrar naqueles espaços. Um dos meus alunos pediu a palavra e iniciou um profícuo debate de co-relação, dizendo que havia achado interessante minha fala, pois se recordava que ao visitar uma igreja em Recife ou Olinda (não me lembro agora) com uma amiga negra, o comentário que ela fez foi totalmente inverso ao meu: Ela havia sentido um grande pesar, uma angústia enorme por aquela construção, em especial, ter sido levantada graças ao suor e sofrimento de seus antepassados africanos. Mais do que paz, ela sentiu dor. Por um momento me silenciei, não por vergonha do meu raciocínio ou coisa do tipo, mas processando, primeiro, a sagacidade do comentário do rapaz e, em segundo, a maravilhosa possibilidade que tínhamos naquele momento para discutir História e sua função.
Quando menino, disse eu para turma, passava minhas férias em Paquetá, uma ilha que se localiza, aproximadamente, uns 15 quilômetros do Rio de Janeiro. Lá, passava a infância solto, andando de bicicleta, pescando cocoroca, lendo na biblioteca pública. No Mirante, brincava passando por seus túneis cravados na dura rocha que compunha aquela fortificação de antiga defesa. Naqueles anos nostálgicos da minha infância e pré-adolescência, confessei, nunca no ir e vir correndo, pulando preservativos e merda humana deixadas dentro dos túneis na parte de baixo do Morro do Vigário, ter parado para pensar no que os veios no teto e nas paredes significavam.
Foto de Yuri (Cirulo) - 21 de Fevereiro de 2011

Muito tempo depois, continuei o relato, já adulto, professor de História, visitei com alunos da graduação que passavam o carnaval daquele ano comigo a mesma, porém diferente, ilha e seu mirante. Ao entrar nos túneis um silêncio mórbido em cada um de nós se instaurou e mesmo o belo pôr do sol que beijava a Baía de Guanabara não foi o suficiente para que todos, ao seu próprio modo, sentissem com o tato e com o coração, uma consciência construída de que aquela passagem havia sido perfurada na pedra certamente por escravos africanos arrancados de sua terra por mãos brancas.


Foto de Aquino Neto - 21 de fevereiro de 2011

Não posso falar do sentimento dos meus amigos, mas me recordo ainda agora como as pontas dos meus dedos percorriam a parede e o significado que aquele gesto teve.
Hoje, dia 20 de novembro, comemora-se o Dia da Consciência Negra. Curioso, mas quando eu ainda morava no Rio e subia e descia minha rua, tomava o trem para a Central e convivia constantemente com a visão esdrúxula e doentia do racismo diário que os negros sofrem, nada mais teve tanto impacto quanto o passar os dedos naquelas paredes. Ana dizia hoje pela manhã que, como negra, impressão idêntica a minha no túnel do Mirante de Paquetá, teve ela ao visitar o Cemitério dos Pretos Novos, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro (para conhecer sobre, clique aqui). Ela tem suas razões. Eu tenho as minhas.
As vozes se misturam e me embaraço. Volto à quinta-feira dessa semana: Olho meu aluno e percebo que transmitimos o mesmo pensamento e temos o mesmo questionamento. Talvez, eu, por menos coragem, transformo em palavras naqueles minutos a pergunta que permearia nos momentos finais da nossa aula, certamente, a construção das nossas reflexões: Eu, ele, sua amiga, e hoje pela manhã, Ana, teríamos o mesmo sentimento de perda, dor, revolta, ou até de reflexão do mal que foi a escravidão negra e as feridas ainda abertas que se mantém e tão amargamente tentam ser apagadas pelo discurso tacanho, sem o estudo da História?
A consciência construída torna-se, a meu ver, uma das afirmações mais necessárias no cotidiano e o mecanismo fundamental para anular o discurso, já absorvido até por alguns negros, de que o caminho é esquecer o debate sobre o racismo, mesmo eu já cometi esse erro, é colocar panos quentes na realidade que nos cerca. Não somos todos iguais. Jamais saberei na pele o que é ser preterido por cor em um país tão multicultural quanto o Brasil. Jamais saberei o que é ser parado na rua e revistado antes do branco que caminha ao lado. Jamais saberei muitas coisas sobre o que é ser negro no meu país. Hoje, mais do que nunca, de minha parte ou da do meu aluno, percebo que não se trata de um sentimento de empatia com a História dos Afrobrasileiros e seus antepassados, mas uma profunda necessidade de luta constante pela afirmação de identidade e da dívida que deve ser paga pelos males que este passado escravocrata tão recente legou ao presente e que permanece se reconfigurando constantemente com o olhar reprovativo quando sua companheira negra sobe para o próprio apartamento no elevador social e é veladamente vista como um empregado que deveria subir pelo de serviço...
Aliás: Quem inventou essa praga de que elevador de serviço é para os prestadores de serviço em condomínios...? Elevador de serviço é para descer com entulho, lixo, seu cachorro para passear!



Ps. Se quiser ouvir um som bom, a voz poética, clica aí embaixo nos Óculos escuros de Cartola:



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Oxigênio interdisciplinar, poluição acadêmica e as Luzes escuras de um quase Neon



A Internet me ensinou a fazer piña colada. Consequentemente, os resultados foram imediatos: derrubei quase uma garrafa inteira de rum, leite de coco, abacaxis e pitadas de leite condensado para dentro do meu corpo de trinta e dois anos de idade. O drinque puertoriqueño, além de uma enorme azia, me deixou na rede balançando e divagando devagar durante todo o feriadão.
O impacto na disciplina História, de uma revista lançada pelos intentos de Marc Bloch e Lucien Febvre, em 1929, cujo teor político-acadêmico foi bem assinalado pelo francês François Dosse, no final dos anos 80, não pode deixar jamais de ser pensado, é claro. Mas, valei-me deus, praticamente quase 90 anos depois, o ar de “novidade” que muitos dinossauros, melhor, tiranossauros-rex, tentam dar no país dos tupiniquins a ela, fora o exagero ingênuo, tornou-se chato e jocoso.
Hoje, tanto tempo depois, entre o livro de capa amarela do Dosse (1987) e o de capa verde do Burke (1990), ainda prefiro o primeiro (por ser mais crítico). Ainda guardo com cuidado a cópia que fiz do exemplar que o Clodoaldo carregava para baixo e para cima, com muita estima, naqueles anos agradáveis e sonhadores da graduação. Seu irmão era formado em História na mesma faculdade. Assim como eu, Clodoaldo – que mais parecia um fisiculturista – puxava disciplinas aqui e acolá para tentar se formar. Por onde andará Clodoaldo? Da última vez que nos encontramos, ele estava bem, lecionando em diversos colégios conceituados da Baixada Fluminense. Fez nome. Gente fina pra caralho!
Toda a proposta da revista não deixou jamais de ser interessante. Porém, sejamos francos e visigodos, proposta de fundo político e corporativo na academia. Afinal, à História deveria caber o postulado de “carro-chefe” (por que não carro-forte?) das Ciências Sociais, naquele momento, extremamente inventivas e com propostas realmente inovadoras. Pimba! Puta sacada do jovem Bloch e do, um pouco mais, maduro em idade, Febvre. O primeiro, já sabemos, medievalista, lutou na Primeira Guerra Mundial, no futuro tornar-se-á membro da Resistência Francesa, árduo defensor de um interessante ativismo político contra os totalitarismos e acaba morto, fuzilado pelo regime nazista de Vichy. O segundo, poderíamos chamar de “verdadeiro político nas trincheiras acadêmicas”. Colherá os frutos em vida, diferentemente do franco-judeu Marc Bloch. A universidade precisa, certamente, dos dois tipos: Eles não deixam de ter suas qualidades para a máquina do tempo burocrático.
Século XXI. Nunca antes o oxigênio respirado teve em sua composição na Tabela Periódica elementos tão próximos às Luzes multicolores de uma lógica de pensamento de meados do século XVIII. Curiosamente, não sei, o teorema das interdisciplinaridades proposto (absorvido) pelos Annales (a tal revista francesa) para o campo da História, transformou-nos em jovens especialistas esmigalhados, fatiados produtores de análises de uma História em Migalhas, tomando de empréstimo o termo de Dosse.
As mesas de bares e as conversas longínquas com meus amigos, seja num copo suado pelo choque entre a cerveja gelada com o mormaço, que mesmo com todos os alertas climáticos, ignoramos, seja nas viagens balangandãs pelos brasis que teimamos em ignorar com tapinhas nas costas e elogios ao Salami Science, me alertaram para o seguinte veredicto: O oxigênio interdisciplinar está, há muito, perdendo para a poluição acadêmica! Na verdade, num fordismo de artigos e livros compiladores de artigos, o homo producentis ignora o principal: o conhecimento e sua interlocução com a sociedade e os benefícios que isso poderá trazer à todos nós.
Se voltar sua memória chumbada pros percalços de idos de XVII, XVIII ou mesmo do XIX (aí a coisa até começa a descambar), a educação, ontem e hoje, privilégio de poucos, queira quer não, ajudava a formar o individuo para as realidades táteis que lhe eram impostas. A desigualdade, evidentemente, já estava lá. Aliás, a desigualdade, segundo Agostinho de Hipona, será encontrada até na Cidade de Deus. De fato, nisto ele foi profeta, pois o mundo que atualmente é a Cidade de Deus, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, demonstra bem o que o teólogo de Hipona teorizou. Enfim, tome o seu galardão, segura na mão de deus e vá!
É muito preocupante, em todos os sentidos, um jovem ter que se submeter, como me submeti, à norma de modus vivendi que é fatiar, especializar, projetar cada vez mais suas reflexões para apenas uma área de conhecimento. Lógico, concordo com o velho Aldir Blanc – mestre maior: Quem sabe de tudo, não sabe de nada. Entretanto, o gás neon que escurece a vista, nos afasta da Luz, polui por demais o oxigênio que paira no ar e que não há como ser ignorado.
Prega-se nos exames de seleção para ingresso na Universidade, o uso combinado dos mais variados discursos – tecnológicos, de humanidades, etc. – e após essa etapa, mal cumprida por sinal, nos cerram no hermético calabouço da grade curricular com obrigatórias e optativas (que são obrigatórias disfarçadas) disponíveis ao vento, sabe-se lá quando.
Falta-nos tudo.
A interdisciplinaridade, e essa fala não vem de um bêbado, vem de um especialista dentro de uma especialidade exótica no país, é como um unicórnio ou um pote de ouro no final do arco-íris.
Os concursos públicos se tornam cada vez mais escassos e, quando não, corporativistas. Quando se vê um currículo vitae variado, encara-se mal o profissional em que foi investido tempo e auto-tempo para que, ele mesmo, chegasse naquele momento de prova(ção) – nada mais ingênuo e teatral que um concurso de Provas e Títulos. Se bolsista, impostos foram ali, muito restritamente e quase como doação, investidos. Se não bolsista, dinheiro de trabalho, de sapos engolidos, para uma boa preparação em línguas, pós-graduações e afins. Não se percebe o quanto temos poluído nosso espaço de trabalho e convívio nas Universidades. Locus por si só, de uma áurea pesada e de dar náuseas. Olha-se com desdém quem pretende em algum momento ir um pouco mais além do que os meandros das páginas escritas para si mesmo de uma dissertação ou tese.
É claro que as especialidades, o stricto sensu, é um caminho historicamente reconhecido (e necessário). Não brado aqui que no especialista se deposite toda a culpa intelectual do mundo. Jamais! Seria cuspir num prato que eu mesmo preparo e degusto diariamente. A questão é outra. Ela se fundamenta no simples fato de percebermos que a interconexão, a interlocução deve ser cada vez mais temáticas nos Colóquios, Simpósios, Seminários. Há matemáticos, médicos, físicos que tem muito a dizer para filósofos, medievalistas, brasilianistas, colonialistas, etc. e sempre o vice-versa.
A técnica, inerente a cada campo de saber, se conquista pela prática. Jamais serei um bom médico. Mas, posso ser um bom historiador da medicina (inclusive da Medicina Medieval). Jamais serei um bom Arquiteto, mas posso ser um bom historiador da arquitetura colonial. E a roda segue. E segue e segue e segue.
Enunciados como poder, estado, violência, política, cultura, identidade, etc., iriam se tornar mais abrangentes, suscetíveis de análises teóricas e críticas práticas, o que providenciaria ao cotidiano social uma coisa muito simples dentro do postulado das complexidades: respirarmos o ar das interdisciplinaridades.
Seria interessante preenchermos de uma vez por todas o fosso, amenizarmos a lacuna, construirmos uma ponte para ultrapassar o abismo que jaz entre a graduação e a prática cotidiana dos bacharéis e licenciados que são formados ano a ano. Quem sabe para os concursos a saída não deveria ser temática? A cadeira de área X pretenderá um docente-pesquisador que pesquisou sobre X e suas variáveis aproximativas. As grades, com direito às barras de ferro e tudo, ainda estarão lá, intocáveis por enquanto, mas, como sempre, a prerrogativa da escolha se manteria em nossas lisas e delicadas mãos sem calos.
Nossas feridas são outras. E foi na sua fina casca que eu quis mexer. Se é que ensaiei uma coceira na garganta aqui ou acolá. Quem saberá?



Para sair do meu provincianismo discursivo, os livros a que fiz referência tratam-se de:
*DOSSE, François. A história em migalhas: dos “Annales” à “Nova História”. São Paulo/ Campinas, SP: Ensaio/ EdUnicamp, 1994. [Original francês de 1987]
*BURKE, Peter. A Escola do Annales (1929-1989): A revolução francesa da historiografia. São Paulo: Editora UNESP, 1997. [Original inglês de 1990]