Mostrando postagens com marcador Pesquisa no Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pesquisa no Brasil. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de maio de 2016

As trincheiras discursivas, os bunkers de monopensamento e o motocontínuo das batalhas campais




São tantas lutas atualmente que não há como nenhuma pessoa se calar diante do cotidiano brasileiro e mesmo mundial. A Internet se tornou um campo discursivo de batalhas diárias ou mesmo uma pedra de mármore fria e gigante dentro de um necrotério, com corpos enfileirados a espera de identificação. Poderia afirmar que ela é também uma grande enfermaria com índios doentes renegados ao esquecimento ou de soldados feridos que lutaram uma guerra de variadas ideologias ou, finalmente, a Rede é uma grande prisão com detentos tuberculosos, tossindo uns nos outros e contaminando mesmo aqueles que ali foram encarcerados por roubar um naco de pão.
Não importa muito a linha metafórica que seguir, é certo que a Internet nos trouxe de maneira acelerada o contato direto com as muitas campanhas militantes que hoje, para apenas tentarmos organizar um pouco as tropas enfileiradas, diríamos que se dividem em três grandes grupos – porém diversos, muito diversos, em suas composições internas.
Você esperou que eu os definisse. Por um momento me forcei a um silêncio reflexivo na tentativa de elencá-los. Não tive capacidade inventiva de nomear cada um deles. Por isso, chamaremos de A, B e C. Na verdade, defini-los já não me importa muito. A bem da verdade, a Internet nos retirou da inocência do Éden e nos possibilitou o dom de conhecermos o bem e o mal. Dito isto, dado o tom da minha voz, posso prosseguir com ou sem você aqui para me ouvir.
Tenho recebido críticas, há tempos, de ser antirreligioso, arduamente contrário aos evangélicos em suas multifacetadas correntes doutrinárias e avesso ao moralismo hipócrita do catolicismo (aquele que mais salta aos olhos). Talvez, essa imagem tenha sido construída por eu nunca ter negado minhas reticências e temores, por exemplo, ao crescimento das igrejas neopentecostais e o silêncio da maioria dos intelectuais ao ignorarem o discurso de seus líderes e um evidente projeto de poder teocrático. Não preciso me justificar. Mas cabem parênteses e eles sempre são necessários: A sociologia e mesmo um jornalismo mais atento (clique aqui) volta e meia buscam tentar compreender e, consequentemente, explicar este fenômeno que agora tomou mais projeção graças aos discursos – católicos e evangélicos, principalmente – por ocasião da votação da abertura de processo de impeachment no Congresso Nacional, no dia 17 de abril. Mais um adendo: Salta-nos sempre aos olhos os discursos fundamentalistas e de forma rasteira e preguiçosa, colocamos num mesmo balaio todo o grupo de católicos e evangélicos, estes últimos realmente mais difíceis de definir em blocos, como se a fala daqueles deputados e deputadas exprimisse fielmente o pensamento de cada uma das muitas igrejas.
O que não pode ser ignorado, que mesmo para os crentes (católicos e evangélicos) que eu coloco numa lista ímpar de construção de opiniões plausíveis e racionalmente vinculadas ao evangelho e avessos a fundamentalismos e moralismos profundos... Mesmo para essas (poucas) amizades e contatos que tenho, é difícil, muito difícil lidar com questões como legalização do aborto, reconhecimento de famílias fundamentadas em homoafetividade, legalização da maconha, ensino das culturas afro-brasileiras nas escolas, educação de gênero, etc. Sempre haverá a sombra de um deus, cuja retórica do amor se baseia, não nos esqueçamos, em aceitá-lo como único salvador e a tal salvação é condicionada às normativas comportamentais que definem um “bom” cristão.
Encerro a longa digressão e se você ainda estiver me ouvindo... Retomo o pensamento.
Naquele fatídico domingo em que vermelhos e amarelos se opuseram nas ruas das principais capitais da República, estrategicamente localizados em pontos que simbolizam o que posso chamar de bunkers de monopensamento, o grosso dos deputados federais iniciou ou encerrou seu voto, incluindo o declaradamente evangélico presidente da Câmara, evocando o tripé deus (cristão), família (tradicional) e fim da corrupção (de quem?). Houve, é claro, aquele que bradou por Ustra e cito aqui para registro. Nos grupos bicolores é possível identificar claramente cristãos, o que reafirma a diversidade que expus acima.
O processo ainda corre, os impactos são tamanhos, as análises infinitas. Por todos os lados, a artilharia é pesada. A questão é que, a meu ver, e acredito que meus olhos são um tanto caleidoscópios, ali nas casamatas (bunkers, para ficar mais elegante) de monopensamento, foram, uma a uma, abertas as trincheiras discursivas, sacramentadas, ordenadas, nas quais cada um de nós, queira quer não, nos alocaríamos, alguns solitários, com nossas baionetas com pontas esferográficas ou de grafite prontas para o chamado. Eu sei. Certa utopia esta minha. Estamos tão perdidos quanto uma matilha sem referências de onde buscar a caça. Atualmente, os secundaristas demonstram mais organização e coesão política que os doutores.
O último grande impacto sentido nas trincheiras e que como demonstrarei, mais uma vez, é fruto de uma longa e histórica omissão dos tenentes e capitãs diplomados após defesas de tese, é o indicativo do Vice-presidente Michel Temer para convocação de um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus para o Ministério da Ciência e Tecnologia – Temer já apronta seu ministério diante da iminente queda, da qual ele contribuiu intimamente, da Presidenta Dilma Rousseff. Essa vinculação política com lideranças religiosas não é nova e exclusividade de Temer.
Ora, Marcos Pereira, advogado, ex-presidente da Record, presidente nacional do PRB e bispo – licenciado – da IURD já aceitou prontamente a função. Está em sua casamata apenas aguardando.
Ouvem-se os primeiros tiros das baionetas, os soldados saem das trincheiras e avançam, mesmo que lentamente, pelo campo de batalha. Estamos todos fadados a uma estanha derrota.
Marc Leopold Benjamim Bloch, medievalista francês que foi morto pelo Regime de Vichy na Segunda Guerra Mundial, escreveu um pertinente livro chamado L’étrange défaite, cujo subtítulo é tão emblemático quanto: Témoignage écrite en 1940. Publicado por esforços ímpares, em 1946, só teve um grande impacto na França em 1990. Paciência, eles também tem suas mazelas. O fato é que das muitas passagens emblemáticas do pequeno grande livro, há uma que eu gostaria de compartilhar com você, felizmente, não por erudição, mas, necessidade, em francês:
Le courage personnel est, chez qui choisit la carière des armes, la plus obligatoire de toutes les vertus professionnelles: si indispensable, en vérité, à la bonne conscience du groupe, qu’il y est de règle de la tenir por allant de soi. Je suis, certain que la grande majorité des officiers de l’active a été fidèle à cette brave tradition. S’il y eut, çà et là, des exceptions – j’en ai connu une ou deux durant la dernière guerre; j’ai cru en retrouver quelques-unes durant celle-ci – elles n’atteignent en rien l’honneur de la collectivité. Elles prouvent simplement que l’habit ne réussit pas toujours à faire le moine, et aussi qu’il est partout des êtres assez dépourvus d’imagination pour adopter un métier sans se représenter à quoi il engage: celui de soldat, par example, sans réaliser qu’um jour, peut-être, la vie de garnison devra ceder le pas à la guerre. Ces faibles sont, au fond, avant tout, de pauvres gens qui se sont trompés. Rest qu’il est, dans le mépris du danger, bien des nuances et des degrés. Mais comment en parler un peu longuement, sans blesser, dans nos mémoires, de secretes pudeurs?
Mas como falar mais longamente do assunto sem ferir pudores secretos em nossas memórias? A omissão jaz justamente nisso. E Bloch apenas é utilizado aqui por mim para ilustrar que o problema conjuntural que enfrentamos é um motocontínuo no campo de batalhas onde abrimos as trincheiras para ou observarmos o combate discursivo ou partirmos delas com baionetas em riste para enfrentar o visível invisível: o modus operandi da governança brasileira. Vale lembrar o caso Daciolo no PSOL.
Há anos atrás, alguns criticaram (movimentos LGBT, principalmente), porém muitos buscaram explicar numa “necessidade de governança e negociação política” para amenizar o fato, a eleição majoritária do Pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados Federais. O problema se dividia em dois parâmetros: O primeiro, lógico, era o Feliciano, que já havia dado demonstrações públicas de sua linha de combate às lutas por direitos travadas pelos e pelas homossexuais, sobretudo. Em segundo, talvez, o mais complexo, por ser ele um pastor de linha neopentecostal. Neste item, não há de se ignorar todo o trabalho de base realizado, historicamente, por católicos e evangélicos em regiões distantes, levando, a seus modos, saúde e educação. Sim, ainda existem padres e pastores comprometidos efetivamente com movimentos de base e causas sociais muito próximas às nossas. De qualquer maneira, entra aqui um aspecto que ignoramos no constante relativismo acadêmico-crítico: esperar de evangélicos e católicos, seja  de qualquer linha, fundamentalista ou não, que aceitem de maneira plena bandeiras como igualdade de gênero, legalização do aborto e da maconha, etc., é no mínimo solicitar que ignorem suas próprias bandeiras doutrinárias e que os mantém no mínimo de coesão.
Claro, conhecemos alguns. Eu conheço. Mesmo assim, são reticentes, se não, silenciosos. Conhecem muito bem a doutrina e sabem que no fundo, no fundo, incorrem em julgo desigual ao defender a legalização da maconha, por exemplo. As palavras matrimônio ou casamento, quando nos referimos às uniões homoafetivas são escutadas por estes em silêncio e certamente, em suas mentes, versículos do Gêneses passam por sua visão. Faça o teste e afirme: ontem fui ao casamento de duas amigas minhas.
De todo modo, nas trincheiras é possível observar: nos alocamos ora na covardia, ora no combate cego e suicida. Ouço conversas sobre risco que a Ciência e a Tecnologia no Brasil passam a correr sendo entregues nas mãos de um, cito, “criacionista” declarado. Como ficarão pesquisas voltadas para o estudo das células tronco, o ativismo dos teóricos de gênero, etc., etc.? Pensar que tal indicação (e aceite) não influenciará na CAPES, no CNPq e em diversos órgãos de fomentos à pesquisa, já tão sucateados, é apenas observar fumando nas trincheiras por nós mesmo abertas.
Ao mesmo tempo, fechar os olhos ao fato que o problema que se coloca aqui é apenas a ponta de mais um iceberg da nossa política é redigir, sem a mesma eloquência e firmeza que demonstrou Marc Bloch, o depoimento adiantado de um vencido. Sem ignorar nesta minha afirmação que o velho francês lutou até o fim na Resistência, vindo a ser assassinado após prisão. Quantos de nós teremos tal disposição combativa?
O que Michel Temer e seu PMDB conduzem desde o domingo, 17 de abril, apenas para ficarmos com uma data fixa, à parte do fato de não ter sido sequer concluído o processo de afastamento, não foge ao histórico de acordos que marcaram a derrota do governo Dilma Rousseff e o seu PT. O jogo de negociatas de Temer não é diferente de anos e anos de um perigoso vício político que resumo abaixo.
Por apoio, vende-se a alma ao diabo e ignora-se que, assim como deus, ele cobra seus favores.
Que me permita o cansaço dos seus olhos-ouvidos, com mais uma longa citação de um livro. Não posso fugir aos medievalistas que indiretamente me influenciaram em suas reflexões. Área que não renegarei jamais. Minha formação específica junto ao diploma História. Reduto de onde teço com minha baioneta minhas críticas, mas que nunca afirmarei ser mais importante que outro a minha volta. E em tempos em que o tacanho acadêmico, como aves de rapina sobrevoam nossas cabeças e apenas assinalam o ego soturno da autoglorificação, é necessário seu esforço na leitura-escuta:
“Ele existe, o Deus das batalhas. As intenções e a vontade dos homens são presididas pela vontade de Deus, que outorga as vitórias e desencadeia as derrotas. Deus não tem o costume de abandonar as causas justas, nem aqueles que de boa-fé o servem. Se, nesse espírito teológico, tentarmos observar as vitórias militares que constituem o estrecho da história do mundo, encontraremos facilmente o sinal dos desígnos da vontade divina. Há muito pouco espaço entre a vitória e a derrota, as circunstâncias do acaso são por demais mutáveis, a batalha mais promissora pode ser perdida pelo feito de ações insuperáveis: ninguém pode estar certo de que a vontade de Deus se inclina para o seu lado”. Foi o que escreveu um general: Francisco Franco. Em 1964. E no dia 25 de julho de 1971, dia da festa de Santiago de Compostela, patrono da Espanha, rodeado de membros de seu gabinete e de duas dezenas de bispos, ajoelhado diante da estátua do santo, ele volta a falar. Para dizer o que? “Durante nossa cruzada de libertação, constatamos que as vitórias mais decisivas foram alcançadas em dias correspondentes às grandes festas da Espanha. Foi o caso da batalha de Brunete, em que, depois de vários dias de combates infrutíferos, a vitória nos coube no dia da festa de nosso santo patrono. Não pode ser diferente quando se combate pela fé, pela Espanha e pela justiça. A guerra se faz mais facilmente quando se tem Deus como aliado.”
Deus. O dos holocaustos e dos desfiles militares o deus da ordem restabelecida. Esse grande cavaleiro lívido que pairava sobre o campo dos mortos, certa noite, em Brunete, pairava em outros tempos sobre Bouvines. Ele paira também sobre Guernica, sobre Auschwitz, sobre Hiroshima, sobre Hanói e sobre todos os hospitais depois de todos os conflitos. Esse deus, tampouco, parece que não morrerá tão cedo. Ele sempre reconhece os seus.
Assim escreveu Georges Duby, no término de seu O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214, lançado em 1973. Acredito que não preciso ressaltar quem foi Francisco Franco, mas é sempre bom lembrar... foi um ditador espanhol extremante sanguinário.
Não se esqueça: deus e o diabo sempre reconhecem os seus e na política brasileira, que urge por uma consistente reforma que renove de uma vez por todas o parlamento, essas duas figuras andam lado a lado há tempos.



*Para não dizer que citei errado:
BLOCH, Marc. L’étrange défaite (Témoignage écrite en 1940). Paris: Gallimard, 1990. p. 135. Original de 1946.
DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214. Tradução de Maria Cristina Frias. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. p. 244. Original de 1973.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Oxigênio interdisciplinar, poluição acadêmica e as Luzes escuras de um quase Neon



A Internet me ensinou a fazer piña colada. Consequentemente, os resultados foram imediatos: derrubei quase uma garrafa inteira de rum, leite de coco, abacaxis e pitadas de leite condensado para dentro do meu corpo de trinta e dois anos de idade. O drinque puertoriqueño, além de uma enorme azia, me deixou na rede balançando e divagando devagar durante todo o feriadão.
O impacto na disciplina História, de uma revista lançada pelos intentos de Marc Bloch e Lucien Febvre, em 1929, cujo teor político-acadêmico foi bem assinalado pelo francês François Dosse, no final dos anos 80, não pode deixar jamais de ser pensado, é claro. Mas, valei-me deus, praticamente quase 90 anos depois, o ar de “novidade” que muitos dinossauros, melhor, tiranossauros-rex, tentam dar no país dos tupiniquins a ela, fora o exagero ingênuo, tornou-se chato e jocoso.
Hoje, tanto tempo depois, entre o livro de capa amarela do Dosse (1987) e o de capa verde do Burke (1990), ainda prefiro o primeiro (por ser mais crítico). Ainda guardo com cuidado a cópia que fiz do exemplar que o Clodoaldo carregava para baixo e para cima, com muita estima, naqueles anos agradáveis e sonhadores da graduação. Seu irmão era formado em História na mesma faculdade. Assim como eu, Clodoaldo – que mais parecia um fisiculturista – puxava disciplinas aqui e acolá para tentar se formar. Por onde andará Clodoaldo? Da última vez que nos encontramos, ele estava bem, lecionando em diversos colégios conceituados da Baixada Fluminense. Fez nome. Gente fina pra caralho!
Toda a proposta da revista não deixou jamais de ser interessante. Porém, sejamos francos e visigodos, proposta de fundo político e corporativo na academia. Afinal, à História deveria caber o postulado de “carro-chefe” (por que não carro-forte?) das Ciências Sociais, naquele momento, extremamente inventivas e com propostas realmente inovadoras. Pimba! Puta sacada do jovem Bloch e do, um pouco mais, maduro em idade, Febvre. O primeiro, já sabemos, medievalista, lutou na Primeira Guerra Mundial, no futuro tornar-se-á membro da Resistência Francesa, árduo defensor de um interessante ativismo político contra os totalitarismos e acaba morto, fuzilado pelo regime nazista de Vichy. O segundo, poderíamos chamar de “verdadeiro político nas trincheiras acadêmicas”. Colherá os frutos em vida, diferentemente do franco-judeu Marc Bloch. A universidade precisa, certamente, dos dois tipos: Eles não deixam de ter suas qualidades para a máquina do tempo burocrático.
Século XXI. Nunca antes o oxigênio respirado teve em sua composição na Tabela Periódica elementos tão próximos às Luzes multicolores de uma lógica de pensamento de meados do século XVIII. Curiosamente, não sei, o teorema das interdisciplinaridades proposto (absorvido) pelos Annales (a tal revista francesa) para o campo da História, transformou-nos em jovens especialistas esmigalhados, fatiados produtores de análises de uma História em Migalhas, tomando de empréstimo o termo de Dosse.
As mesas de bares e as conversas longínquas com meus amigos, seja num copo suado pelo choque entre a cerveja gelada com o mormaço, que mesmo com todos os alertas climáticos, ignoramos, seja nas viagens balangandãs pelos brasis que teimamos em ignorar com tapinhas nas costas e elogios ao Salami Science, me alertaram para o seguinte veredicto: O oxigênio interdisciplinar está, há muito, perdendo para a poluição acadêmica! Na verdade, num fordismo de artigos e livros compiladores de artigos, o homo producentis ignora o principal: o conhecimento e sua interlocução com a sociedade e os benefícios que isso poderá trazer à todos nós.
Se voltar sua memória chumbada pros percalços de idos de XVII, XVIII ou mesmo do XIX (aí a coisa até começa a descambar), a educação, ontem e hoje, privilégio de poucos, queira quer não, ajudava a formar o individuo para as realidades táteis que lhe eram impostas. A desigualdade, evidentemente, já estava lá. Aliás, a desigualdade, segundo Agostinho de Hipona, será encontrada até na Cidade de Deus. De fato, nisto ele foi profeta, pois o mundo que atualmente é a Cidade de Deus, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, demonstra bem o que o teólogo de Hipona teorizou. Enfim, tome o seu galardão, segura na mão de deus e vá!
É muito preocupante, em todos os sentidos, um jovem ter que se submeter, como me submeti, à norma de modus vivendi que é fatiar, especializar, projetar cada vez mais suas reflexões para apenas uma área de conhecimento. Lógico, concordo com o velho Aldir Blanc – mestre maior: Quem sabe de tudo, não sabe de nada. Entretanto, o gás neon que escurece a vista, nos afasta da Luz, polui por demais o oxigênio que paira no ar e que não há como ser ignorado.
Prega-se nos exames de seleção para ingresso na Universidade, o uso combinado dos mais variados discursos – tecnológicos, de humanidades, etc. – e após essa etapa, mal cumprida por sinal, nos cerram no hermético calabouço da grade curricular com obrigatórias e optativas (que são obrigatórias disfarçadas) disponíveis ao vento, sabe-se lá quando.
Falta-nos tudo.
A interdisciplinaridade, e essa fala não vem de um bêbado, vem de um especialista dentro de uma especialidade exótica no país, é como um unicórnio ou um pote de ouro no final do arco-íris.
Os concursos públicos se tornam cada vez mais escassos e, quando não, corporativistas. Quando se vê um currículo vitae variado, encara-se mal o profissional em que foi investido tempo e auto-tempo para que, ele mesmo, chegasse naquele momento de prova(ção) – nada mais ingênuo e teatral que um concurso de Provas e Títulos. Se bolsista, impostos foram ali, muito restritamente e quase como doação, investidos. Se não bolsista, dinheiro de trabalho, de sapos engolidos, para uma boa preparação em línguas, pós-graduações e afins. Não se percebe o quanto temos poluído nosso espaço de trabalho e convívio nas Universidades. Locus por si só, de uma áurea pesada e de dar náuseas. Olha-se com desdém quem pretende em algum momento ir um pouco mais além do que os meandros das páginas escritas para si mesmo de uma dissertação ou tese.
É claro que as especialidades, o stricto sensu, é um caminho historicamente reconhecido (e necessário). Não brado aqui que no especialista se deposite toda a culpa intelectual do mundo. Jamais! Seria cuspir num prato que eu mesmo preparo e degusto diariamente. A questão é outra. Ela se fundamenta no simples fato de percebermos que a interconexão, a interlocução deve ser cada vez mais temáticas nos Colóquios, Simpósios, Seminários. Há matemáticos, médicos, físicos que tem muito a dizer para filósofos, medievalistas, brasilianistas, colonialistas, etc. e sempre o vice-versa.
A técnica, inerente a cada campo de saber, se conquista pela prática. Jamais serei um bom médico. Mas, posso ser um bom historiador da medicina (inclusive da Medicina Medieval). Jamais serei um bom Arquiteto, mas posso ser um bom historiador da arquitetura colonial. E a roda segue. E segue e segue e segue.
Enunciados como poder, estado, violência, política, cultura, identidade, etc., iriam se tornar mais abrangentes, suscetíveis de análises teóricas e críticas práticas, o que providenciaria ao cotidiano social uma coisa muito simples dentro do postulado das complexidades: respirarmos o ar das interdisciplinaridades.
Seria interessante preenchermos de uma vez por todas o fosso, amenizarmos a lacuna, construirmos uma ponte para ultrapassar o abismo que jaz entre a graduação e a prática cotidiana dos bacharéis e licenciados que são formados ano a ano. Quem sabe para os concursos a saída não deveria ser temática? A cadeira de área X pretenderá um docente-pesquisador que pesquisou sobre X e suas variáveis aproximativas. As grades, com direito às barras de ferro e tudo, ainda estarão lá, intocáveis por enquanto, mas, como sempre, a prerrogativa da escolha se manteria em nossas lisas e delicadas mãos sem calos.
Nossas feridas são outras. E foi na sua fina casca que eu quis mexer. Se é que ensaiei uma coceira na garganta aqui ou acolá. Quem saberá?



Para sair do meu provincianismo discursivo, os livros a que fiz referência tratam-se de:
*DOSSE, François. A história em migalhas: dos “Annales” à “Nova História”. São Paulo/ Campinas, SP: Ensaio/ EdUnicamp, 1994. [Original francês de 1987]
*BURKE, Peter. A Escola do Annales (1929-1989): A revolução francesa da historiografia. São Paulo: Editora UNESP, 1997. [Original inglês de 1990]

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Por onde será que anda a vontade de saber?

Quarta-feira última, participei do lançamento de um livro acadêmico no qual tenho um artigo. Não citarei o nome do tratado, pois quero evitar possíveis mal-estares pela crítica que aqui farei. Claro que a crítica a que me refiro não é a respeito do livro, mas sobre algo que aconteceu nos bastidores do lançamento e que refletem um certo problema que já vem se estendendo.
O momento sem dúvida foi de festa. Creio, infelizmente, que uma festa um tanto contida e que merecia mais ovação pelo histórico tão trabalhoso que foi o trajeto dos artigos até a prensa. Mas como já ressaltei aqui várias e várias vezes: os tempos são outros. São tão outros que minutos antes, presenciei uma cena que, realmente, nunca pensaria ver (mas no geral, o lançamento foi bonito e a mesa redonda, da qual participei como um dos conferencistas, foi, digamos, peculiar).
Como estava dizendo, minutos antes de assumirmos nossos postos na grande e bonita mesa presente no Salão Nobre, ouvi a talentosa organizadora do tratado, um tanto desanimada, virando-se para mim, em tom de reflexão: “Ando tão cansada. Decepcionada com essa nova geração de orientandos/bolsistas...”. Realmente, me assustei, não pela crítica àqueles que trabalham com ela, mas, pelo cansaço na fala, considerando que a mesma é ainda uma jovem professora. Tentei amenizar, enumerando os ex-orientandos que agora já fazem parte do panteão acadêmico federal ou que têm seus artigos várias vezes publicados por revistas especializadas, mas creio que não foi o suficiente para levantar seu ânimo naquele momento. Pela primeira vez a ouvi citar nomes, um por um, daqueles que não estavam fazendo jus ao apertado dinheiro disponibilizado pela Capes e, acho, que no fundo, do tempo dispensado por ela para orientação. Tempos outros realmente. Citei um nome. Um nome cujo futuro é de estrelas. Jovem rapaz ainda. Caminhando, mas já com passos largos. Ela balançou a cabeça que sim. Mas apenas ele, pelo visto, para ela, configura-se como alguém que ainda vale noites de leitura.
Dali saí com Ana e Thiago, rumamos para Tijuca, fomos comemorar o prenúncio de bons ventos para mim e aproveitar para engolir à seco o empate do Fluminense em pleno Maracanã.
Enquanto estávamos sentados no Vaca Brava, ótimo bar tijucano e razoavelmente barato, comentei sobre meu susto de horas antes. Ana e Thiago riram e me falaram de uma frase que minha falta de atenção na mesa não captou. Em “púlpito” ela não deixou passar seu descontentamento e assinalou enfaticamente que nosso laboratório de pesquisa não é um “clube social”. Curioso, horas antes da mesa redonda, parei para tomar um choppinho com dois amigos e um deles alertou sobre muitos dos que ali estão, apenas o estão por encontros, pela simples oportunidade de ter um lugar. Identidade, talvez. Me fez lembrar aqui de Marc Auge (são tantos os lugares e não lugares não é mesmo?).
Entre um xingamento e outro, um gole de cerveja, uma garfada na deliciosa carne-seca com aipim, Thiago virou-se para nós e, sorrindo, sacramentou: “É o problema do entre safras. Ela ficou mal acostumada com bons orientandos, que levavam o trabalho de pesquisa a sério.”.
Quase não discordo do meu grande amigo, mas, dessa vez, sou obrigado a seguir outro rumo.
Acho que na verdade, a preocupação daquela professora, com uma bagagem acadêmica enorme, é a de perceber que todo um trabalho de anos e anos de dedicação e construção pode estar indo por água abaixo nas mãos de uma “nova geração”, que no fundo é reflexo do que tem sido o nosso Brasil: muita festa e pouco fazer.
É claro que não se pode generalizar. Há muita gente boa por vir. Muita gente compromissada, mas, por enquanto, sua frase anda ecoando na minha cabeça e sua preocupação passa ser a minha!