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quinta-feira, 12 de maio de 2016

A vida que segue...



Dedico aos meus pais, Alvaro e Cristina.
Para Henrique de Souza Filho, o Henfil.
Para eles, meus respeitos.

Não é a frase que dói, mas a constatação de que a vida de fato segue. Correremos muitos, como críticos de fim de churrasco, para buscarmos a explicação para a vida que segue... e não encontraremos. Apenas cacos de vidros quebrados pelo chão.
Hoje, quinta-feira, manhã seguinte à votação no Senado Federal: Eu liguei para pedir ajuda ao meu pai, respondi algumas mensagens, folheei um livro e pouco li das notícias. Tem sido esse o meu dia.
Fui ao centro e as ruas permaneciam cheias, os carros iam e viam. Não almocei. Entreguei o lixo e o mesmo sorriso do funcionário do condomínio: Boa tarde, Bruno. Ele vai e volta de bicicleta. Casa – Trabalho. Trabalho – Casa. Foi assim hoje pela manhã. Será assim amanhã. Será assim no final do mês.
Logo mais, me sentarei na minha sala – as repartições ainda funcionam – ouvirei as argumentações de uma orientanda de monografia que quer concluir seu curso, assumir algum cargo público de seleção que não há e não haverá por um bom tempo, na esperança de iniciar sua vida, talvez, ignorando que ela começou desde o seu nascimento.
A vida que segue e, certamente, sem a gente saber exatamente os motivos.
Fadados ao desânimo, as contas continuarão sendo emitidas, os direitos pouco a pouco sendo reprimidos diretamente àquela geração, a que faço parte, que jamais sentiu na pele tal situação e me refiro aqui comparando àqueles que viveram durante os anos de repressão da Ditadura de 1964 e que estariam numa mesma posição que a minha agora.
A questão a se colocar, sensível, eu sei, é que se um levantamento sincero for feito com alguém que tenha hoje sessenta e poucos anos e que viveu num subúrbio qualquer do Brasil e que não era vinculada a nenhum tipo de movimento político, sem acesso a educação, pouco recordará daqueles 31 anos de silêncio e torturas. Talvez, justamente pelo silêncio e manipulação midiática. Talvez, pelo excesso de trabalho, pela família a sustentar, pela falta de saneamento básico, pela vida que lhes era imposta.
Ora, hoje o quadro permanece o mesmo: a mídia manipula, o silêncio sacramenta-se e as bocas e barrigas vazias pedem pão. Mães e pais continuam suas jornadas duplas em busca do sustento. A vida melhorou nos últimos 12, 13 anos, e a maioria dessas mulheres e homens associam ao Partido dos Trabalhadores, vide o considerável número de votos nas últimas eleições. Mas, afinal, é via Rede Globo que eles veem o futebol, as novelas, as notícias. Cotidianamente lhes é imposta uma sinuca de bico, pois é essa mesma emissora que manipula de maneira tacanha as informações negativadas sobre o PT.
Eu diria até que para o meu pai e outros trabalhadores que conheço, a vida de maneira automática se amenizará a partir de uma breve possível calmaria... Fico feliz por isso. Sempre vi meus pais batalhando por meu sustento, abrindo mão da própria felicidade. Prefiro que eles sejam felizes. Fizeram escolhas naquele tempo: Trabalho – Casa/ Casa – Trabalho. Mesmo quando tudo melhorou e melhorou, não posso ignorar que a luta diária permanecia a mesma.
Neste momento, seria fácil apontar culpados frente a alienação que testemunhamos: Igreja, Corrupção, Falta de Consciência da importância do Voto Democrático, Mídia etc. Mas, se há falta de mobilização popular, se ela existe como falta, é pelo marasmo que respiramos todos nós. Pois, o povo foi às ruas, aliás, o povo nunca saiu das ruas, das ruas tiram seu sustento, o povo conhece melhor do que ninguém os becos, as saídas das crises, como lidar com a polícia e o ladrão. Lembro-me bem do meu pai chegando cansado, muitas vezes caminhava quilômetros e quilômetros para visitar seus clientes nos subúrbios com a sua pasta marrom e amostras de plastic, não almoçava, vivia uma vida dura para me dar estudo formal, quando a educação estava ali, todo dia em que eu presenciava ele e minha mãe regressando do trabalho.
O fracasso histórico no Brasil está nos pseudointelectuais como eu e meus colegas. Não está em gente como os meus pais. Está naqueles que frequentam butecos populares, quando existiam, com olhar analista-antropológico e se acham vanguardistas conhecedores do popular, pois se mijam após o porre de cerveja ou fumam um cigarro de maconha misturado com bosta de vaca ou compram uma ampola de cocaína do negrinho da esquina misturada com pó de mármore. São risíveis em seus carros importados, parcelados em 60 vezes e em seus apartamentos com decoração artesanal. Pagos com Visa Platinum. Sim, estou puto comigo mesmo. Mas, vale muito uma autocrítica.
Hoje, o futuro pertence aos secundaristas, os que na maioria ainda nem votam, meninos e meninas que têm construído uma consciência política a qual não tive acesso com aulas de Educação Moral e Cívica nos melhores colégios que o suor que os plantões noturnos de minha mãe em hospitais já sucateados naquela época puderam me dar. Essa garotada vem de lugares fodidos, são filhos de um verdadeiro proletariado que trabalha, na sua maioria, em fábricas e lojas de departamento e temem pelo dia a dia dos rebentos enfrentando o braço armado do Estado. É certo que sempre existirão meninas e meninos de famílias abastadas que fogem a regra brasileira de ignorarem a faxineira, o garçom... A luta deles, seu apoio nas ruas aos alunos de escolas estaduais é mais que bem vindo tanto quanto necessário. O problema não está, no fundo, no fundo, em quem é mais rico ou mais pobre, mas na maneira em como os que mais tem encaram os que lutam pelo pouco não lhes chega. Não há luta menor se ela é pela igualdade social.
De qualquer maneira, minha geração foi fadada à titulação, mestres e doutores, e uma substancial parcela não oriunda das esferas oligárquicas. Evoé!
Esse aspecto, brado em bom som, foi obra majoritária do Partido dos Trabalhadores e nele me incluo com um orgulho que não me envergonha.
Mas, apesar das dificuldades enfrentadas para chegar até aqui, nós nos afastamos da prática. Da rua. Da origem. Mesmo as jornadas de junho de 2013, capitaneadas por nós intelectuais-gestores, tem sua origem em movimentos periféricos. Movimentos de gente cansada de sofrer, de ir e vir em ônibus lotados, de serem oprimidas sem o teto para o descanso. Gente que cresceu sendo revistada brutalmente pela Polícia Militar de seu Estado. Mas, eis que os títulos de nobreza, agora um pouco melhor distribuídos entre os pobres, desconfiguraram tudo, ou nós tiramos o seu sentido. Viramos intelectuais de gabinete e quando não, analistas de buteco e de samba de roda.
No fundo, tenho é vergonha de mim. Em muitos sentidos tenho uma ardente vergonha que me remete ao silêncio tácito e que quebro nesse vômito amargo de bílis. E me vem à memória para aumentar meu descontentamento pessoal, uma certa madrugada de desespero, em que assustado com a insônia me dei conta que meu maior medo é que jamais serei um ser humano como foram meus pais. Jamais terei a força deles de me manter de pé com meus próprios pés. Mas, no dia seguinte, com olhos vermelhos de tanto chorar em silêncio na janela que dá para a avenida, pensei: é coisa de momento, tristeza passageira. Usei toda a racionalidade conquistada nos anos de universidade para ignorar o definitivo: a verdade nua e crua que jamais serei como eles e isso me dói. Tenho o rompante de abandonar tudo. Jogar-me no mundo, sumir, parar de escrever. Tornar-me um ermitão num buraco de tanta vergonha. Mas este sou eu.
Na verdade, tudo o que vimos e veremos é muito reflexo do dia a dia, da vida que segue. Do momento. Das pessoas que não tomam a frente no fazer, no arado intelectual. Trabalhadores intelectuais frágeis, em sua maioria, que se escondem nas obrigações de gestão. Como eu. Como você que me lê. É mais fácil o comodismo das conversas de corredores, no cafezinho do sindicato. É mais fácil criticar pelas costas, em surdina ou usar alunos para a velha política egocêntrica de problema psicológico de autorreconhecimento que, talvez, um livro de autoajuda corrigiria.
Tudo é, de fato, reflexo da vida que segue. Do medo de dizer não. Da vontade de dizer sim que não se concretiza. Do medo de discordar de quem está à sua frente. O problema está em nós: está em nos distanciarmos do “cidadão comum” ignorando que somos como ele e testemunhamos, apenas por outro prisma, tudo se acabar na quarta-feira. Nós, de ressaca e com fantasias vermelhas de folião cansado, ele varrendo o chão de nossas serpentinas e de vômito de derrotados. Quem sabe, se pegássemos na vassoura ao seu lado, a coisa não seria como o é.

Mas, a vida que segue...

quarta-feira, 4 de maio de 2016

As trincheiras discursivas, os bunkers de monopensamento e o motocontínuo das batalhas campais




São tantas lutas atualmente que não há como nenhuma pessoa se calar diante do cotidiano brasileiro e mesmo mundial. A Internet se tornou um campo discursivo de batalhas diárias ou mesmo uma pedra de mármore fria e gigante dentro de um necrotério, com corpos enfileirados a espera de identificação. Poderia afirmar que ela é também uma grande enfermaria com índios doentes renegados ao esquecimento ou de soldados feridos que lutaram uma guerra de variadas ideologias ou, finalmente, a Rede é uma grande prisão com detentos tuberculosos, tossindo uns nos outros e contaminando mesmo aqueles que ali foram encarcerados por roubar um naco de pão.
Não importa muito a linha metafórica que seguir, é certo que a Internet nos trouxe de maneira acelerada o contato direto com as muitas campanhas militantes que hoje, para apenas tentarmos organizar um pouco as tropas enfileiradas, diríamos que se dividem em três grandes grupos – porém diversos, muito diversos, em suas composições internas.
Você esperou que eu os definisse. Por um momento me forcei a um silêncio reflexivo na tentativa de elencá-los. Não tive capacidade inventiva de nomear cada um deles. Por isso, chamaremos de A, B e C. Na verdade, defini-los já não me importa muito. A bem da verdade, a Internet nos retirou da inocência do Éden e nos possibilitou o dom de conhecermos o bem e o mal. Dito isto, dado o tom da minha voz, posso prosseguir com ou sem você aqui para me ouvir.
Tenho recebido críticas, há tempos, de ser antirreligioso, arduamente contrário aos evangélicos em suas multifacetadas correntes doutrinárias e avesso ao moralismo hipócrita do catolicismo (aquele que mais salta aos olhos). Talvez, essa imagem tenha sido construída por eu nunca ter negado minhas reticências e temores, por exemplo, ao crescimento das igrejas neopentecostais e o silêncio da maioria dos intelectuais ao ignorarem o discurso de seus líderes e um evidente projeto de poder teocrático. Não preciso me justificar. Mas cabem parênteses e eles sempre são necessários: A sociologia e mesmo um jornalismo mais atento (clique aqui) volta e meia buscam tentar compreender e, consequentemente, explicar este fenômeno que agora tomou mais projeção graças aos discursos – católicos e evangélicos, principalmente – por ocasião da votação da abertura de processo de impeachment no Congresso Nacional, no dia 17 de abril. Mais um adendo: Salta-nos sempre aos olhos os discursos fundamentalistas e de forma rasteira e preguiçosa, colocamos num mesmo balaio todo o grupo de católicos e evangélicos, estes últimos realmente mais difíceis de definir em blocos, como se a fala daqueles deputados e deputadas exprimisse fielmente o pensamento de cada uma das muitas igrejas.
O que não pode ser ignorado, que mesmo para os crentes (católicos e evangélicos) que eu coloco numa lista ímpar de construção de opiniões plausíveis e racionalmente vinculadas ao evangelho e avessos a fundamentalismos e moralismos profundos... Mesmo para essas (poucas) amizades e contatos que tenho, é difícil, muito difícil lidar com questões como legalização do aborto, reconhecimento de famílias fundamentadas em homoafetividade, legalização da maconha, ensino das culturas afro-brasileiras nas escolas, educação de gênero, etc. Sempre haverá a sombra de um deus, cuja retórica do amor se baseia, não nos esqueçamos, em aceitá-lo como único salvador e a tal salvação é condicionada às normativas comportamentais que definem um “bom” cristão.
Encerro a longa digressão e se você ainda estiver me ouvindo... Retomo o pensamento.
Naquele fatídico domingo em que vermelhos e amarelos se opuseram nas ruas das principais capitais da República, estrategicamente localizados em pontos que simbolizam o que posso chamar de bunkers de monopensamento, o grosso dos deputados federais iniciou ou encerrou seu voto, incluindo o declaradamente evangélico presidente da Câmara, evocando o tripé deus (cristão), família (tradicional) e fim da corrupção (de quem?). Houve, é claro, aquele que bradou por Ustra e cito aqui para registro. Nos grupos bicolores é possível identificar claramente cristãos, o que reafirma a diversidade que expus acima.
O processo ainda corre, os impactos são tamanhos, as análises infinitas. Por todos os lados, a artilharia é pesada. A questão é que, a meu ver, e acredito que meus olhos são um tanto caleidoscópios, ali nas casamatas (bunkers, para ficar mais elegante) de monopensamento, foram, uma a uma, abertas as trincheiras discursivas, sacramentadas, ordenadas, nas quais cada um de nós, queira quer não, nos alocaríamos, alguns solitários, com nossas baionetas com pontas esferográficas ou de grafite prontas para o chamado. Eu sei. Certa utopia esta minha. Estamos tão perdidos quanto uma matilha sem referências de onde buscar a caça. Atualmente, os secundaristas demonstram mais organização e coesão política que os doutores.
O último grande impacto sentido nas trincheiras e que como demonstrarei, mais uma vez, é fruto de uma longa e histórica omissão dos tenentes e capitãs diplomados após defesas de tese, é o indicativo do Vice-presidente Michel Temer para convocação de um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus para o Ministério da Ciência e Tecnologia – Temer já apronta seu ministério diante da iminente queda, da qual ele contribuiu intimamente, da Presidenta Dilma Rousseff. Essa vinculação política com lideranças religiosas não é nova e exclusividade de Temer.
Ora, Marcos Pereira, advogado, ex-presidente da Record, presidente nacional do PRB e bispo – licenciado – da IURD já aceitou prontamente a função. Está em sua casamata apenas aguardando.
Ouvem-se os primeiros tiros das baionetas, os soldados saem das trincheiras e avançam, mesmo que lentamente, pelo campo de batalha. Estamos todos fadados a uma estanha derrota.
Marc Leopold Benjamim Bloch, medievalista francês que foi morto pelo Regime de Vichy na Segunda Guerra Mundial, escreveu um pertinente livro chamado L’étrange défaite, cujo subtítulo é tão emblemático quanto: Témoignage écrite en 1940. Publicado por esforços ímpares, em 1946, só teve um grande impacto na França em 1990. Paciência, eles também tem suas mazelas. O fato é que das muitas passagens emblemáticas do pequeno grande livro, há uma que eu gostaria de compartilhar com você, felizmente, não por erudição, mas, necessidade, em francês:
Le courage personnel est, chez qui choisit la carière des armes, la plus obligatoire de toutes les vertus professionnelles: si indispensable, en vérité, à la bonne conscience du groupe, qu’il y est de règle de la tenir por allant de soi. Je suis, certain que la grande majorité des officiers de l’active a été fidèle à cette brave tradition. S’il y eut, çà et là, des exceptions – j’en ai connu une ou deux durant la dernière guerre; j’ai cru en retrouver quelques-unes durant celle-ci – elles n’atteignent en rien l’honneur de la collectivité. Elles prouvent simplement que l’habit ne réussit pas toujours à faire le moine, et aussi qu’il est partout des êtres assez dépourvus d’imagination pour adopter un métier sans se représenter à quoi il engage: celui de soldat, par example, sans réaliser qu’um jour, peut-être, la vie de garnison devra ceder le pas à la guerre. Ces faibles sont, au fond, avant tout, de pauvres gens qui se sont trompés. Rest qu’il est, dans le mépris du danger, bien des nuances et des degrés. Mais comment en parler un peu longuement, sans blesser, dans nos mémoires, de secretes pudeurs?
Mas como falar mais longamente do assunto sem ferir pudores secretos em nossas memórias? A omissão jaz justamente nisso. E Bloch apenas é utilizado aqui por mim para ilustrar que o problema conjuntural que enfrentamos é um motocontínuo no campo de batalhas onde abrimos as trincheiras para ou observarmos o combate discursivo ou partirmos delas com baionetas em riste para enfrentar o visível invisível: o modus operandi da governança brasileira. Vale lembrar o caso Daciolo no PSOL.
Há anos atrás, alguns criticaram (movimentos LGBT, principalmente), porém muitos buscaram explicar numa “necessidade de governança e negociação política” para amenizar o fato, a eleição majoritária do Pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados Federais. O problema se dividia em dois parâmetros: O primeiro, lógico, era o Feliciano, que já havia dado demonstrações públicas de sua linha de combate às lutas por direitos travadas pelos e pelas homossexuais, sobretudo. Em segundo, talvez, o mais complexo, por ser ele um pastor de linha neopentecostal. Neste item, não há de se ignorar todo o trabalho de base realizado, historicamente, por católicos e evangélicos em regiões distantes, levando, a seus modos, saúde e educação. Sim, ainda existem padres e pastores comprometidos efetivamente com movimentos de base e causas sociais muito próximas às nossas. De qualquer maneira, entra aqui um aspecto que ignoramos no constante relativismo acadêmico-crítico: esperar de evangélicos e católicos, seja  de qualquer linha, fundamentalista ou não, que aceitem de maneira plena bandeiras como igualdade de gênero, legalização do aborto e da maconha, etc., é no mínimo solicitar que ignorem suas próprias bandeiras doutrinárias e que os mantém no mínimo de coesão.
Claro, conhecemos alguns. Eu conheço. Mesmo assim, são reticentes, se não, silenciosos. Conhecem muito bem a doutrina e sabem que no fundo, no fundo, incorrem em julgo desigual ao defender a legalização da maconha, por exemplo. As palavras matrimônio ou casamento, quando nos referimos às uniões homoafetivas são escutadas por estes em silêncio e certamente, em suas mentes, versículos do Gêneses passam por sua visão. Faça o teste e afirme: ontem fui ao casamento de duas amigas minhas.
De todo modo, nas trincheiras é possível observar: nos alocamos ora na covardia, ora no combate cego e suicida. Ouço conversas sobre risco que a Ciência e a Tecnologia no Brasil passam a correr sendo entregues nas mãos de um, cito, “criacionista” declarado. Como ficarão pesquisas voltadas para o estudo das células tronco, o ativismo dos teóricos de gênero, etc., etc.? Pensar que tal indicação (e aceite) não influenciará na CAPES, no CNPq e em diversos órgãos de fomentos à pesquisa, já tão sucateados, é apenas observar fumando nas trincheiras por nós mesmo abertas.
Ao mesmo tempo, fechar os olhos ao fato que o problema que se coloca aqui é apenas a ponta de mais um iceberg da nossa política é redigir, sem a mesma eloquência e firmeza que demonstrou Marc Bloch, o depoimento adiantado de um vencido. Sem ignorar nesta minha afirmação que o velho francês lutou até o fim na Resistência, vindo a ser assassinado após prisão. Quantos de nós teremos tal disposição combativa?
O que Michel Temer e seu PMDB conduzem desde o domingo, 17 de abril, apenas para ficarmos com uma data fixa, à parte do fato de não ter sido sequer concluído o processo de afastamento, não foge ao histórico de acordos que marcaram a derrota do governo Dilma Rousseff e o seu PT. O jogo de negociatas de Temer não é diferente de anos e anos de um perigoso vício político que resumo abaixo.
Por apoio, vende-se a alma ao diabo e ignora-se que, assim como deus, ele cobra seus favores.
Que me permita o cansaço dos seus olhos-ouvidos, com mais uma longa citação de um livro. Não posso fugir aos medievalistas que indiretamente me influenciaram em suas reflexões. Área que não renegarei jamais. Minha formação específica junto ao diploma História. Reduto de onde teço com minha baioneta minhas críticas, mas que nunca afirmarei ser mais importante que outro a minha volta. E em tempos em que o tacanho acadêmico, como aves de rapina sobrevoam nossas cabeças e apenas assinalam o ego soturno da autoglorificação, é necessário seu esforço na leitura-escuta:
“Ele existe, o Deus das batalhas. As intenções e a vontade dos homens são presididas pela vontade de Deus, que outorga as vitórias e desencadeia as derrotas. Deus não tem o costume de abandonar as causas justas, nem aqueles que de boa-fé o servem. Se, nesse espírito teológico, tentarmos observar as vitórias militares que constituem o estrecho da história do mundo, encontraremos facilmente o sinal dos desígnos da vontade divina. Há muito pouco espaço entre a vitória e a derrota, as circunstâncias do acaso são por demais mutáveis, a batalha mais promissora pode ser perdida pelo feito de ações insuperáveis: ninguém pode estar certo de que a vontade de Deus se inclina para o seu lado”. Foi o que escreveu um general: Francisco Franco. Em 1964. E no dia 25 de julho de 1971, dia da festa de Santiago de Compostela, patrono da Espanha, rodeado de membros de seu gabinete e de duas dezenas de bispos, ajoelhado diante da estátua do santo, ele volta a falar. Para dizer o que? “Durante nossa cruzada de libertação, constatamos que as vitórias mais decisivas foram alcançadas em dias correspondentes às grandes festas da Espanha. Foi o caso da batalha de Brunete, em que, depois de vários dias de combates infrutíferos, a vitória nos coube no dia da festa de nosso santo patrono. Não pode ser diferente quando se combate pela fé, pela Espanha e pela justiça. A guerra se faz mais facilmente quando se tem Deus como aliado.”
Deus. O dos holocaustos e dos desfiles militares o deus da ordem restabelecida. Esse grande cavaleiro lívido que pairava sobre o campo dos mortos, certa noite, em Brunete, pairava em outros tempos sobre Bouvines. Ele paira também sobre Guernica, sobre Auschwitz, sobre Hiroshima, sobre Hanói e sobre todos os hospitais depois de todos os conflitos. Esse deus, tampouco, parece que não morrerá tão cedo. Ele sempre reconhece os seus.
Assim escreveu Georges Duby, no término de seu O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214, lançado em 1973. Acredito que não preciso ressaltar quem foi Francisco Franco, mas é sempre bom lembrar... foi um ditador espanhol extremante sanguinário.
Não se esqueça: deus e o diabo sempre reconhecem os seus e na política brasileira, que urge por uma consistente reforma que renove de uma vez por todas o parlamento, essas duas figuras andam lado a lado há tempos.



*Para não dizer que citei errado:
BLOCH, Marc. L’étrange défaite (Témoignage écrite en 1940). Paris: Gallimard, 1990. p. 135. Original de 1946.
DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214. Tradução de Maria Cristina Frias. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. p. 244. Original de 1973.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Para o Alexandre Moraes

            Antes que me acusem de ter transformado as vozes d’O Ventríloquo num derramamento de profundo pieguismo sentimental ou uma esparrela de tons, sobretons e panegíricos dóceis, eu queria dizer que não se trata desse tipo de coisa.
            A roda da vida gira numa velocidade que não consigo medir. Na verdade, eu queria mesmo era falar um pouco sobre o Joe Cocker desde que ele faleceu no dezembro passado.
Mentira. Eu queria era falar sobre o documentário/show Mad Dogs & Englishman lançado originalmente como um LP duplo e nos cinemas como um filme, no ano de 1970. Eu queria abordar os músicos ali presentes, cuja trajetória já havia sido travada pelo tempo, como, por exemplo, o saxofonista Bobby Keys que faleceu, pouca gente sabe, alguns dias antes de Cocker e que no tal documentário, num passeio chuvoso de carro pela mesma avenida em que Kennedy foi assassinado, em Dallas, nos presenteia com um dos diálogos mais interessantes e pouco explorados no filme: O abismo de gerações. Mesmo a solidão do Joe Cocker após as apresentações, um misto de homem desprotegido, algumas frases e olhares muito me chamaram atenção quando revi recentemente instigado, justamente, por sua morte e pelas muitas homenagens que surgiram na Rede. Confesso que dele possuo apenas a edição delux, em cd, do LP ao vivo da tal turnê e o documentário. Para não soar mentiroso, tenho uma velha coletânea que comprei ainda na graduação.
            Parágrafo longo, a conversa, a minha conversa se perdeu. A conversa sobre o documentário ficou por aí, na mente.
O tempo foi se tornando escasso no último mês e mais ainda nas últimas semanas. No entanto, li, quando “jogado”, não sem delicadeza, na Rede, um texto que achei bem bacana no Para Ler Sem Olhar, intitulado Oliver Sacks de 5 a 7. Não que o que relato aqui tenha referência direta ao texto do Viana, mas, me deu uma liberdade a mais para sair um pouco da tentativa de ser profundo como ele que, por exemplo, sempre acerta em seus textos por ali (aliás, faço aqui propaganda daquele espaço). Me impressiona a regularidade e mesmo o nível intelectual do que ele compartilha conosco que acompanhamos seus escritos naquele blog. Mesmo seus textos mais pessoais (não que eu ache ou fique nos achismos de pensar que existam textos que não são pessoais) são tão analíticos e profundos quanto os explicitamente voltados para análises políticas, econômicas, culturais, etc. Mas, isso é outra história. Sendo assim, isso aqui, o hoje, é um misto de várias coisas. Introdução longa.
Falarei sobre o Alexandre e sobre o que do Alexandre me fez escrever aqui, mesmo que agora, na distância, eu consiga, mal e porcamente, organizar as coincidências da vida que me fizeram dizer o que digo.
    Conheço, se é que conheço, se é que conhecemos alguém, o Alexandre há quase dez anos. Estudamos juntos durante algumas disciplinas obrigatórias no Mestrado que cursamos na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sempre me chamou atenção, mais do que dos outros colegas, o grau de inteligência que ele apresentava em seus comentários, suas críticas e a maneira como se colocava, sem medo, nos debates que surgiam naquela disciplina. Ali se apresentava o que se concretizaria, melhor, o que se concretizará no decorrer dos próximos anos: Uma certa geração com seus 30 anos que tem pensado, agido, refletido, em algum momento, sobre nossa sociedade no tempo e no espaço – próximo ou longe nesse mesmo tempo e espaço. Ou seja, sem medo do peso arrogante que a palavra tomou, uma nova geração de intelectuais que, de alguma maneira, tem atuado, por exemplo, no espaço universitário.
            Alexandre é Professor de História Antiga na Universidade Federal Fluminense, foi aprovado num certamente de grande concorrência na vaga gerada pela grande perda que foi a morte do Ciro Flamarion Cardoso. Enfim, isso diz algo ou não diz nada. Diria muito ou muito pouco. Isso nada interessa ou interessa muito. Pode ou não. A questão não é essa. A coisa aqui é outra. Então, os meandros de sua carreira universitária não nos importa muito. Importa, talvez, por exemplo, certa vez em Salvador, sua simplicidade bebendo cerveja comigo madrugada adentro junto com alguns orientandos meus e a boa impressão que ele deixou para os mesmos e a confirmação do que eu sempre dizia e digo para os alunos que trabalham ao meu lado com pesquisa: Os melhores aprendizados acontecem em momentos de mais puro prazer intelectual: na mesa do bar, na boemia, na madrugada.
            Há quase um ano, me lembro dele me informando que ia ser pai. Na cautela racional que sempre apresentou, avisou de forma taxativa: “só não divulga, pois sabe como é, os primeiros meses são sempre complicados numa gestação”.
Tenho por característica quando alguém me pede segredo, não informar nem mesmo a deus. Às vezes até esqueço o que me contaram. Desde criança tenho esse problema ou virtude. Não sei explicar.
            Seu filho Gabriel nasceu com saúde, na mesma época ele foi aprovado em concurso público e a vida seguiu em passos largos, não sem dificuldades.
            Novembro passado, encontrei Alexandre num evento acadêmico no qual os dois fomos convidados em nossa antiga instituição de formação para, além de avaliar trabalhos de mestrandos e doutorandos em nossas áreas de especialização temática, ministrarmos uma pequena palestra sobre o que vínhamos pesquisando em nossas universidades. Evidentemente, os horários eram paralelos e não pudemos nos assistir. Mas o que ficou desse encontro recente com meu amigo de época de pós-graduação foi uma conversa pela manhã, antes das atividades se iniciarem, e que guardo na memória com muito carinho e registro aqui com muito zelo e profunda admiração.
            Diferentemente de todas as pessoas com quem já conversei que são pais recentes ou de primeira viagem, ou pais há mais tempo, ou profundos defensores da paternidade/ maternidade, Alexandre respondeu minha pergunta educada de “como vai o moleque?” com a naturalidade e simplicidade de que lhe são características: “Rapaz, o moleque vai bem, cai pra baixo e pra cima. O que mais faz é cair. Mas está numa fase muito legal de se reconhecer como gente. De se olhar no espelho e se perceber”. Não sei por que cargas d’água nós entramos no tema “animal de estimação”. Creio que fui eu, não sei, talvez, muito talvez mesmo, por me sentir um tanto deslocado na coisa da coisa de “ser pai”. E sabendo que o Alexandre antes de ser pai é dono de gato e cachorro, me senti próximo nesse tema e puxei, associando ao Gabriel, como ele lidava com a presença dos bichos em casa com uma criança em franco crescimento físico e psicológico.
            Alexandre riu e contou as peripécias do rebento e sua relação com seus animais: “Tudo na mais tenra ordem louca”. Confesso que às vezes me assusta muito sua racionalidade, basta ler os seus textos-opiniões no seu mural do Facebook sobre política e mesmo amenidades. Infelizmente, o Alexandre não possui um blog, mas tudo lá é público, então vale a pena dar uma conferida, mas deixo aqui minha reclamação formal: ia ser muito legal se o Alexandre tivesse um blog. Enfim, com sua velha e conhecida maneira lúcida e racional de falar, mas sem perder o maravilhoso tom de moleque de Campo Grande, aquela coisa que só quem conhece a Zona Oeste sabe, bradou: “Porra, fico impressionado com a diferença gritante entre cachorros e gatos. O primeiro come o próprio vômito, a merda, é sempre bobo e fiel na sua dedicação quase triste ao dono. O gato não, o gato está ali, sempre muito imponente, limpo, sagaz”. Evidente que as palavras transcritas são chulas paráfrases que eu nem devia me aventurar a colocar entre aspas dos sons que saíram da boca do Alexandre, mas, ele que me perdoe ou vá se foder, pois O Ventríloquo é meu e não dele. Mas, foi mais ou menos esse o conteúdo de sua fala.
            Eu na minha humildade e um certo ar constrangido fui comentar sobre o meu gato Gregório, o apego que tenho por ele, como lido com o bichano, relatei um porre que tomei e quando bêbado sentado no chão da sala dei a chorar quando olhei para ele olhando para mim. E dei a bradar: “Um dia morrerá, pobre Gregório. Um dia você morrerá! Puta que pariu, você morrerá!”
            Alexandre riu. E ríamos. Quando perdi um pouco a vergonha, perguntei na mais juvenil curiosidade: “Você não acha meio irracional minha atitude? Comecei a me achar mais sensível a tudo à minha volta: pessoas, animais, água, planta...” E ele: “Não, ao contrário. Ter um bicho de estimação me deixou muito racional. Ser pai é que me deixou irracional!”. Aquilo me assustou pela severidade da frase e não pude silenciar, afinal, eu e Alexandre temos a mesma idade e apenas meses nos separam e era a primeira vez que eu ouvia um pai, ainda mais de primeira viagem, me dar uma resposta que mais se aproximava do que eu pensava e tentava argumentar com todos os “pais babões” – não que eu não vá ser um dia um “pai babão” também –, mas que no capital simbólico de “serem pais” e “você não” sempre me apunhalavam: “Você não entende. Você não é pai”. Alexandre explicou:
“Ter um bicho de estimação me deixou mais racional. Eu sacrificaria meu animal se por ventura o visse sofrendo e sem a mínima solução, isso seria o racional, o mais correto a se fazer. O Gabriel me deixou irracional no sentido de que penso mais com o coração. Recentemente – ele relatou um dos tombos do filho – ele caiu e bateu a cabeça. Fiquei um tanto desesperado e eu e minha esposa ficamos na dúvida de fazer ou não uma tomografia numa criança tão pequena e o excesso de radiação na cabeça do nosso menino. Tivemos que buscar no fundo da mente uma racionalidade que nos fizesse colocá-lo diante de um mínimo, porém, eminente tipo de risco. Fiquei ligando constantemente para a pediatra, monitorando, ficando sem dormir. Ou seja, parece racional isso, mas no fundo, não é tanto. Pois estávamos quase neuróticos por causa do tombo”.
O evento iniciou, o evento terminou. Nos sentamos os dois no Amarelinho, vendo quem ia e vinha, bebemos uns muitos chopes, depois cada um foi para o seu lado: Eu fui beber mais chope em Botafogo antes de pegar um voo no Santos Dumont, Alexandre voltou para a rotina da paternidade.
Meu gato agora mesmo subiu na minha perna, bateu com a pata no meu braço e miou. Me chama para algo que não sei: deve ser para correr atrás dele, vê-lo comer, limpar sua caixa, não sei. Não mio, não falo a língua dos gatos. Fico pensando que o Gabriel deva agora estar andando, dando passo a passo, o Alexandre e sua esposa rindo, olhando, observando. Logo ele falará nossa língua, xingará como o pai, defenderá suas próprias posições políticas, debaterá num mundo em que eu e o Alexandre em nossas aulas lutamos para ser melhor. Me parece ser um bom pai. Me parece que ajudará a educar ao lado de sua esposa um bom cidadão. Tudo me parece. Meu gato desistiu e foi embora do meu escritório. Deitou na porta. Eu não faria isso com o meu filho: acho que eu largaria tudo e ia ver o que ele queria.
            Ontem ele entrou em contato comigo via Facebook solicitando um e-mail de um professor. Comentei sobre nossa conversa, a de novembro. Sobre esta de agora e sobre tantas outras conversas. Rimos um pouco. Falei do impacto do que ele disse naquele dia e que iria colocar isso no papel ou num papel metafórico. Ele riu. Eu disse que muitas vezes ouço de conhecidos que são pais, recentes ou não, frases do tipo: “Sua vida só terá sentido quando tiver um filho” ou “Sua vida terá um objetivo maior.”. Sempre achei e continuo achando que minha vida tem um objetivo desde que nasci, independente de ter ou não, ajudar ou não a por outra vida no mundo que, sejamos sinceros, não é mais lá um mundo muito digno de ser vivido. Comentei que muitas vezes eu achava piegas, apesar de entender todo o amor envolto às crias, esse tipo de afirmação. Alexandre riu e disse, aqui o cito ipsis litteris: “É piegas mesmo. Eu acho que filho não dá sentido pra viver. Acho que dá sentido pra não morrer... Que tu fica pensando: “Caralho, se eu morrer e esse filho da puta precisar de mim?”."
            Eu precisava voltar ao trabalho, ele também. Nos despedimos. Pois a vida é, no fundo, despedida mais do que chegada.
            E acho que o Gabriel aprenderá muito bem isso com os pais que tem. Seja bem vindo, moleque, mas não esqueça o até!

             

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Hora do balanço: balançou?

Semanas e semanas corridas – e a correria há de continuar até o recesso de natal, quando, enfim, poderei rever minha família. Mas no fim do corredor já dá para fazer um balanço desses seis meses longe do Rio de Janeiro.
Fuçando as coisas: papéis amarelados, sons e cheiros, encontrei numa pasta perdida no computador uma série de vídeos e fotografias de quando vim prestar concurso para a Universidade Federal de Sergipe. A história, acredito que já contei por aqui. Mas há um outro lado...
Quando peguei o avião para Aracaju – eu nem lembrava disso até ver a fotografia em questão – saí com duas malas de casa. O que me chamou atenção hoje no remoer da memória, é que uma delas era apenas de livros, eu falarei mais sobre isso a seguir. Vai um copinho de cerveja?
Os vídeos que registrei são engraçados, pensei comigo: “farei um documentário sobre minha aventura” – não, eu não pensava em ser aprovado, queria apenas testar meus conhecimentos adquiridos na graduação e no mestrado, já que acabara de entrar no doutorado e pretendia, com a bolsa da Capes que eu havia conseguido, fazer um curso mais tranqüilo do que foi o de mestrado, talvez, um sanduíche na Espanha ou coisa do tipo. Os vídeos serviriam então como registro da aventura e uma forma de escape para a pressão que vinha de fora.
Semana passada, recebi aqui em Aracaju duas pessoas importantes na minha formação acadêmica, meu primeiro orientador, Marcus Cruz, e minha orientadora no mestrado e no doutorado, Andréia Frazão. Foi uma experiência nova, eu os recebi não como meus professores, mas como colegas de profissão! Talvez, tenha sido esse um dos momentos mais importantes da minha carreira acadêmica e, com certeza, nunca esquecerei!
Quando revi os vídeos hoje, lembrei das palavras de incentivo dos dois quando vim fazer as tais provas de títulos apenas para tentar, enquanto eles e outras pessoas achavam que eu iria conseguir. Na mala, diversos livros clássicos de História Medieval. O interessante, é repensar naqueles dias que caminhei só por umas ruas da cidade, meio perdido, meio achado, ou pensar nas pessoas que conheci naqueles dias e acabaram se tornando meus amigos.
O engraçado é pensar que agora estou aqui olhando um céu azul de doer os olhos, avaliando a saudade, buscando o sentindo do por que querer saber de mais nessa vida. Por que querer saber demais?
Há oito meses eu saia de casa com as tais duas malas, dois meses depois, saí de casa e me mudei pra cá, ontem lá, hoje aqui... amanhã?


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Dá-lhe Potó

Eu sei que andei sumido. Nesse meio tempo tem muito causo para contar – serei breve! No momento estou numa pousada no Centro de São Luis, no Maranhão. Sobre a cidade e as aventuras que vivi ao lado dos medievalistas e grandes amigos Marcus Cruz e Leandro Rust, eu gastaria fios e fios de pensamentos, mas prometi ser breve.
Na minha segunda noite aqui, deixamos Rust dormindo no quarto e fomos tomar umas caipirinhas no La Pizzeria, restaurante anexo a outra bela pousada na Rua do Giz. Ficamos tão famosos no lugar, talvez, por termos acabado todas as noites com as garrafas de cachaça Seleta e com os limões da casa por conta das nossas caipirinhas, que tivemos até mesa cativa! Bom, esse é o lado belo da coisa, triste, triste foi o bendito (ou maldito) Potó que acabou com quase toda a minha estadia na cidade.
Vamos à aula de Biologia.
Segundo que li, o Potó (Paederus) quando em contato com a pele causa um queimadura forte na região, graças a uma toxina liberada em sua defesa (e em nosso prejuízo), o pessoal daqui chama de mijo... Fui uma vítima do Potó! A foto abaixo demonstra a fase tranqüila do incidente, pois, piorou meu chapa!



Tive uma reação alérgica, o pé inchou a ponto d’eu não conseguir apoiá-lo no chão. Eu era quase um Dr. House do medievalismo (apesar do problema do la Cogolla... Cogolla – essa piada ficou em São Luis entre eu, Marcus e Leandro!).

As fotos da “evolução” da “pereba” preferi não mostrar... mas ficou feio!
Bom, São Luis tem um charme diferente, uma beleza diferente e um ritmo diferente. O que não deve ser interpretado para mal. O diferente que digo não chega a ser o exótico. Fiquei apenas pelo centro da cidade, visitei apenas bares e confesso que gostei. O congresso foi bacana. Amanhã volto para casa, ainda com a canela doendo e o tornozelo inchado, mas vamos seguindo!
Disso tudo, o que mais me chamou atenção foi uma frase da minha mãe, quando liguei para o Rio de Janeiro pedindo informações sobre meu problema (ela é enfermeira): “Filho, estou doida para que você volte para casa...” e eu: “Poxa mãe, só vou ao Rio em dezembro...”. Ela então me responde com a maior naturalidade possível: “Não meu filho, eu quis dizer para o teu apartamento em Aracaju...”. É, se até dona Cristina já se acostumou com a idéia de que Aracaju é minha nova casa, quem sou eu para discordar! Dá-lhe Potó!


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Quatro meses longe de casa...

Hoje, dia 24 de setembro de 2009, completa quatro meses que saí do Rio de Janeiro com nove caixas grandes de livros, duas malas, uma mochila e lágrimas nos olhos. Faz quatro meses que vi pela última vez as praias, as ruas e avenidas, o trem, o metrô e Mesquita.
Deixei no Rio de Janeiro, minha família, uma noiva linda, amigos e raízes. Deixei para trás a correria carioca, o morro, o samba, o choro, os botecos e um pouco de poesia. Lá ficaram também problemas de dinheiro, aperto financeiro, sonhos sempre adiados e mais livros. Ficou no Rio de Janeiro um poço de saudade que derrama aqui todos os dias e me lava a alma quando sinto o vento nos cabelos pretos, pretinhos, como diria minha Ana.
Deixei meu pai e minha mãe orgulhosos, mas sem um pedaço de si. Meu quarto não é mais meu e minha casa não é mais minha: é a casa dos meus pais que, agora, quatro meses depois, é lugar de visita para mim. E que logo, logo, chegarei com sorriso aberto. Um mês, dois meses, mais ou menos para eu aparecer por lá.
No Rio de Janeiro, deixei, nessa mesma casa, fotografias que há quatro meses rememoravam apenas meu rosto quando menino, agora, para meus pais e, também, para mim, quando ali pisar, rememorará o tempo em que eu vivia ali e corria de pés descalços pela terra macia e fresca do quintal. Um tempo em que me sentava debaixo das mangueiras, abacateiros, jaqueiras, pensando, sonhando com o futuro: o futuro agora me relembra o passado.
As mesmas ruas em que eu caminhava naturalmente com os cachos ao vento, um sol quente corando o rosto, seja indo ao açougue do “Manéu” comprar contra-filé, seja para ir dar aula ou mesmo um pulo na casa do Elber para estudar música, conversar sobre música e vida, ficaram há quatro meses no Rio de Janeiro.
Há um mês não choro. Há um mês, aos poucos, fui me acostumando com a rotina que me cerca agora: reuniões departamentais, comissões de eventos científicos, viagens para congressos, orientações, aulas, mais reuniões, política acadêmica, vaidade alheia, squash, conversas noturnas com amigos, garrafas de vinho e tulipas de chope. O vazio vai se acomodando no peito, de pouquinho em pouquinho, e vou entendendo, assim, que ficarei por aqui por muito tempo e, enquanto isso, aguardando Ana. Há, ainda, muitos espaços vazios para se acomodarem no peito e na alma, disso eu sei.
Choro agora enquanto ouço Candeia cantado por Teresa Cristina. Talvez, não esteja chorando nem por tristeza, nem por saudade, apenas por quase não chorar mais. Curiosidades do tempo. Choro, talvez, por racionalizar a saudade que me acua dentro do apartamento entre livros, discos e a flauta que, ultimamente, tem soprado apenas canções que falam do meu Rio de Janeiro.
Coisas da vida. Ontem, ao término de uma aula minha, uma aluna veio me perguntar como é sair de casa para tão longe (ela está pensando em fazer concurso para outro estado). Fui enfático: é ruim. Você chorará todos os dias. Haverá sempre um aperto no peito, um nó na garganta quando falar da tua terra, dos teus pais, da sua origem. Mas você se acostuma.
O conselho que a dei, foi o mesmo que ouvi, certa vez, do Kiko, no período em morei com ele aqui em Aracaju. Lembro-me bem da conversa e ainda hoje, já quatro meses depois, ainda marejo os olhos como marejei naquele dia em sua cozinha.
E continuo entre livros e discos. Leitura e música são coisas que não me largam nem na lua. Hoje, quatro meses depois de sair do Rio de Janeiro, cinco dias depois de ter ouvido sua voz, meu pai me ligou para matar saudades. Não comentei que tenho dormido mal, que tive febre no domingo – resfriado mal cuidado, talvez, ou mesmo a própria saudade – me perguntou o que eu estava fazendo: estudando um pouco. “A coisa continua, né, filhão? As leituras não param!” disse ele rindo.
Ontem, foi aniversário da minha mãe. Liguei para ela e desejei saúde. Dei beijos e saudades. Um minuto e pouco de conversa – não havia muito que dizer, realmente. As palavras já não tem bastado muito.
E tem sido assim com todos que me ligam do Rio de Janeiro. Não há muito que conversar. Se eu prolongar um papo por mais de dois minutos, a garganta se fecha, me falta o ar e as palavras se transformam em lágrimas. Até com meus pais, meu primo, minha Ana, até com eles as conversas tendem a serem curtas agora. Os olhos doem, uma pressão horrível vai trazendo de forma dolorida as lágrimas salgadas como água do mar.
Me refugio por aqui, atrás das muitas vozes que crio n’O Ventríloquo. Me acalmo com os comentários dos amigos, dos desconhecidos, de quem passa por aqui e deixa uma voz que seja, um sonzinho que seja, algo que emita um palpitar, uma conversa. Desde o início, há quatro meses, quando se concretizou o primeiro dos sonhos profissionais: ser professor universitário federal, seguir com os estudos, agora como docente, em História Medieval, desde o início, eu sabia que não seria fácil: mas quem disse que tem que ser?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Além do bem e do mal

Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), Los Caprichos, Plate 39 Asta su Abuelo. And so was his grandfather Etching with burnished aquatint, courtesy of Arthur Ross, New York City

(Aos amigos Fernando e Marcus)
Logo após o natal encontrei-me, juntamente com minha Ana, com alguns nobres amigos que já me acompanham desde longa data. Na verdade, considero que são os únicos que ainda tenho o privilégio de manter contato fiel lá dos tempos de Padre Miguel.
Todos tínhamos motivos muitos para comemorar, por Deus, fico agora a pensar que já há dois anos só tenho tido bons motivos na vida! Curioso isso, pois a pena na mão tem estado leve e a escrita mais suave, da poesia à prosa. Minha voz não anda rouca, poucos são os desafinos e é deste jeito, ao som do ótimo álbum Pixinguinha + Benedito – Mário Seve + David Ganc, que solto a voz como sortilégio e com pitadas de vodca para ver se ao final da conversa consigo dormir.
Mas como dizia, ganhei de um grande amigo, que muito me inspirou em minha trajetória acadêmica, um exemplar do ótimo livro do filósofo Friedrich Nietzsche: Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Confesso que, assim como o “Cavaleiro Inexistente”, também recebido alegremente como presente na mesma ocasião, eu já possuía tal pérola da filosofia alemã. Contudo, e aqui cabe bem a advertência, não há presente melhor, repetido ou não, que um livro com dedicatórias de pessoas amigas, além do mais, devo dizer, as edições que possuo dos tratados citados não chegam aos pés das que fui presenteado naquele jantar tão agradável.
O livro que Fernando me deu caiu como uma luva ao dia, ao ano, ao contexto, e como é caro, para nós historiadores, o contexto! “Além do bem e do mal”, talvez seja uma das frases que eu e o hilário e talentoso Fernando mais ouvimos em prosas ora reflexivas, ora animadas regadas a um bom chope com Marcus.
“Chegar ao status, estar acima, além do bem e do mal”. Esta é, ainda, sem dúvida nenhuma, a visão futuresca de todo aquele que se envereda pelos caminhos da vida acadêmica – em sua grande parte.
Uma vida cheia de vaidades, frágeis subterfúgios amargos, desavenças e de poucas, pouquíssimas amizades verdadeiras. Vida de uma mão, certamente uma mão, pois somente com uma, talvez duas, pode-se contar os amigos e com várias os desafetos – sugiro a utilização, também, dos dedos dos pés.
“Estar além do bem e do mal” nos dizia Marcus saboreando o chope na Cobal do Humaitá numa madrugada chuvosa em suas primeiras férias no Rio de Janeiro após ser aprovado como professor adjunto da Universidade Federal do Mato Grosso.
Naquele tempo, naquele dia, eu ainda vislumbrava a entrada no mestrado. Fernando havia acabado de ser aprovado. Um mundo novo diante dos nossos olhos.
Daí a importância do Além do bem e do mal do Nietzsche no jantar em dezembro último. Livro que recebi com um sorriso. O mesmo sorriso tateado pelas pontas dos meus dedos quando recebi das mãos de Graça e Marcus o exemplar de O cavaleiro inexistente, cuja dedicatória me mantêm firme nos meus propósitos. Livro que já li duas vezes e cujo trecho que agora descrevo – “mas concluída a página, retoma-se a vida, e nos damos conta de que aquilo que sabíamos é realmente nada”[1] – me acompanha desde que o li pela primeira vez.
Quando passei no doutorado, ouvi de minha orientadora que sua satisfação era grande e que seus planos para mim em dois mil e nove eram vários, principalmente no auxílio na orientação dos novatos. O ano começou realmente assim.
Minha primeira tarefa tem sido a co-orientação final de um graduando cuja monografia apresenta problemas curiosos. Para mim um trabalho gratificante, pois se é isso que quero para o futuro é isso que devo fazer já de agora. Triste para o rapaz que terá que corrigir cada linha do seu texto, ainda truncado e, querendo ou não, ninguém gosta muito de ser corrigido.
Ao mesmo passo, me recordo da frase que ouvi de um outro amigo que seguirá para o Mato Grosso esse ano como professor assistente da mesma UFMT: “agora fico mais tranqüilo, não pesquiso mais para trabalhar, trabalho para pesquisar...”. A frase tem sentido lógico. Um sentido que agora sinto na pele como urticária. Minha matrícula ainda não foi feita no doutorado, mas as responsabilidades de tal condição já me cercam. Em meio à revisão final da dissertação. Em meio às criticas a monografia do graduando, parirei um artigo. O e-mail foi claro: “agora é vida de doutorando, meu caro. A preocupação não é apenas o doutorado, mas também um lugarzinho numa federal.”.
Bem se alguém ainda não entendeu a máxima “estar acima do bem e do mal”, explico de forma simples, mesmo sendo desnecessário, após o texto do e-mail que não preciso citar a fonte: Não é se tornar melhor que todos, melhor que o mundo, tampouco, tornar-se o dono da verdade. Esse nunca foi meu objetivo, nem o nunca será. Não há nada relacionado ao livro do Nietzsche. Não há loucura em tal fala na mesa do bar. Em tempos de crise, até uma criança entenderia. Trata-se de estabilidade e de certo modo: liberdade. Escrever em primeira pessoa. Independência acadêmica, mesmo dentro dos micropoderes, basta apenas saber onde pisar. Evitar os calos dos outros e são muitos. Seguir com os “cavalos da história” diria eu.
Pois no fim do caminho, e sei que esse meu caminho terá de ter um fim, há de ter um fim, por favor, eu creio no fim, não quero citar a mim mesmo, ouvir de mim mesmo as palavras do velho Nietzsche: “É terrível morrer de sede no mar...”.[2]
E a conversa durou todo o Cd... E a conversa acabou com toda a vodca e não me fez adormecer!


Ps. Sim, a gravura de Francisco Goya y Lucientes é uma doce provocação visual.
[1]CALVINO, Italo. O Cavaleiro Inexistente. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 59.
[2]NIETZSCHE. Friedrich. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 64.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O fim de um ciclo

A voz de hoje vem num tom manso e sem a rouquidão costumeira. Solto a voz já de madrugada, não tão tarde, mas já é quinta-feira e como de hábito, minha voz de hoje, na verdade, fala do passado, um passado recente, é claro, mas que é passado.
No dia 03 de dezembro de 2008 me tornei mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Juro que não imaginava que no ato de minha defesa eu estaria tão calmo, sereno, tranqüilo, o jargão me lembra uma antiga música do Grupo Logos, conjunto musical protestante que fez muito sucesso no seio das Igrejas Evangélicas “tradicionais” nos anos 80 e 90.
Era assim que eu estava. Respondi cada questionamento buscando as nuances da pesquisa, fui elogiado, houve diálogo. Houve o que sempre busquei na minha vida acadêmica uma troca coesa, independentemente se os pressupostos teóricos fossem discordantes da banca. E como a mesma banca afirmou, a pesquisa teoricamente estava bem “amarrada”.
Penso agora num passado mais distante, quase esquecido. Não naturalizarei minha trajetória, pois já quis ser muita coisa na vida: goleiro de futebol, cirurgião, cientista, açougueiro, piloto de avião, arqueólogo (no estilo Indiana Jones), músico, sociólogo e físico. Depois de muito sonhar e ainda sou novo, acabei optando pela carreira de professor, de professor de História e nesse trajeto, com uns meses de curso universitário passei a sonhar em ser pesquisador, mais especificamente, medievalista. O sonho passou a ser o mestrado. Eu tinha que fazer um mestrado.
Ressalto que não quero balbuciar jargões como “sou brasileiro e não desisto nunca...”, pensei em desistir várias e várias vezes, ainda hoje o penso. Mas prossigo, prossigo pois cheguei a feliz conclusão de que, realmente, não sei fazer outra coisa. Que independentemente de salário, status ou coisa assim, é fazendo o que faço que me sinto realizado e hoje ou ontem me senti assim.
Foi bom ver e rever rostos conhecidos. Pessoas com quem contei. Senti falta de outras, que continuo contando para minha felicidade, outras não mais. Foi possível contar nos dedos quem estava lá, o que me remete a uma alegria infinitamente grande. Sei que incontáveis foram as pessoas que estavam naquele momento, em algum momento seu, pensando em mim. Talvez, foram esses pensamentos que me tranqüilizaram e agora que relembro, me surpreendo.
Como disse, não quis falar sobre uma naturalização da minha carreira. Eu seria muito feliz sendo açougueiro. Mas não sou. Mas ainda tenho um pequeno sonho de ter um açougue. E não riam, pois é sério!
Porém, prefiro recortar fontes medievais. Uma alcatra do Poema de Mio Cid. Um contra-filé da Vida de Santo Domingo de Silos.
O garotinho da foto quis ser muita coisa, mas ele confessa que nunca pensou que seria mestre em algo, talvez mestre cuca, mas mestre em História... Jamais!
Fica meu terno agradecimento à minha orientadora, pela confiança antes de tudo e a todos que acreditaram em algum momento, me fazendo, também, acreditar!
E este é apenas o fim de um ciclo...


Ps. Escrevo no calor do momento. Não rolou revisão na voz de hoje, então...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um horizonte distante para a janela da alma

Janela lateral do prédio do Paço Imperial

Esse grito vai sem delongas ou pieguices dedicado a quatro pessoas. Sem muita revisão, sem muito gargarejo ou ensaio. Talvez saia rouco e desafinado – e quem não desafina na vida?
Vai para você Gustavo Alvaro. Vai para você Ana Lúcia. Vai para você Carolina Fortes. E vai para você, minha cara orientadora. Tenho meus motivos. Meus muitos motivos.
Ontem foi dia dos mestres. Maestros que ensinam a ler, escrever. Ensinam em escolas e universidades por esse Brasil. Ontem foi um dia confuso para mim. Mas, um dia que não ensinei, apenas aprendi. Pois nessa arte de ensinar sempre há suas surpresas e a gente aprende mais do que ensina.
A minha veio numa notícia de início desastrosa para minha vida organizada em prol de minha pesquisa histórica que, como bem salientado por Carolina, não deve ser o único foco da nossa vida. Me conformei. Mas não era conselho de conforto era conselho de alguém que sabia o que estava dizendo.
Meu semblante mudou um pouco, já sorria para Gustavo e observada seu novo livro de partituras para viola. A voz embargada que Ana havia ouvido minutos antes pelo celular, possuía uma firmeza conhecida e natural. Eu até já sorria.
O mesmo celular vibrou. Entrei no elevador só. Poucos segundos me separavam do que meses, dias, horas antes eu vislumbrava no horizonte distante. Esses mesmos segundos, me remeteram ao passado. Ao caminho que tracei até ali: o horizonte não era distante, na verdade, era aquele momento. A tranqüilidade me domou mais uma vez.
Um bom orientador não se resume em um milimétrico olhar crítico sob e sobre nossos textos. Não se faz e se perpetua, simplesmente, pelo conhecimento prévio de livros, artigos, caminhos. Não! Definitivamente não! E hoje acabei tendo essa certeza - que já me era clara.
Com pesar uma notícia me foi dada e com uma segurança tamanha a solução encontrada. Uma solução de arrepiar os pêlos do braço. A tensão foi passando. Segredos mais uma vez sendo guardados.
A janela foi se abrindo e um raio de sol foi transpassando as nuvens densas. Mas o caminho ainda é longo, pois o tempo vira. Mas por que desesperar?
Coincidências da vida? Não sei. Mas quando acabo de gritar o que aqui gritei, que música vocês acham que começou a tocar?
Um abraço terno em vocês, viu?
Divido minha voz e cantarolo aqui uma das muitas belas canções da fértil parceria entre Ivan Lins e Vitor Martins. Pois não devemos nunca nos desesperar, jamais!

Desesperar, jamais
(Ivan Lins e Vitor Martins)

Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo

Nada de correr da raia
Nada morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer

No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer valer o dito popular

Desesperar jamais
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais

* Do disco: A Noite (P 1979)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Por onde será que anda a vontade de saber?

Quarta-feira última, participei do lançamento de um livro acadêmico no qual tenho um artigo. Não citarei o nome do tratado, pois quero evitar possíveis mal-estares pela crítica que aqui farei. Claro que a crítica a que me refiro não é a respeito do livro, mas sobre algo que aconteceu nos bastidores do lançamento e que refletem um certo problema que já vem se estendendo.
O momento sem dúvida foi de festa. Creio, infelizmente, que uma festa um tanto contida e que merecia mais ovação pelo histórico tão trabalhoso que foi o trajeto dos artigos até a prensa. Mas como já ressaltei aqui várias e várias vezes: os tempos são outros. São tão outros que minutos antes, presenciei uma cena que, realmente, nunca pensaria ver (mas no geral, o lançamento foi bonito e a mesa redonda, da qual participei como um dos conferencistas, foi, digamos, peculiar).
Como estava dizendo, minutos antes de assumirmos nossos postos na grande e bonita mesa presente no Salão Nobre, ouvi a talentosa organizadora do tratado, um tanto desanimada, virando-se para mim, em tom de reflexão: “Ando tão cansada. Decepcionada com essa nova geração de orientandos/bolsistas...”. Realmente, me assustei, não pela crítica àqueles que trabalham com ela, mas, pelo cansaço na fala, considerando que a mesma é ainda uma jovem professora. Tentei amenizar, enumerando os ex-orientandos que agora já fazem parte do panteão acadêmico federal ou que têm seus artigos várias vezes publicados por revistas especializadas, mas creio que não foi o suficiente para levantar seu ânimo naquele momento. Pela primeira vez a ouvi citar nomes, um por um, daqueles que não estavam fazendo jus ao apertado dinheiro disponibilizado pela Capes e, acho, que no fundo, do tempo dispensado por ela para orientação. Tempos outros realmente. Citei um nome. Um nome cujo futuro é de estrelas. Jovem rapaz ainda. Caminhando, mas já com passos largos. Ela balançou a cabeça que sim. Mas apenas ele, pelo visto, para ela, configura-se como alguém que ainda vale noites de leitura.
Dali saí com Ana e Thiago, rumamos para Tijuca, fomos comemorar o prenúncio de bons ventos para mim e aproveitar para engolir à seco o empate do Fluminense em pleno Maracanã.
Enquanto estávamos sentados no Vaca Brava, ótimo bar tijucano e razoavelmente barato, comentei sobre meu susto de horas antes. Ana e Thiago riram e me falaram de uma frase que minha falta de atenção na mesa não captou. Em “púlpito” ela não deixou passar seu descontentamento e assinalou enfaticamente que nosso laboratório de pesquisa não é um “clube social”. Curioso, horas antes da mesa redonda, parei para tomar um choppinho com dois amigos e um deles alertou sobre muitos dos que ali estão, apenas o estão por encontros, pela simples oportunidade de ter um lugar. Identidade, talvez. Me fez lembrar aqui de Marc Auge (são tantos os lugares e não lugares não é mesmo?).
Entre um xingamento e outro, um gole de cerveja, uma garfada na deliciosa carne-seca com aipim, Thiago virou-se para nós e, sorrindo, sacramentou: “É o problema do entre safras. Ela ficou mal acostumada com bons orientandos, que levavam o trabalho de pesquisa a sério.”.
Quase não discordo do meu grande amigo, mas, dessa vez, sou obrigado a seguir outro rumo.
Acho que na verdade, a preocupação daquela professora, com uma bagagem acadêmica enorme, é a de perceber que todo um trabalho de anos e anos de dedicação e construção pode estar indo por água abaixo nas mãos de uma “nova geração”, que no fundo é reflexo do que tem sido o nosso Brasil: muita festa e pouco fazer.
É claro que não se pode generalizar. Há muita gente boa por vir. Muita gente compromissada, mas, por enquanto, sua frase anda ecoando na minha cabeça e sua preocupação passa ser a minha!