ventríloquo [Do lat. tard. ventriloquu.] Adjetivo. Substantivo masculino. 1.Diz-se de, ou aquele que sabe falar sem abrir a boca e mudando de tal modo a voz que esta parece sair de outra fonte que não ele. E assim são os textos. Ao menos os que escrevo. Eles têm várias vozes. Minhas várias vozes. Em tempo. Tempos nublados ou com sóis. Não há muito o que dizer sobre mim. O resto está aí. Várias vozes sem mover meus lábios. O ventríloquo.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
A vida que segue...
quarta-feira, 4 de maio de 2016
As trincheiras discursivas, os bunkers de monopensamento e o motocontínuo das batalhas campais
sexta-feira, 6 de março de 2015
Para o Alexandre Moraes
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Hora do balanço: balançou?
Fuçando as coisas: papéis amarelados, sons e cheiros, encontrei numa pasta perdida no computador uma série de vídeos e fotografias de quando vim prestar concurso para a Universidade Federal de Sergipe. A história, acredito que já contei por aqui. Mas há um outro lado...
Quando peguei o avião para Aracaju – eu nem lembrava disso até ver a fotografia em questão – saí com duas malas de casa. O que me chamou atenção hoje no remoer da memória, é que uma delas era apenas de livros, eu falarei mais sobre isso a seguir. Vai um copinho de cerveja?
Os vídeos que registrei são engraçados, pensei comigo: “farei um documentário sobre minha aventura” – não, eu não pensava em ser aprovado, queria apenas testar meus conhecimentos adquiridos na graduação e no mestrado, já que acabara de entrar no doutorado e pretendia, com a bolsa da Capes que eu havia conseguido, fazer um curso mais tranqüilo do que foi o de mestrado, talvez, um sanduíche na Espanha ou coisa do tipo. Os vídeos serviriam então como registro da aventura e uma forma de escape para a pressão que vinha de fora.
Semana passada, recebi aqui em Aracaju duas pessoas importantes na minha formação acadêmica, meu primeiro orientador, Marcus Cruz, e minha orientadora no mestrado e no doutorado, Andréia Frazão. Foi uma experiência nova, eu os recebi não como meus professores, mas como colegas de profissão! Talvez, tenha sido esse um dos momentos mais importantes da minha carreira acadêmica e, com certeza, nunca esquecerei!
Quando revi os vídeos hoje, lembrei das palavras de incentivo dos dois quando vim fazer as tais provas de títulos apenas para tentar, enquanto eles e outras pessoas achavam que eu iria conseguir. Na mala, diversos livros clássicos de História Medieval. O interessante, é repensar naqueles dias que caminhei só por umas ruas da cidade, meio perdido, meio achado, ou pensar nas pessoas que conheci naqueles dias e acabaram se tornando meus amigos.
O engraçado é pensar que agora estou aqui olhando um céu azul de doer os olhos, avaliando a saudade, buscando o sentindo do por que querer saber de mais nessa vida. Por que querer saber demais?
Há oito meses eu saia de casa com as tais duas malas, dois meses depois, saí de casa e me mudei pra cá, ontem lá, hoje aqui... amanhã?
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Dá-lhe Potó
Na minha segunda noite aqui, deixamos Rust dormindo no quarto e fomos tomar umas caipirinhas no La Pizzeria, restaurante anexo a outra bela pousada na Rua do Giz. Ficamos tão famosos no lugar, talvez, por termos acabado todas as noites com as garrafas de cachaça Seleta e com os limões da casa por conta das nossas caipirinhas, que tivemos até mesa cativa! Bom, esse é o lado belo da coisa, triste, triste foi o bendito (ou maldito) Potó que acabou com quase toda a minha estadia na cidade.
Vamos à aula de Biologia.
Segundo que li, o Potó (Paederus) quando em contato com a pele causa um queimadura forte na região, graças a uma toxina liberada em sua defesa (e em nosso prejuízo), o pessoal daqui chama de mijo... Fui uma vítima do Potó! A foto abaixo demonstra a fase tranqüila do incidente, pois, piorou meu chapa!
As fotos da “evolução” da “pereba” preferi não mostrar... mas ficou feio!
Bom, São Luis tem um charme diferente, uma beleza diferente e um ritmo diferente. O que não deve ser interpretado para mal. O diferente que digo não chega a ser o exótico. Fiquei apenas pelo centro da cidade, visitei apenas bares e confesso que gostei. O congresso foi bacana. Amanhã volto para casa, ainda com a canela doendo e o tornozelo inchado, mas vamos seguindo!
Disso tudo, o que mais me chamou atenção foi uma frase da minha mãe, quando liguei para o Rio de Janeiro pedindo informações sobre meu problema (ela é enfermeira): “Filho, estou doida para que você volte para casa...” e eu: “Poxa mãe, só vou ao Rio em dezembro...”. Ela então me responde com a maior naturalidade possível: “Não meu filho, eu quis dizer para o teu apartamento em Aracaju...”. É, se até dona Cristina já se acostumou com a idéia de que Aracaju é minha nova casa, quem sou eu para discordar! Dá-lhe Potó!
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Quatro meses longe de casa...
Deixei no Rio de Janeiro, minha família, uma noiva linda, amigos e raízes. Deixei para trás a correria carioca, o morro, o samba, o choro, os botecos e um pouco de poesia. Lá ficaram também problemas de dinheiro, aperto financeiro, sonhos sempre adiados e mais livros. Ficou no Rio de Janeiro um poço de saudade que derrama aqui todos os dias e me lava a alma quando sinto o vento nos cabelos pretos, pretinhos, como diria minha Ana.
Deixei meu pai e minha mãe orgulhosos, mas sem um pedaço de si. Meu quarto não é mais meu e minha casa não é mais minha: é a casa dos meus pais que, agora, quatro meses depois, é lugar de visita para mim. E que logo, logo, chegarei com sorriso aberto. Um mês, dois meses, mais ou menos para eu aparecer por lá.
No Rio de Janeiro, deixei, nessa mesma casa, fotografias que há quatro meses rememoravam apenas meu rosto quando menino, agora, para meus pais e, também, para mim, quando ali pisar, rememorará o tempo em que eu vivia ali e corria de pés descalços pela terra macia e fresca do quintal. Um tempo em que me sentava debaixo das mangueiras, abacateiros, jaqueiras, pensando, sonhando com o futuro: o futuro agora me relembra o passado.
As mesmas ruas em que eu caminhava naturalmente com os cachos ao vento, um sol quente corando o rosto, seja indo ao açougue do “Manéu” comprar contra-filé, seja para ir dar aula ou mesmo um pulo na casa do Elber para estudar música, conversar sobre música e vida, ficaram há quatro meses no Rio de Janeiro.
Há um mês não choro. Há um mês, aos poucos, fui me acostumando com a rotina que me cerca agora: reuniões departamentais, comissões de eventos científicos, viagens para congressos, orientações, aulas, mais reuniões, política acadêmica, vaidade alheia, squash, conversas noturnas com amigos, garrafas de vinho e tulipas de chope. O vazio vai se acomodando no peito, de pouquinho em pouquinho, e vou entendendo, assim, que ficarei por aqui por muito tempo e, enquanto isso, aguardando Ana. Há, ainda, muitos espaços vazios para se acomodarem no peito e na alma, disso eu sei.
Choro agora enquanto ouço Candeia cantado por Teresa Cristina. Talvez, não esteja chorando nem por tristeza, nem por saudade, apenas por quase não chorar mais. Curiosidades do tempo. Choro, talvez, por racionalizar a saudade que me acua dentro do apartamento entre livros, discos e a flauta que, ultimamente, tem soprado apenas canções que falam do meu Rio de Janeiro.
Coisas da vida. Ontem, ao término de uma aula minha, uma aluna veio me perguntar como é sair de casa para tão longe (ela está pensando em fazer concurso para outro estado). Fui enfático: é ruim. Você chorará todos os dias. Haverá sempre um aperto no peito, um nó na garganta quando falar da tua terra, dos teus pais, da sua origem. Mas você se acostuma.
O conselho que a dei, foi o mesmo que ouvi, certa vez, do Kiko, no período em morei com ele aqui em Aracaju. Lembro-me bem da conversa e ainda hoje, já quatro meses depois, ainda marejo os olhos como marejei naquele dia em sua cozinha.
E continuo entre livros e discos. Leitura e música são coisas que não me largam nem na lua. Hoje, quatro meses depois de sair do Rio de Janeiro, cinco dias depois de ter ouvido sua voz, meu pai me ligou para matar saudades. Não comentei que tenho dormido mal, que tive febre no domingo – resfriado mal cuidado, talvez, ou mesmo a própria saudade – me perguntou o que eu estava fazendo: estudando um pouco. “A coisa continua, né, filhão? As leituras não param!” disse ele rindo.
Ontem, foi aniversário da minha mãe. Liguei para ela e desejei saúde. Dei beijos e saudades. Um minuto e pouco de conversa – não havia muito que dizer, realmente. As palavras já não tem bastado muito.
E tem sido assim com todos que me ligam do Rio de Janeiro. Não há muito que conversar. Se eu prolongar um papo por mais de dois minutos, a garganta se fecha, me falta o ar e as palavras se transformam em lágrimas. Até com meus pais, meu primo, minha Ana, até com eles as conversas tendem a serem curtas agora. Os olhos doem, uma pressão horrível vai trazendo de forma dolorida as lágrimas salgadas como água do mar.
Me refugio por aqui, atrás das muitas vozes que crio n’O Ventríloquo. Me acalmo com os comentários dos amigos, dos desconhecidos, de quem passa por aqui e deixa uma voz que seja, um sonzinho que seja, algo que emita um palpitar, uma conversa. Desde o início, há quatro meses, quando se concretizou o primeiro dos sonhos profissionais: ser professor universitário federal, seguir com os estudos, agora como docente, em História Medieval, desde o início, eu sabia que não seria fácil: mas quem disse que tem que ser?
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Além do bem e do mal
Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), Los Caprichos, Plate 39 Asta su Abuelo. And so was his grandfather Etching with burnished aquatint, courtesy of Arthur Ross, New York CityTodos tínhamos motivos muitos para comemorar, por Deus, fico agora a pensar que já há dois anos só tenho tido bons motivos na vida! Curioso isso, pois a pena na mão tem estado leve e a escrita mais suave, da poesia à prosa. Minha voz não anda rouca, poucos são os desafinos e é deste jeito, ao som do ótimo álbum Pixinguinha + Benedito – Mário Seve + David Ganc, que solto a voz como sortilégio e com pitadas de vodca para ver se ao final da conversa consigo dormir.
Mas como dizia, ganhei de um grande amigo, que muito me inspirou em minha trajetória acadêmica, um exemplar do ótimo livro do filósofo Friedrich Nietzsche: Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Confesso que, assim como o “Cavaleiro Inexistente”, também recebido alegremente como presente na mesma ocasião, eu já possuía tal pérola da filosofia alemã. Contudo, e aqui cabe bem a advertência, não há presente melhor, repetido ou não, que um livro com dedicatórias de pessoas amigas, além do mais, devo dizer, as edições que possuo dos tratados citados não chegam aos pés das que fui presenteado naquele jantar tão agradável.
O livro que Fernando me deu caiu como uma luva ao dia, ao ano, ao contexto, e como é caro, para nós historiadores, o contexto! “Além do bem e do mal”, talvez seja uma das frases que eu e o hilário e talentoso Fernando mais ouvimos em prosas ora reflexivas, ora animadas regadas a um bom chope com Marcus.
“Chegar ao status, estar acima, além do bem e do mal”. Esta é, ainda, sem dúvida nenhuma, a visão futuresca de todo aquele que se envereda pelos caminhos da vida acadêmica – em sua grande parte.
Uma vida cheia de vaidades, frágeis subterfúgios amargos, desavenças e de poucas, pouquíssimas amizades verdadeiras. Vida de uma mão, certamente uma mão, pois somente com uma, talvez duas, pode-se contar os amigos e com várias os desafetos – sugiro a utilização, também, dos dedos dos pés.
“Estar além do bem e do mal” nos dizia Marcus saboreando o chope na Cobal do Humaitá numa madrugada chuvosa em suas primeiras férias no Rio de Janeiro após ser aprovado como professor adjunto da Universidade Federal do Mato Grosso.
Naquele tempo, naquele dia, eu ainda vislumbrava a entrada no mestrado. Fernando havia acabado de ser aprovado. Um mundo novo diante dos nossos olhos.
Daí a importância do Além do bem e do mal do Nietzsche no jantar em dezembro último. Livro que recebi com um sorriso. O mesmo sorriso tateado pelas pontas dos meus dedos quando recebi das mãos de Graça e Marcus o exemplar de O cavaleiro inexistente, cuja dedicatória me mantêm firme nos meus propósitos. Livro que já li duas vezes e cujo trecho que agora descrevo – “mas concluída a página, retoma-se a vida, e nos damos conta de que aquilo que sabíamos é realmente nada”[1] – me acompanha desde que o li pela primeira vez.
Quando passei no doutorado, ouvi de minha orientadora que sua satisfação era grande e que seus planos para mim em dois mil e nove eram vários, principalmente no auxílio na orientação dos novatos. O ano começou realmente assim.
Minha primeira tarefa tem sido a co-orientação final de um graduando cuja monografia apresenta problemas curiosos. Para mim um trabalho gratificante, pois se é isso que quero para o futuro é isso que devo fazer já de agora. Triste para o rapaz que terá que corrigir cada linha do seu texto, ainda truncado e, querendo ou não, ninguém gosta muito de ser corrigido.
Ao mesmo passo, me recordo da frase que ouvi de um outro amigo que seguirá para o Mato Grosso esse ano como professor assistente da mesma UFMT: “agora fico mais tranqüilo, não pesquiso mais para trabalhar, trabalho para pesquisar...”. A frase tem sentido lógico. Um sentido que agora sinto na pele como urticária. Minha matrícula ainda não foi feita no doutorado, mas as responsabilidades de tal condição já me cercam. Em meio à revisão final da dissertação. Em meio às criticas a monografia do graduando, parirei um artigo. O e-mail foi claro: “agora é vida de doutorando, meu caro. A preocupação não é apenas o doutorado, mas também um lugarzinho numa federal.”.
Bem se alguém ainda não entendeu a máxima “estar acima do bem e do mal”, explico de forma simples, mesmo sendo desnecessário, após o texto do e-mail que não preciso citar a fonte: Não é se tornar melhor que todos, melhor que o mundo, tampouco, tornar-se o dono da verdade. Esse nunca foi meu objetivo, nem o nunca será. Não há nada relacionado ao livro do Nietzsche. Não há loucura em tal fala na mesa do bar. Em tempos de crise, até uma criança entenderia. Trata-se de estabilidade e de certo modo: liberdade. Escrever em primeira pessoa. Independência acadêmica, mesmo dentro dos micropoderes, basta apenas saber onde pisar. Evitar os calos dos outros e são muitos. Seguir com os “cavalos da história” diria eu.
Pois no fim do caminho, e sei que esse meu caminho terá de ter um fim, há de ter um fim, por favor, eu creio no fim, não quero citar a mim mesmo, ouvir de mim mesmo as palavras do velho Nietzsche: “É terrível morrer de sede no mar...”.[2]
E a conversa durou todo o Cd... E a conversa acabou com toda a vodca e não me fez adormecer!
Ps. Sim, a gravura de Francisco Goya y Lucientes é uma doce provocação visual.
[1]CALVINO, Italo. O Cavaleiro Inexistente. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 59.
[2]NIETZSCHE. Friedrich. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 64.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
O fim de um ciclo
A voz de hoje vem num tom manso e sem a rouquidão costumeira. Solto a voz já de madrugada, não tão tarde, mas já é quinta-feira e como de hábito, minha voz de hoje, na verdade, fala do passado, um passado recente, é claro, mas que é passado.No dia 03 de dezembro de 2008 me tornei mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Juro que não imaginava que no ato de minha defesa eu estaria tão calmo, sereno, tranqüilo, o jargão me lembra uma antiga música do Grupo Logos, conjunto musical protestante que fez muito sucesso no seio das Igrejas Evangélicas “tradicionais” nos anos 80 e 90.
Era assim que eu estava. Respondi cada questionamento buscando as nuances da pesquisa, fui elogiado, houve diálogo. Houve o que sempre busquei na minha vida acadêmica uma troca coesa, independentemente se os pressupostos teóricos fossem discordantes da banca. E como a mesma banca afirmou, a pesquisa teoricamente estava bem “amarrada”.
Penso agora num passado mais distante, quase esquecido. Não naturalizarei minha trajetória, pois já quis ser muita coisa na vida: goleiro de futebol, cirurgião, cientista, açougueiro, piloto de avião, arqueólogo (no estilo Indiana Jones), músico, sociólogo e físico. Depois de muito sonhar e ainda sou novo, acabei optando pela carreira de professor, de professor de História e nesse trajeto, com uns meses de curso universitário passei a sonhar em ser pesquisador, mais especificamente, medievalista. O sonho passou a ser o mestrado. Eu tinha que fazer um mestrado.
Ressalto que não quero balbuciar jargões como “sou brasileiro e não desisto nunca...”, pensei em desistir várias e várias vezes, ainda hoje o penso. Mas prossigo, prossigo pois cheguei a feliz conclusão de que, realmente, não sei fazer outra coisa. Que independentemente de salário, status ou coisa assim, é fazendo o que faço que me sinto realizado e hoje ou ontem me senti assim.
Foi bom ver e rever rostos conhecidos. Pessoas com quem contei. Senti falta de outras, que continuo contando para minha felicidade, outras não mais. Foi possível contar nos dedos quem estava lá, o que me remete a uma alegria infinitamente grande. Sei que incontáveis foram as pessoas que estavam naquele momento, em algum momento seu, pensando em mim. Talvez, foram esses pensamentos que me tranqüilizaram e agora que relembro, me surpreendo.
Como disse, não quis falar sobre uma naturalização da minha carreira. Eu seria muito feliz sendo açougueiro. Mas não sou. Mas ainda tenho um pequeno sonho de ter um açougue. E não riam, pois é sério!
Porém, prefiro recortar fontes medievais. Uma alcatra do Poema de Mio Cid. Um contra-filé da Vida de Santo Domingo de Silos.
O garotinho da foto quis ser muita coisa, mas ele confessa que nunca pensou que seria mestre em algo, talvez mestre cuca, mas mestre em História... Jamais!
Fica meu terno agradecimento à minha orientadora, pela confiança antes de tudo e a todos que acreditaram em algum momento, me fazendo, também, acreditar!
E este é apenas o fim de um ciclo...
Ps. Escrevo no calor do momento. Não rolou revisão na voz de hoje, então...
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Um horizonte distante para a janela da alma
Vai para você Gustavo Alvaro. Vai para você Ana Lúcia. Vai para você Carolina Fortes. E vai para você, minha cara orientadora. Tenho meus motivos. Meus muitos motivos.
Ontem foi dia dos mestres. Maestros que ensinam a ler, escrever. Ensinam em escolas e universidades por esse Brasil. Ontem foi um dia confuso para mim. Mas, um dia que não ensinei, apenas aprendi. Pois nessa arte de ensinar sempre há suas surpresas e a gente aprende mais do que ensina.
A minha veio numa notícia de início desastrosa para minha vida organizada em prol de minha pesquisa histórica que, como bem salientado por Carolina, não deve ser o único foco da nossa vida. Me conformei. Mas não era conselho de conforto era conselho de alguém que sabia o que estava dizendo.
Meu semblante mudou um pouco, já sorria para Gustavo e observada seu novo livro de partituras para viola. A voz embargada que Ana havia ouvido minutos antes pelo celular, possuía uma firmeza conhecida e natural. Eu até já sorria.
O mesmo celular vibrou. Entrei no elevador só. Poucos segundos me separavam do que meses, dias, horas antes eu vislumbrava no horizonte distante. Esses mesmos segundos, me remeteram ao passado. Ao caminho que tracei até ali: o horizonte não era distante, na verdade, era aquele momento. A tranqüilidade me domou mais uma vez.
Um bom orientador não se resume em um milimétrico olhar crítico sob e sobre nossos textos. Não se faz e se perpetua, simplesmente, pelo conhecimento prévio de livros, artigos, caminhos. Não! Definitivamente não! E hoje acabei tendo essa certeza - que já me era clara.
Com pesar uma notícia me foi dada e com uma segurança tamanha a solução encontrada. Uma solução de arrepiar os pêlos do braço. A tensão foi passando. Segredos mais uma vez sendo guardados.
A janela foi se abrindo e um raio de sol foi transpassando as nuvens densas. Mas o caminho ainda é longo, pois o tempo vira. Mas por que desesperar?
Coincidências da vida? Não sei. Mas quando acabo de gritar o que aqui gritei, que música vocês acham que começou a tocar?
Um abraço terno em vocês, viu?
Divido minha voz e cantarolo aqui uma das muitas belas canções da fértil parceria entre Ivan Lins e Vitor Martins. Pois não devemos nunca nos desesperar, jamais!
Desesperar, jamais
(Ivan Lins e Vitor Martins)
Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo
Nada de correr da raia
Nada morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer
No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer valer o dito popular
Desesperar jamais
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais
* Do disco: A Noite (P 1979)
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Por onde será que anda a vontade de saber?
Quarta-feira última, participei do lançamento de um livro acadêmico no qual tenho um artigo. Não citarei o nome do tratado, pois quero evitar possíveis mal-estares pela crítica que aqui farei. Claro que a crítica a que me refiro não é a respeito do livro, mas sobre algo que aconteceu nos bastidores do lançamento e que refletem um certo problema que já vem se estendendo.O momento sem dúvida foi de festa. Creio, infelizmente, que uma festa um tanto contida e que merecia mais ovação pelo histórico tão trabalhoso que foi o trajeto dos artigos até a prensa. Mas como já ressaltei aqui várias e várias vezes: os tempos são outros. São tão outros que minutos antes, presenciei uma cena que, realmente, nunca pensaria ver (mas no geral, o lançamento foi bonito e a mesa redonda, da qual participei como um dos conferencistas, foi, digamos, peculiar).
Como estava dizendo, minutos antes de assumirmos nossos postos na grande e bonita mesa presente no Salão Nobre, ouvi a talentosa organizadora do tratado, um tanto desanimada, virando-se para mim, em tom de reflexão: “Ando tão cansada. Decepcionada com essa nova geração de orientandos/bolsistas...”. Realmente, me assustei, não pela crítica àqueles que trabalham com ela, mas, pelo cansaço na fala, considerando que a mesma é ainda uma jovem professora. Tentei amenizar, enumerando os ex-orientandos que agora já fazem parte do panteão acadêmico federal ou que têm seus artigos várias vezes publicados por revistas especializadas, mas creio que não foi o suficiente para levantar seu ânimo naquele momento. Pela primeira vez a ouvi citar nomes, um por um, daqueles que não estavam fazendo jus ao apertado dinheiro disponibilizado pela Capes e, acho, que no fundo, do tempo dispensado por ela para orientação. Tempos outros realmente. Citei um nome. Um nome cujo futuro é de estrelas. Jovem rapaz ainda. Caminhando, mas já com passos largos. Ela balançou a cabeça que sim. Mas apenas ele, pelo visto, para ela, configura-se como alguém que ainda vale noites de leitura.
Dali saí com Ana e Thiago, rumamos para Tijuca, fomos comemorar o prenúncio de bons ventos para mim e aproveitar para engolir à seco o empate do Fluminense em pleno Maracanã.
Enquanto estávamos sentados no Vaca Brava, ótimo bar tijucano e razoavelmente barato, comentei sobre meu susto de horas antes. Ana e Thiago riram e me falaram de uma frase que minha falta de atenção na mesa não captou. Em “púlpito” ela não deixou passar seu descontentamento e assinalou enfaticamente que nosso laboratório de pesquisa não é um “clube social”. Curioso, horas antes da mesa redonda, parei para tomar um choppinho com dois amigos e um deles alertou sobre muitos dos que ali estão, apenas o estão por encontros, pela simples oportunidade de ter um lugar. Identidade, talvez. Me fez lembrar aqui de Marc Auge (são tantos os lugares e não lugares não é mesmo?).
Entre um xingamento e outro, um gole de cerveja, uma garfada na deliciosa carne-seca com aipim, Thiago virou-se para nós e, sorrindo, sacramentou: “É o problema do entre safras. Ela ficou mal acostumada com bons orientandos, que levavam o trabalho de pesquisa a sério.”.
Quase não discordo do meu grande amigo, mas, dessa vez, sou obrigado a seguir outro rumo.
Acho que na verdade, a preocupação daquela professora, com uma bagagem acadêmica enorme, é a de perceber que todo um trabalho de anos e anos de dedicação e construção pode estar indo por água abaixo nas mãos de uma “nova geração”, que no fundo é reflexo do que tem sido o nosso Brasil: muita festa e pouco fazer.
É claro que não se pode generalizar. Há muita gente boa por vir. Muita gente compromissada, mas, por enquanto, sua frase anda ecoando na minha cabeça e sua preocupação passa ser a minha!
