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quinta-feira, 27 de maio de 2021

12 anos de Universidade Federal de Sergipe

Universidade Federal de Sergipe - Campus São Cristóvão




Dia 27 de maio de 2009, uma quarta-feira. Eu e mais umas duas pessoas aprovadas em concurso público de provas e títulos, assinávamos o Termo de Posse como Servidores Públicos Federais, novos docentes. Eu havia chegado no domingo, dia 24 de maio, meus pais me levaram ao Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Meu pai me abraçou e apertou minhas mãos olhando com seus olhos verdes, querendo chorar, nos meus castanhos escuros já chorando. Minha mãe me abraçou e chorou, disse algo quase sussurrando no meu ouvido, que nunca me esqueci e mantenho firme, gostem ou não de mim. Ela disse assim: “Nunca esqueça de onde você partiu, não esqueça tudo o que você lutou para chegar aonde chegou, mas principalmente, de onde você é, quem você é, onde é sua casa, onde você nasceu.”
Nasci no dia 18 de julho de 1983, às 06:20 – em ponto – de uma tarde chuvosa e fria, em Mesquita, Primeiro Distrito do Munício de Nova Iguaçu. Parto normal e rápido. Meu pai trabalhava no comércio, em Madureira, numa rede chamada Papelaria América, entrou como auxiliar de serviços gerais e aos poucos chegou a Gerente de uma das filiais, passou por várias, Rua Uruguaiana, no Centro do Rio de Janeiro, Rua da Alfândega, Cascadura, Nilópolis... Minha mãe foi auxiliar de cozinha, trabalhou com faxina em casas de gente rica, oriunda ainda naquela época da aristocracia iguaçuana e que nos anos 90 migrou para a Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes... Morávamos num sítio enorme, as terras eram baratas em Mesquita nos finais dos anos 70 e início dos anos 80, a casa era “bem ajeitadinha”, segundo conta minha mãe. Era uma casa de estuque, o que chamamos aqui em Sergipe de “casa de taipa”. Não havia luz elétrica, uma pequena televisão de imagem preta e branca conectada numa bateria de carro não me chamava atenção. Eu gostava de ficar no chão da casa brincando com bonecos, trecos de todo o tipo, ou correr entre as plantações de cana, café, pés de jaca, manga espada e carlotinha. Havia muitos abacateiros também, além de araçá e goiaba (branca e vermelha), isso quem conta é meu pai. Essas minhas incursões me renderam quase morrer afogado numa fonte que havia ao lado de nossa casa, o que me salvou foi o instinto rápido de minha mãe e as várias vitórias-régias e um velho que não lembro o nome – depois ligo para o Rio de Janeiro para perguntar – que tinha um sítio vizinho ao nosso e capinava seu terreno no outro lado da cerca de arame. Eu tinha problemas de saúde: não peguei peito, logo não mamava leite materno, não comia direito e o ambiente era muito frio no inverno e no verão mesmo que o sol não fosse algo diretamente chocante, as muitas árvores e a mata atlântica oriunda da Serra do Mendanha que é todo um maciço que circunda a geografia entre Baixada Fluminense e Zona Oeste etc. tornava a necessidade de respirar complexa para mim. Na verdade, a geografia do Estado do Rio de Janeiro é fantástica, a própria capital tem um quê de charme medonho: uma cidade espremida entre as montanhas, morros e o mar. Com quase dois anos de idade completos, meus pais e tios (irmão do meu pai casado com a irmã da minha mãe) que também moravam no grande sítio, aonde também residiam minha avó paterna e seus dois filhos: um tio mais novo e uma tia doidona mais velha que até hoje não fala com o restante da família, compraram uma casa – mais abaixo da montanha. Mudaríamos então para o Morro da Chalet, n. 300, hoje no bairro Santa Terezinha, no agora munícipio de Mesquita. 12 anos. E ainda tenho sotaque. 12 anos e ainda sinto o cheiro das árvores no quintal da minha infância. 12 anos e não vejo muito sentido em tudo que fiz para chegar aonde cheguei, mesmo chegando. 12 anos e aprendi que assim como a força do amor da minha mãe e do meu pai, proporcionalmente, eu não sabia, quando via minha – já formada – enfermeira, trabalhando para o SUS, se doando, ganhando pouco, com o branco do uniforme com gotas de sangue que não eram seu – que o ódio, inveja, rancor, contra Servidores Públicos iria me fazer o mesmo mal que fez à ela, levando-a ao poço da depressão, aos remédios, psicólogos, psiquiatras. Sigo o mesmo caminho, mas ao menos ainda há a Prozac. Quando converso com minha mãe e questiono se não há um excesso de drama, sua firmeza e sutileza de quem nasceu em Marechal Hermes, subúrbio do Rio de Janeiro, viveu a infância em Cabuçu e Mesquita, ela me aconselha: 
“se disserem que você está fazendo drama ou é fraco: Manda se foder”.
 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Crônica que ninguém lê (ou O retorno d'O Ventríloquo)


O que passa por sua cabeça enquanto pedala? Corre? Caminha? Faço escolhas ruins de releituras e leituras quando minha mente está passando por momentos em que insiste em me pregar peças. Talvez, a medicação, a genética, a química dentro de mim. De qualquer maneira, preciso ser rápido com a memória. Mais uma vez: talvez, pela medicação ou mesmo pela velhice (apesar de ainda estar em flor de idade), as drogas – devidamente receitadas pelo meu psiquiatra – mexem de diversas maneiras com meu subconsciente. Muitas vezes transformam minha jornada num transtorno, mesmo que haja benefício.
Disse hoje para alguém que uma boa literatura deve ter sua dose de drama. E não estava mentindo. Com o carro que não é meu, com a bicicleta que nem sei se é minha, com os movimentos que às vezes parecem mecânicos, fui pedalar na Orla da Atalaia, em Aracaju na hora do almoço. Único momento que tenho tido em tempo entre meus afazeres domésticos, intelectuais, burocráticos como: lavar a louça, dar ração ao Gregório, preparar aulas, ler livros e artigos, pensar nas orientações de Iniciação Científica e Mestrado, dar pareceres, prestar contas sobre meu pós-doutorado, organizar comprovantes financeiros comprovando que o dinheiro recebido e gasto pelo programa de mestrado foi empenhado corretamente. Insisto: faço más escolhas de leituras quando a vida não vai bem. Recentemente foi publicada uma edição bilíngue (inglês, nos manuscritos, e português) dos diários do compositor, guitarrista e cantor da banda estadunidense Nirvana, Kurt Cobain, que se suicidou com um tiro de espingarda aos 27 anos, em 1994. A edição é luxuosa, comprei na pré-venda no próprio site da editora, há um certo tempo, por isso ganhei umas memorabilias ou como queiram “souvenires” sobre o finado. Já estou quase terminando a leitura e é angustiante. Ponto. Não importa. O que passa por sua cabeça enquanto pedala?
Hoje, na hora do almoço, quando iniciei meu giro parti da Praia da Cinelândia sentido nova rótula do Farol da Marinha, o objetivo era dar algumas voltas no percurso: Rótula da Cinelândia – Nova Rótula do Farol, que fica praticamente na Praia dos Artistas. 




O exercício mais importante é manter minha mente pensando, praticamente conjugando verbos de ações. Daí as palavras e a narrativa do que ninguém lê se constrói na minha cabeça. Mas eu ouvia uma música constante no início, certamente, por hoje ser segunda-feira e eu ter aula de piano. Enquanto eu pedalava e, para ser sincero, isso ocorreu durante toda a primeira passagem sentido Farol da Marinha, eu só ouvia o “Prelude in C Major, BWV 846”, do compositor protestante luterano Johann Sebastian Bach.


Na versão web é possível ver e ouvir no vídeo acima a execução primorosa do Prelude in C Major

Há uma explicação plausível: tenho enrolado muito no estudo, principalmente nos antepenúltimo e penúltimo compassos. Ontem, estudei um pouco pela noite, então era de se esperar que eu ouvisse a música, visualizasse a partitura na minha frente. Logo me desgarrei quando vi à minha direita a Praia dos Artistas o mar e seu horizonte nublado e, claro, quando fiz a rótula do Farol a pancada de vento que tomei no meu peito. Não havia motivo para ficar pensando em figurinhas escritas entre linhas. Precisava focar em coisas mais interessantes: o cotidiano da Orla enquanto eu estava em movimento.

Um casal de mãos dadas aparentava tesão um pelo outro. Um homem na rede. Uma profissional do sexo me mandando um sinal, respondi que depois. Ela riu. Não viu meu sorriso de máscara. Os caras do famoso lava-jato. A polícia no furgão que fica de frente para o Eu (coração) Aracaju em letras coloridas. Os bares e restaurantes com um casal, um homem só e sua cerveja. A academia com corpos sendo definidos. Primeira volta. Foi-se o vento. A música que vocês ouvem queria voltar à minha mente. Disse que não! Não! Acelerei a cadência. Pesei a marcha, aproveitei o vácuo do vento. Um caminhão recolhia cocos. Garis, sem saber sua importância, faziam seu trabalho. Um homem tirava fotos nas estátuas: tirou com Tiradentes, ao lado havia Zumbi do Palmares, olhou para o chão, Tiradentes é mais fácil de ser reconhecido com sua corda no pescoço. Uma estátua de um negro guerreiro com uma lança em punho, não. Não tive tempo de perceber se ele tirou também uma foto com o líder do famoso quilombo. Eu tinha pressa. Um rapaz corria. Dois homens com máscara no queixo caminhavam. Uma moça segurava um sombreiro na porta de um restaurante vazio. Avistei uma coruja no calçadão, pouco antes, novamente da rótula do Farol da Marinha. A coruja – juro – olhava fixamente para uma pichação na parede oposta a nós dois, do outro lado da pista: “Fora Bozo”. Olhava atenta. A coruja é o símbolo da sabedoria. Mas, sempre há mais pombos cagando na nossa cabeça que corujas para admirarmos.

sábado, 13 de agosto de 2016

A razão da loucura

Mercado Governador Albano Franco - Aracaju-SE

Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe mais o mangue
(Aracaju - Tomás Improta - Vinícius Cantuária - Caetano Veloso - 1979)

Tenho por costume me levantar um pouco mais tarde nos finais de semana, algo entre às 7:30 e 8:30, por aí. Pego o carro e religiosamente vou aos Mercados Centrais de Aracaju. Não sei, mas o vozerio, a agitação, o vento que vem do rio, o céu azul... tudo isso, e alguma coisa a mais, me faz ter uma sensação boa de vida.

Acredito piamente que nós brasileiros nascemos com uma desigualdade nas pernas muito grande e que se reflete de forma muito evidente no trânsito: um pé muito pesado para o acelerador e o outro muito lento para o freio.
É meio provinciano ou local isso, um exemplo muito específico, eu sei, porém, todos sabem que para sair andando do estacionamento próximo ao Terminal Mercado (o dos ônibus) e atravessar a estreita rua que dá para o espaço de pescados ou o das carnes do Mercado Governador Albano Franco é necessário um balé acrobático. Um equilíbrio extremo, quase passos certeiros de valsa para nos desviarmos dos carros e motos que parecem ter um prazer extremo em ver os pedestres suados sob sol quente de Sergipe, afoitos na tentativa de chegar até o  primeiro Mercado.
Não sou um bom bailarino. Dois pra lá, dois prá cá.
E hoje, não diferente dos outros finais de semana, quase fui pego por um Siena fire prata, quatro portas, placa de Aracaju e tendo um senhor um pouco calvo, cabelos brancos e camiseta como condutor. Acho que ele estava com uma sede tremenda, um ódio tamanho para acertar as contas com alguém – ou ele é assim mesmo – pois quando tentei atravessar à frente do seu objeto de poder, aquilo que o torna um individuo diferente dos caminhantes, ele acelerou mais e quase me pegou. Curiosamente, fui salvo pela fidalguia de um motociclista que parou o trânsito da “segunda faixa” – não sei bem se existem faixas ali.
Em meio ao caos cotidiano, ainda pude ouvir um “filho da puta!” em brados retumbantes do motorista! Pensei comigo, poxa nem um “filho do cabrunco... foi filho da puta mesmo!”. Vida que segue e a minha seguiu.
Fiz o que sempre faço, passei na mesma banca, com o mesmo moço e pedi uma água de coco, trocamos uma ideia e ele fez a mesma piada dos outros tantos finais de semana: “Já se protegendo pra cerveja da tarde!”. Eu sempre sorrio e balanço a cabeça.
Fui no mesmo vendedor de queijo coalho dos sete anos em que vivo em Sergipe. Conversamos sobre a mesma coisa dos últimos cinco e depois enfrentei as calçadas justas e abarrotadas para comprar um filtro d’água. Na volta, de fato, tomei uma cerveja e comi um caldo de mocotó no segundo Mercado, enquanto os chorões afinavam os instrumentos. Fiquei pouco ali.
No vendedor ervas, bati um papo e comprei um capim santo pro bichano e, de costume, atravessei o que eu chamo de Paço, onde fazem os tradicionais forrós de junho. Tudo muito cansativo para que você me ouça, eu sei. Mas a alguns metros de entrar no primeiro Mercado, o das frutas, o dos pescados... aquele em que tempos atrás quase virei parte de asfalto. Ouço uma voz firme, grosseira, me questionando de forma intimidadora: “Você é maluco é?”.
Nesse momento minha educação tipicamente da Baixada Fluminense surgiu como um sentido de Aranha prevendo o perigo. Continuei em passos normais. “VOCÊ É MALUCO, PORRA? ESTOU FALANDO COM VOCÊ!”. A coisa ficou séria.
Parei. Tiro nas costas se não matar aleija.
Olhei firme, porém tranquilo. “VOCÊ É MALUCO, QUER MORRER?”. Ah, a didática do trânsito. A didática do motorista cheio de razão que não leu a cartilha do DETRAN.
Frações de segundo serão transpostas em palavras para você, afinal, a mente humana funciona de maneira muito curiosa e um segundo realmente pode parecer uma eternidade quando tentamos relembrar e concretizar a memória em palavras. Então me dê sua mão e vamos juntos para dentro da minha cabeça naquele instante que agora se eterniza entre nós dois:
Se eu responder que não sou maluco darei razão a ele para converter a violência verbal em violência física, violência evidente para mim, mas evidentemente natural e correta para ele. Eu continuava olhando, se houvesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa. Se eu continuar calado, no máximo ficarei ouvindo mais alguns impropérios desse idoso, mau motorista, mau cidadão, arrogante e que deve ter uma vida fodida, tratar mal seus filhos, mulher. Posso mandá-lo tomar no olho do cu, se danar. Mas isso lhe dará razão para partir para cima de mim. Bater em velho é uma puta sacanagem. Porém também posso apanhar. Puta sacanagem. Ele pode estar armado, pode me matar e ele já quase me matou. Eu continuava olhando para ele, se eu tivesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa, isso só alguns loucos passivos têm. Preciso ser racional. Ficarei parado olhando para ele, sem rir, sem me mexer, a não ser que ele avance. Posso me desviar. Pensei também, confesso, se ele partisse para cima de mim: Posso dar na cabeça dele com a parte de terra da muda de capim santo, o filtro não serve. Não! Vou destruir a muda, destruir o filtro. Fiquei parado, olhando para ele.
“VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA NÃO É? ÔXE! É MALUCO MESMO ESSA PRAGA. NÃO DEVIA TÁ SOLTO POR AÍ NÃO, PODIA TÁ AGRADINDO ALGUÉM. AÍ ATRAVESSA ASSIM DESEMBESTADO. E ESSAS MARCA AÍ NO BRAÇO? É COLEIRA? É MACUMBA?”. Eu parado, olhando. Nós dois, talvez, os únicos no mundo. O tempo parado. Entre o centro e a periferia do Paço. Ele, sei lá de onde. Eu de um morro da Baixada Fluminense. Me equilibrando entre o bem e o mal. Meu silêncio, minha segurança. A voz dos meus pais dizendo na infância que quem anda com porco farelo come. Você tem que estudar. Estudar te fará uma pessoa melhor. Minha mãe na última semana aconselhando: você anda irritadiço. Precisa ser mais calmo. Pode surtar a qualquer momento. Eu chorando ao telefone. Minha mãe me aconselhando. E eu parado ouvindo aquele senhor bradando com dedo em riste que eu era maluco. Louco de pedra. Irracional. Eu. Ele. Nós. Eu pensando isso tudo. Um minuto, talvez. Esse foi o tempo. Talvez. A voz dele amansou. Me chamou de filho. Perguntou onde estavam meus pais. Afinal, eu era um louco, um maluco. Aconselhou que eu não devia ficar perambulando pelo Centro de Aracaju. Aconselhou o caralho, me deu foi bronca. “O Centro é perigoso” ele disse. “Vai, vai. Vai tomar seu ônibus. Vai pra casa!”. Não esbocei palavras durante aquele um minuto, um minuto e meio, realmente não sei medir o tempo. Continuei caminhando, o cheiro bom do capim santo. O vozerio novamente, as mesmas piadas, os abanos de cabeça. O moço dos ovos capoeira. A tia das lambretas. Os cheiros. Sorri. Não olhei para trás. Sorri. Estou ficando mais calmo. Menos irritado como minha mãe aconselhou. Não vou surtar, precisar de remédios, falar com profissionais. Eu terei sempre os Mercados Centrais.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

As cagadas do PT ou o ontem depois de hoje

Imagem publicada originalmente na conta de Twitter do jornalista Bruno Torturra

Três máximas que não devem ser ignoradas: 1) Eu fui um dos tolos que disse ruim com o PT, pior sem ele. Está comprovado, isso é uma besteira de ontem; 2) O PT ajudou, no dia 13 de julho de 2016, na concretização do golpe institucional. Está comprovado que hoje o PT é longínquo do que se sonhou um dia longe de ontem. Uma submáxima: o PT é indefensável e, finalmente, 3) Sinto angústia por uma mulher como a Dilma Rousseff, cuja valorosa história revolucionária a torna um exemplo para todos nós, continuar filiada a uma sigla como o PT. Partido que contribuiu imensamente para que, agora, ela fosse definitivamente afastada. A sigla PT não significa mais Partido dos Trabalhadores, mas Poder Totalizante e, para isso, é necessário vender a alma a deus e ao diabo.
Hoje, nessa madrugada tenebrosa, um dia depois da morte de um trabalhador rodoviário em Aracaju por mais um motivo torpe – assalto –, o silêncio nas ruas, graças a paralisação do sindicato, representa os muitos e doloridos silêncios em que se afunda o Brasil. As panelas golpistas se calaram após a abertura do processo de impeachment e no 13 de julho fatídico,uma esquerda pasma, anestesiada e iludida foi golpeada pelo partido golpeado que elegeu um partido golpista para presidir a Câmara dos Deputados Federais.
O cobrador de ônibus assassinado hoje e tantos outros trabalhadores que morrerão daqui a pouco e que continuarão a morrer na roda da fortuna são mais importantes que meu tempo gasto e o sono perdido às portas de dia que passarei inteiro entre papeis e burocracia universitária pensando em como o PT se tornou o que é e em como ainda ouvirei e leirei pessoas, ditas esclarecidas se curvando ou na esperança de explicações retóricas para a atitude política dessa sigla morta. Isso tudo dito aqui, numa única frase, num único fôlego.
Dói pensar que, querendo ou não, a política também é e se faz por laços de afetividade e se, de fato, assim o é, o PT está tão vivo nas mesas de negociação, tão vivo, mas, tão vivo que fede. Pois o único banho que tem tomado é com o sangue de índios, negros, homossexuais, toda uma minoria solapada e violentada diariamente pelo poder dominante que esse mesmo tão vivo PT alimenta. Na verdade, o poder não corrompe, ele vicia o usuário a se lambuzar na corrupção.
Não há muito mais que dizer. Ainda penso na família que enterrará um pai hoje, um filho, um irmão. O silêncio é o símbolo do fim. Como lutar contra o golpe se o golpe é chancelado intencionalmente pelo golpeado? Talvez seja a hora de ignorar o som do silêncio e nos atentarmos mais na busca pela claridade. A frase feita para as redes sociais e para o dia a dia se modifica: primeiramente fora quem?


Nesses tempos tenebrosos: Continuo lutando contra o golpe que devasta a democracia e a partir de agora, também luto contra o PT.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O louco da bicicleta




I’ve got a bike you can ride it if you like
Syd Barrett, 1967

Eu sei que o momento é cuidadoso. Pautas mais importantes preenchem nossa mente e seus parágrafos microscopicamente são analisados pelos nossos olhos. Porém, me permito um momento de distração nessa noite chuvosa em Aracaju e que está me remetendo à minha velha Mesquita...
Às favas! Na verdade, comentar política se tornou uma variável muito difícil de traçar. E como minha garganta está coçando faz uns dias, querendo imitar alguma voz, emitir algum som, decidi mudar um pouco o tom e cantar uma melodia que conheço bem.
Atualmente, um dos muitos – e descontroláveis – problemas, presentes no cotidiano das grandes às pequenas capitais mundiais, diz respeito à mobilidade urbana. O número de carros, por exemplo, numa pequena capital como Aracaju, praticamente triplicou nos últimos anos. No nosso caso, isso deve ser somado a um transporte público deficitário, sucateado, ruas totalmente incapazes de receber todo o fluxo de motos, ônibus e carros e, claro, uma triste cultura capitalista de bens: Ter um carro bacana, do ano, expressa seu sucesso. O trânsito por aqui, não devia, mas é um caos desordenado entre a falta de educação, típica dos motoristas brasileiros, e ausência de espaço para todos.
Para não ficarmos correndo o risco de nos prender ao local e eu correr um sério risco de ser taxado como preconceituoso, tomem nota: mesmo uma cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, como Mesquita, na Baixada Fluminense, serviria como exemplo categórico do que estou tentando afinar com essa voz um tanto rouca. Ter um carro ou moto por lá expõe a linha tênue entre “necessidade” e “status”. Têm-se sucesso se não precisa pegar um trem, ônibus ou andar de bicicleta!
De fato, a questão é que no Brasil há um grande atraso que, se observado frente aos seus vizinhos mais próximos e grande parte do continente Americano e Europeu, podemos dizer, é até um retrocesso na possibilidade de avanço – vide todas as manifestações contrárias ao movimento de ciclovias, ciclofaixas e ciclorotas na cidade de São Paulo.
Ok, a esse último exemplo devemos juntar a ojeriza pela sigla partidária do atual prefeito da capital paulista que motiva, inclusive, agressões das mais esdrúxulas contra os ciclistas. De todo modo, vale um exercício lógico, sem vestir vermelho ou amarelo: No Brasil, tentou-se resolver o problema da primeira crise econômica, ou a possibilidade de sua chegada ao continente tupiniquim, através do consumo frente produção. Os carros, com seus ridículos IPI’s reduzidos – não quero entrar aqui numa complexa análise do quanto somos lesados pelas multimilionárias fabricantes de automóveis no nosso país e o quanto de impostos pagamos por um carro “popular” – foram o principal bem de consumo adquirido no projeto petista daquele período. A diferença frente os governos anteriores é que a renda, de fato, passou a ser melhor distribuída, principalmente, entre aqueles que estavam à margem mas que, claro, não puderam e ainda não podem comprar um carro.
Um exemplo confiável, que essa relação consumo produção, no nível de automóveis, se limita, sobretudo, à classe média: nos últimos anos, com exceção de dois ou três vizinhos (e eu), todo o meu condomínio trocou de carro. Levando em consideração que são duas torres, com doze andares e cada um deles com quatro apartamentos, tendo algumas famílias mais de um carro e moto, faça suas contas.
A coisa toda, já sabemos, desandou. Hoje, o número de endividados na classe média, seja a mais nova ou a tradicional, é exorbitante. Tanto que numa primeira leva de crise (política) foi ela quem ocupou majoritariamente as ruas e gritou, ignorando sua manipulação via TV e Jornais, Igrejas Neopentecostais e os mesmos partidos de direita de sempre: Fora Dilma! Fora PT! O golpe foi escancarado, as panelas se silenciaram, as camisas da Seleção Canarinho voltaram para as gavetas com naftalina e hoje as dívidas se mantêm. Mais uma vez, a história, que não deveria se repetir, segundo Marx, se repete: a classe média tradicional, e a reboque a nova, entrou pelo cano. O que isso está relacionado com mobilidade urbana e, claro, minha relação pessoal com a bicicleta?

Mas louco é quem me diz que não é feliz
Confesso que do meu escritório posso ver um fio de paisagem que sei que guarda o mar lá no fundo. O bom é que o constante céu azul da minha cidade me ilude que entre nuvens e carcarás, o que eu vejo na verdade é o imenso mar.
Ao mesmo tempo, posso ver também a chuva que vem fina da orla, se misturando às nuvens, acinzentando o azul...
Quando criança em Mesquita, eu fazia tudo de bicicleta: escola, padaria, ir para o campo de futebol, igreja, aula de música, casa dos amigos... Não havia uma rua, ladeira ou encruzilhada em que eu e minha Monark não tivéssemos ido. Dos 11 aos 18 anos era assim que eu me locomovia. Não havia na cidade ciclofaixa, ciclovia, nada disso. Era meio fio e pulando calçada quando dava. Uma vez fui atropelado indo para a escola, numa rua pacata, atrás do antigo Hospital São José. Fui socorrido pelo próprio médico que me atropelou, não sofri um arranhão.
Vim morar em Aracaju por motivos de concurso público, em 2009, e a primeira coisa que me disseram foi: compre um carro, o transporte público aqui é muito ruim. Realmente, era uma loucura terminar as aulas às 22:30 e pegar o ônibus no campus sei lá que horas.
De qualquer maneira, foram as ciclovias – não, eu não comprei um carro, mas ganhei um do meu pai – que mais me chamaram atenção. Vindo da Baixada Fluminense, aquilo era quase um sentimento de me ver criança em Paquetá nas férias de fim de ano. E Aracaju tem isso, tem esse misto de cidade pequena com o caos urbano. Mas, é recheada de ciclovias e ser ciclista aqui, andar de bicicleta aqui – tirando os dias de chuva – não é um exotismo e há até reconhecimento nisso.
Quando vi a chuva de hoje e meus afazeres completos, desci com a bicicleta sem pensar duas vezes. No térreo, só pude ouvir um cochichar de alguém quando saí do condomínio: lá vai o louco da bicicleta. Sorri.
Enquanto o vento e a chuva banhavam meu corpo, minhas pernas se molhavam nas poças e os pneus deslizavam no asfalto, a sensação que eu tinha ao ver as pessoas se escondendo nas marquises, nos pontos de ônibus, era de olhares que diziam: lá vai o louco da bicicleta.
Depois me dei conta que não era preconceito ou reprovação, mas uma reação ao meu sorriso bobo, apesar do corpo encharcado e imundo de lama. Sorri novamente.
O fato é que a cidade parou, não por mim. Mas graças a chuva, as ruas alagaram, carros pararam, se chocaram nas esquinas. Ao meu lado nas ciclovias, trabalhadores voltando da lida com suas capas, certamente, mais sérios do que eu, mais responsáveis que eu, mas não menos compenetrados em seus pensamentos do que eu.
A música soava nos meus fones – talvez, eu nem precisaria dela –, cada piscada era um flash.
Eu disse certa vez e não volto atrás, que ao andar de bicicleta me surge uma crônica por cada cruzamento e sinal fechado, cada cheiro que eu sinto. Para as prostitutas nas esquinas que deságuam a orla, para os travestis da Ivo do Prado, para os maconheiros da pracinha, para as crianças nos brinquedos, para o pessoal do cooper e da caminhada, para mim.
Ao mesmo tempo em que tudo me era alegria e molecagem, pensei muito na mobilidade urbana e no quanto o Brasil perde nas suas idas e vindas consumistas. Não se trata de ser “bicho grilo” ou “novo hippie”. Como eu disse, tenho um carro, uso o carro e entendo bem a necessidade de todos os que veem no veículo conforto e comodidade. Mas é fato consumado que a bicicleta é mais barata e faz muito melhor a saúde que o frenesi do trânsito cotidiano.
O que eu quero dizer, é que não havendo extrema necessidade, deixo o carro de lado, aliás, me coço aguardando essa oportunidade.
Não me lembro quando, mas uma vez assisti uma entrevista de um músico paulistano chamado Curumin. Nela, ele falava sobre uma composição sua intitulada Magrela Fever. Eu já tinha o cd (Japa Pop Show) e, evidentemente, gostava imensamente da música em questão. Porém, quando ele explicou os motivos da canção, confesso que ela se sacramentou como uma oração diária que antecede cada vez que monto na minha bicicleta e saio pelas ruas da cidade, seja para passear, me distrair ou ir para o trabalho. Se você me permite, transcrevo a fala:
Magrela Fever é uma música que eu fiz. É que eu gosto muito de andar de bicicleta, gostava muito de andar de bicicleta na cidade. Assim... Em São Paulo... Num certo ponto, a gente começa a procurar alternativas para escapar da loucura das ruas, né?, do trânsito e tal. E foi uma alternativa que eu achei e que além de me fazer bem, assim, de andar, de poder andar de bicicleta, eu fugia desse trânsito maluco. Então eu estava tão feliz por conta disso, de ter descoberto isso daí, que eu podia fazer percursos longos, ir pra casa, pro trabalho, voltar, ir pro estúdio de bicicleta, que daí eu fiz essa música aqui.
Curumin, em cada verso, cada frase, conseguiu expressar o sentimento tão profundo que é o de se sentir, simplesmente: livre ao pedalar. Pode parecer loucura, mas não é.
E ainda hoje, para muita gente desatualizada, a liberdade é uma loucura... Não para mim e, pelo visto, nem para ele.

Axé, Curumin!

Magrela Fever:

domingo, 25 de janeiro de 2015

L’art de conjuguer. Dictionnaire des huit mille verbes usuels. Je suis Yuri? Tu es Yuri? Il est Yuri? Je serais Yuri? J’aurais été Yuri? Que j’eusse été Yuri!

Gravura que o Yuri desenhou
sentado na cama de meus pais em Mesquita após um dia de carnaval
no Rio de Janeiro no qual vimos como que uma entidade cantando
- Moacyr Luz - num bloco de frente para o Teatro Rival. A letra referência
se chama Só dói quando rio de Aldir Blanc sobre melodia de Luz. Quadro jaz imponente
ainda hoje na parede de meu apartamento em Aracaju.




Melhor parar enquanto é tempo. Tapar os ouvidos, fechar os olhos, enfim, tomar alguma atitude para não prosseguir. Pois o que aqui exponho é profundamente pessoal. Não que o antes e o que virá não serão. Tudo o é. Contudo, se você não tiver hoje muita paciência para divagações, pieguices e utopias românticas. Melhor parar enquanto é tempo. Procurar outra mesa. Tomar outro trago...
Mas, frente aos últimos acontecimentos, o mundo (re)aprendendo a conjugar o verbo Être – se bem colocado ou não, outra história, mas que me fez, nostálgico relembrar meu le nouveau Bescherelle, fez – ou o brasileiro que sofreu a pena capital na Indonésia por tráfico de drogas e tudo o que isso tem suscitado em debates sobre Civilização versus Barbárie, Ocidente versus Oriente, conservadores e liberais, modernos e pós-modernos saindo das tocas e tudo o mais que outros, mais bem preparados que eu, estão e estarão comentando neste exato momento me fez pensar em duas pessoas: Caetano e Yuri.
Ouvi alguém dizer, não sei se em sonho ou mesa de bar, que todos deveríamos ser um pouco mais Caetano. Apesar do mesmo ter dito em música que “Chico Buarque de Hollanda nos resgate”. Djavan afirmou que o que vale é “Caetanear o que há de bom”. Adriana Calcanhotto convocou-nos “vamos comer Caetano, vamos devorá-lo”.
O bom do Caetano é que o Caetano é o Caetano e sabe que é o Caetano. Me parece, inclusive, que já sabia há muito tempo. O que me leva, então, a afirmar de forma categórica que, sim, nos falta ser um pouco Caetano Veloso no sentido de sermos nós mesmos e não termos medo de sermos nós.
Ser a si mesmo é complicado, mas mais complexo, e sofrível. Conhecer-se a si mesmo é um processo lento e abandonado diariamente por cada um de nós. Aliás, um tanto triste, acredito até que há pessoas que morrem sem no fundo terem se conhecido a si mesmo, no sentido mais profundo do que essa frase possa tentar expressar.
Há, entretanto, nisso tudo, nessa longa introdução, por si só uma falha que não ignoro: Eu não conheço o Caetano como o Caetano se autoconhece ou mesmo dá a entender que tal fato tão bonito aconteça e como aconteça. Eu jamais conhecerei o Caetano Veloso. Logo, ser um pouco mais Caetano, ao menos para mim, é tão complexo quanto o processo contínuo de tentar todos os dias me conhecer mais do que ao outro. Pois, na minha cabeça, me conhecer de forma profunda me permite conhecer a fundo os outros a ponto de compreender seus medos, complexos, bondades e maldades, vaidades e orgulhos. Talvez, então, eu até conheça o Caetano.
Por isso mesmo, eu digo aqui de alto e bom som que, apesar de não conhecer, quase conhecendo, eu não queria ser como o Caetano ou mesmo o Caetano. Mas, digo aqui em alto e bom som. De alto e bom som que eu queria ser o Yuri, mesmo, com o mesmo pressuposto não conhecendo o Yuri como talvez o Yuri se dê a conhecer. E confesso, tenho sonhos em que sou o Yuri. E antes que você se perca: Yuri é o que há. Não! Yuri é um artista da fome. Do mundo. Das marés. Do afoxé. Do Axé. O Yuri poderia ser até uma nova religião: Os adoradores da lona. Os devotos de São Palhaço. O Yuri é um tipo Melamed. Não que o Michel seja melhor que o Yuri. Nada aqui é ponderável. As coisas são líquidas e alguém poderia me ajudar me dizendo que tipo de líquido na Química não congela. Pois o Yuri não congela.
Então, como eu estava dizendo, o Yuri é um tipo meu de Melamed, pois faz teatro, fotografia, vídeo, performances, música, poesia, pixe e grafite e pintura e um monte de coisa mais que não saberia escrever, pois meu inglês parou quando eu tinha treze anos e de lá para cá me viro com o que dá. O Yuri que me perdoe e você aí também. Mas, deixa eu contar em duas versões, em dois ou três atos, porque eu queria ser o Yuri. Mesmo sem saber quem o Yuri é. Mas, como caminho todo dia com o simples – mas complexo – objetivo de me conhecer, talvez, quem sabe, eu venha um dia conhecer o Yuri como, quiçá, o ele mesmo possa saber quem é e onde está.

Ato 1: O sonhando ser o Yuri com o Yuri

Suado na cama, com o sono me doendo a alma mais que o corpo, vendo meu próprio corpo deitado lá embaixo, eu no alto, como que possuído por mim. Sonho este recorrente e que deve ser uma das memórias mais passadas de sonhos meus, sonhos, não pesadelos. Pesadelos deixei de ter quando minha mãe aconselhada por uma amiga de trabalho do meu pai, me levou ao Terreiro de frente de casa e a mãe de santo baforou uma fumaça de charuto amarga e me deu de beber Garrafada. Nunca mais tive pesadelos. Isto é sonho. E mesmo que eu me ajoelhasse sobre mim e rezasse por mim para mim, eu continuaria fora do meu corpo e nessa jornada, tentando conduzir meu próprio destino de imagens – eu sobre mim mesmo na cama – vi o Yuri como uma entidade passando numa praia com ondas numa bicicleta ornamentada de invisível. O sonho parou.

Ato 2: Retalhando o Yuri

Quando virou-me as costas dei-lhe uma porrada na nuca. Arrastei seu corpo até uma praia deserta de nome deserto, tentei por todos os buracos possíveis entrar em seu corpo magro, mesmo assim, meio capenga e cansado – por ter arrastado seu corpo mole pela areia – não consegui ser o Yuri, no máximo fiquei sujo das fezes, sangue e músculos do Yuri. Acordei. Vi meu gato olhando-me com olhos grandes na madrugada, parecia saber o que eu havia pensado no sonho. Me achou patético. Os gatos nos acham gatos grandes patéticos.
No meio de um bloco quente, na Sacadura Cabral, falei-lhe ao ouvido, algo muito baixo e ele: ôxe, massa! Assim, empreendi uma jornada um tanto louca, porém violenta, de com um pequeno bisturi, que eu carregava no bolso enrolado em silver tape  e roubado de minha mãe, realizar um corte preciso atrás de sua orelha e esgueirar-me apertado por sua cabeça, mas lá só encontrei miolos e sangue... Ainda assim eu não era o Yuri.
Não satisfeito, num outro mundo, não sei, coisa assim, arranquei toda a pele do Yuri e vesti-me de Yuri e Yuri não fui. Sou no máximo um malfadado gordinho com uma pele de Yuri apertada sobre meu corpo. Acordei e comentei comigo no espelho que deveria procurar um compêndio de Medicina. Acordei e fui trabalhar.

Ato 3: L’art de conjuguer. Dictionnaire des huit mille verbes usuels. Je suis Yuri? Tu es Yuri? Il est Yuri? Je serais Yuri? J’aurais été Yuri? Que j’eusse été Yuri!

Não é inveja branca, preta, amarela, tampouco, azul, em querer ser o Yuri. Mas, é uma contestação, melhor um com texto ação (contextuação) ser um pouco Yuri.
Pois quando acordo puto, eu sei que o Yuri fica puto também quando acorda de um sono mal dormido, como eu e você ficamos putos com o que nos deixa puto. E não pense você que o Yuri é bobo, pois não é. O Yuri não fica quieto diante da maldade humana. O Yuri também não presta como toda maldade humana. Mas, um pouco mais de Yuri em mim amenizaria minha preocupação em querer ser o Yuri.
Eu fico pensando nos mares que eu não nadei e será que o Yuri nadaria? E as mulheres que eu amei, o Yuri amaria?
Hoje acordei um pouco melhor e escrevi para o Yuri. Pois eu queria até ter a coragem do Yuri para mostrar minha bunda cabeluda por aí, no meio das árvores com a cabeça raspada. Queria ter a coragem do Yuri de mostrar meu pau murcho-balangandã de um lado para o outro como penduricário. Cuspir gosma verde em um vídeo de música punk-tupiniquim. Mas não! Eu não tenho coragem e talvez essa ausência de coragem nem me permita falar em alto e bom som: Que bom se todos nós fôssemos um pouco Yuri e consequentemente um pouco putos e putas, travecos das esquinas da Rua da Frente. Loucos varridos dos escurinhos da beira de algum cais sem mar. Que rodássemos pelas praças, alegrássemos as criancinhas e os loucos que são mais sãos do que nós pobres maltrapilhos.
Eu queria ser o Yuri, pois sendo o Yuri até minhas roupas seriam mais legais. Eu não gastaria metros e metros e metros de notas de dinheiro para me vestir com panos e o Yuri se veste em panos que são tão mais legais. Eu nem queria me casar de véu e grinalda, nem aliança usaria, pois seria meu coração o pacto da amor com uma rosa.
Eu queria ser o Yuri para trabalhar mais com o que gosto e sair desenhando sereias, corações, colorindo muros, dessuavizando esperanças, colocando mais erres no amor e porque não também na dor. Eu queria ser o Yuri para ser uma síntese de Caetano, de Melamed, de Bispo do Rosário, de Gentileza, de Mário Jorge. De chorar vendo “Três irmãos de sangue” e achar o Moreno lindo. Eu queria ser o Yuri para ser o irmão do Aquino. Para ser o filho dos seus pais também ainda sendo o filho dos meus também.
Eu queria, sendo ele, dar mais valor ao que não há valor para nada e o nada é invisível para o mundo e esse invisível que é o mais importante. Eu queria ser o Yuri para me envolver com os Mistérios e me sentir contemplado com meu rosto pintado e me vestir com paetês. Eu poderia até jogar capoeira e ser para sempre um menino travesso . Mas até meus braços quebraram por ser eu um menino travesso e cada dia sou mais corcunda e sem elasticidade. Eu queria ser o Yuri para ter em mim apenas a responsabilidade de ser, simplesmente, feliz mesmo quando eu estou meio triste com tanta sujeira. Eu queria ameaçar fugir com um circo. Gostar mais de palo santo e não precisar de drogas para ficar doidão.
Mas, eu me conheço e tudo passou. Pois no fundo, eu queria ser o Yuri só por querer ser. Pois querendo ser continuo no meu processo de envelhecer e caminhar na busca por todos os dias me conhecer e, quem sabe assim, um dia não querer ser ninguém além de mim.
E eu não serei o Yuri mais. Mas do Yuri tenho um quadro que foi feito para mim por ele o quadro. E tenho uma gravura que ele fez e imprimiu de um gato. Pois, será, talvez, não sei, a arte é o pedaço do artista.
Mas você pode yuriar também: Paranois3. Por que não?

Axé.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Verdade e Literatura ou O Dente de Leão que somos todos e A melhor publicação que participei em dois mil e quatorze (A volta dos Zines que nunca deixaram de ir e voltar)

A foto tomei de assalto da página do Café com Veneno (corre lá)



Numa dessas estradas de barro vermelho e batido, esburacada pela chuva e pelo vento, estreita como a vida. Numa dessas estradas que nos levam a lugar nenhum ou a todos os lugares. Nessas estradas em que você morre ou que você se encontra. Numa dessas estradas me lembrei de você. O sorriso se esvaiu e o silêncio imperou em todos nós. A vida que escorre e vida é vida. Me lembrei de você e me obriguei a parar. O corpo já sem ar com um dos olhos para fora, pequeno, tão frágil, quase do mesmo tamanho de quando você chegou lá em casa assustado e quebrou um pedaço do São Amarante que fica no móvel de som, naquele instante, nos amamos e nos demos bem, dei-te o nome de Gregório, o nome você já tinha. O Gregório já existia. Por isso lembrei de você quando vi aquele bichano cinza e rajado morto na estrada quieta e escura de um lugar da Bahia, por isso desci e retirei o corpo que poderia ser teu, após saltitar caçando um rato, uma barata ou outro inseto qualquer. Ficamos todos em silêncio. A barriga mole me lembrou a tua para cima pedindo carinho e atenção. As listras dos pelos me lembrando o brilho do amarelo e branco que é só teu – eu sei que existem milhões de vira-latas como você, mas você é só meu e eu sou só teu. Eu no meio do silêncio ouvi você reclamando, miando para eu correr atrás feito um bobo, imbecil e ignorante que sou. Correndo com você pelos cômodos da casa fazendo voz de pateta ou coisa do tipo. Foram alguns minutos parado, vendo a vida que se foi e vida é vida.

...

Um dia queria conversar com você sobre o que eu disse um dia: Talvez a Literatura diga mais verdades que qualquer outra manifestação (como a História com H maiúsculo, por exemplo, ou mesmo aquela com h minúsculo, precisaria aqui de uma nota para a minha divagação, não o tenho). Talvez, num conto, eu diga a verdade mais que tudo. Talvez, a verdade esteja mais manifesta conscientemente numa obra artística escrita, como um romance, uma antologia de contos, poemas, etc. Não sei. Mas, às vezes me sinto mais livre e alcançando mais a verdade vendo um quadro, lendo um livro, que uma tese. Não quero ser chato nesse momento, nesse pileque, não quero discutir com você metahistória, nem criticar Hayden White ou coisa do tipo. Não, na verdade, queria que você ouvisse minha voz nesse momento, um tanto embargada por causa de um bichano qualquer. Por causa de relações tão fraternais. Os amores de dente de leão que a gente convive, vive, desvive, transborda. A verdade pulsa num poema. A verdade vive na Literatura. O conto fala mais. O conto me livra de mim. A crônica é invenção da mentira... divagações, eu sei. Amo vocês igualzinho. Feito um menino. Para sempre.

...

Para o Aquino Neto

Este ano voltei à vida. Mentira, nunca deixei de viver. Mas, estou mais livre do que nunca. Foda-se. Interpretem como quiserem, as vozes que ecoam de mim são muitas. Foda-se. Esse ano publiquei razoavelmente bem um monte de coisas disso e daquilo outro e minha publicação de maior orgulho foi num Zine chamado Linhas Tortas (clica aqui se você tem Facebook e fé na arte que vem via Correios) tocado por um grande amigo meu aqui de Aracaju, chamado Aquino Neto, vegetariano, ciclista, McGyver e que corria descalço um tempo atrás. É meu irmão. Tiramos onda juntos no ano que se vai viajando de pedal apenas com dois isotônicos e uma barra de cereal: vamos de pedal hoje, man? E íamos.
As coisas da vida, as merdas da vida me mergulharam em merda, me afundei em merda e atrasei minhas pedaladas, fiquei estressado, a coisa desandou e mandei os chatos, caretas, covardes, para a mesma merda que a minha e a coisa tende a melhorar... Quem sabe?
A questão é que publiquei no Linhas Tortas do Zé Aquino, filho do Zé Aquino, contador de causos para mim no Augusto Franco e neto do Zé Aquino que trabalhava na Ferrovia quando havia ferrovia e irmão de algumas pessoas e irmão do Yuri (sobre o Yuri escrevo semana que vem, tenho duas artes dele agora e divulgo semana que vem, vocês precisam ver as artes do Yuri e dos amigos do Yuri e dos amigos dos amigos do Yuri. O Yuri também anda de pedal e coloca sua arte nos muros e coloca sua arte na vida ou a vida na arte, coisa assim).
Fazia meses, muitos meses que o Neto me pedia um texto: me dá um texto. Dô. E não dava. Sei lá cargas d’água o motivo. Ele roubou, bandido safado, eu disse a ele: também existe ladrão vegan, seu Puto. Ele roubou uma nota minha no Facebook. Que maravilha! Hoje fui à sua casa e ele me deu o 49 de 100 do volume #3. Quando cheguei em casa (eu já havia visto a publicação pela internet) chorei um bocado como chorei e choro vendo “Três irmãos de sangue”. Na verdade, choro à toa.
De tudo que publiquei este ano, o que mais me orgulhou foi estar no Linhas Tortas com meu “LIBERDADE E BICICLETA” que eu escrevi em homenagem a um monte de gente que eu amo e ao Syd Barrett que esbarrei um dia de bicicleta em Cambridge quando eu ia comprar pão. Mentira. Mas o que é a verdade? Acho que foi um sonho, mas nos esbarramos sim, sei que nos esbarramos em algum momento.

Axé!


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A vida que se esvai em estatísticas

Viaduto Manoel Celestino Chagas (Viaduto do DETRAN)
Foto retirada do blog: SERGIPE EM FOTOS

Falo no calor do momento, apesar do vento fresco que entra pela janela do escritório de casa e o cinza da chuva fina que deságua pela capital sergipana. Num dos cômodos da casa, uma jovem senhora passa as roupas da semana, uma trabalhadora, tem filhos, marido, ganha seu sustento pelo seu trabalho. Acordei às seis da manhã, ela também deve ter acordado às seis da manhã. Eu acordei às seis da manhã para fazer ginástica funcional com um grupo de pessoas no parque municipal. Arquitetos, historiadores, Assistentes Sociais. A jovem senhora acordou às seis para colocar o café do esposo na mesa, arrumar suas crianças e depois pegar um ônibus cheio e vir para minha casa. Imagino isso. Deve ser isso.
A casa vai ficando em silêncio, só ouço minha voz transposta no tom que emana o toque dos meus dedos no teclado. Minha voz é essa escrita. Minha voz se converte em escrita.
Minha companheira, que também acordou às seis para ir fazer comigo e os outros a tal ginástica funcional, adianta seus projetos de arquitetura. Eu continuo a dar voz a mim mesmo. Digressões. Sou um ser humano naturalmente só.
Mas escrevo no calor do momento e enquanto eu acordava, um jovem, mais jovem do que eu, era atropelado numa avenida de grande movimento. Era atropelado na mesma via que atravesso com a bicicleta em mãos, empurrando para tentar acessar a ciclovia. O rapaz era gari. Eu sou professor universitário. Mas, nós dois, ele agora e, quem sabe, eu um dia, somos estatísticas.
Escrevo no calor da ira. Da raiva que não se contenta em ler na matéria de jornal on-line, nos dois sites de mais circulação na cidade, apenas uma breve nota do ocorrido, uma breve nota e, mesmo assim, por ser a avenida de grande circulação – apesar do adendo simplório que tenta justificar: naquele momento é pouco o fluxo de carros.
Há uma passarela uns cem metros à frente. Mas, pergunto eu: por que não duas passarelas? As pessoas que moram naquele entorno também se perguntam. Os ciclistas se questionam: como sair dos bairros Luzia, do Conjunto Médici, do Inácio Barbosa, do Distrito Industrial e acessar a ciclovia que segue entra as faixas da famosa Tancredo Neves?
Aliás, eu me questiono: como os ciclistas que moram no entorno da Avenida Adélia Franco, onde deságuam os moradores dos bairros citados, acessarão com segurança a ciclofaixa da Tancredo?

Minha solução foi curiosa: Ando uns metros a mais e atravesso com a bicicleta no sinal quase em frente ao Macro. Corto a rua das Autos-escolas – que ironia – passo por uma área que me lembra a região dos estivadores na Praça Mauá e, um tanto quanto esperançoso, fico aguardando o sinal fechar. Mas, isso não significa que o sinal fechado – apesar de ser um cruzamento para quem está saindo (de carro) do Jabotiana – obrigará os motoristas a pararem. Pego a ciclovia, um tanto quanto ainda esperançoso,  e acho que conseguirei chegar vivo e com a bicicleta na Universidade Federal de Sergipe. Um tanto feliz, observo o trânsito parado e penso: que bom que estou sobre as duas rodas e faço força no pedal. Mas, de repente, e tudo na vida é tão de repente, SVU’s, Vans de empresas rumo ao interior e motos de todos os tipos, passam por cima da ciclovia, rodas largas e grandes – no caso dos carros – jogam-se sobre a tinta vermelha que demarca o lugar do ciclista. A mesma cor vermelha do sangue que molhou hoje pela manhã o asfalto da Tancredo Neves. O mesmo rubro vivo do sangue de mais um trabalhador que se converteu, antes de ser pó, a mais um número de estatística. Ele tinha 28 anos, se chamava Ítalo Tavares Oliveira e deu seu último suspiro aos pés do viaduto Manoel Celestino Chagas antes de se converter em mais um número de estatística. Meus dedos diminuem o ritmo. Representam a voz que embarga: o calor do momento. Paz.

As matérias estão em:
  1. Gari é atropelado e morto na avenida Tancredo Neves
  2. Jovem morre atropelado ao tentar atravessar a Av. Tancredo Neves



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pois quando a gente promete ser feliz...

Dentro das amenidades das coisas, eu me sinto bem. Agora pouco estava empolgado com um conto. Passei a noite inteira arquitetando cada palavra, cada frase. Cheguei a acordar Ana para falar da minha empolgação. Adormeci com a idéia na cabeça. Hoje quando ela foi trabalhar, fiquei em casa, traçando um esboço da história, trabalhando no conto. O telefone toca, recebo uma mensagem de Aracaju, me avisando que o céu estava cinza: “talvez chova”, dizia a mensagem. Felicitações pela proximidade do casamento, coisas que amigos fazem. Tenho amigos por lá.
A preta me liga: tomou café? Depositou o dinheiro no banco? Vai ao Centro? Marcus ligou? – coisas de mulher. Contei sobre a mensagem, ela sorriu: “Aracaju chora... até a cidade sente sua falta” e riu. Pode ser, penso eu. Estou empolgado com a volta, levar a preta aos lugares que caminhei. Inseri-la no núcleo de amigos, almoçar onde eu almoçava, sorrir com o que eu sorria. Se chatear com o que eu chateava. Nova vida. Vida nova. De volta ao começo.
Sexta-feira, quando cheguei ao Rio de Janeiro, a noitinha fui à praça com Ana. Papeávamos e eu contava sobre as pessoas que conheci por lá. Tracei cada um e a importância que tinham para mim e a que eu achava que tinha para eles. Talvez, seja até uma missão viver por lá. Mesmo com a angústia de querer ficar aqui. Pois eu queria ficar por aqui e fazer o que faço por lá, mas lá precisam mais de mim do que aqui: fato.
Na falta do que fazer por aqui, deletei o conto que eu escrevia, pensei: tenho tempo para escrever um melhor. E vamos seguindo. Coisa mais linda é ver o Rio de Janeiro mais uma vez. Coisa mais linda é poder voltar para cá e para lá: sempre haverá gente me esperando e me ensinando a ser FELIZ!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Esta conversa já estava pronta há séculos, talvez, há meses, há anos, mas só agora pude arquitetá-la como queria. Só agora achei o tom certo. Só agora, faltando pouco para o altar, que achei que merecia filosofar sobre o assunto.


Tenho que ser rápido, hoje foi dia de artífice das palavras e ainda preciso concluir o que iniciei logo cedo. A vida voltou a se acertar, a maldita depressão está indo aos poucos embora como lama de enchente e eu voltei a trabalhar na tese. Nesse final de semana louco que tive, muita coisa boa me aconteceu. Poderia aqui listar horas e horas de momentos agradáveis que passei com os amigos que fiz aqui em Aracaju e como disse a preta em telefonema maravilhoso, aprendi a não me isolar mais quando o anjo negro da tristeza resolve me abraçar! E isso há de acontecer de novo. Por isso, antes de tudo, obrigado Aquino (Man), Emily, Neto, Hermano (Rabicó) e Aline (Pequeno Gafanhoto). Sem contar e sempre presente mesmo longe (estava em Maceió esse final de semana), o “anjo mais velho”, meu irmão Kiko (pois humor é coisa séria!).
Ligar para os meus pais também foi um alento tremendo. A prosa do meu pai, me reconfortou demais. E é sempre bom dizer “eu te amo” quando se quer dizer “eu te amo”. Por isso, você que está me ouvindo agora, diga “eu te amo” sem se sentir piegas! Pode dizer, vale a pena.
Enfim, como eu disse não vou me demorar muito. Vamos ao último chope em Aracaju. Pelo menos, o do ano de 2009.
Me pareceu hoje que estes mesmos nomes supracitados resolveram tirar folga de mim... Cada um estava fazendo algo. Ou ficou em casa por doença mesmo. Mas depois de trabalhar um dia inteiro num texto e não concluí-lo, resolvi relaxar um pouco, sair para caminhar, ou fazer o de sempre: prosear. Pois amanhã, será a mesma coisa! Convidei meu amigo de sempre: o gaucho!
Resolvemos andar. Acabamos parando no Shopping Jardins e pegamos a sessão das 21:55: “Herbert de perto”. Uma palavra sobre o documentário: fantástico! Vale a pena sentar na cadeira e acompanhar cada palavra e por que não? cada acorde de guitarra.
Dali, o habitual chope no Ferreiro. Nada pesado. Era papo apenas. Assunto mor: casamento. Este tema paira sobre minha cabeça nesses últimos dias. Um misto de ansiedade e angústia. Felicidade e apreensão. Como vai ser? Como será o vestido da preta? Vou chorar, vou sorrir? Pois é, para quem não acreditava: Bruno Alvaro vai se casar! Serei feliz? A farei feliz? Essas coisas passarão pela sua cabeça, meu jovem, hão de passar! Elas tem que passar
Segundo minha mãe, a idade está me deixando mais bonito, ou seria mais sereno? – acredito que isso é comentário de mãe. Dia desses quando fui ao Rio de Janeiro, uma tia reafirmou a frase – acredito que isso é comentário de tia. Mas estou começando a me sentir melhor mesmo com minha aparência, apesar da barriguinha me incomodar um pouco. Dei de observar, há certo tempo, diz Ana que já percebe isso há muitos carnavais no Cordão do Boitatá, que ando mais imponente – daqui a 30 anos, espero eu, direi que ando impotente! E não é segredo para ela que em alguns fins de semana, não todos, saio para beber meu chopinho, o que continuará acontecendo com ela aqui, é claro! E em sua companhia, é claro! Como sempre foi no Rio de Janeiro!
Bebo, no máximo, duas tulipas multiplicadas por cinco. Brincadeirinha. Meu companheiro de copo e de prosa, também é comprometido e um cara sério, sendo assim, é o par ideal para botecos e restaurantes, a preta então nunca reclamou. Criamos, eu e ele, um código, nunca sentar muito próximo de mesas com apenas duas mulheres desacompanhadas e caso isso aconteça, nunca olhar, mesmo que sejam bonitas, bom, só uma olhada vesga, pois não arranca pedaço, mas não pode deixar elas perceberem. E se elas olharem, pedimos a conta. Está certo, já sei o comentário, no mínimo, todas acharam que éramos um casal gay – fazer o que? A vida é um arco-íris meu caro amigo! E para se manter ileso do sexo feminino tem que fazer isso! Veja lá, não é segredo! Chega um momento que o cara tem que escolher e eu e esse amigo escolhemos, não um ao outro, claro! Sem piadas dúbias!
Hoje estávamos analisando essa vida de “solteiro” que não é solteiro. Contei, talvez, pela milésima vez como comecei a namorar com Ana. Na verdade, acho que todo mundo já sabe e se cansa de ouvir, só não reclamam os apaixonados, pois para quem está amando, até patinho no lago fica romântico. Pois bem, hoje, acordei com trechos do livro A insustentável leveza do ser, do Milan Kundera, na cabeça. Então, entre um texto em latim e outro em castelhano medieval, eu me pegava com trechos desse livro na cachola. Fui à estante e resolvi folheá-lo um pouco, deitado na rede, não antes sem encher uma taça de vinho italiano maravilhoso, na verdade, um restinho que tinha na garrafa, isso é outra história.
Revi a dedicatória da preta, acho que já reproduzi em algum lugar, então, deixa ser. Leio um pedaço aqui, leio outro ali. E me deparei com a seguinte passagem que, inclusive, tentei citar para esse meu amigo, enquanto estávamos falando sobre a escolha: ser solteiro, ser casado:

“Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher).”

Deus do céu! Fantástico isso. Alguém mais quer explicações plausíveis para casar? Fecho aqui o papo de hoje. Tenho que trabalhar na madruga, hoje vejo o sol nascer!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

“O dia em que o morro descer...”


Daqui a poucas horas entrarei num vôo direto para o Rio de Janeiro, exatamente, às 13:55, vôo 1844, poltrona 6F. Deixarei para trás, por uma semana, algumas coisas que construí com esmero de ourives, nestes últimos seis meses: amizades, orientações – saudade. Viajo com um trecho de música na cabeça: “Caminho em frente pra sentir saudade” (Janta – Marcelo Camelo).
Curioso. Dia desses num papel amarronzado, um amigo daqui veio e me presenteou, com escrita de próprio punho, com a letra de um samba lindo, que eu confesso: não conhecia, do grande baterista Wilson das Neves: O dia em que o morro descer e não for carnaval. Hoje, ou ontem, nem sei mais, foi jogo do meu querido Fluminense. Amor que herdei de meu pai. Na verdade, amor que compartilho com ele! Esse mesmo amigo me ligou à tarde, ele vascaíno, ele Confiança: “quer assistir o jogo aqui em casa?”. Eu tinha mala para arrumar, ainda estava na UFS, foram dois dias complicados, angustiantes, saí um caco de lá. Acabei dizendo não. No fundo, queria muito dizer “talvez”, muitas coisas envolviam minha resposta a ele. Meu sim ou não, era muita coisa. No fim das contas, apareceu ele no meu apartamento com um vinho português, safra 2005, duas lasanhas e um bom papo, eu tocava violão antes de abrir a porta. Acho que foi bom o talvez.
Ele estava angustiado, tanto quanto estou agora na hora de falar essas coisas para você. Ele tinha seus motivos – eu tenho os meus. Foi uma boa conversa, sobre muita coisa, quase não falei nada, eu também estava no meu momento reflexivo, uma boa amizade também é isso: silêncio, foi quando você me ligou. Acabamos não vendo direito o jogo, menos mal, meu tricolor das Laranjeiras foi derrotado por 5X1 da LDU. Quarta-feira, estarei no Maracanã com meu pai. Temos fé.
Lembro do cd onde está esta canção do Wilson das Neves, lembro de ter estado com ele nas mãos na Livraria da Travessa do CCBB do Rio de Janeiro, há alguns anos. Dentre as muitas encomendas que tenho para trazer do Rio pros meus alunos: livros, artigos, camisa de time, cd’s, comprarei “O Som Sagrado de Wilson das Neves”, comprarei, pois é bom... Eu sei que é. Comprarei para mim. Me darei esse gosto: entrarei na Arlequim, de certa forma, onde tudo começou e comprarei. Com gosto, comprarei.
Minha angustia tem muitos motivos, medo de não voltar, medo de não chegar. Sempre comentei e ainda afirmo isso veementemente: não tenho medo de morrer. Nunca tive. Também nunca tive medo de voar, esse ano, está certo, voei mais do que o de costume. Mas a angústia está, justamente, não concretizar o que prometi – não sei se o vinho está fazendo efeito. Mas há um medo contido hoje em mim. Confesso. Preciso concretizar coisas aqui e lá. Preciso ver o sorriso do meu pai, ouvir a voz da minha mãe. O traquejo da preta. O cheiro da minha terra. Meus pés no chão. O chope no Abracadabra. O ritmo do Rio de Janeiro. Mas preciso, também, voltar. Pisar aqui de novo. Sei que preciso. Vou e quero voltar. Vou cheio. Volto transbordando. Pois há poesia. Pois amanhã, subirei meu morro. O morro onde cresci e aprendi a ser gente. Onde parte de quem sou foi formado. O morro. Uma das muitas ladeiras do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, onde, como já disse Chico Buarque: “cada ribanceira é uma nação...”. Amanhã volto para a minha. Deus há de permitir que sim. E se não? Vivi.
Meu amigo Kiko, o anjo mais velho (eu sou o anjo torto, vai entender!) está vindo aqui em casa agora, talvez, mais vinho, mais conversa. Mais bom papo. Hoje não quero ficar só. Ficar só é solidão. Hoje aprendi que não acostumei com ela: a solidão. Menos mal, pois isso me deixa um pouco mais feliz e menos angustiado. O relógio faz tic-tac, tic-tac, tic-tac. Logo apertarei o cinto. Observarei pela milésima vez os procedimentos de segurança. “Em caso de pouso na água os assentos de suas poltronas são flutuantes”. “Em caso de...”. Caso o se não se concretizar: vivi.

sábado, 21 de novembro de 2009

"E o inverno no Leblon é quase glacial..."

O título é um verso de um poema de Antonio Cícero que foi musicado por Adriana Calcanhotto e gravado com o título Inverno, no cd A Fábrica do Poema de 1994 (ou 1995? Não lembro bem). Engraçado, foi o primeiro cd que comprei com meu próprio dinheiro, digo, com meu dinheiro, de algum trabalho que fiz, não lembro qual. O comprei em 1997, eu estava no 2º Grau, sim, ainda fiz o famoso 2º Grau...
Mas, enfim, é o seguinte, fico impressionado com uma coisa engraçada aqui em Aracaju, dá um vento e as pessoas se encasacam todas! Um vento sequer e: Casaco! Dia desses, numa reunião de departamento, reparei na secretária e ela estava toda encolhida, ao término fui perguntar se ela estava resfriada ou coisa do tipo e ela: “não professor, estou com frio, o ar condicionado estava no máximo...” eu sorri, só podia sorrir mesmo.
Antes de vir para cá, me recordo que um amigo estava saindo da UCP e comentou se eu queria substituí-lo como professor de História Medieval por lá... “bom”, pensei eu, “claro!”... Acabou que não rolou e parei aqui – melhor para mim.
Sinto muita falta do glacial inverno do Rio de Janeiro. Bangu, putz, Bangu é oito ou oitenta. Muito frio. Muito calor. Mesquita, minha cidade natal, é um caso interessante. Lembro-me de acordar de manhã (coisa rara, eu sei – eu acordar cedo) e ver meu quintal todo enevoado. Chuva de granizo era uma coisa fantástica por lá. Que saudade do meu quarto úmido, frio... saudade!
Adorava o inverno no Rio de Janeiro, a coisa do mar revolto, o povo reclamando do frio. Andar de trem era o máximo. Caminhar pelas ruas do Centro era tudo. Beber vinho. Que saudade.
Fui assistir dias atrás a um show do grande violonista Toquinho (já falei sobre isso por aqui) no Parque das Sementeiras, aqui perto de casa, fiquei realmente impressionado com a quantidade de gente usando casaco, numa noite agradável, de vento fresco, achei legal mesmo. Num tempo mais passado, coisas de dois meses, algo assim, um professor do departamento que fez o doutorado no Rio de Janeiro, me parou no corredor e me perguntou se como estava minha adaptação em Sergipe. Eu disse que tudo bem, etc., o engraçado foi ele falar do calor, uma frase me chamou muita atenção: “bom, não são os 40 graus do Rio de Janeiro, mas é calor...”. Realmente... ele tinha razão. Vejamos, no futuro, o inverno, pois o verão, ah, no verão estou indo bem...


Ps. Uma vez caminhei, no inverno, no Leblon e, sim, é meio glacial. Mas, ainda considero, muito mais, como uma figura de linguagem que comparar, por exemplo, ao inverno do Grande Rio...
Ps. 2 A foto não é no Leblon, mas era inverno no Rio de Janeiro e nem sei o que eu estava fazendo na praia...