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segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Entendi o que é um ABC

 


Não sei bem se você me ouve. Mas acho que mais doloroso é ouvir no silêncio a própria voz e essa ressoa há tempos. De fato, faz muito tempo que essa conversa está guardada na caixa do peito. Não sei se pelo próprio tempo, o desalinho, desânimo, o tal do silêncio me fez ficar mudo e só. Você está aí? Você ainda está aí?

São muitas dores, eu sei. E eu ouço o som da minha voz ou mesmo o silêncio se quebrando com a caneca de pedra sabão mineiro se enchendo com a água do filtro de barro para que eu tome minha medicação. Mas não importo para ninguém. É o que o cérebro vai pregando como peça de pastor levando suas ovelhas ao matadouro e todo mundo um dia vai para o matadouro. Não é?

Continuo. Ouça mais um pouquinho, fugi do assunto, mas foi coisa rápida.

Hoje é dia 03 de janeiro de 2022, uma segunda-feira. Hoje, na verdade, num sábado de 1898, nascia em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Luís Carlos Prestes. A citação ao 03 de janeiro de hoje e ao de 1898 diz muito sobre essa jornada de ler cronologicamente – como temos conversado – a obra de Jorge Amado. Já uns dias iniciei O Cavaleiro da Esperança: vida de Luís Carlos Prestes, mas não parei para te contar as impressões, os sentimentos que tive ao ler o livro que o antecede na obra do baiano de Itabuna: ABC de Castro Alves.

Publicado originalmente em 1941 e retomado na série Coleção Jorge Amado da Companhia das Letras, com posfácio de Domício Proença Filho, li a edição de 2010 da editora.

Do escrito de Proença Filho entendi enfim o que é um abc, apesar de eu não ser tão ignorante, mas mesmo lendo sempre o posfácio como deve ser lido – no final – o ritmo da escrita de Jorge Amado era da mais pura louvação ao poeta baiano, seu conterrâneo. A voz dos escravos. A explicação, a exposição, de Domício Proença Filho ajudou e evidenciou mais o sentimento que me batia entre angústia e admiração.

 O que Jorge Amado, na sua cadência, na conversa com a sua negra, a sua amiga – companheira – nas areias, contando a grandeza, os feitos do poeta, humanizando Castro Alves, nos leva a tal ponto da gente se dar conta – sabe? – e se lembrar que é sempre bom perguntar-se: O que é uma biografia de verdade?

Amado usa notas de fim – adianto que no livro sobre Luís Carlos Prestes o mesmo acontece – dá opiniões. Ele consegue romancear uma vida, mas não são todas as vidas – a minha e a tua – grandes romances escritos ao acaso pela pena de algo maior?

Sinto angústia. Pelo menos sinto. E sentir alguma coisa já é algo, afinal, como num trecho do ABC: “Já que que a vida esmagava assim tantos homens e tantos sentimentos, já que ela era tão feia e tão errada, então ela não a queria, não se misturaria com ela, fugiria. A morte é também, amiga, bela como a mais bela das mulheres quando se tem medo da vida, de encará-la face a face, quando se pensa que o destino do homem é a desgraça. Para os que assim pensam, as estrelas do céu são um chamado, a lua é um convite, a morte é a suprema amante, só ela pode dar aos homens os bens que a vida não possui. E eles caminhas para a morte de passo firme e decidido porque vão para uma festa, não têm nada que os prenda à vida, estão desligados dos demais homens” (p. 47).

Jorge Amado canta em cada letra do alfabeto os feitos do poeta, insere um cotidiano em que a verdade mais pura é a dor que o passado não pode esquecer: a ausência da Liberdade.

E ele lembra bem, encerro assim, com uma voz que não é minha, mas que é do grande que segue amado: “Nessas noites oleosas da Bahia, quando do céu desce um infinito mistério, quando do mar chegam as canções mais doces de Iemanjá, quando da terra vem um cheiro poderoso de flores várias, nessas noites, amiga, vêm do mais escondido da cidade, de trás dos morros, do mais profundo da noite, ninguém sabe mesmo de onde, esses sons que do cais nós ouvimos de coração saltando no peito. São os baticuns das macumbas, são os candomblés batendo em honra dos santos que tu amas. De Oxóssi, meu santo, de Omolu, o deus que tanto temes, de Xangô e de Ogum. São atabaques deixando que a música role sobre a cidade e a evolva e a transporte para uma atmosfera de sonho. Nós sabemos, amiga, que lá, onde tantas vezes estivemos, naqueles escondidos lugares onde nossos irmãos negros festejam seus pobres deuses, negras dançam vestidas com os mais lindos vestidos de mundo. Sabemos também que a qualquer momento a caravana policial pode invadir o terreiro da macumba e levar os sacerdotes, os assistentes e os santos. Sabemos que é sempre uma aventura um baticum de candomblé. Que dos negros nem os deuses são livres para dançar na Terra. Mas que nem por isso deixa de, sobre as ladeiras da Bahia, ressoar a trágica voz dos atabaques, que nem por isso deixam de ser cantadas as canções de Iemanjá, nossa mãe, dona do mar e do nosso destino (...). Antes, negra, era ainda pior. No tempo do poeta Castro Alves, no tempo da sua infância e também depois, os negros eram escravos comprados em leilões, mercadoria que se vendia, trocava e explorava. E em troca de tudo que eles deram ao branco, sua força, seu suor, suas mulheres e filhas, a maciez da sua fala que adoçou a nossa fala, sua liberdade, o branco lhe quis dar apenas, além do chicote, os deuses que possuía. Mas deuses os negros traziam da África, os deuses da floresta e do deserto. E continuaram fiéis aos seus deuses por mais que rezassem aos deuses dos seus donos. E cavaram no subsolo das cidades templos que o homem branco não podia atingir” (p. 62-63).

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A solidão ou o que é amizade?

Faz tempo ou mesmo eu não vejo o tempo passar. Você vê? Não sei. O gato dorme aos meus pés e saí antes para fazer a barba, me relaxa fazer a barba. É um bom barbeiro, de lâmina e toalha quente no meu rosto. Calmamente depois de amaciar minha pele, a mesma toalha, já mais fria, cobre meus olhos e sinto a lâmina passar pelo pescoço. Faz tempo.

Era para estar por aqui conversando com você sobre Capitães da Areia, que já li novamente faz tempo. É, faz tempo. Mas não tenho tido forças e nem sei direito o que me move. Se eu pudesse nem me mover me movia. Ia vendo a barba e os cabelos crescerem com o tempo passando e quem sabe a morte chegando tranquila como o gato aos meus pés. Porém, o tempo passa lento, o gato perturba tanto quanto os mosquitos que chegam sem convite quando cai a noite.

Já li uns três livros alguma coisa de quê depois do Capitães da Areia e depois desses três comecei o ABC de Castro Alves, que sucede Capitães da Areia, sabe? Pois é. Faz tempo. Nem sei. Não me lembro bem, mas sei que decidi ler um a um, cada livro – e alguns ainda não tenho – de Jorge Amado na ordem cronológica dos lançamentos originais. Um a um. Mas nem isso me move. Nem a bicicleta me move. Fiz a barba pois estavam me incomodando os pelos do bigode entrando pela boca e, falo a verdade, me relaxa deitar na cadeira do barbeiro nessa cidade pequena que é grande que me faz lembrar da cidade onde eu nasci e ao mesmo tempo esquecer a cidade onde eu nasci... deitar na cadeira do barbeiro me relaxa, pois sentir a toalha quente sobre meu rosto, depois meus olhos vendados e a lâmina percorrendo meu pescoço, nem sei, mas me relaxa.

Não sei bem o que é amizade, acho que nunca soube. Sei que há por aí, espalhadas pelo mundo, tão perto, outros tão longe, umas amizades de contar no dedo. Mesmo assim não sei bem. Pois todo mundo tem problemas. Problemas com família, com dinheiro, consigo mesmo ou até comigo. Acho que às vezes sou um tipo de problema até mesmo para a minha mãe e o meu pai – que o que não vejo os guarde com saúde, pois nem sei, faz tempo e o tempo vai passando. Às vezes bate essa ideia torta que me balança: sou um problema para a minha mãe e para o meu pai. E pensando essa ideia, construindo, me bate forte uma ideia deles lá longe e eu aqui longe também e o tempo passando para todo mundo, já que o tempo passa mesmo. Mas é mais fácil lidar com o tempo passando, a saudade aumentando e a ideia torta crescendo feito barriga gestante, feito barba e cabelos ou crianças mal-educadas por parentes violentos e que se tornam crianças violentas. Ou um amor violento que considera fraqueza qualquer tipo de tristeza diante de qualquer tipo de tristeza, do que lidar com minha cara no espelho.

Faz tempo. Já nem sei. Não há grama mais verde no vizinho, não há nem grama. E não sei direito o que é amizade e por isso fico em silêncio com os pés quentes graças ao gato. Os pés quentes me dão a sensação de vivo, pois morto ou pessoa sem sorte tem pé frio. Não é? Nem sei.

Não pedalo mais. Não acho graça em sair. E se saio é coisa rápida ou mesmo forçado. Mas não pedalo e isso me dói. Dói tanto quanto ouvir de um amor violento que é frescura demais ficar triste pela tristeza. É a síndrome vazia na crença de que se você lida bem com os seus problemas todo mundo tem que lidar. Por isso mesmo me relaxa fazer a barba, a toalha quente sobre meu rosto como que me entorpecendo e de repente meus olhos vendados e a lâmina passando pelo meu pescoço aparando os fios meio brancos, meio ruivos para ficarem brancos da barba que cresce, pois os cabelos já estão grandes.

E todo mundo tem problema, eu sei. Até me satisfaz – não vou mentir – saber que tem gente por aí que lida bem com seus problemas. Mas me bate uma angústia danada e forte de saber que tem gente que só porque lida bem com seus problemas, se motivam num deus, numa santa, numa coisa que não sei o quê, na esperança de viver novamente com quem já se foi ou de ouvir quem já se foi... essa gente que se fia nisso, me angustia quando me falam é frescura, você é fraco. E me vem uma ideia torta – faz tempo, nem sei – de que sou mesmo fraco e, pior, sou um problema para a minha mãe e pai e para as amizades que – olhe lá – conto nos dedos. Eu que nem sei o que é direito amizade, acho que nunca soube e, talvez, nem essas amizades saibam o que é amizade: todo mundo tem problemas e por isso não dá tempo de pensar direito nisso, isso nem é problema, por que basta você ir sumindo e você percebe que ninguém vê ou na verdade você vai sumindo e estão esperando que você pergunte por que elas sumiram e todo mundo no fundo some porque todo mundo está esperando um telefonema, uma mensagem, uma carta de olá, como vai?, mas você, digo, eu, vou sumindo, pois veio essa ideia do amor violento: eu sou mesmo um estorvo, um problema e arranjo problema. E acho mesmo que o problema sou eu e se sou eu, não faz muita diferença ficar incomodando perguntando: olá, como vai?

Faz tempo. Nem sei. É aquela coisa meio chinfrim, você sabe? E vem quem é prolixo, vem quem é alto astral, vem que é do berço da sinceridade e quem quer te mudar o pensamento com frases de efeito: isso é frescura, ficar triste pela tristeza. Aí eu vou ficando em silêncio, vou ficando mudo e acho que mudo a gente vai diminuindo e sumindo. Mas é difícil ficar mudo, é um processo de treinamento e é doloroso.

Acho bonita aquela canção do Paulinho da Viola, Sinal Fechado, acho a letra bonita e é bonito como ele encaixa cada acorde naquela melodia angustiada. E vai sumindo.

Esses malditos mosquitos. Esses malditos remédios. Mas deve ser mais difícil para quem se mete a escrever poesia. Pois quem escreve poesia fica no dilema: dou para o mundo ler ou guardo para mim?

Eu, particularmente, não vejo sentido em poesia que não se dá ao mundo para leitura. Pois poesia quer palco tanto quanto quem pensa em dar cabo um dia dá cabo. Mas aí é ideia minha, ninguém precisa concordar, tanto quanto ninguém precisa chancelar poema como bonito ou feio. Poema é poema. E eu nem entendo direito de poesia, sei que há amores violentos como versos que se encaixam, como há também amizades que se perdem por a gente nem saber o que se tem.

Mas uma coisa é certa, todo mundo tem problema e o meu problema convém mais aos outros do que seus próprios problemas. Todo mundo tem uma solução para o meu problema, às vezes com uma carga tão violenta de certeza que chego a me envergonhar de ousar a falar do que eu julgo serem meus problemas – tem gente com problema pior que o teu! Fraqueza, frescura! – e por isso para quê ficar me expondo? Faz tempo e o vento vai mudando e o que é mesmo amizade? Talvez nem o gato esquentando os meus pés saiba dizer, se ele falasse.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Os diários publicados de Kurt Cobain (Editora Belas Letras, 2021)


 

Mesmo que pareça, isso não é uma resenha. Minha voz soa um tanto rouca – talvez pelo excesso de sorvete de menta com chocolate ou mesmo por, em meio a pandemia de COVID-19, lecionando remotamente do pequeno apartamento alugado, esquecer de beber água enquanto falo sobre História Medieval para docentes em formação. Ontem terminei após três dias as 591 páginas da edição em língua portuguesa publicada neste ano de 2021 pela Belas Letras, Editora de Caxias do Sul, RS, com tradução de Fernando Scoczynski Filho.
Intitulado “Kurt Cobain- Diários”, a leitura é pesada, afinal, são escritos retirados de diários. A organização é interessante, mesmo que, enquanto historiador de formação, eu esteja habituado com isso: de um lado os manuscritos – fotografados/escaneados/fotocopiados, como queiram – e do outro a tradução à nossa língua (não tenho conhecimento da edição original cujo título é “Journals”, certamente, seguiu essa linha). Não quero falar com você sobre conteúdo. Kurt foi um artista, mas acima de tudo: uma pessoa. Basta uma busca pela Internet e você poderá ter suas próprias conclusões sobre seu trabalho musical – se bom ou ruim – e, se se achar no direito, tecer suas conclusões vazias sobre a personalidade de um jovem de 27 anos que se suicidou com um tiro de espingarda no queixo na estufa de plantas de sua casa, em 1994. Eu ainda tinha 13 anos de idade e o show do Nirvana um pouco mais de um ano antes, no Hollywood Rock, no Rio de Janeiro, transmitido ao vivo por uma grande rede de TV, ainda era um forte impacto na minha cabeça. Não, não é um trocadilho com o impacto do projétil na cabeça do jovem Kurt. Nunca busquei fotos macabras da cena do suicídio e demorei muito para ler na íntegra sua carta final (que, FELIZMENTE, não está presente na publicação “Diários”.  O que não deixa de ter lógica, afinal, trata-se de uma carta de suicídio – não publiquem cartas de suicídio, a Sociedade de Psicologia agradece, abutres. Tais documentos só têm validade se manuseados – no meu ponto de vista – historicamente, sociologicamente, antropologicamente. Como me esquecer do que senti numa aula de História da antiga 7ª Série ginasial a carta-suicídio de Getúlio Vargas, a frase de efeito: “Saio da vida para entrar na história” me assombrou durante meses. Que ironia).
Por sinal, um parêntese, disse que sou historiador de formação, sim, é verdade e me veio na lembrança uma pichação que li a caminho da faculdade, não lembro o ano, deveria ser nos primeiros períodos, pois ainda ia de ônibus (depois meu pai me liberou o carro): “É melhor queimar de uma vez a se apagar aos poucos”. A frase que se tornou lendária, pois foi citada na carta deixada por Cobain, na verdade, é um trecho de uma canção de Neil Young, chamada “My My, Hey Hey (Out Of The Blue)”. Quem pichou o muro, ali, na altura da Praça do Canhão, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde está a Estação de Trem, o pequeno viaduto, um complexo de quarteis do Exército, casas de subúrbio e por onde passava meu ônibus Nova Iguaçu X Bangu, talvez não tivesse essa informação sobre ser uma citação. Eu não sabia. Soube quando no mesmo dia entrei no laboratório de informática da Universidade, acessei a Internet e “descobri”. Fim.
Como eu disse – acho que você ouviu bem –, terminei ontem o livro “Diários”. Escolho mal minhas leituras quando não estou bem psicologicamente. Já disse isso outras vezes, eu sei. Sou repetitivo. Acho que já conversamos sobre isso a respeito d’O Processo de Kafka.
Diários são materiais importantes. Eu tenho um diário. Não, O Ventríloquo não é um diário. Por mais que possa parecer que eu reparta com você minha vida, são vozes que sei imitar, vozes que sei colocar para fora sem que você perceba meus lábios se movendo. É assim desde 2007. Mas, eu tenho um diário. Escrevo a mão. A capa é linda. Ele foi feito artesanalmente pela Aline Viana, acho que ela tem uma conta no Instagram chamada Miçanga na Praia e vende esse material. A arte dele [o meu diário] é uma fotografia em sépia do Aldir Blanc com o João Bosco tomando cerveja num botequim no Rio de Janeiro e na contracapa os dois de pé, foto em preto e branco, na porta, acho, do mesmo botequim. Elas são do período de lançamento do Lp Galos de Briga (1976).
Ontem escrevi nesse diário. Apesar de ser um diário, não escrevo diariamente. Mas como havia terminado de ler o livro – do Kurt Cobain? Livro? – fiquei pensando nas últimas páginas escritas, sobre vício em heroína, sobre o que viria ser o último trabalho de estúdio do Nirvana, o Lp “In Utero” (1993), o impacto na mídia, sua ira etc. Antes de dormir, ouvi via streaming o material. “In Utero” de fato é um bom trabalho artístico, mistura bem o que foi o primeiro Lp “Bleach” (1989) – meu preferido – com o que alavancou a banda para o cenário mainstream, o conhecido “Nevermind” (1991). Tenho a discografia completa em Cd e alguns Lps da banda. Em Cd as versões são todas remasterizadas e Delux, comemorações de 20 anos de lançamentos. Dei as edições antigas para amigos.
No fundo, numa sexta-feira como essa, numa sexta-feira de final de maio, 28, nem sei por que estou conversando, falando. Talvez eu esteja meio zonzo ainda. Não sei. Continuo. Sigo.
Recordei-me, ou encaixou melhor, a biografia que li da banda tempos atrás, escrita por Michael Azerrad, intitulada “A História do Nirvana – ‘Come As You Are’”, tradução de Júlio de Mattos, Editora Madras, 2008 [original de novembro de 1993, nos Estados Unidos] e, também, o excelente documentário “Cobain: Montage of Heck” (2015).
Os antidepressivos foram fazendo efeito no meu corpo. Ainda com certo tempo de tirar os fones dos ouvidos após a audição de “In Utero”, fiz o download na plataforma de streaming do show “Live and Loud” gravado pelo Nirvana no dia 13 de dezembro de 1993 e cujo DVD minha mãe me presenteou na última vez que visitei o Rio de Janeiro, em 2019. Fiz meu exercício matinal no quarto onde tenho estudados nos últimos meses obras de Bach no piano da Roland e ouvi offline “Live and Loud” e só parei de pedalar quando a última canção “Endless, Nameless” terminou.
 
Ps. Como comprei o livro em pré-venda no site da Belas Letras, recebi algumas memorabilias como o manuscrito em folha separada da letra da canção “Lithium”. Música número um no meu setlist de fã do Nirvana e se o post scriptum pode ser mais longo, a bicicleta mais cara – no sentido monetário do termo – que tenho, dada de presente em outubro de 2019 pelos meus pais, foi batizada justamente com o nome da canção. Lítio é uma medicação ambulatorial para transtornos mentais, como bipolaridade, por exemplo. Infelizmente, em determinando momento da vida, tanto eu quanto minha mãe tivemos que ser tratados, não ao mesmo tempo, é claro, com essa medicação.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

12 anos de Universidade Federal de Sergipe

Universidade Federal de Sergipe - Campus São Cristóvão




Dia 27 de maio de 2009, uma quarta-feira. Eu e mais umas duas pessoas aprovadas em concurso público de provas e títulos, assinávamos o Termo de Posse como Servidores Públicos Federais, novos docentes. Eu havia chegado no domingo, dia 24 de maio, meus pais me levaram ao Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Meu pai me abraçou e apertou minhas mãos olhando com seus olhos verdes, querendo chorar, nos meus castanhos escuros já chorando. Minha mãe me abraçou e chorou, disse algo quase sussurrando no meu ouvido, que nunca me esqueci e mantenho firme, gostem ou não de mim. Ela disse assim: “Nunca esqueça de onde você partiu, não esqueça tudo o que você lutou para chegar aonde chegou, mas principalmente, de onde você é, quem você é, onde é sua casa, onde você nasceu.”
Nasci no dia 18 de julho de 1983, às 06:20 – em ponto – de uma tarde chuvosa e fria, em Mesquita, Primeiro Distrito do Munício de Nova Iguaçu. Parto normal e rápido. Meu pai trabalhava no comércio, em Madureira, numa rede chamada Papelaria América, entrou como auxiliar de serviços gerais e aos poucos chegou a Gerente de uma das filiais, passou por várias, Rua Uruguaiana, no Centro do Rio de Janeiro, Rua da Alfândega, Cascadura, Nilópolis... Minha mãe foi auxiliar de cozinha, trabalhou com faxina em casas de gente rica, oriunda ainda naquela época da aristocracia iguaçuana e que nos anos 90 migrou para a Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes... Morávamos num sítio enorme, as terras eram baratas em Mesquita nos finais dos anos 70 e início dos anos 80, a casa era “bem ajeitadinha”, segundo conta minha mãe. Era uma casa de estuque, o que chamamos aqui em Sergipe de “casa de taipa”. Não havia luz elétrica, uma pequena televisão de imagem preta e branca conectada numa bateria de carro não me chamava atenção. Eu gostava de ficar no chão da casa brincando com bonecos, trecos de todo o tipo, ou correr entre as plantações de cana, café, pés de jaca, manga espada e carlotinha. Havia muitos abacateiros também, além de araçá e goiaba (branca e vermelha), isso quem conta é meu pai. Essas minhas incursões me renderam quase morrer afogado numa fonte que havia ao lado de nossa casa, o que me salvou foi o instinto rápido de minha mãe e as várias vitórias-régias e um velho que não lembro o nome – depois ligo para o Rio de Janeiro para perguntar – que tinha um sítio vizinho ao nosso e capinava seu terreno no outro lado da cerca de arame. Eu tinha problemas de saúde: não peguei peito, logo não mamava leite materno, não comia direito e o ambiente era muito frio no inverno e no verão mesmo que o sol não fosse algo diretamente chocante, as muitas árvores e a mata atlântica oriunda da Serra do Mendanha que é todo um maciço que circunda a geografia entre Baixada Fluminense e Zona Oeste etc. tornava a necessidade de respirar complexa para mim. Na verdade, a geografia do Estado do Rio de Janeiro é fantástica, a própria capital tem um quê de charme medonho: uma cidade espremida entre as montanhas, morros e o mar. Com quase dois anos de idade completos, meus pais e tios (irmão do meu pai casado com a irmã da minha mãe) que também moravam no grande sítio, aonde também residiam minha avó paterna e seus dois filhos: um tio mais novo e uma tia doidona mais velha que até hoje não fala com o restante da família, compraram uma casa – mais abaixo da montanha. Mudaríamos então para o Morro da Chalet, n. 300, hoje no bairro Santa Terezinha, no agora munícipio de Mesquita. 12 anos. E ainda tenho sotaque. 12 anos e ainda sinto o cheiro das árvores no quintal da minha infância. 12 anos e não vejo muito sentido em tudo que fiz para chegar aonde cheguei, mesmo chegando. 12 anos e aprendi que assim como a força do amor da minha mãe e do meu pai, proporcionalmente, eu não sabia, quando via minha – já formada – enfermeira, trabalhando para o SUS, se doando, ganhando pouco, com o branco do uniforme com gotas de sangue que não eram seu – que o ódio, inveja, rancor, contra Servidores Públicos iria me fazer o mesmo mal que fez à ela, levando-a ao poço da depressão, aos remédios, psicólogos, psiquiatras. Sigo o mesmo caminho, mas ao menos ainda há a Prozac. Quando converso com minha mãe e questiono se não há um excesso de drama, sua firmeza e sutileza de quem nasceu em Marechal Hermes, subúrbio do Rio de Janeiro, viveu a infância em Cabuçu e Mesquita, ela me aconselha: 
“se disserem que você está fazendo drama ou é fraco: Manda se foder”.
 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Crônica que ninguém lê (ou O retorno d'O Ventríloquo)


O que passa por sua cabeça enquanto pedala? Corre? Caminha? Faço escolhas ruins de releituras e leituras quando minha mente está passando por momentos em que insiste em me pregar peças. Talvez, a medicação, a genética, a química dentro de mim. De qualquer maneira, preciso ser rápido com a memória. Mais uma vez: talvez, pela medicação ou mesmo pela velhice (apesar de ainda estar em flor de idade), as drogas – devidamente receitadas pelo meu psiquiatra – mexem de diversas maneiras com meu subconsciente. Muitas vezes transformam minha jornada num transtorno, mesmo que haja benefício.
Disse hoje para alguém que uma boa literatura deve ter sua dose de drama. E não estava mentindo. Com o carro que não é meu, com a bicicleta que nem sei se é minha, com os movimentos que às vezes parecem mecânicos, fui pedalar na Orla da Atalaia, em Aracaju na hora do almoço. Único momento que tenho tido em tempo entre meus afazeres domésticos, intelectuais, burocráticos como: lavar a louça, dar ração ao Gregório, preparar aulas, ler livros e artigos, pensar nas orientações de Iniciação Científica e Mestrado, dar pareceres, prestar contas sobre meu pós-doutorado, organizar comprovantes financeiros comprovando que o dinheiro recebido e gasto pelo programa de mestrado foi empenhado corretamente. Insisto: faço más escolhas de leituras quando a vida não vai bem. Recentemente foi publicada uma edição bilíngue (inglês, nos manuscritos, e português) dos diários do compositor, guitarrista e cantor da banda estadunidense Nirvana, Kurt Cobain, que se suicidou com um tiro de espingarda aos 27 anos, em 1994. A edição é luxuosa, comprei na pré-venda no próprio site da editora, há um certo tempo, por isso ganhei umas memorabilias ou como queiram “souvenires” sobre o finado. Já estou quase terminando a leitura e é angustiante. Ponto. Não importa. O que passa por sua cabeça enquanto pedala?
Hoje, na hora do almoço, quando iniciei meu giro parti da Praia da Cinelândia sentido nova rótula do Farol da Marinha, o objetivo era dar algumas voltas no percurso: Rótula da Cinelândia – Nova Rótula do Farol, que fica praticamente na Praia dos Artistas. 




O exercício mais importante é manter minha mente pensando, praticamente conjugando verbos de ações. Daí as palavras e a narrativa do que ninguém lê se constrói na minha cabeça. Mas eu ouvia uma música constante no início, certamente, por hoje ser segunda-feira e eu ter aula de piano. Enquanto eu pedalava e, para ser sincero, isso ocorreu durante toda a primeira passagem sentido Farol da Marinha, eu só ouvia o “Prelude in C Major, BWV 846”, do compositor protestante luterano Johann Sebastian Bach.


Na versão web é possível ver e ouvir no vídeo acima a execução primorosa do Prelude in C Major

Há uma explicação plausível: tenho enrolado muito no estudo, principalmente nos antepenúltimo e penúltimo compassos. Ontem, estudei um pouco pela noite, então era de se esperar que eu ouvisse a música, visualizasse a partitura na minha frente. Logo me desgarrei quando vi à minha direita a Praia dos Artistas o mar e seu horizonte nublado e, claro, quando fiz a rótula do Farol a pancada de vento que tomei no meu peito. Não havia motivo para ficar pensando em figurinhas escritas entre linhas. Precisava focar em coisas mais interessantes: o cotidiano da Orla enquanto eu estava em movimento.

Um casal de mãos dadas aparentava tesão um pelo outro. Um homem na rede. Uma profissional do sexo me mandando um sinal, respondi que depois. Ela riu. Não viu meu sorriso de máscara. Os caras do famoso lava-jato. A polícia no furgão que fica de frente para o Eu (coração) Aracaju em letras coloridas. Os bares e restaurantes com um casal, um homem só e sua cerveja. A academia com corpos sendo definidos. Primeira volta. Foi-se o vento. A música que vocês ouvem queria voltar à minha mente. Disse que não! Não! Acelerei a cadência. Pesei a marcha, aproveitei o vácuo do vento. Um caminhão recolhia cocos. Garis, sem saber sua importância, faziam seu trabalho. Um homem tirava fotos nas estátuas: tirou com Tiradentes, ao lado havia Zumbi do Palmares, olhou para o chão, Tiradentes é mais fácil de ser reconhecido com sua corda no pescoço. Uma estátua de um negro guerreiro com uma lança em punho, não. Não tive tempo de perceber se ele tirou também uma foto com o líder do famoso quilombo. Eu tinha pressa. Um rapaz corria. Dois homens com máscara no queixo caminhavam. Uma moça segurava um sombreiro na porta de um restaurante vazio. Avistei uma coruja no calçadão, pouco antes, novamente da rótula do Farol da Marinha. A coruja – juro – olhava fixamente para uma pichação na parede oposta a nós dois, do outro lado da pista: “Fora Bozo”. Olhava atenta. A coruja é o símbolo da sabedoria. Mas, sempre há mais pombos cagando na nossa cabeça que corujas para admirarmos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Pobre Maiakóvski (Brasil pós-2016)




Perdidos em disputas monótonas,
buscamos o sentido secreto,
quando um clamor sacode os objetos:
"Dai-nos novas formas!"
(Ordem N.º 2 ao Exército das Artes, Vládimir Maiakóvski, tradução de Haroldo de Campos. 
Em: Maiakóvski: Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 93)


Chega um momento na nossa existência que as coisas vão indo tão mal, coisas simples indo tão mal, que a gente acaba se vendo obrigado a usar aquela expressão que resume o "estar na merda", "as coisas estão muito ruins", "Não dá mais...", etc. A tal máxima é: "Brasil pós-2016".

(Nota aos estrangeiros: este termo possui um interessante histórico etimológico e é mais ou menos como a palavra "Saudade", não tem tradução para outros idiomas além do português brasileiro).

Um exemplo didático: você pede uma moela ensopada num boteco para papear um pouco com a patroa sobre a vida, a moela chega fria. Você não diz mais: "que merda"... Você expressa seu descontentamento com: "Brasil pós-2016!". Não satisfeito, pede uma porção de pão de alho. Chega uns nacos de pão com manteiga no forno e um potinho de maionese industrial com aroma artificial "alho". Você xinga? Chama o garçom prum papo? Não! Você diz: "Brasil pós-2016!".

Liga a TV, mais um pacote de cortes... Suspira fundo: "Brasil pós-2016".

Mais uma chacina: "Brasil pós-2016".

Caí no cheque especial de 350% de juros ao ano: "Brasil pós-2016".

Os índios não existem mais, foram abolidos pelo agronegócio: "Brasil pós-2016".

Fecharam uma universidade pública, duas, três: "Brasil pós-2016."

Servidores estaduais e municipais e federais caminhando para a miséria: "Brasil pós-2016"...

Evangélicos estão no poder, empresários são eleitos prefeitos: "Brasil pós-2016".

Mães matam filhos por serem homossexuais, pais chacinam a família por machismo: "Brasil pós-2016".

E assim a gente foi mudando nosso linguajar de pouco a pouco.

É uma coisa meio Etimologias, do Isidoro de Sevilha... 

Entendam cagalhões: Daqui uns séculos "escafandristas virão explorar sua casa", na verdade, seus status no Facebook, e verão que a expressão "Brasil pós-2016" surgiu logo após um surto epidêmico, não de Febre Amarela, de certo modo sim, mas uma febre de camisetas amarelas e de um pato amarelo gigante pelas ruas de São Paulo, gritos nas capitais estaduais, selfies com Policiais Militares. Os escafandristas investigadores descobrirão que a disseminação linguística se deu através do som do Plim Plim, via aparelhos de Televisão e grupos de tiozões no Whatsapp com camisetas com a foto de um homem que apoia Brilhante Ustra e ofendeu uma Presidenta da República que foi torturada durante a Ditadura Civil Militar no Brasil. Para ficar só nisso.


O DNA da máxima "Brasil pós-2016" estava, dirão os escafandristas arqueólogos das palavras, em um tal de "Fora Dilma e leve o PT junto". A mesma senhora que quando jovem teve ratazanas inseridas em sua vagina como método de tortura.



Curiosamente, assim como renascentistas, humanistas e iluministas falando da Idade Média no seu presente passado em tempos remotos, os contemporâneos do "Brasil pós-2016" não se lembrarão das pessoas tiradas da miséria durante os 13 anos petistas, esquecerão, como num surto, a expansão do ensino público, os avanços sociais de igualdade e justiça para os mais necessitados.

A classe média brasileira, aquela infectada pelo vírus da Febre Amarela Política, e mesmo os recém-chegados ao status graças aos tais avanços do passado presente, esses seres contra-História, silenciar-se-ão ignorando suas participações nas marchas pela família, ignorarão os ministros nomeados com ficha suja, emudecerão diante das delações com nomes do governo interino, e depois fixado através de negociatas de privatização e prevaricação, nomes explícitos em listas de propinas. Tudo graças ao mecanismo técnico-biológico do Plim Plim. 

Na explicação do dossiê, os escafandristas dirão: As células se ativavam às notas musicais estridentes e então as vozes bradavam: "Bandido bom, é bandido morto!", "Comunistinha de merda", "Esquerda caviar"... "A culpa não é minha, eu votei no Aécio!", "Vocês também votaram no Vice...", "Transformaram a bandeira do Brasil num símbolo comunista (mas era a bandeira do Japão)", etc. e tal.

Finalmente, esses escafandristas, ao tentarem, mais uma vez, alertar os contra-História, serão silenciados por algum pacote de cortes nas Ciências ou vão ser terminantemente afastados de seus cargos públicos-concursados através de um processo temeroso de redução salarial, lhes cortarão o oxigênio.

No geral, perceberemos que, primeiramente, a estratégia funcionará a partir da diminuição do acesso à internet fixando um limite de dados. Em seguida cortarão o acesso igualitário à universidade pública e gratuita, reduzindo o Ensino Superior ao monopólio de Empresas Educacionais privadas que lidam com a educação através do mesmo modelo de alimentação fast food. Depois, depois a gente não sabe, pois estamos no futuro do passado e fica difícil localizar a narrativa em algum tempo verbal. Não sei se estou aqui ou acolá. À propósito, a voz que você ouve nesse momento tem esse som por ser eu também um escafandrista.



Pobre Maiakóvski, não há nenhuma pessoa feliz no Brasil pós-2016.

sábado, 13 de agosto de 2016

A razão da loucura

Mercado Governador Albano Franco - Aracaju-SE

Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe mais o mangue
(Aracaju - Tomás Improta - Vinícius Cantuária - Caetano Veloso - 1979)

Tenho por costume me levantar um pouco mais tarde nos finais de semana, algo entre às 7:30 e 8:30, por aí. Pego o carro e religiosamente vou aos Mercados Centrais de Aracaju. Não sei, mas o vozerio, a agitação, o vento que vem do rio, o céu azul... tudo isso, e alguma coisa a mais, me faz ter uma sensação boa de vida.

Acredito piamente que nós brasileiros nascemos com uma desigualdade nas pernas muito grande e que se reflete de forma muito evidente no trânsito: um pé muito pesado para o acelerador e o outro muito lento para o freio.
É meio provinciano ou local isso, um exemplo muito específico, eu sei, porém, todos sabem que para sair andando do estacionamento próximo ao Terminal Mercado (o dos ônibus) e atravessar a estreita rua que dá para o espaço de pescados ou o das carnes do Mercado Governador Albano Franco é necessário um balé acrobático. Um equilíbrio extremo, quase passos certeiros de valsa para nos desviarmos dos carros e motos que parecem ter um prazer extremo em ver os pedestres suados sob sol quente de Sergipe, afoitos na tentativa de chegar até o  primeiro Mercado.
Não sou um bom bailarino. Dois pra lá, dois prá cá.
E hoje, não diferente dos outros finais de semana, quase fui pego por um Siena fire prata, quatro portas, placa de Aracaju e tendo um senhor um pouco calvo, cabelos brancos e camiseta como condutor. Acho que ele estava com uma sede tremenda, um ódio tamanho para acertar as contas com alguém – ou ele é assim mesmo – pois quando tentei atravessar à frente do seu objeto de poder, aquilo que o torna um individuo diferente dos caminhantes, ele acelerou mais e quase me pegou. Curiosamente, fui salvo pela fidalguia de um motociclista que parou o trânsito da “segunda faixa” – não sei bem se existem faixas ali.
Em meio ao caos cotidiano, ainda pude ouvir um “filho da puta!” em brados retumbantes do motorista! Pensei comigo, poxa nem um “filho do cabrunco... foi filho da puta mesmo!”. Vida que segue e a minha seguiu.
Fiz o que sempre faço, passei na mesma banca, com o mesmo moço e pedi uma água de coco, trocamos uma ideia e ele fez a mesma piada dos outros tantos finais de semana: “Já se protegendo pra cerveja da tarde!”. Eu sempre sorrio e balanço a cabeça.
Fui no mesmo vendedor de queijo coalho dos sete anos em que vivo em Sergipe. Conversamos sobre a mesma coisa dos últimos cinco e depois enfrentei as calçadas justas e abarrotadas para comprar um filtro d’água. Na volta, de fato, tomei uma cerveja e comi um caldo de mocotó no segundo Mercado, enquanto os chorões afinavam os instrumentos. Fiquei pouco ali.
No vendedor ervas, bati um papo e comprei um capim santo pro bichano e, de costume, atravessei o que eu chamo de Paço, onde fazem os tradicionais forrós de junho. Tudo muito cansativo para que você me ouça, eu sei. Mas a alguns metros de entrar no primeiro Mercado, o das frutas, o dos pescados... aquele em que tempos atrás quase virei parte de asfalto. Ouço uma voz firme, grosseira, me questionando de forma intimidadora: “Você é maluco é?”.
Nesse momento minha educação tipicamente da Baixada Fluminense surgiu como um sentido de Aranha prevendo o perigo. Continuei em passos normais. “VOCÊ É MALUCO, PORRA? ESTOU FALANDO COM VOCÊ!”. A coisa ficou séria.
Parei. Tiro nas costas se não matar aleija.
Olhei firme, porém tranquilo. “VOCÊ É MALUCO, QUER MORRER?”. Ah, a didática do trânsito. A didática do motorista cheio de razão que não leu a cartilha do DETRAN.
Frações de segundo serão transpostas em palavras para você, afinal, a mente humana funciona de maneira muito curiosa e um segundo realmente pode parecer uma eternidade quando tentamos relembrar e concretizar a memória em palavras. Então me dê sua mão e vamos juntos para dentro da minha cabeça naquele instante que agora se eterniza entre nós dois:
Se eu responder que não sou maluco darei razão a ele para converter a violência verbal em violência física, violência evidente para mim, mas evidentemente natural e correta para ele. Eu continuava olhando, se houvesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa. Se eu continuar calado, no máximo ficarei ouvindo mais alguns impropérios desse idoso, mau motorista, mau cidadão, arrogante e que deve ter uma vida fodida, tratar mal seus filhos, mulher. Posso mandá-lo tomar no olho do cu, se danar. Mas isso lhe dará razão para partir para cima de mim. Bater em velho é uma puta sacanagem. Porém também posso apanhar. Puta sacanagem. Ele pode estar armado, pode me matar e ele já quase me matou. Eu continuava olhando para ele, se eu tivesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa, isso só alguns loucos passivos têm. Preciso ser racional. Ficarei parado olhando para ele, sem rir, sem me mexer, a não ser que ele avance. Posso me desviar. Pensei também, confesso, se ele partisse para cima de mim: Posso dar na cabeça dele com a parte de terra da muda de capim santo, o filtro não serve. Não! Vou destruir a muda, destruir o filtro. Fiquei parado, olhando para ele.
“VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA NÃO É? ÔXE! É MALUCO MESMO ESSA PRAGA. NÃO DEVIA TÁ SOLTO POR AÍ NÃO, PODIA TÁ AGRADINDO ALGUÉM. AÍ ATRAVESSA ASSIM DESEMBESTADO. E ESSAS MARCA AÍ NO BRAÇO? É COLEIRA? É MACUMBA?”. Eu parado, olhando. Nós dois, talvez, os únicos no mundo. O tempo parado. Entre o centro e a periferia do Paço. Ele, sei lá de onde. Eu de um morro da Baixada Fluminense. Me equilibrando entre o bem e o mal. Meu silêncio, minha segurança. A voz dos meus pais dizendo na infância que quem anda com porco farelo come. Você tem que estudar. Estudar te fará uma pessoa melhor. Minha mãe na última semana aconselhando: você anda irritadiço. Precisa ser mais calmo. Pode surtar a qualquer momento. Eu chorando ao telefone. Minha mãe me aconselhando. E eu parado ouvindo aquele senhor bradando com dedo em riste que eu era maluco. Louco de pedra. Irracional. Eu. Ele. Nós. Eu pensando isso tudo. Um minuto, talvez. Esse foi o tempo. Talvez. A voz dele amansou. Me chamou de filho. Perguntou onde estavam meus pais. Afinal, eu era um louco, um maluco. Aconselhou que eu não devia ficar perambulando pelo Centro de Aracaju. Aconselhou o caralho, me deu foi bronca. “O Centro é perigoso” ele disse. “Vai, vai. Vai tomar seu ônibus. Vai pra casa!”. Não esbocei palavras durante aquele um minuto, um minuto e meio, realmente não sei medir o tempo. Continuei caminhando, o cheiro bom do capim santo. O vozerio novamente, as mesmas piadas, os abanos de cabeça. O moço dos ovos capoeira. A tia das lambretas. Os cheiros. Sorri. Não olhei para trás. Sorri. Estou ficando mais calmo. Menos irritado como minha mãe aconselhou. Não vou surtar, precisar de remédios, falar com profissionais. Eu terei sempre os Mercados Centrais.


domingo, 25 de outubro de 2015

O fim da falsa culpa: um ensaio pela liberdade

Foto que tirei, em 19 de outubro de 2015, de intervenção feita numa parede na subida da escadaria da Igreja do Santíssimo Sacramento da Rua do Passo, Centro Histórico de Salvador - Bahia. Seus 55 degraus serviram de cenário para o famoso filme "O pagador de promessas", de 1962, baseado em peça de Dias Gomes.


Queria dizer, e já dizendo, que a cada dia que passa, mais me surpreendo com a complexidade dos valores moralistas que se constroem constantemente à minha volta e que, volta e meia, me atingem diretamente o fígado, que é a alma. Por isso, me posiciono: Sou a favor da legalização do aborto e da maconha.
Consequentemente, o modelo tradicional/ocidental de “religião” me assombra. Grito aqui, sem medo de cuspir em algum prato ou ter meu teto de vidro despedaçado: sempre me assombrou.
O mais curioso é que nunca tive uma educação familiar que me obrigasse a professar uma fé, um posicionamento político ou coisa do tipo. O discurso até os meus dez anos era muito simples: havia valores educacionais e de trabalho igualitário na minha casa que, por sorte, construíram diariamente meu caráter, e todo e qualquer tipo de posicionamento que eu tomasse era e é respeitado pelos meus pais. Assim, pude frequentar uma vez uma missa, ir a terreiro de candomblé, ubanda, igreja evangélica, pentecostal, comer doce de São Cosme e Damião, tomar sopa dia de sábado em Centro Espírita e até mesmo visitar orfanato com professores da escola em que estudei entregando donativos para crianças como eu.
Um dia a coisa mudou e não sei por que cargas d’água houve um enfraquecimento em mim no quesito “ética laica”. E isso, de quebra, levou meus pobres pais-liberais para o mesmo abismo da culpabilidade, principalmente mamãe que sempre foi de uma clareza fantástica de ideias, amiga do mais variado tipo de pessoas, consideradas pelo moralismo fundamentalista cristão, que a cada dia cresce mais no país, como “desviadas”.
Participar de um corpo religioso sempre me foi uma dúvida pelas muitas dores que, mesmo inserido e absorvido no corpo religioso, eu sentia, fosse após um dia de festa no terreiro da Dona Iraci ou numa reunião no Salão do Reino dos Testemunhas de Jeová. O discurso não atendia profundamente minha necessidade de viver e conviver com o externo: meus amigos de pais divorciados, o amigo de escola cuja família era ele, filho único, sua mãe biológica e sua companheira (um casal maravilhoso e lésbico que me tratava com um carinho enorme), etc, etc. Mas nenhuma instituição religiosa me causou mais dor e sofrimento do que a igreja em que fui batizado e frequentei constantemente na minha pré e adolescência.
A instituição religiosa e cristã e protestante (que paradoxo este último termo) reproduzia e se fundamentava nos mesmos moralismos excludentes que eu via na escola, na rua e nas esquinas por onde eu passava no meu dia a dia. Aquelas pessoas, que convivi até então nos meus dez anos de idade, tornaram-se “desviadas”, “criaturas de deus”. Passaram a necessitar da “salvação em Cristo”, eram “do mundo”. Eram “diferentes de mim”. Essa foi a primeira grande dor que senti: eu deveria orar por aqueles “perdidos” que “viviam fora do núcleo verdadeiro da felicidade e do correto”, logo, “estavam fadados à perdição”, precisavam da “conversão” para “tornarem-se verdadeiros filhos de deus e não mais criaturas”.
Clamava-se pelo caminho da “santidade” entre tropeços sôfregos, justificativas fundamentadas na esperança, crença no invisível-visível, na vida eterna em Cristo Jesus, nosso senhor. No fundo, o controle social interno da corporação de candidatos a homens e mulheres de bem a caminho da perfeição-salvação se dava por meio da construção do simplório sentimento de “culpa”. Isso mesmo: culpa. Não se engane, a roda gira graças à culpa. Depois (um depois de passado, antes de mim), surgiu o fantástico discurso neo-pentecostal da prosperidade-riqueza, quase um deus vult do capitalismo. A fórmula medieval de “doe e você receberá em dobro” se adequou perfeitamente às pessoas de baixa renda e que depositam e depositaram toda sua fé no milagre divino-financeiro. A roda do capitalismo nesses moldes, nem Weber esperaria com tanta perfeição. Pois é, entre 1904 e 1905, quando do lançamento de seu famoso livro, não havia vocês sabem quem para ele analisar! Voltemos à culpabilidade. E que volte algum Max Weber para colocar de maneira mais erudita que a minha, o dedo nas chagas da cruz!
Era culpa porque “o filho de deus”, “o próprio deus” morreu num madeiro por um pecado que você nem tinha cometido, mas ele sabia que você um dia ia ter o azar de professar, afinal ele sabe de tudo antes mesmo de você saber que vai fazer. Era culpa pelo cine prive que só mostrava bunda e peitinho nas madrugadas da TV Bandeirantes e a punheta da noite anterior à “escola bíblica dominical”. Era a culpa pela vontade de comer a menina do banco da frente que tinha culpa porque queria ela também comer você. Era até a culpa de saber que você não comia ninguém, mas havia uns tantos cantores de coral que fodiam e você não! Enfim, não vamos culpar ninguém, já há culpa demais. Afinal, o importante era pedir perdão e essa lógica alguns pegavam rapidamente: então, piroca na vida e depois você pede perdão!
Em dado momento, uma importante guinada, ao menos para mim, aconteceu: Cada vez mais, tudo à minha volta fazia menos sentido: os tapinhas nas costas por uma bela poesia cristã, um “abençoado” por uma letra de música ou uma peça adolescente de teatro. Um “aleluia” por uma reflexão retórica à um trecho bíblico, etc., etc. Fui acometido no melhor da vida de uma depressão que diziam ser de fundo espiritual, “a chama da fé já não estava ardendo”, eles diziam. No fundo, o que eu via era a culpa depositada onde não há culpa. Logo, todas as minhas namoradinhas eram “jugo desigual”. Graças a deus!
Os remédios surgiram e que não deixam de ser drogas. Precisava deles para dormir, acordar, sorrir, andar de bicicleta, jogar bola, estudar. Uma vida tosca. Onde eu estava errando? Eu nem olhava e olho com maus olhos as pessoas que evidentemente estavam contentes, felizes na fé. Eu só passei a perceber, simplesmente, que aquilo não servia para mim o tanto que servia para cada uma delas. Aquele “corpo religioso” não conseguiria comportar a minha alma e meus anseios como cidadão, ser humano, pessoa, individuo. Eu queria ter amigos, amigas. Ter perto de mim gays, lésbicas, maconheiros ateus, agnósticos tucanos, petistas do candomblé... católicos viados, putas evangélicas, enfim, eu queria era ser livre de culpa religiosa. Veja, deve ser bom e deve mesmo ser bom para um monte de gente: mas não é para mim. A lógica é racional e bem simples.
Conversei com meus pais naquele período sombrio e a ideia foi maravilhosamente aceita por eles, sempre tivemos amigos que frequentavam a nossa casa e trabalhos e que se enquadravam em algum momento nessa sintética e livre definição acima.
Passei a pensar que era bem mais leve e alegre conduzir minha vida novamente a partir de uma ética que procurasse acima de tudo não ferir a minha individualidade e a alheia. Não era uma filosofia de vida ou coisa do tipo, era a única saída que eu tinha para viver. As drogas receitadas diminuíram.
Aos poucos, a atitude também foi tomada pelos meus pais, a família se uniu ainda mais, as conversas, que sempre foram abertas, sobre sexo, drogas ilegais, álcool, rock and roll, ficaram ainda mais abertas. Até hoje não matei ninguém, estuprei, roubei, furtei ou qualquer outro tipo de atividade que fira os preceitos de direito universal, incluindo, a liberdade religiosa que cada individuo, por lei, tem. Apenas não tenho mais uma religião e não me insiro na institucionalidade de nenhuma delas, mesmo entendendo que, para elas, a necessidade de se institucionalizar é latente. Eis o problema para eles e para mim.
Recordo com certa náusea, confesso, de que quando entreguei formalmente minha solicitação de “exclusão do rol de membros da Igreja” – formal isso, não? Quanta institucionalidade para a fé! – o pastor, um senhor agradável que ainda guardo com um enorme respeito e carinho, soltou a máxima: “As muitas letras te deixaram louco”. Citação paulina, ele era muito bom nessas coisas. Eu estava cursando graduação em História.
Acho que anos depois, seu filho, que também tornou-se um ministro e não deixava de ser um bom amigo, numa conversa informal quando eu disse que havia terminado um relacionamento (que era jugo desigual, até então) de uns quatro anos, para ficar com uma paixão que me surgiu de repente, disse: “Mas, ora, sem igreja, religião... quais serão seus fundamentos morais e éticos para conduzir sua família, sua vida?”. Curiosamente o discurso do desigual sumiu na nova realidade.
Acredito que essa voz-desabafo de hoje e cada luta diária que travo pela laicidade no Estado e no Ensino, uma laicidade que permita o conhecimento pleno de toda e qualquer manifestação de religiosidades, explica bem quais os fundamentos morais e éticos que eu, brasileiro, servidor público federal, filho, companheiro e amante e, acima de tudo, livre e sem culpa, sigo na condução da minha família não tradicional. Uma família que se propõe de forma veemente a não se enquadrar nas normas institucionalizadas por um governo que tem se vendido cada vez mais à Bancada da Bíblia no Congresso Nacional.
Sou a favor do direito da mulher abortar e ser amparada pela lei em sua vontade individual de praticar a interrupção de uma gestação dentro dos prazos regidos pela Medicina e conforme dados da Organização Mundial da Saúde. Sou a favor do uso livre da pílula do dia seguinte em conformidade com o direito individual da mulher de ter o controle de seu corpo, enquanto individua e cidadã, principalmente, se for ela vítima de violência sexual e não só. Sou a favor da legalização da maconha, sua produção de qualidade, venda em locais específicos e o uso individual e coletivo de forma recreativa como fazemos com o álcool e o tabaco. Sou a favor do matrimônio de casais de mesmo sexo e dos os direitos legais que disso decorram. Sou a favor da adoção legal por casais de mesmo sexo. Sou a favor da liberdade religiosa e de toda e qualquer manifestação cultural de religiosidades. Sou a favor do individuo inserido na coletividade do que deveríamos chamar de nação brasileira. Sou até mesmo a favor da presença de religiosos no Congresso, desde que eles não firam a nossa individualidade.
Axé, amém e viva o azul.