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segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Entendi o que é um ABC

 


Não sei bem se você me ouve. Mas acho que mais doloroso é ouvir no silêncio a própria voz e essa ressoa há tempos. De fato, faz muito tempo que essa conversa está guardada na caixa do peito. Não sei se pelo próprio tempo, o desalinho, desânimo, o tal do silêncio me fez ficar mudo e só. Você está aí? Você ainda está aí?

São muitas dores, eu sei. E eu ouço o som da minha voz ou mesmo o silêncio se quebrando com a caneca de pedra sabão mineiro se enchendo com a água do filtro de barro para que eu tome minha medicação. Mas não importo para ninguém. É o que o cérebro vai pregando como peça de pastor levando suas ovelhas ao matadouro e todo mundo um dia vai para o matadouro. Não é?

Continuo. Ouça mais um pouquinho, fugi do assunto, mas foi coisa rápida.

Hoje é dia 03 de janeiro de 2022, uma segunda-feira. Hoje, na verdade, num sábado de 1898, nascia em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Luís Carlos Prestes. A citação ao 03 de janeiro de hoje e ao de 1898 diz muito sobre essa jornada de ler cronologicamente – como temos conversado – a obra de Jorge Amado. Já uns dias iniciei O Cavaleiro da Esperança: vida de Luís Carlos Prestes, mas não parei para te contar as impressões, os sentimentos que tive ao ler o livro que o antecede na obra do baiano de Itabuna: ABC de Castro Alves.

Publicado originalmente em 1941 e retomado na série Coleção Jorge Amado da Companhia das Letras, com posfácio de Domício Proença Filho, li a edição de 2010 da editora.

Do escrito de Proença Filho entendi enfim o que é um abc, apesar de eu não ser tão ignorante, mas mesmo lendo sempre o posfácio como deve ser lido – no final – o ritmo da escrita de Jorge Amado era da mais pura louvação ao poeta baiano, seu conterrâneo. A voz dos escravos. A explicação, a exposição, de Domício Proença Filho ajudou e evidenciou mais o sentimento que me batia entre angústia e admiração.

 O que Jorge Amado, na sua cadência, na conversa com a sua negra, a sua amiga – companheira – nas areias, contando a grandeza, os feitos do poeta, humanizando Castro Alves, nos leva a tal ponto da gente se dar conta – sabe? – e se lembrar que é sempre bom perguntar-se: O que é uma biografia de verdade?

Amado usa notas de fim – adianto que no livro sobre Luís Carlos Prestes o mesmo acontece – dá opiniões. Ele consegue romancear uma vida, mas não são todas as vidas – a minha e a tua – grandes romances escritos ao acaso pela pena de algo maior?

Sinto angústia. Pelo menos sinto. E sentir alguma coisa já é algo, afinal, como num trecho do ABC: “Já que que a vida esmagava assim tantos homens e tantos sentimentos, já que ela era tão feia e tão errada, então ela não a queria, não se misturaria com ela, fugiria. A morte é também, amiga, bela como a mais bela das mulheres quando se tem medo da vida, de encará-la face a face, quando se pensa que o destino do homem é a desgraça. Para os que assim pensam, as estrelas do céu são um chamado, a lua é um convite, a morte é a suprema amante, só ela pode dar aos homens os bens que a vida não possui. E eles caminhas para a morte de passo firme e decidido porque vão para uma festa, não têm nada que os prenda à vida, estão desligados dos demais homens” (p. 47).

Jorge Amado canta em cada letra do alfabeto os feitos do poeta, insere um cotidiano em que a verdade mais pura é a dor que o passado não pode esquecer: a ausência da Liberdade.

E ele lembra bem, encerro assim, com uma voz que não é minha, mas que é do grande que segue amado: “Nessas noites oleosas da Bahia, quando do céu desce um infinito mistério, quando do mar chegam as canções mais doces de Iemanjá, quando da terra vem um cheiro poderoso de flores várias, nessas noites, amiga, vêm do mais escondido da cidade, de trás dos morros, do mais profundo da noite, ninguém sabe mesmo de onde, esses sons que do cais nós ouvimos de coração saltando no peito. São os baticuns das macumbas, são os candomblés batendo em honra dos santos que tu amas. De Oxóssi, meu santo, de Omolu, o deus que tanto temes, de Xangô e de Ogum. São atabaques deixando que a música role sobre a cidade e a evolva e a transporte para uma atmosfera de sonho. Nós sabemos, amiga, que lá, onde tantas vezes estivemos, naqueles escondidos lugares onde nossos irmãos negros festejam seus pobres deuses, negras dançam vestidas com os mais lindos vestidos de mundo. Sabemos também que a qualquer momento a caravana policial pode invadir o terreiro da macumba e levar os sacerdotes, os assistentes e os santos. Sabemos que é sempre uma aventura um baticum de candomblé. Que dos negros nem os deuses são livres para dançar na Terra. Mas que nem por isso deixa de, sobre as ladeiras da Bahia, ressoar a trágica voz dos atabaques, que nem por isso deixam de ser cantadas as canções de Iemanjá, nossa mãe, dona do mar e do nosso destino (...). Antes, negra, era ainda pior. No tempo do poeta Castro Alves, no tempo da sua infância e também depois, os negros eram escravos comprados em leilões, mercadoria que se vendia, trocava e explorava. E em troca de tudo que eles deram ao branco, sua força, seu suor, suas mulheres e filhas, a maciez da sua fala que adoçou a nossa fala, sua liberdade, o branco lhe quis dar apenas, além do chicote, os deuses que possuía. Mas deuses os negros traziam da África, os deuses da floresta e do deserto. E continuaram fiéis aos seus deuses por mais que rezassem aos deuses dos seus donos. E cavaram no subsolo das cidades templos que o homem branco não podia atingir” (p. 62-63).

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

“Porque a revolução é uma pátria e uma família” – Em Capitães de Areia (1937)

 


“A temática das crianças que vivem nas
ruas continua bastante atual. Para escrever
Capitães da Areia, Jorge Amado foi dormir no
trapiche com os meninos. Isso ajuda a explicar
a riqueza de detalhes, o olhar de dentro e a
empatia que estão presentes na história.”
Zélia Gattai Amado


Eis que estou aqui. Pois fugir de si mesmo quando nos olhamos no espelho é impossível. Mas eu sentia que faltava alguma coisa e mesmo que eu já não veja sentido, ao menos que eu me esforce para dar sentido ao que comecei. Já conversei com você há tempos sobre Capitães da Areia, publicado originalmente por Jorge Amado em 1937, livro que sucede Mar Morto e antecede ABC de Castro Alves. O que eu te disse, continua valendo, porém, veja bem, se me prontifiquei a dar sentido à coisa toda, devo dar sentido. Faltava algo. E em meio aos turbilhões da minha mente, como vastos cachos de uma cabeleira esparsa ou mar de viração: encontrei.

Já estava lá há semanas. Um quê qualquer de presságio não me deixou fazer o que eu queria. E eu gosto de liberdade. Faltava a foto da capa do livro na edição de 2008, com posfácio de Milton Hatoum, com capa azul céu (ou mar) sobre fotografia intitulada Jogo de Capoeira, de Marcel Gautherot. Tirada em Salvador, c. 1940-5, é uma obra de arte. Mas faltava a minha própria foto do livro como um todo. Encontrei.

Dedicado, entre outras pessoas, à Anísio Teixeira, Capitães da Areia é um dos romances mais conhecidos de Jorge Amado, seu sexto para ser mais exato. O ano de 37 do século XX marca, também, a perseguição de Getúlio Vargas aos comunistas e os livros de Amado sendo censurados e queimados em praça pública na sua adorada “cidade da Bahia”, Salvador. Entre as cinzas se formando no ardor da fogueira estavam as páginas do recém-publicado Capitães da Areia.

Li quando menino a história de Pedro Bala e seu grupo tão variado. Não tão menino. Li adolescente. Alguns anos após a chacina da Candelária, que ocorreu aos pés da famosa igreja carioca, na noite do dia 23 de julho do ano de 1993. Coincidentemente, no acervo da Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, há uma carta do autor emitida do México para Anísio Teixeira, em 26 de julho de 1937, informando ao intelectual, entre outras coisas, que para o fim do mês seguinte seria lançado seu último romance e que ele seria dedicado à Teixeira “em sinal de admiração, amizade e gratidão” (ver carta no anexo final da edição de 2008 da Coleção Jorge Amado – Editora Companhia das Letras). Datas próximas, anos distantes. Mas adocica um pouco nossa prosa, mesmo que com ar de tristeza, você não acha? Eu até acho que prendo sua atenção com isso. Vivo achando coisas. Por exemplo, ele informa ao Anísio Teixeira na tal carta de 1937, que começou a escrever o livro em Sergipe e o finalizou na viagem ao México. As cartas são coisas interessantes, você concorda? Ninguém escreve mais carta para lugar nenhum, a não ser os bancos e suas cobranças disso e daquilo outro. Deixa estar.

Li quando adolescente Capitães da Areia, já disse. Li com uns treze anos de idade, acho. Acho, pois não sou de marcar as datas e anos de minhas leituras, o que me atentam à memória são as leituras e o que permeava o ar naqueles tempos e aqueles assassinatos ficaram na minha cabeça aos dez anos recém completados em 1993.

A chacina da Candelária mexeu com muita gente e, tenho certeza, sabe?, que por isso a professora de Literatura colocou esse livro denso na lista anual de sugestões de leitura para a antiga Oitava Série Ginasial. Não era obrigatória a leitura, não fazia parte do currículo dos quatro livros que deveríamos ler naquele ano. Mas ela sugeria, deixava lá uma listinha. Peguei na biblioteca comunitária da minha cidade – havia uma biblioteca comunitária – e li. Um tio meu, se me recordo bem, tinha um exemplar também e eu o já havia visto pela estante e sei que ele leu, ele lia muito e de tudo. Quem gostava de leitura já havia lido Capitães da Areia, que eu chamava com o de no lugar do da. Demorei muitas vidas para entender o motivo do da Areia, acho que no presságio de ver a areia e o mar e fotografar o livro na solidão do areal aprendi que melhor e mais correto era mesmo Capitães da Areia e não “Capitães de Areia”. Percebi isso enquanto focalizava a câmera para a minha fotografia.

Entendi melhor também as imagens, a poesia nua e a denúncia clara de que a literatura para ser bela não precisa mascarar a verdade. Ela precisa ultrapassar gênero, raça, cor, credo e ela ainda precisa ser assim, mas acho que está se perdendo pelo medo, pelos medos, pela confusão de medos e de lados. A literatura precisa doer, trazer dor tanto quanto alento. Pois a vida é no fundo essa luta constante pelo pão e sobrevivência e se há algum humor aqui ou ali nesse livro, se há as gargalhadas dos capitães da areia... Isso tudo é para nos lembrar justamente que a vida é luta. Luta que se ganha, mas que no fim, não adianta, se perde.

Claro que há passagens amareladas pelo tempo. Fervoroso comunista nos seus romances iniciais, filho rebelde de um coronel do cacau, Jorge Amado tinha suas utopias, mas, ora, e quem não as tem? Mas só um calhorda para não enxergar a beleza que é doutrinada por essa literatura da ação. E isso traz tanta coisa interessante na escrita desse escritor baiano.

O suicídio, que tenho observado de perto, traça uma linha como uma constante via nesses romances iniciais de sua carreira, nem que seja mascarado num mergulho eterno em busca de Iemanjá, tanto quanto sua denúncia sobre as mazelas da vida e a esperança no socialismo como solução maior que o mergulho profundo nas águas de Iemanjá. Não posso dizer que o primeiro aspecto perdurará nas demais obras – nossa conversa ainda será longa e a maré, tanto quanto a areia da praia nunca estão no mesmo lugar, nunca ficam da mesma maneira como as deixamos no dia anterior. As mazelas, sim, continuam como denúncia, com um humor mais constante, mais vivo, numa invenção de inversão da Bahia que, cada vez mais será Salvador de maneira mais clara ao mundo, chegando até a confundir esse mundo que é a Bahia com sua capital que é Salvador. O socialismo também, pois não é preciso se manter filiado ao antigo e verdadeiro partidão para manter em si a ideologia, mesmo que não mais a utópica como nos cânones. Explicando isso são melhores analistas que eu os livros deixados por Eric Hobsbawm, Perry Anderson, Terry Eagleton, Carlos Astarita, Jacob Gorender, Ciro Flamarion Cardoso, Emília Viotti da Costa, Anita Leocádia Prestes, entre tantas reflexões, tantas e tantas mais que já nem sei quais são quais e o que li. Não entrarei em pormenores nessa conversa, preciso beber alguma coisa. Mas os remédios não permitem, a preocupação não permite e minha fraqueza diante da vida, vendo a força diante da morte de uma Dora preparada para o derradeiro final com seus amigos olhando perdidos dentro de si... tudo isso não me permite descanso para a mente, só me espero como cinza um dia espalhado, o vento levando, pois a nenhum lugar pertenço mais e menos me sinto pertencente que não seja a solidão. 



Dos meninos dos trapiches lá do areal, de um Pedro Bala, um Professor, João Grande, o Sem-Pernas, Gato, o Volta Seca ou Pirulito... Estou longe o mais profundo em tudo desses personagens que com certeza ainda zanzam por aí. Estou longe em tudo: história, vida, sofrimento, sobretudo, da força que cada um carrega. Pois, eu estou dizendo: não se engane você, existem por aí muitos deles resistindo e dando gargalhadas. Dos meninos capitães do romance de Jorge Amado, eu sou areia, não sirvo nem para construção de um trapiche. 



sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Mar morto, é o que há de ser

Mesquita, 24 de setembro de 2021, ouço pássaros, alguns sons vindos de alguma serralheria na cidade lá embaixo. No geral, você pode acreditar no que digo: o leve frio do início da primavera é agradável, o céu tem seu azul e o sol brilha manso agasalhando como pode quem na noite anterior dormiu ao relento debaixo de marquises, em bancos de praças públicas. A vida é o que há de ser, mesmo não devendo ser assim.

Publicado por Jorge Amado no ano de 1936 Mar morto deveria mesmo ter sido finalizada a leitura por mim, em seu conteúdo lírico, mesmo que trágico, em Salvador da Bahia, no aeroporto, lugar onde é normal lágrimas caírem dos olhos e serem naturalmente ignoradas como quem passou frio debaixo de marquises no frio carioca. No aeroporto de Salvador li o último capítulo. A potência narrativa da história narrada pelo eterno menino grapiúna sobre a saga de amor e perda entre Guma e Lívia, o cotidiano dos mestres de Saveiros, canoeiros... me balançou. Tremi. Temi.

Ouço o som do trem cortando Mesquita e seguindo rumo ao centro da cidade do Rio de Janeiro. Vidas e sagas de amor, fé, perdas e ganhos estão dentro daqueles vagões. Você pode não ouvir. Já passou. Volta o som da serralheria.

Temi talvez por motivos que nem eu saiba. Talvez pelo Mar morto de Jorge Amado, sua história ali narrada ser a história de muitos de nós: de amor e também de perda. Terminei de ler em Salvador, dia 22 de setembro de 2021. Chorei e solucei. Ninguém me viu ou ouviu. É natural.

O posfácio escrito por Ana Maria Machado li já em Mesquita, terra em que nasci. No mesmo dia de minha chegada que logo se converterá em partida. Posfácio curto, mas tão belo que me fez compreender que é o que há de ser. Ela me fez ver para além da tragédia. Que se pese ainda um pequeno adendo de Zélia Gattai Amado, na edição que repousará com as outras quando eu regressar à terra que não é minha. Edição cuja capa vermelha é ilustrada com fotografia de Marcel Gautherot, intitulada Festa de Iemanjá, Salvador, c. 1941. Zélia, parceira de aventura de Jorge Amado, companheira, namorada, musa, força motriz nos diz, logo após a página final do romance (272):

“Mar morto foi o primeiro livro de Jorge Amado que li. Li e adorei a história de amor passada no mar da Bahia, um romance de fazer sonhar, cheio de poesia. Eu estava longe de imaginar que um dia conheceria o autor, que por ele me apaixonaria, que seria por ele amada e que, juntos, viveríamos 56 anos de puro e verdadeiro amor. Eu, Lívia, nos braços de meu Guma, Jorge, com direito a brisa do mar e moqueca de siri-mole.

Mar morto foi o abre-alas, assim que terminei de ler fui em busca dos outros. A leitura de cada novo livro me emocionava, mas este, o primeiro, nunca perdeu o seu lugar de preferido.

Zélia Gattai Amado” (p. 273).

Cigarras cantam forte no quintal dos meus pais. Um dia, mesmo não sendo alguém do mar, voltarei para repousar eternamente nesse porto.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

A angústia, o 7 de Setembro e Jubiabá

 



Se a tragédia se anuncia, eu realmente não sei. Mas crer é uma força que faço diariamente. Há tempos essa conversa vai guardada dentro de mim, embrulhada, pronta. Solto por aí tardiamente – antes tarde do que nunca – mesmo que muita coisa deva ir com cada um de nós para o fundo do mar, às profundezas da terra, para o esquecimento eterno.

Não preciso recordar. São vivas essas palavras, vivas tanto quanto me mantenho de pé e seguindo.

A manhã pairava calma, mas desde muito cedo eu me angustiava. Um aperto no peito, sabe Deus o que era e o que é. Suava em ar frio e temia que naquela terça-feira, 7 de Setembro de 2021, de fato um golpe de mais retrocesso fosse dado. Via gente sumindo como eu li nos livros e expliquei nas escolas. E a manhã pairava calma, mas eu angustiado.

O velho me sorriu, um dia há de me ralhar para me acertar um caminho torto aqui ou acolá, mas me sorriu, ofereceu água, café, me perguntou como eu andava e olhou nos meus olhos sôfregos ao perguntar. Não menti, não sou pessoa de mentir o que não posso. Fiquei em silêncio e dei um riso tão sofrido quanto meus dois olhos que não sei bem a cor.

Ouvia meu nome completo sendo repetido, o chocalhar dos búzios, meu nome completo sendo repetido, as palavras em um idioma que não conheço sendo recitadas. Como sempre eu buscava alguma coisa que não eram respostas, talvez perguntas que também nunca faço, nem peço por mim. Mas contava a contas, as moedas e as pedras sobre o pano no qual já se passaram muitos jogos e muitos destinos.

Tudo que ali foi dito, ali ficou mas vem comigo. E é só o que interessa até aqui. Naquela mesma manhã serena terminei Jubiabá, quarto livro de Jorge Amado.

Lançado originalmente em 1935, a edição, que desde o dia sete de setembro de 2021 adormece na minha biblioteca em casa, tem uma bela capa com uma fotografia de Marcel Gautherot: Barqueiro do Rio São Francisco, BA, c. 1945. Foto de uma década após Jubiabá ter vindo ao mundo. O posfácio é de Antonio Dimas, docente titular de Literatura Brasileira na USP, escrito em setembro de 2008 e dedicado à Myriam Fraga.

Jubiabá não fala sobre Jubiabá – pai de santo do Morro do Capa-Negro – o romance de Jorge Amado é sobre Antônio Balduíno de sua infância até seu abc vendido no Mercado. Sua força, andanças, amores...

Jubiabá esse livro que tem nomes, Candomblé, macumbas zunindo por todos os lados. Esse livro que tem palavras que a gente não entende por que não nos ensinaram, porque a gente estuda inglês na escola quando criança, e quando estuda, e quando é criança. Esse livro que fala sobre amizades, mortes e eternidade num abc.

Ainda caminho angustiado, ansioso. Só eu sei. Para alguns a vida é se tornar um abc, para outros, melhor o esquecimento. Mas: “Para que dormir nesta noite tão bonita?” (p. 302).

Lá se vão vários dias e eu não sei bem o que dizer. Tento fortemente o silêncio, me tento fortemente pelo silêncio. Há uma sensação em mim de que o falar, o meu falar só destrói. Tento fortemente o silêncio, pois não quero a eternidade de um abc como tanto sonhou Antônio Balduíno.


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O suor que escorria e escorre pelas ladeiras do Brasil

 




Talvez dizer que lá vem o Brasil descendo a ladeira não seja mais um axioma – por sinal, palavra bonita: axioma.

O Brasil já desceu há alguns anos ladeiras e ladeiras e não com alegria como quis Os Novos Baianos na conhecida canção. Politicamente, faz tempo, somos um país pobre de consciência social e o modelo dominantes (minoria) exercendo poder sobre os dominados (maioria) se manteve e mantém.

Assim como meu gato Gregório, um bom vira-latas adotado, descansa sob meus pés, mas de quando em quando observa pela janela, as/os personagens do velho casarão na ladeira do Pelourinho, número 68, parecem em alguns momentos estanques frente a realidade mórbida: só parecem.

As mulheres, homens, crianças vão se movimentando como a própria paisagem, mesmo que tal movimento me cause angústias tremendas: O mormaço doía como socos de mãos ossudas. Invadia o sótão e as pessoas.

Mesmo os animais não escapam: O gato ficava espiando junto da porta. Se o mormaço estava muito forte, descia as escadas sem se importar com os ratos que fugiam. Deitava-se então na relva do quintal perto das lavadeiras. Rolava na grama, brincava com bolas de papel e levava pontapés das mulheres de quem sujava a roupa estendida no quaradouro. Quando o sol vinha descendo e as luzes apareciam, voltava para o sótão, entrava no quarto pelo buraco da porta e esperava, atento aos passos.

Publicado originalmente em 1934, Suor, é o terceiro livro de Jorge Amado. Na coleção que leva seu nome, publicada pela Editora Companhia das Letras tem posfácio assinado por Luiz Gustavo Freitas Rossi. Por sinal, belíssimo escrito do antropólogo que em seu currículo possui o pertinente livro As cores da revolução: a literatura de Jorge Amado nos anos 30, publicado pela editora Annablume com apoio da Fapesp, em 2009 (esgotado na editora). Contudo, como é resultado de sua dissertação de mestrado, à quem interessar suas reflexões, segue o link do trabalho no repositório da Universidade Estadual de Campinas: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/282026.

Não sei exatamente que voz ouço, mas o impacto de Suor em mim bateu forte. Firme. Que pesem as críticas que o futuro faria ao menino grapiúna – críticas sempre existirão. Mas digo em alto e bom som, com voz rouca, querendo ser operário, nem que seja das palavras escritas, mal escritas, que vale a leitura, mas entristece o peito a leitura.

Entristece, pois como conversamos, a lógica – ilógica – permanece. Dominantes e dominados, o suor escorrendo pelo corpo, a crise sanitária, a falta de oportunidades, as mazelas: o Brasil. Que pese quem tente exaltar as belezas – axioma – naturais do nosso país, a ausência de catástrofes naturais, guerras (não há guerras em nosso solo?), contudo, a realidade é mais dura. Há catástrofes todos os dias, provocadas pelos conglomerados, pela vitória constante de uma minoria que mantém em cabrestos a maioria, numa ignorância panem et circenses. E a guerra?

A guerra é cotidiana, pela vida, pelo trabalho, dignidade, a guerra é para muitos, a vitória, infelizmente, para poucos.

Não sei se há rancor na minha voz, se é perceptível o rancor, diria quase ódio ao passado que como um mormaço se mantém firme, estático no presente. Há. Sim, há rancor, ódio. Não por alguém, algo. A não ser que se entenda o passado como alguma coisa sólida, o que não é: o passado é passado. O que odeio é que ele permanece imodificável no presente.

O suor pode emanar por diversos motivos dos nossos corpos: o sexo, o medo, o trabalho, a morte e a vida. O suor nos salga a pele e quando não, pode até nos deixar em carne viva, morta como carne seca a ser comida com feijão.

O suor, o cheiro predominante de suor, mijo, merda, feridas, tudo está presente no Suor escrito por um Jorge Amado que naquele momento ia cada vez mais se estabelecendo numa luta inglória.

A capa, a bela capa, num projeto sobre uma foto de Pierre Verger do Pelourinho, Salvador, Bahia, parece reafirmar o que lhes digo: o passado parece ter estancado como o mormaço que produz o pior tipo de suor, aquele que – parece – impregnara para sempre nossos corpos passados e futuros.

Saravá, Jorge Amado, obá de Xangô, filho e ogã de Oxóssi!


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Continuando na seara de Jorge Amado

 


Há menos de um mês conversamos – nós e mais não sei quem – sobre o livro Navegação de Cabotagem, cuja publicação original foi em 1992. Desde que li este livro algo me tocou profundamente. Evidente que a obra literária (e de vida) do escritor baiano, eterno menino grapiúna, habita no nosso imaginário, sejamos de onde formos.

Desde então quis caminhar, melhor, trilhar na minha maturidade ou quase maturidade – neste momento, não faz sequer um mês dos meus trinta e oito anos completos em julho passado – a obra completa de Jorge Amado por ordem cronológica. Não é um objetivo tácito, algo coach: não consegui, sou um derrotado, não me organizei. Com o perdão da erudição mesquitense, Baixada Fluminense, andanças pela Chatuba: foda-se! Se eu conseguir até o final do ano fechar a leitura da obra inteira, bom, se eu não conseguir, bom também. Livros são feitos para serem lidos. Sigamos, sou um moleque de apostos. Sinto muito.

Finalizei os dois primeiros romances, O país do carnaval, de 1931 e Cacau, publicado em 1933. Não espere muito de mim, não quero ser erudito – ao menos que seja a erudição mesquitense – tampouco conversar de maneira profunda sobre o conteúdo dos romances. Quem quiser que leia e torço para que haja condições para tal. Permaneço, sem que seja propaganda, defendendo as edições publicadas na ColeçãoJorge Amado, da editora Companhia das Letras – e que são as que estou adquirindo de pouquinho em pouquinho. Os posfácios presentes em cada livro são de envergonhar qualquer fala minha, pois são fantásticos, o de Cacau, por exemplo, escrito por José de Souza Martins é uma aula que eu gostaria de ter condições de ministrar como professor de História que sou de formação e ganha pão numa Universidade Pública Federal no lindo e forte Nordeste do Brasil (não o digo Universidade Pública Federal por pompa, mas por orgulho e defesa do Ensino Público e gratuito para todas e todos).

Docente titular aposentado de Sociologia na USP, José de Souza Martins, hoje com seus oitenta e dois anos vividos, sabe do que fala em seu texto sobre o romance Cacau. Oxalá, meu camarada Carlos de Oliveira Malaquias, professor de História Econômica no mesmo departamento que o meu na Universidade Federal de Sergipe e que neste segundo semestre de 2021 eu terei a honra de dividir disciplina na Pós-Graduação em História, concorde em encaixarmos esse romance no debate com as pós-graduandas e pós-graduandos em formação.

Com meu camarada Malaquias, mineiro de Curvelo, teço sempre ótimas prosas, no passado regadas a cerveja e tragos de cachaça, sobre a característica ainda tão rural do nosso país. Outro mineiro que se chegou na minha vida, este de Ponte Nova, terra do grande violonista e compositor João Bosco, parceiro maior do meu mestre Aldir Blanc, o Guilherme Queiroz de Souza, professor de História Medieval na Universidade Federal da Paraíba, também tem ouvido muito meus “causos” sobre a empreitada de ler toda obra do grapiúna. Parece que fiz uma trinca de mineiros na minha vida. Um triangulo mineiro – péssimo trocadilho –, mas me parece isso. Primeiro, meu velho irmão de trincheira, conversas pelo Brasil afora, de copo em riste e às vezes os dois taciturnos de cabeça baixa: Leandro Duarte Rust, professor de História Medieval na Universidade de Brasília, nascido em Teixeiras, menino do sopé que olhava o mundo e seu o tempo no horizonte. A ele se somam os dois acima. E a vida segue.

Acho que era para falar sobre O país do Carnaval (cujo posfácio é de José Castello) e sobre Cacau, os dois romances. Não o fiz. Apenas deixo no ar, como crônica que não é para ser lida. Mas os livros e seus posfácios, estes sim, devem ser degustados como boa pinga, boa conversa e abraço amigo e apertado. Aquele aconchego do forno à lenha no frio e o café preto sendo passado ali, assim, ao vivo. Nós vivos.

Sigamos. Inicio Suor, originalmente de 1934.

Até.