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quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O suor que escorria e escorre pelas ladeiras do Brasil

 




Talvez dizer que lá vem o Brasil descendo a ladeira não seja mais um axioma – por sinal, palavra bonita: axioma.

O Brasil já desceu há alguns anos ladeiras e ladeiras e não com alegria como quis Os Novos Baianos na conhecida canção. Politicamente, faz tempo, somos um país pobre de consciência social e o modelo dominantes (minoria) exercendo poder sobre os dominados (maioria) se manteve e mantém.

Assim como meu gato Gregório, um bom vira-latas adotado, descansa sob meus pés, mas de quando em quando observa pela janela, as/os personagens do velho casarão na ladeira do Pelourinho, número 68, parecem em alguns momentos estanques frente a realidade mórbida: só parecem.

As mulheres, homens, crianças vão se movimentando como a própria paisagem, mesmo que tal movimento me cause angústias tremendas: O mormaço doía como socos de mãos ossudas. Invadia o sótão e as pessoas.

Mesmo os animais não escapam: O gato ficava espiando junto da porta. Se o mormaço estava muito forte, descia as escadas sem se importar com os ratos que fugiam. Deitava-se então na relva do quintal perto das lavadeiras. Rolava na grama, brincava com bolas de papel e levava pontapés das mulheres de quem sujava a roupa estendida no quaradouro. Quando o sol vinha descendo e as luzes apareciam, voltava para o sótão, entrava no quarto pelo buraco da porta e esperava, atento aos passos.

Publicado originalmente em 1934, Suor, é o terceiro livro de Jorge Amado. Na coleção que leva seu nome, publicada pela Editora Companhia das Letras tem posfácio assinado por Luiz Gustavo Freitas Rossi. Por sinal, belíssimo escrito do antropólogo que em seu currículo possui o pertinente livro As cores da revolução: a literatura de Jorge Amado nos anos 30, publicado pela editora Annablume com apoio da Fapesp, em 2009 (esgotado na editora). Contudo, como é resultado de sua dissertação de mestrado, à quem interessar suas reflexões, segue o link do trabalho no repositório da Universidade Estadual de Campinas: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/282026.

Não sei exatamente que voz ouço, mas o impacto de Suor em mim bateu forte. Firme. Que pesem as críticas que o futuro faria ao menino grapiúna – críticas sempre existirão. Mas digo em alto e bom som, com voz rouca, querendo ser operário, nem que seja das palavras escritas, mal escritas, que vale a leitura, mas entristece o peito a leitura.

Entristece, pois como conversamos, a lógica – ilógica – permanece. Dominantes e dominados, o suor escorrendo pelo corpo, a crise sanitária, a falta de oportunidades, as mazelas: o Brasil. Que pese quem tente exaltar as belezas – axioma – naturais do nosso país, a ausência de catástrofes naturais, guerras (não há guerras em nosso solo?), contudo, a realidade é mais dura. Há catástrofes todos os dias, provocadas pelos conglomerados, pela vitória constante de uma minoria que mantém em cabrestos a maioria, numa ignorância panem et circenses. E a guerra?

A guerra é cotidiana, pela vida, pelo trabalho, dignidade, a guerra é para muitos, a vitória, infelizmente, para poucos.

Não sei se há rancor na minha voz, se é perceptível o rancor, diria quase ódio ao passado que como um mormaço se mantém firme, estático no presente. Há. Sim, há rancor, ódio. Não por alguém, algo. A não ser que se entenda o passado como alguma coisa sólida, o que não é: o passado é passado. O que odeio é que ele permanece imodificável no presente.

O suor pode emanar por diversos motivos dos nossos corpos: o sexo, o medo, o trabalho, a morte e a vida. O suor nos salga a pele e quando não, pode até nos deixar em carne viva, morta como carne seca a ser comida com feijão.

O suor, o cheiro predominante de suor, mijo, merda, feridas, tudo está presente no Suor escrito por um Jorge Amado que naquele momento ia cada vez mais se estabelecendo numa luta inglória.

A capa, a bela capa, num projeto sobre uma foto de Pierre Verger do Pelourinho, Salvador, Bahia, parece reafirmar o que lhes digo: o passado parece ter estancado como o mormaço que produz o pior tipo de suor, aquele que – parece – impregnara para sempre nossos corpos passados e futuros.

Saravá, Jorge Amado, obá de Xangô, filho e ogã de Oxóssi!


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Continuando na seara de Jorge Amado

 


Há menos de um mês conversamos – nós e mais não sei quem – sobre o livro Navegação de Cabotagem, cuja publicação original foi em 1992. Desde que li este livro algo me tocou profundamente. Evidente que a obra literária (e de vida) do escritor baiano, eterno menino grapiúna, habita no nosso imaginário, sejamos de onde formos.

Desde então quis caminhar, melhor, trilhar na minha maturidade ou quase maturidade – neste momento, não faz sequer um mês dos meus trinta e oito anos completos em julho passado – a obra completa de Jorge Amado por ordem cronológica. Não é um objetivo tácito, algo coach: não consegui, sou um derrotado, não me organizei. Com o perdão da erudição mesquitense, Baixada Fluminense, andanças pela Chatuba: foda-se! Se eu conseguir até o final do ano fechar a leitura da obra inteira, bom, se eu não conseguir, bom também. Livros são feitos para serem lidos. Sigamos, sou um moleque de apostos. Sinto muito.

Finalizei os dois primeiros romances, O país do carnaval, de 1931 e Cacau, publicado em 1933. Não espere muito de mim, não quero ser erudito – ao menos que seja a erudição mesquitense – tampouco conversar de maneira profunda sobre o conteúdo dos romances. Quem quiser que leia e torço para que haja condições para tal. Permaneço, sem que seja propaganda, defendendo as edições publicadas na ColeçãoJorge Amado, da editora Companhia das Letras – e que são as que estou adquirindo de pouquinho em pouquinho. Os posfácios presentes em cada livro são de envergonhar qualquer fala minha, pois são fantásticos, o de Cacau, por exemplo, escrito por José de Souza Martins é uma aula que eu gostaria de ter condições de ministrar como professor de História que sou de formação e ganha pão numa Universidade Pública Federal no lindo e forte Nordeste do Brasil (não o digo Universidade Pública Federal por pompa, mas por orgulho e defesa do Ensino Público e gratuito para todas e todos).

Docente titular aposentado de Sociologia na USP, José de Souza Martins, hoje com seus oitenta e dois anos vividos, sabe do que fala em seu texto sobre o romance Cacau. Oxalá, meu camarada Carlos de Oliveira Malaquias, professor de História Econômica no mesmo departamento que o meu na Universidade Federal de Sergipe e que neste segundo semestre de 2021 eu terei a honra de dividir disciplina na Pós-Graduação em História, concorde em encaixarmos esse romance no debate com as pós-graduandas e pós-graduandos em formação.

Com meu camarada Malaquias, mineiro de Curvelo, teço sempre ótimas prosas, no passado regadas a cerveja e tragos de cachaça, sobre a característica ainda tão rural do nosso país. Outro mineiro que se chegou na minha vida, este de Ponte Nova, terra do grande violonista e compositor João Bosco, parceiro maior do meu mestre Aldir Blanc, o Guilherme Queiroz de Souza, professor de História Medieval na Universidade Federal da Paraíba, também tem ouvido muito meus “causos” sobre a empreitada de ler toda obra do grapiúna. Parece que fiz uma trinca de mineiros na minha vida. Um triangulo mineiro – péssimo trocadilho –, mas me parece isso. Primeiro, meu velho irmão de trincheira, conversas pelo Brasil afora, de copo em riste e às vezes os dois taciturnos de cabeça baixa: Leandro Duarte Rust, professor de História Medieval na Universidade de Brasília, nascido em Teixeiras, menino do sopé que olhava o mundo e seu o tempo no horizonte. A ele se somam os dois acima. E a vida segue.

Acho que era para falar sobre O país do Carnaval (cujo posfácio é de José Castello) e sobre Cacau, os dois romances. Não o fiz. Apenas deixo no ar, como crônica que não é para ser lida. Mas os livros e seus posfácios, estes sim, devem ser degustados como boa pinga, boa conversa e abraço amigo e apertado. Aquele aconchego do forno à lenha no frio e o café preto sendo passado ali, assim, ao vivo. Nós vivos.

Sigamos. Inicio Suor, originalmente de 1934.

Até.