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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O velho Timimo

Quanto tempo faz eu não sei. Falar sozinho – para todo mundo é coisa de louco. Mas quanto tempo faz, eu não sei.

Sei pouco do que vem antes.

Filho de uma branca com um negro. Seu pai certamente foi filho de ex-escravos, tenho quase certeza, hei de pesquisar.

Altamiro Gonçalves nasceu na região de Vassouras, meu avô Timimo. Meu vovô Tamiro.

Não sei bem quando migraram à Nova Iguaçu, também não me importa muito. Só sei que ontem sonhei com o velho Timimo, sapateiro que em sua pequena oficina no fundo de uma casa de vila, na Estrada da Água Branca, em Realengo, eu crescia nos recessos escolares para o carnaval carioca vendo-o produzir com as mãos, botas, sapatos dos mais diversos para passistas que desfilariam pela Mocidade Independente de Padre Miguel. No decorrer do ano, sobretudo, julho, “descia” de trem com meus pais para visitá-lo e passar bons finais de semana tendo sua mão na minha, correndo feiras de passarinho aos domingos e sendo apresentado como seu neto nos mais diversos botequins da região, mas principalmente no Vila, onde comi pela primeira vez ovo rosa e bebi malzibier. Ainda hoje, se sorvo um copo de malzibier, sinto meu avô, sinto o cheiro da cola de sapateiro, o vejo envergado com seus cabelos lisos e negros, seus óculos com uma corda preta, seu martelinho e tachinhas batendo em formas de sapatos. Pés de madeira que eu olhava com um olhar curioso. Mas nunca cheguei muito perto da oficina: “o menino tem a saúde frágil, o cheiro de cola faz mal”. Como se o cheiro de cola não impregnasse toda a casa numa mistura do cheiro de feijão preto bem feito de minha avó.

Vi meu avô com curiós, conversando com outros donos de curiós nas feiras. Vi meu avô jogando sinuca, magro, ossudo, olhar sofrido, mas com um riso que ontem me visitou em sonho. Um riso meia boca de quem até quer ser feliz quando via que tinha feito uma jogada bonita na mesa, mas que sabia que a vida lhe foi sofrida e continuava a ser.

Contava histórias. Visitava bastante a casa da minha mãe e do meu pai no morro da Chalet. Morro, dos muitos lugares onde viveu, em que ele mesmo morou com minha mãe, tias, tios, minha avó, muito tempo antes da minha memória. Quando mamãe conheceu papai. Muito antes de todos vocês e de mim.

Visitava muito. Sentava-se no sofá, tinha o hábito de colocar uma das mãos na testa como um pensador em sofrimento, cruzar as pernas num requinte das antigas. Quando morreu, minha mãe o via em mim, no cruzar de pernas ao almoçar no braço do sofá da sala – nunca gostei de comer em mesa: Ou era sentado no chão com um lençol forrado ou no braço do sofá.

Quando minha avó morreu, morreu por dentro meu avô. Minha mãe enfermeira acompanhou as mortes e de outros parentes. Minha mãe entende de morte e sabe sofrer as mortes. Sabe sentir o morrer. À minha mãe eu depositei sem pesar ou remorso o desejo que se eu me for antes – pois alguém sempre vai – que não haja enterro, que meu corpo seja cremado. Igual a ela, meu fim é organizado, passo por passo, documento por documento, seguros por seguros, conta por conta a pagar aos meus credores. Mas que me cremem a pele, os cabelos, os ossos. Quero ser pó o mais rápido, sem vermes me comendo. Sem velório desgastando o tempo. À minha mãe confiei, pois meu pai é medroso e não gosta do assunto. Não que eu e mamãe gostemos, mas sabemos e vivemos. Por isso nos desentendemos nos entendimentos mais do que eu e meu pai. O amor entre uma mãe e um filho não é igual a de um pai e um filho. Minha mãe sabe do diário com a foto do Aldir Blanc e o João Bosco nos anos 70, em sépia, na capa, o diário que não é diário, que escrevo a mão e onde ele estará quando da hora da minha partida. E nele há o que se fazer. O que quero e desquero. E minha mãe respeitará e se ela se for antes, deixará claro que o que eu quero, deve ser respeitado, pois minha mãe entende de morte.

Mas quanto tempo faz eu não sei. Sei que quando minha avó morreu, meu avô morreu junto por dentro. O câncer que já existia e vivia dentro dele quis sua parte. As histórias continuavam debaixo de um pé de mangueira no quintal agradável da minha tia Síndia e meu tio Expedito, irmã de minha mãe e irmão de meu pai. Eu e o Gustavo nos sentávamos para ouvir: seus roubos de pães no período em que serviu o Exército, seu medo de armas, suas histórias com a sinuca. Meu tio comprou uma mesa para seu tempo passar mais tranquilo. A morte vinha. Meu tio é como meu pai, teme a morte mesmo sabendo que ela é uma cobrança que não se adia, não se parcela.

Eu e meu primo Gustavo não sabíamos bem, mas o vovô Tamiro, o vô Timimo estava cada vez mais magro, não tinha muita vontade de falar dos passarinhos, ensinar sobre as tacadas na sinuca que meu tio comprou para ele. O câncer ia lhe tomando mais, tirando o que achava por direito tomar. Pois o câncer é assim, ele é seu, mas no fundo você é dele. Vencer o que é seu é complicado. Quando se vence passamos a não ter medo de não ter medo. Ou o pior: passamos a ter medo de não ter medo de nada. Quanto tempo faz, eu não sei. Um dia converso sobre isso, mesmo que falando sozinho.

Meu avô está deitado, o visito no leito do antigo Hospital Iguaçu. O prédio ainda existe, fechado. Um prédio histórico. Ao menos um braço e uma perna engessei ali na adolescência de traquinagem. Um dia eu converso sobre isso, mesmo que falando sozinho. Já não fala, meu vô. Nem conta histórias de tempos passados.

Meu avô, eu sinto, e hoje sei, sabia e tinha medo da morte, não o medo de não ter medo, como eu tenho, como eu sinto.

Naquele dia do leito, do Hospital Iguaçu, de entrar e sair do fusca que meu pai tinha, eu não sabia, mas foi a última vez que o vi. Ele se despediu com os olhos. Faz tempo. Não fui ao enterro. Fiquei na casa da minha tia e do meu tio com o meu primo. Eu tomando conta dele, ele tomando conta de mim. Não havia muitos amigos. Como hoje também não há. Somos os dois o que somos. Distantes e reflexivos. Ontem sonhei com o velho Timimo. Queria que ele tivesse me visto formado em História. Ele gostava de história e de ler. E tinha muita história por trás dos aros dos seus óculos e muita coisa por baixo das mãos marcadas com cola de sapateiro. Ele me levou ao SASE de Realengo para engessar meu braço esquerdo quebrado, traquinagem boba de menino que brincava só e inventava amigos. Levou-me pela mão, fomos andando da casa de vila até o SASE, ele contando histórias, eu sentindo uma puta dor. Mas ele sorria um sorriso de canto de boa, um sorriso que queria ser feliz, mas sabia que a vida era sofrida.

Hoje beberei um copo de malzibier e brindarei sozinho ao velho Timimo, meu vovô Tamiro, quem sabe até sorrio de canto de boca. Pois eu sei, a vida. A vida...

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O suor que escorria e escorre pelas ladeiras do Brasil

 




Talvez dizer que lá vem o Brasil descendo a ladeira não seja mais um axioma – por sinal, palavra bonita: axioma.

O Brasil já desceu há alguns anos ladeiras e ladeiras e não com alegria como quis Os Novos Baianos na conhecida canção. Politicamente, faz tempo, somos um país pobre de consciência social e o modelo dominantes (minoria) exercendo poder sobre os dominados (maioria) se manteve e mantém.

Assim como meu gato Gregório, um bom vira-latas adotado, descansa sob meus pés, mas de quando em quando observa pela janela, as/os personagens do velho casarão na ladeira do Pelourinho, número 68, parecem em alguns momentos estanques frente a realidade mórbida: só parecem.

As mulheres, homens, crianças vão se movimentando como a própria paisagem, mesmo que tal movimento me cause angústias tremendas: O mormaço doía como socos de mãos ossudas. Invadia o sótão e as pessoas.

Mesmo os animais não escapam: O gato ficava espiando junto da porta. Se o mormaço estava muito forte, descia as escadas sem se importar com os ratos que fugiam. Deitava-se então na relva do quintal perto das lavadeiras. Rolava na grama, brincava com bolas de papel e levava pontapés das mulheres de quem sujava a roupa estendida no quaradouro. Quando o sol vinha descendo e as luzes apareciam, voltava para o sótão, entrava no quarto pelo buraco da porta e esperava, atento aos passos.

Publicado originalmente em 1934, Suor, é o terceiro livro de Jorge Amado. Na coleção que leva seu nome, publicada pela Editora Companhia das Letras tem posfácio assinado por Luiz Gustavo Freitas Rossi. Por sinal, belíssimo escrito do antropólogo que em seu currículo possui o pertinente livro As cores da revolução: a literatura de Jorge Amado nos anos 30, publicado pela editora Annablume com apoio da Fapesp, em 2009 (esgotado na editora). Contudo, como é resultado de sua dissertação de mestrado, à quem interessar suas reflexões, segue o link do trabalho no repositório da Universidade Estadual de Campinas: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/282026.

Não sei exatamente que voz ouço, mas o impacto de Suor em mim bateu forte. Firme. Que pesem as críticas que o futuro faria ao menino grapiúna – críticas sempre existirão. Mas digo em alto e bom som, com voz rouca, querendo ser operário, nem que seja das palavras escritas, mal escritas, que vale a leitura, mas entristece o peito a leitura.

Entristece, pois como conversamos, a lógica – ilógica – permanece. Dominantes e dominados, o suor escorrendo pelo corpo, a crise sanitária, a falta de oportunidades, as mazelas: o Brasil. Que pese quem tente exaltar as belezas – axioma – naturais do nosso país, a ausência de catástrofes naturais, guerras (não há guerras em nosso solo?), contudo, a realidade é mais dura. Há catástrofes todos os dias, provocadas pelos conglomerados, pela vitória constante de uma minoria que mantém em cabrestos a maioria, numa ignorância panem et circenses. E a guerra?

A guerra é cotidiana, pela vida, pelo trabalho, dignidade, a guerra é para muitos, a vitória, infelizmente, para poucos.

Não sei se há rancor na minha voz, se é perceptível o rancor, diria quase ódio ao passado que como um mormaço se mantém firme, estático no presente. Há. Sim, há rancor, ódio. Não por alguém, algo. A não ser que se entenda o passado como alguma coisa sólida, o que não é: o passado é passado. O que odeio é que ele permanece imodificável no presente.

O suor pode emanar por diversos motivos dos nossos corpos: o sexo, o medo, o trabalho, a morte e a vida. O suor nos salga a pele e quando não, pode até nos deixar em carne viva, morta como carne seca a ser comida com feijão.

O suor, o cheiro predominante de suor, mijo, merda, feridas, tudo está presente no Suor escrito por um Jorge Amado que naquele momento ia cada vez mais se estabelecendo numa luta inglória.

A capa, a bela capa, num projeto sobre uma foto de Pierre Verger do Pelourinho, Salvador, Bahia, parece reafirmar o que lhes digo: o passado parece ter estancado como o mormaço que produz o pior tipo de suor, aquele que – parece – impregnara para sempre nossos corpos passados e futuros.

Saravá, Jorge Amado, obá de Xangô, filho e ogã de Oxóssi!


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Continuando na seara de Jorge Amado

 


Há menos de um mês conversamos – nós e mais não sei quem – sobre o livro Navegação de Cabotagem, cuja publicação original foi em 1992. Desde que li este livro algo me tocou profundamente. Evidente que a obra literária (e de vida) do escritor baiano, eterno menino grapiúna, habita no nosso imaginário, sejamos de onde formos.

Desde então quis caminhar, melhor, trilhar na minha maturidade ou quase maturidade – neste momento, não faz sequer um mês dos meus trinta e oito anos completos em julho passado – a obra completa de Jorge Amado por ordem cronológica. Não é um objetivo tácito, algo coach: não consegui, sou um derrotado, não me organizei. Com o perdão da erudição mesquitense, Baixada Fluminense, andanças pela Chatuba: foda-se! Se eu conseguir até o final do ano fechar a leitura da obra inteira, bom, se eu não conseguir, bom também. Livros são feitos para serem lidos. Sigamos, sou um moleque de apostos. Sinto muito.

Finalizei os dois primeiros romances, O país do carnaval, de 1931 e Cacau, publicado em 1933. Não espere muito de mim, não quero ser erudito – ao menos que seja a erudição mesquitense – tampouco conversar de maneira profunda sobre o conteúdo dos romances. Quem quiser que leia e torço para que haja condições para tal. Permaneço, sem que seja propaganda, defendendo as edições publicadas na ColeçãoJorge Amado, da editora Companhia das Letras – e que são as que estou adquirindo de pouquinho em pouquinho. Os posfácios presentes em cada livro são de envergonhar qualquer fala minha, pois são fantásticos, o de Cacau, por exemplo, escrito por José de Souza Martins é uma aula que eu gostaria de ter condições de ministrar como professor de História que sou de formação e ganha pão numa Universidade Pública Federal no lindo e forte Nordeste do Brasil (não o digo Universidade Pública Federal por pompa, mas por orgulho e defesa do Ensino Público e gratuito para todas e todos).

Docente titular aposentado de Sociologia na USP, José de Souza Martins, hoje com seus oitenta e dois anos vividos, sabe do que fala em seu texto sobre o romance Cacau. Oxalá, meu camarada Carlos de Oliveira Malaquias, professor de História Econômica no mesmo departamento que o meu na Universidade Federal de Sergipe e que neste segundo semestre de 2021 eu terei a honra de dividir disciplina na Pós-Graduação em História, concorde em encaixarmos esse romance no debate com as pós-graduandas e pós-graduandos em formação.

Com meu camarada Malaquias, mineiro de Curvelo, teço sempre ótimas prosas, no passado regadas a cerveja e tragos de cachaça, sobre a característica ainda tão rural do nosso país. Outro mineiro que se chegou na minha vida, este de Ponte Nova, terra do grande violonista e compositor João Bosco, parceiro maior do meu mestre Aldir Blanc, o Guilherme Queiroz de Souza, professor de História Medieval na Universidade Federal da Paraíba, também tem ouvido muito meus “causos” sobre a empreitada de ler toda obra do grapiúna. Parece que fiz uma trinca de mineiros na minha vida. Um triangulo mineiro – péssimo trocadilho –, mas me parece isso. Primeiro, meu velho irmão de trincheira, conversas pelo Brasil afora, de copo em riste e às vezes os dois taciturnos de cabeça baixa: Leandro Duarte Rust, professor de História Medieval na Universidade de Brasília, nascido em Teixeiras, menino do sopé que olhava o mundo e seu o tempo no horizonte. A ele se somam os dois acima. E a vida segue.

Acho que era para falar sobre O país do Carnaval (cujo posfácio é de José Castello) e sobre Cacau, os dois romances. Não o fiz. Apenas deixo no ar, como crônica que não é para ser lida. Mas os livros e seus posfácios, estes sim, devem ser degustados como boa pinga, boa conversa e abraço amigo e apertado. Aquele aconchego do forno à lenha no frio e o café preto sendo passado ali, assim, ao vivo. Nós vivos.

Sigamos. Inicio Suor, originalmente de 1934.

Até.


quinta-feira, 20 de maio de 2021

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos


 
Chove. 06:00AM. Ponto. Estou quase terminando os diários do compositor e cantor estadunidense Kurt Cobain. 06:00AM em ponto, tive insônia. Para dormir ou tentar me acolher nos braços de Morfeu resolvo ouvir dois cds que me foram muito importantes, os dois do percussionista, compositor e cantor (e às vezes ator de cinema) pernambucano Otto: “Samba pra Burro” (1998) e “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” (2009).

Em meio a madrugada chuvosa, o ar-condicionado sempre em 20 ºC, enviei uma mensagem de texto compartilhando a canção “Bob”, faixa 1 do cd de 1998 para meu primo Gustavo Gonçalves Alvaro, no Rio de Janeiro. Prontamente, o que é raro, ele respondeu: “Caralho, moleque, estava ouvindo esse cd anteontem”. De fato, em meados da década de 2000, íamos muito, ele, eu e mais gente e pelas madrugadas nos sentávamos no fim da tarde na praia de Copacabana. Copacabana assim como a Avenida Paulista: nunca dorme. Nós também não dormíamos.


Clipe da música "Bob"


As músicas terminaram, o sono não veio. Os remédios devidamente tomados. Seria talvez alguma ansiedade? O impacto da letra manuscrita de Kurt Cobain em inglês escaneada de um lado e suas impressões angustiantes sobre si e o mundo postos em minha língua materna? Lembrei do cd de 2009 do Otto. Ainda de fones de ouvido o coloquei para tocar, como o ouviria mais tarde ou agora enquanto vocês me ouvem quando acabei de pedalar dentro de um quarto pequeno em minha bicicleta com pneus slicks aros 26. Caminho – não de um lado para o outro, não chego a tanto – inevitavelmente por corredores de minha própria mente e busco lá no fundo, não que eu não soubesse, que não fosse conduzido como numa hipnose, já que eu havia escutado recentemente, e ouço como fã de carteirinha, o programa do Canal Brasil e também transformado em podcast “O Som do Vinil” com o ex-baterista do Titãs e pesquisador musical Charles Gavin, sua conversa com o Otto sobre o cd de 2009 e o impacto que essa obra artística teve (não vejo outra expressão)... Enfim, o próprio Otto deixa claro, o título do disco faz referência ao livro “A metamorfose”, de Franz Kafka (Link do Episódio no Spotify).


Gosto muito da edição que tenho traduzida pelo Modesto Carone, cuja edição publicada pela Companhia das Letras data de 1997. Em sua 22ª reimpressão, de 2009, já amarela na estante e tirei a poeira para deixar como posfácio ao que vocês não ouvem as frases kafkianas iniciais do livro e a primeira vez que se ouve a voz de Gregor Samsa na narrativa (p. 7):

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas uras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.

– O que aconteceu comigo? – pensou.

Não era um sonho. Seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas.”
 
Obs. Mantive tranquilo grafado como publicado na edição que tenho em mão, naquela altura o famoso acordo da língua portuguesa ainda não havia sido assinado. Linguiça era lingüiça, tanto quanto tranqüilos se mantinham os porcos que hoje continuam tranquilos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O corpo estendido no chão

Acordei suado. Não tanto pelo calor, mas pela lembrança que ativou meu instinto de querer conversar com alguém. Aquela vontade insana de desabafar e falar desenfreadamente como bêbado. Molhar a mesa, deixar derramar o chope, abraçar o garçom. Quase uma epifania de fim de carnaval ou o gol de barriga do Renato Gaúcho no final do Estadual. Salve o futebol.

Não sei ao certo o ano ou a data. Mas, posso dizer com certeza que era sábado, final de inverno. Certeza, sem dó!

Sábado, o pai me levava religiosamente para a Vila Emil para eu jogar futebol no Barraquinho, time de moleques oriundo do Barracão. Camisas listradas, vermelho e branco vertical, shorts e meiões brancos ou vermelhos. Praticamente o uniforme do Bangu F.C. O Barracão era um tradicional time do morro que rivalizava com o Verona, time do meu pai, camisas com listras pretas e amarelas verticais, calção preto e meiões amarelos ou pretos. O couro comia.

Era o cheiro forte de couro que marcava minha bolsa de carregar chuteira, cheiro de sebo de carne de boi e couro. E sei que era final de inverno, pois as manhãs em Mesquita ainda eram um pouco frias e aos poucos o sol ia esquentando, formando nos matos do quintal um suadouro bonito, o orvalho da noite anterior se dissipando, assim também era na grama que coçava as pernas onde a gente jogava e sujava a bunda no chão escorregando ao tentar correr.

Daquele sábado, eu pouco me lembro da partida. Se o Barraquinho ganhou, se o Cizinho, o treinador do time, me deixou jogar os dois tempos. Mas sei que atuei na lateral direita, pois era difícil competir com o Tato (um dia falo sobre ele), se marquei bem, dominei bola, fui um atleta mirim elegante, só o tempo dirá. Acho pouco provável.

Só sei dizer que logo de manhã o que me fez hoje acordar um tanto mais suado que de costume e ofegante, por sinal. Me sentar na beira da cama e me olhar no espelho, vinte anos depois daquele sábado, daquele jogo, daquele final de inverno, foram uns cabelos negros e suavemente cacheados, um short jeans com dois três botões sendo o último da cintura aberto – moda entre algumas meninas dos anos 90 –, um tope escuro e uma leve brisa que subia do seu corpo estendido no chão. Uma faixa de sangue escorria por algum lugar que eu não tive muita coragem de observar. Mas ouço bem a voz firme do meu pai dizendo que tinha pouco tempo que estava morta, pois o sangue ainda exalava calor e a manhãzinha fria que aos poucos ia recebendo o calor do sol criava aquele fenômeno que ele não sabia o nome e eu ainda hoje não sei e se sei esqueci, pois pouco importa para nós.

O corpo estava lá estendido, poucos metros entre a lateral e a linha de fundo das traves do gol. Quase no escanteio. Ficou lá, em escanteio. Meu pai finalizou o tento, quase como um legista da Civil: Deve ter morrido por volta das seis, seis e meia... Eram sete e pouca da manhã.

O dia corria, eu me vesti, calcei os meiões e as chuteiras. Lateral direita. Tenho certeza. Numa disputa de bola com um menino maior e mais forte do que eu – não era difícil existirem meninos maiores e mais fortes que eu – tomei um tronco no ombro a ombro e caí na linha de fundo. Lateral esquerda do meu oponente. Eu canhoto, isso desequilibrava o time adversário sempre, hoje eu entendo o velho Cizinho com o cigarro nos dedos e o copo de cerveja na outra mão. Até meu pai sabia da coisa. Porém, naquele dia quem se desarmou fui eu. Eu no chão, olhos fechados da queda e vinte anos depois, volta e meia quando abro os mesmos olhos de menino revejo aquela garota deitada de barriga para cima, cabeça para o lado olhando para mim já sem vida, já sem sonhos. E era só mais um corpo estendido no chão que só foi retirado pelo rabecão na metade do primeiro tempo.


No intervalo da partida, o Bicho da goiaba, que conhecia todas as informações sobre os mortos em Mesquita e região, contou que ela havia sido morta por ter passado informações para os traficantes da boca de fumo rival da região. O Bicho da goiaba era praticamente o Jornal O Povo ambulante, se se vestisse de rosa e tivesse tatuagens com letras pretas de fato pareceria as páginas com os corpos furados de bala das capas do conhecido jornal. Não havia nome, identidade e jamais haverá: foi apenas mais um corpo estendido no chão, o primeiro que eu vi tão de perto e que carregarei comigo para sempre.

sábado, 13 de agosto de 2016

A razão da loucura

Mercado Governador Albano Franco - Aracaju-SE

Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe mais o mangue
(Aracaju - Tomás Improta - Vinícius Cantuária - Caetano Veloso - 1979)

Tenho por costume me levantar um pouco mais tarde nos finais de semana, algo entre às 7:30 e 8:30, por aí. Pego o carro e religiosamente vou aos Mercados Centrais de Aracaju. Não sei, mas o vozerio, a agitação, o vento que vem do rio, o céu azul... tudo isso, e alguma coisa a mais, me faz ter uma sensação boa de vida.

Acredito piamente que nós brasileiros nascemos com uma desigualdade nas pernas muito grande e que se reflete de forma muito evidente no trânsito: um pé muito pesado para o acelerador e o outro muito lento para o freio.
É meio provinciano ou local isso, um exemplo muito específico, eu sei, porém, todos sabem que para sair andando do estacionamento próximo ao Terminal Mercado (o dos ônibus) e atravessar a estreita rua que dá para o espaço de pescados ou o das carnes do Mercado Governador Albano Franco é necessário um balé acrobático. Um equilíbrio extremo, quase passos certeiros de valsa para nos desviarmos dos carros e motos que parecem ter um prazer extremo em ver os pedestres suados sob sol quente de Sergipe, afoitos na tentativa de chegar até o  primeiro Mercado.
Não sou um bom bailarino. Dois pra lá, dois prá cá.
E hoje, não diferente dos outros finais de semana, quase fui pego por um Siena fire prata, quatro portas, placa de Aracaju e tendo um senhor um pouco calvo, cabelos brancos e camiseta como condutor. Acho que ele estava com uma sede tremenda, um ódio tamanho para acertar as contas com alguém – ou ele é assim mesmo – pois quando tentei atravessar à frente do seu objeto de poder, aquilo que o torna um individuo diferente dos caminhantes, ele acelerou mais e quase me pegou. Curiosamente, fui salvo pela fidalguia de um motociclista que parou o trânsito da “segunda faixa” – não sei bem se existem faixas ali.
Em meio ao caos cotidiano, ainda pude ouvir um “filho da puta!” em brados retumbantes do motorista! Pensei comigo, poxa nem um “filho do cabrunco... foi filho da puta mesmo!”. Vida que segue e a minha seguiu.
Fiz o que sempre faço, passei na mesma banca, com o mesmo moço e pedi uma água de coco, trocamos uma ideia e ele fez a mesma piada dos outros tantos finais de semana: “Já se protegendo pra cerveja da tarde!”. Eu sempre sorrio e balanço a cabeça.
Fui no mesmo vendedor de queijo coalho dos sete anos em que vivo em Sergipe. Conversamos sobre a mesma coisa dos últimos cinco e depois enfrentei as calçadas justas e abarrotadas para comprar um filtro d’água. Na volta, de fato, tomei uma cerveja e comi um caldo de mocotó no segundo Mercado, enquanto os chorões afinavam os instrumentos. Fiquei pouco ali.
No vendedor ervas, bati um papo e comprei um capim santo pro bichano e, de costume, atravessei o que eu chamo de Paço, onde fazem os tradicionais forrós de junho. Tudo muito cansativo para que você me ouça, eu sei. Mas a alguns metros de entrar no primeiro Mercado, o das frutas, o dos pescados... aquele em que tempos atrás quase virei parte de asfalto. Ouço uma voz firme, grosseira, me questionando de forma intimidadora: “Você é maluco é?”.
Nesse momento minha educação tipicamente da Baixada Fluminense surgiu como um sentido de Aranha prevendo o perigo. Continuei em passos normais. “VOCÊ É MALUCO, PORRA? ESTOU FALANDO COM VOCÊ!”. A coisa ficou séria.
Parei. Tiro nas costas se não matar aleija.
Olhei firme, porém tranquilo. “VOCÊ É MALUCO, QUER MORRER?”. Ah, a didática do trânsito. A didática do motorista cheio de razão que não leu a cartilha do DETRAN.
Frações de segundo serão transpostas em palavras para você, afinal, a mente humana funciona de maneira muito curiosa e um segundo realmente pode parecer uma eternidade quando tentamos relembrar e concretizar a memória em palavras. Então me dê sua mão e vamos juntos para dentro da minha cabeça naquele instante que agora se eterniza entre nós dois:
Se eu responder que não sou maluco darei razão a ele para converter a violência verbal em violência física, violência evidente para mim, mas evidentemente natural e correta para ele. Eu continuava olhando, se houvesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa. Se eu continuar calado, no máximo ficarei ouvindo mais alguns impropérios desse idoso, mau motorista, mau cidadão, arrogante e que deve ter uma vida fodida, tratar mal seus filhos, mulher. Posso mandá-lo tomar no olho do cu, se danar. Mas isso lhe dará razão para partir para cima de mim. Bater em velho é uma puta sacanagem. Porém também posso apanhar. Puta sacanagem. Ele pode estar armado, pode me matar e ele já quase me matou. Eu continuava olhando para ele, se eu tivesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa, isso só alguns loucos passivos têm. Preciso ser racional. Ficarei parado olhando para ele, sem rir, sem me mexer, a não ser que ele avance. Posso me desviar. Pensei também, confesso, se ele partisse para cima de mim: Posso dar na cabeça dele com a parte de terra da muda de capim santo, o filtro não serve. Não! Vou destruir a muda, destruir o filtro. Fiquei parado, olhando para ele.
“VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA NÃO É? ÔXE! É MALUCO MESMO ESSA PRAGA. NÃO DEVIA TÁ SOLTO POR AÍ NÃO, PODIA TÁ AGRADINDO ALGUÉM. AÍ ATRAVESSA ASSIM DESEMBESTADO. E ESSAS MARCA AÍ NO BRAÇO? É COLEIRA? É MACUMBA?”. Eu parado, olhando. Nós dois, talvez, os únicos no mundo. O tempo parado. Entre o centro e a periferia do Paço. Ele, sei lá de onde. Eu de um morro da Baixada Fluminense. Me equilibrando entre o bem e o mal. Meu silêncio, minha segurança. A voz dos meus pais dizendo na infância que quem anda com porco farelo come. Você tem que estudar. Estudar te fará uma pessoa melhor. Minha mãe na última semana aconselhando: você anda irritadiço. Precisa ser mais calmo. Pode surtar a qualquer momento. Eu chorando ao telefone. Minha mãe me aconselhando. E eu parado ouvindo aquele senhor bradando com dedo em riste que eu era maluco. Louco de pedra. Irracional. Eu. Ele. Nós. Eu pensando isso tudo. Um minuto, talvez. Esse foi o tempo. Talvez. A voz dele amansou. Me chamou de filho. Perguntou onde estavam meus pais. Afinal, eu era um louco, um maluco. Aconselhou que eu não devia ficar perambulando pelo Centro de Aracaju. Aconselhou o caralho, me deu foi bronca. “O Centro é perigoso” ele disse. “Vai, vai. Vai tomar seu ônibus. Vai pra casa!”. Não esbocei palavras durante aquele um minuto, um minuto e meio, realmente não sei medir o tempo. Continuei caminhando, o cheiro bom do capim santo. O vozerio novamente, as mesmas piadas, os abanos de cabeça. O moço dos ovos capoeira. A tia das lambretas. Os cheiros. Sorri. Não olhei para trás. Sorri. Estou ficando mais calmo. Menos irritado como minha mãe aconselhou. Não vou surtar, precisar de remédios, falar com profissionais. Eu terei sempre os Mercados Centrais.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

O louco da bicicleta




I’ve got a bike you can ride it if you like
Syd Barrett, 1967

Eu sei que o momento é cuidadoso. Pautas mais importantes preenchem nossa mente e seus parágrafos microscopicamente são analisados pelos nossos olhos. Porém, me permito um momento de distração nessa noite chuvosa em Aracaju e que está me remetendo à minha velha Mesquita...
Às favas! Na verdade, comentar política se tornou uma variável muito difícil de traçar. E como minha garganta está coçando faz uns dias, querendo imitar alguma voz, emitir algum som, decidi mudar um pouco o tom e cantar uma melodia que conheço bem.
Atualmente, um dos muitos – e descontroláveis – problemas, presentes no cotidiano das grandes às pequenas capitais mundiais, diz respeito à mobilidade urbana. O número de carros, por exemplo, numa pequena capital como Aracaju, praticamente triplicou nos últimos anos. No nosso caso, isso deve ser somado a um transporte público deficitário, sucateado, ruas totalmente incapazes de receber todo o fluxo de motos, ônibus e carros e, claro, uma triste cultura capitalista de bens: Ter um carro bacana, do ano, expressa seu sucesso. O trânsito por aqui, não devia, mas é um caos desordenado entre a falta de educação, típica dos motoristas brasileiros, e ausência de espaço para todos.
Para não ficarmos correndo o risco de nos prender ao local e eu correr um sério risco de ser taxado como preconceituoso, tomem nota: mesmo uma cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, como Mesquita, na Baixada Fluminense, serviria como exemplo categórico do que estou tentando afinar com essa voz um tanto rouca. Ter um carro ou moto por lá expõe a linha tênue entre “necessidade” e “status”. Têm-se sucesso se não precisa pegar um trem, ônibus ou andar de bicicleta!
De fato, a questão é que no Brasil há um grande atraso que, se observado frente aos seus vizinhos mais próximos e grande parte do continente Americano e Europeu, podemos dizer, é até um retrocesso na possibilidade de avanço – vide todas as manifestações contrárias ao movimento de ciclovias, ciclofaixas e ciclorotas na cidade de São Paulo.
Ok, a esse último exemplo devemos juntar a ojeriza pela sigla partidária do atual prefeito da capital paulista que motiva, inclusive, agressões das mais esdrúxulas contra os ciclistas. De todo modo, vale um exercício lógico, sem vestir vermelho ou amarelo: No Brasil, tentou-se resolver o problema da primeira crise econômica, ou a possibilidade de sua chegada ao continente tupiniquim, através do consumo frente produção. Os carros, com seus ridículos IPI’s reduzidos – não quero entrar aqui numa complexa análise do quanto somos lesados pelas multimilionárias fabricantes de automóveis no nosso país e o quanto de impostos pagamos por um carro “popular” – foram o principal bem de consumo adquirido no projeto petista daquele período. A diferença frente os governos anteriores é que a renda, de fato, passou a ser melhor distribuída, principalmente, entre aqueles que estavam à margem mas que, claro, não puderam e ainda não podem comprar um carro.
Um exemplo confiável, que essa relação consumo produção, no nível de automóveis, se limita, sobretudo, à classe média: nos últimos anos, com exceção de dois ou três vizinhos (e eu), todo o meu condomínio trocou de carro. Levando em consideração que são duas torres, com doze andares e cada um deles com quatro apartamentos, tendo algumas famílias mais de um carro e moto, faça suas contas.
A coisa toda, já sabemos, desandou. Hoje, o número de endividados na classe média, seja a mais nova ou a tradicional, é exorbitante. Tanto que numa primeira leva de crise (política) foi ela quem ocupou majoritariamente as ruas e gritou, ignorando sua manipulação via TV e Jornais, Igrejas Neopentecostais e os mesmos partidos de direita de sempre: Fora Dilma! Fora PT! O golpe foi escancarado, as panelas se silenciaram, as camisas da Seleção Canarinho voltaram para as gavetas com naftalina e hoje as dívidas se mantêm. Mais uma vez, a história, que não deveria se repetir, segundo Marx, se repete: a classe média tradicional, e a reboque a nova, entrou pelo cano. O que isso está relacionado com mobilidade urbana e, claro, minha relação pessoal com a bicicleta?

Mas louco é quem me diz que não é feliz
Confesso que do meu escritório posso ver um fio de paisagem que sei que guarda o mar lá no fundo. O bom é que o constante céu azul da minha cidade me ilude que entre nuvens e carcarás, o que eu vejo na verdade é o imenso mar.
Ao mesmo tempo, posso ver também a chuva que vem fina da orla, se misturando às nuvens, acinzentando o azul...
Quando criança em Mesquita, eu fazia tudo de bicicleta: escola, padaria, ir para o campo de futebol, igreja, aula de música, casa dos amigos... Não havia uma rua, ladeira ou encruzilhada em que eu e minha Monark não tivéssemos ido. Dos 11 aos 18 anos era assim que eu me locomovia. Não havia na cidade ciclofaixa, ciclovia, nada disso. Era meio fio e pulando calçada quando dava. Uma vez fui atropelado indo para a escola, numa rua pacata, atrás do antigo Hospital São José. Fui socorrido pelo próprio médico que me atropelou, não sofri um arranhão.
Vim morar em Aracaju por motivos de concurso público, em 2009, e a primeira coisa que me disseram foi: compre um carro, o transporte público aqui é muito ruim. Realmente, era uma loucura terminar as aulas às 22:30 e pegar o ônibus no campus sei lá que horas.
De qualquer maneira, foram as ciclovias – não, eu não comprei um carro, mas ganhei um do meu pai – que mais me chamaram atenção. Vindo da Baixada Fluminense, aquilo era quase um sentimento de me ver criança em Paquetá nas férias de fim de ano. E Aracaju tem isso, tem esse misto de cidade pequena com o caos urbano. Mas, é recheada de ciclovias e ser ciclista aqui, andar de bicicleta aqui – tirando os dias de chuva – não é um exotismo e há até reconhecimento nisso.
Quando vi a chuva de hoje e meus afazeres completos, desci com a bicicleta sem pensar duas vezes. No térreo, só pude ouvir um cochichar de alguém quando saí do condomínio: lá vai o louco da bicicleta. Sorri.
Enquanto o vento e a chuva banhavam meu corpo, minhas pernas se molhavam nas poças e os pneus deslizavam no asfalto, a sensação que eu tinha ao ver as pessoas se escondendo nas marquises, nos pontos de ônibus, era de olhares que diziam: lá vai o louco da bicicleta.
Depois me dei conta que não era preconceito ou reprovação, mas uma reação ao meu sorriso bobo, apesar do corpo encharcado e imundo de lama. Sorri novamente.
O fato é que a cidade parou, não por mim. Mas graças a chuva, as ruas alagaram, carros pararam, se chocaram nas esquinas. Ao meu lado nas ciclovias, trabalhadores voltando da lida com suas capas, certamente, mais sérios do que eu, mais responsáveis que eu, mas não menos compenetrados em seus pensamentos do que eu.
A música soava nos meus fones – talvez, eu nem precisaria dela –, cada piscada era um flash.
Eu disse certa vez e não volto atrás, que ao andar de bicicleta me surge uma crônica por cada cruzamento e sinal fechado, cada cheiro que eu sinto. Para as prostitutas nas esquinas que deságuam a orla, para os travestis da Ivo do Prado, para os maconheiros da pracinha, para as crianças nos brinquedos, para o pessoal do cooper e da caminhada, para mim.
Ao mesmo tempo em que tudo me era alegria e molecagem, pensei muito na mobilidade urbana e no quanto o Brasil perde nas suas idas e vindas consumistas. Não se trata de ser “bicho grilo” ou “novo hippie”. Como eu disse, tenho um carro, uso o carro e entendo bem a necessidade de todos os que veem no veículo conforto e comodidade. Mas é fato consumado que a bicicleta é mais barata e faz muito melhor a saúde que o frenesi do trânsito cotidiano.
O que eu quero dizer, é que não havendo extrema necessidade, deixo o carro de lado, aliás, me coço aguardando essa oportunidade.
Não me lembro quando, mas uma vez assisti uma entrevista de um músico paulistano chamado Curumin. Nela, ele falava sobre uma composição sua intitulada Magrela Fever. Eu já tinha o cd (Japa Pop Show) e, evidentemente, gostava imensamente da música em questão. Porém, quando ele explicou os motivos da canção, confesso que ela se sacramentou como uma oração diária que antecede cada vez que monto na minha bicicleta e saio pelas ruas da cidade, seja para passear, me distrair ou ir para o trabalho. Se você me permite, transcrevo a fala:
Magrela Fever é uma música que eu fiz. É que eu gosto muito de andar de bicicleta, gostava muito de andar de bicicleta na cidade. Assim... Em São Paulo... Num certo ponto, a gente começa a procurar alternativas para escapar da loucura das ruas, né?, do trânsito e tal. E foi uma alternativa que eu achei e que além de me fazer bem, assim, de andar, de poder andar de bicicleta, eu fugia desse trânsito maluco. Então eu estava tão feliz por conta disso, de ter descoberto isso daí, que eu podia fazer percursos longos, ir pra casa, pro trabalho, voltar, ir pro estúdio de bicicleta, que daí eu fiz essa música aqui.
Curumin, em cada verso, cada frase, conseguiu expressar o sentimento tão profundo que é o de se sentir, simplesmente: livre ao pedalar. Pode parecer loucura, mas não é.
E ainda hoje, para muita gente desatualizada, a liberdade é uma loucura... Não para mim e, pelo visto, nem para ele.

Axé, Curumin!

Magrela Fever:

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Alguém lembrou do Escovinha (ou ossatura da memória)



Estou no mesmo quarto onde tantas outras vezes estive – aliás, temo dizer que daqui é que um dia tudo partiu em vozes, gestos transmutados em palavras.

Cada um se depara com suas memórias de maneira ímpar, praticamente, única. Seja um velho perfume que remeterá à infância, seja um som de um pássaro qualquer. A questão é o que tiramos, cada um de nós, de tais lembranças. Sejam elas nostálgicas ou não.
Na verdade, a bem da verdade, devo dizer que não sei bem definir o que há em mim de nostalgia, saudade, memória ou lembrança. Já quando percorríamos na quinta-feira à noite as ruas da velha cidade da minha meninice, as cadeiras na rua, as crianças desnudas e descalças nas calçadas com narizes escorrendo ou mesmo os chinelos demarcando o gol a gol interrompido pela passagem do carro... já nisso eu me perdia na ausência de definição. E digo mais, mesmo as luzes, as muitas luzes que eu via quando do avião se aproximando no Galeão, as luzes rompendo a escuridão do céu, mesmo isso, eu não saberia definir o que significou para mim.

O certo é que isso tudo já estava preparado desde a partida, o que me resta é entender qual das minhas muitas partidas me refiro.
E veja bem: não é um diário. Mas, espero que você possa me ouvir, até mesmo o cheiro forte da minha respiração ou o som rouco da minha voz, a força que faço para tossir. É necessário que me ouça bem devagar, com bastante atenção. Coisa que eu nunca solicitei. Mas, hoje eu te peço.
Neste mesmo quarto, que pouco mudou, a não ser minha ausência física, escrevi artigos, uma dissertação, varei madrugadas a finco com crônicas, poesias, historietas bobas que nem sei mais por onde andam. Aqui neste quarto quase cultivei o afã de achar que a palavra me libertaria um dia. Daqui me aventurei pela primeira vez à opinar sobre algo e que foi publicado no extinto Tramela da gravadora Trama. 

Daqui conheci o mundo de uma maneira um tanto singular, mesmo que o futebol aos domingos, a conversa no portão e as caminhadas no quintal com meu pai ainda fossem mais interessantes.

Mas se trata de memória e a memória pode ser um osso mal restaurado. Uma fratura que ainda persiste em doer em tempos nebulosos e de frio.

É disso que se trata e, talvez, será sempre sobre isso que cada voz sacramentada a não ser escutada no mundo, mesmo um mundo pequeno, seja conduzida mal e porcamente por um ventríloquo.

No calor profundo e seco da cidade, enquanto com passos curtos eu descia o morro de tantas e tantas outras descidas, já quase na avenida principal, vi uma pichação que marcou profundamente toda a minha recém estadia quase findada: P/ Escovinha 14 anos de saudades.

Almocei no centro da jovem cidade, passei no boteco tradicional e voltei com mesmos passos lentos e curtos e pensativos ainda na pichação do muro: P/ Escovinha 14 anos de saudades.



As árvores foram cortadas, o calor aumentou, mas a sujeira e o asfalto eram os mesmos. O local em que ele foi assassinado, uma vila de casas, foi, há muito, derrubada para transformar-se no estacionamento de uma igreja evangélica pentecostal, em cuja escola administrada por ela, inclusive, lecionei um breve período.

Se me perguntarem quem foi o Escovinha, tenho algumas lembranças e histórias engraçadas e que me remetem a um profundo apego ao passado no morro e de como a minha própria vida era um emaranhado exótico de vivências. Nunca soube (ou soubemos todos) o seu nome. Nem sua idade, profissão, filiação. Era o Escovinha. Magro, franzino e alto. Cabelos muito crespos e sempre raspados a máquina, arcada dentária desregular... puro osso e falava fanho.

Sabia meu nome graças a uma escola particular que eu frequentei para crianças no bairro da Coréia, em Mesquita, e nunca esqueceu. O uniforme azul quadriculado carregava Bruno no peito, pintado com tinta para tecidos. Sempre que mamãe subia comigo o morro, Escovinha sorria e dizia: Coé Bruno! Minha mãe retrucava: Fala Bruninho: e aí?

Os anos se passaram, eu cresci, Escovinha mais que eu. Ele morava onde a urbanização e o saneamento haviam chegado, no pé do morro, não era asfalto, eram aqueles antigos paralelepípedos que quase não vemos mais.

Recordo dele vir jogar bola no campinho com os adultos um pouco mais velhos do que ele. Das histórias que ouvíamos das suas atuações nos bailes funks do Mesquita ou do Tênis Clube. O quanto ele batia, mesmo sendo franzino e com cara de lerdo. Escovinha era o falso otário. Tinha unhas grandes que lanhavam a cara dos “inimigos”.

Certa vez, numa noite quente de sábado, provavelmente era sábado, pois papai me deixou ficar um pouco mais na rua, ouvíamos Antena 1, a Light FM do Rio, num micro system que eu ganhei de presente e que funcionava com pilhas. As pilhas comprávamos no rateio, cada um conseguia sua parte como podia – uns vendiam lata, outros pediam para seus pais, outros roubavam. Um aposto necessário: Este rádio, que não tenho mais, levou uma pedrada, não sei o motivo, do Joel Cachaça que, acredito eu, mirava num dos moleques que estava ouvindo comigo. O Joel era um cara bacana, um bom pedreiro que, inclusive, quando saí muitos anos depois do meu período de Marinha, trabalhei como ajudante numa obra de fábrica próximo a Rio Sampa (uma antiga casa de shows na Via Dutra). As aventuras do Joel Cachaça me renderiam ótimas prosas por aqui também. Mas, a memória é seleção. Voltemos ao Escovinha.

Na noite a que me referia, Escovinha chegou cabisbaixo e se sentou na roda de meninos na parte gramada daquilo que chamávamos campinho. O som tocava baixo e ele em silêncio. Dita hora, alguém soltou: Qual é, Escovinha, o que manda?

O Escova havia arrumado uma namorada num baile de favela e na sexta-feira anterior havia ido pela primeira vez ao motel com ela. Até aí, a molecada, incluindo eu, ficou ouriçada em ouvir uma aventura sexual que muitos de nós só teríamos muitos anos depois. Enfeita para cá, enfeita para lá... Escovinha decreta: Não rolou. Quando tiramos a roupa. Não rolou. Não ia rolar mesmo! Um amigo mais velho questionou: Por que?

Era macho! A mina era macho!
Cada menino da rua questionou frente ao seu próprio conhecimento da anatomia feminina e masculina mais rasteira possível: Não dava pra sentir enquanto vocês se beijavam, pô? Não, ela amarrou pra trás! Bom, comia assim mesmo, rapá! E foi quando o brilhantismo, com o perdão da redundância, abrilhantou aquela noite que ficou na minha memória: Comer, comer até dava e até pensei. Mas, ela tinha o pau maior do que o meu e isso eu não admito! Jamais!

Sentado na sala com meus pais, tantos anos depois, relatando o que eu havia lido no muro no pé do morro e atiçando a curiosidade dos dois – Quando descermos para jantar me mostra que eu quero ver – passamos os três a enumerar cada menino da rua que conviveu comigo e os motivos que os levaram a mortes violentas, fosse pelas mãos da polícia, dos justiceiros, que originariam no futuro as milícias, ou o tráfico.

Tanto eu quanto meu pai chegamos a conclusão que no caso do velho Escovinha, ninguém sabia ao certo o motivo. Se por drogas, má companhia, rixa de baile, não havia isso nos autos da memória, não há ao certo o que o levou a tomar cada tiro naquela tarde do passado, dentro daquela casa na antiga vila hoje demolida. Certamente como cada um dos meninos que listamos, a banalidade da vida. Foram muitos tiros. Caixão fechado.

Não sei também ao certo, tampouco meus pais, se os quatorze anos grafados com jetcolor no muro ao lado do terreiro que um dia foi a delegacia de polícia de Mesquita e que eu ouvia o velho Bostinha bradar bêbado na Barraca do Jorginho, em meus tempos de jogador de búlica com pés descalços, que ele havia sido preso por xingar o delegado, são de fato quatorze anos ou muito mais. O tempo nos engana tanto quanto a memória.
A questão é que cada busca que fiz no passado da minha vida, vejo um corpo ensanguentado no chão que poderia ser ou não de um amigo. Mas que no fundo, no fundo, me levou junto, sabe lá deus para onde.

Em tempo: A pichação foi feita em 2013. Na verdade, já se vão 17 anos.