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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O velho Timimo

Quanto tempo faz eu não sei. Falar sozinho – para todo mundo é coisa de louco. Mas quanto tempo faz, eu não sei.

Sei pouco do que vem antes.

Filho de uma branca com um negro. Seu pai certamente foi filho de ex-escravos, tenho quase certeza, hei de pesquisar.

Altamiro Gonçalves nasceu na região de Vassouras, meu avô Timimo. Meu vovô Tamiro.

Não sei bem quando migraram à Nova Iguaçu, também não me importa muito. Só sei que ontem sonhei com o velho Timimo, sapateiro que em sua pequena oficina no fundo de uma casa de vila, na Estrada da Água Branca, em Realengo, eu crescia nos recessos escolares para o carnaval carioca vendo-o produzir com as mãos, botas, sapatos dos mais diversos para passistas que desfilariam pela Mocidade Independente de Padre Miguel. No decorrer do ano, sobretudo, julho, “descia” de trem com meus pais para visitá-lo e passar bons finais de semana tendo sua mão na minha, correndo feiras de passarinho aos domingos e sendo apresentado como seu neto nos mais diversos botequins da região, mas principalmente no Vila, onde comi pela primeira vez ovo rosa e bebi malzibier. Ainda hoje, se sorvo um copo de malzibier, sinto meu avô, sinto o cheiro da cola de sapateiro, o vejo envergado com seus cabelos lisos e negros, seus óculos com uma corda preta, seu martelinho e tachinhas batendo em formas de sapatos. Pés de madeira que eu olhava com um olhar curioso. Mas nunca cheguei muito perto da oficina: “o menino tem a saúde frágil, o cheiro de cola faz mal”. Como se o cheiro de cola não impregnasse toda a casa numa mistura do cheiro de feijão preto bem feito de minha avó.

Vi meu avô com curiós, conversando com outros donos de curiós nas feiras. Vi meu avô jogando sinuca, magro, ossudo, olhar sofrido, mas com um riso que ontem me visitou em sonho. Um riso meia boca de quem até quer ser feliz quando via que tinha feito uma jogada bonita na mesa, mas que sabia que a vida lhe foi sofrida e continuava a ser.

Contava histórias. Visitava bastante a casa da minha mãe e do meu pai no morro da Chalet. Morro, dos muitos lugares onde viveu, em que ele mesmo morou com minha mãe, tias, tios, minha avó, muito tempo antes da minha memória. Quando mamãe conheceu papai. Muito antes de todos vocês e de mim.

Visitava muito. Sentava-se no sofá, tinha o hábito de colocar uma das mãos na testa como um pensador em sofrimento, cruzar as pernas num requinte das antigas. Quando morreu, minha mãe o via em mim, no cruzar de pernas ao almoçar no braço do sofá da sala – nunca gostei de comer em mesa: Ou era sentado no chão com um lençol forrado ou no braço do sofá.

Quando minha avó morreu, morreu por dentro meu avô. Minha mãe enfermeira acompanhou as mortes e de outros parentes. Minha mãe entende de morte e sabe sofrer as mortes. Sabe sentir o morrer. À minha mãe eu depositei sem pesar ou remorso o desejo que se eu me for antes – pois alguém sempre vai – que não haja enterro, que meu corpo seja cremado. Igual a ela, meu fim é organizado, passo por passo, documento por documento, seguros por seguros, conta por conta a pagar aos meus credores. Mas que me cremem a pele, os cabelos, os ossos. Quero ser pó o mais rápido, sem vermes me comendo. Sem velório desgastando o tempo. À minha mãe confiei, pois meu pai é medroso e não gosta do assunto. Não que eu e mamãe gostemos, mas sabemos e vivemos. Por isso nos desentendemos nos entendimentos mais do que eu e meu pai. O amor entre uma mãe e um filho não é igual a de um pai e um filho. Minha mãe sabe do diário com a foto do Aldir Blanc e o João Bosco nos anos 70, em sépia, na capa, o diário que não é diário, que escrevo a mão e onde ele estará quando da hora da minha partida. E nele há o que se fazer. O que quero e desquero. E minha mãe respeitará e se ela se for antes, deixará claro que o que eu quero, deve ser respeitado, pois minha mãe entende de morte.

Mas quanto tempo faz eu não sei. Sei que quando minha avó morreu, meu avô morreu junto por dentro. O câncer que já existia e vivia dentro dele quis sua parte. As histórias continuavam debaixo de um pé de mangueira no quintal agradável da minha tia Síndia e meu tio Expedito, irmã de minha mãe e irmão de meu pai. Eu e o Gustavo nos sentávamos para ouvir: seus roubos de pães no período em que serviu o Exército, seu medo de armas, suas histórias com a sinuca. Meu tio comprou uma mesa para seu tempo passar mais tranquilo. A morte vinha. Meu tio é como meu pai, teme a morte mesmo sabendo que ela é uma cobrança que não se adia, não se parcela.

Eu e meu primo Gustavo não sabíamos bem, mas o vovô Tamiro, o vô Timimo estava cada vez mais magro, não tinha muita vontade de falar dos passarinhos, ensinar sobre as tacadas na sinuca que meu tio comprou para ele. O câncer ia lhe tomando mais, tirando o que achava por direito tomar. Pois o câncer é assim, ele é seu, mas no fundo você é dele. Vencer o que é seu é complicado. Quando se vence passamos a não ter medo de não ter medo. Ou o pior: passamos a ter medo de não ter medo de nada. Quanto tempo faz, eu não sei. Um dia converso sobre isso, mesmo que falando sozinho.

Meu avô está deitado, o visito no leito do antigo Hospital Iguaçu. O prédio ainda existe, fechado. Um prédio histórico. Ao menos um braço e uma perna engessei ali na adolescência de traquinagem. Um dia eu converso sobre isso, mesmo que falando sozinho. Já não fala, meu vô. Nem conta histórias de tempos passados.

Meu avô, eu sinto, e hoje sei, sabia e tinha medo da morte, não o medo de não ter medo, como eu tenho, como eu sinto.

Naquele dia do leito, do Hospital Iguaçu, de entrar e sair do fusca que meu pai tinha, eu não sabia, mas foi a última vez que o vi. Ele se despediu com os olhos. Faz tempo. Não fui ao enterro. Fiquei na casa da minha tia e do meu tio com o meu primo. Eu tomando conta dele, ele tomando conta de mim. Não havia muitos amigos. Como hoje também não há. Somos os dois o que somos. Distantes e reflexivos. Ontem sonhei com o velho Timimo. Queria que ele tivesse me visto formado em História. Ele gostava de história e de ler. E tinha muita história por trás dos aros dos seus óculos e muita coisa por baixo das mãos marcadas com cola de sapateiro. Ele me levou ao SASE de Realengo para engessar meu braço esquerdo quebrado, traquinagem boba de menino que brincava só e inventava amigos. Levou-me pela mão, fomos andando da casa de vila até o SASE, ele contando histórias, eu sentindo uma puta dor. Mas ele sorria um sorriso de canto de boa, um sorriso que queria ser feliz, mas sabia que a vida era sofrida.

Hoje beberei um copo de malzibier e brindarei sozinho ao velho Timimo, meu vovô Tamiro, quem sabe até sorrio de canto de boca. Pois eu sei, a vida. A vida...

terça-feira, 18 de maio de 2021

Salve o grande Jamelão (12 de maio de 1913 - 14 de junho de 2008)

Essa é curta, não lembro o ano, mas o Fernando Vanucci ainda era vivo e cobria o carnaval carioca pela Rede Globo de Televisão. Aliás, bons tempos, ele foi o âncora, a voz da TV na Sapucaí entre 1985 até 1999. Mas, vamos ao que interessa e, de certa maneira, fica a dica para quem pedala pelas zonas urbanas, na selva de concreto. Um jornalista, que não lembro o nome, estava na Marquês de Sapucaí, a Estação Primeira de Mangueira no aquecimento, ao grande intérprete, a entidade Jamelão, o repórter pergunta: "Jamelão, como é que tá preparado, 83 anos, tantos carnavais nas costas, para 'cantar o samba' - como você prefere - como é que está esse ano?". Responde o sambista: "Tá tudo certo. É a mesma coisa do ano passado. Não tem nada de novo aqui." O repórter querendo dar uma de esperto pra cima dele: "Tá tudo igual (...) mas o senhor preferiu não ficar lá embaixo, veio cá pra cima". O Jamelão sem se abater, finaliza: "Malandro é o gato que come peixe e num vai na praia". Por um frame é possível ver, o repórter se vira para a câmera e em graça diz: "É a sabedoria popular de Jamelão, cheio de expressão, que vai agora cantar o samba aqui na avenida. Voltamos com Fernando Vanucci".

Fica aí a história! E na versão Web/PC d'O Ventríloquo é possível ver o trecho do vídeo logo abaixo:



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Alguém lembrou do Escovinha (ou ossatura da memória)



Estou no mesmo quarto onde tantas outras vezes estive – aliás, temo dizer que daqui é que um dia tudo partiu em vozes, gestos transmutados em palavras.

Cada um se depara com suas memórias de maneira ímpar, praticamente, única. Seja um velho perfume que remeterá à infância, seja um som de um pássaro qualquer. A questão é o que tiramos, cada um de nós, de tais lembranças. Sejam elas nostálgicas ou não.
Na verdade, a bem da verdade, devo dizer que não sei bem definir o que há em mim de nostalgia, saudade, memória ou lembrança. Já quando percorríamos na quinta-feira à noite as ruas da velha cidade da minha meninice, as cadeiras na rua, as crianças desnudas e descalças nas calçadas com narizes escorrendo ou mesmo os chinelos demarcando o gol a gol interrompido pela passagem do carro... já nisso eu me perdia na ausência de definição. E digo mais, mesmo as luzes, as muitas luzes que eu via quando do avião se aproximando no Galeão, as luzes rompendo a escuridão do céu, mesmo isso, eu não saberia definir o que significou para mim.

O certo é que isso tudo já estava preparado desde a partida, o que me resta é entender qual das minhas muitas partidas me refiro.
E veja bem: não é um diário. Mas, espero que você possa me ouvir, até mesmo o cheiro forte da minha respiração ou o som rouco da minha voz, a força que faço para tossir. É necessário que me ouça bem devagar, com bastante atenção. Coisa que eu nunca solicitei. Mas, hoje eu te peço.
Neste mesmo quarto, que pouco mudou, a não ser minha ausência física, escrevi artigos, uma dissertação, varei madrugadas a finco com crônicas, poesias, historietas bobas que nem sei mais por onde andam. Aqui neste quarto quase cultivei o afã de achar que a palavra me libertaria um dia. Daqui me aventurei pela primeira vez à opinar sobre algo e que foi publicado no extinto Tramela da gravadora Trama. 

Daqui conheci o mundo de uma maneira um tanto singular, mesmo que o futebol aos domingos, a conversa no portão e as caminhadas no quintal com meu pai ainda fossem mais interessantes.

Mas se trata de memória e a memória pode ser um osso mal restaurado. Uma fratura que ainda persiste em doer em tempos nebulosos e de frio.

É disso que se trata e, talvez, será sempre sobre isso que cada voz sacramentada a não ser escutada no mundo, mesmo um mundo pequeno, seja conduzida mal e porcamente por um ventríloquo.

No calor profundo e seco da cidade, enquanto com passos curtos eu descia o morro de tantas e tantas outras descidas, já quase na avenida principal, vi uma pichação que marcou profundamente toda a minha recém estadia quase findada: P/ Escovinha 14 anos de saudades.

Almocei no centro da jovem cidade, passei no boteco tradicional e voltei com mesmos passos lentos e curtos e pensativos ainda na pichação do muro: P/ Escovinha 14 anos de saudades.



As árvores foram cortadas, o calor aumentou, mas a sujeira e o asfalto eram os mesmos. O local em que ele foi assassinado, uma vila de casas, foi, há muito, derrubada para transformar-se no estacionamento de uma igreja evangélica pentecostal, em cuja escola administrada por ela, inclusive, lecionei um breve período.

Se me perguntarem quem foi o Escovinha, tenho algumas lembranças e histórias engraçadas e que me remetem a um profundo apego ao passado no morro e de como a minha própria vida era um emaranhado exótico de vivências. Nunca soube (ou soubemos todos) o seu nome. Nem sua idade, profissão, filiação. Era o Escovinha. Magro, franzino e alto. Cabelos muito crespos e sempre raspados a máquina, arcada dentária desregular... puro osso e falava fanho.

Sabia meu nome graças a uma escola particular que eu frequentei para crianças no bairro da Coréia, em Mesquita, e nunca esqueceu. O uniforme azul quadriculado carregava Bruno no peito, pintado com tinta para tecidos. Sempre que mamãe subia comigo o morro, Escovinha sorria e dizia: Coé Bruno! Minha mãe retrucava: Fala Bruninho: e aí?

Os anos se passaram, eu cresci, Escovinha mais que eu. Ele morava onde a urbanização e o saneamento haviam chegado, no pé do morro, não era asfalto, eram aqueles antigos paralelepípedos que quase não vemos mais.

Recordo dele vir jogar bola no campinho com os adultos um pouco mais velhos do que ele. Das histórias que ouvíamos das suas atuações nos bailes funks do Mesquita ou do Tênis Clube. O quanto ele batia, mesmo sendo franzino e com cara de lerdo. Escovinha era o falso otário. Tinha unhas grandes que lanhavam a cara dos “inimigos”.

Certa vez, numa noite quente de sábado, provavelmente era sábado, pois papai me deixou ficar um pouco mais na rua, ouvíamos Antena 1, a Light FM do Rio, num micro system que eu ganhei de presente e que funcionava com pilhas. As pilhas comprávamos no rateio, cada um conseguia sua parte como podia – uns vendiam lata, outros pediam para seus pais, outros roubavam. Um aposto necessário: Este rádio, que não tenho mais, levou uma pedrada, não sei o motivo, do Joel Cachaça que, acredito eu, mirava num dos moleques que estava ouvindo comigo. O Joel era um cara bacana, um bom pedreiro que, inclusive, quando saí muitos anos depois do meu período de Marinha, trabalhei como ajudante numa obra de fábrica próximo a Rio Sampa (uma antiga casa de shows na Via Dutra). As aventuras do Joel Cachaça me renderiam ótimas prosas por aqui também. Mas, a memória é seleção. Voltemos ao Escovinha.

Na noite a que me referia, Escovinha chegou cabisbaixo e se sentou na roda de meninos na parte gramada daquilo que chamávamos campinho. O som tocava baixo e ele em silêncio. Dita hora, alguém soltou: Qual é, Escovinha, o que manda?

O Escova havia arrumado uma namorada num baile de favela e na sexta-feira anterior havia ido pela primeira vez ao motel com ela. Até aí, a molecada, incluindo eu, ficou ouriçada em ouvir uma aventura sexual que muitos de nós só teríamos muitos anos depois. Enfeita para cá, enfeita para lá... Escovinha decreta: Não rolou. Quando tiramos a roupa. Não rolou. Não ia rolar mesmo! Um amigo mais velho questionou: Por que?

Era macho! A mina era macho!
Cada menino da rua questionou frente ao seu próprio conhecimento da anatomia feminina e masculina mais rasteira possível: Não dava pra sentir enquanto vocês se beijavam, pô? Não, ela amarrou pra trás! Bom, comia assim mesmo, rapá! E foi quando o brilhantismo, com o perdão da redundância, abrilhantou aquela noite que ficou na minha memória: Comer, comer até dava e até pensei. Mas, ela tinha o pau maior do que o meu e isso eu não admito! Jamais!

Sentado na sala com meus pais, tantos anos depois, relatando o que eu havia lido no muro no pé do morro e atiçando a curiosidade dos dois – Quando descermos para jantar me mostra que eu quero ver – passamos os três a enumerar cada menino da rua que conviveu comigo e os motivos que os levaram a mortes violentas, fosse pelas mãos da polícia, dos justiceiros, que originariam no futuro as milícias, ou o tráfico.

Tanto eu quanto meu pai chegamos a conclusão que no caso do velho Escovinha, ninguém sabia ao certo o motivo. Se por drogas, má companhia, rixa de baile, não havia isso nos autos da memória, não há ao certo o que o levou a tomar cada tiro naquela tarde do passado, dentro daquela casa na antiga vila hoje demolida. Certamente como cada um dos meninos que listamos, a banalidade da vida. Foram muitos tiros. Caixão fechado.

Não sei também ao certo, tampouco meus pais, se os quatorze anos grafados com jetcolor no muro ao lado do terreiro que um dia foi a delegacia de polícia de Mesquita e que eu ouvia o velho Bostinha bradar bêbado na Barraca do Jorginho, em meus tempos de jogador de búlica com pés descalços, que ele havia sido preso por xingar o delegado, são de fato quatorze anos ou muito mais. O tempo nos engana tanto quanto a memória.
A questão é que cada busca que fiz no passado da minha vida, vejo um corpo ensanguentado no chão que poderia ser ou não de um amigo. Mas que no fundo, no fundo, me levou junto, sabe lá deus para onde.

Em tempo: A pichação foi feita em 2013. Na verdade, já se vão 17 anos. 


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A consciência construída e uma afirmação necessária

O mestre Angenor de Oliveira, Cartola

Os óculos escuros de Cartola
(Letra: Marcelo Yuka/ Música: Max de Castro)

Uma lente negra protege os olhos
Dando chance a outros pontos de vista
Poesia mantida

Poesia cantada

Poesia pichada

Como consequência de vida

Pra que a raiva não nos forme

Com o mesmo peso e medida

O povo pobre faz da arte história

Como os óculos escuros de cartola

Os óculos escuros de Cartola

Eu ouço o eco dessa hora
Sensibilidade a toda prova
Foi-se o corpo
Foi-se o cansaço
Só não foi embora a necessidade
De ser leve apesar
De tanto peso nas costas
Como cerveja gelada depois da obra
Verdades sem moda
Como os óculos escuros de Cartola
Os óculos escuros de Cartola.

Recentemente, numa dessas manhãs cujo peso do tempo, se você permitir, te deixa inerte no chão, eu debatia com meus colegas alunos o velho processo de transição entre o Românico e o Gótico. Uma sala vazia de poucos bons e atentos participantes, janelas amplas que me permitiam ver a luz do sol clareando a grama verde e as idas e vindas de jovens pelo passeio da universidade. Acho que nunca disse isso, mas algumas salas de aula são torturantes quando nos permitem observar que há um vasto mundo de idas e vindas lá fora e ao mesmo tempo instigantes por vermos o movimento da vida correndo.
Naquela ocasião, em especial, eu necessitava arduamente me manter em constante andamento em meu pensamento – não pelo assunto da aula – mas pelo meu estado de cansaço físico e mental de uma longa semana de um mês que parece estar tendo longas semanas de moto-contínuo. Enquanto os sete graduandos acompanhavam minha fala, alguns anotando, outros formulando seus comentários, perguntas ou mesmo pensando na vida... lembrei com certa nostalgia algumas igrejas medievais que pude visitar. Automaticamente, comentei da paz que, apesar dos pesares, eu sentia ao entrar naqueles espaços. Um dos meus alunos pediu a palavra e iniciou um profícuo debate de co-relação, dizendo que havia achado interessante minha fala, pois se recordava que ao visitar uma igreja em Recife ou Olinda (não me lembro agora) com uma amiga negra, o comentário que ela fez foi totalmente inverso ao meu: Ela havia sentido um grande pesar, uma angústia enorme por aquela construção, em especial, ter sido levantada graças ao suor e sofrimento de seus antepassados africanos. Mais do que paz, ela sentiu dor. Por um momento me silenciei, não por vergonha do meu raciocínio ou coisa do tipo, mas processando, primeiro, a sagacidade do comentário do rapaz e, em segundo, a maravilhosa possibilidade que tínhamos naquele momento para discutir História e sua função.
Quando menino, disse eu para turma, passava minhas férias em Paquetá, uma ilha que se localiza, aproximadamente, uns 15 quilômetros do Rio de Janeiro. Lá, passava a infância solto, andando de bicicleta, pescando cocoroca, lendo na biblioteca pública. No Mirante, brincava passando por seus túneis cravados na dura rocha que compunha aquela fortificação de antiga defesa. Naqueles anos nostálgicos da minha infância e pré-adolescência, confessei, nunca no ir e vir correndo, pulando preservativos e merda humana deixadas dentro dos túneis na parte de baixo do Morro do Vigário, ter parado para pensar no que os veios no teto e nas paredes significavam.
Foto de Yuri (Cirulo) - 21 de Fevereiro de 2011

Muito tempo depois, continuei o relato, já adulto, professor de História, visitei com alunos da graduação que passavam o carnaval daquele ano comigo a mesma, porém diferente, ilha e seu mirante. Ao entrar nos túneis um silêncio mórbido em cada um de nós se instaurou e mesmo o belo pôr do sol que beijava a Baía de Guanabara não foi o suficiente para que todos, ao seu próprio modo, sentissem com o tato e com o coração, uma consciência construída de que aquela passagem havia sido perfurada na pedra certamente por escravos africanos arrancados de sua terra por mãos brancas.


Foto de Aquino Neto - 21 de fevereiro de 2011

Não posso falar do sentimento dos meus amigos, mas me recordo ainda agora como as pontas dos meus dedos percorriam a parede e o significado que aquele gesto teve.
Hoje, dia 20 de novembro, comemora-se o Dia da Consciência Negra. Curioso, mas quando eu ainda morava no Rio e subia e descia minha rua, tomava o trem para a Central e convivia constantemente com a visão esdrúxula e doentia do racismo diário que os negros sofrem, nada mais teve tanto impacto quanto o passar os dedos naquelas paredes. Ana dizia hoje pela manhã que, como negra, impressão idêntica a minha no túnel do Mirante de Paquetá, teve ela ao visitar o Cemitério dos Pretos Novos, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro (para conhecer sobre, clique aqui). Ela tem suas razões. Eu tenho as minhas.
As vozes se misturam e me embaraço. Volto à quinta-feira dessa semana: Olho meu aluno e percebo que transmitimos o mesmo pensamento e temos o mesmo questionamento. Talvez, eu, por menos coragem, transformo em palavras naqueles minutos a pergunta que permearia nos momentos finais da nossa aula, certamente, a construção das nossas reflexões: Eu, ele, sua amiga, e hoje pela manhã, Ana, teríamos o mesmo sentimento de perda, dor, revolta, ou até de reflexão do mal que foi a escravidão negra e as feridas ainda abertas que se mantém e tão amargamente tentam ser apagadas pelo discurso tacanho, sem o estudo da História?
A consciência construída torna-se, a meu ver, uma das afirmações mais necessárias no cotidiano e o mecanismo fundamental para anular o discurso, já absorvido até por alguns negros, de que o caminho é esquecer o debate sobre o racismo, mesmo eu já cometi esse erro, é colocar panos quentes na realidade que nos cerca. Não somos todos iguais. Jamais saberei na pele o que é ser preterido por cor em um país tão multicultural quanto o Brasil. Jamais saberei o que é ser parado na rua e revistado antes do branco que caminha ao lado. Jamais saberei muitas coisas sobre o que é ser negro no meu país. Hoje, mais do que nunca, de minha parte ou da do meu aluno, percebo que não se trata de um sentimento de empatia com a História dos Afrobrasileiros e seus antepassados, mas uma profunda necessidade de luta constante pela afirmação de identidade e da dívida que deve ser paga pelos males que este passado escravocrata tão recente legou ao presente e que permanece se reconfigurando constantemente com o olhar reprovativo quando sua companheira negra sobe para o próprio apartamento no elevador social e é veladamente vista como um empregado que deveria subir pelo de serviço...
Aliás: Quem inventou essa praga de que elevador de serviço é para os prestadores de serviço em condomínios...? Elevador de serviço é para descer com entulho, lixo, seu cachorro para passear!



Ps. Se quiser ouvir um som bom, a voz poética, clica aí embaixo nos Óculos escuros de Cartola:



domingo, 25 de outubro de 2015

O fim da falsa culpa: um ensaio pela liberdade

Foto que tirei, em 19 de outubro de 2015, de intervenção feita numa parede na subida da escadaria da Igreja do Santíssimo Sacramento da Rua do Passo, Centro Histórico de Salvador - Bahia. Seus 55 degraus serviram de cenário para o famoso filme "O pagador de promessas", de 1962, baseado em peça de Dias Gomes.


Queria dizer, e já dizendo, que a cada dia que passa, mais me surpreendo com a complexidade dos valores moralistas que se constroem constantemente à minha volta e que, volta e meia, me atingem diretamente o fígado, que é a alma. Por isso, me posiciono: Sou a favor da legalização do aborto e da maconha.
Consequentemente, o modelo tradicional/ocidental de “religião” me assombra. Grito aqui, sem medo de cuspir em algum prato ou ter meu teto de vidro despedaçado: sempre me assombrou.
O mais curioso é que nunca tive uma educação familiar que me obrigasse a professar uma fé, um posicionamento político ou coisa do tipo. O discurso até os meus dez anos era muito simples: havia valores educacionais e de trabalho igualitário na minha casa que, por sorte, construíram diariamente meu caráter, e todo e qualquer tipo de posicionamento que eu tomasse era e é respeitado pelos meus pais. Assim, pude frequentar uma vez uma missa, ir a terreiro de candomblé, ubanda, igreja evangélica, pentecostal, comer doce de São Cosme e Damião, tomar sopa dia de sábado em Centro Espírita e até mesmo visitar orfanato com professores da escola em que estudei entregando donativos para crianças como eu.
Um dia a coisa mudou e não sei por que cargas d’água houve um enfraquecimento em mim no quesito “ética laica”. E isso, de quebra, levou meus pobres pais-liberais para o mesmo abismo da culpabilidade, principalmente mamãe que sempre foi de uma clareza fantástica de ideias, amiga do mais variado tipo de pessoas, consideradas pelo moralismo fundamentalista cristão, que a cada dia cresce mais no país, como “desviadas”.
Participar de um corpo religioso sempre me foi uma dúvida pelas muitas dores que, mesmo inserido e absorvido no corpo religioso, eu sentia, fosse após um dia de festa no terreiro da Dona Iraci ou numa reunião no Salão do Reino dos Testemunhas de Jeová. O discurso não atendia profundamente minha necessidade de viver e conviver com o externo: meus amigos de pais divorciados, o amigo de escola cuja família era ele, filho único, sua mãe biológica e sua companheira (um casal maravilhoso e lésbico que me tratava com um carinho enorme), etc, etc. Mas nenhuma instituição religiosa me causou mais dor e sofrimento do que a igreja em que fui batizado e frequentei constantemente na minha pré e adolescência.
A instituição religiosa e cristã e protestante (que paradoxo este último termo) reproduzia e se fundamentava nos mesmos moralismos excludentes que eu via na escola, na rua e nas esquinas por onde eu passava no meu dia a dia. Aquelas pessoas, que convivi até então nos meus dez anos de idade, tornaram-se “desviadas”, “criaturas de deus”. Passaram a necessitar da “salvação em Cristo”, eram “do mundo”. Eram “diferentes de mim”. Essa foi a primeira grande dor que senti: eu deveria orar por aqueles “perdidos” que “viviam fora do núcleo verdadeiro da felicidade e do correto”, logo, “estavam fadados à perdição”, precisavam da “conversão” para “tornarem-se verdadeiros filhos de deus e não mais criaturas”.
Clamava-se pelo caminho da “santidade” entre tropeços sôfregos, justificativas fundamentadas na esperança, crença no invisível-visível, na vida eterna em Cristo Jesus, nosso senhor. No fundo, o controle social interno da corporação de candidatos a homens e mulheres de bem a caminho da perfeição-salvação se dava por meio da construção do simplório sentimento de “culpa”. Isso mesmo: culpa. Não se engane, a roda gira graças à culpa. Depois (um depois de passado, antes de mim), surgiu o fantástico discurso neo-pentecostal da prosperidade-riqueza, quase um deus vult do capitalismo. A fórmula medieval de “doe e você receberá em dobro” se adequou perfeitamente às pessoas de baixa renda e que depositam e depositaram toda sua fé no milagre divino-financeiro. A roda do capitalismo nesses moldes, nem Weber esperaria com tanta perfeição. Pois é, entre 1904 e 1905, quando do lançamento de seu famoso livro, não havia vocês sabem quem para ele analisar! Voltemos à culpabilidade. E que volte algum Max Weber para colocar de maneira mais erudita que a minha, o dedo nas chagas da cruz!
Era culpa porque “o filho de deus”, “o próprio deus” morreu num madeiro por um pecado que você nem tinha cometido, mas ele sabia que você um dia ia ter o azar de professar, afinal ele sabe de tudo antes mesmo de você saber que vai fazer. Era culpa pelo cine prive que só mostrava bunda e peitinho nas madrugadas da TV Bandeirantes e a punheta da noite anterior à “escola bíblica dominical”. Era a culpa pela vontade de comer a menina do banco da frente que tinha culpa porque queria ela também comer você. Era até a culpa de saber que você não comia ninguém, mas havia uns tantos cantores de coral que fodiam e você não! Enfim, não vamos culpar ninguém, já há culpa demais. Afinal, o importante era pedir perdão e essa lógica alguns pegavam rapidamente: então, piroca na vida e depois você pede perdão!
Em dado momento, uma importante guinada, ao menos para mim, aconteceu: Cada vez mais, tudo à minha volta fazia menos sentido: os tapinhas nas costas por uma bela poesia cristã, um “abençoado” por uma letra de música ou uma peça adolescente de teatro. Um “aleluia” por uma reflexão retórica à um trecho bíblico, etc., etc. Fui acometido no melhor da vida de uma depressão que diziam ser de fundo espiritual, “a chama da fé já não estava ardendo”, eles diziam. No fundo, o que eu via era a culpa depositada onde não há culpa. Logo, todas as minhas namoradinhas eram “jugo desigual”. Graças a deus!
Os remédios surgiram e que não deixam de ser drogas. Precisava deles para dormir, acordar, sorrir, andar de bicicleta, jogar bola, estudar. Uma vida tosca. Onde eu estava errando? Eu nem olhava e olho com maus olhos as pessoas que evidentemente estavam contentes, felizes na fé. Eu só passei a perceber, simplesmente, que aquilo não servia para mim o tanto que servia para cada uma delas. Aquele “corpo religioso” não conseguiria comportar a minha alma e meus anseios como cidadão, ser humano, pessoa, individuo. Eu queria ter amigos, amigas. Ter perto de mim gays, lésbicas, maconheiros ateus, agnósticos tucanos, petistas do candomblé... católicos viados, putas evangélicas, enfim, eu queria era ser livre de culpa religiosa. Veja, deve ser bom e deve mesmo ser bom para um monte de gente: mas não é para mim. A lógica é racional e bem simples.
Conversei com meus pais naquele período sombrio e a ideia foi maravilhosamente aceita por eles, sempre tivemos amigos que frequentavam a nossa casa e trabalhos e que se enquadravam em algum momento nessa sintética e livre definição acima.
Passei a pensar que era bem mais leve e alegre conduzir minha vida novamente a partir de uma ética que procurasse acima de tudo não ferir a minha individualidade e a alheia. Não era uma filosofia de vida ou coisa do tipo, era a única saída que eu tinha para viver. As drogas receitadas diminuíram.
Aos poucos, a atitude também foi tomada pelos meus pais, a família se uniu ainda mais, as conversas, que sempre foram abertas, sobre sexo, drogas ilegais, álcool, rock and roll, ficaram ainda mais abertas. Até hoje não matei ninguém, estuprei, roubei, furtei ou qualquer outro tipo de atividade que fira os preceitos de direito universal, incluindo, a liberdade religiosa que cada individuo, por lei, tem. Apenas não tenho mais uma religião e não me insiro na institucionalidade de nenhuma delas, mesmo entendendo que, para elas, a necessidade de se institucionalizar é latente. Eis o problema para eles e para mim.
Recordo com certa náusea, confesso, de que quando entreguei formalmente minha solicitação de “exclusão do rol de membros da Igreja” – formal isso, não? Quanta institucionalidade para a fé! – o pastor, um senhor agradável que ainda guardo com um enorme respeito e carinho, soltou a máxima: “As muitas letras te deixaram louco”. Citação paulina, ele era muito bom nessas coisas. Eu estava cursando graduação em História.
Acho que anos depois, seu filho, que também tornou-se um ministro e não deixava de ser um bom amigo, numa conversa informal quando eu disse que havia terminado um relacionamento (que era jugo desigual, até então) de uns quatro anos, para ficar com uma paixão que me surgiu de repente, disse: “Mas, ora, sem igreja, religião... quais serão seus fundamentos morais e éticos para conduzir sua família, sua vida?”. Curiosamente o discurso do desigual sumiu na nova realidade.
Acredito que essa voz-desabafo de hoje e cada luta diária que travo pela laicidade no Estado e no Ensino, uma laicidade que permita o conhecimento pleno de toda e qualquer manifestação de religiosidades, explica bem quais os fundamentos morais e éticos que eu, brasileiro, servidor público federal, filho, companheiro e amante e, acima de tudo, livre e sem culpa, sigo na condução da minha família não tradicional. Uma família que se propõe de forma veemente a não se enquadrar nas normas institucionalizadas por um governo que tem se vendido cada vez mais à Bancada da Bíblia no Congresso Nacional.
Sou a favor do direito da mulher abortar e ser amparada pela lei em sua vontade individual de praticar a interrupção de uma gestação dentro dos prazos regidos pela Medicina e conforme dados da Organização Mundial da Saúde. Sou a favor do uso livre da pílula do dia seguinte em conformidade com o direito individual da mulher de ter o controle de seu corpo, enquanto individua e cidadã, principalmente, se for ela vítima de violência sexual e não só. Sou a favor da legalização da maconha, sua produção de qualidade, venda em locais específicos e o uso individual e coletivo de forma recreativa como fazemos com o álcool e o tabaco. Sou a favor do matrimônio de casais de mesmo sexo e dos os direitos legais que disso decorram. Sou a favor da adoção legal por casais de mesmo sexo. Sou a favor da liberdade religiosa e de toda e qualquer manifestação cultural de religiosidades. Sou a favor do individuo inserido na coletividade do que deveríamos chamar de nação brasileira. Sou até mesmo a favor da presença de religiosos no Congresso, desde que eles não firam a nossa individualidade.
Axé, amém e viva o azul.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O moralismo tupiniquim é como uma caixa de bombons com menos um bombom



Quando menino, os muitos pés de manga do meu quintal não tinham o sabor adocicado e o cheiro tentador das mangas que brotavam no mesmo ritmo no quintal do Seu Murilo. Cercada por arames farpados meio enferrujados e com muitos fios de cabelos de todas as cores presos em suas emendas, a grande propriedade do finado ficava abaixo do campinho da meiuca do morro em que morávamos, em Mesquita. Morávamos, já não moro mais e da minha infância, apenas o Leandro Cabeça, o Waguinho e o filho do Cunha (não o deputado) continuam de pé. O resto foi morto em confrontos com o tráfico rival, com os justiceiros ou com a polícia. Naquela época não havia milícia como conhecemos hoje.
Seu Murilo, evidentemente, ficava puto, como ficava meu pai – talvez menos que o Seu Murilo – com os moleques que tinham pés de fruta em casa, mas, assim como eu, eram tentados a roubar as frutas do nosso quintal. Aliás, nunca entendi muito bem porque nunca gostei muito das frutas do meu quintal. O que mais estressava meu pai e meu tio não era o “furto”, eram as bambuzadas que derrubavam as frutas verdes. Me lembro dele gritando: “Pede, porra. Pede que eu deixo pegar”, todo sábado e domingo era isso. Papai não entendia: a graça era pegar sem pedir e correr o risco de tomar uns cascudos do dono do quintal.
O moralismo tupiniquim é tão malfazeiro, tão capenga que é difícil conversar sobre. Não importa quantas bundas você veja na televisão, não importa toda a miscigenação (visando sempre o branqueamento, é claro), não importa que a priminha dê um pulo com o priminho no motel isolado, mas que todo mundo sabe onde é, não importa antes do diploma quantos foram os seus bombons furtados na loja de departamento, sempre teremos na ponta da língua uma explicação plausível para os nossos atos e uma fundamentação perfeita para a reprovação dos mesmos atos quando cometidos por outras pessoas.
Eu queria ir um pouco mais longe, mas ainda sou moralista demais para dizer algumas verdades. Ah, ah aquela mesa de botão apodrecendo que foi roubada certa noite do porão da casa do...

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A falsa ideia de praia como espaço democrático e igualitário: Apartheid e eugenia social no Rio de Janeiro

Praia de Ipanema - em algum dia quente de verão


Reuniões oficiais escurecendo outras salas
Onde a tortura faz filho
Na pele de um jovem afro-brasileiro
Na pele de um jovem fodido e sem dinheiro
Catequeses do Medo – O Rappa (1994)



As praias são o espaço mais democrático que existe (no Rio de Janeiro). Esta assertiva, em algum momento, esteve ou foi ouvida saindo da boca de algum carioca. E nas últimas semanas, quase há um mês, certamente, esteve mais em voga no estado do Rio de Janeiro. Aliás, se retirarmos o parêntesis da frase, ela pode ter sido ouvida pronunciada por lábios de sotaques diversos em qualquer cidade litorânea do espaçoso, porém espremido, Brasil. Divagarei sobre o velho Estado da Guanabara, pois há muito a dizer, mas seja puxando o x e o s, seja dando bastante tônica ao t e ao d, não importa muito: AS PRAIAS, AQUELA FAIXA DE AREIA COM INFINITO MAR, NUNCA FORAM DEMOCRÁTICAS!
Antes do funk carioca ter sido descoberto pela classe média dos prédios com porteiros, antes mesmo de ter sido descoberto como manifestação legítima de cultura por sociólogos e antropólogos, ele já denunciava o apartheid vivido pelos excluídos e marginalizados de morros e subúrbios de subúrbios do Rio de Janeiro. Aproximadamente, em 1991, quando a fusão do Miami Bass com tambores tipicamente afrobrasileiros tomava de assalto as rádios numa interessante batalha sonora, um disco conduzido pelo Dj Malboro continha uma inteligente, humorística em sua tragédia de típica crônica e certeira música.
Me refiro ao Melô do Farofeiro, faixa dois do Lp Funk Brasil 3. Observe que naquele tempo ainda se utilizava o termo “Melô”, de melodia, antes do tema que seria desenvolvido na canção. Ao mesmo tempo havia o “rap” disso e daquilo outro. De pouco a pouco a coisa mudou. Mas, prossigo.

Na letra, que reproduzo, é possível ler:

Quando vou à praia eu madrugo na estação
Prá esperar o trem que anda sempre lotadão
Embarco na marra, a viagem é uma barra
Por isso na praia sempre faço a maior farra
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
No bairro que moro o calor é muito alto
Sempre tem alguém fritando ovo no asfalto
Falta água, não tem sombra o jeito é ir pro mar
Mas é só pisar na praia e alguém vem me zuar
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Quando tô na praia deito e rolo na areia
Não tô nem aí se me olham de cara feia
Levo rádio, levo bola, frango assado prá comer
Levo farofinha que mamãe sabe fazer
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Antes de ir embora eu dou sempre um rolé
Piso na toalha, jogo areia na mulher
Vou do Leme ao Pontal, prá ver fio dental
Depois pego o buzú e dou calote na Central
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul

Em finais de agosto deste ano de 2015, a Polícia Militar do Rio de Janeiro apreendeu, com sua típica truculência, um expressivo número de jovens e adolescentes (apenas um branco) que estavam num ônibus a caminho das democráticas praias da Zona Sul carioca (ver matéria vinculada ao Jornal Extra).
Ora, como a letra demonstra em seu humor crítico a “eugenia social” ainda o é como o foi. Exagerado eu? Que sejamos exagerados quando a crítica recaia sobre os excluídos, amigos! Porém, evitarei ser personalista recordando meus tempos infantis saindo de Mesquita (antigo Primeiro Distrito de Nova Iguaçu) com meus pais, com frango e farofa no isopor. Isso fica para um momento mais alcoolizado de minha parte. Mas, não posso deixar de relembrar também da boa mortadela com pedaços de pimenta e pão francês que com a boca salgada de água do mar parecia ter um sabor único quando eu me sentava em alguma sombra de árvore na Praia do Flamengo para comer ou da minha cara cheia de farelo de Biscoito Globo sujando o banco do ônibus que nos levava da praia até a Central do Brasil para pegar o trem. Deixemos o personalismo de lado nessa conversa.
Todo o exagero violento da PM carioca foi prontamente denunciado pelas mídias, movimentos sociais, arautos da liberdade em suas poltronas facebookianas, locus da contemporânea revolução. Prontamente, houve um recuo quase imediato das “forças de segurança” e o TJ-RJ, após ação da Defensoria Pública, proibiu futuras apreensões (Ver matéria vinculada ao Brasil Post).
Fim do impasse? A liberdade, típica da democracia, venceu? Eu estava errado, as praias são sim os únicos espaços que ainda podemos bradar com peitos inflados como local da ação prática da democracia, cujo direito de ir e vir se manifesta diariamente? Não.
Nada mudou. O antes ainda o é.
E veja bem, confrade, você aí que ouve ou tenta ouvir as múltiplas vozes desse velho e ultrapassado Ventríloquo... Você aí, ouça bem: as praias nunca foram e não são democráticas.
Esse discurso de democracia praiana, nada mais é do que uma sutil artimanha que colocaram, sabe lá Yemọja quando, em bom Yoruba, colocaram na nossa cabeça. A questão, Rainha do Mar, é que seus filhos Ogum e Oxóssi vão continuar tomando porrada no quengo de PM, com recuo ou não das apreensões.
Mas, todo exagero de violência emanada pelo Estado leva automaticamente ao recuo, como eu já disse, do próprio Estado e esse recuo obrigatório cria estratégias para os dominantes manterem a boa e velha dominação, uma vez que o Estado, atualmente, funciona evidentemente para um pequeno grupo dominante.
Numa “jogada de mestre” a Secretaria Municipal de Transporte do Rio de Janeiro extinguiu nada mais nada menos do que 22 linhas de itinerários que ligavam, alguns deles diretamente, as Zonas Norte e Oeste à Zona Sul, fora alguns tradicionais bairros suburbanos que emanam de forma profunda a alma, a verdadeira, carioca que também foram subliminarmente podados de seu acesso direto ao mar: Ramos (esse com seu piscinão), Olaria, Maré, Jacaré, etc. (Ver matéria vinculada ao Jornal O Dia).
A polêmica mais uma vez está posta. Se haverá recuo? Não sei. A questão é que há tempos o Rio de Janeiro, enquanto Estado e Cidade, sempre foi geograficamente separado e excludente em todos os sentidos, ora por cercas, ora pela constante desigualdade. Não se trata aqui de considerar a não democratização da praia, à despeito do que afirmam muitos, como um grosso modo, de que todo carioca do Baixo Leblon àquele que se senta à noite na COBAL do Humaitá para beber um chope gelado é empinado e excludente em seu discurso para com uma maioria que vive nos subúrbios e na Baixada, conheço muitos que não o são. Os olhares atentos de porteiros migrantes nordestinos e a educação que seus ouvidos pacientes contra o preconceito da aristocracia falida que ainda se esforça para tomar café no Copacabana Palace, possibilitou uma sólida educação formal para seus filhos, hoje professores em diversos segmentos, inclusive, universitários, médicos, advogados ou mesmo outros porteiros de olhos atentos e ainda ouvidos pacientes para todo o preconceito de uma classe média fodida, mas que, se tudo der certo e há de dar, terão seus filhos nas cadeiras ao lado dos filhos dessa classe média fodida em boas escolas públicas. Ou seja, a coisa não deu muito certo para a minoria preconceituosa da Zona Sul e essa Zona Sul atual, à parte das já tradicionais favelas coladas, é mais mista e bela do que eles queriam!
O próprio caro e contraditório conceito de subúrbio, talvez, não sei, poderia ser repensado. As casas da Rocinha com belas vistas para o mar ou as de outras favelas localizadas na Zona Sul sempre foram um “subúrbio” lá do alto, mesmo com toda a violência provocada pela demanda por cocaína produzida pelos bacanas do asfalto. Sobreúrbio, talvez. 
E sempre foram as mãos e braços firmes de gente que viaja de Japeri até o Leblon ou que desce as ladeiras dos morros que mantiveram a força motriz e pulsante da cultura que se produziu e se exportou advinda da Zona Sul: Alguém lavava aos copos sujos de uísque do Vinícius de Moraes, não? Cartola, esquecido, foi redescoberto lavando carros.
As praias estão aí, cheias de coliformes e garrafas PET, talvez, esse o melhor exemplo de democracia entre pobres e ricos nas areias das praias cariocas. Porém, estes últimos, financiadores dessa “eugenia social” jamais devem se esquecer que assim como somos todos pó (de cocaína até a terra com vermes e ossos), também somos todos merda boiando no glorioso mar de Yemọja. Somos todos nossa firme merda no mar.