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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Alguém lembrou do Escovinha (ou ossatura da memória)



Estou no mesmo quarto onde tantas outras vezes estive – aliás, temo dizer que daqui é que um dia tudo partiu em vozes, gestos transmutados em palavras.

Cada um se depara com suas memórias de maneira ímpar, praticamente, única. Seja um velho perfume que remeterá à infância, seja um som de um pássaro qualquer. A questão é o que tiramos, cada um de nós, de tais lembranças. Sejam elas nostálgicas ou não.
Na verdade, a bem da verdade, devo dizer que não sei bem definir o que há em mim de nostalgia, saudade, memória ou lembrança. Já quando percorríamos na quinta-feira à noite as ruas da velha cidade da minha meninice, as cadeiras na rua, as crianças desnudas e descalças nas calçadas com narizes escorrendo ou mesmo os chinelos demarcando o gol a gol interrompido pela passagem do carro... já nisso eu me perdia na ausência de definição. E digo mais, mesmo as luzes, as muitas luzes que eu via quando do avião se aproximando no Galeão, as luzes rompendo a escuridão do céu, mesmo isso, eu não saberia definir o que significou para mim.

O certo é que isso tudo já estava preparado desde a partida, o que me resta é entender qual das minhas muitas partidas me refiro.
E veja bem: não é um diário. Mas, espero que você possa me ouvir, até mesmo o cheiro forte da minha respiração ou o som rouco da minha voz, a força que faço para tossir. É necessário que me ouça bem devagar, com bastante atenção. Coisa que eu nunca solicitei. Mas, hoje eu te peço.
Neste mesmo quarto, que pouco mudou, a não ser minha ausência física, escrevi artigos, uma dissertação, varei madrugadas a finco com crônicas, poesias, historietas bobas que nem sei mais por onde andam. Aqui neste quarto quase cultivei o afã de achar que a palavra me libertaria um dia. Daqui me aventurei pela primeira vez à opinar sobre algo e que foi publicado no extinto Tramela da gravadora Trama. 

Daqui conheci o mundo de uma maneira um tanto singular, mesmo que o futebol aos domingos, a conversa no portão e as caminhadas no quintal com meu pai ainda fossem mais interessantes.

Mas se trata de memória e a memória pode ser um osso mal restaurado. Uma fratura que ainda persiste em doer em tempos nebulosos e de frio.

É disso que se trata e, talvez, será sempre sobre isso que cada voz sacramentada a não ser escutada no mundo, mesmo um mundo pequeno, seja conduzida mal e porcamente por um ventríloquo.

No calor profundo e seco da cidade, enquanto com passos curtos eu descia o morro de tantas e tantas outras descidas, já quase na avenida principal, vi uma pichação que marcou profundamente toda a minha recém estadia quase findada: P/ Escovinha 14 anos de saudades.

Almocei no centro da jovem cidade, passei no boteco tradicional e voltei com mesmos passos lentos e curtos e pensativos ainda na pichação do muro: P/ Escovinha 14 anos de saudades.



As árvores foram cortadas, o calor aumentou, mas a sujeira e o asfalto eram os mesmos. O local em que ele foi assassinado, uma vila de casas, foi, há muito, derrubada para transformar-se no estacionamento de uma igreja evangélica pentecostal, em cuja escola administrada por ela, inclusive, lecionei um breve período.

Se me perguntarem quem foi o Escovinha, tenho algumas lembranças e histórias engraçadas e que me remetem a um profundo apego ao passado no morro e de como a minha própria vida era um emaranhado exótico de vivências. Nunca soube (ou soubemos todos) o seu nome. Nem sua idade, profissão, filiação. Era o Escovinha. Magro, franzino e alto. Cabelos muito crespos e sempre raspados a máquina, arcada dentária desregular... puro osso e falava fanho.

Sabia meu nome graças a uma escola particular que eu frequentei para crianças no bairro da Coréia, em Mesquita, e nunca esqueceu. O uniforme azul quadriculado carregava Bruno no peito, pintado com tinta para tecidos. Sempre que mamãe subia comigo o morro, Escovinha sorria e dizia: Coé Bruno! Minha mãe retrucava: Fala Bruninho: e aí?

Os anos se passaram, eu cresci, Escovinha mais que eu. Ele morava onde a urbanização e o saneamento haviam chegado, no pé do morro, não era asfalto, eram aqueles antigos paralelepípedos que quase não vemos mais.

Recordo dele vir jogar bola no campinho com os adultos um pouco mais velhos do que ele. Das histórias que ouvíamos das suas atuações nos bailes funks do Mesquita ou do Tênis Clube. O quanto ele batia, mesmo sendo franzino e com cara de lerdo. Escovinha era o falso otário. Tinha unhas grandes que lanhavam a cara dos “inimigos”.

Certa vez, numa noite quente de sábado, provavelmente era sábado, pois papai me deixou ficar um pouco mais na rua, ouvíamos Antena 1, a Light FM do Rio, num micro system que eu ganhei de presente e que funcionava com pilhas. As pilhas comprávamos no rateio, cada um conseguia sua parte como podia – uns vendiam lata, outros pediam para seus pais, outros roubavam. Um aposto necessário: Este rádio, que não tenho mais, levou uma pedrada, não sei o motivo, do Joel Cachaça que, acredito eu, mirava num dos moleques que estava ouvindo comigo. O Joel era um cara bacana, um bom pedreiro que, inclusive, quando saí muitos anos depois do meu período de Marinha, trabalhei como ajudante numa obra de fábrica próximo a Rio Sampa (uma antiga casa de shows na Via Dutra). As aventuras do Joel Cachaça me renderiam ótimas prosas por aqui também. Mas, a memória é seleção. Voltemos ao Escovinha.

Na noite a que me referia, Escovinha chegou cabisbaixo e se sentou na roda de meninos na parte gramada daquilo que chamávamos campinho. O som tocava baixo e ele em silêncio. Dita hora, alguém soltou: Qual é, Escovinha, o que manda?

O Escova havia arrumado uma namorada num baile de favela e na sexta-feira anterior havia ido pela primeira vez ao motel com ela. Até aí, a molecada, incluindo eu, ficou ouriçada em ouvir uma aventura sexual que muitos de nós só teríamos muitos anos depois. Enfeita para cá, enfeita para lá... Escovinha decreta: Não rolou. Quando tiramos a roupa. Não rolou. Não ia rolar mesmo! Um amigo mais velho questionou: Por que?

Era macho! A mina era macho!
Cada menino da rua questionou frente ao seu próprio conhecimento da anatomia feminina e masculina mais rasteira possível: Não dava pra sentir enquanto vocês se beijavam, pô? Não, ela amarrou pra trás! Bom, comia assim mesmo, rapá! E foi quando o brilhantismo, com o perdão da redundância, abrilhantou aquela noite que ficou na minha memória: Comer, comer até dava e até pensei. Mas, ela tinha o pau maior do que o meu e isso eu não admito! Jamais!

Sentado na sala com meus pais, tantos anos depois, relatando o que eu havia lido no muro no pé do morro e atiçando a curiosidade dos dois – Quando descermos para jantar me mostra que eu quero ver – passamos os três a enumerar cada menino da rua que conviveu comigo e os motivos que os levaram a mortes violentas, fosse pelas mãos da polícia, dos justiceiros, que originariam no futuro as milícias, ou o tráfico.

Tanto eu quanto meu pai chegamos a conclusão que no caso do velho Escovinha, ninguém sabia ao certo o motivo. Se por drogas, má companhia, rixa de baile, não havia isso nos autos da memória, não há ao certo o que o levou a tomar cada tiro naquela tarde do passado, dentro daquela casa na antiga vila hoje demolida. Certamente como cada um dos meninos que listamos, a banalidade da vida. Foram muitos tiros. Caixão fechado.

Não sei também ao certo, tampouco meus pais, se os quatorze anos grafados com jetcolor no muro ao lado do terreiro que um dia foi a delegacia de polícia de Mesquita e que eu ouvia o velho Bostinha bradar bêbado na Barraca do Jorginho, em meus tempos de jogador de búlica com pés descalços, que ele havia sido preso por xingar o delegado, são de fato quatorze anos ou muito mais. O tempo nos engana tanto quanto a memória.
A questão é que cada busca que fiz no passado da minha vida, vejo um corpo ensanguentado no chão que poderia ser ou não de um amigo. Mas que no fundo, no fundo, me levou junto, sabe lá deus para onde.

Em tempo: A pichação foi feita em 2013. Na verdade, já se vão 17 anos. 


sexta-feira, 6 de março de 2015

Para o Alexandre Moraes

            Antes que me acusem de ter transformado as vozes d’O Ventríloquo num derramamento de profundo pieguismo sentimental ou uma esparrela de tons, sobretons e panegíricos dóceis, eu queria dizer que não se trata desse tipo de coisa.
            A roda da vida gira numa velocidade que não consigo medir. Na verdade, eu queria mesmo era falar um pouco sobre o Joe Cocker desde que ele faleceu no dezembro passado.
Mentira. Eu queria era falar sobre o documentário/show Mad Dogs & Englishman lançado originalmente como um LP duplo e nos cinemas como um filme, no ano de 1970. Eu queria abordar os músicos ali presentes, cuja trajetória já havia sido travada pelo tempo, como, por exemplo, o saxofonista Bobby Keys que faleceu, pouca gente sabe, alguns dias antes de Cocker e que no tal documentário, num passeio chuvoso de carro pela mesma avenida em que Kennedy foi assassinado, em Dallas, nos presenteia com um dos diálogos mais interessantes e pouco explorados no filme: O abismo de gerações. Mesmo a solidão do Joe Cocker após as apresentações, um misto de homem desprotegido, algumas frases e olhares muito me chamaram atenção quando revi recentemente instigado, justamente, por sua morte e pelas muitas homenagens que surgiram na Rede. Confesso que dele possuo apenas a edição delux, em cd, do LP ao vivo da tal turnê e o documentário. Para não soar mentiroso, tenho uma velha coletânea que comprei ainda na graduação.
            Parágrafo longo, a conversa, a minha conversa se perdeu. A conversa sobre o documentário ficou por aí, na mente.
O tempo foi se tornando escasso no último mês e mais ainda nas últimas semanas. No entanto, li, quando “jogado”, não sem delicadeza, na Rede, um texto que achei bem bacana no Para Ler Sem Olhar, intitulado Oliver Sacks de 5 a 7. Não que o que relato aqui tenha referência direta ao texto do Viana, mas, me deu uma liberdade a mais para sair um pouco da tentativa de ser profundo como ele que, por exemplo, sempre acerta em seus textos por ali (aliás, faço aqui propaganda daquele espaço). Me impressiona a regularidade e mesmo o nível intelectual do que ele compartilha conosco que acompanhamos seus escritos naquele blog. Mesmo seus textos mais pessoais (não que eu ache ou fique nos achismos de pensar que existam textos que não são pessoais) são tão analíticos e profundos quanto os explicitamente voltados para análises políticas, econômicas, culturais, etc. Mas, isso é outra história. Sendo assim, isso aqui, o hoje, é um misto de várias coisas. Introdução longa.
Falarei sobre o Alexandre e sobre o que do Alexandre me fez escrever aqui, mesmo que agora, na distância, eu consiga, mal e porcamente, organizar as coincidências da vida que me fizeram dizer o que digo.
    Conheço, se é que conheço, se é que conhecemos alguém, o Alexandre há quase dez anos. Estudamos juntos durante algumas disciplinas obrigatórias no Mestrado que cursamos na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sempre me chamou atenção, mais do que dos outros colegas, o grau de inteligência que ele apresentava em seus comentários, suas críticas e a maneira como se colocava, sem medo, nos debates que surgiam naquela disciplina. Ali se apresentava o que se concretizaria, melhor, o que se concretizará no decorrer dos próximos anos: Uma certa geração com seus 30 anos que tem pensado, agido, refletido, em algum momento, sobre nossa sociedade no tempo e no espaço – próximo ou longe nesse mesmo tempo e espaço. Ou seja, sem medo do peso arrogante que a palavra tomou, uma nova geração de intelectuais que, de alguma maneira, tem atuado, por exemplo, no espaço universitário.
            Alexandre é Professor de História Antiga na Universidade Federal Fluminense, foi aprovado num certamente de grande concorrência na vaga gerada pela grande perda que foi a morte do Ciro Flamarion Cardoso. Enfim, isso diz algo ou não diz nada. Diria muito ou muito pouco. Isso nada interessa ou interessa muito. Pode ou não. A questão não é essa. A coisa aqui é outra. Então, os meandros de sua carreira universitária não nos importa muito. Importa, talvez, por exemplo, certa vez em Salvador, sua simplicidade bebendo cerveja comigo madrugada adentro junto com alguns orientandos meus e a boa impressão que ele deixou para os mesmos e a confirmação do que eu sempre dizia e digo para os alunos que trabalham ao meu lado com pesquisa: Os melhores aprendizados acontecem em momentos de mais puro prazer intelectual: na mesa do bar, na boemia, na madrugada.
            Há quase um ano, me lembro dele me informando que ia ser pai. Na cautela racional que sempre apresentou, avisou de forma taxativa: “só não divulga, pois sabe como é, os primeiros meses são sempre complicados numa gestação”.
Tenho por característica quando alguém me pede segredo, não informar nem mesmo a deus. Às vezes até esqueço o que me contaram. Desde criança tenho esse problema ou virtude. Não sei explicar.
            Seu filho Gabriel nasceu com saúde, na mesma época ele foi aprovado em concurso público e a vida seguiu em passos largos, não sem dificuldades.
            Novembro passado, encontrei Alexandre num evento acadêmico no qual os dois fomos convidados em nossa antiga instituição de formação para, além de avaliar trabalhos de mestrandos e doutorandos em nossas áreas de especialização temática, ministrarmos uma pequena palestra sobre o que vínhamos pesquisando em nossas universidades. Evidentemente, os horários eram paralelos e não pudemos nos assistir. Mas o que ficou desse encontro recente com meu amigo de época de pós-graduação foi uma conversa pela manhã, antes das atividades se iniciarem, e que guardo na memória com muito carinho e registro aqui com muito zelo e profunda admiração.
            Diferentemente de todas as pessoas com quem já conversei que são pais recentes ou de primeira viagem, ou pais há mais tempo, ou profundos defensores da paternidade/ maternidade, Alexandre respondeu minha pergunta educada de “como vai o moleque?” com a naturalidade e simplicidade de que lhe são características: “Rapaz, o moleque vai bem, cai pra baixo e pra cima. O que mais faz é cair. Mas está numa fase muito legal de se reconhecer como gente. De se olhar no espelho e se perceber”. Não sei por que cargas d’água nós entramos no tema “animal de estimação”. Creio que fui eu, não sei, talvez, muito talvez mesmo, por me sentir um tanto deslocado na coisa da coisa de “ser pai”. E sabendo que o Alexandre antes de ser pai é dono de gato e cachorro, me senti próximo nesse tema e puxei, associando ao Gabriel, como ele lidava com a presença dos bichos em casa com uma criança em franco crescimento físico e psicológico.
            Alexandre riu e contou as peripécias do rebento e sua relação com seus animais: “Tudo na mais tenra ordem louca”. Confesso que às vezes me assusta muito sua racionalidade, basta ler os seus textos-opiniões no seu mural do Facebook sobre política e mesmo amenidades. Infelizmente, o Alexandre não possui um blog, mas tudo lá é público, então vale a pena dar uma conferida, mas deixo aqui minha reclamação formal: ia ser muito legal se o Alexandre tivesse um blog. Enfim, com sua velha e conhecida maneira lúcida e racional de falar, mas sem perder o maravilhoso tom de moleque de Campo Grande, aquela coisa que só quem conhece a Zona Oeste sabe, bradou: “Porra, fico impressionado com a diferença gritante entre cachorros e gatos. O primeiro come o próprio vômito, a merda, é sempre bobo e fiel na sua dedicação quase triste ao dono. O gato não, o gato está ali, sempre muito imponente, limpo, sagaz”. Evidente que as palavras transcritas são chulas paráfrases que eu nem devia me aventurar a colocar entre aspas dos sons que saíram da boca do Alexandre, mas, ele que me perdoe ou vá se foder, pois O Ventríloquo é meu e não dele. Mas, foi mais ou menos esse o conteúdo de sua fala.
            Eu na minha humildade e um certo ar constrangido fui comentar sobre o meu gato Gregório, o apego que tenho por ele, como lido com o bichano, relatei um porre que tomei e quando bêbado sentado no chão da sala dei a chorar quando olhei para ele olhando para mim. E dei a bradar: “Um dia morrerá, pobre Gregório. Um dia você morrerá! Puta que pariu, você morrerá!”
            Alexandre riu. E ríamos. Quando perdi um pouco a vergonha, perguntei na mais juvenil curiosidade: “Você não acha meio irracional minha atitude? Comecei a me achar mais sensível a tudo à minha volta: pessoas, animais, água, planta...” E ele: “Não, ao contrário. Ter um bicho de estimação me deixou muito racional. Ser pai é que me deixou irracional!”. Aquilo me assustou pela severidade da frase e não pude silenciar, afinal, eu e Alexandre temos a mesma idade e apenas meses nos separam e era a primeira vez que eu ouvia um pai, ainda mais de primeira viagem, me dar uma resposta que mais se aproximava do que eu pensava e tentava argumentar com todos os “pais babões” – não que eu não vá ser um dia um “pai babão” também –, mas que no capital simbólico de “serem pais” e “você não” sempre me apunhalavam: “Você não entende. Você não é pai”. Alexandre explicou:
“Ter um bicho de estimação me deixou mais racional. Eu sacrificaria meu animal se por ventura o visse sofrendo e sem a mínima solução, isso seria o racional, o mais correto a se fazer. O Gabriel me deixou irracional no sentido de que penso mais com o coração. Recentemente – ele relatou um dos tombos do filho – ele caiu e bateu a cabeça. Fiquei um tanto desesperado e eu e minha esposa ficamos na dúvida de fazer ou não uma tomografia numa criança tão pequena e o excesso de radiação na cabeça do nosso menino. Tivemos que buscar no fundo da mente uma racionalidade que nos fizesse colocá-lo diante de um mínimo, porém, eminente tipo de risco. Fiquei ligando constantemente para a pediatra, monitorando, ficando sem dormir. Ou seja, parece racional isso, mas no fundo, não é tanto. Pois estávamos quase neuróticos por causa do tombo”.
O evento iniciou, o evento terminou. Nos sentamos os dois no Amarelinho, vendo quem ia e vinha, bebemos uns muitos chopes, depois cada um foi para o seu lado: Eu fui beber mais chope em Botafogo antes de pegar um voo no Santos Dumont, Alexandre voltou para a rotina da paternidade.
Meu gato agora mesmo subiu na minha perna, bateu com a pata no meu braço e miou. Me chama para algo que não sei: deve ser para correr atrás dele, vê-lo comer, limpar sua caixa, não sei. Não mio, não falo a língua dos gatos. Fico pensando que o Gabriel deva agora estar andando, dando passo a passo, o Alexandre e sua esposa rindo, olhando, observando. Logo ele falará nossa língua, xingará como o pai, defenderá suas próprias posições políticas, debaterá num mundo em que eu e o Alexandre em nossas aulas lutamos para ser melhor. Me parece ser um bom pai. Me parece que ajudará a educar ao lado de sua esposa um bom cidadão. Tudo me parece. Meu gato desistiu e foi embora do meu escritório. Deitou na porta. Eu não faria isso com o meu filho: acho que eu largaria tudo e ia ver o que ele queria.
            Ontem ele entrou em contato comigo via Facebook solicitando um e-mail de um professor. Comentei sobre nossa conversa, a de novembro. Sobre esta de agora e sobre tantas outras conversas. Rimos um pouco. Falei do impacto do que ele disse naquele dia e que iria colocar isso no papel ou num papel metafórico. Ele riu. Eu disse que muitas vezes ouço de conhecidos que são pais, recentes ou não, frases do tipo: “Sua vida só terá sentido quando tiver um filho” ou “Sua vida terá um objetivo maior.”. Sempre achei e continuo achando que minha vida tem um objetivo desde que nasci, independente de ter ou não, ajudar ou não a por outra vida no mundo que, sejamos sinceros, não é mais lá um mundo muito digno de ser vivido. Comentei que muitas vezes eu achava piegas, apesar de entender todo o amor envolto às crias, esse tipo de afirmação. Alexandre riu e disse, aqui o cito ipsis litteris: “É piegas mesmo. Eu acho que filho não dá sentido pra viver. Acho que dá sentido pra não morrer... Que tu fica pensando: “Caralho, se eu morrer e esse filho da puta precisar de mim?”."
            Eu precisava voltar ao trabalho, ele também. Nos despedimos. Pois a vida é, no fundo, despedida mais do que chegada.
            E acho que o Gabriel aprenderá muito bem isso com os pais que tem. Seja bem vindo, moleque, mas não esqueça o até!

             

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A nostalgia contemporânea, os cabelos cacheados, o velho novo mundo

Acho que começou como eu queria, me parece que a voz ecoou consideravelmente na conversa de abertura do velho Ventríloquo. Acho que hoje posso fechar a parte dois da saga “A nostalgia contemporânea” que se iniciou naquela mesa de bar virtual do texto passado. Assim como aquele, este já estava pronto, como pronto estão sempre meus tons de voz, seja pedalando, dirigindo ou caminhando, não necessariamente nesta ordem vulgar de coisas. Converso sozinho. Mas, sozinho não me construo.
Ficou claro o impacto marcante da minha última ida ao Rio de Janeiro e lembrei de algumas coisas fundamentais percorrendo a cidade acordando: Os mendigos se recolhendo, os trabalhadores vindo do subúrbio, o boteco, a lanchonete de sucos. A vida pulsante na grande cidade. Se é que a vida pulsa ali ou se é que não pulsa já da mesma maneira nas pequenas capitais.
Começo pelo “velho mundo”. É fato, meu velho mundo morreu, talvez, ainda restem resquícios fortes e necessários de reavivamentos de memória. Mas, isso, não lembro se comentei, aos poucos, apesar de estrangeiro em terra minha, com cada pedalada, cada passo trocado e esbarrão de ombro na pressa das calçadas cheias, fui readquirindo o velho traquejo, a ginga citadina. Ao menos, do menos de tudo, o sotaque não perdi. O mundo que é novo, não deixa de se inserir no mundo que é velho, mas as coisas mudaram. A questão é: os valores não podem mudar e essa luta é diária, é constante. Que seja. Me recordei dos cabelos cacheados da menina. A história é curta e vale um chope. Nada demais. Talvez, eu até seja tacanhamente poético. Ou não.
A coisa toda perde acento, pois não lembro seu nome e vagamente consigo desenhar com palavras como caminhava, meio desengonçada, meio menina magra. Mas de uns olhos de um profundo verde e cabelos castanhos cacheados. A pele branca porcelana. Ela acreditava na revolução. Eu não. Talvez, a única amiga que me sobreviveu verdadeiramente de amizade na época de graduação em História se lembre. Mas eu não. Eu não lembro e não acreditava na revolução. Aliás, eu não acreditava em muita coisa além daquilo que eu necessitava questionar.
Eu me recordo bem que ela me pedia suplicante que tocasse Lua de São Jorge no violão e eu não sabia que raio de música era aquela – hoje eu entendo – mas na época eu não entendia e continuava sem entender. Ao passo que o tempo foi passando, fui ficando cada vez mais relapso com o que havia de sonho na realidade daquela menina. Só sei que ela começou a namorar um cara do subúrbio como eu, de um subúrbio melhor subúrbio que o meu, perto de uma linha de trem, mais perto do que a linha de trem que passava no meu subúrbio. Ela e ele acreditavam na revolução, talvez, ele menos que ela, ou mesmo ele não. Eu era certo que não.
Eu tinha lá minhas predileções. Na verdade, queria descer a ladeira da minha casa e voltar em paz e sem ser assaltado. Conseguir de alguma forma me sustentar com aquilo que eu gostava e havia escolhido fazer. Para os meus pais aquilo tinha uma importância tamanha: Eu ser feliz. Meu pai e minha mãe eram revolucionários. Foram revolucionários. Eu estava sendo revolucionário não sendo revolucionário? Afinal, se eu fosse revolucionário como os meus pais, não estaria sendo conservador demais? Coisas de menino.
A questão é que meu pai saiu criança dos rincões do Paraná direto com a família para ser colono em Cordeiro no Rio de Janeiro – ele me re-contou essa história recentemente enquanto me visitava, aliás, quando voltei de minha rápida viagem ao Rio. Lá, ele ordenava vacas, cuidava de bois no pasto, tinha oito anos. Seu irmão mais velho, aos doze rumou para a capital e foi trabalhar abrindo valas, aquelas valas largas em Manguinhos para passar a tubulação. Comprou um sítio em Mesquita, no alto do morro e voltou para Cordeiro aos dezesseis anos, pois aos dezesseis anos dele Mesquita era um buraco perdido qualquer. Meu pai conta que lembra bem: “Vamos embora, vamos para o Rio”. Papai se escondeu no pasto, gritava que não queria abandonar as suas vacas e que viver na cidade grande ia ser ruim. Meu tio também já me contou a história, mas em tom gozador da frouxidão do meu pai garoto.
Minha mãe sonhava em ser enfermeira. Ela tinha que ser enfermeira. Mas parou de estudar para sustentar junto com a irmã mais velha uma casa com mais cinco irmãos. Como nômades de um pai ótimo sapateiro e uma mãe ótima cozinheira viviam de casa em casa de favor. Quando eu tinha oito anos de idade minha mãe se formou num curso de auxiliar de enfermagem e passou a dar plantão. Quando eu tinha vinte, minha mãe orgulhosa terminou o curso técnico de enfermagem, só pelo prazer de dizer que era técnica em enfermagem. Para os meus pais, o Segundo Grau técnico era um título grandioso. Não era mentira. Eles acreditavam na revolução. Eu não. Coisas de menino.
Mas, as pessoas mudam. A revolução que eles falavam era baseada no estudo. E para meus pais tudo de mais importante na minha vida deveria perpassar pela leitura e pela escrita. Logo, pela escola. No fundo, meus pais não sabiam ou sabiam. A revolução pela qual eles lutavam se concretizaria em mim e o instrumento era a educação familiar e a aquela que eu receberia em boas escolas, nas melhores escolas que eles poderiam me dar.
Meu pai, quando defendi minha tese, não chorou, esboçou alívio. No dia dos pais, de surpresa, enviei por Sedex um exemplar encadernado com dedicatória em sua homenagem. Aliás, na dedicatória de minha tese se lê:
“Dedico esta tese à minha mãe, Isabel Cristina Gonçalves Alvaro, por me ensinar o amor ao trabalho que extrapola as lógicas da vida; ao meu pai, Apparecido Alvaro Filho, por me ensinar a responsabilidade que traz a dedicação ao ofício que escolhemos para sobreviver. Vocês dois são meu maior trunfo e orgulho! Meus melhores professores!”
Dias depois, mamãe me contou por telefone que meu pai, ao atender seus clientes na rua, em dias de trabalho, estava carregando o exemplar nas mãos e antes de oferecer os produtos – meu pai é representante de vendas de uma empresa Química, o melhor, diga-se de passagem – mostrava orgulhoso as poucas páginas que redigi para obter o tão sonhado título de doutor em História. E meu pai tem um orgulho que talvez eu não tenha: meu filho é verdadeiramente um doutor. Meu pai acredita na revolução. Eu também. As pessoas mudam. Gostaria de me encontrar, talvez, cruzar meus olhos com a menina da graduação, apenas perguntar: Fulana, como vai você? Eu agora acredito.
E foi essa crença maluca que me levou a pegar um metrô até Botafogo quando o Diego Viana me enviou uma mensagem, avisando que estaria por lá com mais uns amigos. O Viana deve ser um dos últimos jovens bastiões que tentam heroicamente manter uma certa regularidade de boa reflexão em bloges quando o sumidouro das redes sociais tragou o velho e bom debate. A nostalgia.
A média de idade naquela mesa de bar pairava nos doce trinta e poucos anos, mas a nostalgia que imperava ali parecia que cada um de nós havia vivido vários verões. O Ventríloquo data de 2007, antes disso viajei por blogs comunitários de literatura, vendi poesia para gringos na Lapa, recitei no Castelinho do Flamengo. Mas nada foi mais visceral do que o blog. Não sei de quando data o Pra Ler Sem Olhar, aliás, não sei como fomos nos descobrindo. Acreditamos na revolução pela escrita.
O curioso ali naquela mesa eram as ideias se construindo entorno da nostalgia. Piadas nostálgicas, velhos jovens que haviam sido tragados pelos likes do Facebook e que se queixavam da ausência dos debates nas caixas de comentários. Falava-se em feeds, googleranks, palavras chave... E a nostalgia, a cada tulipa de chope suada, naquele dia suado, naquela noite que se rasgava em São Sebastião do Rio de Janeiro, tudo se crivava. Não pude ficar. Mas enquanto, meio bêbado de sono ou de cevada, eu observava a escuridão da baía de Guanabara com um vento fresco e pesado que entrava pela janela do táxi, só pude recordar: eu acreditava na revolução e vivia agora a nostalgia da contemporaneidade!

sábado, 21 de agosto de 2010

Sem aquela velha vontade de chorar segui sorrindo. O sol se pondo atrás de mim, ficando pra trás Anchieta, Deodoro e Hermes da Fonseca... O ventinho do subúrbio, bem perto do inferno que é o calor de Bangu. As pracinhas lotadas e o friozinho do inverno na Zona Oeste.
Ou como não lembrar do escorrego da pracinha em Realengo, um outro extremo de história. Atravessar atentamente a Água Branca com medo de morrer atropelado. A vó dando dinheiro pro hambúrguer da Dona Idê a “mulher do Dê”. Como não sorrir com os tios sacaneando o coitado do maluquinho que morava do outro lado do muro: “Déda? Já vai...”. O pedaço de algodão com iodo colado no teto do quarto das tias. A biblioteca cheia de livros do Tio Deir... Ou o cheiro de cola de sapateiro na pequena oficina do avô. Os natais recheados de presentes, empadas de tabuleiro, rabanadas e pasteis. Acordar cedo e ir pra feira ver meu avô negociar seus curiós. E o Bob? Cachorro estranho que viveu mais de 15 anos cuidado a pão de ló. O fim de tarde hoje está parecendo com aquele da velha infância em Realengo. E eu nem sei mais.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A tristeza de um folião...

Cordão do Boitatá 2009 - Thiagão no fundo, eu no centro e palhaço desconhecido no braço - Foto da Preta


Acho que anda ficando evidente: tristeza. Muita coisa boa, sem dúvida. Mas a tristeza vem como vento, às vezes. Você se desvia, mas tudo te faz lembrar de um momento, de um período, de um segundo exato, quase que parado nas teias do tempo. Comovente, não?
“A memória é seletiva” sempre disse a Preta. Menos mal, para onde olho aqui, não lembro do carnaval que cresci vendo. Só ouço a palavra. É carnaval. Porém não é meu carnaval, nem pior ou melhor, apenas não é meu. Não posso listar nada que me incomode, não são muitas coisas nem poucas – não são listáveis. Apenas não estou onde queria estar, não suo como queria suar: paciência (coisa que não tenho).
Na TV, um documentário sobre um bloco tradicional do Rio de Janeiro: O Cacique de Ramos. De quebra ainda um destrinchar sobre outro que tem se tornado um dos melhores blocos para se perseguir com a família: O Cordão do Boitatá.
Com este último tenho uma relação muito íntima, quase religiosa, me aproprio aqui da tese de Aldir Blanc em letra que veste a belíssima melodia de Moacyr Luz, em Vitória da Ilusão se argumenta: “Carnaval, missa campal do povo brasileiro/ Onde a hóstia sagrada é o pandeiro/ Carnaval, celestial império do trambique/ Onde o crente idolatra o repique...”. E é mais ou menos isso mesmo. Difícil não dar nem que seja uma espiadinha nos desfiles, não acompanhar o Jorge Perlingeiro abrindo os envelopes, dando as notas... Você ali, sentado no chão da sala de estar com amigos depois de uma rabada de boi, depois de passar o final de semana inteiro correndo atrás de blocos de rua no Centro.
Como se cansar saindo atrás do cortejo do Boitatá, em pleno domingo, às 8:00 e continuar no seu baile aberto na Praça XV até às 16:00? E ainda pedir mais! Como se cansar? Comer milho cozido e salsichão o dia inteiro. Bebendo cerveja latão, tomando banho de água de gelo dos isopores... como se cansar? Meu camarada: “só se for agora...”. Mas não é...
As figuras lendárias do meu carnaval de rua: Kimon, o verdadeiro carnaval é ao seu lado. Thiagão e seu chapéu de camisinha da rádio Globo! Renatinha e Brunão, com os roteiros de blocos sempre guardados na bolsa... Esses dois só vejo nessa época mesmo. Pauli e Amoreco... Eu e Preta! Dá-lhe cerveja, dá-lhe barganha com os camelôs... “Só se for agora...”. Mas não é...
Como se cansar de ouvir Moyseis Marques (fantasiado de Moyses!)? Teresa Cristina e sua tradicional camisa de times! Pedro Miranda e sua peruca loira? Ali, cantando no palco do Cordão do Boitatá e a gente lá embaixo pulando no sol escaldante... Torcendo pr’algum camelô jogar pro alto gelo derretido... Dali puxar para Zona Sul, metrô lotado... Fantasia de tudo que é tipo... calor e você: sorrindo. E se me perguntam: “mas hoje você está melhor?” Eu respondo cantando: “Carnaval passional:/ Veias de serpentina,/ A alma de isopor e purpurina...”. Carnaval e carnaval e como diria o jovem Chico Buarque de Hollanda, lá pelos idos de 1966: “Era uma canção, um só cordão/ E uma vontade/ De tomar a mão de cada irmão pela cidade/ No carnaval, esperança/ Que gente longe viva na lembrança...”. E esses irmão, estão aqui, no coração e na lembrança! Bom Cordão do Boitatá para vocês galera!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Um domingo



Algumas coisas engraçadas da vida. Estava agora pouco no banheiro e me lembrei do último – ou penúltimo – poema que publiquei em uma antologia. Na verdade, há um imbróglio nisso tudo, o editor me pediu uma crônica, acho que já ficou visível que não sei escrever crônicas, fiquei, então, uma semana, mais ou menos, maturando sobre o que escrever. Então volto pro banheiro, melhor, para minha memória de agora pouco no banheiro. Vi uma barata, na época e agora. O que deveria nascer como crônica se inspirou numa barata.
Terminada a escrita, olhei bem e gostei do que havia colocado no papel, mesmo sabendo que “papel agüenta muita lorota”, como já disse Graciliano Ramos. Todo empolgado, sem medir tempo ou qualquer outro tipo de força maior, enviei para o editor, que tenho certeza, não pensou muito se era crônica, piada, poesia ou prosa, ou mesmo um rabisco qualquer. Entrou na antologia de crônica uma prosa poética, intitulada Livros, que satisfeito eu dedicara ao meu primo Gustavo Alvaro. Como crônica, era um desastre, mas como prosa poética, era bela as letras no papel.
Amanhã o moleque vem aqui almoçar comigo, o último almoço na casa dos meus pais. Pela manhã levarei minha esposa ao aeroporto para se despedir de uma irmã que veio ao nosso casamento e que mora na Bahia há alguns anos. Depois a deixarei na casa de uma prima e volto para almoçar em casa – domingo será dia de despedidas, para ela e para mim.
Enquanto relembro causos aqui, nesse último fim de semana no Rio de Janeiro, na casa de meus pais, com a presença dos meus amigos, com o som do samba, do violão e da flauta. Meu peito bate como um bumbo, caminho como que seguindo marchinhas de carnaval de rua. Ouço em silêncio o belíssimo cd Samba da Cidade, gravado em 2005, por Moacyr Luz, artista que me consolou todo tempo em Aracaju. Esse disco, um daqueles que você só empresta para grandes amigos, é recheado de preciosidades, canções lindas, eu listaria aqui várias que me tiram lágrimas dos olhos: Som de prata, parceria lindíssima do violonista com o poeta Paulo César Pinheiro, escrita em homenagem a Pixinguinha. Ou então, Vila Isabel, feita com Martinho da Vila, a fantástica Praça Mauá: Que mal há? com o craque Aldir Blanc, esse, sim, um dos grandes cronistas cariocas. Porém, uma em especial embala minha noite hoje, fim de chuva, o calor voltando, raios longínquos mas sem amedrontar, uma preguiça gostosa depois de uma boa feijoada em Padre Miguel, um gosto de caipirinha com cachaça mineira na boca, uma coisa que só eu sei. Uma música que me fala muito, que me embala esse fim de jornada. E que por ironia do destino se chama Tudo que vivi. Essa parceria fantástica entre Moacyr Luz e o grande Wilson das Neves me tirou lágrimas hoje. Mas curioso ainda é o verso: “no anel de ouro o meu santo forte”. São Jorge. Não sou católico. Mas é engraçada essa coisa desse santo, o santo guerreiro. Me lembro que foi estudando São Jorge que ingressei na vida acadêmica, sobre ele ou pelo menos inspirado em como a cavalaria na Idade Média se inspirava nele, que iniciei minha jornada e é assim tudo que vivi:

Quando dei por mim mudei de caminho
Encostei no fundo do coração e cantei sozinho
Fiz um tamborim com as minhas mãos
E a canção surgiu
Como nasce a luz numa escuridão
Minha inspiração.
Me lembrei de mim lendo a minha mão
E a melodia bordando contas do meu cordão
Tudo era destino
Tudo aconteceu
Pra dizer em verso o que minha vida já escreveu.
Com amor amei
Árvores plantei
De me emocionar sempre que aprendi
Nas vezes que errei
No anel de ouro o meu santo forte
E por isso eu digo pra Deus: Oh sorte que te encontrei!

(Moacyr Luz e Wilson das Neves)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

25 de dezembro de 2009

É bom que se saiba que eu estou aqui. E que vejo no natal minha agonia. É bom que se saiba que estou só. Mas que não sinto pena de mim e de ninguém.
E eu estou aqui, mais um natal. Natal que só existiu para mim quando criança. Quando ainda banguela, quando ainda existia O Vila em Realengo. Quando ainda era proibido para mim atravessar a estrada da Água Branca. Quando percorríamos a calçada até o mercado Rio ou até a Casa da Banha para comprar pão de rabanada. O colo da avó, as histórias do avô.
Não, eu não prezo mais pelo natal. Fico agoniado, estou sempre sozinho. Sempre acontece alguma coisa e eu fico só. Há anos a ceia é comida no almoço do dia 24. Há anos minha mãe dá plantão no hospital e agora que está em casa se recolhe para dormir. Meu pai adormece no sofá, logo a acompanha. Fico só. Alguns bons amigos ligam, os de sempre: Thiago, Kátia... Agora tem o Kiko. Atendo o telefone constrangido. Não gosto do natal. Como explicar isso. Músicas natalinas me perseguem até no laptop. Que inferno!
A televisão só passa filmes sobre Jesus. Desenhos sobre o natal. Ensaio um sorriso amarelo. Me recolho e visto a solidão habitual. A noite vai se seguindo, ainda é dia 24. Nas páginas de relacionamento, aquelas mensagens prontas. Todos parecem amar o natal – menos eu.
Vou dormir. Não ouço fogos. Sorrisos. Nada.
Me levanto tarde. É dia 25. Uma chuva fina cai na cidade. Está trovejando. Quantos meses não ouço um trovão? É natal. É o meu natal.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A gente vai ficando velho... (Os sinais do tempo)



Os indícios da velhice são curiosos. Apesar dos 26 anos que me caem até bem, a vida sossegou para mim. Assim começo a prosa de hoje: reflexivo e engraçado até! Alerto que nosso bate papo vai ao som do belíssimo disco A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro de Moacyr Luz sendo acompanhado pelo maravilhoso sexteto de choro Água de Moringa – qualquer dia desse falo sobre o trabalho no blog Retropleco.
Bom, eu estava falando sobre os sinais da velhice, no meu caso, vindo mais cedo. Ontem – ontem já, não é? É madruga, então sim! – fui dar minha rotineira aula de História Medieval I na Universidade Federal de Sergipe, cheguei um pouco mais cedo, pois queria atualizar algumas coisas, me sentar um pouco na minha sala, relaxar no... silêncio?!?!
Na quarta-feira estavam montando um palco próximo ao prédio do Centro de Educação e Ciências Humanas, quando passei de tarde com um amigo, não demos muita bola, nem sabia o que era e nem quis saber. Descobri hoje! Uma festa universitária, até aí, nada demais para mim que fui freqüentador assíduo com meu amigo Thiago Porto, na época do IFCS-UFRJ, das festinhas promovidas pelo CAFIL e outras pela galera do PSTU. Bom, nordeste, forró. Rio é samba. Tanto um quanto outro, penso eu, combinam com sexta-feira a noite. Penso eu. Mas não é bem assim...
Enquanto ainda estava silêncio, relia eu Ano 1000, Ano 2000: na pista dos nossos medos do Georges Duby, quando, de repente, tudo treme! Sanfona pr’um lado, arroxa pr’o outro... Desci, faltavam ainda uns 30 minutos para minha aula, encontrei uns alunos e uns orientandos. Conversa vai, conversa vem, percebi que eles estavam mesmo com vontade de curtir um forró do que ouvir sobre História Medieval – natural isso. Acontecia comigo, só que por causa de rock ou mesmo samba. Liberei os que estavam a minha volta, fui para sala lecionar para os poucos que ficaram comigo e abonei as faltas até daqueles que nunca apareceram.
Mas não é por isso que me senti velho. Não é contraponto: energia deles, juventude deles (que é a minha também, já que alguns quase têm a minha idade) e cansaço meu. É uma coisa diferente. Uma coisa do sossego. Já não tenho mais o mesmo pique. Agora você até me questiona: mas você é tão jovem! Sim, concordo. Mas viver como vivi e o que vivi. Os abismos que me lancei. A entrada na universidade cedo demais. O mestrado. O doutorado. Encontrar Ana: sossego. Acho isso engraçado. Ensaio uma saída com o Kiko: desisto. Até porque ele também é assim! Vamos ni ritmo coca-cola de ser: quando abre a garrafa, muito gás, depois, vai ficando xoxo.
O primeiro sinal de que se está envelhecendo é quando sossegamos o coração. Quando ser quer o samba em casa. Quando se quer a flauta serena e não mais ponteando em saraus madrugueiros. Gustavo que o diga! Já viramos noites tocando violão e flauta e bebendo, bebendo e bebendo! Thiago Porto que o diga: quantas noites não vimos nascer no Abracabra? Na Lapa? Ana que o diga: quantas vezes não nos aventuramos sem lenço e sem documento pelas ruas do Rio de Janeiro? Quantos carnavais? Quantas vezes não dancei a valsa do trocar de pernas?

O samba agora está em casa. De vez em quando até uma cerveja com um ou outro antes de voltar para o mingalzinho de cremogema. Mas é de vez em quando. O samba está em casa.
Nessa mesma quarta-feira do palco sendo montado que anos atrás não me passaria despercebido, aconteceu outra coisa curiosa (o segundo sinal da velhice). Chegou para mim, LP raríssimo. De um lado, Tom Jobim tocando pela primeira vez em disco Águas de Março, inclusive, única gravação que ele só canta e não toca instrumento nenhum (já fica raro por isso, sem contar o andamento da canção, completamente diferente do comum). Do outro, um tal de João Bosco, com seus 24 anos, desconhecido ainda. Bom, se o João Bosco, ainda era desconhecido nesse disco, um mero, digamos, sonhador, é raro mesmo e antigo!
A bolachinha, chamada O tom de Antônio Carlos Jobim e o tal de João Bosco, faz parte de uma série intitulada Disco de Bolso, uma tentativa, que durou apenas mais um número (com Caetano Veloso de um lado e um estreante chamado Fagner de outro), da revista O Pasquim de impulsionar o lançamento de novos artistas. Foi vencido pela censura ditatorial dos anos 70 e pelo mercado fonográfico que já era massacrante naquela época.
Bom, a revista-disco raríssima é digna de todo meu orgulho. Eu tinha que mostrar para alguém que entendesse. Kiko, não tinha dado as caras no dia. Gustavo estava no Rio de Janeiro. Minha Ana, atarefada com coisas do nosso casamento, não ia ouvir direito e sacramentar minha velhice. Me restava o grande Augusto, gaúcho que chegou à UFS quase ao mesmo tempo que eu, umas semanas depois, para lecionar Teoria da História e que tem sido grande amigo aqui. Além de ser um augusto (sempre faço esse trocadilho com seu nome) conhecedor de vinhos e música boa. Nesse caso estou bem: somo ele e Kiko e tenho uma enciclopédia de boa música! Sem contar que de um lado meu amigo carioca assistiu show antológicos que eu não me canso de pedir que ele conte e reconte e, do outro, o gaúcho, tem no currículo da vida (esse é melhor que qualquer Lattes) nada mais nada menos do que dois shows ao vivo do grande Gonzaguinha! Continuando...
E ficamos os dois, ali, no carro, olhando o disco, a revista, os olhinhos brilhando, como se fosse a coisa mais fantástica das nossas vidas! Várias interjeições gaúchas e cariocas se misturando ao olhar atento para um Tom Jobim sentado recostado numa árvore, tocando flauta transversa, lendo uma partitura, estampada na parte de trás do biquíni de uma mulher vantajosa (a foto acima). Estamos ficando velhos.
Terceiro sinal: Eu vou casar. Prefiro a poesia em casa, com a cerveja gelada em casa, com a preta em casa. Vou casar. O sossego prova isso. A vontade e o cheiro do sossego. As cadeiras de praia no domingo. O pão quente de manhã. A saudade apertando. A lembrança de um tempo que vai ficando para trás... Lembrança que não é saudade, é apenas lembrança. E o sol só nasce na minha cama agora: deixo a vida solta para meus alunos, já tirei meu time de campo!
Aliás, querem coisa mais velha que ficar lembrando as coisas? Quer coisa mais velha que ser um ventríloquo, puxar conversas longas e escrever e-mails enormes? Pois então!
O quarto sinal, eu teria vários, mas esse é o último, vem inversamente. Porém, pode ser o quarto. Dia desses fui almoçar na casa de um aluno. Uma festa. Um dos dias mais alegres e familiares que tive em Sergipe. Aquela família grande, tipicamente nordestina, receptiva, carinhosa e brincalhona. Lembrou a minha e isso me fez ficar à vontade (como se fosse difícil). Pois bem, eis que falta gelo para a cerveja! Aventura! Pegamos o carro do pai do Aquino e fomos atrás desse elemento fundamental para qualquer cervejeiro (tirando a cerveja, é claro). Rapaz, eu não lembrava como era gostoso essa coisa de pegar um carro de pai emprestado e ir pelas ruas sem saber o rumo certo. O que me pareceu era que o carro era tão desconhecido para mim quanto o era para os demais ocupantes! Liga rádio. Não Liga rádio! Como se liga o rádio? E esse negócio do gás natural? Aventura! Na última voz d'O Ventríloquo, eu rememorei meu encontro com o Douglas Cezário e narrei a história do fusca do avô do Bruno Henrique (nosso guitarrista) e dos outros carros da nossa adolescência. Bom, é sinal de velhice! Sinal de velhice maior foi ter ficado super cansado após a busca pelo gelo. É, tempos outros, que venham outros para me substituir!