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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

“Porque a revolução é uma pátria e uma família” – Em Capitães de Areia (1937)

 


“A temática das crianças que vivem nas
ruas continua bastante atual. Para escrever
Capitães da Areia, Jorge Amado foi dormir no
trapiche com os meninos. Isso ajuda a explicar
a riqueza de detalhes, o olhar de dentro e a
empatia que estão presentes na história.”
Zélia Gattai Amado


Eis que estou aqui. Pois fugir de si mesmo quando nos olhamos no espelho é impossível. Mas eu sentia que faltava alguma coisa e mesmo que eu já não veja sentido, ao menos que eu me esforce para dar sentido ao que comecei. Já conversei com você há tempos sobre Capitães da Areia, publicado originalmente por Jorge Amado em 1937, livro que sucede Mar Morto e antecede ABC de Castro Alves. O que eu te disse, continua valendo, porém, veja bem, se me prontifiquei a dar sentido à coisa toda, devo dar sentido. Faltava algo. E em meio aos turbilhões da minha mente, como vastos cachos de uma cabeleira esparsa ou mar de viração: encontrei.

Já estava lá há semanas. Um quê qualquer de presságio não me deixou fazer o que eu queria. E eu gosto de liberdade. Faltava a foto da capa do livro na edição de 2008, com posfácio de Milton Hatoum, com capa azul céu (ou mar) sobre fotografia intitulada Jogo de Capoeira, de Marcel Gautherot. Tirada em Salvador, c. 1940-5, é uma obra de arte. Mas faltava a minha própria foto do livro como um todo. Encontrei.

Dedicado, entre outras pessoas, à Anísio Teixeira, Capitães da Areia é um dos romances mais conhecidos de Jorge Amado, seu sexto para ser mais exato. O ano de 37 do século XX marca, também, a perseguição de Getúlio Vargas aos comunistas e os livros de Amado sendo censurados e queimados em praça pública na sua adorada “cidade da Bahia”, Salvador. Entre as cinzas se formando no ardor da fogueira estavam as páginas do recém-publicado Capitães da Areia.

Li quando menino a história de Pedro Bala e seu grupo tão variado. Não tão menino. Li adolescente. Alguns anos após a chacina da Candelária, que ocorreu aos pés da famosa igreja carioca, na noite do dia 23 de julho do ano de 1993. Coincidentemente, no acervo da Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, há uma carta do autor emitida do México para Anísio Teixeira, em 26 de julho de 1937, informando ao intelectual, entre outras coisas, que para o fim do mês seguinte seria lançado seu último romance e que ele seria dedicado à Teixeira “em sinal de admiração, amizade e gratidão” (ver carta no anexo final da edição de 2008 da Coleção Jorge Amado – Editora Companhia das Letras). Datas próximas, anos distantes. Mas adocica um pouco nossa prosa, mesmo que com ar de tristeza, você não acha? Eu até acho que prendo sua atenção com isso. Vivo achando coisas. Por exemplo, ele informa ao Anísio Teixeira na tal carta de 1937, que começou a escrever o livro em Sergipe e o finalizou na viagem ao México. As cartas são coisas interessantes, você concorda? Ninguém escreve mais carta para lugar nenhum, a não ser os bancos e suas cobranças disso e daquilo outro. Deixa estar.

Li quando adolescente Capitães da Areia, já disse. Li com uns treze anos de idade, acho. Acho, pois não sou de marcar as datas e anos de minhas leituras, o que me atentam à memória são as leituras e o que permeava o ar naqueles tempos e aqueles assassinatos ficaram na minha cabeça aos dez anos recém completados em 1993.

A chacina da Candelária mexeu com muita gente e, tenho certeza, sabe?, que por isso a professora de Literatura colocou esse livro denso na lista anual de sugestões de leitura para a antiga Oitava Série Ginasial. Não era obrigatória a leitura, não fazia parte do currículo dos quatro livros que deveríamos ler naquele ano. Mas ela sugeria, deixava lá uma listinha. Peguei na biblioteca comunitária da minha cidade – havia uma biblioteca comunitária – e li. Um tio meu, se me recordo bem, tinha um exemplar também e eu o já havia visto pela estante e sei que ele leu, ele lia muito e de tudo. Quem gostava de leitura já havia lido Capitães da Areia, que eu chamava com o de no lugar do da. Demorei muitas vidas para entender o motivo do da Areia, acho que no presságio de ver a areia e o mar e fotografar o livro na solidão do areal aprendi que melhor e mais correto era mesmo Capitães da Areia e não “Capitães de Areia”. Percebi isso enquanto focalizava a câmera para a minha fotografia.

Entendi melhor também as imagens, a poesia nua e a denúncia clara de que a literatura para ser bela não precisa mascarar a verdade. Ela precisa ultrapassar gênero, raça, cor, credo e ela ainda precisa ser assim, mas acho que está se perdendo pelo medo, pelos medos, pela confusão de medos e de lados. A literatura precisa doer, trazer dor tanto quanto alento. Pois a vida é no fundo essa luta constante pelo pão e sobrevivência e se há algum humor aqui ou ali nesse livro, se há as gargalhadas dos capitães da areia... Isso tudo é para nos lembrar justamente que a vida é luta. Luta que se ganha, mas que no fim, não adianta, se perde.

Claro que há passagens amareladas pelo tempo. Fervoroso comunista nos seus romances iniciais, filho rebelde de um coronel do cacau, Jorge Amado tinha suas utopias, mas, ora, e quem não as tem? Mas só um calhorda para não enxergar a beleza que é doutrinada por essa literatura da ação. E isso traz tanta coisa interessante na escrita desse escritor baiano.

O suicídio, que tenho observado de perto, traça uma linha como uma constante via nesses romances iniciais de sua carreira, nem que seja mascarado num mergulho eterno em busca de Iemanjá, tanto quanto sua denúncia sobre as mazelas da vida e a esperança no socialismo como solução maior que o mergulho profundo nas águas de Iemanjá. Não posso dizer que o primeiro aspecto perdurará nas demais obras – nossa conversa ainda será longa e a maré, tanto quanto a areia da praia nunca estão no mesmo lugar, nunca ficam da mesma maneira como as deixamos no dia anterior. As mazelas, sim, continuam como denúncia, com um humor mais constante, mais vivo, numa invenção de inversão da Bahia que, cada vez mais será Salvador de maneira mais clara ao mundo, chegando até a confundir esse mundo que é a Bahia com sua capital que é Salvador. O socialismo também, pois não é preciso se manter filiado ao antigo e verdadeiro partidão para manter em si a ideologia, mesmo que não mais a utópica como nos cânones. Explicando isso são melhores analistas que eu os livros deixados por Eric Hobsbawm, Perry Anderson, Terry Eagleton, Carlos Astarita, Jacob Gorender, Ciro Flamarion Cardoso, Emília Viotti da Costa, Anita Leocádia Prestes, entre tantas reflexões, tantas e tantas mais que já nem sei quais são quais e o que li. Não entrarei em pormenores nessa conversa, preciso beber alguma coisa. Mas os remédios não permitem, a preocupação não permite e minha fraqueza diante da vida, vendo a força diante da morte de uma Dora preparada para o derradeiro final com seus amigos olhando perdidos dentro de si... tudo isso não me permite descanso para a mente, só me espero como cinza um dia espalhado, o vento levando, pois a nenhum lugar pertenço mais e menos me sinto pertencente que não seja a solidão. 



Dos meninos dos trapiches lá do areal, de um Pedro Bala, um Professor, João Grande, o Sem-Pernas, Gato, o Volta Seca ou Pirulito... Estou longe o mais profundo em tudo desses personagens que com certeza ainda zanzam por aí. Estou longe em tudo: história, vida, sofrimento, sobretudo, da força que cada um carrega. Pois, eu estou dizendo: não se engane você, existem por aí muitos deles resistindo e dando gargalhadas. Dos meninos capitães do romance de Jorge Amado, eu sou areia, não sirvo nem para construção de um trapiche. 



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A solidão ou o que é amizade?

Faz tempo ou mesmo eu não vejo o tempo passar. Você vê? Não sei. O gato dorme aos meus pés e saí antes para fazer a barba, me relaxa fazer a barba. É um bom barbeiro, de lâmina e toalha quente no meu rosto. Calmamente depois de amaciar minha pele, a mesma toalha, já mais fria, cobre meus olhos e sinto a lâmina passar pelo pescoço. Faz tempo.

Era para estar por aqui conversando com você sobre Capitães da Areia, que já li novamente faz tempo. É, faz tempo. Mas não tenho tido forças e nem sei direito o que me move. Se eu pudesse nem me mover me movia. Ia vendo a barba e os cabelos crescerem com o tempo passando e quem sabe a morte chegando tranquila como o gato aos meus pés. Porém, o tempo passa lento, o gato perturba tanto quanto os mosquitos que chegam sem convite quando cai a noite.

Já li uns três livros alguma coisa de quê depois do Capitães da Areia e depois desses três comecei o ABC de Castro Alves, que sucede Capitães da Areia, sabe? Pois é. Faz tempo. Nem sei. Não me lembro bem, mas sei que decidi ler um a um, cada livro – e alguns ainda não tenho – de Jorge Amado na ordem cronológica dos lançamentos originais. Um a um. Mas nem isso me move. Nem a bicicleta me move. Fiz a barba pois estavam me incomodando os pelos do bigode entrando pela boca e, falo a verdade, me relaxa deitar na cadeira do barbeiro nessa cidade pequena que é grande que me faz lembrar da cidade onde eu nasci e ao mesmo tempo esquecer a cidade onde eu nasci... deitar na cadeira do barbeiro me relaxa, pois sentir a toalha quente sobre meu rosto, depois meus olhos vendados e a lâmina percorrendo meu pescoço, nem sei, mas me relaxa.

Não sei bem o que é amizade, acho que nunca soube. Sei que há por aí, espalhadas pelo mundo, tão perto, outros tão longe, umas amizades de contar no dedo. Mesmo assim não sei bem. Pois todo mundo tem problemas. Problemas com família, com dinheiro, consigo mesmo ou até comigo. Acho que às vezes sou um tipo de problema até mesmo para a minha mãe e o meu pai – que o que não vejo os guarde com saúde, pois nem sei, faz tempo e o tempo vai passando. Às vezes bate essa ideia torta que me balança: sou um problema para a minha mãe e para o meu pai. E pensando essa ideia, construindo, me bate forte uma ideia deles lá longe e eu aqui longe também e o tempo passando para todo mundo, já que o tempo passa mesmo. Mas é mais fácil lidar com o tempo passando, a saudade aumentando e a ideia torta crescendo feito barriga gestante, feito barba e cabelos ou crianças mal-educadas por parentes violentos e que se tornam crianças violentas. Ou um amor violento que considera fraqueza qualquer tipo de tristeza diante de qualquer tipo de tristeza, do que lidar com minha cara no espelho.

Faz tempo. Já nem sei. Não há grama mais verde no vizinho, não há nem grama. E não sei direito o que é amizade e por isso fico em silêncio com os pés quentes graças ao gato. Os pés quentes me dão a sensação de vivo, pois morto ou pessoa sem sorte tem pé frio. Não é? Nem sei.

Não pedalo mais. Não acho graça em sair. E se saio é coisa rápida ou mesmo forçado. Mas não pedalo e isso me dói. Dói tanto quanto ouvir de um amor violento que é frescura demais ficar triste pela tristeza. É a síndrome vazia na crença de que se você lida bem com os seus problemas todo mundo tem que lidar. Por isso mesmo me relaxa fazer a barba, a toalha quente sobre meu rosto como que me entorpecendo e de repente meus olhos vendados e a lâmina passando pelo meu pescoço aparando os fios meio brancos, meio ruivos para ficarem brancos da barba que cresce, pois os cabelos já estão grandes.

E todo mundo tem problema, eu sei. Até me satisfaz – não vou mentir – saber que tem gente por aí que lida bem com seus problemas. Mas me bate uma angústia danada e forte de saber que tem gente que só porque lida bem com seus problemas, se motivam num deus, numa santa, numa coisa que não sei o quê, na esperança de viver novamente com quem já se foi ou de ouvir quem já se foi... essa gente que se fia nisso, me angustia quando me falam é frescura, você é fraco. E me vem uma ideia torta – faz tempo, nem sei – de que sou mesmo fraco e, pior, sou um problema para a minha mãe e pai e para as amizades que – olhe lá – conto nos dedos. Eu que nem sei o que é direito amizade, acho que nunca soube e, talvez, nem essas amizades saibam o que é amizade: todo mundo tem problemas e por isso não dá tempo de pensar direito nisso, isso nem é problema, por que basta você ir sumindo e você percebe que ninguém vê ou na verdade você vai sumindo e estão esperando que você pergunte por que elas sumiram e todo mundo no fundo some porque todo mundo está esperando um telefonema, uma mensagem, uma carta de olá, como vai?, mas você, digo, eu, vou sumindo, pois veio essa ideia do amor violento: eu sou mesmo um estorvo, um problema e arranjo problema. E acho mesmo que o problema sou eu e se sou eu, não faz muita diferença ficar incomodando perguntando: olá, como vai?

Faz tempo. Nem sei. É aquela coisa meio chinfrim, você sabe? E vem quem é prolixo, vem quem é alto astral, vem que é do berço da sinceridade e quem quer te mudar o pensamento com frases de efeito: isso é frescura, ficar triste pela tristeza. Aí eu vou ficando em silêncio, vou ficando mudo e acho que mudo a gente vai diminuindo e sumindo. Mas é difícil ficar mudo, é um processo de treinamento e é doloroso.

Acho bonita aquela canção do Paulinho da Viola, Sinal Fechado, acho a letra bonita e é bonito como ele encaixa cada acorde naquela melodia angustiada. E vai sumindo.

Esses malditos mosquitos. Esses malditos remédios. Mas deve ser mais difícil para quem se mete a escrever poesia. Pois quem escreve poesia fica no dilema: dou para o mundo ler ou guardo para mim?

Eu, particularmente, não vejo sentido em poesia que não se dá ao mundo para leitura. Pois poesia quer palco tanto quanto quem pensa em dar cabo um dia dá cabo. Mas aí é ideia minha, ninguém precisa concordar, tanto quanto ninguém precisa chancelar poema como bonito ou feio. Poema é poema. E eu nem entendo direito de poesia, sei que há amores violentos como versos que se encaixam, como há também amizades que se perdem por a gente nem saber o que se tem.

Mas uma coisa é certa, todo mundo tem problema e o meu problema convém mais aos outros do que seus próprios problemas. Todo mundo tem uma solução para o meu problema, às vezes com uma carga tão violenta de certeza que chego a me envergonhar de ousar a falar do que eu julgo serem meus problemas – tem gente com problema pior que o teu! Fraqueza, frescura! – e por isso para quê ficar me expondo? Faz tempo e o vento vai mudando e o que é mesmo amizade? Talvez nem o gato esquentando os meus pés saiba dizer, se ele falasse.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Mar morto, é o que há de ser

Mesquita, 24 de setembro de 2021, ouço pássaros, alguns sons vindos de alguma serralheria na cidade lá embaixo. No geral, você pode acreditar no que digo: o leve frio do início da primavera é agradável, o céu tem seu azul e o sol brilha manso agasalhando como pode quem na noite anterior dormiu ao relento debaixo de marquises, em bancos de praças públicas. A vida é o que há de ser, mesmo não devendo ser assim.

Publicado por Jorge Amado no ano de 1936 Mar morto deveria mesmo ter sido finalizada a leitura por mim, em seu conteúdo lírico, mesmo que trágico, em Salvador da Bahia, no aeroporto, lugar onde é normal lágrimas caírem dos olhos e serem naturalmente ignoradas como quem passou frio debaixo de marquises no frio carioca. No aeroporto de Salvador li o último capítulo. A potência narrativa da história narrada pelo eterno menino grapiúna sobre a saga de amor e perda entre Guma e Lívia, o cotidiano dos mestres de Saveiros, canoeiros... me balançou. Tremi. Temi.

Ouço o som do trem cortando Mesquita e seguindo rumo ao centro da cidade do Rio de Janeiro. Vidas e sagas de amor, fé, perdas e ganhos estão dentro daqueles vagões. Você pode não ouvir. Já passou. Volta o som da serralheria.

Temi talvez por motivos que nem eu saiba. Talvez pelo Mar morto de Jorge Amado, sua história ali narrada ser a história de muitos de nós: de amor e também de perda. Terminei de ler em Salvador, dia 22 de setembro de 2021. Chorei e solucei. Ninguém me viu ou ouviu. É natural.

O posfácio escrito por Ana Maria Machado li já em Mesquita, terra em que nasci. No mesmo dia de minha chegada que logo se converterá em partida. Posfácio curto, mas tão belo que me fez compreender que é o que há de ser. Ela me fez ver para além da tragédia. Que se pese ainda um pequeno adendo de Zélia Gattai Amado, na edição que repousará com as outras quando eu regressar à terra que não é minha. Edição cuja capa vermelha é ilustrada com fotografia de Marcel Gautherot, intitulada Festa de Iemanjá, Salvador, c. 1941. Zélia, parceira de aventura de Jorge Amado, companheira, namorada, musa, força motriz nos diz, logo após a página final do romance (272):

“Mar morto foi o primeiro livro de Jorge Amado que li. Li e adorei a história de amor passada no mar da Bahia, um romance de fazer sonhar, cheio de poesia. Eu estava longe de imaginar que um dia conheceria o autor, que por ele me apaixonaria, que seria por ele amada e que, juntos, viveríamos 56 anos de puro e verdadeiro amor. Eu, Lívia, nos braços de meu Guma, Jorge, com direito a brisa do mar e moqueca de siri-mole.

Mar morto foi o abre-alas, assim que terminei de ler fui em busca dos outros. A leitura de cada novo livro me emocionava, mas este, o primeiro, nunca perdeu o seu lugar de preferido.

Zélia Gattai Amado” (p. 273).

Cigarras cantam forte no quintal dos meus pais. Um dia, mesmo não sendo alguém do mar, voltarei para repousar eternamente nesse porto.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Continuando na seara de Jorge Amado

 


Há menos de um mês conversamos – nós e mais não sei quem – sobre o livro Navegação de Cabotagem, cuja publicação original foi em 1992. Desde que li este livro algo me tocou profundamente. Evidente que a obra literária (e de vida) do escritor baiano, eterno menino grapiúna, habita no nosso imaginário, sejamos de onde formos.

Desde então quis caminhar, melhor, trilhar na minha maturidade ou quase maturidade – neste momento, não faz sequer um mês dos meus trinta e oito anos completos em julho passado – a obra completa de Jorge Amado por ordem cronológica. Não é um objetivo tácito, algo coach: não consegui, sou um derrotado, não me organizei. Com o perdão da erudição mesquitense, Baixada Fluminense, andanças pela Chatuba: foda-se! Se eu conseguir até o final do ano fechar a leitura da obra inteira, bom, se eu não conseguir, bom também. Livros são feitos para serem lidos. Sigamos, sou um moleque de apostos. Sinto muito.

Finalizei os dois primeiros romances, O país do carnaval, de 1931 e Cacau, publicado em 1933. Não espere muito de mim, não quero ser erudito – ao menos que seja a erudição mesquitense – tampouco conversar de maneira profunda sobre o conteúdo dos romances. Quem quiser que leia e torço para que haja condições para tal. Permaneço, sem que seja propaganda, defendendo as edições publicadas na ColeçãoJorge Amado, da editora Companhia das Letras – e que são as que estou adquirindo de pouquinho em pouquinho. Os posfácios presentes em cada livro são de envergonhar qualquer fala minha, pois são fantásticos, o de Cacau, por exemplo, escrito por José de Souza Martins é uma aula que eu gostaria de ter condições de ministrar como professor de História que sou de formação e ganha pão numa Universidade Pública Federal no lindo e forte Nordeste do Brasil (não o digo Universidade Pública Federal por pompa, mas por orgulho e defesa do Ensino Público e gratuito para todas e todos).

Docente titular aposentado de Sociologia na USP, José de Souza Martins, hoje com seus oitenta e dois anos vividos, sabe do que fala em seu texto sobre o romance Cacau. Oxalá, meu camarada Carlos de Oliveira Malaquias, professor de História Econômica no mesmo departamento que o meu na Universidade Federal de Sergipe e que neste segundo semestre de 2021 eu terei a honra de dividir disciplina na Pós-Graduação em História, concorde em encaixarmos esse romance no debate com as pós-graduandas e pós-graduandos em formação.

Com meu camarada Malaquias, mineiro de Curvelo, teço sempre ótimas prosas, no passado regadas a cerveja e tragos de cachaça, sobre a característica ainda tão rural do nosso país. Outro mineiro que se chegou na minha vida, este de Ponte Nova, terra do grande violonista e compositor João Bosco, parceiro maior do meu mestre Aldir Blanc, o Guilherme Queiroz de Souza, professor de História Medieval na Universidade Federal da Paraíba, também tem ouvido muito meus “causos” sobre a empreitada de ler toda obra do grapiúna. Parece que fiz uma trinca de mineiros na minha vida. Um triangulo mineiro – péssimo trocadilho –, mas me parece isso. Primeiro, meu velho irmão de trincheira, conversas pelo Brasil afora, de copo em riste e às vezes os dois taciturnos de cabeça baixa: Leandro Duarte Rust, professor de História Medieval na Universidade de Brasília, nascido em Teixeiras, menino do sopé que olhava o mundo e seu o tempo no horizonte. A ele se somam os dois acima. E a vida segue.

Acho que era para falar sobre O país do Carnaval (cujo posfácio é de José Castello) e sobre Cacau, os dois romances. Não o fiz. Apenas deixo no ar, como crônica que não é para ser lida. Mas os livros e seus posfácios, estes sim, devem ser degustados como boa pinga, boa conversa e abraço amigo e apertado. Aquele aconchego do forno à lenha no frio e o café preto sendo passado ali, assim, ao vivo. Nós vivos.

Sigamos. Inicio Suor, originalmente de 1934.

Até.


quinta-feira, 15 de julho de 2021

NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM

 


Há tempos não ouço – ou talvez ouça demais – vozes para além da minha. Para bem de toda a verdade, ela existindo ou não, a voz de Jorge Amado, prestes a completar 80 anos, em 1992, quando foi publicada a primeira edição de Navegação de Cabotagem: Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, me acompanhou nos últimos dias. Claro, numa edição luxuosa, posfácio de Lêdo Ivo, edição comemorativa ilustrada com fotos, documentos, capa dura, publicada em 2012, pela Companhia das Letras.


Conhecia passagens do livro. Foi marcante quando publicado. Conhecia passagens do livro através de reproduções das memórias nele contatas em conversas de mesa de bar com um professor meu na faculdade de História – Jorge Amado ainda estava vivo (apesar de ainda estar vivo) quando eu ingressei no vestibular.


Mas nunca li por inteiro um romance desse ilustre baiano das terras do cacau. No máximo, uma passagem aqui, outra acolá nas aulas de literatura no Segundo Grau, hoje, Ensino Médio.


Comprei Navegação... ironia do destino, duas vezes. A primeira é mais importante, numa pequena e resistente livraria-vende vinis e cds na Rua Fonte dos Bois, no Rio Vermelho, em Salvador. Por sinal, bem próximo da famosa casa da Rua Alagoinhas, número 33, no mesmo bairro. Disse que comprei duas vezes. Sim! Não pestanejei quando vi num site desses conglomerados que estão afundando essas pequenas livrarias-vende vinis e cds. Quando a caixa chegou (o livro é o que chamamos de um verdadeiro caramalhaço – vida agitada a de Jorge) me dei conta que já tinha uma edição verdadeiramente baiana, soteropolitana, banhada de dendê. Como livro não se vende quando já o temos, dei de presente para um amigo.


Apaixonado fiquei. Li degustando, fechando os olhos, relembrando depois que fechava a capa dura. Deitava-me na cama e nas minhas insônias recorria às lembranças e histórias de Jorge Amado pelo mundo, por Sergipe, pelo Rio de Janeiro, por Salvador, pelo Brasil afora.
Atrasava afazeres, aumentava as horas só para ler mais e mais, mesmo que já soubesse o fim do livro. Todo livro de memórias de um já morto que continua vivo é duro de se ler, acredite você que me ouve. Mas a navegação, ou melhor, o mar que navegamos a cada parágrafo do Seu Jorge Amado faz ou refaz-nos entender o Brasil de ontem e de agora. Coisa dura de se enfrentar: a realidade do ontem continuando no amanhã que é hoje.


Decidido coloquei as mãos nas parcas economias, afinal, como diria a economia: livro é coisa de gente rica. E por ordem cronológica de publicações de seus livros decidi comprar as edições – sorte a Editora Companhia das Letras ter uma coleção intitulada JORGE AMADO, cujo Conselho Editorial é composto por Alberto da Costa e Silva e Lilia Moritz Schwarcz (quem tive a oportunidade de assistir alguns cursos quando de viagens como estudante de História e também já graduado).


Assim que me refiz do fim do livro de memórias de um homem prestes a completar seus 80 anos e que passaria oito anos depois, às vésperas de completas 89 anos de idade, em 2001, me surpreendi. Que vida! Que final de livro.  Surpreendeu-me pela candura como se encerra.
Assim, hoje, 15 de julho, iniciei a leitura do primeiro romance do jovem de 18 anos – O país do carnaval – publicado em 1931, antes mesmo dele completar seus 19 anos, mas já atento às mazelas desse grande pedaço de chão que chamamos – ou chamaram por nós – de Brasil. Salve Jorge, que sejas sempre amado. Axé!

sábado, 13 de agosto de 2016

A razão da loucura

Mercado Governador Albano Franco - Aracaju-SE

Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe mais o mangue
(Aracaju - Tomás Improta - Vinícius Cantuária - Caetano Veloso - 1979)

Tenho por costume me levantar um pouco mais tarde nos finais de semana, algo entre às 7:30 e 8:30, por aí. Pego o carro e religiosamente vou aos Mercados Centrais de Aracaju. Não sei, mas o vozerio, a agitação, o vento que vem do rio, o céu azul... tudo isso, e alguma coisa a mais, me faz ter uma sensação boa de vida.

Acredito piamente que nós brasileiros nascemos com uma desigualdade nas pernas muito grande e que se reflete de forma muito evidente no trânsito: um pé muito pesado para o acelerador e o outro muito lento para o freio.
É meio provinciano ou local isso, um exemplo muito específico, eu sei, porém, todos sabem que para sair andando do estacionamento próximo ao Terminal Mercado (o dos ônibus) e atravessar a estreita rua que dá para o espaço de pescados ou o das carnes do Mercado Governador Albano Franco é necessário um balé acrobático. Um equilíbrio extremo, quase passos certeiros de valsa para nos desviarmos dos carros e motos que parecem ter um prazer extremo em ver os pedestres suados sob sol quente de Sergipe, afoitos na tentativa de chegar até o  primeiro Mercado.
Não sou um bom bailarino. Dois pra lá, dois prá cá.
E hoje, não diferente dos outros finais de semana, quase fui pego por um Siena fire prata, quatro portas, placa de Aracaju e tendo um senhor um pouco calvo, cabelos brancos e camiseta como condutor. Acho que ele estava com uma sede tremenda, um ódio tamanho para acertar as contas com alguém – ou ele é assim mesmo – pois quando tentei atravessar à frente do seu objeto de poder, aquilo que o torna um individuo diferente dos caminhantes, ele acelerou mais e quase me pegou. Curiosamente, fui salvo pela fidalguia de um motociclista que parou o trânsito da “segunda faixa” – não sei bem se existem faixas ali.
Em meio ao caos cotidiano, ainda pude ouvir um “filho da puta!” em brados retumbantes do motorista! Pensei comigo, poxa nem um “filho do cabrunco... foi filho da puta mesmo!”. Vida que segue e a minha seguiu.
Fiz o que sempre faço, passei na mesma banca, com o mesmo moço e pedi uma água de coco, trocamos uma ideia e ele fez a mesma piada dos outros tantos finais de semana: “Já se protegendo pra cerveja da tarde!”. Eu sempre sorrio e balanço a cabeça.
Fui no mesmo vendedor de queijo coalho dos sete anos em que vivo em Sergipe. Conversamos sobre a mesma coisa dos últimos cinco e depois enfrentei as calçadas justas e abarrotadas para comprar um filtro d’água. Na volta, de fato, tomei uma cerveja e comi um caldo de mocotó no segundo Mercado, enquanto os chorões afinavam os instrumentos. Fiquei pouco ali.
No vendedor ervas, bati um papo e comprei um capim santo pro bichano e, de costume, atravessei o que eu chamo de Paço, onde fazem os tradicionais forrós de junho. Tudo muito cansativo para que você me ouça, eu sei. Mas a alguns metros de entrar no primeiro Mercado, o das frutas, o dos pescados... aquele em que tempos atrás quase virei parte de asfalto. Ouço uma voz firme, grosseira, me questionando de forma intimidadora: “Você é maluco é?”.
Nesse momento minha educação tipicamente da Baixada Fluminense surgiu como um sentido de Aranha prevendo o perigo. Continuei em passos normais. “VOCÊ É MALUCO, PORRA? ESTOU FALANDO COM VOCÊ!”. A coisa ficou séria.
Parei. Tiro nas costas se não matar aleija.
Olhei firme, porém tranquilo. “VOCÊ É MALUCO, QUER MORRER?”. Ah, a didática do trânsito. A didática do motorista cheio de razão que não leu a cartilha do DETRAN.
Frações de segundo serão transpostas em palavras para você, afinal, a mente humana funciona de maneira muito curiosa e um segundo realmente pode parecer uma eternidade quando tentamos relembrar e concretizar a memória em palavras. Então me dê sua mão e vamos juntos para dentro da minha cabeça naquele instante que agora se eterniza entre nós dois:
Se eu responder que não sou maluco darei razão a ele para converter a violência verbal em violência física, violência evidente para mim, mas evidentemente natural e correta para ele. Eu continuava olhando, se houvesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa. Se eu continuar calado, no máximo ficarei ouvindo mais alguns impropérios desse idoso, mau motorista, mau cidadão, arrogante e que deve ter uma vida fodida, tratar mal seus filhos, mulher. Posso mandá-lo tomar no olho do cu, se danar. Mas isso lhe dará razão para partir para cima de mim. Bater em velho é uma puta sacanagem. Porém também posso apanhar. Puta sacanagem. Ele pode estar armado, pode me matar e ele já quase me matou. Eu continuava olhando para ele, se eu tivesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa, isso só alguns loucos passivos têm. Preciso ser racional. Ficarei parado olhando para ele, sem rir, sem me mexer, a não ser que ele avance. Posso me desviar. Pensei também, confesso, se ele partisse para cima de mim: Posso dar na cabeça dele com a parte de terra da muda de capim santo, o filtro não serve. Não! Vou destruir a muda, destruir o filtro. Fiquei parado, olhando para ele.
“VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA NÃO É? ÔXE! É MALUCO MESMO ESSA PRAGA. NÃO DEVIA TÁ SOLTO POR AÍ NÃO, PODIA TÁ AGRADINDO ALGUÉM. AÍ ATRAVESSA ASSIM DESEMBESTADO. E ESSAS MARCA AÍ NO BRAÇO? É COLEIRA? É MACUMBA?”. Eu parado, olhando. Nós dois, talvez, os únicos no mundo. O tempo parado. Entre o centro e a periferia do Paço. Ele, sei lá de onde. Eu de um morro da Baixada Fluminense. Me equilibrando entre o bem e o mal. Meu silêncio, minha segurança. A voz dos meus pais dizendo na infância que quem anda com porco farelo come. Você tem que estudar. Estudar te fará uma pessoa melhor. Minha mãe na última semana aconselhando: você anda irritadiço. Precisa ser mais calmo. Pode surtar a qualquer momento. Eu chorando ao telefone. Minha mãe me aconselhando. E eu parado ouvindo aquele senhor bradando com dedo em riste que eu era maluco. Louco de pedra. Irracional. Eu. Ele. Nós. Eu pensando isso tudo. Um minuto, talvez. Esse foi o tempo. Talvez. A voz dele amansou. Me chamou de filho. Perguntou onde estavam meus pais. Afinal, eu era um louco, um maluco. Aconselhou que eu não devia ficar perambulando pelo Centro de Aracaju. Aconselhou o caralho, me deu foi bronca. “O Centro é perigoso” ele disse. “Vai, vai. Vai tomar seu ônibus. Vai pra casa!”. Não esbocei palavras durante aquele um minuto, um minuto e meio, realmente não sei medir o tempo. Continuei caminhando, o cheiro bom do capim santo. O vozerio novamente, as mesmas piadas, os abanos de cabeça. O moço dos ovos capoeira. A tia das lambretas. Os cheiros. Sorri. Não olhei para trás. Sorri. Estou ficando mais calmo. Menos irritado como minha mãe aconselhou. Não vou surtar, precisar de remédios, falar com profissionais. Eu terei sempre os Mercados Centrais.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A falsa ideia de praia como espaço democrático e igualitário: Apartheid e eugenia social no Rio de Janeiro

Praia de Ipanema - em algum dia quente de verão


Reuniões oficiais escurecendo outras salas
Onde a tortura faz filho
Na pele de um jovem afro-brasileiro
Na pele de um jovem fodido e sem dinheiro
Catequeses do Medo – O Rappa (1994)



As praias são o espaço mais democrático que existe (no Rio de Janeiro). Esta assertiva, em algum momento, esteve ou foi ouvida saindo da boca de algum carioca. E nas últimas semanas, quase há um mês, certamente, esteve mais em voga no estado do Rio de Janeiro. Aliás, se retirarmos o parêntesis da frase, ela pode ter sido ouvida pronunciada por lábios de sotaques diversos em qualquer cidade litorânea do espaçoso, porém espremido, Brasil. Divagarei sobre o velho Estado da Guanabara, pois há muito a dizer, mas seja puxando o x e o s, seja dando bastante tônica ao t e ao d, não importa muito: AS PRAIAS, AQUELA FAIXA DE AREIA COM INFINITO MAR, NUNCA FORAM DEMOCRÁTICAS!
Antes do funk carioca ter sido descoberto pela classe média dos prédios com porteiros, antes mesmo de ter sido descoberto como manifestação legítima de cultura por sociólogos e antropólogos, ele já denunciava o apartheid vivido pelos excluídos e marginalizados de morros e subúrbios de subúrbios do Rio de Janeiro. Aproximadamente, em 1991, quando a fusão do Miami Bass com tambores tipicamente afrobrasileiros tomava de assalto as rádios numa interessante batalha sonora, um disco conduzido pelo Dj Malboro continha uma inteligente, humorística em sua tragédia de típica crônica e certeira música.
Me refiro ao Melô do Farofeiro, faixa dois do Lp Funk Brasil 3. Observe que naquele tempo ainda se utilizava o termo “Melô”, de melodia, antes do tema que seria desenvolvido na canção. Ao mesmo tempo havia o “rap” disso e daquilo outro. De pouco a pouco a coisa mudou. Mas, prossigo.

Na letra, que reproduzo, é possível ler:

Quando vou à praia eu madrugo na estação
Prá esperar o trem que anda sempre lotadão
Embarco na marra, a viagem é uma barra
Por isso na praia sempre faço a maior farra
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
No bairro que moro o calor é muito alto
Sempre tem alguém fritando ovo no asfalto
Falta água, não tem sombra o jeito é ir pro mar
Mas é só pisar na praia e alguém vem me zuar
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Quando tô na praia deito e rolo na areia
Não tô nem aí se me olham de cara feia
Levo rádio, levo bola, frango assado prá comer
Levo farofinha que mamãe sabe fazer
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Antes de ir embora eu dou sempre um rolé
Piso na toalha, jogo areia na mulher
Vou do Leme ao Pontal, prá ver fio dental
Depois pego o buzú e dou calote na Central
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul

Em finais de agosto deste ano de 2015, a Polícia Militar do Rio de Janeiro apreendeu, com sua típica truculência, um expressivo número de jovens e adolescentes (apenas um branco) que estavam num ônibus a caminho das democráticas praias da Zona Sul carioca (ver matéria vinculada ao Jornal Extra).
Ora, como a letra demonstra em seu humor crítico a “eugenia social” ainda o é como o foi. Exagerado eu? Que sejamos exagerados quando a crítica recaia sobre os excluídos, amigos! Porém, evitarei ser personalista recordando meus tempos infantis saindo de Mesquita (antigo Primeiro Distrito de Nova Iguaçu) com meus pais, com frango e farofa no isopor. Isso fica para um momento mais alcoolizado de minha parte. Mas, não posso deixar de relembrar também da boa mortadela com pedaços de pimenta e pão francês que com a boca salgada de água do mar parecia ter um sabor único quando eu me sentava em alguma sombra de árvore na Praia do Flamengo para comer ou da minha cara cheia de farelo de Biscoito Globo sujando o banco do ônibus que nos levava da praia até a Central do Brasil para pegar o trem. Deixemos o personalismo de lado nessa conversa.
Todo o exagero violento da PM carioca foi prontamente denunciado pelas mídias, movimentos sociais, arautos da liberdade em suas poltronas facebookianas, locus da contemporânea revolução. Prontamente, houve um recuo quase imediato das “forças de segurança” e o TJ-RJ, após ação da Defensoria Pública, proibiu futuras apreensões (Ver matéria vinculada ao Brasil Post).
Fim do impasse? A liberdade, típica da democracia, venceu? Eu estava errado, as praias são sim os únicos espaços que ainda podemos bradar com peitos inflados como local da ação prática da democracia, cujo direito de ir e vir se manifesta diariamente? Não.
Nada mudou. O antes ainda o é.
E veja bem, confrade, você aí que ouve ou tenta ouvir as múltiplas vozes desse velho e ultrapassado Ventríloquo... Você aí, ouça bem: as praias nunca foram e não são democráticas.
Esse discurso de democracia praiana, nada mais é do que uma sutil artimanha que colocaram, sabe lá Yemọja quando, em bom Yoruba, colocaram na nossa cabeça. A questão, Rainha do Mar, é que seus filhos Ogum e Oxóssi vão continuar tomando porrada no quengo de PM, com recuo ou não das apreensões.
Mas, todo exagero de violência emanada pelo Estado leva automaticamente ao recuo, como eu já disse, do próprio Estado e esse recuo obrigatório cria estratégias para os dominantes manterem a boa e velha dominação, uma vez que o Estado, atualmente, funciona evidentemente para um pequeno grupo dominante.
Numa “jogada de mestre” a Secretaria Municipal de Transporte do Rio de Janeiro extinguiu nada mais nada menos do que 22 linhas de itinerários que ligavam, alguns deles diretamente, as Zonas Norte e Oeste à Zona Sul, fora alguns tradicionais bairros suburbanos que emanam de forma profunda a alma, a verdadeira, carioca que também foram subliminarmente podados de seu acesso direto ao mar: Ramos (esse com seu piscinão), Olaria, Maré, Jacaré, etc. (Ver matéria vinculada ao Jornal O Dia).
A polêmica mais uma vez está posta. Se haverá recuo? Não sei. A questão é que há tempos o Rio de Janeiro, enquanto Estado e Cidade, sempre foi geograficamente separado e excludente em todos os sentidos, ora por cercas, ora pela constante desigualdade. Não se trata aqui de considerar a não democratização da praia, à despeito do que afirmam muitos, como um grosso modo, de que todo carioca do Baixo Leblon àquele que se senta à noite na COBAL do Humaitá para beber um chope gelado é empinado e excludente em seu discurso para com uma maioria que vive nos subúrbios e na Baixada, conheço muitos que não o são. Os olhares atentos de porteiros migrantes nordestinos e a educação que seus ouvidos pacientes contra o preconceito da aristocracia falida que ainda se esforça para tomar café no Copacabana Palace, possibilitou uma sólida educação formal para seus filhos, hoje professores em diversos segmentos, inclusive, universitários, médicos, advogados ou mesmo outros porteiros de olhos atentos e ainda ouvidos pacientes para todo o preconceito de uma classe média fodida, mas que, se tudo der certo e há de dar, terão seus filhos nas cadeiras ao lado dos filhos dessa classe média fodida em boas escolas públicas. Ou seja, a coisa não deu muito certo para a minoria preconceituosa da Zona Sul e essa Zona Sul atual, à parte das já tradicionais favelas coladas, é mais mista e bela do que eles queriam!
O próprio caro e contraditório conceito de subúrbio, talvez, não sei, poderia ser repensado. As casas da Rocinha com belas vistas para o mar ou as de outras favelas localizadas na Zona Sul sempre foram um “subúrbio” lá do alto, mesmo com toda a violência provocada pela demanda por cocaína produzida pelos bacanas do asfalto. Sobreúrbio, talvez. 
E sempre foram as mãos e braços firmes de gente que viaja de Japeri até o Leblon ou que desce as ladeiras dos morros que mantiveram a força motriz e pulsante da cultura que se produziu e se exportou advinda da Zona Sul: Alguém lavava aos copos sujos de uísque do Vinícius de Moraes, não? Cartola, esquecido, foi redescoberto lavando carros.
As praias estão aí, cheias de coliformes e garrafas PET, talvez, esse o melhor exemplo de democracia entre pobres e ricos nas areias das praias cariocas. Porém, estes últimos, financiadores dessa “eugenia social” jamais devem se esquecer que assim como somos todos pó (de cocaína até a terra com vermes e ossos), também somos todos merda boiando no glorioso mar de Yemọja. Somos todos nossa firme merda no mar.




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O suicídio... contemporâneo

Sempre pensei muito no suicídio – sim, já li o famoso estudo de Durkheim, aliás, duas vezes: uma obrigado e a última por uma certa curiosidade e prazer. Sempre pensei muito, não por querer dar cabo à minha vida ou ter tentado dar cabo à minha vida e fracassado, quando na verdade, não queria no fundo dar fim aos meus rastros no cotidiano. Sempre pensei por certa curiosidade mórbida, um assombro.
A primeira vez que ouvi falar de suicídio foi o do mal falado Judas, o que traiu Jesus. Recordo, ainda muito menino, passar as férias de inverno na casa dos meus avós em Realengo, uma casa de vila, grande e desorganizada, cheia de tios e tias, meu avó num canto consertando sapatos, aquele cheiro de cola misturado com o cheiro de louro no feijão preto que minha avó gorda, muito obesa de seios fartos e caídos cozinhava nos domingos. Nesses dias de muito frio, de meias e casaco de lã, uma tia me lia a Bíblia ilustrada antes d’eu dormir e lá estava Judas – pobre Judas – ajudando na redenção da humanidade, traindo o Cristo por algumas moedas e, ao que tudo indica, se enforcando depois. Toda essa literatura de morte, redenção, etc, me chamava muita atenção quando ouvia atento cada palavra e questionava cada absurdo daquela narrativa e era calado pela fé cega e irracional que contrariava o próprio Paulo, mesmo que tempos depois, eu começasse a desconfiar que Paulo era meio maluco, pois, cá para nós, só um maluco para fazer o que ele fez. Enfim...
Adolescente, assim como criança, sabe lá os motivos, mamãe me levava para que suas amigas e amigos me conhecessem nos hospitais em que dava com eles plantão – orgulho de mãe, talvez. Conheci uma senhora, não me recordo o nome e que mesmo não me recordando o nome, fio a dizer que foi a primeira pessoa que “conheci” que se suicidou.
A história veio da boca de mamãe: Vestiu seu melhor vestido, redigiu uma carta dando coordenadas sobre como queria ser sepultada. Separou senhas de contas, cartões, promissórias a pagar, tudo. Fez uma medicação, tomou, deitou-se e não se levantou mais. Minha mãe repetia sempre para mim, quase que como um mantra: Aquela não deu trabalho para ninguém. Queria mesmo se matar. Contava parecendo até final de texto da Vida como ela é.
Os anos passam e hão de continuar passando, é verdade. E como ele passou, eu passei junto e ao pé dos Arcos da Lapa, bebendo e bebido, conversando com uma morena amiga minha, de cabelos cacheados e que teimávamos sair juntos lado a lado confessando nossos desamores, ouvi um barulho de saco pesado espatifando no chão. Só tive tempo de olhar e perceber que o saco era humano, perdão, era um cara que havia pulado dos trilhos e cheio de glória manchou de vermelho o asfalto da Mem de Sá. Um burburinho, mas a noite continuou e eu com ela.
Porém, mais impactante, já adulto, já mais velho ou sei lá o que, foi um homem que pulou da janela do Ibis que vejo de frente do meu apartamento velho. Impactante, pois em meio ao silêncio da movimentada avenida que nos separa, posso crer que ele desistiu no meio do caminho e seu grito cortou minha paz noturna, assim como os estilhaços de vidro com ele espatifaram no chão.
Um grito seco. Que foi se esvaindo com a queda. O penar.
Depois disso, dei para ler cartas de suicídio: A do Torquato foi a que mais me traumatizou. Dei para ver documentários, um norte americano, que não me lembro o nome, durante muito tempo me dava pesadelos e suores em noites frias. Até mesmo o Hugo Bidet me apavora o suicídio.


Nada disso me bastou: desativei minha conta no Facebook naquele dia... Ah, se Judas soubesse, jamais teria se enforcado.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A vida que se esvai em estatísticas

Viaduto Manoel Celestino Chagas (Viaduto do DETRAN)
Foto retirada do blog: SERGIPE EM FOTOS

Falo no calor do momento, apesar do vento fresco que entra pela janela do escritório de casa e o cinza da chuva fina que deságua pela capital sergipana. Num dos cômodos da casa, uma jovem senhora passa as roupas da semana, uma trabalhadora, tem filhos, marido, ganha seu sustento pelo seu trabalho. Acordei às seis da manhã, ela também deve ter acordado às seis da manhã. Eu acordei às seis da manhã para fazer ginástica funcional com um grupo de pessoas no parque municipal. Arquitetos, historiadores, Assistentes Sociais. A jovem senhora acordou às seis para colocar o café do esposo na mesa, arrumar suas crianças e depois pegar um ônibus cheio e vir para minha casa. Imagino isso. Deve ser isso.
A casa vai ficando em silêncio, só ouço minha voz transposta no tom que emana o toque dos meus dedos no teclado. Minha voz é essa escrita. Minha voz se converte em escrita.
Minha companheira, que também acordou às seis para ir fazer comigo e os outros a tal ginástica funcional, adianta seus projetos de arquitetura. Eu continuo a dar voz a mim mesmo. Digressões. Sou um ser humano naturalmente só.
Mas escrevo no calor do momento e enquanto eu acordava, um jovem, mais jovem do que eu, era atropelado numa avenida de grande movimento. Era atropelado na mesma via que atravesso com a bicicleta em mãos, empurrando para tentar acessar a ciclovia. O rapaz era gari. Eu sou professor universitário. Mas, nós dois, ele agora e, quem sabe, eu um dia, somos estatísticas.
Escrevo no calor da ira. Da raiva que não se contenta em ler na matéria de jornal on-line, nos dois sites de mais circulação na cidade, apenas uma breve nota do ocorrido, uma breve nota e, mesmo assim, por ser a avenida de grande circulação – apesar do adendo simplório que tenta justificar: naquele momento é pouco o fluxo de carros.
Há uma passarela uns cem metros à frente. Mas, pergunto eu: por que não duas passarelas? As pessoas que moram naquele entorno também se perguntam. Os ciclistas se questionam: como sair dos bairros Luzia, do Conjunto Médici, do Inácio Barbosa, do Distrito Industrial e acessar a ciclovia que segue entra as faixas da famosa Tancredo Neves?
Aliás, eu me questiono: como os ciclistas que moram no entorno da Avenida Adélia Franco, onde deságuam os moradores dos bairros citados, acessarão com segurança a ciclofaixa da Tancredo?

Minha solução foi curiosa: Ando uns metros a mais e atravesso com a bicicleta no sinal quase em frente ao Macro. Corto a rua das Autos-escolas – que ironia – passo por uma área que me lembra a região dos estivadores na Praça Mauá e, um tanto quanto esperançoso, fico aguardando o sinal fechar. Mas, isso não significa que o sinal fechado – apesar de ser um cruzamento para quem está saindo (de carro) do Jabotiana – obrigará os motoristas a pararem. Pego a ciclovia, um tanto quanto ainda esperançoso,  e acho que conseguirei chegar vivo e com a bicicleta na Universidade Federal de Sergipe. Um tanto feliz, observo o trânsito parado e penso: que bom que estou sobre as duas rodas e faço força no pedal. Mas, de repente, e tudo na vida é tão de repente, SVU’s, Vans de empresas rumo ao interior e motos de todos os tipos, passam por cima da ciclovia, rodas largas e grandes – no caso dos carros – jogam-se sobre a tinta vermelha que demarca o lugar do ciclista. A mesma cor vermelha do sangue que molhou hoje pela manhã o asfalto da Tancredo Neves. O mesmo rubro vivo do sangue de mais um trabalhador que se converteu, antes de ser pó, a mais um número de estatística. Ele tinha 28 anos, se chamava Ítalo Tavares Oliveira e deu seu último suspiro aos pés do viaduto Manoel Celestino Chagas antes de se converter em mais um número de estatística. Meus dedos diminuem o ritmo. Representam a voz que embarga: o calor do momento. Paz.

As matérias estão em:
  1. Gari é atropelado e morto na avenida Tancredo Neves
  2. Jovem morre atropelado ao tentar atravessar a Av. Tancredo Neves



segunda-feira, 11 de outubro de 2010


Entro afoito nos minutos vazios da página em branco. Tenho 24 horas por dia, mas quase não olho o relógio. Os livros sobre a mesa – são tantos. Devo lê-los com a mesma necessidade que como, que bebo, que cago... Mas é só à noite que tenho espaço para os meus pensamentos, há tempos eles me sufocam. Não me sinto perseguido pelo tempo. O tempo é o vento da alma.
Àquelas frases de efeito brindo com um copo de sentimentos. Ouço os passos no apartamento de cima. Respiro o cigarro do apartamento de baixo. As cadeiras são arrastadas por rostos que não consigo nem descrever. Os livros repousam sobre a mesa. Vejo mais um filme do Woody Allen na TV e penso como seria viver em Manhattan. Esqueço. Não, eu não conheço Manhattan. Conheço bem a Central do Brasil, a rodoviária, o camelódromo da Uruguaiana. Os caminhos que me levam do Campo de Santana até o Largo da Carioca a pé. Consigo desenhar um mapa da loja de discos no sobrado da 7 de Setembro. Esqueça.
Mas ontem mesmo sonhei que caminhava pelas ruas de barro da Ilha de Paquetá. Sonhei que via lá longe as torres da Reduc cuspindo fogo pro ar. Sonhei em escrever uma carta longa, profunda, com muitos neologismos, implorando ao prefeito da cidade do Rio de Janeiro que olhe por Paquetá. A Paquetá da nossa infância. Pedir a ela que tombe o Biscoito Globo. Que cuide das Cutias e preserve as coisas típicas dos cariocas. Esqueço. Pois entro afoito nos minutos vazios da página em branco e tenho pouco, muito pouco tempo para tentar falar o que sinto.
Those mistakes we make in everyday life. And life becomes a torture. So I think everything I say is in vain that sheet of paper that involves bread. But, by God, how I wanted to write in English. How I wish I knew Manhattan. See your lights, drink in its bars, listen to their songs. Forget.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Essa tal modernidade...

Quando eu tinha uns 14 anos e cursava o antigo 2º Grau num colégio de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, fui selecionado pelo CIEE para fazer um estágio no recém inaugurado shopping da cidade. Era minha oportunidade de ganhar meu primeiro trocado com meu próprio esforço.
O trabalho? Simples! Anotar em algumas lojas selecionadas pela direção do shopping o que estava sendo comprado e a quanto pelos clientes – registrado ou não pelo caixa. A isso, nosso coordenador chamava Auditoria. Pois bem, eu fazia, meio sem entender, um estágio de auditoria!
Certo dia – um sábado ensolarado em que eu poderia estar soltando pipa ou jogando bola – estava eu de pé, já umas quatro horas, anotando tudo que saia de uma loja dessas de comida a quilo, quando um sujeito me chamou muita atenção:

- Meu cumpadi, solta um chope aí! Caprichado no colarinho, hein?
- Pois não, senhor!
- Não, não meu filho, deixa transbordar um pouco o chope da tulipa!

Nada demais. Anotei o valor do chope e ali continuei aguardando novos clientes, novas sonegações, etc. De repente...

- Desce mais um, ô de Queimados! E deixa transbordar um pouco!

Na décima nona tulipa – eu contei e como contei! –, eu não aguentei e tive que questionar o cidadão, com a maior polidez do mundo, claro!

- Senhor, desculpa mesmo perguntar. Mas por que o senhor pede pro rapaz aí deixar transbordar um pouco do teu chope?

O cara, mais prá lá do que prá cá, sorriu – deve ter percebido minha cara cheia de cravos e espinhas e aquele bigodinho ralo, mais pra buço do que pra barba – e respondeu:
- Ô da caneta! Tempus modernus! Tempus modernus! E tu já viu alguém nessa porra de shopping entornar no chão uma pro santo?
- Não.
- Pois é, pois é! Falta de respeito do cacete! Se eu fizer isso, um desses seguranças vão vir armar barraco e eu não tô afim! Por isso já deixo a do santo aqui, assim ninguém me atazana as idéia! E salve Jorge! Ô meu santo guerreiro!

Pois é, né? Como diria nosso amigo: “Tempus modernus”!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Me passa o papel aê...

Subúrbio, doce subúrbio. Quero que se danem aqueles que dizem que não morei meus vinte cinco anos de vida no subúrbio carioca! Muito jovem, quando dizia que morava em Mesquita para alguém do Leblon, Gávea ou adjacências zonasulescas, rapidamente vinha o comentário: “Sei, sei, na Baixada Fluminense, né? No subúrbio...”. Tai desolados: fui criado no subúrbio também! Poderia não ter o glamour do Méier, Madureira, Quintino, Tijuca ou Vila Isabel... Mas também era subúrbio! Diga lá, coração, e o Chico Buarque não cita Nova Iguaçu na música “Subúrbio”? Confere lá, camarada! E antes que vocês me digam que minha querida Mesquita não é Nova Iguaçu, ela o foi durante muito, muito tempo, bairro importante da cidade das laranjas! Hoje, sem dúvida, cidade DOS LARANJAS! Caso encerrado. Vamos à uma pérola dos subúrbios...
Essa é de um grande amigo meu, apelidado de Feio (por ser bonito), morador de Vila Isabel (ao menos o era na época). Um dia, em conversa de botequim no Centro do Rio, o assunto era caganeira. Pois é, não sei se o tema surgiu por conta dos petiscos arqueológicos dentro da estufa do pé-sujo ou porque um de nós se ausentou para libertar o barroso (com todo respeito ao almirante!) após comer tais artefatos, enfim. Esse meu chapa, explicando que não evacuava nunca fora de casa, utilizou muito bem o famoso jargão: “meu cu é caseiro”! O CUrioso é que, tempos depois, bebendo num outro barzinho e comendo churrasquinho de gato, com uma rapidez impressionante ele separou sua parte na conta e suando frio foi embora pegar o Vila Isabel na Presidente Vargas: estava apertado para ir ao banheiro! Porém, história melhor (e verídica) passei eu e meu primo-irmão, mais irmão do que primo, Gustavo Alvaro, também no Centro da Cidade Maravilhosa... Essa é pros netos, sem dúvida!
Tinha eu que prestar contas na Marinha do amado Brasil, aquela coisa de carimbar o certificado de reservista... Boa oportunidade para tomar aquela cerveja gelada no Centro. Liguei para o meu fiel acompanhante em assuntos de Centro (do Rio):
- Fala aí Tavim, vamos comigo amanhã na Praça Mauá?
- Pra quê cara?
- Tenho que carimbar o certificado de reservista. Depois a gente roda um pouco pra procurar disco e toma uma cerveja. Fechou?
- Sabe o que é, Brunim? Eu tô com a maior caganeira cara... Acho que não vou não.
Com muito carinho e poder de persuasão, argumentei:
- Deixa de ser viadinho, vamos comigo, também tô com um revertério filho da puta. Eu levo papel higiênico na mochila cara! Vamos?
- Que se foda. Vamo nessa porra!
Japeri da tarde. Tranquilo. Deu até pra ir sentado admirando a paisagem. Cada estação, cada pessoa que entrava e saia do trem. Chegamos a Central do Brasil. Caminhada considerável até a Praça Mauá, no caminho paramos pra ver uns chapéus, olhamos revistas nas bancas... Tudo na maior paz intestinal!
Já na fila ao lado de outros muitos jovens de 20 anos, que como eu aos 18 cometeram o erro de se alistar e servir à Pátria mãe gentil já raiou a liberdade no horizonte do Brasil, meu irmão (que não serviu em porra nenhuma) já começou a ficar meio esbranquiçado. Por experiência de convívio: ele só fica assim, quando não tomou Plasil e vai vomitar ou quando vai se cagar (nem quando ele faz uma merda, outro tipo de merda, ele perde sua cor moreno jambo – expressão da minha mãe). Pensamos: “fodeu”. Rapidamente, eu já tinha uma saída, ao pé do ouvido, sugeri:
- Cara, pega a mochila aqui e vai dar uma cagada no McDonald’s ali da esquina da Rio Branco...
- Porra cara, cagar no McDonald’s é foda, cheio de adolescente entrando e saindo, apertadinho. Rola não. Vou segurar.
E segurou.
Resolvido os problemas civis, pegamos a Rio Branco, paramos na Livraria da Travessa, olhamos uns cd’s, uns livros... Dobramos a Presidente Vargas e um sinal de alerta me foi dado:
- Cara, a vontade tá voltando.
- Sem problema, também tô sentindo umas pontadas na porta. Vamos no Real Gabinete Português de Leitura (banheiro limpo, discreto).
- Beleza. Vamo simbora que tá sinistro!
Acredito que em alguns casos, caganeira é uma merda mesmo! E longe de casa então: nem se fala! O difícil foi desviar dos carros e camelôs na Uruguaiana (naquela época não havia essa moda do Choque de Ordem), mas heroicamente conseguimos chegar no Largo de São Francisco de Paula... Quando estávamos quase entrando no Real Gabinete uma reflexão (antes do vaso) me alertou prum perigo:
- Tavim, são 11:50, não me lembro se o Real Gabinete fecha pra almoço.
- E daí, porra, eu quero é cagar, não quero ler Camões!
- Não cara, putz, e se fecha com a gente lá cagando? Lembra que o banheiro é no subsolo? (De fato, eu cagava muito no Real Gabinete Português de Leitura, posso descrever para o querido amigo que me ouve, como era a latrina, o espaço milimétrico, quantos degraus para chegar até lá, confesso só não me lembrar de quem era a estátua que ficava na frente da bela porta de madeira que separava a sala de leitura da sala de leitura que os ignorantes chamam de banheiro!).
- Porra, é mesmo cara! A gente ia ficar trancado lá um tempão.
- Ou pior, um dos funcionários ir conferir se tinha gente dentro do banheiro e a gente lá cagando? (Juventude, doce juventude. Tempos depois no perigo iminente de me cagar todo, não pensei duas vezes em entrar num pé-sujo de Nilópolis gritando pro atendente, me arruma uns guardanapos?!?!?!?!).
Como um bom suburbano da Baixada Fluminense (não sei se essa expressão existe), eu tinha um plano B: Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para os mais íntimos: IFUC’s, opa, não, IFCS.
Se meu amigo Feio exaltava a “caseirice” do seu fiofó, meu chapa, nem te conto quantas vezes que já “fiz caquinha” fora de casa (quis amenizar a conversa, né?).
Terceiro andar, passamos batido pela porta do Pem, naquele momento eu não queria encontrar nenhum amigo de estudo, e conseguimos chegar no banheiro. Como todo bom toalete de universidade pública: não tinha papel! Não criemos pânico! Um rolo novinho estava na minha mochila preta e surrada da Topper! (lembra?)
- Brunim, me vê um bom pedaço aí cara!
Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado. Dez minutos depois, dei a descarga, lavei as mãos e desci pro pátio do Instituto. Deu tempo até prum suquinho de goiaba (velho remédio!).
Os minutos foram se passando. Passando. Passando e nada do Gustavo aparecer. Comecei a ficar preocupado. Mesmo antes de ir estudar no IFCS, um amigo meu me contava de cruéis “apalpadores” de pingulim naqueles velhos banheiros. Teriam pegado meu irmão? No mesmo instante que já estava me desesperando, uns 20 minutos depois de ter saído do banheiro (hei, não sou desnaturado, o cara tava com mais dor de barriga que eu!) toca meu celular:
- Brunim? Brunim? Cadê você porra?
- Ué Tavo, "cadê você?" pergunto eu!
- Caralho, tô aqui sentado no vaso porra!
- E não saiu por que ainda?
- Cadê o papel higiênico?
- E eu não te dei antes de entrar no meu Box?
- Foi cara, mas aqueles pedaços que peguei eram pra limpar a borda do vaso e depois forrar pra eu sentar, porra!
Sim, acredite. Travamos essa conversa amistosa antes d’eu ir levar o papel higiênico para ele. O pior não foi isso, soube eu na semana seguinte, ouvindo a conversa de uns caras do curso de Ciências Sociais (gente pedante e que nunca arruma emprego quando se forma, a não ser pra dar aula de História invadindo nosso espaço!) tomando café na lanchonete do terceiro andar:
- Porra, semana passada, tava eu mijando e um maluco batendo na divisória: “Brunim, Brunim, para de sacanagem e me passa o papel aí porra!”.
Tem certas horas que eu me pergunto se não é melhor ter um “cu caseiro”!

domingo, 11 de abril de 2010

A voz do violão...

A chuva vai indo embora. Duas ruas que se cruzam nesse momento: Sergipe e Rio de Janeiro. Segundo meu pai, o tempo agora a noite melhorou um pouco por lá. Aqui, um vento frio entra pela janela do apartamento, a orquídea sem flores pousa tranquila sobre o mármore branco desbotado. Foram horas de água desabando no céu. Não deixa de ter um certo glamour e um certo desespero. As duas coisas se confundem, às vezes. É como quem ver o mar do alto de uma favela. No player um cd do Baden Powell gravado em Bruxelas em outubro de 1999. Duas ruas que se cruzam: A vontade e a verdade.
Longe, mas não tão longe, observo meu violão descansando ao lado do sofá. Uma flanela branca o protege. O protege do meu sonho, da minha vontade. No fundo, o que tenho é só a verdade. Desde cedo o olho envergonhado. Durante toda a minha vida, penso eu, olhei esse instrumento leve, simples e absurdo, com vergonha. A maturidade agora me envergonha mais ainda. Quem sabe, por um curto tempo da doçura que é a primeira juventude ter com ele sonhado mais do que eu poderia ou, pelo menos, fingido que o conhecia bem.
Ontem, nessa mesma cidade pacata que hoje vivo com minha esposa, uns livros, Lp’s e cd’s, uma flauta transversa e este tal violão, presente de um querido amigo, jantávamos com uma visita. Em suas mãos trouxe um livro belo sobre os violões do Brasil. Consigo, também, um vinho rosé português que ajudou a adocicar o Alentejo que eu comprara uns dias antes para sua visita.
O livro a que me refiro se chama, exatamente, Violões do Brasil junto o belíssimo DVD contendo testemunhos, comentários, aulas. Assisti-lo me trouxe o sentimento misturado de prazer e dor. Sentimentos que, como ruas, se confluem.
Hoje a tarde enquanto assistia o documentário, enviei uma mensagem para esse meu amigo que me emprestou as raridades: “Chego a estar com vergonha do meu instrumento...”. O sentimento que eu tinha em meio à dor, era isso, exatamente isso: vergonha. Me perguntava, por que não havia estudado um pouco mais o violão, ou mesmo a flauta?, por que levava tudo numa doce brincadeira de criança? E onde havia ficado aquela brincadeira toda? Onde me perdi no tempo?
Agora ouvindo o velho e bom Banden sinto uma dor danada nas mãos por não ter estudado um pouco mais um dedilhado aqui, outro ali. Não ter estudado essa harmonia... aquela outra.
Mas a gente vai vivendo. Pois no fim das contas, o que vale é viver. E todo sonho de criança, quando fechamos os olhos, tentem a renascer.