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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Mar morto, é o que há de ser

Mesquita, 24 de setembro de 2021, ouço pássaros, alguns sons vindos de alguma serralheria na cidade lá embaixo. No geral, você pode acreditar no que digo: o leve frio do início da primavera é agradável, o céu tem seu azul e o sol brilha manso agasalhando como pode quem na noite anterior dormiu ao relento debaixo de marquises, em bancos de praças públicas. A vida é o que há de ser, mesmo não devendo ser assim.

Publicado por Jorge Amado no ano de 1936 Mar morto deveria mesmo ter sido finalizada a leitura por mim, em seu conteúdo lírico, mesmo que trágico, em Salvador da Bahia, no aeroporto, lugar onde é normal lágrimas caírem dos olhos e serem naturalmente ignoradas como quem passou frio debaixo de marquises no frio carioca. No aeroporto de Salvador li o último capítulo. A potência narrativa da história narrada pelo eterno menino grapiúna sobre a saga de amor e perda entre Guma e Lívia, o cotidiano dos mestres de Saveiros, canoeiros... me balançou. Tremi. Temi.

Ouço o som do trem cortando Mesquita e seguindo rumo ao centro da cidade do Rio de Janeiro. Vidas e sagas de amor, fé, perdas e ganhos estão dentro daqueles vagões. Você pode não ouvir. Já passou. Volta o som da serralheria.

Temi talvez por motivos que nem eu saiba. Talvez pelo Mar morto de Jorge Amado, sua história ali narrada ser a história de muitos de nós: de amor e também de perda. Terminei de ler em Salvador, dia 22 de setembro de 2021. Chorei e solucei. Ninguém me viu ou ouviu. É natural.

O posfácio escrito por Ana Maria Machado li já em Mesquita, terra em que nasci. No mesmo dia de minha chegada que logo se converterá em partida. Posfácio curto, mas tão belo que me fez compreender que é o que há de ser. Ela me fez ver para além da tragédia. Que se pese ainda um pequeno adendo de Zélia Gattai Amado, na edição que repousará com as outras quando eu regressar à terra que não é minha. Edição cuja capa vermelha é ilustrada com fotografia de Marcel Gautherot, intitulada Festa de Iemanjá, Salvador, c. 1941. Zélia, parceira de aventura de Jorge Amado, companheira, namorada, musa, força motriz nos diz, logo após a página final do romance (272):

“Mar morto foi o primeiro livro de Jorge Amado que li. Li e adorei a história de amor passada no mar da Bahia, um romance de fazer sonhar, cheio de poesia. Eu estava longe de imaginar que um dia conheceria o autor, que por ele me apaixonaria, que seria por ele amada e que, juntos, viveríamos 56 anos de puro e verdadeiro amor. Eu, Lívia, nos braços de meu Guma, Jorge, com direito a brisa do mar e moqueca de siri-mole.

Mar morto foi o abre-alas, assim que terminei de ler fui em busca dos outros. A leitura de cada novo livro me emocionava, mas este, o primeiro, nunca perdeu o seu lugar de preferido.

Zélia Gattai Amado” (p. 273).

Cigarras cantam forte no quintal dos meus pais. Um dia, mesmo não sendo alguém do mar, voltarei para repousar eternamente nesse porto.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Salve o grande Jamelão (12 de maio de 1913 - 14 de junho de 2008)

Essa é curta, não lembro o ano, mas o Fernando Vanucci ainda era vivo e cobria o carnaval carioca pela Rede Globo de Televisão. Aliás, bons tempos, ele foi o âncora, a voz da TV na Sapucaí entre 1985 até 1999. Mas, vamos ao que interessa e, de certa maneira, fica a dica para quem pedala pelas zonas urbanas, na selva de concreto. Um jornalista, que não lembro o nome, estava na Marquês de Sapucaí, a Estação Primeira de Mangueira no aquecimento, ao grande intérprete, a entidade Jamelão, o repórter pergunta: "Jamelão, como é que tá preparado, 83 anos, tantos carnavais nas costas, para 'cantar o samba' - como você prefere - como é que está esse ano?". Responde o sambista: "Tá tudo certo. É a mesma coisa do ano passado. Não tem nada de novo aqui." O repórter querendo dar uma de esperto pra cima dele: "Tá tudo igual (...) mas o senhor preferiu não ficar lá embaixo, veio cá pra cima". O Jamelão sem se abater, finaliza: "Malandro é o gato que come peixe e num vai na praia". Por um frame é possível ver, o repórter se vira para a câmera e em graça diz: "É a sabedoria popular de Jamelão, cheio de expressão, que vai agora cantar o samba aqui na avenida. Voltamos com Fernando Vanucci".

Fica aí a história! E na versão Web/PC d'O Ventríloquo é possível ver o trecho do vídeo logo abaixo:



sábado, 13 de agosto de 2016

A razão da loucura

Mercado Governador Albano Franco - Aracaju-SE

Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe mais o mangue
(Aracaju - Tomás Improta - Vinícius Cantuária - Caetano Veloso - 1979)

Tenho por costume me levantar um pouco mais tarde nos finais de semana, algo entre às 7:30 e 8:30, por aí. Pego o carro e religiosamente vou aos Mercados Centrais de Aracaju. Não sei, mas o vozerio, a agitação, o vento que vem do rio, o céu azul... tudo isso, e alguma coisa a mais, me faz ter uma sensação boa de vida.

Acredito piamente que nós brasileiros nascemos com uma desigualdade nas pernas muito grande e que se reflete de forma muito evidente no trânsito: um pé muito pesado para o acelerador e o outro muito lento para o freio.
É meio provinciano ou local isso, um exemplo muito específico, eu sei, porém, todos sabem que para sair andando do estacionamento próximo ao Terminal Mercado (o dos ônibus) e atravessar a estreita rua que dá para o espaço de pescados ou o das carnes do Mercado Governador Albano Franco é necessário um balé acrobático. Um equilíbrio extremo, quase passos certeiros de valsa para nos desviarmos dos carros e motos que parecem ter um prazer extremo em ver os pedestres suados sob sol quente de Sergipe, afoitos na tentativa de chegar até o  primeiro Mercado.
Não sou um bom bailarino. Dois pra lá, dois prá cá.
E hoje, não diferente dos outros finais de semana, quase fui pego por um Siena fire prata, quatro portas, placa de Aracaju e tendo um senhor um pouco calvo, cabelos brancos e camiseta como condutor. Acho que ele estava com uma sede tremenda, um ódio tamanho para acertar as contas com alguém – ou ele é assim mesmo – pois quando tentei atravessar à frente do seu objeto de poder, aquilo que o torna um individuo diferente dos caminhantes, ele acelerou mais e quase me pegou. Curiosamente, fui salvo pela fidalguia de um motociclista que parou o trânsito da “segunda faixa” – não sei bem se existem faixas ali.
Em meio ao caos cotidiano, ainda pude ouvir um “filho da puta!” em brados retumbantes do motorista! Pensei comigo, poxa nem um “filho do cabrunco... foi filho da puta mesmo!”. Vida que segue e a minha seguiu.
Fiz o que sempre faço, passei na mesma banca, com o mesmo moço e pedi uma água de coco, trocamos uma ideia e ele fez a mesma piada dos outros tantos finais de semana: “Já se protegendo pra cerveja da tarde!”. Eu sempre sorrio e balanço a cabeça.
Fui no mesmo vendedor de queijo coalho dos sete anos em que vivo em Sergipe. Conversamos sobre a mesma coisa dos últimos cinco e depois enfrentei as calçadas justas e abarrotadas para comprar um filtro d’água. Na volta, de fato, tomei uma cerveja e comi um caldo de mocotó no segundo Mercado, enquanto os chorões afinavam os instrumentos. Fiquei pouco ali.
No vendedor ervas, bati um papo e comprei um capim santo pro bichano e, de costume, atravessei o que eu chamo de Paço, onde fazem os tradicionais forrós de junho. Tudo muito cansativo para que você me ouça, eu sei. Mas a alguns metros de entrar no primeiro Mercado, o das frutas, o dos pescados... aquele em que tempos atrás quase virei parte de asfalto. Ouço uma voz firme, grosseira, me questionando de forma intimidadora: “Você é maluco é?”.
Nesse momento minha educação tipicamente da Baixada Fluminense surgiu como um sentido de Aranha prevendo o perigo. Continuei em passos normais. “VOCÊ É MALUCO, PORRA? ESTOU FALANDO COM VOCÊ!”. A coisa ficou séria.
Parei. Tiro nas costas se não matar aleija.
Olhei firme, porém tranquilo. “VOCÊ É MALUCO, QUER MORRER?”. Ah, a didática do trânsito. A didática do motorista cheio de razão que não leu a cartilha do DETRAN.
Frações de segundo serão transpostas em palavras para você, afinal, a mente humana funciona de maneira muito curiosa e um segundo realmente pode parecer uma eternidade quando tentamos relembrar e concretizar a memória em palavras. Então me dê sua mão e vamos juntos para dentro da minha cabeça naquele instante que agora se eterniza entre nós dois:
Se eu responder que não sou maluco darei razão a ele para converter a violência verbal em violência física, violência evidente para mim, mas evidentemente natural e correta para ele. Eu continuava olhando, se houvesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa. Se eu continuar calado, no máximo ficarei ouvindo mais alguns impropérios desse idoso, mau motorista, mau cidadão, arrogante e que deve ter uma vida fodida, tratar mal seus filhos, mulher. Posso mandá-lo tomar no olho do cu, se danar. Mas isso lhe dará razão para partir para cima de mim. Bater em velho é uma puta sacanagem. Porém também posso apanhar. Puta sacanagem. Ele pode estar armado, pode me matar e ele já quase me matou. Eu continuava olhando para ele, se eu tivesse um espelho de palavras aqui diria que eu estava mesmo com uma expressão amórfica de louco. Não esboçava reação a não ser a de uma paz interior como instrumento de defesa, isso só alguns loucos passivos têm. Preciso ser racional. Ficarei parado olhando para ele, sem rir, sem me mexer, a não ser que ele avance. Posso me desviar. Pensei também, confesso, se ele partisse para cima de mim: Posso dar na cabeça dele com a parte de terra da muda de capim santo, o filtro não serve. Não! Vou destruir a muda, destruir o filtro. Fiquei parado, olhando para ele.
“VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA NÃO É? ÔXE! É MALUCO MESMO ESSA PRAGA. NÃO DEVIA TÁ SOLTO POR AÍ NÃO, PODIA TÁ AGRADINDO ALGUÉM. AÍ ATRAVESSA ASSIM DESEMBESTADO. E ESSAS MARCA AÍ NO BRAÇO? É COLEIRA? É MACUMBA?”. Eu parado, olhando. Nós dois, talvez, os únicos no mundo. O tempo parado. Entre o centro e a periferia do Paço. Ele, sei lá de onde. Eu de um morro da Baixada Fluminense. Me equilibrando entre o bem e o mal. Meu silêncio, minha segurança. A voz dos meus pais dizendo na infância que quem anda com porco farelo come. Você tem que estudar. Estudar te fará uma pessoa melhor. Minha mãe na última semana aconselhando: você anda irritadiço. Precisa ser mais calmo. Pode surtar a qualquer momento. Eu chorando ao telefone. Minha mãe me aconselhando. E eu parado ouvindo aquele senhor bradando com dedo em riste que eu era maluco. Louco de pedra. Irracional. Eu. Ele. Nós. Eu pensando isso tudo. Um minuto, talvez. Esse foi o tempo. Talvez. A voz dele amansou. Me chamou de filho. Perguntou onde estavam meus pais. Afinal, eu era um louco, um maluco. Aconselhou que eu não devia ficar perambulando pelo Centro de Aracaju. Aconselhou o caralho, me deu foi bronca. “O Centro é perigoso” ele disse. “Vai, vai. Vai tomar seu ônibus. Vai pra casa!”. Não esbocei palavras durante aquele um minuto, um minuto e meio, realmente não sei medir o tempo. Continuei caminhando, o cheiro bom do capim santo. O vozerio novamente, as mesmas piadas, os abanos de cabeça. O moço dos ovos capoeira. A tia das lambretas. Os cheiros. Sorri. Não olhei para trás. Sorri. Estou ficando mais calmo. Menos irritado como minha mãe aconselhou. Não vou surtar, precisar de remédios, falar com profissionais. Eu terei sempre os Mercados Centrais.


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A consciência construída e uma afirmação necessária

O mestre Angenor de Oliveira, Cartola

Os óculos escuros de Cartola
(Letra: Marcelo Yuka/ Música: Max de Castro)

Uma lente negra protege os olhos
Dando chance a outros pontos de vista
Poesia mantida

Poesia cantada

Poesia pichada

Como consequência de vida

Pra que a raiva não nos forme

Com o mesmo peso e medida

O povo pobre faz da arte história

Como os óculos escuros de cartola

Os óculos escuros de Cartola

Eu ouço o eco dessa hora
Sensibilidade a toda prova
Foi-se o corpo
Foi-se o cansaço
Só não foi embora a necessidade
De ser leve apesar
De tanto peso nas costas
Como cerveja gelada depois da obra
Verdades sem moda
Como os óculos escuros de Cartola
Os óculos escuros de Cartola.

Recentemente, numa dessas manhãs cujo peso do tempo, se você permitir, te deixa inerte no chão, eu debatia com meus colegas alunos o velho processo de transição entre o Românico e o Gótico. Uma sala vazia de poucos bons e atentos participantes, janelas amplas que me permitiam ver a luz do sol clareando a grama verde e as idas e vindas de jovens pelo passeio da universidade. Acho que nunca disse isso, mas algumas salas de aula são torturantes quando nos permitem observar que há um vasto mundo de idas e vindas lá fora e ao mesmo tempo instigantes por vermos o movimento da vida correndo.
Naquela ocasião, em especial, eu necessitava arduamente me manter em constante andamento em meu pensamento – não pelo assunto da aula – mas pelo meu estado de cansaço físico e mental de uma longa semana de um mês que parece estar tendo longas semanas de moto-contínuo. Enquanto os sete graduandos acompanhavam minha fala, alguns anotando, outros formulando seus comentários, perguntas ou mesmo pensando na vida... lembrei com certa nostalgia algumas igrejas medievais que pude visitar. Automaticamente, comentei da paz que, apesar dos pesares, eu sentia ao entrar naqueles espaços. Um dos meus alunos pediu a palavra e iniciou um profícuo debate de co-relação, dizendo que havia achado interessante minha fala, pois se recordava que ao visitar uma igreja em Recife ou Olinda (não me lembro agora) com uma amiga negra, o comentário que ela fez foi totalmente inverso ao meu: Ela havia sentido um grande pesar, uma angústia enorme por aquela construção, em especial, ter sido levantada graças ao suor e sofrimento de seus antepassados africanos. Mais do que paz, ela sentiu dor. Por um momento me silenciei, não por vergonha do meu raciocínio ou coisa do tipo, mas processando, primeiro, a sagacidade do comentário do rapaz e, em segundo, a maravilhosa possibilidade que tínhamos naquele momento para discutir História e sua função.
Quando menino, disse eu para turma, passava minhas férias em Paquetá, uma ilha que se localiza, aproximadamente, uns 15 quilômetros do Rio de Janeiro. Lá, passava a infância solto, andando de bicicleta, pescando cocoroca, lendo na biblioteca pública. No Mirante, brincava passando por seus túneis cravados na dura rocha que compunha aquela fortificação de antiga defesa. Naqueles anos nostálgicos da minha infância e pré-adolescência, confessei, nunca no ir e vir correndo, pulando preservativos e merda humana deixadas dentro dos túneis na parte de baixo do Morro do Vigário, ter parado para pensar no que os veios no teto e nas paredes significavam.
Foto de Yuri (Cirulo) - 21 de Fevereiro de 2011

Muito tempo depois, continuei o relato, já adulto, professor de História, visitei com alunos da graduação que passavam o carnaval daquele ano comigo a mesma, porém diferente, ilha e seu mirante. Ao entrar nos túneis um silêncio mórbido em cada um de nós se instaurou e mesmo o belo pôr do sol que beijava a Baía de Guanabara não foi o suficiente para que todos, ao seu próprio modo, sentissem com o tato e com o coração, uma consciência construída de que aquela passagem havia sido perfurada na pedra certamente por escravos africanos arrancados de sua terra por mãos brancas.


Foto de Aquino Neto - 21 de fevereiro de 2011

Não posso falar do sentimento dos meus amigos, mas me recordo ainda agora como as pontas dos meus dedos percorriam a parede e o significado que aquele gesto teve.
Hoje, dia 20 de novembro, comemora-se o Dia da Consciência Negra. Curioso, mas quando eu ainda morava no Rio e subia e descia minha rua, tomava o trem para a Central e convivia constantemente com a visão esdrúxula e doentia do racismo diário que os negros sofrem, nada mais teve tanto impacto quanto o passar os dedos naquelas paredes. Ana dizia hoje pela manhã que, como negra, impressão idêntica a minha no túnel do Mirante de Paquetá, teve ela ao visitar o Cemitério dos Pretos Novos, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro (para conhecer sobre, clique aqui). Ela tem suas razões. Eu tenho as minhas.
As vozes se misturam e me embaraço. Volto à quinta-feira dessa semana: Olho meu aluno e percebo que transmitimos o mesmo pensamento e temos o mesmo questionamento. Talvez, eu, por menos coragem, transformo em palavras naqueles minutos a pergunta que permearia nos momentos finais da nossa aula, certamente, a construção das nossas reflexões: Eu, ele, sua amiga, e hoje pela manhã, Ana, teríamos o mesmo sentimento de perda, dor, revolta, ou até de reflexão do mal que foi a escravidão negra e as feridas ainda abertas que se mantém e tão amargamente tentam ser apagadas pelo discurso tacanho, sem o estudo da História?
A consciência construída torna-se, a meu ver, uma das afirmações mais necessárias no cotidiano e o mecanismo fundamental para anular o discurso, já absorvido até por alguns negros, de que o caminho é esquecer o debate sobre o racismo, mesmo eu já cometi esse erro, é colocar panos quentes na realidade que nos cerca. Não somos todos iguais. Jamais saberei na pele o que é ser preterido por cor em um país tão multicultural quanto o Brasil. Jamais saberei o que é ser parado na rua e revistado antes do branco que caminha ao lado. Jamais saberei muitas coisas sobre o que é ser negro no meu país. Hoje, mais do que nunca, de minha parte ou da do meu aluno, percebo que não se trata de um sentimento de empatia com a História dos Afrobrasileiros e seus antepassados, mas uma profunda necessidade de luta constante pela afirmação de identidade e da dívida que deve ser paga pelos males que este passado escravocrata tão recente legou ao presente e que permanece se reconfigurando constantemente com o olhar reprovativo quando sua companheira negra sobe para o próprio apartamento no elevador social e é veladamente vista como um empregado que deveria subir pelo de serviço...
Aliás: Quem inventou essa praga de que elevador de serviço é para os prestadores de serviço em condomínios...? Elevador de serviço é para descer com entulho, lixo, seu cachorro para passear!



Ps. Se quiser ouvir um som bom, a voz poética, clica aí embaixo nos Óculos escuros de Cartola:



terça-feira, 22 de setembro de 2015

Bandido bom é bandido morto...

Carceragem da Polinter de Nova Iguaçu - Fotografia retirada do blog Memórias do Cárcere, 29 de setembro de 2010


É no mínimo curiosa e temerária a frase bandido bom é bandido morto. Na verdade, numa análise mais profunda, bandido bom é aquele que foi recuperado, logo, pode deixar até mesmo de ser chamado de bandido.
Bandido significa, segundo o Houaiss, 1) individuo que pratica atividades criminosas; malfeitor; bandoleiro, salteador e, por extensão, 2 ) pessoa sem caráter, de maus sentimentos. É uma palavra que tem sua etimologia remontada ao século XIV. Mas, paremos por aqui. O sol já começa a se colocar matreiro no seu descanso e como é terça-feira, nem cabe um convite para um chope. O dólar hoje bateu a casa dos R$ 4,00, mas nada disso é efetivamente importante para nós dois, pois bandido bom é bandido morto.
A frase me assusta mais quando é entoada por pessoas que são perceptivelmente calmas, ditas de “boa família”, possuem empregos, vão e vem de ônibus, carros e até bicicletas. Assusta, pois ela representa um processo que não é de hoje e que está profundamente enraizado no cotidiano e que pode ser dividido em dois pontos fundamentais: A gradual perda de confiança (ou mesmo desconhecimento mais apurado) nas leis e o cansaço que consequentemente gera revolta. Esse misto duplo pode ser agrupado em outros subgrupos extensos e variados, mas que podem se resumir no sentimento um tanto geral de que tudo se resume a impunidade. Logo, a solução seria punir os impunes com as próprias mãos. Mas isso, veja bem, fará de você um criminoso, um malfeitor. Quando não, já por extensão: uma pessoa de maus sentimentos!
O primeiro ponto fundamental que comentei é de ordem, penso eu, educacional e de sentido formal: boas escolas. O acesso às leis, pelo incrível que pareça, não é tão complicado quanto possa parecer para o mais desavisado, desinformado. Mas, ao mesmo tempo, é claro que o que se vê, o que se lê, remete o individuo que as busca a uma certa desvalorização de seus significados, importâncias normativas (não gosto do anarquismo, penso serem as leis, quando bem feitas e cumpridas fundamentais para a organização em sociedade, aliás, elas foram/são criadas para isso, se bem criadas ou não, é uma outra prosa), reguladoras e em alguns momentos até opressivas. Nosso currículo educacional é fraco, seja nos segmentos básicos, seja na universidade. Além de engessados nesse último ambiente, ele é extremamente vinculado a tudo aquilo que, como uma grande bagagem, foi trazida pelos alunos: uma concepção de estudo voltada para o quantitativo e não para o qualitativo.  Me deparar, por exemplo, com um aluno de História que ignora a pertinência, quando não  a importância, de se estudar períodos como a Antiguidade (berço da dita democracia, salvo, claro, anacronismos) e a Idade Média (onde testemunha-se um Cristianismo que mais e mais se normatiza em concílios e cânones que ainda hoje embargam justos debates nas casas legislativas como o aborto ou mesmo as pesquisas com célula tronco) me deixa assustado. É lógico que, não paradoxalmente, a culpa nunca esteve nos ensinos básicos, afinal quem forma aqueles que estarão atuando nos Ensinos Fundamental e Médio?
O mesmo é passível de se afirmar a respeito do aprendizado dos nossos Direitos e Deveres. Pois é, acredito que nossos direitos estão intimamente vinculados aos deveres que possuímos. Afinal para tudo ou quase tudo há uma contrapartida. Ao que parece, a coisa toda foi engessada de tal maneira que Direitos e Deveres tornaram-se enunciados antagônicos e extremamente subjetivos, quando não individualistas. E constantemente quando se resolve enxergar as leis ou recorrer a elas procura-se sempre atentar apenas para um lado da moeda, a ponto de se ignorar que uma Justiça bem feita é aquela que não ignora as duas mãos da rua.
O segundo ponto, esse o que mais me chama atenção, pois possui uma camada de gordura difícil de analisar e chegar a algum lugar verdadeiramente, gera aquilo que vem sendo aplaudido já há anos por essas “boas famílias”: a justiça pelas próprias mãos. Uma vez que, para o grosso da sociedade – seja no passado ou na atualidade – a Justiça tornou-se um engodo. Como que num ritornello de semibreves numa mesma linha do pentagrama e sem fine, gera a frase que iniciou nossa conversa: Bandido bom é bandido morto.
Justiça seja feita, ponho minha cara a tapa, evidente que ouvirei em algum momento: Você nunca sofreu algum tipo de violência! ou Quero ver se fosse com um parente seu!. Justo. As duas frases são justas e melhor ouvir isso do que a máxima Está com pena, leva para casa!, essa a mais brutal e desconexa.
Milhares de pais, mães, filhos, perderam e perderão entes queridos de maneira brutal pelas mãos de algum algoz, seja aquele desviante (explicarei adiante o que entendo por desviante) com uma matrícula pública e com o aparato estatal por detrás do fardamento ou por aquele desviante sem uma matrícula pública e com o aparato estatal por detrás e na maioria das vezes de chinelo de dedo e sem camisa. Os dois desviantes são bandidos. Os dois necessitam de algum tipo de processo corretivo, simplesmente por serem desviantes.
O Brasil, dado importante este, tem uma das maiores populações carcerárias do mundo e um dos piores índices de correção de detentos. A Justiça é lenta e falha. Esses dados, soltos assim, podem ser manipulados da maneira que o bebum no botequim preferir, inclusive pelas “boas famílias” e pelo “cidadão de bem” que anda revoltado com o contexto. Ao mesmo tempo, segundo relatório da Anistia Internacional (Brasil) a quantidade de execuções extrajudiciais no Rio de Janeiro é assombrosa, basta conferir. Pelo visto, já temos “justiceiros” suficientes, não?
A polícia mata e mata mesmo e tem ferramentas jurídicas ou pelo menos elementos discursivos: auto de resistência, homicídio decorrente de intervenção militar...
Mas voltemos a boa e velha acusação de hipocrisia: É fácil falar sobre o que você não vive! ou É fácil colocar em prática esse discurso militante sem sentir na pele ter a vida de alguém amado ceifada.  A quantidade de exemplos de frases ultrapassariam minha capacidade de produzir sons. Eu poderia, inclusive, ser personalista, soar aqui violinos e contar minha história de vida, o que passei e deixei de passar, as escolhas que fiz, o que ganhei e perdi... Mas, já disse certa vez, um discurso só é bonito se ele convence.
Mas por se tratar de um Ventríloquo queria invocar outra voz.
Em 2004, eu estava caminhando pelo Centro do Rio de Janeiro – não, não fui assaltado – e fui abordado por um vendedor de Ocas”, uma revista publicada por uma ONG chamada Organização Civil de Ação Social, clique no nome que você saberá mais sobre. Naquele mês de julho, o número vinte e quatro da revista tinha o Chico Buarque na capa e uma interessante entrevista com o cantor e compositor, que me permito reproduzir uma pergunta, em especial:

Ocas” – De que maneira a situação de violência no Rio de Janeiro te afetou?
Chico – A mim, pessoalmente, muito pouco. Na semana passada, roubaram a bicicleta da minha filha, por exemplo, ali na Lagoa. Todas as minhas meninas já foram assaltadas mais de uma vez, mas eu nunca fui. Nunca andei de relógio, anel, corrente, até para evitar isso, para não ter muito o que levarem. Então, desses pequenos crimes ando mais ou menos a salvo. Mas isso não quer dizer nada. Essa confusão não me afeta fisicamente, mas de resto afeta tudo. É ruim estar nessa loucura. Não vivo com paranóias, não tenho essa preocupação. Já passei por climas parecidos, mas que eram mais fáceis de lidar. Por exemplo, no tempo da repressão, sendo realmente ameaçado de ser morto, sofrer acidentes, eu convivia com isso. Não era paranóia de repente chegar uma caixa na minha casa e eu ter que atirar longe para ver se explodia. Mas o que acontece hoje é que você vive com esse clima, e o que te ameaça não vem do inimigo. Esses caras que estão fazendo isso, eu provavelmente dou razão a eles. Se o cara quiser entrar aqui em casa e levar essa porra toda, me dar porrada, eu vou ficar muito puto, não vou gostar de apanhar, mas no fim das contas vou pensar que se eu estivesse no lugar dele faria a mesma coisa. Às vezes as pessoas jogam pedras do mirante aqui na minha piscina, e eu penso que, se eu estivesse lá em cima, também jogaria, entende? Estou lá, vendo isso tudo aqui embaixo, estou sem um puto, eu não vou virar evangélico, não vou ler a Bíblia, talvez tente trabalhar e não consiga nada e, aí ainda mais, eu vou querer aquela bicicleta daquela garota que está passeando na Lagoa (Ocas”, ano 2, n. 24, julho de 2004, p. 24).

Eu pensei em enfatizar mais alguns trechos do que outros, mas você deve ter ouvido eu firmar mais minha voz neles, se você tiver um ouvido bom, certamente conseguiu. A primeira questão que vale a pena, mas vale a pena mesmo, é a percepção de que o “outro” não é seu inimigo. Sim, podem me linchar. Mas é exatamente isso. O outro não é e nunca foi o meu inimigo. O processo de se colocar no lugar do outro é complexo e confuso. As motivações que constroem os desvios pelos caminhos são justificativas injustificáveis, mas que, sim, se olharmos atentos possuem um fundo, porém escondido abaixo de toda aquela gordura que já comentei (um exemplo, fantástico é a história do Sandro Dias).
Alguém já disse certa vez, na verdade, quem disse foi o Marcelo Yuka, que a fome é como um esperma por entre as pernas da violência, de fato, ele tinha razão. O processo de exclusão social no nosso país é como uma bola de lama e essa bola por onde passa vai arrastando tudo. Não muito curiosamente, e não fique pasmo com isso, ela não desce dos morros para o asfalto. Ela sobe do asfalto para o morro. É lógico que mesmo sem o mal da exclusão que aloca os menos favorecidos na margem da sociedade de consumo, a Justiça, as leis e todos nós sempre nos depararíamos com indivíduos desviantes, não no sentido de ignorar a individualidade de cada ser e considerar que fulano ou sicrano estão fora dos padrões aceitáveis. Ora, a lei é mutável e deve atender as necessidade – mínimas – de convivência pacífica entre a pluralidade de comportamentos possibilitando a mínima organização na convivência entre os povos. Me refiro ao um problema ético, grave, que quem sabe um dia tenho paciência para abordar. Porém, lembre-se sempre que um bandido é uma pessoa de maus sentimentos.
Finalmente, mas em Fade out, cabe um alerta. Um “justiceiro” nada mais é do que mais um desviante nessa rua longa que é a convivência humana. Nada mais é do que um agente travestido da própria violência que julga combater. E ele tem um olhar que mira um ponto sempre comum: o negro, pobre e favelado. O “justiceiro” não visa justiça, visa uma falsa redenção por meio da morte do outro que por si só – ele não percebe – é a sua própria morte, uma vez que é incapaz de se ver no outro. Eu quero que minha voz continue ecoando, eu quero que a minha revolta contra a violência e a injustiça também, mas jamais serei representado por esse tipo de gente, jamais endossarei o discurso da barbárie, tampouco, da anarquia. Como disse o grande Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, num show em Exu, Pernambuco, em 1989: É somente através do trabalho da comunidade que nós vamos conseguir realizar alguma coisa, somente o trabalho conjunto e o respeito ao trabalho que vai nos levar aquilo que nos queremos. Uma melhor qualidade de vida. E nos queremos o melhor. É ou não é?
Hoje o “moleque” Gonzaguinha completaria 70 anos de idade, eu queria ter conversado sobre isso, queria ter expressado a importância que suas músicas tiveram para a minha formação como ser humano, mas prefiro encerrar em Fade out...

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A falsa ideia de praia como espaço democrático e igualitário: Apartheid e eugenia social no Rio de Janeiro

Praia de Ipanema - em algum dia quente de verão


Reuniões oficiais escurecendo outras salas
Onde a tortura faz filho
Na pele de um jovem afro-brasileiro
Na pele de um jovem fodido e sem dinheiro
Catequeses do Medo – O Rappa (1994)



As praias são o espaço mais democrático que existe (no Rio de Janeiro). Esta assertiva, em algum momento, esteve ou foi ouvida saindo da boca de algum carioca. E nas últimas semanas, quase há um mês, certamente, esteve mais em voga no estado do Rio de Janeiro. Aliás, se retirarmos o parêntesis da frase, ela pode ter sido ouvida pronunciada por lábios de sotaques diversos em qualquer cidade litorânea do espaçoso, porém espremido, Brasil. Divagarei sobre o velho Estado da Guanabara, pois há muito a dizer, mas seja puxando o x e o s, seja dando bastante tônica ao t e ao d, não importa muito: AS PRAIAS, AQUELA FAIXA DE AREIA COM INFINITO MAR, NUNCA FORAM DEMOCRÁTICAS!
Antes do funk carioca ter sido descoberto pela classe média dos prédios com porteiros, antes mesmo de ter sido descoberto como manifestação legítima de cultura por sociólogos e antropólogos, ele já denunciava o apartheid vivido pelos excluídos e marginalizados de morros e subúrbios de subúrbios do Rio de Janeiro. Aproximadamente, em 1991, quando a fusão do Miami Bass com tambores tipicamente afrobrasileiros tomava de assalto as rádios numa interessante batalha sonora, um disco conduzido pelo Dj Malboro continha uma inteligente, humorística em sua tragédia de típica crônica e certeira música.
Me refiro ao Melô do Farofeiro, faixa dois do Lp Funk Brasil 3. Observe que naquele tempo ainda se utilizava o termo “Melô”, de melodia, antes do tema que seria desenvolvido na canção. Ao mesmo tempo havia o “rap” disso e daquilo outro. De pouco a pouco a coisa mudou. Mas, prossigo.

Na letra, que reproduzo, é possível ler:

Quando vou à praia eu madrugo na estação
Prá esperar o trem que anda sempre lotadão
Embarco na marra, a viagem é uma barra
Por isso na praia sempre faço a maior farra
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
No bairro que moro o calor é muito alto
Sempre tem alguém fritando ovo no asfalto
Falta água, não tem sombra o jeito é ir pro mar
Mas é só pisar na praia e alguém vem me zuar
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Quando tô na praia deito e rolo na areia
Não tô nem aí se me olham de cara feia
Levo rádio, levo bola, frango assado prá comer
Levo farofinha que mamãe sabe fazer
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul
Antes de ir embora eu dou sempre um rolé
Piso na toalha, jogo areia na mulher
Vou do Leme ao Pontal, prá ver fio dental
Depois pego o buzú e dou calote na Central
Chamam “o farofeiro”
Isso não tem nada a ver
Se chamar de novo, já sei o que vou dizer
Eu moro longe prá lá de Nova Iguaçu
Se você não gostou
Sai da Zona Sul

Em finais de agosto deste ano de 2015, a Polícia Militar do Rio de Janeiro apreendeu, com sua típica truculência, um expressivo número de jovens e adolescentes (apenas um branco) que estavam num ônibus a caminho das democráticas praias da Zona Sul carioca (ver matéria vinculada ao Jornal Extra).
Ora, como a letra demonstra em seu humor crítico a “eugenia social” ainda o é como o foi. Exagerado eu? Que sejamos exagerados quando a crítica recaia sobre os excluídos, amigos! Porém, evitarei ser personalista recordando meus tempos infantis saindo de Mesquita (antigo Primeiro Distrito de Nova Iguaçu) com meus pais, com frango e farofa no isopor. Isso fica para um momento mais alcoolizado de minha parte. Mas, não posso deixar de relembrar também da boa mortadela com pedaços de pimenta e pão francês que com a boca salgada de água do mar parecia ter um sabor único quando eu me sentava em alguma sombra de árvore na Praia do Flamengo para comer ou da minha cara cheia de farelo de Biscoito Globo sujando o banco do ônibus que nos levava da praia até a Central do Brasil para pegar o trem. Deixemos o personalismo de lado nessa conversa.
Todo o exagero violento da PM carioca foi prontamente denunciado pelas mídias, movimentos sociais, arautos da liberdade em suas poltronas facebookianas, locus da contemporânea revolução. Prontamente, houve um recuo quase imediato das “forças de segurança” e o TJ-RJ, após ação da Defensoria Pública, proibiu futuras apreensões (Ver matéria vinculada ao Brasil Post).
Fim do impasse? A liberdade, típica da democracia, venceu? Eu estava errado, as praias são sim os únicos espaços que ainda podemos bradar com peitos inflados como local da ação prática da democracia, cujo direito de ir e vir se manifesta diariamente? Não.
Nada mudou. O antes ainda o é.
E veja bem, confrade, você aí que ouve ou tenta ouvir as múltiplas vozes desse velho e ultrapassado Ventríloquo... Você aí, ouça bem: as praias nunca foram e não são democráticas.
Esse discurso de democracia praiana, nada mais é do que uma sutil artimanha que colocaram, sabe lá Yemọja quando, em bom Yoruba, colocaram na nossa cabeça. A questão, Rainha do Mar, é que seus filhos Ogum e Oxóssi vão continuar tomando porrada no quengo de PM, com recuo ou não das apreensões.
Mas, todo exagero de violência emanada pelo Estado leva automaticamente ao recuo, como eu já disse, do próprio Estado e esse recuo obrigatório cria estratégias para os dominantes manterem a boa e velha dominação, uma vez que o Estado, atualmente, funciona evidentemente para um pequeno grupo dominante.
Numa “jogada de mestre” a Secretaria Municipal de Transporte do Rio de Janeiro extinguiu nada mais nada menos do que 22 linhas de itinerários que ligavam, alguns deles diretamente, as Zonas Norte e Oeste à Zona Sul, fora alguns tradicionais bairros suburbanos que emanam de forma profunda a alma, a verdadeira, carioca que também foram subliminarmente podados de seu acesso direto ao mar: Ramos (esse com seu piscinão), Olaria, Maré, Jacaré, etc. (Ver matéria vinculada ao Jornal O Dia).
A polêmica mais uma vez está posta. Se haverá recuo? Não sei. A questão é que há tempos o Rio de Janeiro, enquanto Estado e Cidade, sempre foi geograficamente separado e excludente em todos os sentidos, ora por cercas, ora pela constante desigualdade. Não se trata aqui de considerar a não democratização da praia, à despeito do que afirmam muitos, como um grosso modo, de que todo carioca do Baixo Leblon àquele que se senta à noite na COBAL do Humaitá para beber um chope gelado é empinado e excludente em seu discurso para com uma maioria que vive nos subúrbios e na Baixada, conheço muitos que não o são. Os olhares atentos de porteiros migrantes nordestinos e a educação que seus ouvidos pacientes contra o preconceito da aristocracia falida que ainda se esforça para tomar café no Copacabana Palace, possibilitou uma sólida educação formal para seus filhos, hoje professores em diversos segmentos, inclusive, universitários, médicos, advogados ou mesmo outros porteiros de olhos atentos e ainda ouvidos pacientes para todo o preconceito de uma classe média fodida, mas que, se tudo der certo e há de dar, terão seus filhos nas cadeiras ao lado dos filhos dessa classe média fodida em boas escolas públicas. Ou seja, a coisa não deu muito certo para a minoria preconceituosa da Zona Sul e essa Zona Sul atual, à parte das já tradicionais favelas coladas, é mais mista e bela do que eles queriam!
O próprio caro e contraditório conceito de subúrbio, talvez, não sei, poderia ser repensado. As casas da Rocinha com belas vistas para o mar ou as de outras favelas localizadas na Zona Sul sempre foram um “subúrbio” lá do alto, mesmo com toda a violência provocada pela demanda por cocaína produzida pelos bacanas do asfalto. Sobreúrbio, talvez. 
E sempre foram as mãos e braços firmes de gente que viaja de Japeri até o Leblon ou que desce as ladeiras dos morros que mantiveram a força motriz e pulsante da cultura que se produziu e se exportou advinda da Zona Sul: Alguém lavava aos copos sujos de uísque do Vinícius de Moraes, não? Cartola, esquecido, foi redescoberto lavando carros.
As praias estão aí, cheias de coliformes e garrafas PET, talvez, esse o melhor exemplo de democracia entre pobres e ricos nas areias das praias cariocas. Porém, estes últimos, financiadores dessa “eugenia social” jamais devem se esquecer que assim como somos todos pó (de cocaína até a terra com vermes e ossos), também somos todos merda boiando no glorioso mar de Yemọja. Somos todos nossa firme merda no mar.




terça-feira, 21 de abril de 2015

Chega de homenagens!

João Bosco e Aldir Blanc em idos dos anos 70 (Foto retirada de: http://oifm.oi.com.br/site/#!/noticia/musica/-comabocanomundo-bosco--aldir---tinhorao--tiros-de-misericordia)

Queria – e como eu queria – bradar aqui molhando a camisa de chope. Aquele gelado, com colarinho bem branco e espumoso. Bradar com punho firme, para o alto, e ao deixar o ouro líquido derramar, escorrer pelo meu braço esquerdo, o da força, o da escrita, o da datilografia e dos muitos lápis pretos Faber-Castell da infância, ser perdoado pelo melhor amigo no estilo “deixa disso”.
“Deixa dilson, Arnufo!”, ele diria em tom matreiro, já capenga, meio bêbado. Diria, eu sei que diria. Mas, só se existisse. Diria: “deixa dilso, para com nelso! Tudo há de melhorar!”. Mas, não!

No tempo real

Não visualizo os quatro rapazes, já mais velhos, de Liverpool na faixa, visualizo o horizonte profundo da foto. Eu era assim. Não sou mais. A verdade é que estamos diante da revolução da ignorância. Das ignorâncias. De todos os lados.

Por pura coincidência ou, talvez, com alguma explicação mais exata, ouço agora o belo disco Galos de Briga, de João Bosco. Lançado em 1976, posso afirmar que não foi por mero formalismo que na contracapa, belíssima, por sinal, a presença marcante do parceiro Aldir Blanc preenche aquela que foi, em minha opinião, uma das maiores parcerias entre poesia e música que já aconteceu no velho Brasil.

João Bosco e Aldir Blanc, em 1976, contracapa do Lp "Galos de Briga".

E também não é por mera coincidência ou demonstração de erudição que faço referência a esse poeta maior das nossas letras, Aldir Blanc que, com sua ironia de profeta das ruas, das esquinas, dos bares pé sujos, prostíbulos e extintas casas de sinuca, lançou, não seu melhor, mas o interessante e, para mim, atual Brasil Passado a Sujo: A trajetória de uma porrada de farsantes, em 1993. Tenho a primeira edição que, com um misto de orgulho e ego, comprei num sebo. E hoje, no tempo real, cito:

“Inflação, crise dos valores morais e espinha na bunda são coisas que fazem a gente refletir. Com o chazinho das crianças ameaçado (o leitinho acabou faz tempo), aceitei a proposta de um grupo de azerbaijanos dissidentes, radicados na Boca-do-Lixo, e cometi alguns roteiros para filmes pornográficos” (Roteiros, p. 29).

Eu ri. Tem gente que não rirá. Afinal, estamos diante de uma revolução das ignorâncias, já diria um amigo meu, por WhatsApp, já que deletei minha conta no Facebook. Mas, calma – ainda brado imaginativamente meu copo de chope no ar –, mais para frente, o velho Blanc, tranquiliza: “O roteiro seguinte visa uma faixa de público mais intelectualizada: Penetrações Estruturalistas” (Roteiros, p. 31).
Salve, Aldir. Chega de tantas homenagens! Eu quero é dedo na ferida. É nego – eu disse nego? Posso usar a expressão “nego”? – defendendo um não sei o quê de sei que lá, entende? São os olhos fechados para a impureza da água do volume morto. Da preguiça universitária, da Classe Média cada vez mais burra. De movimentos de minorias cada vez mais ignorantes ao discurso... É a revolução das ignorâncias. Tiradentes morreu de tédio.
Deusestásolto e essa é a merda! Mas... se prender deus é opressão!
Eu quero é botar o dedo nessa ferida aberta de veias já fechadas da América Latinas (“Nós canto-falamos como quem inveja negros/
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem” - Caetano Veloso). Eu estou é puto!

“Deixa dilson, vamos nelson!”.
 Uma profunda análise das letras de Galos de Briga extirparia Aldir Blanc do rol de poetas-profetas do Rio de Janeiro mais sujo, mas de todo subúrbio imundo e sem lei. Sujo e sem lei. Que juventude é essa? Burra! Dos dois lados: burra!
Imbecis!
E eu parado num eterno sinal amarelo! Atenção, atenção, o ataque vem dos moinhos de vento! Mas isso aqui está muito pop. Você não está em sintonia com as lutas dos negros e pobres e favelados.
Mas, antes de encerrar meu pileque imaginário. Minha revolta ordinária e sem escrúpulos de mimimi subversivo. Me permitam vocês duas histórias: uma minha e outra retirada, porém devidamente citada, do tal livro do mestre Aldir Blanc.
Quando em 2013, completei meus 30 anos, homem realizado, filho único e com sólida e monótona carreira em construção, ganhei de presente, lançado no mesmo ano, o livro de Luiz Fernando Vianna: Aldir Blanc – Resposta ao Tempo (Vida e Letras). Com sua capa vermelha e com um fundo de filme Kodak com fotos do Aldir, na contracapa vinha meu desabar, uma dedicatória com letras miúdas: “Com o abraço do Aldir Blanc”. Com as mãos trêmulas de alcoólatra em abstinência chorei na frente da atendente que me entregava a encomenda feita pela Internet. Chorei e ela teve a audácia da inocência ao perguntar: “Quem é esse tal de Aldir?”.
O segundo fragmento está no conto “Histórias da Zona Norte”, cito, pois citar é minha sina:
            “Acho o subúrbio mais criativo e interessante do que a Zona Sul. O sonho de status do sujeito que julga fazer um grande negócio, mudando de Vila Valqueire para a Duvivier implica num jogo de simulações e “finezas” sacais. Penso que a grossura suburbana é fundamental para que o Rio sobreviva com identidade própria, e não como periferia de Novióqui, como deliram os deslumbrados.
            Na minha infância, em Vila Isabel, éramos visitados por uma figura maravilhosa, o Ruço, mistura de faz-tudo e gozador. Ferrenho morador de Vila da Penha, subia no telhado para soltar pipa, agarrava no gol enquanto os meninos batiam séries intermináveis de pênaltis, contava histórias engraçadíssimas e tinha um hábito muito louvável e democrático: chamava todo mundo de Cagalhão.
            Uns vinte anos depois, eu estava fantasiado de médico, numa enfermaria psiquiátrica de quarenta leitos e oitenta pacientes seminus. Me sentia importante. Haviam colocado em minha precoce careca a auréola tipo “esse sujeito vai longe mesmo”. Eu trabalhava em ritmo de Chacrinha, estimulado pela retórica e pela ideologia do vai-para-o-trono-ou-não-vai.
            Bom, um belo dia, minha mãe me telefonou e disse:
            - O Ruço vai lá no hospital te procurar. Ele tem um amigo que acha o Simonsen o máximo.
            - Ué, mãe, e daí? Qual é o problema?
            Mamãe esclareceu:
            - Maluco, Aldir. Só pode ser pirado. Lelé da cuca.
            - Ahn!
            No dia seguinte, eu cintilava em meu jaleco rinso e cuspia bobagens sobre esquizofrenia com outros sábios, na sala dos médicos. Bateram na porta. Era o enfermeiro, avisando que um senhor queria falar comigo, parece que era parente meu. Fiquei emocionado. O Ruço! Vinte anos depois! Como será que ele, humilde morador da Penha, me veria no pedestal de esculápio? Tomado de uma condescendência criminosa, respondi com voz olímpica:
            - Deixa ele entrar, meu rapaz!
            Instantes depois, antecipando-se vinte anos a uma gíria atual, Ruço enfiou a cabeça risonho e franca dentro daquele santuário de intelectuais progressistas e diagnosticou na mosca:
            Oi, Cagalhões. A mala ta aí fora.” (p. 63 e 64).

Com a minha tulipa imaginária nas mãos, bradando – como eu queria! – me despeço: Adeus, Cagalhões! Adeus, para todos vocês! Pois chega de homenagens! Mas não posso resistir a essa bela fotografia do encarte do Lp Galos de Briga:


sexta-feira, 6 de março de 2015

Para o Alexandre Moraes

            Antes que me acusem de ter transformado as vozes d’O Ventríloquo num derramamento de profundo pieguismo sentimental ou uma esparrela de tons, sobretons e panegíricos dóceis, eu queria dizer que não se trata desse tipo de coisa.
            A roda da vida gira numa velocidade que não consigo medir. Na verdade, eu queria mesmo era falar um pouco sobre o Joe Cocker desde que ele faleceu no dezembro passado.
Mentira. Eu queria era falar sobre o documentário/show Mad Dogs & Englishman lançado originalmente como um LP duplo e nos cinemas como um filme, no ano de 1970. Eu queria abordar os músicos ali presentes, cuja trajetória já havia sido travada pelo tempo, como, por exemplo, o saxofonista Bobby Keys que faleceu, pouca gente sabe, alguns dias antes de Cocker e que no tal documentário, num passeio chuvoso de carro pela mesma avenida em que Kennedy foi assassinado, em Dallas, nos presenteia com um dos diálogos mais interessantes e pouco explorados no filme: O abismo de gerações. Mesmo a solidão do Joe Cocker após as apresentações, um misto de homem desprotegido, algumas frases e olhares muito me chamaram atenção quando revi recentemente instigado, justamente, por sua morte e pelas muitas homenagens que surgiram na Rede. Confesso que dele possuo apenas a edição delux, em cd, do LP ao vivo da tal turnê e o documentário. Para não soar mentiroso, tenho uma velha coletânea que comprei ainda na graduação.
            Parágrafo longo, a conversa, a minha conversa se perdeu. A conversa sobre o documentário ficou por aí, na mente.
O tempo foi se tornando escasso no último mês e mais ainda nas últimas semanas. No entanto, li, quando “jogado”, não sem delicadeza, na Rede, um texto que achei bem bacana no Para Ler Sem Olhar, intitulado Oliver Sacks de 5 a 7. Não que o que relato aqui tenha referência direta ao texto do Viana, mas, me deu uma liberdade a mais para sair um pouco da tentativa de ser profundo como ele que, por exemplo, sempre acerta em seus textos por ali (aliás, faço aqui propaganda daquele espaço). Me impressiona a regularidade e mesmo o nível intelectual do que ele compartilha conosco que acompanhamos seus escritos naquele blog. Mesmo seus textos mais pessoais (não que eu ache ou fique nos achismos de pensar que existam textos que não são pessoais) são tão analíticos e profundos quanto os explicitamente voltados para análises políticas, econômicas, culturais, etc. Mas, isso é outra história. Sendo assim, isso aqui, o hoje, é um misto de várias coisas. Introdução longa.
Falarei sobre o Alexandre e sobre o que do Alexandre me fez escrever aqui, mesmo que agora, na distância, eu consiga, mal e porcamente, organizar as coincidências da vida que me fizeram dizer o que digo.
    Conheço, se é que conheço, se é que conhecemos alguém, o Alexandre há quase dez anos. Estudamos juntos durante algumas disciplinas obrigatórias no Mestrado que cursamos na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sempre me chamou atenção, mais do que dos outros colegas, o grau de inteligência que ele apresentava em seus comentários, suas críticas e a maneira como se colocava, sem medo, nos debates que surgiam naquela disciplina. Ali se apresentava o que se concretizaria, melhor, o que se concretizará no decorrer dos próximos anos: Uma certa geração com seus 30 anos que tem pensado, agido, refletido, em algum momento, sobre nossa sociedade no tempo e no espaço – próximo ou longe nesse mesmo tempo e espaço. Ou seja, sem medo do peso arrogante que a palavra tomou, uma nova geração de intelectuais que, de alguma maneira, tem atuado, por exemplo, no espaço universitário.
            Alexandre é Professor de História Antiga na Universidade Federal Fluminense, foi aprovado num certamente de grande concorrência na vaga gerada pela grande perda que foi a morte do Ciro Flamarion Cardoso. Enfim, isso diz algo ou não diz nada. Diria muito ou muito pouco. Isso nada interessa ou interessa muito. Pode ou não. A questão não é essa. A coisa aqui é outra. Então, os meandros de sua carreira universitária não nos importa muito. Importa, talvez, por exemplo, certa vez em Salvador, sua simplicidade bebendo cerveja comigo madrugada adentro junto com alguns orientandos meus e a boa impressão que ele deixou para os mesmos e a confirmação do que eu sempre dizia e digo para os alunos que trabalham ao meu lado com pesquisa: Os melhores aprendizados acontecem em momentos de mais puro prazer intelectual: na mesa do bar, na boemia, na madrugada.
            Há quase um ano, me lembro dele me informando que ia ser pai. Na cautela racional que sempre apresentou, avisou de forma taxativa: “só não divulga, pois sabe como é, os primeiros meses são sempre complicados numa gestação”.
Tenho por característica quando alguém me pede segredo, não informar nem mesmo a deus. Às vezes até esqueço o que me contaram. Desde criança tenho esse problema ou virtude. Não sei explicar.
            Seu filho Gabriel nasceu com saúde, na mesma época ele foi aprovado em concurso público e a vida seguiu em passos largos, não sem dificuldades.
            Novembro passado, encontrei Alexandre num evento acadêmico no qual os dois fomos convidados em nossa antiga instituição de formação para, além de avaliar trabalhos de mestrandos e doutorandos em nossas áreas de especialização temática, ministrarmos uma pequena palestra sobre o que vínhamos pesquisando em nossas universidades. Evidentemente, os horários eram paralelos e não pudemos nos assistir. Mas o que ficou desse encontro recente com meu amigo de época de pós-graduação foi uma conversa pela manhã, antes das atividades se iniciarem, e que guardo na memória com muito carinho e registro aqui com muito zelo e profunda admiração.
            Diferentemente de todas as pessoas com quem já conversei que são pais recentes ou de primeira viagem, ou pais há mais tempo, ou profundos defensores da paternidade/ maternidade, Alexandre respondeu minha pergunta educada de “como vai o moleque?” com a naturalidade e simplicidade de que lhe são características: “Rapaz, o moleque vai bem, cai pra baixo e pra cima. O que mais faz é cair. Mas está numa fase muito legal de se reconhecer como gente. De se olhar no espelho e se perceber”. Não sei por que cargas d’água nós entramos no tema “animal de estimação”. Creio que fui eu, não sei, talvez, muito talvez mesmo, por me sentir um tanto deslocado na coisa da coisa de “ser pai”. E sabendo que o Alexandre antes de ser pai é dono de gato e cachorro, me senti próximo nesse tema e puxei, associando ao Gabriel, como ele lidava com a presença dos bichos em casa com uma criança em franco crescimento físico e psicológico.
            Alexandre riu e contou as peripécias do rebento e sua relação com seus animais: “Tudo na mais tenra ordem louca”. Confesso que às vezes me assusta muito sua racionalidade, basta ler os seus textos-opiniões no seu mural do Facebook sobre política e mesmo amenidades. Infelizmente, o Alexandre não possui um blog, mas tudo lá é público, então vale a pena dar uma conferida, mas deixo aqui minha reclamação formal: ia ser muito legal se o Alexandre tivesse um blog. Enfim, com sua velha e conhecida maneira lúcida e racional de falar, mas sem perder o maravilhoso tom de moleque de Campo Grande, aquela coisa que só quem conhece a Zona Oeste sabe, bradou: “Porra, fico impressionado com a diferença gritante entre cachorros e gatos. O primeiro come o próprio vômito, a merda, é sempre bobo e fiel na sua dedicação quase triste ao dono. O gato não, o gato está ali, sempre muito imponente, limpo, sagaz”. Evidente que as palavras transcritas são chulas paráfrases que eu nem devia me aventurar a colocar entre aspas dos sons que saíram da boca do Alexandre, mas, ele que me perdoe ou vá se foder, pois O Ventríloquo é meu e não dele. Mas, foi mais ou menos esse o conteúdo de sua fala.
            Eu na minha humildade e um certo ar constrangido fui comentar sobre o meu gato Gregório, o apego que tenho por ele, como lido com o bichano, relatei um porre que tomei e quando bêbado sentado no chão da sala dei a chorar quando olhei para ele olhando para mim. E dei a bradar: “Um dia morrerá, pobre Gregório. Um dia você morrerá! Puta que pariu, você morrerá!”
            Alexandre riu. E ríamos. Quando perdi um pouco a vergonha, perguntei na mais juvenil curiosidade: “Você não acha meio irracional minha atitude? Comecei a me achar mais sensível a tudo à minha volta: pessoas, animais, água, planta...” E ele: “Não, ao contrário. Ter um bicho de estimação me deixou muito racional. Ser pai é que me deixou irracional!”. Aquilo me assustou pela severidade da frase e não pude silenciar, afinal, eu e Alexandre temos a mesma idade e apenas meses nos separam e era a primeira vez que eu ouvia um pai, ainda mais de primeira viagem, me dar uma resposta que mais se aproximava do que eu pensava e tentava argumentar com todos os “pais babões” – não que eu não vá ser um dia um “pai babão” também –, mas que no capital simbólico de “serem pais” e “você não” sempre me apunhalavam: “Você não entende. Você não é pai”. Alexandre explicou:
“Ter um bicho de estimação me deixou mais racional. Eu sacrificaria meu animal se por ventura o visse sofrendo e sem a mínima solução, isso seria o racional, o mais correto a se fazer. O Gabriel me deixou irracional no sentido de que penso mais com o coração. Recentemente – ele relatou um dos tombos do filho – ele caiu e bateu a cabeça. Fiquei um tanto desesperado e eu e minha esposa ficamos na dúvida de fazer ou não uma tomografia numa criança tão pequena e o excesso de radiação na cabeça do nosso menino. Tivemos que buscar no fundo da mente uma racionalidade que nos fizesse colocá-lo diante de um mínimo, porém, eminente tipo de risco. Fiquei ligando constantemente para a pediatra, monitorando, ficando sem dormir. Ou seja, parece racional isso, mas no fundo, não é tanto. Pois estávamos quase neuróticos por causa do tombo”.
O evento iniciou, o evento terminou. Nos sentamos os dois no Amarelinho, vendo quem ia e vinha, bebemos uns muitos chopes, depois cada um foi para o seu lado: Eu fui beber mais chope em Botafogo antes de pegar um voo no Santos Dumont, Alexandre voltou para a rotina da paternidade.
Meu gato agora mesmo subiu na minha perna, bateu com a pata no meu braço e miou. Me chama para algo que não sei: deve ser para correr atrás dele, vê-lo comer, limpar sua caixa, não sei. Não mio, não falo a língua dos gatos. Fico pensando que o Gabriel deva agora estar andando, dando passo a passo, o Alexandre e sua esposa rindo, olhando, observando. Logo ele falará nossa língua, xingará como o pai, defenderá suas próprias posições políticas, debaterá num mundo em que eu e o Alexandre em nossas aulas lutamos para ser melhor. Me parece ser um bom pai. Me parece que ajudará a educar ao lado de sua esposa um bom cidadão. Tudo me parece. Meu gato desistiu e foi embora do meu escritório. Deitou na porta. Eu não faria isso com o meu filho: acho que eu largaria tudo e ia ver o que ele queria.
            Ontem ele entrou em contato comigo via Facebook solicitando um e-mail de um professor. Comentei sobre nossa conversa, a de novembro. Sobre esta de agora e sobre tantas outras conversas. Rimos um pouco. Falei do impacto do que ele disse naquele dia e que iria colocar isso no papel ou num papel metafórico. Ele riu. Eu disse que muitas vezes ouço de conhecidos que são pais, recentes ou não, frases do tipo: “Sua vida só terá sentido quando tiver um filho” ou “Sua vida terá um objetivo maior.”. Sempre achei e continuo achando que minha vida tem um objetivo desde que nasci, independente de ter ou não, ajudar ou não a por outra vida no mundo que, sejamos sinceros, não é mais lá um mundo muito digno de ser vivido. Comentei que muitas vezes eu achava piegas, apesar de entender todo o amor envolto às crias, esse tipo de afirmação. Alexandre riu e disse, aqui o cito ipsis litteris: “É piegas mesmo. Eu acho que filho não dá sentido pra viver. Acho que dá sentido pra não morrer... Que tu fica pensando: “Caralho, se eu morrer e esse filho da puta precisar de mim?”."
            Eu precisava voltar ao trabalho, ele também. Nos despedimos. Pois a vida é, no fundo, despedida mais do que chegada.
            E acho que o Gabriel aprenderá muito bem isso com os pais que tem. Seja bem vindo, moleque, mas não esqueça o até!