ventríloquo
[Do lat. tard. ventriloquu.]
Adjetivo.
Substantivo masculino.
1.Diz-se de, ou aquele que sabe falar sem abrir a boca e mudando de tal modo a voz que esta parece sair de outra fonte que não ele.
E assim são os textos. Ao menos os que escrevo.
Eles têm várias vozes. Minhas várias vozes. Em tempo. Tempos nublados ou com sóis. Não há muito o que dizer sobre mim. O resto está aí. Várias vozes sem mover meus lábios. O ventríloquo.
Em caso de dúvida, basta realizar
uma pesquisa séria sobre a condução do Congresso Nacional nos últimos anos, em
termos de atraso nas medidas progressistas, e logo se perceberá que, além das
muitas falhas no exercício público da política no Brasil, a chamada Bancada
Evangélica foi um dos maus ignorados por nós, que pretendemos uma modificação
radical no jogo hediondo que marca as negociações partidárias há séculos.
Não sinto nenhum apego ao exagero
ou medo de ser taxado assim, ao afirmar que, ao lado da Bancada da Bala (ex-policiais
civis e militares e alguns ex-oficiais das Forças Armadas) e a dos Bois
(composta pela aristocracia do agronegócio) os senhores da indústria da fé têm
feito um mal tão grande à sociedade que aqueles que fingem não perceber beiram
o cinismo hipócrita.
A religião e a religiosidade são
um direito evidentemente garantido na Constituição. Mas,
principalmente, o primeiro aspecto não deveria – jamais – influenciar no
cotidiano da laicidade da República. Um republicanismo aos frangalhos, eu sei,
mas, ainda assim, é uma República e, claro, Democrática, até mesmo quando
golpista!
O testemunho diário do que fazem os “pastores”
eleitos, queira quer não, democraticamente como deputados federais e estaduais
e senadores, é um crime que vai além do político, vai além de ferir as
estruturas da instituição pública: são crimes contra a humanidade. Cabe frisar
que já o faziam em seu espaço de culto, em púlpitos manchados pela mácula do
suor do trabalho alheio. Suor não só dos crentes fiéis, mas meu e seu, uma vez
que as Igrejas evangélicas não são taxadas com impostos e poucas delas possuem um controle sério de quem pode assumir tal função ou não.
Eu poderia listar aqui o linguajar
infame, as referências racistas e homofóbicas, seus projetos de lei que ferem o
direito feminino de conduzir os ditames de seus corpos. Poderia gritar aqui o
mal maior de projetos que tentam barrar avanços como a pílula do dia seguinte e
o direito ao aborto em caso de estupro, o ensino de igualdade de gêneros nas
escolas... O ensino sobre as culturas e diversidades religiosas.
Houve um momento em que eu até
tentei separar o joio do trigo, buscar uma racionalidade que me ajudasse a
compreender os motivos dessa bancada ser e agir assim. Mas, como já dito, esses
“pastores” foram eleitos democraticamente. E é justamente isso que não pode nos emudecer
na lógica que está profundamente latente aos nossos olhos: Suas
ovelhas-eleitores são justamente isso: ovelhas. A urna é um claro matadouro.
Então, o joio e o trigo são uma coisa só
num mesmo saco eleitoral de ofertas e dízimos entregues de maneira sincera nas mãos desses lobos. E não devem ser separados. Se
não há crítica, há conivência. E a convivência com “bons evangélicos”, com “bons
cristãos” apenas tem me provado que lhes falta algo simples: crítica racional. Sua fé sincera se sobrepõe a realidade que nos cerca atualmente. Se sobrepõe às migalhas a que se transformou o sério propósito social. E explicarei, pormenores, essa minha intencional generalização.
Certa vez, após assistir um vídeo de
um desses estelionatários pela Internet fui repreendido por um colega de
universidade – protestante, se não me engano, Presbiteriano – com a seguinte
frase: Ele é assim exagerado, mas é
ungido, conhece a bíblia como ninguém. Aquilo me deixou extremamente
assustado.
Aquele rapaz possuía uma formação
acadêmica próxima da minha, me era e é muito querido, mas, mesmo assim, mesmo
com tudo ali escancarado à sua frente, preferiu ser mais um evangélico,
protestante, cristão conivente com as atrocidades que são ditas dominicalmente
e diariamente na TV por esses salafrários.
Dos muitos evangélicos que conheço, que ao menos nesse sentido crítico contra o uso da fé como mercadoria são inimigos ferozes das, segundo o termo dito dia desses por um deles, Indústrias Neopentecostais, consigo contar nos dedos de uma mão, os que agem como verdadeiros combatentes contra esse quadro acima pintado: três.Mesmo assim,
essas e esses amigos são ainda reticentes para assuntos como igualdade de gênero,
liberação do aborto, avanço nas leis contra homofobia, etc. Julgo desigual.
Outra pedrada sem preâmbulo e vou mais longe
Deus não abençoa ninguém. Não
abençoa sua família. Não abençoa esse país.
Por quê? Simples: deus existe para
quem quer que ele exista. Isso é um fato latente. Guarde seu deus para você e
viva seu deus ao extremo.
Todorov apresenta uma questão que
considero fundamental sobre o que eu afirmei, com dureza, acima. O filósofo e
historiador radicado na França, se refere ao projeto das Luzes, ou Iluminismo. Segundo ele: (...) o que se rejeita é a submissão da
sociedade ou do indivíduo a preceitos cuja única legitimidade advém daquilo que
uma tradição atribui aos deuses ou aos ancestrais; não é mais a autoridade do
passado que deve orientar a vida dos homens, mas seu projeto para o futuro. Ainda
assim, nada se diz da própria experiência religiosa, nem da ideia de
transcendência, nem de tal doutrina moral sustentado por uma religião em
particular; a crítica visa à estrutura da sociedade, não ao conteúdo das
crenças. A religião sai do Estado sem, no entanto, abandonar o indivíduo (TODOROV,
Tzvetan. O espírito das Luzes. São
Paulo: Barcarolla, 2008. p. 15 e 16).
Não entrarei na complexa esparrela
dos problemas que o Iluminismo trouxe e que, ainda hoje, é ignorado pelo grosso dos doutores. Mas, para os mais antenados, basta pensar no Imperialismo do século
XIX e todo o processo – bem cristão, por sinal – de civilidade e igualdade defendida, mas que ignorou outras formas de organização social diferentes da européia naqueles cem anos anteriores de gestação do "projeto das Luzes". Observem que o impacto, no XIX, estava afastado temporalmente da gênese inicial do que combateram os filósofos iluministas, por, simplesmente, um século!!!!
Dito isto, aliás, citado
isto, só posso exclamar que a Bancada Evangélica é a Marca de Caim da República e só chegou até esse ponto, sem volta,
não ignorem esse fato, pela conivência e estupidez das ovelhas-eleitoras e da
má política diária dos governos, tanto de Direita quanto de Esquerda. É uma
serpente cujo ovo, todo nós, todos, sem exceção, permitimos ser chocado.
Ora, quando uma criança sai de
um culto de Candomblé ou Umbanda e é apedrejada por gente de terno e com bíblia em uma das
mãos, é apenas uma prova cabal de que a serpente já nasceu há tempos.
Quando se ignora que as religiões
de matrizes africanas são tão importantes quanto o cristianismo destruidor e escravizador
que trouxe negras e negros, reis em suas terras, senhores e senhoras de terras, é uma evidência incontestável
de que a laicidade não deu certo neste continente brasilis abaixo da Linha do Equador. Ignorar que em uma organização cristã-colonial como foi a que aqui testemunhou-se, na qual cristãos utilizavam trechos dos Salmos para justificar a escravidão negra, uma vez que David escravizava etíopes e, no mínimo, ignorar a História. Finalmente, esquecer que os primeiros habitantes do solo a que chamamos Brasil, os índios e índias, foram privados de sua cultura religiosa e de organização graças ao discurso de salvação da Igreja Cristã é o cúmulo da exemplificação da relação constante entre dominantes e dominados.
Isso explica porque num país em que se ignora as culturas, é mais do
que claro que será impossível perceber o cristianismo como mais um entre tantos
outros aspectos culturais até enriquecedores ao ser
brasileiro, apesar de seus histórico assassino e destruidor. Entretanto, me pergunto, quem de nós não tem defeitos, mas pode em dado momento corrigi-los? O cristianismo se manteve no Brasil intacto desde que chegou, sem nenhuma correção:
patriarcal, religião de uma minoria dominante imposta aos dominados, destrutiva... Foi assim com o predominante catolicismo que, de pouco a pouco, tornou-se apenas nominal, restando poucos que professam seriamente, e agora o é com a religião evangélica.
Por isso mesmo se hierarquizam
erroneamente as culturas nesses grupos religiosos evangélicos. O samba é batuque, as afroreligiões, macumba, etc. Na verdade, por esses e outros aspectos, que o cristianismo se considera
além da cultura, ele é o ditame do que é certo e errado. Do moral e do imoral.
Mas o que ignoramos é algo tão mais simples: o cristianismo em nosso país e a Marca
de Caim.
A pedrada final: Volto à ilusão da Direita má e a Esquerda boa/ Da
Esquerda má e a Direita boa
Não nos iludamos, associar
tacanhamente os neopentecostalismos somente aos movimentos neoliberais ou à
extrema Direita (aos moldes tupiniquins) é jogar a sujeita para debaixo do
tapete. Motocontínuo, manter o discurso de que os evangélicos nas Câmaras – estadual
e federal – e no Senado são heterogêneos demais para que possamos identificar
exatamente os inimigos, ora, também é, se não, conivência, algo muito pior:
covardia.
O discurso é homogêneo. Se há
homogeneidade, isso vai além do ser
evangélico, é claro, porém, isso está no entrave silencioso, mas ensurdecedor, das pautas progressivas pelos
pastores que ainda se mantém firmes em seus púlpitos sem usar a fé como negócio, mas que em suas latrinas
cometem o pecado da soberba por um segundo ou dois, batendo palmas feito macacos aprisionados no zoológico para mais e mais homossexuais ofendidos e agredidos, para meninas
estupradas e sem atendimento adequado, sem o direito de abortarem um feto oriundo da violência machista diária que o cristianismo ensina ao pregar que as mulheres devem ser submissas aos maridos, logo, ao homens. Palmas que reafirmam simplesmente: Se fosse crente, se fosse normal, não seria
ofendido ou se estivesse na escola,
na igreja, com roupa decente, não teria sido estuprada. O que é ser normal? Desejar dentro de um padrão socialmente construído e imposto? O que é decente?
É tempo, mais que urgente, de se
rever os conceitos por todos os lados na busca pela laicidade, não aquela
formatadora e que emudeça as formas de religiosidade, mas a que percebe os meandros culturais e de diversidade entre os
brasileiros e que justifica plenamente o vídeo abaixo.
Post scriptum
O projeto de destruição do país é
bem coeso e a sua fórmula , politicamente falando, extremamente racional e mesmo se
tratando de forças que podem ser consideradas incompatíveis, o projeto de destruição,
via tomada de poder por essas bancadas políticas, pode ser, deste modo, esquematizado:
Bancada Evangélica: Atua no psicológico minando a possibilidade de
debate, uma vez que o uso de uma entidade invisível como o deus cristão impossibilita a
ação da racionalidade crítica. Como desconstruir o que não se vê? Ao mesmo tempo, os membros dessa bancada firmam suas pautas
antiprogressistas na covardia de usarem tacanhamente o direito, garantido, de
expressar a fé como liberdade de expressão. Contudo, ignorando que esse direito é de todos, inclusive, dos
que não tem fé ou religião.
Bancada da Bala: Uma vez minado o psicológico, atua no estado
físico, no direito de ir e vir. Em breve corremos o risco, novamente, da
institucionalização – ainda atuante, mas ainda não como lei – do direito à tortura,
censura, etc. O modus operandi dessa
bancada é ignorar totalmente o humano.
Ela age na lacuna aberta pelo Estado ainda que em conluio com esse mesmo Estado que caminha para a teocracia. Possui
estratagemas perfeitos que nem Agostinho de Hipona suspeitaria ao elaborar o seu conceito de guerra justa para o
Império Romano cristianizado. Por isso mesmo, é difícil esperar algum tipo de
embate moral entre as Bancadas Evangélica e da Bala. O passado prova que em algum momento o cristianismo precisa de um braço competente para derramar o sangue dos infiéis.
Bancada dos Bois: O agronegócio funciona historicamente vinculado com
o discurso cristão (nosso passado de invasão das terras indígenas e sua catequização é um presente constante) e a ação armada (nosso passado de tomada
das terras indígenas através de seu massacre é um presente constante). Ela une
perfeitamente as duas ideologias acima listadas. Diria eu, em analogia, que a
Bancada do Boi funciona como a concretização da cristianização, logo, alienação
do eleitorado “de bem” e da “justiça” violenta e aprovada pelos cegos
cristianizados pela indústria da fé. Só que o mais curioso é que essa bancada
política, antes a longo prazo, hoje de forma bem imediata, está carregando o
país para o fundo do posso e contribuindo profundamente para uma evidente crise
ambiental que nos alastra.
Pensem bem, se o Brasil está como
está, ainda tendo bem ou mal reservas naturais, que dirá quando suas nascentes
secarem e todos os índios forem mortos?
Enquanto isso, continuemos
ignorando a Marca de Caim.
Há algumas semanas, duas, não mais que três, fui com uma mochila e uma mala de livros, literalmente, para o estado de Sergipe. Fui prestar um concurso, o famoso “concurso de provas e títulos” no qual, acertadamente, todo aspirante a professor universitário federal ou estadual deve ou deveria se submeter. Me submeti. A história tem suas belezas, daria livro ou filme. Não quero livro ou filme. Também não quero falar sobre o sucesso obtido por minha aprovação em primeiro lugar como professor assistente da cadeira de História Antiga e Medieval na Universidade Federal de Sergipe. A questão aqui não é a felicidade, a preocupação, a angústia, a estabilidade alcançada. Não! Para lá, em tese, fui sozinho. Ou, o famoso “eu e Deus” e, acreditem, “eu e Deus” tem aqui e tinha lá um peso enorme para minha tranqüilidade. Tranqüilidade, aliás, foi o último conselho dado por um amigo, horas antes da minha “primeira partida”. Em tese, eu disse. Apenas em tese. Querendo ou não, um peso pairava sobre mim: sucesso? Fracasso? – Afinal, o que é sucesso ou fracasso? Percebi, e já havia sentido isso, que não estava sozinho. Levei para lá, companheira, os pais, os amigos. Levei palavras fortes, abraços, conselhos, sorrisos e lágrimas. Quando pisei na pista, e pisei mesmo, do aeroporto de Aracaju, já não me sentia só. Caminhava conversando com meu pai, ouvia minha mãe, sentia o cheiro dos cabelos da amada. Sorria com os amigos em cada gole de suco de cajá. Lá conheci aquele que certamente será minha família em Aracaju enquanto e após Ana lá se estabelecer comigo. O nome já me era familiar e o apelido de um tio. Pronto: a paz. A aprovação é apenas uma conseqüência de uma soma de muitas pessoas. Eram muitas mãos escrevendo comigo naquele auditório com ar-refrigerado que destoava com o forte calor de São Cristóvão, antiga capital de Sergipe. Dois dias depois, sentia a presença deles novamente, me olhando, enquanto eu lecionava sobre “A Crise no Medievo Europeu”. Eu via seus sorrisos. Via o choro da minha mãe, o orgulho do meu pai, as palmas dos amigos. O abraço do meu primo. O beijo da amada. Eram apenas três pessoas a me observar – isso o que eles pensavam. Para mim, o auditório estava cheio, olhares atentos e confiantes, sorrisos matreiros. Eu sorria comigo mesmo. Como se dali eu nunca mais saísse – dali nunca mais sairei. Não sei o que o grande Gonzaga Jr. sentia quando escreveu Caminhos do Coração (Pessoa = Pessoas). De sua história, sei das músicas e de uma ótima biografia que li e sobre ela aqui falei tempos atrás (http://oventriloquo.blogspot.com/2008/09/eu-apenas-queria-que-voc-soubesse.html). A questão é que o que lá encontrei, o que vivi e viverei é exatamente, pura e simplesmente, o que exala a letra da canção. Só me resta agradecer a Deus, aos pais, a amada, ao primo, aos amigos todos, pois...
Há muito tempo que saí de casa Há muito tempo que caí na estrada Há muito tempo que eu estou na vida Foi assim que eu quis E assim eu sou feliz Principalmente por poder voltar A todos os lugares onde já cheguei Pois lá deixei um prato de comida Um abraço amigo E um canto pra dormir e sonhar E aprendi que se depende sempre De tanta muita diferente gente Toda pessoa sempre é as marcas Das lições diárias de outras tantas pessoas E é tão bonito quando a gente entende Que a gente é tanta gente Onde quer que a gente vá E é tão bonito quando a gente sente Que nunca está sozinho Por mais que a gente pense estar É tão bonito quando a gente pisa firme Nessas linhas que estão Nas palmas de nossas mãos É tão bonito quando a gente vai à vida Nos caminhos onde bate Bem mais forte o coração O coração Ah! O coração!
(Do Lp Caminhos do Coração – (P) 1982 – EMI Music. Caminhos do Coração (Pessoa = Pessoas) letra e música de Gonzaga Jr. Ed. Moleque.)
Por muito tempo, depois de muito tempo, quebro meu silêncio, em contraponto, ouço a chuva cair lá fora. Eu aqui dentro. Confesso que me ausentei. Sou uma pessoa de ausências, mas a vida prega peças curiosas. Faz exatamente uma semana, se considerarmos o agora como a quinta-feira que já se foi, que recebi a triste notícia que o pai de um grande amigo meu havia morrido. A notícia veio pelas ondas cibernéticas do MSN. Após o frio comunicado, minha amiga me ligou e pude ouvir sua voz compenetrada me contando os detalhes sobre o enterro que já havia sido. Pensei, enquanto suas palavras soavam no meu ouvido: “(...)”. Hoje, fomos os dois, eu e essa amiga, que mantêm uma semelhança enorme comigo, visitar o rapaz simpático que me possibilitou um dia ter tido a honra de conhecer seu pai. Quando o vi, e já fazia tempo, só pude abraçá-lo sem encontrar palavras, mas as palavras eram dele. Relembramos o discurso do sábio quando esse meu mesmo amigo viajou à França para complementar seu doutorado. Calado, me lembrei que chorei naquele dia. À minha frente uma foto sorridente do mesmo senhor que me olhou no fundo dos olhos e me disse que eu conseguiria. E eu consegui. Creio que hoje, pela manhã, recebi o último e-mail da minha orientadora a respeito de sua análise do meu último capítulo e minha conclusão. Num e-mail simples, ela decretou: “Seu capítulo 5, que gostei muito, e conclusão estão liberados. Hoje vou para Praia Vermelha, mas amanhã ficarei em casa ate às 19h. Me ligue, ok? Abração, Eu” Lembrei do pai desse meu amigo. Não preciso de nomes. Nem sei quem sou nesse mundo. Mas suas palavras ainda ecoam em mim. Na época eu passava por problemas, não sabia nem se ia passar na seleção de mestrado. Passei e aqui estou, depois de muitas semanas em claro aprontando tudo, aqui estou, ainda com o sono atrasado, com olheiras enormes. Porém, assim que saí daquela casa, onde, pessoalmente, reafirmo que reside o amor, apenas sorri. Aqui estou sabendo que tudo se esvai rapidamente. Não há dúvidas. Mas, também, estou firme na certeza de que nada é por acaso e de que no fundo, no fundo, o silêncio são as palavras. Por isso, só pude sentir o beijo gostoso de minha mãe em minha cabeça. Não sei se por perdão ou pedido de desculpas por minha quarta-feira complicada. Só pude fazer planos com meu pai sobre uma possível reviravolta em minha vida profissional e a perspectiva de poder, para nós, pagar sem ser em parcelas o seguro do carro popular que ele ainda paga para que eu desfrute. Por isso hoje, só pude ir dar minha aula costumeira e voltar para casa cansado e, inevitavelmente, sem pagamento. Pude voltar para casa e olhar meus pais e pensar que a vida se esvai, mas que não há silêncio entre nós. E que no fundo, no fundo, me contradisse ao dizer a pouco que o silêncio são as palavras. Talvez, um beijo na cabeça, um sorriso, substituam o silêncio, substituam as palavras e resumam o que é família. Uma mesma família que se une na morte. Uma mesma família que vê no ato da perda a conquista de um novo caminho. Seu Nonato, muito obrigado. Onde o senhor estiver, muito obrigado.
Um dos artistas que mais marcaram minha formação, como pessoa que tenta de alguma maneira se expressar artisticamente, foi Edu Lobo. Sobre ele eu teria muito que dizer. Mas não digo. Não é esse o intuito do texto e, mais uma vez, como em muitas vezes aqui, direciono minha fala, pois eis que falo, sozinho ou com quem quer que seja e queira me ouvir, para um outro tema completamente diferente. Edu Lobo só surge aqui, pois é dele a música Borandá, escrita em 1963 e gravada com a participação do magnífico Tamba Trio. É dessa canção que retiro o verso que forma minha pergunta inicial: O meu Deus não ouve não? E nela ouvimos a voz do retirante que afirma que já fez mais de mil promessas, rezou tanta oração, mas: Deve ser que eu rezo baixo/ Pois meu Deus não ouve não... Confesso que, assim como o retirante da canção do violonista, muitas vezes Quanto mais eu vou pra longe/ Mais eu penso sem parar/ Que é melhor partir lembrando/ Que ver tudo piorar. Porém, há diversas forças que nos sustentam nesse caminhar infinito da vida, vida, pois, que é finita e que nos conduz nesse mesmo caminhar por auroras e outroras que não conseguimos explicar. São forças como o amor, a esperança, a fé... Ontem, nessa mesma hora, um desespero estranho me bateu entre cansaço e pesadelos e, pelo visto, rezei alto, pois senti o divino me atender de alguma forma. A calma foi me abraçando, o sono chegando e respostas certeiras para aquela angústia foram chegando bem aos poucos. Entre um trago e outro de um cigarro imaginário que é o suspiro desesperado da madrugada chegando, da madrugada se indo, do dia surgindo e os afazeres da vida nos anunciando que mais uma jornada deve ser cumprida (e vencida), fui realmente acreditando que consegui rezar alto. Confesso que há muito minha relação com o Deus cristão morto na cruz é um tipo de contrato social estabelecido por normas de condutas ainda aprendidas na infância suave que só era atribulada em momentos desses mesmos tipos de angústias e tristezas. Tempos outros aqueles, já que o mundo ainda era um grande mar e esse mesmo mundo bem mais fácil de se abraçar. Mas entre uma lembrança de férias em retiros aqui e uma poesia sacra acolá, vem essa necessidade esporádica de, sempre na tristeza e na angústia, me refugiar no silêncio da catedral que são meus pensamentos. É como a letra de Chegança, também de 1963 e escrita a quatro mãos com Oduvaldo Viana Filho: Ah, se viver fosse chegar!/ Ah, se viver fosse chegar!/ Chegar sem parar/ Parar pra casar/ Casar e os filhos espalhar/ Pôr um mundo num tal de rodar... E são esses meus pensamentos madrugueiros, matutinos, corriqueiros... Vendo o sol indo, vendo o sol vindo. É um eterno retorno, uma eterna angústia. Agora mais forte com o tempo. Mais ácida para o estômago. Pois nesse tempo, os ouvidos ouvem mais. Senhor, ah, eu sei! Pois, definitivamente, Se é fraca a oração/ Mil vezes cantarei/ Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria/ Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria!
(*) Músicas que valem o tempo do ouvir assim como ouvi: Borandá (Edu Lobo) Chegança (Edu Lobo e Oduvaldo Viana Filho) Reza (Edu Lobo e Ruy Guerra)
(**) Todas essas músicas estão presentes no primeiro disco de Edu Lobo A música de Edu Lobo por Edu Lobo (com a participação do Tamba Trio: Luis Eça no piano; Bebeto Castilho na flauta transversa e contra-baixo e Rubens Ohana na bateria). Gravadora Elenco – 1965.