Mostrando postagens com marcador Insonia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Insonia. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de dezembro de 2014

Camila ou o primeiro passo da memória

A memória sempre me dói. Memória e dor, no meu caso, mesmo que seja em terceira pessoa, sempre doerá. Enfim, acho o passado uma merda.
Não sei por que me lembrei de Camila. Mas, antes de Camila, houve a Sabrina e após elas duas, Tereza e depois de tantas outras: vocês.
Chego a ouvir o barulho da água correndo e se chocando nas pedras do Rio Dona Eugênia, hoje uma vala negra que sangra assoreada cortando os bairros da Coreia e do Centro, talvez, se eu não estiver errado, corte ainda o Cosmorama até, quem sabe, ser mais um fio escuro, sujo e lodoso a desaguar na Guanabara... Chego a ouvir o barulho das músicas que cantávamos.
Era uma escola de bairro, numa casa grande e com salas com poucas divisórias, uniformes quadriculados e com nossos nomes. Ali passávamos nossas manhãs e os lanches que trazíamos eram divididos entre todos da classe numa mesa retangular de madeira. Eu corria e me sentava na frente de Sabrina, um dourado na pele morena dos nossos cinco anos, cabelos negros e longos, pesados e com leves cachos nas pontas. Seu nariz perfeito e lábios levemente carnudos. Sabrina um dia pálida e sem o brilho de sempre vomitou por toda mesa restos de macarronada e salsicha, bem na minha frente. Dancei quadrilha com ela naquele ano e nunca mais nos vimos.
Mas foi Camila, tão morena quanto, tão cabelos negros quanto, que me atiçou ao amor. Duas bolas profundamente negras entre o nariz fino que me olhavam com desdém, eu magricelas e desengonçado, Segunda Série Primária, meias brancas, calça tergal vinho e recusado pela Dona Leonor por ser lerdo demais para estudar ali na tradicional escola mesquitense de famílias que, por sorte, seriam comerciantes em algum bairro daquele Primeiro Distrito de Nova Iguaçu. Bons tempos de sinceridade.
Foi Camila que com seus cabelos pouco acima dos ombros, moradora da Chatuba e que ia de ônibus para a escola, que me atiçou ao amor e aos lábios femininos e aos olhos femininos mais do que às bundas e às coxas. Os lábios me beijariam – coisa que Camila nunca o fez – e os olhos me veriam... ou não.
Um dia apanhei na escola, um dia comum de escola. Camila teve dó dos meus lábios sangrando, meu olhar de peixe morto e o silêncio das palavras. Pobre de mim, fechei meus olhinhos miúdos e nem beijo, nem carícia. Apenas me levantou do chão. Morar na Chatuba no fim dos anos 80 requeria força e conduta, braveza frente ao mundo cão. Coisa da qual meus pais me protegiam constantemente entre os muros do grande quintal da casa verde de pés de cajá, jaca, abacate, abil, pitomba e mangas coração de boi. O morro me era uma incógnita esclarecida apenas nos dias de domingo, quando pelas mãos meu pai me levava à feira, aos campos de futebol do Parque Central, de Jacutinga e na Chatuba. A miséria humana e a tristeza infantil – na minha opinião, a mais dura tristeza que possa existir: a de uma criança – eu conheci num hospital infantil que minha mãe dava plantão, onde atendia crianças de um orfanato localizado na Praça Santos Dumont, em Nova Iguaçu. Crianças queimadas por óleo quente, com olhar fundo e que sorriam quando minha mãe entrava. Meus cabelos penteados para o lado, a pele viva e corada contrastando com a dureza da realidade. Como animais ferozes, em finais de semana, aqueles meninos e meninas eram liberados para zanzarem pela Praça que ficava – não vejo maldade maior no mundo – ao lado de um Parque de Diversões, acredito que o mais antigo da região. Não houve, ainda hoje, coisa mais impactante para mim, como ser humano, do que meu contato com aqueles órfãos. Hoje percebo o quanto aquilo moldou meu caráter e o sentimento de humanismo que meus pais tinham ao me instruírem brincar com aquelas crianças me deu um desapego curioso às coisas materiais. Sou filho único. Tive vários irmãos e irmãs.
Camila me ignorou até a Quarta Série Primária – as mulheres me ignorariam até o curso universitário. Quando num dia de ousadia – eis o passado – roubei do álbum de família uma foto minha feita por fotógrafo profissional, fotógrafa, na verdade, contratada pela minha mãe, no qual, burguês de família em ascensão, eu posava com uma das mãos no queixo e exibia um sorriso branco e cabelos negros finos e ondulados. Olhos de um profundo cor de terra esboçando a alegria de uma criança que não previa os males da recessão e de um governo Collor que pausaria a economia da casa.
Entreguei a foto meio trêmulo, com umas letras redondas, simplesmente: “Para Camila, Bruno Alvaro”. Havia uma imponência, eu sei, em ter um nome de sobrenome. E se não havia grandiosidade nisso, pelo menos, era diferente dos Silva, Maia, Cardoso, Matias, etc., tão comuns na nossa sala de aula.
Ela sorriu com a sagacidade de quem anos depois frequentaria os bailes funk do Mesquita e do Tênis Clube, protegendo-se do que ainda hoje protegem-se as mulheres: nós homens.
Olhou a foto com atenção e disse de forma pausada e com um profundo afeto: “Quando eu tiver um filho quero que se pareça com você...”. Fiquei puto. Evidentemente, fiquei puto. Mas, hoje, agora, falo alto, com orgulho, que elogio maior não receberia até deixar de ser ignorado pelo sexo feminino, na universidade. Quanto a deixar de ser ignorado na universidade há suas controvérsias.
Camila me voltou à mente e aos olhos quando meu pai num empreendedorismo dos anos 2000 abriu uma minúscula loja de tintas na Chatuba e eu, às 8:00 da manhã, seguia para ajudá-lo no mesmo e velho Nova Iguaçu X Fábrica de Pólvora da São Francisco que Camila pegava para ir estudar no início dos anos 90. Dormi e passei do ponto – isso aconteceria mais vezes na minha vida, passar do ponto – e desci numa curva medonha, já no trecho final da rua. Ironia da memória, mais uma vez, ela, a memória, me doeria e eu encontraria Camila, cabelos ainda negros, mas com algumas mexas blondeadas, três furos nas orelhas, meio magra, meio cheia, olhos fundos, não sei, mas ainda profundamente escuros, Camila ainda era linda para mim em todo o exotismo da simetria entre seus lábios e os seus olhos. Me percebendo meio perdido e fodido na Chatuba com um saco de pão e um pedaço de queijo minas frescal, ela sorriu e apenas disse: “Ainda tenho a sua foto...”. Fiquei puto, de novo. Mas hoje, falo alto, com orgulho, foi um baita elogio.
Ficção ou realidade? Não sei, sempre me dói a memória e o passado, seja o meu ou o dos outros. Talvez, por isso mesmo, minha memória sempre falhe. Vamos à Tereza.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

...

Agora pouco me dei conta de que estou me sentindo solitário. Na verdade, um misto de cansaço com vontade de sobreviver é o que não cala minha voz. Deitei-me na cama, mesmo estando calor, senti frio, eu senti frio! O curioso é que não consigo mais chorar. Dia desses comentei com Ana o medo de me acostumar com a solidão, expliquei o quão difícil tem sido, e sei que o é para todos nessa vida. Mas, apenas não posso me permitir ao costume de ser só. Já fui demais sozinho.
Estou com insônia, pensei em ir caminhar, mas meu joelho dói um pouco e a merda da canela que o inseto no Maranhão mordeu, passou ou sei lá o que, ainda me incomoda um pouco – estou ficando velho, isso também me incomoda. Fiz torradas. Pensei em ir ao mercado comprar vinho. Desisti e sentei aqui para conversar com você que nem sei de onde é. Nem sei se existe alguém, fora meus amigos, que perde tempo em passar por aqui. Outro dia até me surpreendi quando um aluno meu comentou de vez em quando dá uma passada aqui...
Mas que dói, dói – a solidão. Sentei na cama e olhei a janela. Os carros cessam, a rua esvazia – todos no fundo, no fundo, são tão solitários como eu e você. Você que perdeu certo tempo por aqui. Mas a solidão é um fio de poema, sabe? Uma linha inconstante numa bizarra sintonia harmônica entre o dito e o não dito.
Mais cedo chorei por coisa boba. Boba mesmo. Veja só e eu que acabei de dizer que já nem sei ou lembro mais o que é chorar. Está certo, na verdade, não cheguei exatamente a chorar, isso me preocupa, mas me deu um arrepiozinho. Ouvindo The Smiths, acredita? Até ensaiei um tese sobre isso. Resolvi a tempo as minhas próprias hipóteses chulas. Conversei com meu primo Gustavo sobre o que há no grupo, nas melodias e nas letras que fazem gente como eu e ele se fixar naquilo. Chegamos à conclusão de que, no fundo, aquilo está no nosso subconsciente, num momento, num espaço da memória, da gente se arrastando no chão da varanda empurrando carrinhos ou brincando na base espacial do Playmobil, daí a gente cresceu, aprendeu música ou pelo menos a tocar alguns instrumentos e tem essas bandas que nem são lá essas coisas, mas que pegam a gente pelo pé. Há certa lógica no que formulamos. Curioso isso. Pois darei um salto estrondoso agora.
Há dois dias, deixei um amigo no aeroporto. Comigo ele deixou o carro, três textos para eu ler e criticar e dois cd’s do Astor Piazzolla para eu ouvir: “ouça a noite”, disse ele, com um riso sarcástico. Estou ouvindo agora Libertango, de 1974, e ele estava certo no que disse. Preciso de um vinho.
Não preguiça no meu corpo, se eu estivesse agora no Rio de Janeiro, nem sei o que estaria fazendo, talvez, a mesma coisa que faço agora: uma busca incansável pelo sono. Busco tanto que canso e resolvo fazer algo produtivo: ler um livro, pesquisar para o doutorado ou refazer os meus cálculos salariais.
Não que o Astor Piazzolla é bom mesmo? E olha que eu nem lembrava. Ouvi pouca coisa dele. Tai algo bem feito e que só bem feito pelos argentinos: o tango! Pois bem, relembro mais uma vez desse aluno que comentou que lia esporadicamente O Ventríloquo, acho que conseguirei explicar para você, meu camarada, o que eu não consegui dia desses, sobre como ouvir Alceu Valença aqui é completamente diferente de ouvi-lo no Rio de Janeiro, imagino até que seja mais diferente ainda ouvi-lo em Pernambuco. Bom, dá para te explicar com o seguinte: feijoada aqui em Sergipe, não é feijoada carioca. Ah, e carioca não como feijão carioquinha! Ouvir tango aqui, não tem o mesmo sentido que ouvi-lo em Buenos Aires. Ou seja, é ver Fla X Flu no Batistão... Ou Vasco e Flamengo no Couto Pereira. É diferente. Assim, como o forró e as festas juninas no Rio nunca, mas nunca mesmo serão tão boas como as festas sergipanas. Alceu é Alceu em qualquer lugar? Tango é tango em qualquer lugar? De certa forma, sim. Mas o sentido do não dito é outro.
Aliás, tenho ficado muito com o não dito ultimamente e me pergunto até que ponto o não dizer fala mais do que as palavras. É como esquecer de regar as flores que você não tem no jardim? Pode ser. Isso só entrou aqui, pois achei uma frase bonita. Pois o sentido, o sentido é o do não dito. Acho que o sono bateu.