sexta-feira, 24 de julho de 2009

Alto aqui do décimo andar...

Talvez, bem talvez mesmo, tudo que passamos pela vida nos remeta ao resultado do nosso presente. Esta fórmula, para uns, piegas, para outros, regra de vida, para outros mais, simples argumento para desastres e sucessos, tem seu quê de razão se num instante só do tempo que urge como leão pararmos para rever esse mesmo tempo no passado. Fiz isso ontem e hoje e será assim pelos próximos trinta anos. Fiz por necessidade ou por falta do que fazer, mas fiz.
Quando me levantei para o café, lá pelas oito da manhã, chovia muito em Aracaju, uma chuva com vento, chuva fina que até me lembrou o Rio de Janeiro. Ao longe, da janela do meu quarto, aqui do décimo andar, eu não pude ver o mar azul distante que tenho visto desde que vim para esse apartamento que tem seus espaços preenchidos pelo eco da minha voz. Confesso que me entristeci quando não vi o mar, era uma falta, foi uma falta que me fez. A cama estava vazia, pois Ana já havia voltado para o Rio naquela mesma madrugada, pude então pensar com segurança física e palpável: “estou só, alto aqui do décimo andar...”. Me senti como Gregor Samsa de “A Metamorfose” do Kafka, livro este que, aliás, li em três horas.
Hoje pensei que acordaria com, ao menos, a visão do mar e, assim, como ontem o dia amanheceu chuvoso e nublado. O curioso é que isso, talvez, me trouxesse certa paz, uma familiaridade com minha cidade natal, talvez sim, talvez não.
Pensei as muitas vezes em que estive só. E quando eu achava que me bastava. Mas não me basto. Já faz três dias do inicio dessa frase, o tempo passou e a sensação ficou.
O dia hoje amanheceu com sol e eu fui caminhar pela necessidade de caminhar. Fiz meu almoço. Fiz minha tarde com roupas no varal e o vento com o sol mais fraco entrando as frestas da minha alma. Escrevi um texto. Li um livro. Falei com meu pai. A mãe mandou um beijo e eu fiquei só novamente.
Aos poucos, agora após longas horas, Aracaju começa a silenciar. Lá embaixo os carros diminuem o moto-contínuo e me delongo demais nos pensamentos. Seja quem for que tocou a companhia da porta, não era ninguém. Apenas o vento.
Seja qual fosse a reflexão que eu iria fazer, deixa estar, apenas lamento.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Um pouco de todos nós

Daqui um pouco,
Um pouquinho só, eu diria
Estaremos todos sós
Eu, meu pai e eu
Mais mãe.
Pois quando se está acima das nuvens
Quando se vê lá de cima do céu
Um pedacinho de tudo é
Que é um pouco menos que eu
A gente percebe que a vida
Que a vida do mundo morreu.
Já que a cada sopro do vento
É um vendaval que nasceu.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

“O culpado dessa merda é você! Quem financia essa merda é você...!”

Não. Ao contrário do que possam pensar os desavisados de plantão, não falarei sobre cinema ou afins. Tampouco, a presença da paráfrase do conturbado personagem Capitão Nascimento do, não menos conturbado, Tropa de Elite, é para que eu fale hoje sobre um fenômeno que a arte em todos os seus âmbitos produz: ídolos e, conseqüentemente, mitos.
Pegarei carona na calda de cometa e mesmo um tanto atrasado falarei do finado da vez: Michael Jackson! Claro que eu poderia reservar um espaço para a belíssima Farrah Fawcett, uma das Panteras originais, que faleceu no mesmo dia 25 de junho de 2009 do King of Pop (não há dúvidas sobre o título), mas o aço brilha no escuro.
A questão, entre tantas, que muitos tentam responder é: o que levou Jackson ao fim? O tempo, diria o velho. O dinheiro, diria um pastor. As drogas, o puritano... Eu digo que foi você! De certa forma, eu também. Apesar de nunca ter comprado um disco do artista e, muito menos, ter pertencido à geração que ele cativou com passos como o moonwalk. Sim, sim, joguei no Megadrive o jogo que era fruto do filme, etc. Mas sem hipocrisia não me considero influenciado pela atuação do homem que revolucionou muita coisa no meio do entretenimento.
Foi você! E somos nós que financiamos essa merda! Calma, calma, não estou dizendo que a arte é uma merda! Opa, de maneira nenhuma! A arte é necessária, afinal, o que seriamos nós sem a arte? Sem uma forma de expressarmos de maneira material o que sentimos? Seja com palavras, sons, imagens, enfim, a arte é necessária! Mal é o que fazemos com aqueles que se arriscam a expressá-la.
Mal foi o que fizemos com o Michael Jackson. Não, não foi ele quem se deteriorou, fomos nós que o deixamos a mingua. É engraçado conversar com uma pessoa que é fã de algo ou alguém. É engraçado mesmo. Pois a pessoa não consegue ver além de um palmo do seu nariz.
Ele mudou a minha vida... ouvi isso um dia depois dele ter morrido. Retruquei: mudou no que? Te fez melhor?! Claro, claro, ele era um gênio... para finalizar, simplesmente, perguntei: Você tem algum disco dele? Comprou alguma coisa dele? A resposta vocês devem imaginar... Lógico, para tudo há justificativas. Mas a frase da conversa, se é que foi uma conversa foi, após um comentário meu de que não precisava dar tanta repercussão a morte dele, pelo menos equilibrar com outras notícias como: “Cresce o número de casos da nova gripe no Brasil” ou “Mais um escândalo no Senado...”: Ele era um artista, ele era diferente!.
Meu Deus! É verdade, ele era diferente, eu sou diferente. Você aí do outro lado, você faz o que da vida? Você é gari? “Ah, você não é importante não...”. Você participou durante semanas do resgate de corpos e destroços do vôo da AirFrance? “Caiu algum avião?”.
Pois é, é da natureza do ser humano colocar outros seres em pedestais, como que acima do bem e do mal, das leis da física. Isso é histórico. Filosófico. Metafísico e sei mais lá o que!
Você nasce com um dom e pronto: fudeu! Mas tem a sorte também, né? O garoto joga um futebol ali na rua e pronto: fudeu! É sua dádiva e sua maldição. Uma coisa bem resumida no Homem-Aranha.
Eu realmente, sinceramente, não acho que idolatrar outro ser humano como eu seja a saída para os problemas do mundo, ao contrário...
Michael Jackson, o que aconteceu com Michael Jackson, é a triste conseqüência de uma realidade que cerca as pessoas que possuem um simples talento. Se você é médico, professor, gari, sim, você também está sujeito a isso, talvez, em proporções menos desastrosas, mas está!
Uma vez falei por aqui sobre o Sr. Jackson (http://oventriloquo.blogspot.com/2008/10/o-que-um-padro-de-beleza.html) e só agora me dei conta que a calda de cometa que peguei hoje, eu já havia agarrado um tempo atrás! Nossa! Eu sou um gênio... Fala sério!
Ao som, no inverno carioca, do ótimo disco Durante o Verão, do grupo A Barca do Sol, no último dia de minha rápida visita ao Rio de Janeiro...
Não estou dizendo? É você, é você... é você quem financia...

Abraços