quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Além do bem e do mal

Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), Los Caprichos, Plate 39 Asta su Abuelo. And so was his grandfather Etching with burnished aquatint, courtesy of Arthur Ross, New York City

(Aos amigos Fernando e Marcus)
Logo após o natal encontrei-me, juntamente com minha Ana, com alguns nobres amigos que já me acompanham desde longa data. Na verdade, considero que são os únicos que ainda tenho o privilégio de manter contato fiel lá dos tempos de Padre Miguel.
Todos tínhamos motivos muitos para comemorar, por Deus, fico agora a pensar que já há dois anos só tenho tido bons motivos na vida! Curioso isso, pois a pena na mão tem estado leve e a escrita mais suave, da poesia à prosa. Minha voz não anda rouca, poucos são os desafinos e é deste jeito, ao som do ótimo álbum Pixinguinha + Benedito – Mário Seve + David Ganc, que solto a voz como sortilégio e com pitadas de vodca para ver se ao final da conversa consigo dormir.
Mas como dizia, ganhei de um grande amigo, que muito me inspirou em minha trajetória acadêmica, um exemplar do ótimo livro do filósofo Friedrich Nietzsche: Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Confesso que, assim como o “Cavaleiro Inexistente”, também recebido alegremente como presente na mesma ocasião, eu já possuía tal pérola da filosofia alemã. Contudo, e aqui cabe bem a advertência, não há presente melhor, repetido ou não, que um livro com dedicatórias de pessoas amigas, além do mais, devo dizer, as edições que possuo dos tratados citados não chegam aos pés das que fui presenteado naquele jantar tão agradável.
O livro que Fernando me deu caiu como uma luva ao dia, ao ano, ao contexto, e como é caro, para nós historiadores, o contexto! “Além do bem e do mal”, talvez seja uma das frases que eu e o hilário e talentoso Fernando mais ouvimos em prosas ora reflexivas, ora animadas regadas a um bom chope com Marcus.
“Chegar ao status, estar acima, além do bem e do mal”. Esta é, ainda, sem dúvida nenhuma, a visão futuresca de todo aquele que se envereda pelos caminhos da vida acadêmica – em sua grande parte.
Uma vida cheia de vaidades, frágeis subterfúgios amargos, desavenças e de poucas, pouquíssimas amizades verdadeiras. Vida de uma mão, certamente uma mão, pois somente com uma, talvez duas, pode-se contar os amigos e com várias os desafetos – sugiro a utilização, também, dos dedos dos pés.
“Estar além do bem e do mal” nos dizia Marcus saboreando o chope na Cobal do Humaitá numa madrugada chuvosa em suas primeiras férias no Rio de Janeiro após ser aprovado como professor adjunto da Universidade Federal do Mato Grosso.
Naquele tempo, naquele dia, eu ainda vislumbrava a entrada no mestrado. Fernando havia acabado de ser aprovado. Um mundo novo diante dos nossos olhos.
Daí a importância do Além do bem e do mal do Nietzsche no jantar em dezembro último. Livro que recebi com um sorriso. O mesmo sorriso tateado pelas pontas dos meus dedos quando recebi das mãos de Graça e Marcus o exemplar de O cavaleiro inexistente, cuja dedicatória me mantêm firme nos meus propósitos. Livro que já li duas vezes e cujo trecho que agora descrevo – “mas concluída a página, retoma-se a vida, e nos damos conta de que aquilo que sabíamos é realmente nada”[1] – me acompanha desde que o li pela primeira vez.
Quando passei no doutorado, ouvi de minha orientadora que sua satisfação era grande e que seus planos para mim em dois mil e nove eram vários, principalmente no auxílio na orientação dos novatos. O ano começou realmente assim.
Minha primeira tarefa tem sido a co-orientação final de um graduando cuja monografia apresenta problemas curiosos. Para mim um trabalho gratificante, pois se é isso que quero para o futuro é isso que devo fazer já de agora. Triste para o rapaz que terá que corrigir cada linha do seu texto, ainda truncado e, querendo ou não, ninguém gosta muito de ser corrigido.
Ao mesmo passo, me recordo da frase que ouvi de um outro amigo que seguirá para o Mato Grosso esse ano como professor assistente da mesma UFMT: “agora fico mais tranqüilo, não pesquiso mais para trabalhar, trabalho para pesquisar...”. A frase tem sentido lógico. Um sentido que agora sinto na pele como urticária. Minha matrícula ainda não foi feita no doutorado, mas as responsabilidades de tal condição já me cercam. Em meio à revisão final da dissertação. Em meio às criticas a monografia do graduando, parirei um artigo. O e-mail foi claro: “agora é vida de doutorando, meu caro. A preocupação não é apenas o doutorado, mas também um lugarzinho numa federal.”.
Bem se alguém ainda não entendeu a máxima “estar acima do bem e do mal”, explico de forma simples, mesmo sendo desnecessário, após o texto do e-mail que não preciso citar a fonte: Não é se tornar melhor que todos, melhor que o mundo, tampouco, tornar-se o dono da verdade. Esse nunca foi meu objetivo, nem o nunca será. Não há nada relacionado ao livro do Nietzsche. Não há loucura em tal fala na mesa do bar. Em tempos de crise, até uma criança entenderia. Trata-se de estabilidade e de certo modo: liberdade. Escrever em primeira pessoa. Independência acadêmica, mesmo dentro dos micropoderes, basta apenas saber onde pisar. Evitar os calos dos outros e são muitos. Seguir com os “cavalos da história” diria eu.
Pois no fim do caminho, e sei que esse meu caminho terá de ter um fim, há de ter um fim, por favor, eu creio no fim, não quero citar a mim mesmo, ouvir de mim mesmo as palavras do velho Nietzsche: “É terrível morrer de sede no mar...”.[2]
E a conversa durou todo o Cd... E a conversa acabou com toda a vodca e não me fez adormecer!


Ps. Sim, a gravura de Francisco Goya y Lucientes é uma doce provocação visual.
[1]CALVINO, Italo. O Cavaleiro Inexistente. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 59.
[2]NIETZSCHE. Friedrich. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 64.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O motivo do gosto pelo acetato (Parte final)

Como disse ontem, acho que meio gago pelo cansaço, encerrarei de vez o recorrente assunto sobre “a vitrola”, creio que já rendeu muito e se tornou deveras repetitivo por aqui. Aliás, ninguém hoje em dia dá muita bola para o assunto, pelo menos por enquanto, como demonstrarei.
Não restam dúvidas acerca do fato que, sim, sem discussões, o som do Cd é melhor que o dos antiquados Lp’s. Mas veja lá! Cuidado com preconceitos bobos e nada musicais, pois durante muito tempo eles foram o exemplo maior de qualidade.
Recentemente, li não sei onde uma matéria sobre “o resgate dos vinis”, resgate, digamos, um tanto atrasado no Brasil, já que na Europa há muito que o acetato está em voga, basta entrar na Internet e comprovar minha afirmação. Algumas lojas brasileiras mantêm, bem modestamente, é claro, um espaço pequenino para os vinis novos, ou seja, fabricados recentemente. É possível contar nos dedos os artistas tupiniquins que ainda lançam ou, pelo menos atualmente, lançaram algum dos seus trabalhos simultaneamente em Cd e vinil. Acho que com segurança posso falar do Caetano Veloso e o álbum Cê e nem é tão recente assim a observação, pois depois dele o baiano já lançou outros trabalhos. Li, também, mais recentemente, que a banda Skank está para relançar seu primeiro trabalho em vinil e o último Cd também, que não sei o nome por pura ignorância e desconhecimento do trabalho dos mineiros, ficando apenas com o conhecimento dos hits nacionais deles, que mesmo que a gente não queira acaba sabendo cantar.
Los Hermanos também fizeram isso quando colocaram na estrada o ótimo 4, mas foi uma edição especial e não conheço ninguém que tenha tal preciosidade sonora.
Agora, falando em “estrangeiro”, a ótima banda Little Joy, do multistrumentista, do já citado Los Hermanos, Rodrigo Amarante em parceria com baterista (que também toca outros objetos sonoros que produzem acordes e melodias) da banda de rock americana The Strokes, Fabrício Moretti, foi lançado em Cd e vinil, lógico que o preço é sal grosso puro. Há também a banda Belle & Sebastian que lança em Cd e vinis seus trabalho há muito tempo e estamos falando aqui de uma banda de gente jovem.
Posso estar enganado, mas deve haver uma explicação muito simples para o vinil nunca ter saído de circulação. Para se ter uma idéia, a única fábrica ainda existente no Brasil está localizada em Belford Roxo e o cara ainda se sustenta com isso, então: Há mercado!
Também acho que devemos levar em consideração o boom dos Dj’s que passaram a ser mais respeitados e vistos, merecidamente, diga-se de passagem, como músicos. E qual o principal instrumento dos caras ao lado das chamadas “pick up’s”? Pois é.
A industria fonográfica quer ganhar e anda perdendo. Vinil é bem mais complicado de se piratear e ainda há os nostálgicos (como eu) que gostam de pôr a bolacha (olha só o resgate aí) na vitrola, limpar a poeira, dar banho, etc. Contudo, vamos às minhas explicações a respeito do meu prazer em ainda comprar vinis e ouvi-los, principalmente.
Porém, antes que o assunto entre em pauta, respondo. Não, não gosto por modismo, já que logo, logo, como explicitei anteriormente, os Lp’s voltarão a ser moda entre a molecada. Tenho provas cabais para me defender das futuras provocações dos amigos que estou (no futuro) apenas acompanhando a onda atual.

Entrei no curso universitário em 2000. Em 2001 e 2002, ainda universitário, passei a colaborar num projeto Católico de pré-vestibulares comunitários e lá fui eu dar aula. Experiência marcante, confesso, por dois motivos: o primeiro, não sou católico e, acredite, na Igreja que eu trabalhava isso exercia um certo “campo de força” de alguns alunos. Segundo, eu dava aula de História do Brasil e na época já me encaminhava para os estudos sobre a Idade Média.
Já na primeira semana de aula uma senhora, entenda-se senhora como senhora, saiu da sala (era seu primeiro dia de aula comigo) afirmando que não estudaria com uma “criança” – eu tinha em 2001 dezoito anos e pouquíssimos fios de barba no rosto, sendo assim, não dava nem para enganar como faço agora nos meus vinte cinco anos.
Após conversa daqui, conversa de lá. A senhora começou a assistir minhas aulas e acabou se tornando uma ótima amiga e incentivadora do meu trabalho.
No fim, todos os alunos, em grande parte da mesma idade que eu, se tornaram meus amigos. Eu tinha o hábito de comentar meus gostos musicais no intervalo das aulas e como trabalhava com História do Brasil, procurava utilizar, quando chegamos no assunto “Ditadura”, exemplos musicais, como Chico Buarque e Caetano Veloso.
Falei que gostava muito de vinis e possuía alguns. Lógico que todos riam (menos a senhora) e não entendiam. Fiquei tachado como o professor novo-velho.
No fim das aulas fizemos um amigo oculto e me deram de presente um Lp do sambista Roberto Ribeiro e todos assinaram seus nomes e escreveram mensagens de agradecimento, esperança, etc. Durante muito tempo fiquei longe desse ótimo disco, intitulado Coisas da vida. Dia desses, antes de viajar para a casa dos pais da Ana para passar as festas de fim de ano, o encontrei jogado na casa antiga que temos e que agora meus pais preparam a reforma para que, possivelmente, eu e Ana moremos após nos casarmos ou alugarmos para complementar o aluguel em outro lugar (o que é bem mais provável).
Lá estava ele numa caixa com outros discos que eu gostava muito e havia comprado em 2003, 2004, ou tinha herdado dos meus pais, como Luz das Estrelas, disco póstumo da Elis Regina, ótimo por sinal e Dick Farney Ao vivo... Estes, acredite, eu comprei. Os que herdei dos meus pais eram coisas mais televisivas como discos de novela.
Se fossem Cd’s estariam arranhados, inutilizáveis. Meus discos estavam lá empoeirados, maltratados, mas perfeitos. Um perfex ou uma flanela e pronto: só colocar na vitrola.
Coisas da vida...
No mais, muitas vezes é bem mais fácil encontrar coisas que estão fora do catálogo ou que nunca foram lançadas em Cd na edição original de Lp. Exemplo disso é o ótimo Todas as teclas de Wagner Tiso e César Camargo Mariano. Pois quando a gente encontra em Cd é made in importação. Vê se pode? Você quer ouvir um disco do Tamba Trio, por exemplo, quer comprar para não baixar da rede, vai numa loja e percebe que o Cd custa R$ 90,00 pois foi lançado no Japão! Acho que por motivos como esse o grande Charles Gavin, baterista dos Titãs, começou a remasterizar e colocar no mercado títulos fora do catálogo como excelentes discos antigos do Belchior, da Elis Regina, etc, por um preço decente.
Continuando, aí você vai na lojinha da Sete de Setembro no Centro do Rio de Janeiro e compra o mesmo disco por R$ 15,00 ou R$ 20,00 e, como eu disse, no futuro ainda pode se considerado vanguardista, estiloso... é, coisas da vida, coisas da vida!
Claro que existem discos usados caríssimos. Mas fica a gosto do colecionador ou mesmo do investidor, já que no futuro, como eu disse, isso dará pano para manga, digo, dinheiro na carteira. Por fim, não, não tem definição ouvir Chico Buarque em vinil... Acho que já falei isso... Coisas da vida!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O primeiro acorde do ano (Primeira parte sobre os acetatos)


E estamos aí. Primeiro acorde do ano! Nesse mês de janeiro muita comemoração. Um ano de O Ventríloquo. Acho que cabem algumas explicações aos desavisados. No finzinho do ano passado um conhecido deu uma passada por aqui e gostou de um dos textos. Segundo o mesmo, o estilo de “conversar com o ‘leitor’ o agradava muito na minha ‘escrita’”. Ora, ora companheiro, não são textos. Meu caro, são vozes!
Desde o início a proposta principal dessa budega aqui era liberdade e fuga! Pois é, eu andava querendo falar sem virgulas, pontos, ser desorganizado nas idéias, não me fazer entender, mas acabar alcançando tal objetivo tentando assim parir crônicas sonoras através de vozes diferentes (as vozes de cada pessoa que passasse por aqui). Pois então, para tal, como expliquei, resolvi utilizar a metáfora das muitas vozes (por isso “O Ventríloquo”, entendeu?) e, ainda, a analogia musical... E já se vai um ano.
Mas como eu disse, é um mês de comemoração, um ano de O Ventríloquo e dois anos com Ana e, mesmo que no decorrer da audição não pareça, o primeiro acorde do ano é para ela e é intimamente relacionado à “minha preta”. Um acorde maior, bem feliz.
Explico-me, mesmo não querendo muito: Não é segredo algum que sempre fui inquieto no assunto amor. Inconformado quase. Picuinha, chato, esquisito, mas um bom moço. Não é segredo algum que me meti em furadas, que fui magoado, que já magoei. Quase me tornei um descrente do amor. Quase. Eis que surge Ana. O resto é romance e isso eu guardo para eu e ela. Ela e eu.
Com ela percorri as ruas do centro antigo do Rio de Janeiro. Com ela já comi muita coxinha por falta de grana e com ela almocei e jantei em churrascarias caras, pés sujos, botecos, self service e por aí vai. Deitei-me no MAC, aquela nave espacial construída pelo doido do Oscar Niemayer, mas que tem uma vista linda... Vi pôr de sol em tudo quanto é lugar, já fiquei bêbado, já fiquei puto e na maioria das vezes fui muito feliz. O curioso é que todos, sim, exatamente, todos os meus amigos acabaram a abraçando de tal maneira que não consigo ir a nenhum canto sem ela, mesmo tendo todo os espaço do mundo. Bom.
Dela ganhei de presente um dos mais bacanas presentes de natal da vida: Minha vitrolinha Philips 503 (que agora merece foto).


* Não vou afinar essa voz. Então, possivelmente, podem ocorrer ruídos e falhas lingüísticas! Motivo: quase seis horas de estrada voltando com a família de Cabo Frio.
** Ao som do Lp “Ouvi dizer”, de 1982, do extinto Grupo Elo (que acabou virando Grupo Logos), vou ficando por aqui. Ah, perdão, cabe ressaltar que nesse disco tem o grande sucesso “Autor da minha fé” que pouca gente sabe que foi gravada primeiro nessa versão, digamos, pré-Logos.