terça-feira, 9 de junho de 2020

As vozes dos sonhos (ou a psicanálise dos vencidos)

É inevitável não ouvir algo e consequentemente não ser tomado por alívio ou pavor. As vozes – desde sempre ou quase sempre – permeiam os acirrados debates dos psiquiatras, dos psicólogos e psicanalistas. Reais? Imaginadas?

De qualquer maneira, as vozes são produzidas intencionalmente algumas vezes. Talvez sim. Talvez não. Não sei do que se trata essa voz, o tom em que ela se localiza na tessitura do tempo, em qual clave encaixá-la. Não sei. Por certo, você saiba... Dolores sabia. Ao menos segundo ela, sabia.

Havia um tempo, acho que uns três anos ou um pouco mais, que eu não via Dolores. E parece que o tempo lhe foi justo. Envelhecer bem é uma benção. Eu por exemplo, dos últimos três anos perdi uma bola, foi-se um casamento, a barba esbranquiçou, tomo ansiolíticos, ISRS, carbonato de lítio e, evidentemente, tenho fodido pouco ou quase nada. Engordei, mesmo não tendo apetite. Enquanto Dolores manteve seu ar esbelto, alta, aparentemente feliz e em contraste com minhas profundas olheiras roxas que pareciam uma maquiagem borrada, ela estava com o rosto limpo e a brancura de sua pele transmitia um quase mais alvo do que a neve do Bendito Cordeiro, que se não me falha a memória e a preguiça de pesquisa, é o hino número 123 do Cantor Cristão usado pelas Igrejas Batistas, de qualquer maneira: foda-se! Afinal, tudo quanto é igreja cristã e evangélica canta essa música que é, na verdade, uma melodia e letra de dois estadunidenses do século passado. Sim, já fodi com a Dolores. Nos dois sentidos do termo. Primeiro de modo bom, tanto para ela quanto para mim. Depois, no mau sentido. De início pensei que havia sido pior para ela, vejo que foi pior para mim.

A noite não foi boa. Nenhuma noite é boa. Mesmo quando a noite é boa e consigo dormir já com o sol raiando. E encontrar a Dolores ao acaso, quase esbarrando sem querer – quando esbarrar mesmo querendo é um risco – foi curioso. Ela queria me abraçar e educadamente, mascarado, é claro, sorri, acho que não deu para ela perceber o sorriso, e gesticulei apontando para o chão a marca de segurança da metragem da fila. Ela pensou em insistir, mas parou. Fomos conversando de longe, a máscara abafava um pouco as frases, amenizava o rubor de seu rosto em alguns momentos, mas foi possível por uns instantes conversarmos educadamente sobre vida, trabalho, quarentena, morte e sua nova inclinação religiosa. Seus olhos brilharam quando entrou nesse assunto. Se eu estivesse nos bons e velhos tempos de manipulador, juro que diria que aquilo me brochou. Porém, para haver uma brochada é necessária uma ereção, coisa que estava complicada para mim... Deixa estar.

Dolores começou a falar empolgadamente dos desígnios de Deus e que Deus falava com ela em sonhos e lhe dava profecias e que na noite anterior havia sonhado comigo e que Deus havia falado com ela sobre mim. Ora, já era uma deixa para escapar daquilo tudo, já estávamos no estacionamento, ela se aproximando e eu com medo de passar-lhe o vírus ou o vírus dela passar para mim. Na verdade, nem sei ou sabemos se estamos ou não contaminados. Acho até que meu maior medo era o vírus da religião dela me contaminar o cérebro e me levar à loucura de passar a acreditar numa salvação para além de não querer cortar os pulsos ou tomar todos os remédios juntos, misturados com o que restava da garrava da melhor cachaça que eu tinha em casa. Mas sou fã de carteirinha do Aldir Blanc Mendes, tomei um porre homérico no seu aniversário de 70 anos e sua recém morte em maio passado – não vou mentir – mexeu comigo. Não há um substituto para um artista como o mestre. Nem para a sua coragem. Enfim. Realmente mexeu comigo.

Uma vez vi um vídeo do Aldir testemunhando sobre a Elis Regina, em comemoração aos seus 70 anos, em 2015, por sinal, um testemunho muito bonito. Ele comentava sobre a espiritualidade da cantora, rezas, essas coisas, mas o que sempre me chamou atenção e volta constantemente na minha cabeça, é a parte em que ele dizia achar deselegante, apesar de ateu, recusar uma reza de alguém. Porra, nem ateu eu sou! Sou agnóstico e se o Aldir Blanc achava deselegante receber reza, passe, a coisa que fosse, por que eu não poderia ficar mais uns minutos da minha medíocre vida ali parado naquele estacionamento de supermercado, me expondo a um vírus desconhecido e que, inclusive, havia levado o próprio Aldir um mês antes, para ouvir sobre algo desconhecido de uma velha conhecida?

Dolores começou a me falar de sonhos e das “revelações”. Pois o sonho vindo de Deus era uma coisa mais profunda, ela disse algo assim. Talvez, eu esteja pecando pelo esquecimento e falta de atenção naquele momento. Mas foi algo assim, eu sei que foi. O meu pensamento ao ouvir aquilo tudo é que não esqueço, foi uma fração de segundo, mas parecia uma eternidade: meu pensamento sobre os sonhos. Os sonhos que tive até aquela conversa:

Porra, sonho todo mundo tem, Dolores! Eu tive muitos sonhos bons até determinado momento da minha vida. Até aqui. Até ontem. Me lembro bem do meu primeiro sonho: ganhar o Quartel General do Comandos em Ação (ou G.I. Joe). Eu tinha vários bonecos, muitos bonecos. Hoje você não encontra essa merda por menos de dois mil e quinhentos reais! Cheguei a escrever para o Porta da Esperança, aquele programa do Silvio Santos. E escrevi incentivado pelo meu pai, que era gerente de uma cadeia de lojas de brinquedos e outras coisas, uma empresa que seria o que é hoje uma rede de lojas de departamentos. Meu pai tinha o dinheiro e a oportunidade de me presentear com aquilo, mas preferiu “incentivar” minha escrita. Nunca ganhei o Quartel General do Comandos em Ação, Dolores! Claro que tive outros sonhos com brinquedos, sonhos estúpidos como todo sonho infantil com brinquedos. E de se pensar que eu era uma criança que tinha tudo quanto é brinquedo e parafernálias, se eu pensar muito nisso meu psiquiatra, que não vejo faz dois meses ou um pouco mais e nem sei se está vivo, teria que aumentar minhas doses de remédios e estou querendo parar com a merda desses remédios. Mas me lembro de outro sonho, mais divertido. Eu sonhava muito com a Natália Lage, sonhava namorar a Natália Lage, não sei, acho que eu tinha uns 11 anos, coisa assim, um pouco mais, talvez. Mas não dá para esquecer que ela foi meu “primeiro amor”. Engraçado que não havia erotismo nos sonhos, confesso que nem lembro se eu me excitava, certamente eu nem sabia que palavra era essa. Pois o que me chamava atenção nela era o sorriso, os lábios, e eu nem imaginava tocar naqueles lábios. Na verdade, eu tinha era uma admiração, sei lá, alguma coisa assim, entende, Dolores? Eu via a Natália Lage na TV e pensava: “essa menina deve ser muito inteligente”. Lógico que o tempo passou e com ele passando comecei a ter sonhos sexuais e meu maior sonho era fazer sexo, mas só me restava a masturbação vendo pornochanchadas ou a Sylvia Kristel nas madrugadas de sábado em Emmanuelle. Quando realizei o sonho de fazer sexo, vi que era bom. E era melhor ainda quando eu satisfazia de verdade minha parceira sexual, entende, Dolores? Mas isso também foi se tornando um problema. Pois sexo não é uma mão única, seja você pensando em agradar o outro ou agradar a si mesma, Dolores. O sexo é uma coisa, por sinal, muito importante na vida, uma das coisas mais importantes, na verdade, ao menos eu acho. Ele harmoniza perfeitamente, mesmo na casualidade, o universo. De qualquer maneira, esse sonho – fazer sexo – eu realizei. O que fode aqui no meu pensamento são os sonhos que não realizei. Minha cabeça começa a doer enquanto você fala sobre seus sonhos proféticos e sua imaginação de ter recebido, como uma Moisés feminina, uma ordenança sobre a minha pessoa, de um ser que não deveria possuir artigo masculino e ser assexuado. Eu tinha um sonho de ser entrevistado pelo Jô Soares no seu programa. Caralho, o Jô não tem nem mais programa! E está velho também. Espero que com saúde. Eu sonhava em tomar alguma coisa naquela canequinha que tinha na frente dos convidados, ser cortado por ele durante a entrevista, sorrir elegantemente. Sonhava também em um cara a cara com a Marília Gabi Gabriela. Aquele bate bola que ela fazia no final do programa. Que mulher provocante, inteligente, aquela voz. Sonhava em participar do Sem Censura com a Leda Nagle e, puta merda!, a Leda nem trabalha mais no Sem Censura! Eu sonhava em casar-se, sabe, Dolores? E me casei. Porra, mas foi a pior coisa que eu fiz para com quem eu me casei e para mim. Casamento tem seus altos e baixos, momentos bons e momentos ruins, mas se casar, pode acreditar, por si só já é uma escolha de merda. Tanto que divorciei. O pior dos sonhos não realizados, da voz na minha cabeça, era simplesmente tomar um chope, veja bem: UM! Apenas um chope com o Aldir Blanc, mas ele morreu. E agora você aí falando sem parar sobre o sonho que teve comigo, sobre o seu Deus. Mas não posso ser deselegante. O Aldir não seria.

Dolores por fim disse que na sua igreja, foi o máximo que eu consegui captar após a rapidez dos meus pensamentos, todos os dias havia reuniões de ungidas e ungidos (ela não falou ungidas e ungidos, eu separei a coisa do “ungidos e ungidas”). Umas trinta pessoas, segundo disse, para rezar e receber as profecias de solução contra o vírus. E disse também que o vírus não os atingia – Dolores ficou muito ruborizada quando falou isso, não sei se por minhas sobrancelhas terem se movido de forma inquisidora. Por sinal, sobrancelhas bem delineadas naturalmente, isso uma parceira que tive falou certa vez na cama. Inclusive, seu fetiche eram minhas sobrancelhas, por isso fazia sexo comigo, ela disse.

Dolores tirou a máscara, gesticulei que não. Fiquei sem palavras. Seus lábios continuavam lindos, perfeitos. Mas não tive nenhuma excitação, ereção. Não havia nenhum sentimento erótico por ela em mim. Quando voltei rapidamente à realidade, falei sobre a lei estadual para o uso de máscara em locais públicos. Dolores e seus lábios perfeitos e seus dentes perfeitos sorriram para mim. Meus dentes, por sua vez, estão amarelados de café e cigarro e acho que estou perdendo um dente lá do fundo. Dolores com sua voz suave disse que Jesus, o Salvador e, consequentemente, ela, estavam acima da lei dos homens. Eu não aguentava o meu mau hálito de café e cigarro dentro da minha máscara, mas sorri – o que foi bom estar de máscara, pois assim ela não viu meus dentes amarelados, sempre tive dentes bonitos quando jovem – e brinquei que as mulheres também faziam leis. Ela ficou séria, parou de sorrir. Retrucou: você não acredita, não é?. Respondi honestamente que não. Honestamente, como sempre fui para todas as mulheres que me levaram para cama – não, nunca consegui levar uma mulher para cama, convencê-la a fazer sexo comigo, eu sempre fui tímido, talvez, tenha alguma relação com os sonhos não realizados, não sei, o Quartel General do Comandos em Ação. De todo modo, expliquei que respeitava tudo o que ela havia dito até então, mas que eu era agnóstico, agnóstico como quando ela me conheceu e nos relacionamos. Seu rosto ficou mais sério. O rubor de timidez, leve vergonha, talvez, não sei, tinha mudado. A ira, por sinal, um pecado capital para a Igreja Católica, não sei se também é aplicada a noção de pecados capitais para as igrejas Evangélicas, tomou-lhe de assalto como costuma tomar religiosos e partidários políticos, seja da Esquerda ou da Direita, porém, atualmente, muito mais os doentios, cegos e seguidores do fascismo que se instalou no nosso país, cujo misto de religião e política transforma-os em vozes destoantes em si mesmos e até mesmo frente aos seus apoiadores externos, se é que em algum momento eles tiveram algum apoio. Ninguém sabe, muito menos eu. Mas a Extrema Direita tupiniquim é muito esquisita e burra. Mas qual extremismo não é?

Aqueles lábios perfeitos se cerraram. Eu já havia visto aquela cena uma vez no fim. Seria mais uma vez o final?

Dolores está foragida. Agora estou internado em repouso num quarto de um hospital da rede privada, com cobertura do meu plano de saúde. A rapidez de alguém ter ligado para o 192, a agilidade da equipe de socorro do SAMU, o atendimento dedicado dos enfermeiros e da médica da urgência do hospital público mantido pelo SUS, a cirurgia bem sucedida, mesmo após uma parada cardíaca na mesa de operação... me salvaram de vir a óbito ali no chão de asfalto daquele estacionamento. Morrer só. Todos nós vamos morrer sós. Foram dois tiros à queima roupa na barriga. Após a liberação de transferência, muito gentilmente, o cirurgião que me operou no hospital público me fez uma visita no hospital pago (e caro), senti sua mão leve e macia apertando meu tornozelo esquerdo por debaixo do lençol sem cheiro e alvo como a neve: Ataulfo, você só está vivo por um milagre!


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Pobre Maiakóvski (Brasil pós-2016)




Perdidos em disputas monótonas,
buscamos o sentido secreto,
quando um clamor sacode os objetos:
"Dai-nos novas formas!"
(Ordem N.º 2 ao Exército das Artes, Vládimir Maiakóvski, tradução de Haroldo de Campos. 
Em: Maiakóvski: Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 93)


Chega um momento na nossa existência que as coisas vão indo tão mal, coisas simples indo tão mal, que a gente acaba se vendo obrigado a usar aquela expressão que resume o "estar na merda", "as coisas estão muito ruins", "Não dá mais...", etc. A tal máxima é: "Brasil pós-2016".

(Nota aos estrangeiros: este termo possui um interessante histórico etimológico e é mais ou menos como a palavra "Saudade", não tem tradução para outros idiomas além do português brasileiro).

Um exemplo didático: você pede uma moela ensopada num boteco para papear um pouco com a patroa sobre a vida, a moela chega fria. Você não diz mais: "que merda"... Você expressa seu descontentamento com: "Brasil pós-2016!". Não satisfeito, pede uma porção de pão de alho. Chega uns nacos de pão com manteiga no forno e um potinho de maionese industrial com aroma artificial "alho". Você xinga? Chama o garçom prum papo? Não! Você diz: "Brasil pós-2016!".

Liga a TV, mais um pacote de cortes... Suspira fundo: "Brasil pós-2016".

Mais uma chacina: "Brasil pós-2016".

Caí no cheque especial de 350% de juros ao ano: "Brasil pós-2016".

Os índios não existem mais, foram abolidos pelo agronegócio: "Brasil pós-2016".

Fecharam uma universidade pública, duas, três: "Brasil pós-2016."

Servidores estaduais e municipais e federais caminhando para a miséria: "Brasil pós-2016"...

Evangélicos estão no poder, empresários são eleitos prefeitos: "Brasil pós-2016".

Mães matam filhos por serem homossexuais, pais chacinam a família por machismo: "Brasil pós-2016".

E assim a gente foi mudando nosso linguajar de pouco a pouco.

É uma coisa meio Etimologias, do Isidoro de Sevilha... 

Entendam cagalhões: Daqui uns séculos "escafandristas virão explorar sua casa", na verdade, seus status no Facebook, e verão que a expressão "Brasil pós-2016" surgiu logo após um surto epidêmico, não de Febre Amarela, de certo modo sim, mas uma febre de camisetas amarelas e de um pato amarelo gigante pelas ruas de São Paulo, gritos nas capitais estaduais, selfies com Policiais Militares. Os escafandristas investigadores descobrirão que a disseminação linguística se deu através do som do Plim Plim, via aparelhos de Televisão e grupos de tiozões no Whatsapp com camisetas com a foto de um homem que apoia Brilhante Ustra e ofendeu uma Presidenta da República que foi torturada durante a Ditadura Civil Militar no Brasil. Para ficar só nisso.


O DNA da máxima "Brasil pós-2016" estava, dirão os escafandristas arqueólogos das palavras, em um tal de "Fora Dilma e leve o PT junto". A mesma senhora que quando jovem teve ratazanas inseridas em sua vagina como método de tortura.



Curiosamente, assim como renascentistas, humanistas e iluministas falando da Idade Média no seu presente passado em tempos remotos, os contemporâneos do "Brasil pós-2016" não se lembrarão das pessoas tiradas da miséria durante os 13 anos petistas, esquecerão, como num surto, a expansão do ensino público, os avanços sociais de igualdade e justiça para os mais necessitados.

A classe média brasileira, aquela infectada pelo vírus da Febre Amarela Política, e mesmo os recém-chegados ao status graças aos tais avanços do passado presente, esses seres contra-História, silenciar-se-ão ignorando suas participações nas marchas pela família, ignorarão os ministros nomeados com ficha suja, emudecerão diante das delações com nomes do governo interino, e depois fixado através de negociatas de privatização e prevaricação, nomes explícitos em listas de propinas. Tudo graças ao mecanismo técnico-biológico do Plim Plim. 

Na explicação do dossiê, os escafandristas dirão: As células se ativavam às notas musicais estridentes e então as vozes bradavam: "Bandido bom, é bandido morto!", "Comunistinha de merda", "Esquerda caviar"... "A culpa não é minha, eu votei no Aécio!", "Vocês também votaram no Vice...", "Transformaram a bandeira do Brasil num símbolo comunista (mas era a bandeira do Japão)", etc. e tal.

Finalmente, esses escafandristas, ao tentarem, mais uma vez, alertar os contra-História, serão silenciados por algum pacote de cortes nas Ciências ou vão ser terminantemente afastados de seus cargos públicos-concursados através de um processo temeroso de redução salarial, lhes cortarão o oxigênio.

No geral, perceberemos que, primeiramente, a estratégia funcionará a partir da diminuição do acesso à internet fixando um limite de dados. Em seguida cortarão o acesso igualitário à universidade pública e gratuita, reduzindo o Ensino Superior ao monopólio de Empresas Educacionais privadas que lidam com a educação através do mesmo modelo de alimentação fast food. Depois, depois a gente não sabe, pois estamos no futuro do passado e fica difícil localizar a narrativa em algum tempo verbal. Não sei se estou aqui ou acolá. À propósito, a voz que você ouve nesse momento tem esse som por ser eu também um escafandrista.



Pobre Maiakóvski, não há nenhuma pessoa feliz no Brasil pós-2016.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O corpo estendido no chão

Acordei suado. Não tanto pelo calor, mas pela lembrança que ativou meu instinto de querer conversar com alguém. Aquela vontade insana de desabafar e falar desenfreadamente como bêbado. Molhar a mesa, deixar derramar o chope, abraçar o garçom. Quase uma epifania de fim de carnaval ou o gol de barriga do Renato Gaúcho no final do Estadual. Salve o futebol.

Não sei ao certo o ano ou a data. Mas, posso dizer com certeza que era sábado, final de inverno. Certeza, sem dó!

Sábado, o pai me levava religiosamente para a Vila Emil para eu jogar futebol no Barraquinho, time de moleques oriundo do Barracão. Camisas listradas, vermelho e branco vertical, shorts e meiões brancos ou vermelhos. Praticamente o uniforme do Bangu F.C. O Barracão era um tradicional time do morro que rivalizava com o Verona, time do meu pai, camisas com listras pretas e amarelas verticais, calção preto e meiões amarelos ou pretos. O couro comia.

Era o cheiro forte de couro que marcava minha bolsa de carregar chuteira, cheiro de sebo de carne de boi e couro. E sei que era final de inverno, pois as manhãs em Mesquita ainda eram um pouco frias e aos poucos o sol ia esquentando, formando nos matos do quintal um suadouro bonito, o orvalho da noite anterior se dissipando, assim também era na grama que coçava as pernas onde a gente jogava e sujava a bunda no chão escorregando ao tentar correr.

Daquele sábado, eu pouco me lembro da partida. Se o Barraquinho ganhou, se o Cizinho, o treinador do time, me deixou jogar os dois tempos. Mas sei que atuei na lateral direita, pois era difícil competir com o Tato (um dia falo sobre ele), se marquei bem, dominei bola, fui um atleta mirim elegante, só o tempo dirá. Acho pouco provável.

Só sei dizer que logo de manhã o que me fez hoje acordar um tanto mais suado que de costume e ofegante, por sinal. Me sentar na beira da cama e me olhar no espelho, vinte anos depois daquele sábado, daquele jogo, daquele final de inverno, foram uns cabelos negros e suavemente cacheados, um short jeans com dois três botões sendo o último da cintura aberto – moda entre algumas meninas dos anos 90 –, um tope escuro e uma leve brisa que subia do seu corpo estendido no chão. Uma faixa de sangue escorria por algum lugar que eu não tive muita coragem de observar. Mas ouço bem a voz firme do meu pai dizendo que tinha pouco tempo que estava morta, pois o sangue ainda exalava calor e a manhãzinha fria que aos poucos ia recebendo o calor do sol criava aquele fenômeno que ele não sabia o nome e eu ainda hoje não sei e se sei esqueci, pois pouco importa para nós.

O corpo estava lá estendido, poucos metros entre a lateral e a linha de fundo das traves do gol. Quase no escanteio. Ficou lá, em escanteio. Meu pai finalizou o tento, quase como um legista da Civil: Deve ter morrido por volta das seis, seis e meia... Eram sete e pouca da manhã.

O dia corria, eu me vesti, calcei os meiões e as chuteiras. Lateral direita. Tenho certeza. Numa disputa de bola com um menino maior e mais forte do que eu – não era difícil existirem meninos maiores e mais fortes que eu – tomei um tronco no ombro a ombro e caí na linha de fundo. Lateral esquerda do meu oponente. Eu canhoto, isso desequilibrava o time adversário sempre, hoje eu entendo o velho Cizinho com o cigarro nos dedos e o copo de cerveja na outra mão. Até meu pai sabia da coisa. Porém, naquele dia quem se desarmou fui eu. Eu no chão, olhos fechados da queda e vinte anos depois, volta e meia quando abro os mesmos olhos de menino revejo aquela garota deitada de barriga para cima, cabeça para o lado olhando para mim já sem vida, já sem sonhos. E era só mais um corpo estendido no chão que só foi retirado pelo rabecão na metade do primeiro tempo.


No intervalo da partida, o Bicho da goiaba, que conhecia todas as informações sobre os mortos em Mesquita e região, contou que ela havia sido morta por ter passado informações para os traficantes da boca de fumo rival da região. O Bicho da goiaba era praticamente o Jornal O Povo ambulante, se se vestisse de rosa e tivesse tatuagens com letras pretas de fato pareceria as páginas com os corpos furados de bala das capas do conhecido jornal. Não havia nome, identidade e jamais haverá: foi apenas mais um corpo estendido no chão, o primeiro que eu vi tão de perto e que carregarei comigo para sempre.