terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Há dignidade no morrer?

Hoje acordei com duas notícias. Não vieram, necessariamente, ao mesmo tempo. A primeira me pegou sonolento, tanto que voltei aos embalos do sono. O segundo acordar se deu com o toque do celular e a notícia de que eu havia sido considerado apto no exame de língua estrangeira e que minha entrevista para o doutorado ocorrerá amanhã. Fixemo-nos na primeira notícia.
No episódio piloto da série televisiva americana House M.D. há um diálogo entre o médico ranzinza e uma paciente, no qual, após ele ouvir da moribunda que a mesma queria morrer “com dignidade”, House afirma que não há dignidade na morte (...).
A primeira notícia da manhã, dada por minha mãe, era de que sua avó paterna (conseqüentemente, minha bisavó) de noventa e poucos anos havia falecido. Como falei anteriormente, não por insensibilidade, voltei a dormir e, confesso, até esqueci a notícia, confesso, também, que, nesse exato momento, enquanto solto essa voz por aqui, meus pais se preparam para ir ao sepultamento. Não, não vou. Um dia conversaremos sobre meu problema com cemitérios e velórios, na verdade, mais com velórios que com cemitérios. Ao som do ótimo Cd Surpreendente Graça, do cantor e compositor Jorge Camargo, continuemos nosso papo.
Quando me levantei definitivamente, lá por volta das onze da manhã, fui ao quarto da minha mãe contar a notícia da aprovação no exame de proficiência. Só então me lembrei da morte da bisa. Matriarca da família Gonçalves.
Pelo que me recorde, minha bisavó já enterrou dois filhos (incluindo o grande e fantástico Altamiro Gonçalves, meu avô, o cara que me levava para tomar Malzibier), um neto e acho que já tinha até trisnetos. Era Batista convicta. Uma peça rara. Mulher forte de cabelos brancos e longos. Gostava de contar histórias e eu de ouvi-las. Até os treze, quatorze anos, ainda ia muito à sua casa. Uma das minhas melhores receitas de molho, aprendi vendo-a fazer.
Mas, enfim, há dignidade no morrer? Conversando sobre isso com minha mãe, cujo nome na certidão de nascimento é uma singela homenagem à sua avó Isabel, que carinhosamente era chamada de “Vovó Belinha”. Sim. No seu caso houve.
Minha tia a acompanhou em seu leito de morte. Leito rápido que nem sequer chegou a esquentar muito. Morreu conversando. Aos poucos e, ao que parece, sem dor.
Segundo minha mãe, através da narrativa de sua irmã, Vó Belinha conversou, aos poucos disse que estava se sentindo sonolenta, conseqüentemente, sua pressão foi baixando, o sono chegando... o sono eterno.
Não. Há muito não vou a Igreja. Sim. Ainda me sinto Batista, aquele “batistão”, bem tradicional. Porém, não me sinto intolerante, talvez, sarcástico, mas nisso sou com tudo da vida, inclusive na morte. Segundo um grande amigo meu que perdeu seu pai recentemente, os dois umbandistas, morrer dormindo significa que a vida da pessoa foi boa, que a pessoa foi um ser bom, pois, no sono que se converte em morte, ao que parece, para essa religião e, ainda, segundo ele, no Espiritismo, afirma esse postulado e muitos dizem, acho que todos, que não há muita dor (ou quase nenhuma) na morte do sono. Não tenho certeza nesse último caso. Não sei se ao dormitarmos e, conseqüentemente, morrermos, não sentiremos um fio sequer de dor.
Por fim, minha mãe, que já viu muita gente “boa” e “ruim” morrer, discordou (e muita gente o faz, claro) do famoso personagem de Hugh Laurie, existem mortes bonitas e dignas.
No mais, eu realmente até poderia ir ao velório e acompanhar o enterro, pois, acredito, que será uma cerimônia bonita e pelo contexto da morte, pelo tempo que ela viveu, é até um alento o fenômeno incontestável que é o ato de morrer. Não creio que pessoas agarrarão o caixão, pedirão para ela se levantar, em suma, não acho que ocorram manifestações desesperadoras dos que ficaram nesse mundo louco e corrido, cujo tempo não nos dá a mínima dignidade...


Ps. Sim. A foto postada é minha e se chama Isolada, faz parte de um conjunto de fotografias que intitulei de Experimento com luzes.

Um comentário:

Marcelo Fernandes disse...

Difícil para mim pensar em dignidade para a morte, essa é uma idéia que eu sempre considerei existir apenas em filmes épicos. No meu caso, a vida sempre foi a grande questão...
Boa sorte amanhã!