quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

As palavras são necessárias?

Há muito, intelectuais, pseudointelectuais, metidos a besta, ou mesmo, entusiastas vêm tratando a questão da linguagem, ou das linguagens, diriam outros tantos. Isso não chega a ser algo surpreendente, nem tanto novo para muitos dos que me ouvirão hoje. A própria História, há tempos, se rendeu ao assunto. Exemplos? Muitos. Fiquemos sem eles.
Em 1989, Francisco Buarque de Hollanda lançou o belíssimo disco “Chico Buarque”. No lado B do trabalho a conhecida “O futebol”, a linda “Valsa brasileira” (parceria com o gênio Edu Lobo), etc. Entretanto, uma, entre as dez canções do disco, mais me chama atenção e, para os mais conhecedores, destaco que não é “Morro Dois Irmãos”, mas, sim, “Uma palavra”. E será partindo dela que soltarei minha voz hoje:

Uma palavra
Chico Buarque/1989

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
Palavra dócil
Palavra d'água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra
Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra
Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra
1989 © - Marola Edições Musicais Ltda. Todos os direitos reservadosDireitos de Execução Pública controlados pelo ECAD (AMAR) Internacional Copyright Secured

Eu poderia aqui perder um certo tempo analisando a letra da música, mas não posso, não quero. Ao invés disso, pretendo apenas me fazer valer dos versos da última estrofe da canção: Palavra boa/ Não de fazer literatura, palavra/ Mas de habitar/ Fundo/ O coração do pensamento, palavra. Talvez, eu até seja criticado pela desnecessária citação de toda a letra, mas... acho que a poesia de Chico Buarque nunca é demais. Pois bem, alonguei-me muito (como sempre), mas, se iniciamos, vamos até o fim, correndo, mais uma vez, o risco de não chegarmos a lugar nenhum.
Hoje reiniciei meu trabalho, árduo, por sinal, como professor de História. Escola nova, novas turmas, blá, blá, blá. Ao chegar em casa encontro um pequeno garoto na minha sala, seus 7, 8 anos. Estava sentando de frente à mesinha de centro brincando com dois carrinhos velhos que tenho e uma réplica de chumbo de um cavaleiro cruzado. Já o tinha visto pela manhã quando saí para trabalhar, é filho do pedreiro que está efetuando a reforma de uma casa que temos, bem próxima da que moramos.
Como sempre, meu contato com todo e qualquer tipo de criança é um tanto penoso (não sei o motivo). Penoso, no sentido da aproximação, não sei. Não é nem porque não gosto dos futuros adultos, é uma coisa meio sobrenatural mesmo.
O vi brincando e falei: e aí, rapaz, tudo beleza? Ele não respondeu e continuou com o olhar fixo nos pouquíssimos “brinquedos” que me sobraram. Fui até a cozinha e minha mãe estava aprontando o almoço e comentou: viu nosso amigo na sala? E eu: pois é, vi sim. Ela: ele tem problema auditivo, é surdo. Tem que falar bem perto dele e devagar para ler teus lábios.
Fui almoçar. Ele continuou brincando, puxei assunto. Ele riu. Apontou uma foto minha quando criança e deu de apontar todas as fotos espalhadas pela minha sala. Iniciamos nossa conversa sem sons, apenas gestos, gestos vagos, mas, para nós: profundos. Creio que ele dizia: você quando criança não tinha barba grande...
A ele mostrei minhas fotos no período de caserna na Marinha e ele ria, parecia rir de tudo. Parece ser feliz. Como bom medievalista, melhor, como bom amante de História Medieval, eu não poderia deixar de reparar que ele gostou muito do cavaleiro cruzado de chumbo. Então peguei um livro com várias fotografias de réplicas de armaduras, espadas, catapultas, toda a evolução bélica cavaleiresca...
Para tudo apontava, exclamava, colocava pontos de interrogação com o olhar, reticências com as mãos, mas nunca um ponto final. Curioso, sobre tudo perguntava com o sorriso. Viu, várias e várias vezes minhas fotos e com um aceno dizia: “militar”. Quando olhou as fotos da minha formatura na universidade, percebi que ele não entendeu e eu, sem palavras, melhor com palavras gestuais disse: “professor...”. Balançou a cabeça que sim.
No fim da tarde, talvez agora, me retirei para o quarto, precisava estudar, ele ficou com seus sons, brincando de banho de borracha com minha mãe e minha prima. Daqui, só posso imaginar os sons das suas palavras: Palavra boa/ Não de fazer literatura, palavra/ Mas de habitar/ Fundo/ O coração do pensamento, palavra...
Definitivamente, não. As palavras não são necessárias.

2 comentários:

Marcelo Fernandes disse...

Me parece que quando estamos mais preocupados com o que falamos, ficamos mais presos as palavras, algo que as vezes dificulta o diálogo. Mas quando estamos sensíveis ao que os outros tem a dizer, as palavras não são uma barreira intransponível, o diálogo pode se estabelecer por outros meios

Andre de Lemos disse...

Bela imagem. Sobre as palavras, já me pronunciei sobre elas em duas ocasiões (http://o-andarilho-e-sua-sombra.blogspot.com/2009/01/jogo-de-palavras.html e http://o-andarilho-e-sua-sombra.blogspot.com/2009/01/dilogo-no-crcere.html).

Se palavras são necessárias... Bom, com o perdão da expressão, creio que palavras são necessárias quando se fazem necessárias.

Lembremos que o silêncio é tão importante quanto as palavras e pode ser tão ou mais eloqüente que as mesmas, como seu belo encontro demonstrou. Porém, palavras são meios para a linguagem. E não tenho certeza se você estava tão alheio às palavras assim.

Tenho certeza que durante seu encontro, mesmo no seu silêncio e gesticulações, palavras, imagens e sons pululavam em sua cabeça. Sua criatividade teve de entrar em cena quando palavras eram insuficientes - talvez aqui não se trate da necessidade das palavras faladas (sons), mas de sua adequação ou não a uma situação limite. Pois, mesmo em Libras (linguagem dos sinais) há palavras.

Assim, permita-me respeitosamente discordar de sua conclusão, pois creio que palavras são necessárias, a menos que sejam desnecessárias. Há momentos, é claro, que um simples abraço, olhar, ou algo que o valha, cumpre bem o papel de transmitir uma idéia, sentimento ou sensação.

Há momentos em que o silêncio é a expressão máxima de uma emoção que não se pôde traduzir através de palavras. Lembremos que é necessário também algum ouvinte que possa compreender tais palavras. Eis a maior importância dos poetas, tradutores e difusores daquilo que nós, meros mortais, não conseguimos descrever através de palavras.

As palavras podem nos ajudar - olhe o exemplo da Psicanálise e o tratamento através da fala e das palavras -, mas também podem nos trair (atos falhos).

Podem unir ou separar. Confortar ou desesperar. Palavras podem ser de muitas maneiras expressas, nem sempre faladas (e ouvidas), podem ser escritas e lidas, apropriadas, ressignificadas, deturpadas, traduzidas, silenciadas e, eventualmente, até mesmo esquecidas.

Novamente, creio que são necessárias, pois nós somos palavras, nossos mundos são de palavras, na medida em que são elos de comunicação, são linguagem. E a linguagem é só o que temos uns com os outros.

Veja só que bela imagem transmitida a partir das palavras acerca de como você se uniu (na linguagem) com o pequeno rapaz.

Algumas palavras faladas, saem sem que se abra a boca e parecem sair de outra fonte que não a voz da pessoa em questão. Em conclusão, creio que o que você experienciou com seu pequeno amigo foi um verdadeiro momento de ventriloqüismo. As palavras, neste caso, portanto, pareciam vir de outra fonte, não de sua voz, mas de seu coração.

Um abraço cordial