quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Bantu Steve Biko: a voz que ninguém pôde calar...

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Há, aproximadamente, três ou quatro meses que me vem uma vontade enorme de falar sobre Bantu Steve Biko. Fui adiando o desejo por uma série de fatores: mudança, viagens, noivado, casamento, saudade... Sentimentos que foram me tomando a alma e acabaram postergando essa voz para, quase, à mudez.
O interesse por Biko nasceu, como quase tudo para mim, na música. Sou um grande fã da banda de rock progressivo Genesis, o que, mesmo não sendo regra de fato, me faz gostar, também, de Peter Gabriel, fundador do grupo e vocalista até 1974. Já discuti isso por aqui n’O Ventríloquo.
Gabriel sempre foi, assim como Phil Collins, envolvido em causas humanitárias e no ano de 1980 lançou a canção “Biko” (no disco “Peter Gabriel 3”, também conhecido como “Melt”) em protesto à morte de Bantu Steve Biko no ano de 1977. A música tomou uma proporção enorme, eu não era nascido, talvez, você também não. Porém, o som torna-se quase que atemporal, diferente, infelizmente, dos fatos que, muitas vezes, são esquecidos na memória. Este é o caso da morte de Steve Biko e eu quero, justamente, gritar sobre isso hoje. Apesar de saber que sua voz nunca foi calada, nem naquela cela, nem em lugar nenhum...
Talvez, muita gente tenha visto o filme “Um grito de liberdade” (Cry freedom) de 1981. Bem, não é do filme que eu gostaria de conversar hoje já que isso aqui é conversa de bar, pois são nas cadeiras amarelas ou brancas, com marca de cerveja no centro e nas costas, que travamos nessa vida os maiores embates e temos, ainda, as melhores idéias. Segue minha crítica então, quase berrando, quase clamando por atenção... Mas, antes, eu queria alertar que a Sétima Arte, ficará de fora dessa vez, só dessa vez.
Apesar do filme, apesar da música, Bantu Steve Biko é pouco conhecido pelo grande público, à exceção daqueles que são ligados, de alguma forma, aos movimentos contra racismo: ativistas, estudiosos, etc. Aí é que está o grande problema, sobre Steve Biko e sua saga, sua vida e morte em prol do fim do apartheid, deve-se falar nas escolas, nas praças públicas, deve ser conversa de bar... Pois a segregação não acabou, talvez, em alguns lugares, como o Brasil, ela seja mais mascarada, veja bem, não entenda “mascarada” como contida. O brasileiro é racista, é um povo racista. Homem cordial? Alguém leu e não entendeu direito a tese do Sérgio Buarque de Holanda, pois aqui também tem isso, a gente lê as coisas e não entende: adapta como acha melhor.
Steve Biko foi morto covardemente no dia 12 de setembro de 1977 – só agora percebi que a data do aniversário de sua morte se aproxima. Para ele fizeram um filme, fizeram uma bela canção. O mundo mudou? Não! O apartheid como regime pode ter se extinguido, mas a segregação se foi? Indico aqui a ótima dissertação de mestrado de Ângela Aparecida Gonçalves Oliveira, defendida em 2008, na Universidade Estadual de Maringá, pois é, sou medievalista de pesquisa e profissão, mas estou atento a outros assuntos!
No dia 7 de outubro de 2003, segundo pesquisa que fiz na internet para argumentar com mais propriedade a melodia de hoje, os guardas envolvidos na morte do ativista foram absolvidos por “falta de provas”.
O curioso é que fico com a sensação de que a letra de Gabriel continua atual e isso me deixa preocupado e triste:

When I try to sleep at night
I can only dream in red
The outside world is black and white
With only one colour dead


Bom, não é preciso ter um inglês tão fluente para entender esse trecho da letra, que é mais ou menos o seguinte: “Quando eu tento dormir à noite/ Meus sonhos são vermelhos (ou eu somente tenho sonhos em vermelho? Não sei... não confio muito no meu inglês)/ Lá fora o mundo é preto e branco/ Com apenas uma cor morta.”.
Fico aqui pensando se realmente “(...) the eyes of the world are watching now” (“os olhos do mundo agora estão vigilantes”), pois como diz o mesmo Peter Gabriel na canção: “The man is dead”.

Fica aqui minha homenagem a Bantu Steve Biko e meu desejo que sua voz, sua vida e morte ecoem durante muito tempo!

2 comentários:

Aquino Neto disse...

Um dia desses tava pensando em como Steve Biko foi esquecido após tantos anos de luta, e ter morrido justamente por ela... Hoje Mandela é coroado (de forma justa!), enquanto Biko vem ficando em segundo plano. Até a música do Simple Minds "Mandela's Day" é muito mais conhecida do que essa, do Peter Gabriel.

"Para participar da revolução africana não basta escrever uma canção revolucionária, é preciso forjar a revolução junto com o povo. E se nós a forjarmos junto com o povo, as canções surgirão por si mesmas e delas mesmas."

Sèkou Touré, citado por Biko (1999).

Bruno Alvaro disse...

Mas é isso mesmo que me deixa puto cara... Lógico que Mandela tem papel merecido, honras merecidas, mas como diria o Peter Gabriel: "The man is dead... the man is dead".

Rapaz, não entendi a citação, não foi Sèkou Touré que citou o Biko em 1999? Pois Biko já tinha morrido há tempos... Ou...?

Abração e obrigado por dar voz ao O Ventríloquo!