sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A gente vai ficando velho... (Os sinais do tempo)



Os indícios da velhice são curiosos. Apesar dos 26 anos que me caem até bem, a vida sossegou para mim. Assim começo a prosa de hoje: reflexivo e engraçado até! Alerto que nosso bate papo vai ao som do belíssimo disco A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro de Moacyr Luz sendo acompanhado pelo maravilhoso sexteto de choro Água de Moringa – qualquer dia desse falo sobre o trabalho no blog Retropleco.
Bom, eu estava falando sobre os sinais da velhice, no meu caso, vindo mais cedo. Ontem – ontem já, não é? É madruga, então sim! – fui dar minha rotineira aula de História Medieval I na Universidade Federal de Sergipe, cheguei um pouco mais cedo, pois queria atualizar algumas coisas, me sentar um pouco na minha sala, relaxar no... silêncio?!?!
Na quarta-feira estavam montando um palco próximo ao prédio do Centro de Educação e Ciências Humanas, quando passei de tarde com um amigo, não demos muita bola, nem sabia o que era e nem quis saber. Descobri hoje! Uma festa universitária, até aí, nada demais para mim que fui freqüentador assíduo com meu amigo Thiago Porto, na época do IFCS-UFRJ, das festinhas promovidas pelo CAFIL e outras pela galera do PSTU. Bom, nordeste, forró. Rio é samba. Tanto um quanto outro, penso eu, combinam com sexta-feira a noite. Penso eu. Mas não é bem assim...
Enquanto ainda estava silêncio, relia eu Ano 1000, Ano 2000: na pista dos nossos medos do Georges Duby, quando, de repente, tudo treme! Sanfona pr’um lado, arroxa pr’o outro... Desci, faltavam ainda uns 30 minutos para minha aula, encontrei uns alunos e uns orientandos. Conversa vai, conversa vem, percebi que eles estavam mesmo com vontade de curtir um forró do que ouvir sobre História Medieval – natural isso. Acontecia comigo, só que por causa de rock ou mesmo samba. Liberei os que estavam a minha volta, fui para sala lecionar para os poucos que ficaram comigo e abonei as faltas até daqueles que nunca apareceram.
Mas não é por isso que me senti velho. Não é contraponto: energia deles, juventude deles (que é a minha também, já que alguns quase têm a minha idade) e cansaço meu. É uma coisa diferente. Uma coisa do sossego. Já não tenho mais o mesmo pique. Agora você até me questiona: mas você é tão jovem! Sim, concordo. Mas viver como vivi e o que vivi. Os abismos que me lancei. A entrada na universidade cedo demais. O mestrado. O doutorado. Encontrar Ana: sossego. Acho isso engraçado. Ensaio uma saída com o Kiko: desisto. Até porque ele também é assim! Vamos ni ritmo coca-cola de ser: quando abre a garrafa, muito gás, depois, vai ficando xoxo.
O primeiro sinal de que se está envelhecendo é quando sossegamos o coração. Quando ser quer o samba em casa. Quando se quer a flauta serena e não mais ponteando em saraus madrugueiros. Gustavo que o diga! Já viramos noites tocando violão e flauta e bebendo, bebendo e bebendo! Thiago Porto que o diga: quantas noites não vimos nascer no Abracabra? Na Lapa? Ana que o diga: quantas vezes não nos aventuramos sem lenço e sem documento pelas ruas do Rio de Janeiro? Quantos carnavais? Quantas vezes não dancei a valsa do trocar de pernas?

O samba agora está em casa. De vez em quando até uma cerveja com um ou outro antes de voltar para o mingalzinho de cremogema. Mas é de vez em quando. O samba está em casa.
Nessa mesma quarta-feira do palco sendo montado que anos atrás não me passaria despercebido, aconteceu outra coisa curiosa (o segundo sinal da velhice). Chegou para mim, LP raríssimo. De um lado, Tom Jobim tocando pela primeira vez em disco Águas de Março, inclusive, única gravação que ele só canta e não toca instrumento nenhum (já fica raro por isso, sem contar o andamento da canção, completamente diferente do comum). Do outro, um tal de João Bosco, com seus 24 anos, desconhecido ainda. Bom, se o João Bosco, ainda era desconhecido nesse disco, um mero, digamos, sonhador, é raro mesmo e antigo!
A bolachinha, chamada O tom de Antônio Carlos Jobim e o tal de João Bosco, faz parte de uma série intitulada Disco de Bolso, uma tentativa, que durou apenas mais um número (com Caetano Veloso de um lado e um estreante chamado Fagner de outro), da revista O Pasquim de impulsionar o lançamento de novos artistas. Foi vencido pela censura ditatorial dos anos 70 e pelo mercado fonográfico que já era massacrante naquela época.
Bom, a revista-disco raríssima é digna de todo meu orgulho. Eu tinha que mostrar para alguém que entendesse. Kiko, não tinha dado as caras no dia. Gustavo estava no Rio de Janeiro. Minha Ana, atarefada com coisas do nosso casamento, não ia ouvir direito e sacramentar minha velhice. Me restava o grande Augusto, gaúcho que chegou à UFS quase ao mesmo tempo que eu, umas semanas depois, para lecionar Teoria da História e que tem sido grande amigo aqui. Além de ser um augusto (sempre faço esse trocadilho com seu nome) conhecedor de vinhos e música boa. Nesse caso estou bem: somo ele e Kiko e tenho uma enciclopédia de boa música! Sem contar que de um lado meu amigo carioca assistiu show antológicos que eu não me canso de pedir que ele conte e reconte e, do outro, o gaúcho, tem no currículo da vida (esse é melhor que qualquer Lattes) nada mais nada menos do que dois shows ao vivo do grande Gonzaguinha! Continuando...
E ficamos os dois, ali, no carro, olhando o disco, a revista, os olhinhos brilhando, como se fosse a coisa mais fantástica das nossas vidas! Várias interjeições gaúchas e cariocas se misturando ao olhar atento para um Tom Jobim sentado recostado numa árvore, tocando flauta transversa, lendo uma partitura, estampada na parte de trás do biquíni de uma mulher vantajosa (a foto acima). Estamos ficando velhos.
Terceiro sinal: Eu vou casar. Prefiro a poesia em casa, com a cerveja gelada em casa, com a preta em casa. Vou casar. O sossego prova isso. A vontade e o cheiro do sossego. As cadeiras de praia no domingo. O pão quente de manhã. A saudade apertando. A lembrança de um tempo que vai ficando para trás... Lembrança que não é saudade, é apenas lembrança. E o sol só nasce na minha cama agora: deixo a vida solta para meus alunos, já tirei meu time de campo!
Aliás, querem coisa mais velha que ficar lembrando as coisas? Quer coisa mais velha que ser um ventríloquo, puxar conversas longas e escrever e-mails enormes? Pois então!
O quarto sinal, eu teria vários, mas esse é o último, vem inversamente. Porém, pode ser o quarto. Dia desses fui almoçar na casa de um aluno. Uma festa. Um dos dias mais alegres e familiares que tive em Sergipe. Aquela família grande, tipicamente nordestina, receptiva, carinhosa e brincalhona. Lembrou a minha e isso me fez ficar à vontade (como se fosse difícil). Pois bem, eis que falta gelo para a cerveja! Aventura! Pegamos o carro do pai do Aquino e fomos atrás desse elemento fundamental para qualquer cervejeiro (tirando a cerveja, é claro). Rapaz, eu não lembrava como era gostoso essa coisa de pegar um carro de pai emprestado e ir pelas ruas sem saber o rumo certo. O que me pareceu era que o carro era tão desconhecido para mim quanto o era para os demais ocupantes! Liga rádio. Não Liga rádio! Como se liga o rádio? E esse negócio do gás natural? Aventura! Na última voz d'O Ventríloquo, eu rememorei meu encontro com o Douglas Cezário e narrei a história do fusca do avô do Bruno Henrique (nosso guitarrista) e dos outros carros da nossa adolescência. Bom, é sinal de velhice! Sinal de velhice maior foi ter ficado super cansado após a busca pelo gelo. É, tempos outros, que venham outros para me substituir!

3 comentários:

Soraya disse...

Oi Bruno,
achei seu blog meio que por acaso e qdo vi que vc morava em Aracaju me senti na obrigação de ler alguns posts, pois tb vivo nessa cidade depois de 25 anos de São Paulo, vc se propos a morar aqui pelos proximos 30 anos e eu já estou beirando esse tempo...portanto seja bem vindo e bem acolhido por esse povo nordestino... Lendo seu post de hoje l8/09 não acho que isso seja sinal de envelhecimento e sim de aprimoramento...Agora vou ler os outros posts e depois comento com vc. Um abraço.
Soraya Carvalho

G. Alvaro disse...

Será que vc está velho?

Ou prefere estar velho?

Enfim... a velhice não aparece, nós a trazemos, nós a criamos.

...Nós envelhecemos.


E fim.

Bruno Alvaro disse...

Acho que é um processo natural do corpo e da alma do ser humano, talvez, mas do corpo que da alma, claro! Mas, aí fica o questionamento: Às vezes não é realmente mais sensato envelhecer do que achar que é o Peter Pan?

Talvez, isso se chame amadurecimento, enfim.

Valeu pelo comentário Tavão...

Cara Soraya, muito obrigado por dar voz também para O Ventríloquo!