sábado, 5 de junho de 2021

Sábado de Aleluia

 


Não sou cristão – ao menos em credos e práticas –, mas, quase inevitavelmente, nascido num país colonizado por europeus católicos que dizimaram com a catequese católica os índios e suas muitas línguas, escravizaram nações negras da África podando suas religiões, idiomas, tanto quanto o protestantismo em suas muitas variantes... como você pode ouvir, é praticamente quase inevitável sendo um ocidental não ter o mínimo do moralismo cristão – e toda religião tem seu moralismo, seus ismos ideológicos.

Hoje chove forte, chove fraco, é um chove não molha chato em Aracaju. Você não pode ouvir, mas ouço um cd – sim um compact disc – de 2000 que comprei no Norte Shopping, nas Lojas Americanas. Início dos anos 2000. Lembro-me como se fosse hoje, mas é outra conversa. Chove e é sábado, Sábado de Aleluia.

Tenho tido sonos agitados, os médicos vaticinam que são efeitos do uso contínuo das medicações. Os doutores sabem o que dizem. Confio.

Ontem, Sexta-feira Santa, tive reunião sobre um Dossiê que estou coordenando com o Teixeirinha para uma revista acadêmico-científica. Às 16:00 horas em ponto conectamos essa coisa de vídeo conferência, ele de lá e eu daqui. Na verdade, sempre foi assim. Oxalá, como Aldir Blanc e João Bosco que fizeram tantas pérolas por cartas e fitas cassetes indo do Rio de Janeiro para Minas Gerais e mesmo quando afastados estavam juntos, eu e ele possamos continuar bem assim. De qualquer maneira, ouça bem, nunca é uma simples reunião de trabalho, sempre há algo místico e intelectual na prosa, seja sobre Os Trapalhões ou algum causo antigo da infância vivida há léguas no interior de algum interior.

Contei-lhe de um trecho estranho de sonho que tive na madrugada, era toda a passagem do Gólgota, mas o que salientei foi: “Bicho, me chamou atenção no sonho que eu via Jesus indo ao inferno no intervalo pós-crucificação/morte e ressurreição. E já li a Bíblia em tantas versões na minha vida. Cara, não lembro se isso está em algum dos quatro evangelhos.”. Batata! Bastou! O Teixeirinha se levantou da cadeira e foi buscar na sua vasta biblioteca e foi a folhear: “Não, bicho. Tem não! Acho que tem no credo católico isso, a coisa mais como um dogma. Mas bíblico não parece ser, não parecer ser evangélico” (evangélico aqui é o termo técnico para nos referirmos ao conteúdo bíblico, dos quatro evangelhos, os livros. Assim como escritos mosaicos estaria referido aos livros vinculados a Moisés. Fica aqui a informação). Insisti.

“Velho, talvez no Apocalipse”. E ele: “É. Ah, bicho, não vou ficar com essa dúvida, vamos ver aqui” – e foi. No final das contas, havia uma passagem, mas não exatamente explícita de “ida ao inferno”, mas algo sobre deter as chaves dos portões do inferno. Começamos a reunião.

Ao término da reunião, a noite cobria a sala do pequeno apartamento em que moro e o sol se punha na janela lá no Serrado. O Teixeirinha avisa: “vou tomar uma garrafa de vinho inteira que está gelando desde meio dia. Mas deixa eu te perguntar, quando você pedala ouve música?”, respondo que não. “Nem indoor?”, sim, aí ouço. “O quê? Há algo específico?”, confesso que vindo do Teixerinha, algum motivo havia de profundidade fraterna na pergunta, sugestiva, não sei, mas havia.

Expliquei que dependia do dia, da noite que tive, do meu estado de espírito, do que eu me propunha com a pedalada indoor. Aprofundei superficialmente a prosa – os mosquitos estavam me carregando – que às vezes até estudava música enquanto pedalava no rolo fixo: “Coloco a partitura na minha frente e pratico solfejo”. Ele sorriu.

Deixei de fora, infelizmente, isso aqui, essa conversa que estou tendo com você. Pedalo para dar voz aos pensamentos através das muitas vozes que tenho vontade de colocar para fora e o faço quando dá aqui n’O Ventríloquo. Mesmo no Strava – aplicativo muito utilizado, principalmente por ciclistas e corredores – deixo fragmentos do que chamo de “CRÔNICA QUE NINGUÉM LÊ”. Acho que o Teixeirinha também corre um pouco para isso ou pelo menos desenrolar um trecho de vazio documental aqui, outro acolá. Esvaziar a cachola da mente. Eu acabo preenchendo e tendo que falar. Sábado de Aleluia, não é isso?

Pouco tempo depois chega uma mensagem do Teixeirinha, com uma indicação de uma música chamada “Claudeland”, da banda – que eu não conhecia – Highly Suspect.

E como de sempre um afetuoso “Abraço”.

É: “Dance, dance, dance motherfucker, dance, motherfucker. Just dance. Dance the night away...” 

Nenhum comentário: