quinta-feira, 15 de julho de 2021

NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM

 


Há tempos não ouço – ou talvez ouça demais – vozes para além da minha. Para bem de toda a verdade, ela existindo ou não, a voz de Jorge Amado, prestes a completar 80 anos, em 1992, quando foi publicada a primeira edição de Navegação de Cabotagem: Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, me acompanhou nos últimos dias. Claro, numa edição luxuosa, posfácio de Lêdo Ivo, edição comemorativa ilustrada com fotos, documentos, capa dura, publicada em 2012, pela Companhia das Letras.


Conhecia passagens do livro. Foi marcante quando publicado. Conhecia passagens do livro através de reproduções das memórias nele contatas em conversas de mesa de bar com um professor meu na faculdade de História – Jorge Amado ainda estava vivo (apesar de ainda estar vivo) quando eu ingressei no vestibular.


Mas nunca li por inteiro um romance desse ilustre baiano das terras do cacau. No máximo, uma passagem aqui, outra acolá nas aulas de literatura no Segundo Grau, hoje, Ensino Médio.


Comprei Navegação... ironia do destino, duas vezes. A primeira é mais importante, numa pequena e resistente livraria-vende vinis e cds na Rua Fonte dos Bois, no Rio Vermelho, em Salvador. Por sinal, bem próximo da famosa casa da Rua Alagoinhas, número 33, no mesmo bairro. Disse que comprei duas vezes. Sim! Não pestanejei quando vi num site desses conglomerados que estão afundando essas pequenas livrarias-vende vinis e cds. Quando a caixa chegou (o livro é o que chamamos de um verdadeiro caramalhaço – vida agitada a de Jorge) me dei conta que já tinha uma edição verdadeiramente baiana, soteropolitana, banhada de dendê. Como livro não se vende quando já o temos, dei de presente para um amigo.


Apaixonado fiquei. Li degustando, fechando os olhos, relembrando depois que fechava a capa dura. Deitava-me na cama e nas minhas insônias recorria às lembranças e histórias de Jorge Amado pelo mundo, por Sergipe, pelo Rio de Janeiro, por Salvador, pelo Brasil afora.
Atrasava afazeres, aumentava as horas só para ler mais e mais, mesmo que já soubesse o fim do livro. Todo livro de memórias de um já morto que continua vivo é duro de se ler, acredite você que me ouve. Mas a navegação, ou melhor, o mar que navegamos a cada parágrafo do Seu Jorge Amado faz ou refaz-nos entender o Brasil de ontem e de agora. Coisa dura de se enfrentar: a realidade do ontem continuando no amanhã que é hoje.


Decidido coloquei as mãos nas parcas economias, afinal, como diria a economia: livro é coisa de gente rica. E por ordem cronológica de publicações de seus livros decidi comprar as edições – sorte a Editora Companhia das Letras ter uma coleção intitulada JORGE AMADO, cujo Conselho Editorial é composto por Alberto da Costa e Silva e Lilia Moritz Schwarcz (quem tive a oportunidade de assistir alguns cursos quando de viagens como estudante de História e também já graduado).


Assim que me refiz do fim do livro de memórias de um homem prestes a completar seus 80 anos e que passaria oito anos depois, às vésperas de completas 89 anos de idade, em 2001, me surpreendi. Que vida! Que final de livro.  Surpreendeu-me pela candura como se encerra.
Assim, hoje, 15 de julho, iniciei a leitura do primeiro romance do jovem de 18 anos – O país do carnaval – publicado em 1931, antes mesmo dele completar seus 19 anos, mas já atento às mazelas desse grande pedaço de chão que chamamos – ou chamaram por nós – de Brasil. Salve Jorge, que sejas sempre amado. Axé!

Um comentário:

Diego disse...

Grande Jorge!